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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O lado espiritual de Máximo Ferreira


Máximo Ferreira (quem não despertou para a astronomia lendo as suas crónicas no "Público" na década de 90?) no final de uma entrevista do DN de hoje:

Falou em fé. Tem fé em Deus? Há muitos cientistas que acreditam?


Não. Devo confessar que por volta dos 17 anos fui quase ateu, mas depois, sem nenhum esforço, tornei-me simplesmente agnóstico. É uma questão que não tem que ver propriamente com a ciência. Há cientistas que se sentem bem com essa componente espiritual. Não tantos assim, mas há alguns. Há um indivíduo que é professor catedrático na Faculdade de Ciências, agora já jubilado, que é padre e ensinava Física Nuclear. Saía da faculdade no Príncipe Real e ia à Igreja de São Mamede dizer a missa. Não podemos é querer usar isso como argumento e dizer se aquele cientista acredita em Deus é porque Deus existe, ou o contrário. O lado espiritual está dentro da pessoa, pode contribuir para o seu bem-estar, não vejo mal. Agora, não preciso de Deus para as minhas coisas.


Nota: Julgo que se refere ao P.e João Resina, que morreu há uns anos (mais que jubilado, portanto). Mas se houver outro padre, prof. de Física numa universidade de Lisboa, que me emendem, p.f.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Teilhard entrou na grande missa cósmica há 60 anos


Está quase a fazer 60 anos que morreu Teilhard de Chardin. É na sexta-feira. Li um texto sobre o assunto aqui.

As suas relações com os seus superiores nem sempre foram fáceis e, com alguns dicastérios da Santa Sé, foram bastante problemáticas e não poucas vezes ameaçadoras e punitivas, porém, dois papas – Paulo VI e Bento XVI –, sobre o pensamento de Teilhard de Chardin, expressaram juízos de elogio e de alto interesse e apreciação.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

DN: Os perigos e as virtudes de combinar ciência com religião


No DN de hoje. Leia-se com atenção o depoimento de Carlos Filhais. Continuo a pensar que a afirmação de que o Big Bang precisa de Deus ou exige uma intervenção divina é infeliz. Como Fiolhais. Mas pelo que tenho lido noutros lados, a intervenção mais vasta do Papa parece ter em vista os criacionistas que não aceitam o Big Bang nem a teoria da evolução.

domingo, 28 de setembro de 2014

Anselmo Borges: "A ciência e o divino 3"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem.



Como vimos, Einstein afirmava-se como pessoa religiosa, mas acreditando no "Deus de Espinosa que se revela na ordem harmoniosa daquilo que existe e não num Deus que se interesse pelo destino e pelos actos dos seres humanos."

Há o mistério último da realidade, que se impõe. A pergunta é se se opta pela Natureza impessoal ou pelo Deus transcendente, pessoal e criador.

Compreende-se o fascínio da afirmação da Natureza como força geradora divina de tudo. Esta concepção é bem resumida pelo filósofo Marcel Conche, ao escrever que Deus é inútil, pois a Natureza cria seres que podem ter ideias de todas as coisas, inclusive da própria Natureza. Está a referir-se não à natureza "oposta ao espírito ou à história ou à cultura ou à liberdade", mas à "Natureza omnienglobante, a physis grega, que inclui nela o Homem. Essa é a Causa dos seres pensantes no seu efeito."

Esta concepção confronta-se, porém, com objecções de fundo. Ao divinizar a Natureza, põe em causa a secularização e, consequentemente, a liberdade. Depois, tem dificuldades em explicar como é que a Natureza, que é impessoal, dá origem à pessoa, como é que mecanismos da ordem da terceira pessoa acabam por dar origem a alguém que se vive a si mesmo como eu irredutível na primeira pessoa.

Neste domínio, houve recentemente um debate significativo entre o matemático P. Odifreddi e o Papa emérito Bento XVI. Na sua resposta ao livro de Odifreddi, "Caro Papa, ti scrivo", Bento XVI escreveu uma longa carta, em parte publicada no jornal "La Repubblica" de 24 de Setembro de 2013, na qual refere precisamente este debate. Textualmente: "Com o 19.º capítulo do seu livro, voltamos aos aspectos positivos do seu diálogo com o meu pensamento. Mesmo que a sua interpretação de João 1, 1 esteja muito longe do que o evangelista pretendia dizer, existe, no entanto, uma convergência que é importante. Mas se o senhor quer substituir Deus por "A Natureza", fica a questão: quem ou o que é essa natureza. O senhor não a define em lugar nenhum e, portanto, ela parece ser uma divindade irracional que não explica nada. Mas eu quereria sobretudo fazer notar ainda que, na sua religião da matemática, três temas fundamentais da existência humana não são considerados: a liberdade, o amor e o mal. Espanta-me que o senhor, com uma única referência, liquide a liberdade que, contudo, foi e é o valor fundamental da época moderna. O amor, no seu livro, não aparece, e também não há nenhuma informação sobre o mal. Independentemente do que a neurobiologia diga ou não diga sobre a liberdade, no drama real da nossa história ela está presente como realidade determinante e deve ser levada em consideração. Mas a sua religião matemática não conhece nenhuma informação sobre o mal. Uma religião que ignore essas questões fundamentais permanece vazia."

Evidentemente, quem acredita no Deus transcendente, pessoal e criador sabe que Deus não é pessoa à maneira das pessoas humanas, finitas. Deus também não é um Super-homem. O que se quer dizer é que Deus não é um Isso, uma Coisa. Como escreveu o teólogo Hans Küng, "Deus, que possibilita o devir da pessoa, transcende o conceito do impessoal: não é menos do que pessoa". Não esquecendo que Deus é e permanece o Inabarcável e Indefinível - Gregório de Nazianzo (330-390), doutor da Igreja, pergunta: "Ó Tu, o para lá de tudo, não é tudo o que se pode dizer de Ti?" -, pode dizer-se que é "transpessoal".

domingo, 21 de setembro de 2014

Anselmo Borges; "A ciência e o divino 2"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem:


É difícil, se não impossível, determinar qual a maior revolução da história da humanidade. Mas estaremos de acordo em conceder que a revolução científica no sentido moderno da palavra,se não foi a maior, está entre as maiores e decisivas.

A ciência exerce fascínio fundamentalmente por dois motivos. Um deve-se ao seu método empírico-matemático, de verificação experimental, que faz que seja verdadeiramente universal, não havendo, portanto, uma ciência para crentes e outra para ateus ou agnósticos. O outro: todos acabam por ser beneficiados pelas suas aplicações técnicas. O que devemos à ciência é incomensurável. Ela satisfaz a curiosidade natural do homem por saber, como bem viu Aristóteles, e também as suas outras necessidades: de saúde, bem-estar, locomoção, comunicação. Hoje, até se fala, mais propriamente, de tecnociência, pois a própria investigação científica precisa de tecnologia. Acrescente-se apenas que é preciso estar consciente dos perigos das tecnologias, como mostram as ameaças ecológicas.

É tal a dívida para com a ciência que se corre mesmo um risco e tentação: pensar que ela detém o monopólio da razão. De facto, não detém, pois a razão é multidimensional e há necessidades humanas a que a ciência não responde: por exemplo, a estética, a ética, a religião. O homem será sempre religioso, porque não deixará de colocar a questão do fundamento e sentido últimos.

Na continuação da semana passada, cito outros físicos eminentes na sua relação com o divino.

Max Planck: "Toda a matéria origina e existe apenas em virtude de uma força que leva a partícula do átomo a vibrar e mantém coeso este sistema solar muito diminuto do átomo. Devemos supor por trás dessa força a existência de uma mente consciente e inteligente."

Heisenberg: "Na história da ciência, desde o famoso julgamento de Galileu, tem sido repetidamente afirmado que a verdade científica não pode ser conciliada com uma interpretação religiosa do mundo. Embora eu esteja hoje convencido de que a verdade científica é inatacável no seu domínio próprio, nunca achei possível descartar simplesmente o conteúdo do pensamento religioso como parte de uma fase ultrapassada na consciência da humanidade, uma parte de que teríamos de desistir agora. Assim, no decurso da minha vida, tenho sido repetidamente obrigado a reflectir sobre a relação entre estas duas áreas do pensamento, uma vez que eu nunca consegui duvidar da realidade daquilo para que as duas apontam."

De Broglie: "Mesmo supondo a mais favorável das expectativas, que o amanhã sai do hoje de acordo com o jogo implacável de um determinismo estrito, a previsão de eventos futuros nas suas imensas densidade e complexidade vai infinitamente além de todos os esforços de que a mente humana é capaz e só seria possível a uma inteligência infinitamente superior à nossa. Portanto, mesmo que uma necessidade inexorável ligasse o futuro ao presente, poder-se-ia dizer que o futuro é um segredo de Deus."

Einstein respondeu à pergunta sobre se era uma pessoa religiosa: "Sim, sou, pode dizer isso. Tente penetrar, com os seus recursos limitados, nos segredos da natureza, e descobrirá que, por detrás de todas as concatenações discerníveis, resta algo de subtil, intangível e inexplicável. A veneração dessa força, que está além de tudo o que podemos compreender, é a minha religião. Nessa medida, sou realmente religioso."

sábado, 19 de outubro de 2013

Anselmo Borges "Ateísmo, agnosticismo, teísmo"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


A modernidade tem como característica fundamental a nova visão científica da realidade. A problemática é de tal modo decisiva que o filósofo e teólogo Javier Monserrat advoga a convocação de um Concílio para confrontar a fé com esse novo dado - ver "Hacia el Nuevo Concilio", de onde partem as reflexões que se seguem.

Alguns resultados estão alcançados. 1. Para a ciência actual, o universo todo, incluindo a consciência, "produziu-se pelas propriedades ontológicas e dinâmicas da matéria que foi produzida no big bang com altíssima densidade e energia". 2. Estamos em presença de um mundo real e aberto. 3. Este mundo aparece-nos ordenado finalisticamente. Trata-se de uma "ordem viva" e "ordem antrópica". De qualquer modo, apresenta-se como um mundo enigmático, sendo possíveis três conjecturas metafísicas: ateísmo, agnosticismo, teísmo.

Os autores ateus "mostraram que entender a consistência eterna de um universo sem Deus é possível". A ciência pode, segundo algumas teorias, conceber a auto-suficência do universo, "a sua consistência e estabilidade dinâmica num tempo eterno, sem fim".

Perante a impossibilidade de a ciência resolver com certeza as questões últimas, de ordem metafísica, o agnosticismo assume a ausência de resposta: trata-se de "um incompromisso filosófico". Respeita tanto o ateísmo como o teísmo. Provavelmente a percentagem de agnósticos é hoje muito mais elevada do que a dos ateus.

O ateísmo não pode ser excluído como "teoria possível". Mas o ateísmo não é evidente. Se o fosse, não haveria teístas, do mesmo modo que, se o teísmo fosse uma evidência, não haveria ateus. Perante um mundo obscuro e enigmático, tanto o ateísmo como o teísmo constituem uma "fé filosófica", uma "crença".

Também o teísmo apresenta razões para argumentar a favor da existência de Deus. Já não se trata de "demonstrar", mas de mostrar que a razão científico-filosófica torna verosímil a existência de Deus: "uma certeza moral livre da existência de Deus". 1. A hipótese de um Deus transcendente e criador enquanto fundamento da consistência, estabilidade e suficiência de "um universo que começa no tempo (a grande explosão) e que previsivelmente acabará numa morte energética e na sua dissolução final" surge como a mais verosímil. É defensável a hipótese de que "o fundamento do ser, a verdadeira realidade auto-suficente em si mesma e eterna, seja um ser divino transcendente que - com intencionalidade - "cria", "funda" o universo visível no seu fluir temporal finito". 2. O universo que autonomamente produziu a ordem física e biológica, conducente à liberdade, torna verosímil um desígnio racional de Deus enquanto criador. O teísmo actual não aceita o Deus tapa-buracos, mas, precisamente ao reflectir sobre a ordem "quase-racional" constatável, e, portanto, sobre as propriedades da matéria e as leis evolutivas que permitem produzir autonomamamente a ordem psicobiofísica e a sua orientação antrópica - porquê estas propriedades e leis e não outras? - ,constata que esta ordem, congruente com um fim inteligível, "torna verosímil a hipótese de que poderia estar causada pelo "desígnio" racional de uma Inteligência Criadora." 3. Esta verosimilhança é confirmada e aprofundada, quando se constata que o processo evolutivo dá origem no seu termo a seres humanos enquanto pessoas autoconscientes e livres. Não é mais razoável e inteligível o processo, se na sua raiz e como sua Causa está o Deus transcendente e pessoal, que cria livremente por amor? O teísmo actual "assumiria a superação do dualismo e identificar-se-ia com a lógica do emergentismo, incluindo a emergência do psiquismo humano, da razão e da sua especial abertura à Divindade", "que abarca o universo e o contém criativamente no seu interior". Este universo é um "universo para a liberdade", a partir de um "desígnio para a liberdade" e, portanto, do "princípio antrópico cristão", embora não se imponha como inevitável a "solução divina".

Tanto o ateísmo como o teísmo têm na base uma crença ou uma fé, com razões, devendo, portanto, ateus, agnósticos e teístas respeitar-se e dialogar.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Da importância da ciência

A ciência devia ser importante para nós não apenas porque nos ajuda a controlar partes do mundo,mas também porque nos mostra coisas que nunca dominaremos.

Alain de Botton, pág. 197 de "Religião para ateus"

sábado, 15 de dezembro de 2012

Anselmo Borges: "Ciência e religião: um desafio, não um conflito"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

George Coyne, s.j.

Ele sabe do que fala. É o jesuíta George Coyne, director emérito do Observatório do Vaticano, onde desempenhou um papel relevante no quadro das relações entre conhecimento científico e religião, dialogando com alguns dos mais prestigiados cientistas contemporâneos: Stephen Hawking e Richard Dawkins, entre outros.

Numa entrevista à US Catholic, defende precisamente que, mesmo que a Igreja nem sempre tenha sido dessa opinião, entre a ciência e a religião não há conflito, mas um desafio, ajudando ambas, desde que se trate da verdadeira fé religiosa e da verdadeira ciência, a compreender um universo dinâmico e criativo.

O universo é "um desafio incrível". Em primeiro lugar, lida-se com números avassaladores: o universo tem 13 700 milhões de anos - mil milhões é um seguido de nove zeros - e o número de estrelas existentes, nos cem mil milhões de galáxias, é um seguido de 22 zeros.

Neste universo gigantesco, não podemos, pois, excluir a existência noutras paragens de vida inteligente. E nós, como aparecemos nós? Isto aconteceu por acaso ou num processo necessário? Tudo foi por acaso ou por necessidade?

A sua resposta: "Segundo a ciência moderna, pelas duas coisas ao mesmo tempo: somos o resultado do acaso e da necessidade num universo fértil." O nosso Sol é uma estrela de terceira geração. Precisamos de três gerações de estrelas para conseguir uma capaz de fornecer os elementos necessários para a vida. É isso que se quer dizer com a fertilidade do universo: mediante processos físicos no universo, construir a química necessária para a vida.

É preciso contar com as leis da natureza. Por exemplo, quando dois átomos de hidrogénio se encontram, pode formar-se uma molécula de hidrogénio, mas também pode acontecer que não, devido às condições de temperatura e pressão. Não deve surpreender-nos que, por acaso, dois átomos se encontrem num momento em que as condições são adequadas, formando uma molécula de hidrogénio. Isso é "acaso", mas também é algo mais. Podemos determinar uma probabilidade de que isso aconteça. Nalgumas galáxias, é mais provável. É uma combinação de acaso e de necessidade, mas, num universo fértil, há muitas possibilidades de que isso ocorra.

Então, "com toda esta química à disposição durante 14 mil milhões de anos, o acaso e a necessidade trabalharam juntos para construir moléculas cada vez mais complexas. Assim, obtemos proteínas, aminoácidos e açúcares, ADN, fígados, corações, e, por fim, o cérebro humano, através da evolução biológica".

Conhecemos, portanto, o processo científico que nos levou a ser o que somos. Foi Deus que fez isto? "Falando como cientista, a minha resposta é: não sei." A ciência não tem possibilidade de responder. Posso ficar e fico surpreendido com a existência deste movimento. Para mim, como cientista, "o ser humano é um organismo biológico complexo" e "não posso falar sobre o seu carácter espiritual"; "como objectos materiais no universo, seria difícil para mim, como cientista, defender que somos especiais". A criação tem carácter evolutivo e há processos aleatórios, e não sabemos completamente para onde se dirige. Enquanto cientista, "também não posso falar de Deus", pois, nessa altura, não estaria a fazer ciência. "Creio que é muito importante na sociedade moderna, sobretudo na América, não confundir o que sabemos pela ciência com o que sabemos pela filosofia, a teologia, a literatura e a música."

Há cientistas que dizem que os crentes estão enganados, mas a maioria respeita profundamente a fé religiosa. Aliás, o próprio ateísmo "já é uma prática da fé", pois "um ateu não pode demonstrar que não há Deus". A experiência humana é mais ampla do que as explicações racionais, e "a fé vai para lá da razão, mas não está em contradição com a razão". G. Coyne acredita no Deus revelado por Jesus.

De novo: o homem é especial? "Ser especial enquanto peça material no universo é uma coisa; ser especial ao conhecer a história religiosa e viver uma vida cheia de fé é outra. Mas continua a ser um desafio."

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Ilha rodeada por um mar de ignorância

Vivemos numa ilha rodeada por um mar de ignorância. À medida que cresce a ilha do nosso conhecimento, também cresce a costa da nossa ignorância.

John Wheeler, físico falecido em 2008, citado por Miguel Esteves Cardoso no "Público" de hoje

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

"Como é estúpido defender o cristianismo"


John F. Haught

A história do cristianismo é mais uma história do sofrimento e da ignorância humanas do que uma história da resposta ao amor de Deus.
Sam Harris

Como é estúpido defender o cristianismo… Defender algo equivale sempre a desacreditá-lo.
Kierkegaard


Frases citadas por John F. Haught no último capítulo de “Diós e el nuevo ateísmo” (Sal Terra; índice e primeiro capítulo aqui). Este autor tem pelo menos uma obra em português, "Cristianismo e evolucionismo em 101 perguntas e respostas", na Gradiva.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Obrigação

Quanto mais aprendemos, mais assombrados ficamos ou devíamos ficar... A nossa a obrigação é aprender cada vez mais e assim separar a nossa mera ignorância do verdadeiro mistério.


Lewis Thomas

sábado, 14 de julho de 2012

Anselmo Borges: "A partícula de Deus"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Para que a teoria-padrão da Física fosse validada, estava previsto, desde há cerca de 50 anos, o famoso bosão de Higgs, para dar massa às outras partículas. No passado dia 4, festejou-se no CERN, porque, mesmo que se não tenha a certeza total da descoberta da célebre partícula, houve um novo avanço científico no sentido de percebermos melhor o mundo e nos entendermos melhor a nós próprios. Foi um acontecimento histórico, a ponto de Stephen Haw-king sugerir a atribuição do Nobel a Peter Higgs, que teorizou sobre a existência do bosão.
Peter Higgs

A linguagem jornalística refere-se ao bosão de Higgs como "a partícula de Deus" - claro, os físicos não o fazem. A expressão, se não estou enganado, vulgarizou-se e teve êxito, a partir do título de um livro do Nobel da Física, Leo Lederman, que devia chamar-se The Goddamn Particle (a partícula maldita), por causa da dificuldade em observá-la, mas que o editor, temendo o impacto ofensivo da palavra, pediu para mudar. Seja como for, o bosão de Higgs não é Deus, como, em ignorância apressada e atrevida, sugeriu uma jornalista, quando, num noticiário de uma rádio nacional, atirou: foi descoberta "a partícula que substitui Deus".

Alguns pensam que esta e outras descobertas diminuirão a importância de Deus na compreensão do universo. Mas é o físico Carlos Fiolhais, da Universidade de Coimbra, que tem razão, quando diz que "não haverá consequências para as crenças religiosas, pois desde o tempo de Galileu que a ciência é uma coisa e a religião é outra".

A ciência e a religião não só não são incompatíveis como são perfeitamente compatíveis, desde que se perceba o âmbito e o método de cada uma. A prova está em que há cientistas não crentes e cientistas crentes. O que é preciso entender é que a ciência como tal não é crente nem ateia. É pura e simplesmente ciência, de tal modo que crentes e não crentes avançam para o domínio científico em pé de igualdade, com métodos científicos. A ciência não demonstra a existência de Deus, mas também não demonstra a sua não existência. Não pode fazê-lo, porque Deus não é objecto de ciência, Deus não é da ordem do verificável empiricamente.

No plano da ciência, a questão de Deus não se põe. O que se passa é que os cientistas também são seres humanos, com múltiplos interesses e pondo questões em vários âmbitos, para lá do domínio científico. Por outro lado, a realidade é infinitamente complexa e exige múltiplas abordagens. Depois, a razão é multidimensional, de tal modo que se foi percebendo que a religião não é hegemónica - entendeu-se, por exemplo, que a Bíblia não é um livro de ciência, mas um livro religioso e que, mesmo se 46% dos americanos continuam a crer que a Terra e os humanos foram criados por Deus há menos de dez mil anos, não pode ser lido à letra, pois exige uma leitura histórico-crítica -, como também se superou o positivismo cientificista do século XIX, que pensava ter resposta para tudo - os físicos hoje já não têm a pretensão de uma "teoria de tudo", no quadro de uma equação que tudo explicaria.

Há, portanto, o ser humano que enfrenta a realidade nos seus múltiplos planos e com variados interesses e com metodologias diferentes. Costumo dar um exemplo simples, quase ingénuo. É evidente que um botânico, um químico, um artista, um poeta, um jardineiro, um casal romântico, um administrador, não encaram todos da mesma maneira um belo jardim botânico. Trata-se do mesmo jardim, mas perspectivado de modos diferentes. Com a realidade globalmente considerada passa-se a mesma coisa.

Existem, pois, várias abordagens para a realidade, com metodologias diferentes. Depois da suspeita de que se encontrou o bosão que Higgs previra, a ciência continuará num caminho interminável de investigação. E, para lá das vantagens tecnológicas que o saber científico nos traz, é fascinante conhecer pelo simples gozo de saber. E lá estará sempre aquela pergunta radical: Porque há algo e não nada? Qual o sentido último de tudo? Aqui, ergue-se a resposta filosófica e religiosa, e há uns que acreditam e outros não. De qualquer modo, a religião não é necessariamente o asilo da ignorância e da superstição.

terça-feira, 27 de março de 2012

Adivinhe quem disse (4)

"A fé leva à esperança e consegue ultrapassar o medo. A fé deu aos nossos antepassados a resistência de que precisavam para lidar com os mistérios (da presciência) do mundo. A fé é a linha que separa os humanos da maioria das outras espécies. Temos fé que o sol vai nascer amanhã, fé que as leis de Newton continuem a governar a forma de uma bola viajar, e fé que o tempo passado na universidade de medicina compensa daqui a 20 anos, porque a sociedade nessa altura vai continuar a precisar de médicos".


De quem são estas frases?
a) Walter Kasper, o teólogo
b) Anselm Grun, o monge empresário
c) Seth Godin, o marketeiro
c) George Weigel, o jornalista papista


Resposta: Seth Godin, na página 76 de "Tribos" (ed. Lua de Papel).

sábado, 10 de março de 2012

Anselmo Borges: Ciência, espiritualidade e justiça


Artigo de Anselmo Borges no DN de hoje.

Quando se fala da Igreja e do mundo, há, à partida, um equívoco fundamental: a Igreja e as pessoas na Igreja querem dialogar com o mundo, como se também elas não fossem mundo. Ora, há um só mundo, no qual vivemos todos. Os cristãos também vivem neste único mundo, mas a partir da perspectiva do Deus revelado em Jesus Cristo. E dialogam com os outros, dando e recebendo luz, na procura comum da verdade e do sentido.

O equívoco alarga-se e aprofunda-se com o perigo de os "quadros" da Igreja - padres, bispos, papa - poderem viver dentro de um mundo muito artificial: de modo geral, nascem dentro de famílias católicas tradicionais, são formados em ambientes fechados, seguem uma carreira sem riscos, não vivem intensamente o que constitui o grosso das preocupações das pessoas: emprego, filhos, casa...
Leandro Sequeiros

Foi, pois, para mim gratificante a entrevista de Leandro Sequeiros, um jesuíta que acaba de jubilar-se, após quase 50 anos vividos no meio universitário, a José Manuel Vidal. Trabalhou em cinco Universidades, dedicado sobretudo à Paleontologia. Daí, a afirmação: "A vida não se pode explicar a não ser a partir do ponto de vista da evolução."

Nunca deixou de acreditar em Deus. "A minha fé em Deus não é um puro assentimento racional a um credo abstracto. Deus não é uma ideia. Tão-pouco uma divindade difusa no oceano dos confins do cosmos, como defende a New Age. O meu ponto de partida é a adesão e o seguimento de Jesus de Nazaré. A sua relação com o Pai é que me ensinou a saber o que é Deus. Há uma experiência interior que se vai consolidando, encarnando e com que se convive amorosamente. O grande problema de muitos cientistas é que mantêm uma imagem infantil de Deus e essa imagem não se dá bem com a maturação de uma visão científica do mundo. O conflito cognitivo não se resolve e quebra na parte mais débil: a experiência interior. Sem vida interior, não é possível crer. Mas essa vida interior não é intimista, ausente da realidade. A experiência de Deus deve alimentar-se da experiência humana, do contacto com a vida, com a realidade dura, com as mordeduras na própria carne da injustiça de um mundo desigual. O clamor das vítimas sobe até Deus e alimenta a nossa consciência profunda."

Portanto, "ciência, liberdade e justiça não são três mundos incomunicáveis". Pelo contrário, "não se pode ser cristão, sem ser desesperadamente humano". A ciência sem espiritualidade está vazia, dizia Einstein, mas "uma espiritualidade que não brota do contacto com a vida, com as injustiças de inumanidade, não é espiritualidade". Assim, "todo o ser humano deve viver do seu trabalho. Para mim, a Universidade era, entre outras coisas, um posto de trabalho", dependendo de um contrato.

O nível intelectual está em baixa na Igreja? Algo que é fundamental: "Para poder exercer como intelectual, é necessário ter muita liberdade de espírito e muita maturidade. Com arrogância ou com medo, não se pode exercer de intelectual. E correm maus tempos para a liberdade."

Muitos dos seus contactos são pessoas que consideram a Igreja uma instituição longínqua. "Mas creio que da parte da Igreja há um excesso de preocupação com este assunto. A vida é muito mais ampla do que as capelinhas." Como ter afeição por instituições religiosas fechadas em problemas que nada têm a ver com a vida? "A vida humana plena e libertadora é muitas vezes maior e primaveril do que a que se oferece a partir das instituições." Como declarou António Gala, "desejo que, quando morrer, na minha lápide escrevam: 'morreu vivo'".

Convida à autocrítica: "aprendemos a viver num mundo plural e secular?" A verdade é que "sedução evangélica" só se vê em grupos à margem das Igrejas e das religiões. Por isso, "vários movimentos propugnam a convocação de um Vaticano III, e outros, mais ambiciosos, sonham com uma grande Assembleia inter-religiosa, na qual as religiões debatam o seu lugar nesta sociedade complexa". De qualquer modo, "ninguém deve ter privilégios: nem as Igrejas nem os partidos nem os políticos nem as culturas. Numa sociedade igualitária, são os Direitos Humanos que devem ser a norma de conduta".

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Debate entre Richard Dawkins e Rowan Williams


No dia 23 de fevereiro, teve lugar em Oxford um debate sobre "a natureza dos seres humanos e a questão da origem última" entre o cientista Richard Dawkins e o arcebispo anglicano Rowan Williams. Não é o primeiro diálogo entre estes dois antigos alunos de Oxford, o primeiro de Zoologia, o segundo de Teologia. Em 2008, Dawkins entrevistou Williams para o Channel 4.


Os bilhetes do Teatro Sheldonian esgotaram em poucas horas, no que será mais um sinal de que a questão religiosa volta a estar na ordem do dia em Inglaterra, como tem sido recorrentemente notado.


O debate, transmitido na net, pode agora ser visto aqui


As principais ideias estão resumidas neste blogue dos jesuítas de Braga.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Livros (2): Livros de fé, ciência e confusão

Crónica do professor de Coimbra, já com um mês de idade, a crónica, não o professor português que escreveu o artigo científico mais citado em revistas da especialidade, de leitura sempre instrutiva, sobre livros de fé e ciência. Saiu no "Sol" de 9 de dezembro de 2011.



Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...