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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Impedir de nascer é apressar o homicídio

A nós, porém, interdito em absoluto o homicídio, não é lícito sequer desfazer o que foi concebido no útero, quando do sangue materno se vai extraindo ainda o necessário para plasmar o ser humano. Impedir de nascer é apressar o homicídio e é indiferente suprimir uma vida já nascida ou quebrá-la antes de nascer. O homem também é aquilo que será. Do mesmo modo em que todo o fruto está já na sua semente.


Tertuliano (160-220 d.C.), "Apologético", ed. Alcalá, pág. 173-4

sábado, 8 de outubro de 2011

A bíblia do ensino nos colégios da elite

Edição de 1606

O blogue Rerum Natura, dedicado à ciência e à boa cultura em geral, iniciou uma série sobre os “Grandes livros de pedagogia”. O primeiro (e até agora único) referido é o livro “Ratio Studiorum”, de 1599, uma espécie de programa e currículo nos colégios dos jesuítas.
“Falar da Ratio Studiorum é falar de um texto fundador que permitiu o desenvolvimento de um sistema escolar de alcance internacional e europeu. A rede de colégios que os Jesuítas criaram em toda a Europa constituiu efectivamente um sistema escolar dotado de um plano de estudos e regulamento próprios, cuja existência se deveu a uma reflexão prévia que acompanhou 50 anos de experiência, em todas as províncias. 
O cânone de estudos da Companhia era muito mais do que um regulamento de disciplina escolar. Era um verdadeiro projecto pedagógico, com a originalidade de resultar de uma prática testada durante décadas e com a autoridade que dela decorria. 
(…) Foi portanto com base neste plano de estudos que os Jesuítas desenvolveram a sua actividade pedagógica e intelectual em todo o mundo, ao longo de cerca de dois séculos, até 1773, ano em que a Companhia foi extinta.
Ler tudo aqui.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

2 de Junho de 1857. Nasce o músico Edward Elgar


O compositor britânico Edward Elgar nasceu no dia 2 de Junho de 1857 e morreu no dia 23 de Fevereiro de 1934. A sua música mais conhecida é, sem dúvida, a ode “Land of hope em glory”, que integra as “Marchas de Pompa e Circunstância”. Uma espécie de hino não oficial do Reino Unido.


Mas Elgar compôs também “The Dream of Gerontius”, em 1900, uma peça para vozes e orquestra, a partir de um poema de John Henry Newman (1801-1890), o convertido do anglicanismo que em Setembro passado foi proclamado beato. O poema descreve a viagem de um crente do leito de morte ao julgamento perante Deus e a sua entrada no purgatório. Esta peça, por vezes dita oratório, teve má recepção no Reino Unido, até porque o poema era claramente católico. Mas é hoje reconhecida como a obra-prima de Elgar.


terça-feira, 8 de março de 2011

15 livros que estão a estragar o mundo



Quem gosta de livros dificilmente resiste a um título como este: “Dez livros que estragaram o mundo”. Subtítulo: “E mais cinco que também não ajudaram nada” (ed. Alêtheia). Pensamos logo: Quais são? Quais deles já li? Quais deles estão na minha estante? Quais deles repudiei? Quais deles me influenciaram? A resposta a esta última pergunta é simples: quase todos. O mundo todo está influenciado por muitos deles. Todos nós incluídos. Não há redomas que nos livrem da sua influência – alerta o autor, Benjamin Wiker, um “eticista” (formado em ética teológica) católico norte-americano.

Os cinco que “não ajudaram nada" são:
“O Príncipe”, de Maquiavel
“O Discurso do Método”, de Descartes
“Leviatã”, de Hobbes
“Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, de Jean-Jacques Rousseau
 “A mística feminina”, de Betty Friedan

Os dez que estragaram o mundo (no interior do livro, no topo de cada página, diz-se antes que “destruíram o mundo”) são:
“Manifesto do Partido Comunista”, de Marx e Engels
“Utilitarismo”, de John Stuart Mill
“A Ascendência do Homem”, de Charles Darwin
“Para além do bem e do mal”, de Nietzsche
“O Estado e a Revolução”, de Lenine
“O Eixo da Civilização”, de Margaret Sanger
“Mein Kampf”, de Hitler
“O futuro de uma ilusão”, de Freud
“Crescer em Samoa”, de Margaret Mead
“O Comportamento Sexual dos Homens”, de Alfred Kinsey.

Cada título mereceria várias linhas de resumo, se bem que as ideias básicas de cada um fazem parte da cultura geral. Eu não conhecia o livro “O Eixo da Civilização”, de Margaret Sanger, mas rapidamente verifiquei que, além de defender o controlo da natalidade (está na origem da Associação Americana do Planeamento Familiar), o que por si pode não ser negativo, a autora era uma defensora do eugenismo, ainda antes de Hitler, e da esterilização dos “débeis mentais”.

Mesmo antes da leitura do livro sobre os livros e dos livros em si, fica a pergunta: o que fazer com estes 15 livros? Queimá-los? O autor responde: “Nem pensar nisso! Trata-se de uma proposta indefensável, quanto mais não seja por razões ambientais. Há muito tempo que cheguei à conclusão de que a melhor solução – a única solução possível (…) – é lê-los, conhecê-los de trás para a frente e da frente para trás, extirpar o seu coração maligno e dá-lo a conhecer ao mundo”. É isso o que faz neste livro informado, crítico e saudavelmente demolidor.


domingo, 23 de janeiro de 2011

Não se distinguem

Mostrou-me muitas árvores que não tinham folhas, mas pareciam-me como que secas. Eram realmente todas semelhantes, e pergunta-me:
- Vês estas árvores?
- Vejo, Senhor, digo eu, são semelhantes e secas.
Respondeu-me dizendo:
- Estas árvores que vês são os que habitam neste mundo.
- Então, Senhor, digo eu, porque são como que secas e semelhantes?
- Porque, disse ele, neste mundo, nem os justos nem os pecadores se distinguem, mas são semelhantes. Este mundo é, para os justos, um inverno e não se diferenciam, enquanto habitam com os pecadores. Pois, assim como, no inverno, as árvores que deixaram cair as folhas são semelhantes e não se distingue quais sejam as secas das verdes, do mesmo modo, neste mundo, não se distinguem os justos dos pecadores, mas são todos semelhantes.

Parábola retirada de “O Pastor”, obra cristã de meados do século II, atribuída a Hermas. O escravo Hermas, depois de libertado, constitui família e acumula fortuna, mas acaba por desbaratá-la e é denunciado pelos seus próprios filhos a quando de uma perseguição aos cristãos. Durante a crise, Hermas encontra-se com enviados de Deus (“Visões”), o que dá origem à obra “O Pastor”.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Grandes textos do cristianismo

Saiu há dias um caderno especial ("hors-série") da revista "Le Monde des Religions" dedicado aos grandes textos do cristianismo, do Novo Testamento à "Caritas in veritate". Clicando na imagem em baixo dá para ler o índice.


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Erasmo pede a Tomás Morus que defenda a Loucura

Tomás Moro e Erasmo

Escreve Erasmo, nascido faz hoje 544 anos, no início de “Elogio da Loucura” (5 de Junho de 1508):

“Querendo, pois, ocupar-me com qualquer coisa [durante a viagem a cavalo de Itália para Inglaterra], e não se acomodando as circunstâncias a sérias meditações, ocorreu-me fazer lucidamente o elogio da Loucura. Que Palas [Palas Atena, deusa da sabedoria, das artes e da habilidade] te levou isso à mente? Perguntarás. Pensei em ti, no teu nome, Morus, que está no próximo da palavra Moria (Loucura) quão longe se encontra da tua pessoa. Tu és, segundo o sufrágio de todos, completamente alheio a ela. Supus depois que este divertimento do meu espírito mereceria a tua aprovação, visto que não receias um género de jocosidade douto e agradável e que, na vida quotidiana, segues tal como Demócrito [segundo os clássicos, Demócrito ria, Heráclito chorava]. De certo, a profundidade do teu pensamento afasta-se muito do vulgo; mas tu tens tão boa graça, e um carácter tão indulgente, que sabes acolher as pessoas mais humildes e encontrar agrado no seu convívio. Receberás, pois, com benevolência esta pequena declamação, como lembrança do teu amigo, e aceitarás o encargo de defendê-la, visto, pela dedicatória, que ela agora é tua, e não minha”.

domingo, 19 de setembro de 2010

Dois livros de Newman no dia da sua beatificação

1. “Apologia”, das edições Verbo, publicado em português em 1974 (aqui apontado, há tempos), de título completo “Apologia Pro Vita Sua”, é uma história das suas convicções religiosas em cinco capítulos, terminada no dia 26 de Maio de 1864. O autor ainda viveria mais 26 anos, até 11 de Agosto de 1890.

Newman descreve as influências na sua educação, como cresce a sua consciência religiosa, o que escreveu e porquê, a aproximação à Igreja Católica (por via da história e principalmente dos Padres da Igreja – teólogos dos primeiros séculos), mas também o ambiente cultural da Inglaterra e da Igreja anglicana do séc. XIX e até uma defesa contra o que pensavam alguns católicos.

Uma frase: “Desde que sou católico, já me têm por vezes acusado de relutância em fazer conversões; e os protestantes têm deduzido, do facto, que não tenho muita pressa de as fazer. Agir de modo diferente seria contrário à minha maneira de ser; mas, além disso, seria esquecer as lições que recebi na experiência das minha história passada” (pág. 147).

2. “Ensaio a favor de uma Gramática do Assentimento”, de 1870, publicado em português pela Assírio & Alvim, em 2005, é um estudo sobre a aquisição da certeza no conhecimento religioso e teológico, uma espécie de introdução à lógica religiosa que não descura a razão, por quem “aderiu a um realismo ontológico, sereno e crítico”, segundo expressão de Artur Mourão, que escreve na introdução a esta obra que Newman é “uma glória das duas Igrejas, um herói do pensamento cristão e um dos grandes mestres da língua inglesa na prosa, na oratória e sobretudo na controvérsia”.

Na contracapa, Joseph Ratzinger, que hoje como Bento XVI presidiu à beatificação (notícia aqui), conta que quando em 1947 continuou os seus estudos em Munique encontrou “no professor de Teologia Fundamental um culto e apaixonado seguidor de Newman” que lhe deu a conhecer a “Gramática do Assentimento”. E remata: “Com isto ele pôs nas nossas mãos a chave para inserir na teologia um pensamento histórico, ou melhor: ele ensinou-nos a pensar historicamente a teologia, e precisamente desta forma, a reconhecer a identidade da fé em todas as suas mutações”.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Umas ideias sobre a bem-aventurança eterna

Deus adapta-se ao ser humano, limitando a sua divindade. E o ser humano adapta-se também a Deus, pela dignidade da nossa criação à sua imagem e semelhança.
Deus, por Si mesmo, só Ele e mais ninguém é suficiente em plenitude – e até bem mais do que isso! – para satisfazer a vontade e o desejo do espírito humano.
Toda a criatura racional tem duas faculdades principais: conhecer e amar, ambas criadas por Deus, ambas dirigidas a Deus.
Quem tiver olhos, por dom da graça, que veja, pois sentir tudo isto é bem-aventurança eterna.

Adaptação de um excerto do capítulo IV da obra “A Nuvem do Não Saber”, texto místico de um anónimo inglês do séc. XIV, publicado recentemente em português pelas edições Assírio & Alvim.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Fideísmo, desconfiança da razão, Bíblia e desenvolvimento

Primeira frase de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (o primeiro parágrafo ocupa três páginas), de Max Weber:

“Uma panorâmica da estatística profissional de um país pluriconfessional costuma mostrar com uma frequência significativa um fenómeno por várias vezes vivamente discutido na imprensa, literatura e congressos católicos da Alemanha: o facto de os dirigentes das empresas e os detentores de capitais, bem como as camadas superiores da mão-de-obra qualificada e, mais ainda, o pessoal técnico e comercial altamente especializado das empresas modernas, serem predominantemente protestantes”.

A constatação e a tese de Max Weber são espantosas, porque, historicamente, o protestantismo distingui-se por uma desconfiança radical da razão. Lutero dizia que a "razão é a rameira do diabo". Enquanto o catolicismo sempre quis conciliar fé e razão. Uns, oposição. Outros, diálogo. A questão é que naqueles que desconfiam da razão por razões religiosas, o desenvolvimento científico aconteceu em maior grau. A questão é que quem desconfiava da razão (incapaz de colaborar na salvação) realçava a leitura a Bíblia (ao contrário dos católicos). Ora, para ler a Bíblia, era preciso, ante de tudo, saber ler.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Um clássico: Max Weber, o capitalismo e a ética protestante

Com o “Público” de hoje, por mais 5,95 euros, um clássico da sociologia, mas também da economia e da teologia: “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber.

Confesso que já hoje dediquei mais tempo a este livro do que o que devia – o que comporta alguma ironia pois a ética protestante é uma ética do dever e eu tenho simpatias pelo capitalismo com ética cristã. Portanto, devia estar ocupado com o dever, em vez de estar a fruir do livro.

Até hoje só tinha treslido esta obra-prima. (“Tresli”, como dizem os bloquistas, quando lhes perguntam se já leram “O Capital”. Tresler é uma maneira de dizer que se leu o que não se leu, que apenas se pousou os olhos sobre uns resumos e umas citações). Mas hoje comecei a ler e só pela introdução (19 páginas) e pelas primeiras páginas já pensei uma dúzia de vezes: “Onde é que eu já ouvi isto? Tanta gente que já aqui veio beber”. Um clássico absoluto.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Clássicos 24 - "A Nuvem do Não-Saber"

(Primeiro parágrafo) “Meu amigo espiritual no Senhor, desejo levar-te a compreender que existem, segundo o modo de ver grosseiro que é o meu, quatro graus ou tipos de vida cristã, a saber: comum, especial, singular e perfeito. Três destes começam e acabam neste mundo; o quarto pode, por graça de deus, começar aqui, mas durará para todo o sempre, na bem-aventurança celeste. E assim como tos apresento aqui por ordem, um após outro – primeiro o comum, depois o especial, em seguida o singular e finalmente o perfeito -, assim também me parece que, pela mesma ordem e sucessão, nosso Senhor, na sua infinita misericórdia, te chamou e conduziu a Si, pelo desejo do teu coração”.

A nuvem do não-saber | Anónimo do séc. XIV | Assírio & Alvim | 2006 | 200 páginas | Prefácio de José Mattoso | Tradução e notas de Lino Correia Marques de Miranda Moreira, o.s.b.

Escreve Mattoso no Prefácio deste livro: “O título, na sua simplicidade, sugere qualquer coisa de esotérico e, por isso, também atrai não poucos leitores que andam sempre à procura de segredos ocultos e poderes invisíveis, pessoas inquietas e de curiosidade insaciável, que tudo experimentam mas em nada se demoram. Todavia, quando se folheiam as suas páginas, descobre-se um texto simples, directo, coloquial, que fala de Deus e da oração, e que, à primeira vista, se pode, até, tomar por uma obra devota como muitas outras do mesmo género, escritas para edificar o leitor sem recursos complicados, eventualmente susceptível de ser lida quase como entretenimento”. Os leitores mais atentos, porém, descobrem palavras e frases pouco vulgares, recomendações contra “ilusões enganadoras” e “numerosos desvios”, que indicam uma autenticidade e um caminho para Deus.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Clássicos 23 - "A Bíblia tinha Razão", de Werner Keller

[Primeiro parágrafo] “Se traçarmos no mapa uma linha, que, do Egipto até ao Golfo Pérsico, passe pelo Mediterrâneo, pela Palestina e pela Síria, seguindo logo o curso do Tigre e do Eufrates através da Mesopotâmia, resultar-nos-á uma meia lua perfeitamente desenhada”.

A Bíblia Tinha Razão | Werner Keller | Edição Livros do Brasil, sem data | 430 páginas

Escrita por um não especialista e publicada pela primeira vez em 1955 (título original: “Und Die Bibel Hat Doch Recht”), esta obra foi traduzida em três dezenas de línguas, somando mais de 12 milhões de exemplares de tiragem. Embora não seja usada em nenhuma Faculdade de Teologia credenciada, devido ao concordismo histórico-bíblico subjacente (subtítulo: "A verdade histórica da Bíblia demonstrada pela arqueologia"), continua a ser popular em grupos cristãos evangélicos, onde o sentido apologético é mais agudo. Marcou uma época, mesmo entre católicos.

domingo, 18 de outubro de 2009

Clássicos 22: “História de uma alma”, de Teresa de Lisieux

(Primeiro parágrafo:) “É a vós, minha querida Madre, a vós que sois duas vezes minha mãe, que venho confiar a história da minha alma…”

História de uma alma | Teresa de Lisieux | Edições Carmelo, 320 páginas

Teresa de Lisieux (1873-1897) escreveu a sua autobiografia espiritual porque a superiora do convento lhe pediu. Hoje, ler a autobiografia, primeiro, gera perplexidade, depois, encanto. Perplexidade por causa da sinceridade a roçar a ingenuidade de quem escreve. Encanto porque nessa sinceridade quase infantil está o fundamental cristão. Lembro hoje este livro porque Santa Teresinha é padroeira das missões. A Igreja celebra hoje o Dia Mundial das Missões.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Clássicos 21: “Tratados e Sermões”, de Mestre Eckhart

(Primeira parágrafo do “Tratado do Discernimento”, o primeiro texto desta obra:) “A verdadeira e perfeita obediência é a virtude entre todas as virtudes, e nenhuma obra, por muito grandiosa que seja, poderá acontecer ou ser realizada sem esta virtude; no entanto, por muito pequena e insignificante que uma obra seja, ela será mais útil se for feita em verdadeira obediência, seja ela ler a missa ou ouvi-la, orar, contemplar, qualquer coisa que queiras imaginar. Por outro lado, toma uma actividade, a mais humilde que te aprouver, seja ela qual for: a verdadeira obediência consegue sempre o melhor em todas as coisas. Verdadeiramente, a obediência faz-te mais nobre e melhor. A obediência consegue sempre o melhor em todas as coisas. Verdadeiramente, a obediência nunca perturba nem impede aquilo que alguém faça, nada que provenha da verdadeira obediência; ela não descuida nada do que é bom. A obediência não precisa nunca de se preocupar, não lhe falta qualquer bem”.

Tratados e Sermões | Mestre Eckhart | Traduzido do original alemão por Jorge Telles Menezes | Ed. Paulinas | 2009 | 328 páginas

Mestre Eckhart (1260-1328), teólogo, filósofo e pregador dominicano. Nasceu na região alemã da Turíngia e terá morrido em Avinhão, mas não se conhece o seu túmulo. Escreve Fr. José Luís Monteiro, dominicano como o místico alemão, na Introdução: “Muitas questões foram colocadas sobre a ortodoxia e sobre o processo feito a Eckhart, inicialmente na cidade de Colónia, e, em seguida, em Avinhão. A sua linguagem paradoxal, linguagem de um teólogo, poeta e místico, vai o mais longe possível na elaboração da inteligência e da compreensão do mistério de Deus. Eckhart tem uma confiança quase ilimitada na potência do verbo” (pág. 21).

domingo, 30 de agosto de 2009

Clássicos 20: “Hipóteses sobre Jesus”, de Vittorio Messori


(Primeiras frases:) “De Jesus não se fala entre pessoas educadas. Juntamente com o sexo, o dinheiro, a morte, Jesus está entre os assuntos que criam mal-estar numa conversação civilizada. Demasiados séculos de «sagrado coração». Demasiadas imagens de sentimentais nazarenos de cabelos louros e olhos azuis; o Senhor das senhoras. Demasiadas primeiras comunhões apresentadas como «Jesus vem ao teu coraçãozinho». Não sem razão entre pessoas de bom gosto aquele nome soa como adocicado. É irremediavelmente tabu”.

Hipóteses sobre Jesus | Título original: Ipotesi su Gesú | Vittorio Messori | Edições Salesianas, 304 páginas, 1987


Dizem que Vittorio Messori (n. 1941) é dos autores católicos mais traduzidos no mundo. As suas principais obras, além destas “Hipóteses”, originalmente de 1977, estão em português: Opus Dei (1996), “Diálogos sobre a Fé” (1987; com o Cardeal Ratzinger), “Atravessando o Limiar da Esperança” (1994; entrevista a João Paulo II).

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Clássicos 19: "Sulco", de Josemaria Escrivá

(Primeiro parágrafo:) “1. São muitos os cristãos persuadidos de que a Redenção se há-de realizar-se em todos os ambientes do mundo, e de que deve haver algumas almas (não sabem quais) que contribuam para a realizar com Cristo. Mas vêem-na a um prazo de séculos, de muitos séculos… de uma eternidade, se se levasse a cabo ao passo da sua entrega. Assim pensavas tu, até que vieram «despertar-te»”.


Sulco | Título original: Surco | Josemaria Escrivá Balaguer | Diel | 2005, 384 páginas


Josemaria Escrivá de Balaguer (1902-1975), fundador do Opus Dei, escreveu esta obra para que na vida dos cristãos brilhem a generosidade, alegria, audácia, sofrimento, humildade, lealdade, disciplina, oração, trabalho, veracidade… “Sulco” é uma obra póstuma, publicada originalmente em 1986, composta por mil pequenos textos, de um ou dois parágrafos cada. No milésimo, o autor afirma: “Escrevo este número para que tu e eu acabemos este livro a sorrir, e sosseguem os bons leitores que, por ingenuidade ou malícia, tentaram ver cabalas nos 999 pontos de verdade, com uma verdade total, o «para sempre» de eternidade.
- E assim tens de viver tu, com uma fé que te faça sentir sabores de mel, doçuras de céu, ao pensar nessa eternidade que, esse sim, é para sempre”.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Clássicos 18: “A Visão de Deus”, de Nicolau de Cusa

(Primeiro parágrafo do prefácio:) “Se por vias humanas me abalanço a conduzir-vos às coisas divinas é necessário que o faça recorrendo a uma comparação. Mas entre as obras humanas não encontrei imagem mais conveniente ao nosso propósito do que a de alguém que tudo vê, de tal maneira que o seu rosto por subtil arte de pintura se comporta como se tudo olhasse em seu redor. Imagens destas encontram-se muitas optimamente representadas como a do archeiro no foro de Nuremberga, a que se encontra em Bruxelas no quadro preciosíssimo pintado pelo egrégio pintor Rogério, a que estás em Coblença na minha capela de Verónica, a do anjo que em Bressanone segura o brasão da Igreja e muitas outras espalhadas por todo o lado. Todavia para que vos não desfaleçais na prática que tal figura sensível exige, envio-vos, pelo afecto que vos tenho, o quadro, que pude obter, que representa a figura de alguém que olha tudo em redor, figura essa que chamo ícone de Deus. Pendurai-o num lugar qualquer, por exemplo na parede do lado norte, e colocai-vos, irmãos, à sua volta, à mesma distância dele, olhai-o e cada um de vós experimentará, seja qual for o lugar a partir do qual o contemple, que é o único a ser olhado por ele. Ao irmão que se encontra a oriente parecerá que aquele rosto olha na direcção do oriente, ao que se encontra a sul, que ele olha na direcção sul e ao que se encontra a ocidente que ele olha na direcção de ocidente”.

A Visão de Deus | De Visione Dei | Nicolau de Cusa | Fundação Calouste Gulbenkian, 1988 | 244 páginas | Tradução e introdução de João Maria André


Nicolau Krebs ficou conhecido por Nicolau de Cusa ou Cusano, por ter nascido em Cusa (Tréveris, Alemanha). Viveu de 1401 a 1464, ano da morte de Pio II, com quem colaborou (e esse foi o pretexto para me lembrar deste livro). A sua obra mais conhecida é “Da Douta Ignorância”.

“A Visão de Deus” é “um escrito cujo estilo, atingindo momentos de rara beleza, procura colocar o leitor num contacto privilegiado com a experiência mística da sua finitude imersa no horizonte inexaurível e inatingível da plenitude infinita de Deus e por ela iluminada no seu tacteante desejo de auto-superação numa projecção permanente para a fonte inesgotável de um olhar que é criação, vida e acto absoluto de todas as possibilidades da visão humanamente contraída”, escreve João Maria André na “Introdução” (pág. 103).

A obra foi dirigida aos monges beneditinos de Tegernsee, cidade bávara na fronteira com a Áustria. Em cartas datadas de 22 de Setembro de 1452 e de 14 de Setembro de 1453, Nicolau de Cusa promete enviar à comunidade monacal “uma reprodução do rosto de Cristo, cujo olhar parecia fixar-se no espectador, qualquer que fosse a sua posição, e acompanhá-lo em todas as suas deslocações”, escreve João Maria André (pág. 102-3). No final de 1453 (o ano da queda de Constantinopla), os monges recebem a imagem e o "De Visione Dei".

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Clássicos 17: “O Caminho da esperança”, de Francisco Xavier Nguyen Van Thuan


(Primeiras palavras:) “Se ainda estás amarrado com uma corrente de ouro, ainda não estás preparado para este caminho.

1. O Senhor conduz-te por este caminho para que tu possas «ir e dar fruto, um fruto duradouro» (cf. Jo 15,16).

O caminho chama-se «O CAMINHO DA ESPERANÇA» porque é belo como a esperança que o ilumina. Porque não havias de ter esperança, se te pões a caminho com Jesus, em direcção ao Pai?”

O Caminho da esperança | Il Cammino della speranza | Francisco Xavier Nguyen Van Thuan | Paulinas, 2007, 220 páginas.

Francisco Xavier Nguyen Van Thuan (Vietname 1928 – Roma 2002), nomeado bispo em 1967, passou 13 anos da prisão, logo após a nomeação como bispo coadjutor de Saigão (Ho Chi Minh). Este clássico da espiritualidade contemporânea, feito de 1001 pequenos textos (transcreveu-se o primeiro), foi escrito durante os 13 anos de cativeiro.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Clássicos 16: "Martinho Lutero, um destino", de Lucien Febvre


(Primeiro parágrafo:) “No dia 17 de Julho de 1505, pela manhã, um jovem leigo transpunha a porta do Convento dos Agostinhos de Erfurt. Tinha vinte e dois anos. Chamava-se Martinho Lutero. Surdo às objecções de uma roda de gente que já lhe antevia, como coroamento de estudos universitários bem começados, alguma carreira temporal lucrativa, ele vinha procurar no claustro um refúgio contra os males e os perigos do século. O acontecimento era banal. Parecia que só tinha importância para o aspirante ao noviciado, para os seus parentes, para alguns amigos de condição modesta. Ele continha em embrião nem mais nem menos que a Reforma luterana”.

Martinho Lutero, um destino | Martin Luther, um destin | Lucien Febvre | Asa, 1994, 288 páginas

Lucien Febvre (1878-1956) publicou esta obra em 1928. No ano seguinte, fundou com Marc Bloch os “Annales d’Histoire Économique et Sociale”, que marcaram a história até à actualidade.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...