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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Raridade: Medalhão de teólogo português


O Museu Nacional de Arte Antiga comprou um medalhão que retrata um teólogo português. A peça é rara. O "Público" explica porquê (aqui). Basicamente: este tipo de retrato era uma novidade. A peça é de 1575; o primeiro retrato do género é de 1438 (de João VIII, quando este imperador bizantino, o penúltimo, visitou Itália).

Penso, porém, que há um outro motivo para a peça ser rara. E ainda mais válido: um teólogo português. Isto sim, uma raridade. Diogo de Paiva de Andrade esteve no Concílio de Trento, defendeu a fé tridentina e polemizou com um luterano. Julgo que neste momento está a ser elaborada uma tese se doutoramento sobre este teólogo na Universidade de  Mainz/Mogúncia sobre a parte da altercação com Martin Chemnitz.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O livro "Joseph Ratzinger, Teólogo y Pontífice"


O livro "Ratzinger, teólogo e pontífice", se a um conjunto de 26 páginas se pode chamar livro, há dias aqui referenciado, está disponível em espanhol no "La Razón". Um obrigado aos nossos vizinhos, que não exigem inscrições, registos, assinaturas. Se já não estiver online, poderei enviá-lo por email a quem mo pedir.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

6 de janeiro de 1945. Pannenberg tem uma experiência "envolvente” ao pôr do sol, uma epifania



No dia 6 de Janeiro de 1945, ao regressar de uma aula de piano, caminhando várias horas a pé, em vez de usar o comboio como era habitual, Wolfhart Pannenberg sente-se envolvido pelo pôr do sol, numa experiência por vezes dita "mística". Mais tarde, descreveu esse dia:
“Eu não sabia, à época, que 6 de janeiro era o Dia da Epifania, assim como não me dei conta de que naquele momento Jesus Cristo havia reivindicado a minha vida como uma testemunha da transfiguração deste mundo, iluminado pelo poder e julgado por sua glória. Mas aí começou um período de ânsia para entender o sentido da vida, e uma vez que a filosofia não parecia oferecer respostas para o final dessa busca, eu finalmente decidi provar a tradição cristã mais seriamente do que eu havia considerado antes”.
Foi por causa desse dia 6 que decidiu aprofundar as raízes cristãs, na Alemanha destroçada pela guerra, e enveredar pela teologia, sendo hoje um dos mais importantes teólogos protestante e, provavelmente, o mais católico dos grandes teólogos não-católicos. Segundo uma obra recente, publicada em Itália, faz parte do grupo de três teólogos não-católicos que influenciam ou pelo menos estão mais perto do pensamento do atual teólogo-papa. Os outros dois são Oscar Cullmann e Ioannis Zizioulas. Ler aqui.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Bento XVI, líder dos luteranos

Reinhard Frieling

O teólogo alemão Reinhard Frieling, luterano, defende que Bento XVI seja nomeado líder honorário de todos os cristãos. "O sonho da comunhão de todos os cristãos pode-se tornar realidade se os protestantes oferecerem ao papa o papel de chefe honorário da cristandade", disse o ex-líder do Institute Kundlichen, de Bensheim. O Papa poderia “falar em nome da cristandade em situações extraordinárias”, acrescentou.

A ideia não é propriamente nova, uma vez que há dez anos Johannes Friedrich, bispo da Igreja Luterana da Baviera, argumentou que o Papa deveria ser aceite como porta-voz do cristianismo mundial. Seria algo muito positivo. Caminhar-se-ia mais decisivamente para o que Pedro deve ser na Igreja. Regresso às origens, a Pedro na grande "cada comum" ("ecumene").

Em Setembro o Papa vai estar no mosteiro agostiniano em Erfurt, que Lutero frequentou. Vai reunir-se com representantes da Igreja Evangélica na Alemanha e, supõe-se, no ar vai pairar a comemoração do meio milénio da reforma luterana (1517 - 2017). Li aqui.

Hoje, qualquer católico minimamente informado sabe que Lutero tinha razão quanto ao sacerdócio laical, na doutrina da justificação, na leitura da Bíblia, nas línguas vernáculas na liturgia. A Igreja católica seguiu-o com séculos de atraso nestes assuntos (agora parece regredir ao voltar ao latim) e manteve o que de bom devia manter – como a veneração de Maria, o primado de Pedro, a independência da hierarquia em relação ao Estado. Noutros, como o ministério das mulheres e o fim do celibato obrigatório, lá chegará.

Aguardo com grandes expectativas a ida de Bento XVI aos aposentos de São Lutero.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Teólogos e bispos: turras e diálogo

“Houve um tempo em que os melhores teólogos da Igreja eram bispos”, afirmou D. Patrick McGrath no encontro da Sociedade Teológica Católica dos EUA, em San Jose, Califórnia. O bispo fez uma pausa e acrescentou: “Mas isso foi há muito tempo”. Um editorial do "National Catholic Reporter" reflecte sobre as tensões entre teólogos e magistério:
Bispos e teólogos têm tentado descobrir como trabalhar juntos e pôr em ordem seus próprios papéis – pastores, estudiosos, educadores – desde a igreja primitiva. Ao longo desse caminho, muitas vezes, eles pisaram nos dedos dos pés uns dos outros, causando dor e a eventual necessidade de reconciliação. Parece que estamos em um desses momento novamente.
É necessário haver diálogo e reconciliação. Há 30 anos, todos os teólogos eram padres. Jogavam golfe e ténis com os bispos (nos EUA, certamente). "Havia um contexto para um relacionamento". A realidade mudou e aumentaram as tensões.
Reconciliação, deve-se acrescentar, não significa resolver todas as diferenças conquistando o outro lado para o seu. Ao contrário, significa ser aberto, honesto e respeitável em atitude quando se trabalha para resolver o conflito. Em diferenças aparentemente pequenas acerca de questões doutrinais de peso, o significado dado até mesmo a cada palavra pode causar separação.
Ler tudo aqui.

sábado, 28 de agosto de 2010

Dois livros de Raimon Panikkar

De Raimon Panikkar, tenho um livrinho e um livrão. O livrinho é “La experiencia de Diós”, 96 páginas na editorial PPC. O livrão é “El silencio del Buddha. Una introducción al ateísmo religioso”, 424 páginas nas Ediciones Siruela.

Não conheço muito do autor, mas é admirável a síntese intercultural e religiosa que fez na sua própria vida: filho de um industrial indiano e hindu e de uma catalã católica, estudou nos jesuítas e, ordenado padre em 1946, integrou e depois saiu do Opus Dei. Formou-se em Química, Teologia e Filosofia, andou por Roma, viveu e ensinou na Índia e nos EUA. Viveu os últimos anos na Catalunha natal.

Em “La experiencia de Diós”, Panikkar afirma que os lugares privilegiados para a experiência de Deus são o mal, o silêncio e o tu. Como deixa bem explícito que “a experiência de Deus não pode ser monopolizada por nenhuma religião, por nenhuma cultura, por nenhum sistema de pensamento”, alguns poderão não gostar da sua teologia e filosofia (um leitor deste blogue escreveu, comentando a entrada anterior: “Um verdadeiro campeão da heresia. Que Deus tenha piedade dele”). Perto do fim da vida, continuava a “dizer missa”, porque nunca deixou de ser cristão. Afirmava: “Saí cristão, descobri-me hindu e regresso budista sem deixar por isso de ser o que era no início” (“Salí cristiano, me he descubierto hindú y regreso buddhista, sin dejar por ello de ser lo primero”). Esta afirmação faz lembrar a resposta de Jean Guitton a uma pergunta de “O Independente” sobre o futuro do catolicismo. Dizia o francês que era a religião mais bem colocada para acolher todas as tendências, correntes e religiões, porque é, desde o início, católica, isto é, universal.

Em “El silencio del Buddha”, Panikkar relaciona a teologia apofática (ou negativa) do cristianismo com a “religiosidade” budista. Parece estimulante (só li o índice e parágrafos soltos), quando as religiões orientais continuam a exercer fascínio sobre o Ocidente (notícia destes dias: Julia Roberts, anteriormente católica, parece que se converteu ao hinduísmo) e, com frequência, se esquecem as tradições apofáticas, silenciosas, místicas, do interior do próprio cristianismo. Que Panikkar conhece.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Que tipo de saber é a teologia? - Breve reflexão de Tamayo

Juan José Tamayo

“Que tipo de saber é a teologia? William Temple, antigo arcebispo anglicano [de Cantuária, 1942-44], deu do teólogo uma definição mordaz e sarcástica: é uma pessoa muito sensata e sisuda que passa toda uma vida encerrada entre livros e tentando dar respostas exactíssimas e precisas às perguntas que ninguém coloca. Tal ideia corresponde à do teólogo que, segundo a cena imaginada pelo filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, se apresenta diante do tribunal das acções humanas, no juízo final. Deus pergunta-lhe se se tinha preocupado, antes de mais, com o reino de Deus e em ajudar os seus irmãos. O professor teve que responder negativamente. Mas, de seguida, matizou que sabia como se dizia este versículo da Bíblia em nove idiomas. O anjo da trombeta que estava ao lado de Deus enfureceu-se e gritou ao teólogo: “Historietas!” E deu-lhe uma bofetada que o atirou para longe do tribunal”.

Juan José Tamayo, in "Nuevo paradigma teológico" (Editorial Trotta), 21

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Edward Schillebeeckx. Ecos de uma conferência em Lisboa - 2

A conferência de Schillebeeckx, em Lisboa, em 1966, intitulada “O Deus Oculto”, sugeriu uma nova compreensão do mundo e no homem, na qual há um certo “obscurecimento” de Deus. Mas esse “obscurecimento”, para um teólogo avisado, significa mais uma purificação da imagem de Deus do que um acréscimo de ateísmo.

“Desde há alguns anos que se fala tanto da «ausência» de Deus, que todos nós admitimos sem a menor crítica, que essa ausência era facto indiscutível. Incontestavelmente, Deus não se encontra onde antigamente o fazíamos intervir subitamente para suprir as nossas incapacidades terrestres e humanas. Forçávamo-lo a estar presente. E nem sequer notávamos que essa presença era totalmente desprovida da gratuidade que caracteriza qualquer presença autêntica. Por isso, nos tornámos hoje em dia cegos para a diferença entre a ausência e presença oculta cegos para a presença insuspeitada mas profunda de Deus na maneira mais verdadeira por que é vivida nos nossos dias a comunhão humana. Na verdade, nunca na história a presença de Deus no mundo foi tão intimamente e tão sensivelmente real como na nossa época – que, no entanto, por toda a parte proclama a sua ausência! Como se Deus não se tornasse apenas presente de uma maneira plena no momento em que a preocupação desinteressada pelo próximo entra verdadeiramente no nosso projecto de vida fundamental e é desejada de modo efectivo. Pois é bem o que sucede nos nossos dias; e por isso Deus se encontra infinitamente mais próximo hoje do que dantes. Se sem cessar proclamamos a sua ausência, isso prova que a mentalidade antiga, que o olhava como um «tapa-buracos», influencia ainda de modo inconsciente as nossas concepções e nos nossos juízos”.

Primeira parte.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Edward Schillebeeckx. Ecos de uma conferência em Lisboa - 1

Edward Schillebeeckx (Antuérpia, 12 de Novembro de 1914 – Nimega, 23 de Dezembro de 2009), esteve pelo menos uma vez em Portugal. Em Abril de 1966 proferiu em Lisboa uma conferência para os assinantes da revista “Concilium”, que nessa altura tinha uma edição em português de Portugal (agora, a versão em português é publicada a partir do Brasil).

A conferência, sobre a secularização e o aparente ocultamento de Deus, foi publicada nos “Cadernos o Tempo e o Modo”, cujo número 3 teve como tema “Deus o que é?”.

O artigo que resultou da conferência é verdadeiramente espantoso. E actual, passados mais de 40 anos. Começa assim:

“No reinado de Filipe II de Espanha, foi submetido às autoridade o projecto de tornar navegáveis o Tejo e o Manzanares, com o fim de melhorar as condições de vida de algumas populações isoladas. A comissão governamental opôs-se. Reconhecia que a situações dessas populações era difícil e até insuportável, mas punha de lado o projecto, porque «se Deus tivesse querido que esses rios fossem navegáveis, com uma só palavra sua o teria conseguido. Isso seria portanto intrometer-se de modo ilegítimo nos direitos da Providência, tentando melhorar o que, por motivos insondáveis, ela tinha deixado incompleto».

Este episódio traduz uma mentalidade que pertence sem dúvida ao passado, mas que ainda subsiste nos nossos dias sob formas mais subtis. É conhecido o dito espirituoso: «A fé, a esperança e a caridade permanecem, mas a maior das três é a ordem estabelecida»”.

Regressarei ao artigo de 1966. Talvez já em 2010.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Para terminar o dia - um textinho de Lutero

Lutero é que devia ser o patrono dos filósofos e teólogos (mas o cargo também está bem atribuído a S. Tomás de Aquino).

"Julgas-te muito conhecedor e deixas que os outros te considerem como tal, deleitas-te com os teus próprios livrinhos, teorias, ou escritos, como se tivesses feito uma grande coisa, ou pregado excelentemente.
Também te agrada muito que os outros te façam lisonjas em público, talvez seja esse o teu maior desejo, de contrário ficarias contristado, ou declinarias o elogio. Se é esta a tua maneira de proceder, mais vale deitares as mãos à cabeça. E com proveito! Encontrarás um lindo par de orelhas de burro, grandes, compridas! Aproveita a oportunidade: enfeita-as com guizos dourados, de forma a que toda a gente te possa ouvir onde quer que vás.
Todos apontarão para ti, dizendo: «Olhai, olhai, ali vai o animal inteligente, que escreve livros importantes e que faz lindas pregações». Então, sim, serás ditoso, serás bem-aventurado no Reino dos Céus. Sim, nessa altura já o fogo do inferno está pronto para o diabo e para os seus anjos".
Lutero, 1539

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Morreu Schillebeeckx

Morreu Edward Schillebeeckx, ontem, 23 de Dezembro, aos 95 anos. Dominicano, este teólogo belga (nascido em Antuérpia, a 12 de Novembro de 1914) que viveu a maior parte do tempo na Holanda, antecipou a renovação do II Concílio do Vaticano, sendo assessor dos bispos holandeses no Concílio.

Mais tarde foi crítico do Vaticano. Ensinou na Universidade de Nimega até a reforma. O seu livro sobre Jesus (em espanhol, língua em que li alguns capítulos, o título era “Jesús. La historia de um viviente”) mereceu as críticas do Vaticano, melhor, da Congregação para a Doutrina da Fé, em 1984 (já lá estava Joseph Ratzinger).

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Anteriores premiados com o "Paulo VI"

Jean Vanier

Receberam anteriormente o Prémio Internacional Paulo VI, que é atribuído de cinco em cinco anos:

- Hans Urs von Balthasar, teólogo;
- Olivier Messiaen, músico;
- Oscar Cullmann, teólogo luterano;
- Jean Vanier, fundador da Comunidade "A Arca";
- Paul Ricoeur, o filósofo.

domingo, 23 de agosto de 2009

23 de Agosto. Dia de Ireneu de Lião

Pode ter nascido em Esmirna (Turquia), mas foi bispo de Lião (França), onde morreu em 203. Ireneu (ou Irineu) é considerado o “pai da dogmática católica”, isto é, foi o primeiro a sistematizar um pensamento católico. Fê-lo em três sentidos: salvaguardando a unidade da história da salvação (contra os que opunham a Antiga Aliança à Nova Aliança); defendendo o princípio da tradição (tão caro aos católicos, que é também o da continuidade e o da “não há foz se não houver nascente”, como dizia, grosso modo, John Henry Newman); e repudiando as correntes gnósticas em geral. “Adversus haereses” (“Contra os hereges”) é a sua obra mais conhecida.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

19 de Agosto. 1662, morre Pascal

19 de Agosto de 1662. Morre Blaise Pascal. Tinha 39 anos. Matemático e cientista genial, filósofo e teólogo sublime, foi autor de “Pensamentos”, que na origem era um conjunto de apontamentos para uma obra maior. Alguns dos pensamentos:

“Para quem quer ver, há luz suficiente; para quem não quer, há bastante obscuridade”;

“O homem está sempre disposto a negar tudo aquilo que não compreende”;

“O coração tem razões que a própria razão desconhece”;

"É o coração que sente Deus e não a razão. Eis o que é a fé: Deus sensível ao coração";

"O cosmos pode ser infinitamente maior do que o homem, mas um único acto de amor vale mais do que toda a massa do universo".

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Clássicos 10: “Curso fundamental sobre la fe”, de Karl Rahner

(Primeiro parágrafo:) "Este livro propõe-se dar uma introdução ao conceito de cristianismo. Portanto, em primeiro lugar, trata-se somente de uma introdução e nada mais. Evidentemente, tal empresa está muito mais próxima de uma decisão pessoal pela fé do que outras publicações científicas ou teológicas ou que certos cursos académicos. Contudo, deve tratar-se aqui de uma introdução no contexto de uma reflexão intelectual, e não directa e imediatamente de um escrito edificante, embora seja claro que a relação de uma teologia do espírito e do entendimento com uma teologia do coração, da decisão e da vida religiosa represente de novo um problema muito difícil. Pretendemos, em segundo lugar, uma introdução ao conceito de cristianismo. Para isso, pressupomos à partida, a existência deste nosso cristianismo pessoal e próprio, na sua forma normal eclesiástica, e tentamos, em terceiro lugar, reduzi-lo ao conceito. Esta palavra “conceito” foi acrescentada para que fique claro que, falando com Hegel, se trata de um “esforço do conceito”. Por isso, quem de antemão procura somente estímulos religiosos e receia este esforço da reflexão paciente, fatigante e monótona, deveria prescindir desta investigação".

Curso fundamental sobre la fe | Título original: Grundkurs des Glaubens | Karl Rahner | Herder, 536 páginas | Barcelona, 1989

Karl Rahner (1904-1984), jesuíta alemão, talvez o mais importante teólogo católico do séc. XX, sintetizou na teologia o tomismo e o existencialismo, Kant e Husserl, J. Maréchal e M. Heidegger. Uma grande “reflexão paciente, fatigante e monótona” foi, afinal, o que Rahner fez ao longo da maior parte da vida. Mas falta acrescentar um adjectivo à caracterização da reflexão: “fecunda”.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Clássicos 2 – “Tratado da Oração, do Jejum e da Esmola”, de Frei Luís de Granada


"Para conclusão desta obra [o Livro da Oração], pareceu-me necessário tratar, no final, dos frutos e proveitos da oração, para mover os corações dos leitores para o exercício desta virtude e para os trabalhos que, na sua continuidade, se hão-de passar. Porque assim como os que pregam jubileus e indultos apostólicos procuram declarar e encarecer as graças e os favores que neles se concedem, para que não recusem os homens fazer o que para isso se lhes pede, dado o muito que se lhes promete; assim também, como no exercício da oração, que aqui se pede, haja trabalho e dificuldade – como logo diremos -, é necessário adoçar esta purga com algum mel, pondo ante os olhos os frutos e os grandes efeitos desta virtude; para que, com este gosto e esperança, se esforcem os homens para querer tomar esta purga. E chamamo-la purga porque, como disse um daqueles insignes Padres do Deserto, uma das coisas mais trabalhosas que há na vida espiritual é o exercício contínuo da oração, o qual veremos claramente pelas seguintes razões".

Tratado da Oração, do Jejum e da Esmola | Frei Luís de Granada | Paulinas, 2006, 254 páginas

Luís Sarria nasceu em de Granada, em 1504. Vem para Portugal em 1550-51 e vive em Lisboa, no convento de S. Domingos (Rossio), até à morte, no dia 31 de Dezembro 1588. Este “Tratado…” é uma parte do “Livro de la Oración y meditación”, obra que suscitou a oposição da Inquisição e do grande teólogo (e confrade de Frei Luís) Melchior Cano. A principal crítica que lhe faz é que Frei Luís propõe um “caminho de perfeição comum e geral a todos os estados”.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Antes que os caminhos bifurquem

O teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga, falando aos bispos colombianos, propõe que se faça uma elpidologia (de “elpis”, esperança). Mais do que uma ciência, é um papel a desempenhar, um tratamento: antes de discutir as soluções, lançar com toda a profundidade as interrogações. Um tratamento que, em vez de estabelecer a “disjuntiva entre religião e ateísmo”, reconheça a comunidade do ponto de partida e procure a possibilidade de um “novo encontro nos trajectos ainda unitários” antes da “bifurcação das respostas”.

A proposta é estimulante. Mas não é curioso reparar que este tipo de propostas parte sempre dos crentes? Creio que não há hoje católicos com papéis relevantes na direcção de comunidades ou no pensamento teológico que não advoguem este encontro de crentes e ateus. Porém, pelo menos entre os ateus portugueses, não vejo que o convite seja aceite. E ainda menos que eles próprios o façam. “Vamos lá convidar os católicos a pensar connosco este problema. Vamos ao encontro deles, a ver o que eles dizem… O que é que o Papa dirá sobre isto?” Tais frases são inverosímeis, talvez porque os ateus portugueses ainda são muito adolescentes, muito revoltados, muito ressentidos. Talvez porque no fundo são (somos) todos católicos, uns praticantes, outros não, mas todos na mesma órbita. E também porque os ateus portugueses são todos ateus anticlericais (ateus católicos, portanto).

Mas o encontro é necessário. Católicos, ateus, indiferentes, maçons, agnósticos, cristãos, homens de boa vontade.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...