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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Miguel Esteves Cardoso: Duvidar é bom

Miguel Esteves Cardoso no "Público" de hoje:

A educação é o que acontece quando se põem em causa a verdade e as verdades. Aprende-se a distinguir os factos (ou as observações) das verdades.

É um facto observado que alguém tirou um pão sem pagá-lo. Mas é a partir daí que não conseguimos impedir-nos de pensar mais; mais longamente; mais tarde. Será que a pessoa tinha fome? Será que a pessoa é contra o roubo? Será que é assim que se define o roubo e, por conseguinte, o ladrão?

O relativismo é muito atacado: por alguma razão é. Talvez seja porque é a maneira de o mundo sustentar muitas verdades adversárias ao mesmo tempo. É como os vários estilos do jazz: é por serem vários que são (ou, mais convincentemente ainda, não são) jazz.

A educação é a edificação da incerteza informada, curiosa e divertida. Só funciona se formos ambivalentes: se eu, por exemplo, não for capaz de suspeitar que têm valor estético as obras de arte (ou coisas) que me repugnam e afastam, torno-me num apreciador fanático e obstruído.

O relativismo é a única maneira inteligente de reconciliar verdades concorrentes que se deixam vitimar pelo desejo comum de vencer.

É a curiosidade — e a abertura solidária para se provar que estamos errados — que nos salva de termos certezas estúpidas.

A educação é o que nos prepara para não estarmos preparados. A certeza é a feição mais atraente da ignorância. Também a estupidez convencida e inviolável é o melhor antídoto para o remédio da sempre angustiada e céptica inteligência.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Poder de Deus

Afonso Annes, um trabalhador cristão-velho do Porto, foi acusado à Inquisição em 1559. Motivo: dizia "não poder estar Deus no ceo e na Igreja" ao mesmo tempo.

Terá a Inquisição considerado que o portuense limitava o poder de Deus ou tê-lo-á julgado como anticlerical?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Tome sempre o lado mais radiante da dúvida

Nada do que merece ser provado
é provado ou refutado. Portanto, seja sábio,
tome sempre o lado mais radiante da dúvida.


Alfred Tennyson (1809-1892)

sábado, 10 de setembro de 2011

Na incredulidade, a dúvida

Assim como o fiel é sufocado pela água salgada da dúvida que o oceano não pára de lançar na sua boca, assim também existe a dúvida que o incrédulo nutre a respeito da sua incredulidade e da totalidade real do mundo que ele resolveu erigir como o seu todo. Ele Jamais terá a certeza plena da completude de tudo o que viu e que declara ser tudo. Será sempre ameaçado pela pergunta: será que a verdadeira realidade não está na fé e no que ela proclama? Portanto, assim como o fiel se sabe constantemente ameaçado pela incredulidade que o acompanha como uma tentação sem fim, também a fé constitui para o incrédulo uma ameaça e uma tentação para o seu mundo aparentemente completo. Por outras palavras, não há como escapar do dilema da existência humana. Quem quiser fugir das incertezas da fé terá de suportar as incertezas da ausência de fé e nunca poderá dizer com certeza definitiva que a fé não é a verdade. Só na recusa da fé se revela a sua irrecusabilidade.


Joseph Ratzinger, "Introdução ao Cristianismo" (ed. Principia), pág. 21-22.

sábado, 4 de junho de 2011

A dúvida, a pergunta, o transcendente



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (4 de Junho de 2011):


Há um texto de Joseph Ratzinger, em 1968, ainda só professor, que dá que pensar. "Não há fuga possível ao dilema do ser humano. Quem quiser escapar à incerteza da fé terá de experienciar a incerteza da descrença, que, por sua vez, nunca pode dizer com certeza definitiva se não é a fé que é a verdade. Ninguém pode tornar Deus e o seu Reino evidentes aos outros nem a si mesmo. Tanto o crente como o não crente, se não se ocultarem a si próprios e à verdade do seu ser, participam, cada um à sua maneira, na dúvida e na fé. Nenhum deles pode escapar completamente à dúvida, nenhum pode escapar completamente à fé; para um a fé torna-se presente contra a dúvida, para o outro mediante a dúvida e sob a forma da dúvida. É a figura fundamental do destino humano: só poder encontrar a definitividade da sua existência nesta rivalidade sem fim de dúvida e fé, perplexidade e certeza. Talvez assim precisamente, a dúvida, que impede um e outro de se fecharem em si mesmos, possa tornar-se o lugar da comunicação. Ela impede-os de se encerrarem totalmente em si próprios, abre o crente ao que duvida e o que duvida ao que tem fé; para um é a sua participação no destino do descrente, para o outro a forma como a fé, apesar de tudo, permanece um desafio."


O ser humano é, constitutivamente, o ser da pergunta, do perguntar ilimitadamente, pois, estando nós referidos ao não-dito e indizível, toda a resposta é ela própria perguntável. Assim, quando se pergunta pelo próprio perguntar, isto é, pela perguntabilidade, não é difícil concluir que, em última instância, toda a pergunta tem como termo último o Infinito, de tal modo que, se se reflectir até à raiz, concluir-se-á que o fundamento último da dignidade humana é neste estar referido estrutural do ser humano ao Infinito que reside: nessa referência constitutiva do homem à questão do Infinito, se se quiser, à questão de Deus, precisamente enquanto questão (independentemente da resposta, positiva ou negativa, que se lhe dê), o homem aparece como fim e já não como simples meio. De facto, o que é que há para lá do Infinito?


A crise do nosso tempo é uma crise económica, financeira, de valores, uma crise moral, crise política, local e global... Mas, se se reflectir sempre mais fundo, a raiz dessa crise é uma crise filosófica. Mais do que de respostas, do que o nosso mundo precisa é de não obturar a pergunta, a pergunta insconstruível, porque radicada e referida ao Ser. Sem essa pergunta, assistimos à morte do próprio homem.


A dúvida coloca-nos ao mesmo tempo para lá dos dogmatismos fundamentalistas e dos cepticismos niilistas, pois põe-nos em marcha, na pergunta radical, para a busca da verdade. Com o eclipse dessa pergunta, desaparece o sentido do mundo e da dignidade humana, pois a humanidade sucumbe à imediatidade, a uma visão fragmentária do aqui e agora. Infelizmente, talvez seja isso que realmente está a acontecer, como constatou já o marxista heterodoxo e ateu religioso Ernst Bloch: "Está a concretizar-se o que Nietzsche profetizou para o século XX: Vamos ao encontro de uma época de terrível miséria. Com subprodução de transcendência."


Acumulamos racionalidade científica e técnica. Mas, então, ainda falta responder ao essencial do humano. Um ser humano atento pode dar-se conta de que a reflexão consciente sobre o eu como centro reflexivo e sobre os objectos pressupõe a sua apreensão vivida, pré-reflexiva, num fundo de um Ser omnicompreensivo, metafenoménico e inabarcável, pois é ele que tudo abarca. Precisamente dessa experiência de fundo, ainda que vaga, nascem as diferentes interpretações, da poesia às metafísicas, da ciência às religiões. Afinal, a experiência humana é mais vasta do que pretende a ciência experimental. Por isso, escreve com razão o filósofo F. Copleston que talvez se possa inverter a famosa frase de Wittgenstein: "os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo", dizendo: "os limites do meu mundo significam os limites da minha linguagem", entendendo aqui por "meu mundo" a experiência que estou disposto a reconhecer: mais estreita ou mais vasta.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Faça-se cristão e dormirá melhor à noite


“Faça-se cristão e dormirá melhor à noite”. Não se pode fazer da religião um mero acessório, útil para o nosso modo de viver. Deus não é um gel de banho ou a aromaterapia. A religião, a fé cristã, no caso, serve essencialmente para encontrar Deus, o sentido dos sentidos. E deve dar insónias quando, por exemplo, o próximo precisa de auxílio. No entanto, seria uma tragédia se a religião não melhorasse nada na vida. Qualidade de vida. E “se os cristãos foram vistos como pessoas livres de forma atraente e intrigante, os outros podem interessar-se em saber porquê e, por fim, interessar-se também no Deus que adoramos”, diz Timothy Radcliffe (baseado nas páginas 11-12 de "Ser cristão para quê?").

domingo, 17 de abril de 2011

Árvore

"Árvore da vida", de Gustav Klimt

Se não plantares uma árvore no teu coração,
não aparecer nenhum  pássaro para cantar.


Provérbio chinês

quarta-feira, 9 de março de 2011

Tem dúvidas sobre Jesus? O Papa responde na TV

Numa iniciativa inédita, o Papa vai à televisão pública italiana (RAI) responder a perguntas sobre Jesus Cristo. O programa, previamente gravado, é transmitido no dia 22 de Abril, Sexta-feira Santa, ao início da tarde, à hora provável em que Jesus morreu.

A “aparição” do Papa acontece no programa “A sua Immagine” (“À sua imagem”), que em breve vai abrir um espaço na Internet para captar perguntas dos telespectadores. O Papa responderá a três (não sei se o programa todo é sobre apenas três perguntas, ou se responde a três entre outras).

“Podemos escolher três perguntas especialmente significativas. Ou reagrupá-las por matérias para ver quais são os assuntos que mais interessam ao público”, afirmo Rosario Carello, apresentador do programa, ao “Corriere della Sera” (li aqui).

A ideia do Papa responder a perguntas dos ouvintes sobre Jesus é, digamos, estimulante. Se eu pudesse colocar uma pergunta ao Papa, qual seria?


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A história da minha vida não é acerca de mim

Não podemos narrar as histórias das nossas vidas. Seja qualquer for o seu sentido particular, está inserido nas história contada por Deus. Recordemos que – como observou Samuel Wells – os heróis são o centro das suas narrativas, mas os santos não passam de personagens secundárias num história que é de Deus. A história da minha vida não é acerca de mim.

Timothy Radcliffe na pág. 194 de "Ir à Igreja porquê?"

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A minha corcunda e as costas infinitas de Deus

Católico, sim ou não?
Um leitor deste blogue, do lado de lá do Atlântico (escrevo em Portugal), pergunta-me se sou católico. Um “sim” ou um “não” basta. Já lhe respondi há dias. Na altura não me lembrei de contar a anedota do corcunda que conta a toda a gente que é corcunda. Como se precisasse de o dizer. Pois eu sou um corcunda consciente. Mas não sabia que isso não se notava em quem me lê. O leitor brasileiro diz-me na volta que eu falo muito da “banda podre” do catolicismo. Talvez. E tenho simpatias pela insegurança antropológica luterana e pela segurança ontológica judaica – acrescento. Mas sou católico. Pensava que isso se notava pelas efemérides quase diárias e quase sempre papais. Pelas pontes que procuro entre culturas, ciências, artes e religiões. O católico sabe que há muitas moradas na Casa do Pai. Que o Papa é pontífice para lançar pontes. E cada um de nós, à sua maneira, também há-de lançá-las. Ou pelo menos atirar uma escada. Se for como a de Jacob, melhor. Ou permitir que subam pela corcunda. Talvez a minha corcunda seja pequena. 

Santidade pessoal e milagres
Já um amigo, do lado de cá do Atlântico, comentando o meu resumo do artigo de John Allen Jr. (aqui), sublinha que o norte-americano, antes de apontar os cinco pontos em comum nos turbo-santos, refere a “reputação de santidade pessoal e relatos de milagres”.

Claro. Que haja milagres é algo de admirável. Por vezes, como qualquer um, pergunto-me por que é que o Padre Américo não é santo. Ou Óscar Romero. Não conheço os dossiês. Mas suponho que falta o milagre. Já uma vez expressei a opinião de que dispensaria o milagre dos processos apostando na “santidade pessoal”. A expressão já diz tudo. Mas reconheço que é espantoso que aconteçam os milagres. E aceito o processo de canonização tal como está constituído, apesar de alguma objecção teológica à interferência directa de Deus nas nossas coisas tão humanas. Para mais, à primeira vista, por vezes, alguns milagres… Claro que não posso duvidar da comissão científica que os avalia. Mas estou a pensar num deles, até bem recente, que foi ridicularizado na imprensa portuguesa. Em resumo, tendo a pensar que os milagres são de facto um sinal divino extraordinário e, ao mesmo tempo, a querer que a proclamação dos santos seja algo mais eclesial, humano, deixando as costas de Deus livres de mais esta responsabilidade. Mas Deus tem umas costas infinitas.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

José Maria Castillo reflecte sobre o inferno

Esquema do Inferno de Dante

Desde que o Papa há dias falou do Purgatório (aqui), têm surgido comentários pertinentes à questão da vida depois da vida.

No blogue Teología Sin Censura (aqui em espanhol; aqui em português), José María Castillo apresenta as razões contra o inferno tal como tem sido concebido.

Falar de inferno como se costuma fazer nos catecismos e sermões de costume, com todo o respeito do mundo, eu não acredito que isso possa ser verdade. Por uma razão que, para mim pelo menos, é incontestável. O inferno, por definição, é um castigo eterno. Pois bem, um castigo (seja o que for) tem razão de ser como "meio" para algo (corrigir, melhorar, educar, defender os inocentes...), mas nunca pode ter razão de ser como "finalidade" em si mesmo. Um castigo, assim pensado e realizado, não pode ter sua origem na bondade, mas sim na maldade. Ou seja, um castigo assim não pode ter sido pensado por Deus, nem pode ser mantido por Deus. Um suposto castigo "divino", que, ao mesmo tempo, é concebido como "eterno", é uma contradição em si mesmo. Porque o "divino", que não pode ser entendido senão como bondade e fonte de bem, não pode ser causa e origem de um mal, que não tem mais finalidade em si mesmo do que fazer sofrer, ou seja, causar mal, dano e maldade. Porque, se é "eterno", não é "meio" para coisa nenhuma, mas sim algo cuja única finalidade é o sofrimento sem fim. Tornar Deus causador e responsável por isso é a agressão mais brutal ao "divino" que a mente humana pôde inventar.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Respondedor

Deus não tem respostas às questões. Fazer dele um respondedor é transformá-lo num computador. Mais vale negá-lo. Ele está onde vocês estiverem, quando vocês se libertarem e carregarem a libertação.

Jean Sulivan (1913-1980)

domingo, 24 de outubro de 2010

Leituras de Domingo: Dúvidas na velhice

Por vezes, os idosos vêm ter comigo e estão desesperados. Construíram toda a sua vida com base na fé, mas agora ela ameaça desaparecer. Tento, então, fazer-lhes valer que não têm culpa do que está a acontecer e que é completamente normal: as dúvidas do momento significam que estão a ser desafiados a escavar novas fundações para a fé. De seguida, convido-os a expressarem as suas dúvidas até ao fim. Em teoria, é possível que tudo o que pensamos de Deus seja fruto da nossa imaginação ou que a nossa ideia da vida eterna seja apenas uma ilusão. Mas, se seguirmos esta lógica de pensamento até ao fim, então tudo se torna absurdo. Pessoalmente, quando sigo esta linha de pensamento, sinto no fundo do meu coração um impulso que me leva a decidir com firmeza: «Aposto nesta carta. Confio na Bíblia, confio na liturgia, confio em Santo Agostinho e em Santa Teresa de Ávila». Face a todas as dúvidas, escolho a fé e a vida. Esta fé será contestada até à morte; porém é a fé que me ampara e que me ajuda a perceber as pessoas que se debatem por ela.

Anselmo Grün, A sublime arte de envelhecer e tornar-se uma bênção para os outros, Paulinas, pág. 142

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A louca esperança de Jean d’Ormesson

Jean d’Ormesson, o escritor/cronista/jornalista/ensaísta/dirigente de organizações que ocupa a cadeira número 12 da Academia Francesa (aqui), um dos 40 imortais que neste momento são 37, conhecido pela alegria e boa disposição, escreveu recentemente um livro de memórias, buscas espirituais, sistemas do mundo, cheio de ormessonismes, como escreveu um jornalista do "Le Point" (aqui), talvez uma espécie de testamento sobre a sua visão do mundo - julgo eu. O livro, “C'est une chose étrange à la fin que le monde”, fala frequentemente de Deus. "Je doute de Dieu parce que j'y crois. Je crois à Dieu parce que j'en doute. Je doute en Dieu".

Perto do fim, d’Ormesson escreve: “Cada um faz como quiser. Espero que haja, depois da morte, alguma coisa da qual não sei nada. Espero que haja, fora do tempo, um poder que, por aproximação e por maior simplicidade, podemos chamar de Deus. Não tenho outra fé do que essa louca esperança”.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Nem presunção nem enfermidade

Eu não gosto daqueles que falam de Deus como de um valor seguro. Também não gosto daqueles que falam dele como se fosse uma enfermidade da inteligência.

Christian Bobin (1951 -...)

domingo, 5 de setembro de 2010

E se a resposta a todas as questões for uma fórmula?

Bento XVI e Stephen Hawking em Outubro de 2008, num encontro do Papa com cientistas, no Vaticano. Sobre este encontro, ler aqui.

Um diz que não há lugar para Deus na criação. Outro diz que não há contradição entre acreditar em Deus e a ciência empírica. Parece que ambos têm razão. Talvez até estejam a dizer a mesma coisa. Deus nunca aparecerá nas fórmulas, teorias, hipótese e certezas da ciência. No dia em que isso acontecer, deixa de ser matéria de fé. E passa a estar fechado no mundo. Coisa de que Deus, manifestamente, não gosta, a não ser nas hipóteses de José Rodrigues dos Santos, um Deus natural (aqui).

Mesmo que a ciência responda a tudo, tudo, tudo do “como” (que é o seu objectivo), ainda faltará responder a tudo, tudo, tudo do “porquê” (que sai-lhe do seu campo). “Por que é que existe o tudo em vez do nada?” Mas se responder também à questão do “porquê”, faltará a do “para quê”. E se responder a todas essas questões terá depois de responder a esta: Onde arranjar sentido para o que andamos aqui a fazer?

Deus, pessoa, e a fé, que com ela nos relaciona, sempre nos deixam mais alternativas e matérias para discussão do que se a resposta for uma fórmula.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Como nasce um ateu

Esta é de António Alçada Baptista (1927-2008). Conta a certa altura, em "A cor dos dias", como Albino Terezo Genoveno, que era de perto de Alcobaça, perdeu a fé.

“A dúvida instalou-se na alma quando morreu o sacristão. Pensou: «Então aquele, na intimidade divina, a mexer nos paramentos, tu cá tu lá com o Altíssimo, e morre-me!» Com as dúvida nas entranhas, ela avantajou-se quando ouviu o padre dizer numa prática: «Caim matou Abel e fugiu para a terra dos vizinhos». Aí disse para dentro: «Dos vizinhos?! No tempo de Caim e Abel não havia vizinhos!»”

terça-feira, 18 de maio de 2010

Dificuldades não são dúvidas

Desde que me tornei católico, não tenho mudanças a registar. No meu coração, não tem havido qualquer inquietação. Evidentemente, estou longe de negar que há dificuldades intelectuais. Mas dez mil dificuldades não fazem uma dúvida de fé.

Uma pessoa pode estar preocupada por não conseguir resolver um problema matemático cuja resposta lhe é ou não dada, sem duvidar de que ele é susceptível de resposta ou de que determinada resposta é verdadeira.

De todos os artigos da fé, a existência de Deus é, para a minha própria apreensão, aquele que levanta maiores dificuldades e, contudo, é o que mais poderosamente se impõe ao nosso espírito.

Cardeal Newman. Adaptado das páginas 268-269 de “Apologia” (ed. Verbo)

John Henry Newman (Londres, 21 de Fevereiro de 1801- Edgbaston, 11 de Agosto de 1890) foi ordenado padre na Igreja Anglicana, mas converteu-se ao catolicismo em 1845, após um aturado estudo das origens do cristianismo. Foi nomeado Cardeal pelo Papa Leão XIII, em 1879. O seu processo de canonização está a decorrer.

sábado, 27 de março de 2010

27 de Março de 1923. Nasce Shusaku Endo, escritor japonês


Shusaku Endo (Tóquio, 27 de Março de 1923 – 29 de Setembro de 1996) foi baptizado em 1935, aos 12 anos, após a conversão da mãe, que se separara do pai em 1933. Endo estudou Literatura Francesa em Lyon e deixou uma obra romanesca marcada pelo catolicismo. Comparam-no a Graham Greene pelas temáticas. Em Portugal, estão publicadas pelo menos duas dobras, “Uma vida de Jesus” (na Asa) e “Silêncio” (na D. Quixote).
“Silêncio” aborda a história do missionário português Cristóvão Ferreira, líder dos jesuítas no Japão, que apostatara nas perseguições de Tokugawa, e a subsequente investigação dos missionários Sebastião Rodrigues, Francisco Garrpe e Juan de Santa Maria. Trata-se de um romance sobre a fé e a dúvida, com base em acontecimentos reais.
Há tempos correu a notícia de que Martin Scorsese estava a realizar um filme sobre esta história com Daniel Day-Lewis, Gael García Bernal e Benicio Del Toro nos principais papéis. Até a Rádio Vaticano falou do assunto (aqui).

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...