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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Tarântulas

Falando da importância do acolhimento nas estruturas da Igreja, Jorge Bergoglio diz que "numa diocese havia uma secretária a que os paroquianos chamavam a tarântula" (pág. 77 de "Papa Francisco, Conversas com Jorge Bergoglio", nas Paulinas). Eu também conheci uma. Só uma, não com esse nome, mas com o mesmo efeito dissuasor.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

“Ter um espírito crítico é um grande serviço à Igreja”

“Ter um espírito crítico é um grande serviço à Igreja”, diz o vice-decano de Direito Canónico de Comillas, Madrid, numa entrevista sobre o delicado tema do direito canónico (o que inclui bispos sancionados e casamentos anulados), deixando claro que a pastoral importa mais do que as sanções. Ler aqui.

domingo, 15 de maio de 2011

O importante num bispo não será seguir o estilo de Jesus?

Um leitor anónimo comentou o texto sobre o bispo australiano D. William Morris. Porque comungo totalmente com o que o leitor diz (e é bom ouvir elogios) e coloca ainda mais questões, chamo para aqui o que deixou na caixa de comentários:
Parabéns pelo tratamento dado a este caso. É pena que a nossa imprensa tivesse ficado por meras referências telegráficas. Este bispo há-de ser recordado, num futuro que esperamos não muito distante, como precursor de uma profunda reforma na Igreja. 
No fundo, ele é removido por não seguir normas eclesiásticas. Mas o importante num bispo não será seguir o estilo de Jesus? Ora, em Jesus nada do que praticou D. Morris está desautorizado. É natural que o Papa tenha o seu pensamento. O que não é curial é que estigmatize quem pensa e age de modo diferente. 
Se a Igreja é o povo, com que legitimidade é que se afasta alguém apreciado pelo povo? Como é que se envia um bispo americano para estudar uma questão na Austrália? O que pensaria Jesus disto? E os apóstolos? Será que é na Igreja que menos encontramos Jesus? 
Só quando houver um grande clamor popular a Igreja mudará. Um clamor sereno, mas determinado poderá mudar muita coisa. O poder é sensível às multidões, e o poder eclesiástico gosta particularmente dos aplausos. Creio que foi Hans Kung (outro proscrito) que disse que, na Igreja, um não conta, cinco levam a pensar e cinquenta podem mudar uma situação. 
Depois, estes métodos de delação fazem lembrar os regimes ditatoriais. Ora, Jesus veio para nos libertar. Não pondo em causa a seriedade de João Paulo II, há que reconhecer que o seu modelo de Igreja não é o único. E não será o mais próximo de Jesus. E a santidade não pode ser aferida apenas pela relação com a instituição Igreja. A santidade decorre, antes de mais, do seguimento de Jesus. 
Parabéns pelo blog e continue a trazer para as clareiras o que está na penumbra.

domingo, 3 de outubro de 2010

Bento Domingues: Nova ordem pastoral

Bento Domingues escreve sobre os esforços da igreja católica portuguesa em repensar a sua pastoral. Deixa uma crítica perspicaz: “Se, porém, a preocupação primeira for a conexão entre tudo o que os diferentes grupos da Igreja já estão a fazer, corre-se o risco de confundir evangelização com operações centralizadoras”. Esta observação é, claramente, um exercício do espírito crítico que preconiza num dos últimos parágrafos e que tanta falta faz nas coisas eclesiais, onde se tende a abdicar do pensamento próprio em favor do pensamento dos superiores: “A má-língua nada tem a ver com o espírito crítico, que se caracteriza pela capacidade de ver, analisar e avaliar, isto é, saber destrinçar para decidir segundo todos os dados recolhidos. A má-língua é derrotista e paralisante. O espírito crítico, pelo contrário, ao não reproduzir velhas perguntas – perguntas velhas só podem trazer velhas respostas –, levanta questões que, pondo em causa falsas evidências, abrem o caminho à investigação do desconhecido”.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A gripe e a comunhão. Ponto final.

Não pretendo alimentar polémicas (se bem me lembro, a palavra vem do grego e quer dizer guerra), mas devem-se alguns esclarecimentos sobre a troca de palavras entre mim e José Vítor Malheiros (JVM).

1.º JVM fala do “exemplo do polícia”. Trata-se de uma referência ao polícia que anda de bicicleta e come sandes de alface e pepino versus o barrigudo que come hambúrgueres gordurosos. Uma jornalista dizia que se sentia mais segura com o segundo, mais capaz de pôr a sua pele em risco.

2.º Ele não sabe (e suponho que o mesmo acontece com a maioria dos que seguem este blogue) que sou jornalista. Pelo que, mesmo trabalhando num semanário humilde (mas 59 anos mais velho do que o “Público”), sei como funciona um jornal. Mas nunca concordaria que isso alguma vez pudesse dar-me legitimidade para opiniar sobre o trabalho de um jornalista. O que dá legitimidade é o facto de o ler. E pronto. Todos os leitores podem opinar sobre o que está escrito. Nisso creio que ambos concordamos.

Mas a condição de jornalista talvez dê mais propriedade para distinguir os géneros (o que, no entanto, não será exclusivo dos jornalistas) e afirmar que qualquer jornalista poderá escrever sobre factos, desde que os saiba interpretar, mas nem sempre estará suficientemente esclarecido para opinar sobre os factos (principalmente sobre os que não são da sua área; recuso-me a fazer uma crítica de futebol, embora perceba que ganha quem marca mais). A comparação é antiga, mas julgo que continua válida: quando se fala da Igreja, comete-se geralmente o mesmo erro que um crítico de arte (ou um historiador) cometeria se só analisasse os vitrais do lado de fora. É preciso entrar na igreja. A crítica eclesial a partir de fora sem dúvida que é legítima, e será muito significativa (poderia dizer “profética”) quando atinge as consequências sociais da fé cristã (JVM de alguma forma pode invocar que é disso mesmo que se trata), mas será sempre incompleta.

3.º Invoca o exemplo de Cristo e aí isto entra numa outra dimensão. Cristo tocou em doentes, principalmente em leprosos, que deixavam ritualmente impuro quem lhes tocasse, à face das leis antigas. Sem dúvida que havia o aspecto médico: o perigo de contágio; e o aspecto religioso: o ficar ritualmente impuro, logo impróprio para o culto.

Quando ao aspecto médico, não sei o que Cristo pensava. A minha cristologia diz-me que ele era plenamente humano, portanto, podia ficar doente. Não sei porque não ficou, não sei sequer se ficou ou não – os evangelhos são omissos –, mas tenho a certeza de que podia ficar. Não estava imune. E tinha que ter cuidados para não apanhar doenças. Deve ter tido varicela e sarampo quando era pequeno. E dor de dentes. E de barriga, se bem que a dieta mediterrânica seja das melhores. Será que teve cuidados para não apanhar doenças? Não sei. Talvez ele não tocasse em todos os doentes. Talvez ele tenha levado a pensar que em alguns doentes que parecia terem lepra podia-se tocar (tudo o que era doença de pele era tido como lepra; até as casas tinham lepra, quando apareciam manchas nas paredes e também elas tinham de submeter-se a rituais de purificação – vem no Antigo Testamento). Talvez a aproximação aos doentes tenha levado a pensar: destes podemos aproximar-nos; daqueles, não. E tenha levado à diferenciação dos tipos de doenças - a medicina!

Mas quanto ao aspecto religioso, é claro o que Cristo pensava. Ele veio para os pobres e doentes (e para os outro também, já agora). Ele veio para reintegrar os excluídos numa grande sociedade sob o olhar bondoso de Deus a que chamava Reino de Deus (ou dos Céus, segundo S. Mateus). Com o gesto de tocar em doentes (e também: comer com ladrões, cobradores de impostos, pessoas de má vida e outros das classes rasteiras; curar ao sábado; dizer que os últimos serão os primeiros; falar com mulheres e crianças…) queria mostrar que as doenças não deviam ser factor de exclusão (os leprosos – até por estratégia social – andavam de sineta ao pescoço e diziam: fujam de mim, fujam de mim que sou leproso). Ele queria dizer entre a lei e o ser humano há que optar pelo ser humano, mesmo quando a lei parece divina. Tocar, acolher, era (e é) o contrário de excluir, diabolizar.

Mas ele também disse que o cego não pode guiar outro cego (embora eu já tenha visto cegos a guiarem-se muito bem – os tempos são outros e as capacidades dos cegos evoluíram muito).

O máximo de prudência não é contrária à solidariedade. Como sabe, “prudência” é uma boa desculpa para, por vezes, não se fazer na Igreja o que deve ser feito (alguém disse uma vez que a palavra “prudência” era a que mais se ouvia nos paços episcopais). Mas, em termos de saúde, se a gripe A for a ameaça que dizem ser, prudência é o primeiro mandamento da solidariedade. Se todos ficarem doentes, que visitará os doentes? Quem lhes levará a Comunhão?

[Desculpe(m) se me alonguei.]

O jornalista do "Público" responde

Enviei ao jornalista do "Público" José Vítor Malheiros o comentário que neste blogue escrevi no dia 22 (aqui) e ele respondeu-me ontem:

Não sou católico nem sequer crente. E, naturalmente, não frequento a missa. Não penso que isso me deva inibir de comentar questões religiosas, como não imagino que o facto de não saber como funciona um jornal o deva inibir a si de comentar o que eu escrevo.

Não atribua qualquer sentido pejorativo à expressão "coisa". Não tem.

O meu texto apenas chama a atenção para a contradição entre a comunhão (em sentido lato) que a missa representa (e o gesto simbólico para com o desconhecido do lado) e os cuidados de higiene agora recomendados. Cristo não recomenda distância no tratamento dos doentes, nem sequer dos leprosos, cujo contágio se sabia já ser arriscado.

Por isso falo antes do exemplo do polícia. O texto põe lado a lado duas atitudes (prudência e assunção de risco, prudência e solidariedade), ambas positivas e mesmo meritórias, e chama a atenção para a contradição. O máximo de prudência é contrário à solidariedade. Pelo meu lado penso - e o texto diz - que a religião deve preocupar-se antes de mais com a solidariedade. É apenas uma questão de ângulo de abordagem e de prioridade. E penso que é essa a mensagem cristã.

Ninguém sugere que a Pastoral da Saúde dê conselhos contrários aos da DGS. Não pode ter lido isso no meu texto. Mas o que a DGS faz, por correcto e necessário que seja, não tem de ser o papel da Pastoral da Saúde. É verdade que é da Saúde, mas por alguma coisa é Pastoral.

jvm

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...