sábado, 12 de novembro de 2011

Anselmo Borges: Cultura e crítica

Gabriel Amengual

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (tirado daqui).

No quadro da matança de Oslo e dos motins em Londres e outras cidades britânicas e das declarações, entre outros, de Angela Merkel e Cameron, aí está um tema incendiário, mas que precisa urgentemente de reflexão.

Que se entende por cultura? Esta é a definição clássica de Edward Barnett Tylor: "A cultura ou civilização, em sentido etnográfico amplo, é todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, o direito, os costumes e quaisquer outros hábitos e capacidades adquiridos pelo Homem enquanto membro de uma sociedade".

Evidentemente, como sublinha Gabriel Amengual, poderia ter acrescentado, com a mesma razão, utensílios, ferramentas, etc. A cultura tem a ver com o que o Homem aprende, cria, inventa, para lá da natureza e adquire como membro de uma sociedade. Por isso, diz M. Harris que ela é o "corpo de tradições socialmente adquiridas", é o "estilo de vida total, socialmente adquirido, de um grupo de pessoas, que inclui os modos padronizados e recorrentes de pensar, sentir e agir".

Dentro desta definição, torna-se claro que é problemática aquela concepção elitista de cultura de que, por exemplo, os média, pelo menos inconscientemente, se fazem eco, quando se referem à cultura no sentido de actividades culturais consideradas superiores, como conferências, exposições artísticas, peças de teatro, filmes, etc. Todas as sociedades e grupos humanos têm uma cultura e todos os seres humanos são produto e produtores de cultura e são constituídos culturalmente.

Chegados aqui, é necessário reflectir sobre a cultura no sentido subjectivo e objectivo do termo. O primeiro, já dito no étimo - colere, cultivar -, tem a ver com o cultivo da terra (agricultura) e, depois, das capacidades humanas e, consequentemente, o seu aperfeiçoamento, chegando-se assim à cultura em sentido objectivo, que significa, como diz A. Ariño, "os resultados do processo de cultivo do ser humano, isto é, o estado do espírito cultivado pela instrução e o refinamento e a soma dos saberes acumulados pela Humanidade ao longo da sua História; em síntese, as criações e realizações do ser humano e das sociedades humanas".

No contexto do Iluminismo e da sua ideia de perfectibilidade humana, num horizonte teleológico, o sentido da História é o do aperfeiçoamento da razão e da liberdade, no quadro de uma cultura universal enquanto norma para a Humanidade.

Contra esta concepção da cultura no singular, Johann Gottlieb Herder foi dos primeiros a reivindicar com força a variedade das culturas, segundo a diversidade dos povos, e esta pluralidade não só não constitui inconveniente como, pelo contrário, é fonte de enriquecimento mútuo.

É aqui que surge a questão do relativismo cultural, que, segundo Gabriel Amengual, tem um contributo positivo, pois abala os fundamentos da perspectiva etnocêntrica e é um instrumento eficaz contra as pretensões de superioridade racial. Mas "converte-se em problemático, quando estabelece a incomensurabilidade, imponderabilidade e intraduzibilidade entre universos culturais e deriva para o relativismo moral ou cognitivo, que estabelece o carácter exclusivamente local dos valores éticos, estéticos ou dos critérios científicos".

Não temos o direito e o dever de criticar a nossa cultura, quando estão em causa os direitos fundamentais humanos? Então, não se impõe o mesmo direito e dever em relação às outras culturas?

Neste debate, estou com Monique Canto-Sperber, directora da Escola Normal Superior de Paris, quando diz que não pensa "que haja normas universais abstractas que possam aplicar-se a todas as culturas, mas antes normas universais concretas, fundadas em valores comuns e partilhados que são os mesmos para todos".

Defende, pois, o que chama "universalidade em contexto": bate-se pela "ideia de um núcleo duro de valores universais" - defesa dos direitos fundamentais da pessoa - "que se exprimem diferentemente segundo as culturas".

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

D. José Policarpo: Livrem-se de aumentar o tabaco

Do "Jornal de Negócios" de hoje (ou aqui). O amarelado é meu.

O monge que aposta na bolsa. E às vezes perde


Anselm Grun é o monge da direita

Um bom líder revela-se na forma de lidar com o sucesso tão bem como com o fracasso. Durante a minha administração alcancei muitos sucessos, mas também tive de aceitar os fracassos. A fábrica de gás natural, que eu construí com tão grande entusiasmo, já não está em funcionamento porque a agricultura abdicou das vacas e dos porcos. Na bolsa já ganhei muito, mas também perdi, frequentemente. É evidente que posso dizer a mim mesmo que tudo resultará, por fim, no sucesso a longo prazo. Mas, para o atingir, também passarei sempre por grandes fracassos. As árvores não crescem no céu – nem na bolsa, nem no mercado. Ao falar com um banqueiro sobre o fracasso que obtive com os empréstimos argentinos e sobre a reacção que os meus confrades sabichões tiveram a esse facto, ele disse-me: «A vitória tem sempre muitos pais, mas a derrota tem sempre apenas um». Eu próprio já senti na pele a verdade desta frase. Quando alguma coisa corre mal todos sabem de antemão aquilo que eu devia ter feito. No entanto, quando as coisas correm bem, todos acham que não é nada de mais.

Anselm Grun, “A vida e o trabalho. Um desafio espiritual” (Paulinas), pág. 88-89

"Em quem votar?", pergunta o Hermano Cortés

Por estes dias, no "Hermano Cortés", a pergunta é: "¿Aquién votar?" (aqui)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Quem são os ghost-writers de Deus?


Saiu no "i" de 19 de Outubro. Está on-line, aqui. Parece que a informática bem confirmar o que já se sabe, que muitos dos textos bíblicos foram escritos a várias mãos, são como as cidades antigas, com sucessivas construções e reconstruções.


A peça centra-se no Pentateuco (cinco primeiros livros do Antigo Testamento, que correspondem à Torá judaica). Fala de duas correntes, a "eclesiástica" e a "não eclesiástica". na realidade, é dado adquirido que no Pentateuco há quatro grandes tradições: a Javista (trata a Deus por Ihaweh), a Eloísta (trata a Deus por Elohim), a Sacerdotal (julgo que "eclesiástica" refere-se a esta) e a Deuteronomista (gosta muito de leis).


Por outro lado, embora sempre se atribuísse a Moisés a autoria moral do Pentateuco, sempre se duvidou da autoria material do mesmo. Veja-se o versículo 5 do capítulo 34 do Deuteronómio: "E Moisés, o servo de Deus, morreu ali, na terra de Moab, por determinação do Senhor".


Quem são os ghost-writers de Deus? Só se sabe que são muitos.

E se a Igreja prescindisse do 1 de Janeiro?


A Igreja em Portugal prescinde de dois feriados se o governo prescindir de outros dois. Segundo diz a imprensa, já em 2012 vão desaparecer o feriado do Corpo de Deus (móvel; em 2012 é a 7 de Junho, sendo transferido para o domingo seguinte) e o de Nossa Senhora da Assunção (a 15 de Agosto, sendo transferido para o domingo mais próximo, 12 de Agosto em 2012).

À partida imaginava que mais rapidamente seria suprimido o 1 de Novembro, Todos os Santos, e o 8 de Dezembro, apesar de a Imaculada ser a padroeira de Portugal (o que é isso de ser padroeiro?), do que os outros, já que em Agosto, naquela fronteira entre férias e trabalho, acontecem cerca de 400 festas populares em Portugal. E quanto ao Corpo de Deus, a procissão é sempre valorizada como um sinal público em tempos de privatização da fé. Far-se-á ao domingo. Perturba-se menos o trânsito.

O governo ainda não disse que feriados vão à vida, mas fala-se no 5 de Outubro e no 1 de Dezembro. Eu eliminaria também o 25 de Abril, o 1 de Maio e o 10 de Junho e criava um feriado para isso tudo, um dia nacional qualquer, à segunda-feira, para celebrar a cidadania, a liberdade, o trabalho, os portugueses de mérito, etc.

E se a Igreja (os bispos reunidos em Fátima), fosse matreira e dissesse: “Ok, prescindimos do dia 1 de Janeiro”. É feriado de Santa Maria Mãe de Deus. O governo prescindiria do Ano Novo?

Komrade Papa


Veio na "Sábado". Queria saber o contexto em que disse tal frase e procurei em elmundo.es, mas não encontrei a declaração.


Encontrei, por outro lado, uma entrevista de perguntas feitas pelos leitores, nos "encuentros digitales". Pergunta um leitor: La Iglesia Católica ha censurado su película, ¿qué censuraría usted de ella? Moretti responde: De la Iglesia católica puedo censurar muchas cosas. Pero no me parece que haya censurado mi película. Lido aqui.

Não sou responsável por tudo

Para mim, o facto de eu entregar as minhas decisões a Deus é uma grande ajuda. Durante a oração, digo então a Deus: "Decidi aquilo que julguei ser o mais correcto. Não sei qual será o resultado desta decisão. Tendo confiança de que Tu farás o melhor, a partir da minha decisão. Seja feita a tua vontade". Esta oração alivia-me. Não sou responsável por tudo. A forma como tudo se desenvolve depende, em última análise, de Deus. Não consigo tornar a decisão melhor pelo facto de estar constantemente a pensar nela.


Anselm Grun, “A vida e o trabalho. Um desafio espiritual” (Paulinas), pág. 87

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

9 de Novembro de 1522. Nasce Martin Chemnitz, o outro Martinho da reforma luterana



Martin Chemnitz, o “segundo Martinho”, nasceu no dia 9 de Novembro de 1522, em Treuenbrietzen, e morreu no dia 8 de Abril de 1586, em Braunschweig. Foi um grande reformador luterano – é de venerado, melhor, admirado como pastor, teólogo e confessor da fé luterana. Diz-se dele que “Si Martinus non fuisset, Martinus vix stetisset”, “se Martinho [Chemnitz] não existisse, Martinho [Lutero] não sobreviveria”.

Chemnitz participou na redacção do credo luterano (1577) e escreveu a obra “Examen Concilii Tridentini” [Exame do Concílio de Trento], fundamental para a recusa das reformas saídas do concílio católico de Trento (1645-63).

Tintin, herói católico


O jornal do Vaticano, "L’Osservatore Romano", dedica as páginas centrais da edição de hoje [7 de Novembro] e uma chamada de capa para Tintin, personagem de banda desenhada a quem a Santa Sé chama de «herói católico», diz o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (aqui), retomando do DN (aqui).

Não sei o que será um herói católico (os santos?), mas sem dúvida que o Tintin estava bem relacionado com os padres, como referi aqui.

Parado sobre as nuvens

Andou sobre as águas e, pelo visto, sobre as nuvens. Vi no blogue Duas ou três Coisas, via FCO.

Não é apenas o trabalho que nos cansa

Não é apenas o trabalho que nos cansa. Quando sentimos prazer no nosso trabalho, podemos trabalhar muito sem nos cansarmos. É, frequentemente, a pressão que colocamos em nós mesmo ou sob a qual nos deixamos colocar que nos esgota. Nesse caso, tenho de observar essa pressão: Por que razão me coloco sob ela? Diante de quem é que me quero evidenciar? Ou de quem é que quero esconder os meus limites? A quem é que eu confiro poder sobre a minha pessoa? Ao colocarmo-nos estas questões, conseguimos relativizar a pressão.

Anselm Grun, “A vida e o trabalho. Um desafio espiritual” (Paulinas), pág. 67

terça-feira, 8 de novembro de 2011

8 de Novembro de 1877. Nasce Teixeira de Pascoais

"Teixeira de Pascoais", por Columbano Bordalo Pinheiro 

Teixeira de Pascoais nasceu no dia 8 Novembro de 1877, em Amarante, e morreu no dia 14 de Dezembro de 1952, em Gatão, Amarante.

Poeta do saudosismo e escritor, que alguns dizem estar ao nível de Pessoa (com uma diferença, teve tempo para separar a sua boa da má poesia e não o fez – o pensamento não é meu, mas não sei onde o li), deixou títulos como “Jesus e Pan” (1903, poesia), “Jesus Cristo em Lisboa” (1926, teatro em colaboração com Raul Brandão),  “S. Paulo” (1934, biografia romanceada), “S. Jerónimo e a trovoada” (1936, biografia romanceada), “Santo Agostinho” (1945, biografia romanceada), só para referir os títulos mais nitidamente religiosos.

Tomas Tranströmer: Decifrando o Grande Enigma


Diz um texto de José Riço Direitinho, na “Ler” deste Novembro (n.º 107), que Tomas Tranströmer, o Nobel da Literatura deste ano, “estuda história, religião e literatura a tentar decifrar o Grande Enigma”. Não conhecia nada do poeta, mas simpatizei com ele só por causa desta finalidade existencial.

Este blogue, com história, religião, literatura e alguma ciência e filosofia, se não pretende decifrar o Enigma, quer pelo menos aproximar-se dele.

Na mesma revista, José Mário Silva cita alguns poemas do poeta Nobel. Aqui um deles, traduzido, diz o cronista, a partir de uma versão castelhana:

[…] Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

O poema é magnífico. Mas intriga-me o verso “Um coro da Palestina”. Não será antes “Um coro de Palestrina”?


Acrescento às 23h14. Nos comentários, um leitor deixou que, em inglês, de facto, está "coro de Palestrina". Agradeço-lhe.
"...Through a back door in the landscape
comes the magpie
black and white.
And the blackbird darting to and fro
till everything becomes a charcoal drawing,
except the white clothes on the washingline:
a Palestrina chorus..."

Mudar de vida


Veio no "Público" de ontem. Sobre o livro referido logo no início da entrevista, que tem prefácio de Guilherme d'Oliveira Martins, na edição portuguesa, ver breve nota aqui.

O Papa é o sétimo mais poderoso do mundo



No blogue Religionline surge a lista da "Forbes" dos mais poderosos do mundo. Vale a pena ler e participar nos comentários, alguns deles muitos úteis pelas informações que acrescentam.


A ficar em algum lugar, acho bem que o Papa fique em sétimo. O número é sagrado para o judeo-cristianismo. Poderia ainda ser o 1.º ou o 3.º Mas nunca o 6.º. Também é estimulante pensar que o Papa é o representante oficial daquele que disse que tinha um reino, mas não era deste mundo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

7 de Novembro de 1598. Baptismo de Francisco de Zurbarán

 Francisco de Assis duas vezes retratado por Zurbarán


O pintor espanhol Francisco de Zurbarán, de Badajoz, foi baptizado no dia 7 de Novembro de 1598. Provavelmente terá nascido neste dia. Morreu no dia 27 de Agosto de 1664, em Madrid. Ficou conhecido principalmente pelos quadros sobre a vida religiosa. Devido ao uso do “chiaroscuro”, diziam que era o “Caravaggio espanhol”. Estava muito ligado aos franciscanos.
D.ª Isabel de Portugal, também ela  franciscana de S.ta Clara - Coimbra

Afinal havia outro


Do "Cartaz" do "Expresso". Afinal havia outro. Um era Jesus, outro era Cristo. Um morre, o outro nunca morrendo diz que ressuscitou. Mais uma história para o interminável conjunto de mirabolâncias. (Uma das minhas preferidas - tenho o livro em espanhol - é que Jesus, depois de morto, foi levado para Inglaterra por José de Arimateia). O Nazareno não dá tréguas às consciências.

Philip Pullman é já um velho conhecido das lides anticristãs ou anti-eclesiais - talvez seja mais correcto. Mas pelo menos não tem a pretensão de estar a escrever ou a revelar a verdade sobre Jesus Cristo. E gosto muito da última frase da crítica de José Mário Silva.

Tarkovsky, cineasta da encarnação

Saiu no Q. de sábado passado (suplemento do DN). Para quem gosta de cinema e não lhe repudia o adjectivo espiritual. Breve nota sobre Tarkovski aqui.


Cuidado com as fontes turvas

O cansaço tem sempre uma de duas causas: ou ultrapassámos a nossa própria medida ou então abastecemo-nos numa fonte turva.



Anselm Grun, “A vida e o trabalho. Um desafio espiritual” (Paulinas), pág. 64

Pão digital de cada dia nos dai hoje

“Eu gosto da ideia do pão de cada dia, que lembra a oração do Pai Nosso. O pão nosso de cada dia e uma conexão de banda larga rápida nos dai hoje”.

Federico Morrello, 16 anos. Está a lançar o projecto Panedigitale, para acabar com a exclusão digital, em Udine, Itália. Li aqui.

domingo, 6 de novembro de 2011

Conspirador católico do séc. XVII inspira movimento "Occupy"



Por estes dias, nas acções dos movimentos que contestam a actual ordem económica e financeira, quer em Nova Iorque, quer em Londres, têm aparecido máscaras como as dos filme “V for Vendetta” (“V de Vingança”, de 2006).


A máscara inspira-se em Guy Fawkes, o católico inglês que quis assassinar o rei protestante Jaime I e os deputados ingleses. A conspiração foi descoberta no dia 5 de Novembro e Guy Fawkes foi executado no dia 31 de Janeiro de 1606.

O dia 5 de Novembro, “Bonfire Night”, em alguns sítios da Inglaterra ainda é celebrado como dia anticatólico.

Bento Domingues: A crise dos santos

Excelente texto de Bento Domingues, no "Público" de hoje. "Quem, na Igreja, se assustar com alguns cortes nos feriados religiosos deve lembrar-se que em todas as semanas há um domingo", diz, tendo afirmado antes que "cortes ou deslocações de feriados de origem religiosa não devem encontrar, nem da parte dos fiéis, nem da hierarquia, uma oposição muito dura". Na base, está uma concepção cristã que, no fundo, desacraliza o tempo e o espaço. Por mim, sendo a Páscoa sempre ao domingo, só manteria como feriado o 25 de Dezembro. E mesmo o dia de Natal poderia ser transferido para um domingo próximo.

Porque hoje é domingo, dia da liberdade

Não existe uma liberdade perdida para sempre nem uma liberdade conquistada para sempre: a História é um entrelaçamento dramático de liberdade e de opressão, de novas liberdades a que se seguem novas opressões, de antigas opressões vencidas, de novas liberdades reencontradas, de novas opressões impostas e de novas liberdades perdidas.


Giacomo Biffi, "O enigma da história e o acontecimento eclesial" (Paulus),  p.19

sábado, 5 de novembro de 2011

No "Público": Os Evangelhos segundo José Rodrigues dos Santos


No "Público" de hoje. Realço o que diz Teresa Toldy sobre a diferença entre os tempos actuais e os tempos bíblicos quanto a autoria e consequentemente direitos de autor (final da quinta coluna da primeira página). Daí que falar em fraudes e falsificações não faça sentido quanto à atribuição da autoria a apóstolos, ainda que se deve distinguir as diversas fases da escrita dos textos e as introduções (indevidas) pós-apostólicas, coisa que a crítica textual tem feito com rigor, mais em relação aos textos bíblicos do que a quaisquer outros.

Neste contexto, será ainda de adiantar, por exemplo, que se atribui a Homero versos que são de autoria colectiva, ao ponto de alguns duvidarem da existência do poeta Homero. E que a diferença temporal entre Platão ou Aristóteles e os manuscritos mais antigos que temos das suas obras é maior do que a que diz respeito aos textos da Bíblia. Faria sentido, ainda, uma explicação sobre o conceito de verdade, mentira, falsidade, falsificação, deturpação, etc. na antiguidade. Claro que, com estas e outras considerações, o romance ganharia em verosimilhança e, provavelmente, alguns admiradores académicos, mas perderia em popularidade.

Uma última observação: não podiam arranjar outra imagem para ilustrar a peça?

Impressões digitais de Deus

 Humor teobiocósmico de Alberto Montt

Anselmo Borges: "O Último Segredo". 2


Texto de Anselmo Borges retirado do DN de hoje.

Continuo a apresentação de O Último Segredo. Depois do que escrevi aqui na semana passada, desafio José Rodrigues dos Santos a retirar o que escreve na página 11: "Todas as citações de fontes religiosas e todas as informações históricas e científicas incluídas neste romance são verdadeiras." Lanço esse desafio, porque essa afirmação leva a um sem número de ambiguidades e equívocos e, assim, não é verdadeira. Afinal, a que informações históricas e teológicas se refere como verdadeiras? Também a afirmação "São milhares de erros a infectar a Bíblia", "incluindo fraudes"? Quais fraudes? O que valem, por exemplo, o sepulcro de Talpiot e os ossários descobertos? Os cristãos não habitam todos no asilo da superstição e da ignorância e, como já disse, não baseio a fé na ressurreição no túmulo vazio...

É claro que há a liberdade romanesca, ficcional. A minha discordância essencial consiste em que não é intelectualmente sério jogar ao mesmo tempo nos dois tabuleiros: o ficcional e o histórico-teológico, como afirmam a citação acima e a nota final, quando agradece a quem o ajudou a "garantir o rigor da informação histórica, científica e/ou teológica que consta deste romance". Como é que o leitor vai fazer a distinção de planos e registos, a destrinça entre o ficcional e o histórico e/ou teológico?

Não é por ser crente que lanço o desafio, mas porque me move - e espero que a J. Rodrigues dos Santos também - a procura leal da verdade. Evidentemente, os Evangelhos não são reportagens nem livros de história como hoje entendemos a história científica. Para utilizar a distinção alemã, não existe uma "Historie" de Jesus, portanto, história no sentido de uma história pura, totalmente neutra, mas sim uma história que implica interpretação ("Geschichte"): quem escreveu já acreditava em Jesus como o Cristo, o Messias e o Filho de Deus e queria que outros acreditassem. Mas, por outro lado, também é verdade que não há fé cristã sem uma base histórica essencial no que se refere a Jesus. O cristianismo tem uma base histórica comprovável e não assenta num mito.

Há ainda outra questão. Evidentemente, a clonagem - a ser possível - põe um problema: de facto o clonado não seria como o original, pois somos resultado de uma herança genética e de uma cultura em história: simplesmente, não seria Jesus de Nazaré. Quanto às possíveis consequências: neste quadro, quem é que combateria para que Jesus não fosse clonado? Concedo a J. Rodrigues dos Santos que o Vaticano não ficaria entusiasmado com a ideia e é bem possível que o considerasse herege: Jesus não entraria no Vaticano, porque o não deixariam entrar. Mas diz que também os judeus se oporiam à clonagem, porque, diz um judeu no romance, "seguindo a liderança do Jesus clonado e pacifista, o Ocidente cristão deixará de nos apoiar e Israel ficará à mercê do extremismo islâmico". A afirmação parte do pressuposto de que o Jesus histórico foi um judeu ultra-ortodoxo, um ortodoxo radical. Aqui, ergue-se a pergunta: se assim fosse, porque é que o mataram?

Aí está, pois, um livro polémico, com algumas questões pertinentes, mas que ignora, por exemplo, John Meyer, considerado hoje um dos melhores estudiosos do Jesus histórico, e a bibliografia alemã pós-Bultmannn. Livro polémico e ponto de partida para o debate, que vai obrigar a um melhor e maior conhecimento de Jesus. Quem foi? O que queria? O que fizeram dele? Qual a relação entre o Jesus da história e o Cristo da fé? Qual a relação entre o Jesus histórico e o Jesus que a Igreja anuncia e prega? A própria Igreja vai ser obrigada a mais reflexão e a esclarecer mais e melhor os fiéis. É a procura da verdade que nos deve unir a todos, pois "a verdade libertar-vos-á". Esta afirmação, que não pertencerá às chamadas "ipsissima verba Christi" - palavras directamente pronunciadas por Jesus -, corresponde certamente ao espírito que o animava.

Por mim, coordenei recentemente um colóquio internacional precisamente sobre "Quem foi (é) Jesus Cristo", no qual participaram figuras académicas de renome. Espero que as Actas se publiquem em Fevereiro próximo. Assim, o diálogo vai continuar.

Ler texto 1 de Anselmo Borges sobre "O último segredo" aqui.

Decidir. Remoer constantemente o passado é perda de energia

Aquele que se decide por alguma coisa, decide-se, ao mesmo tempo, contra alguma coisa ou alguém. Isso causa dificuldades a muitas pessoas. Mas também aqui é válida a seguinte afirmação: não conseguimos agradar a todos. Não conseguimos fazer tudo ao mesmo tempo e ter em consideração todos os casos. Através de cada decisão que tomo, abro uma porta, mas também fecho outra. Nesse sentido, é inútil questionar depois constantemente a decisão tomada, olhar para trás e pensar de a sala que se encontra por detrás da porta fechada não seria melhor. Tais considerações são proibidas. Remoer constantemente o passado, sobre o facto de se poder ter dito ou decidido de maneira diferente ou melhor é pura perda de energia.

Anselm Grun, “A vida e o trabalho. Um desafio espiritual” (ed Paulinas), pág. 85

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

“Jesus admite que gostava da pingoleta", diz "O último segredo"


Jesus dizia de si próprio: “Veio João, que não come nem bebe, e dizem dele: «Está possesso». Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: «Aí está um glutão e bebedor de vinho (…)»” (Mt 11,18).

Esta passagem serve para Tomás Noronha dizer que “Jesus admite que gostava da pingoleta e que era um valente garfo” (p. 271).

Umas páginas à frente, ficamos a saber que Jesus era um “parolo da província”, que “veio das berças”, “onde só havia pacóvios” (p. 278).

Há uma lei antiga que diz que sempre que alguém escreve sobre Jesus Cristo revela-se a si próprio. Era Albert Schweitzer quem o dizia, afirmando que não há nada mais pessoal do que escrever uma biografia de Jesus Cristo. Mostrou-o em “The Quest of the Historical Jesus”, no início do século XX. Rodrigues dos Santos refere a obra (p. 560). Mas saberá o jornalista que Schweitzer, convencido de que pouco de “científico” se poderia saber de Jesus, considerou que nada mais restava do que a dedicação ao próximo? Consequentemente, o alsaciano partiu para a selva africana, que fica um bocadinho para lá das berças, dedicando-se aos últimos do seu tempo. Isso valeu-lhe o Nobel da Paz em 1952.

O que valerá a Rodrigues dos Santos a sua cristologia? Sim, há uma. Mesmo que se trate de um romance. Falando de Jesus, há uma imagem e uma identidade de Jesus. Veremos como acaba. Para já, segundo o protagonista, a cristologia da Igreja baseia-se em fraudes inconsistentemente cosidas. Mas a que perpassa pelo livro, baseada em leituras parciais, quase de tipo  - ou talvez de técnica - fundamentalista, que acaba por revelar o que pensam o protagonista, o narrador e o autor (ok, não se pode falar de uma continuidade entre os três, dizem os académicos, mas neste caso parece-me evidente), é uma cristologia de átomos descontextualizados. De pingos. Eu diria mesmo, e digo, cristologia de pingoleta.

Mudem a Páscoa, Jesus morreu em Setembro e não em Abril



Em “O último segredo” diz-se que “Jesus morreu no Yom Kippur” (pág. 281). Ora o Yom Kippur é a festa da expiação, que inicia o décimo mês, o de Tishrei (Setembro / Outubro). Onde terá ido buscar tal informação? Nunca tal coisa tinha ouvido. Também a Bart Ehrman?

Sempre se disse que Jesus morreu no mês de Nissã (Março / Abril). Dá jeito associar a expiação do Yom Kippur à morte de Jesus para dizer que por isso os cristãos propagandearam que ele é o cordeiro que tira os pecados do mundo. Mas o Novo Testamento afirma sempre que a morte de Jesus foi na Páscoa. É o cordeiro pascal e não o do Yom Kippur que se associa a Jesus Cristo. Terá José Rodrigues dos Santos aprendido a técnica da fraude com os copistas cristãos que, segundo ele (seguindo Bart Ehrman) reescreveram os evangelhos?

Vaticano responsável pela crise


A notícia veio no DN de hoje. Reflecte um texto do “Avante!”. Poderíamos pensar que era do “Incrível”, mas é mesmo do órgão oficial do PCP.

Há dias o Vaticano publicou um documento a exigir uma reforma do sistema financeiro e monetário mundial (ler aqui em português), que, curiosamente, tem sido muito desvalorizado pela direita norte-americana, principalmente por George Weigel, um “teocon” conhecido por ter publicado uma grande biografia de João Paulo II. Diz ele:
"A verdade em todo esse caso é que «o Vaticano» (se com a expressão se entende o papa, a Santa Sé, o ensinamento de autoridade do Magistério e as estruturas centrais de governo da Igreja) não tem nada a ver com isso. O documento é uma nota emitida por um escritório muito pequeno da Cúria. O documento não fala em nome do Papa, não fala em nome do Vaticano e não fala em nome da Igreja Católica" (aqui).
 Hoje, no "Público", diz-se que, apelando à cimeira do G20, "Papa e líderes religiosos pedem soluções urgentes e eficazes para enfrentar problema das desigualdades".

Decidir sem medo


Muitas pessoas têm medo que alguém possa atacar a sua decisão. No entanto, cada um tem de se reconciliar com esse facto. Sempre que tomamos uma decisão tornamo-nos vulneráveis. Há pessoas que, depois da decisão tomada, acham sempre que podiam ter feito melhor. Temos que viver com a relatividade da nossa decisão. E temos de viver com o facto de os outros nos poderem criticar e apontar os nossos erros. Aquele que não quer cometer erros, qualquer que seja a circunstância, acaba por fazer tudo da forma errada, uma vez que não tem coragem para se arriscar a algo de novo. Circula apenas à volta da sua própria segurança.

Anselm Grun, “A vida e o trabalho. Um desafio espiritual” (ed Paulinas), pág. 83

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Da Vinci na "Sábado" 4 (conclusão)


Da Vinci na "Sábado" 3 (continuação)


Da Vinci na "Sábado" 2 (continuação)


Mais duas páginas de Da Vinci, na "Sábado". Ler as primeiras aqui. Continua.

Padres que não sabem os Dez Mandamentos


Um programa satírico da tv italiana (o canal é de Berlusconi, mas isso é irrelevante) andou pela rua a perguntar aos padres se sabiam os dez mandamentos. De certeza que muitos sabiam. E esses não passam na peça. Mas espanta-me que alguns não saibam. E, ainda mais, os rodeios que fazem para se safarem de os nomear em concreto. E há transeuntes que ajudam os padres. Ver aqui.

Vida misteriosa de Da Vinci - na Sábado

A revista "Sábado", hoje nas bancas, dedica oito páginas à descoberta de mensagens secretas nos quadros de Da Vinci. É o tema principal da capa. Reproduzo as duas primeiras páginas.

"Desejar ser", poema de Manoel de Barros

Manoel de Barros

O maior apetite do homem é desejar ser. Se os olhos veem com amor o que não é, tem ser
Padre António Vieira

1.
Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.

2.
Prefiro as linhas tortas, como Deus. Em menino eu sonhava de ter uma perna mais curta (Só para poder andar torto). Eu via o velho farmacêutico de tarde, a subir a ladeira do beco, torto e deserto... toc ploc toc ploc. Ele era um destaque.
Se eu tivesse uma perna mais curta, todo mundo haveria de olhar para mim: lá vai o menino torto subindo a ladeira do beco toc ploc toc ploc.
Eu seria um destaque. A própria sagração do Eu. (...)

Tirado daqui.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

2 de Novembro de 1861. Nasce o filósofo Maurice Blondel

O filósofo e teólogo Maurice Blondel nasceu no dia 2 de Novembro de 1861, em Dijon, e morreu no dia 4 de Junho de 1949, em Aix-en-Provence.

Em 1893 defendeu na Sorbonne uma tese sobre a acção que teve grande repercussão na teologia católica, apesar de no início encontrar detractores nos filósofos e teólogos católicos, que pensavam que Blondel cedera ao modernismo. Curiosamente, os filósofos acusaram-no de subordinar a razão à fé.

As reflexões de Blondel sobre a transcendência e a imanência acabaram por ter muita influência na “nova teologia” e no Concílio Vaticano II. Até aí, um dos ramos da teologia, a apologética, hoje teologia fundamental, tinha uma perspectiva extrincessista, supostamente objectiva, ignorando o sujeito humano, que está sempre em contexto.

Leio na Infopédia e é um bom resumo:
O objectivo do trabalho de Blondel teve três pontos fulcrais. Em primeiro lugar, examinar as exigências da acção humana de forma a delinear as estruturas mais negligenciadas da dimensão vital da existência humana. 
Em segundo lugar, examinar e estudar as doutrinas dos pensadores e dos movimentos, para poder aceder às suas atitudes adequadas e poder expor as atitudes e práticas mais inadequadas, de forma a poder criar uma filosofia considerada mais interventiva, que foi algo de inovador que Blondel trouxe à sua época. 
Finalmente, em terceiro lugar, colocar em prática o desenvolvimento de uma "filosofia sobre a insuficiência", mais explícita e articulada, que pode desenvolver uma forma mais compreensiva de tratar as relações entre a ação e o pensamento e onde o ser humano possa ser submetido a uma orientação histórica, social e que esteja em relação com o Absoluto.

A ninfa que nunca foi beijada - ou a influência do catolicismo na higiene oral

A notícia vem do Brasil. Uma senhora, Nympha de nome, cem anos feitos há dias, diz que nunca beijou nem foi beijada.

Gira é a justificação. “Católica fervorosa”, diz a notícia, “rejeita o beijo e considera a boca sagrada, já que, para ela, é através dela que se profere a bênção e a maldição”.

E afirma a senhora Nympha Escolástica da Silva: “Como posso falar coisas de Deus se a minha boca estiver suja? O beijo contamina”.

Li aqui (por sugestão de Fernando Cassola).

Rezam por aqueles de quem ninguém se lembra


Só morre sem ninguém quem viveu sem ninguém. E é difícil imaginar coisa mais triste. Que haja gente que se dedica a acompanhar na morte quem não teve ninguém na vida é uma notícia que alegra um pouco este dia cinzento. Veio no JN de ontem (01-11-2011).

"Formigas", poema de Manoel de Barros



Não precisei de ler São Paulo, Santo Agostinho,
São Jerônimo, nem Tomás de Aquino, nem São
Francisco de Assis –
Para chegar a Deus.
Formigas me mostraram Ele.

(Eu tenho doutorado em formigas.)

Manoel de Barros

terça-feira, 1 de novembro de 2011

1 de Novembro de 1431. Morre D. Nuno Álvares Pereira



D. Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, morreu no dia 1 de Novembro de 1431, em Lisboa, no Convento do Carmo, com 70 ou 71 anos.

Depois de ter serviço o exército português, tendo vencido a Batalha de Aljubarrota, que foi decisiva para a manutenção de independência de Portugal na crise de 1383-85, e após a morte da mulher, em 1423, tornou-se carmelita.

Foi canonizado pelo Papa Bento XVI em 26 de Abril de 2009.

Historiador português confunde guarda suíça com palhaço


Numa das cenas mais caricatas, para não dizer ridículas, de “O último segredo”, o professor Noronha, reputado historiador e criptologista português, ao entrar para o “complexo do Vaticano”, confunde um elemento da guarda suíça com um palhaço. “Seria um palhaço? Ali?” (pág. 26).

Na promoção do livro, usou-se uma imitação da guarda pontifícia, como se pode ver pelo  recorte acima, reproduzido da “TV Guia” (sim, a revista ainda existe; pensava que tinha desaparecido algures nos anos 90). Realmente está um pouco apalhaçado, ou pelo menos anafado, em comparação com os guardas suíços originais.


Todos

Há nos santos grandes margens de antro.


Manoel de Barros.
Lido aqui. No dia de Todos os Santos.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...