"O ateísmo é uma paisagem árida demais para que se viva nela muito tempo", escreveu Paul Arden.
Quando um ateu ou agnóstico me diz
- pois, mas vocês acreditam em algo, têm uma vantagem, sempre têm algo que vos ajude...
tenho de lhe responder
- não é uma vantagem, é um fraqueza; infelizmente não somos tão autossuficientes ou autoconfiantes como vocês.
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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
sábado, 16 de agosto de 2014
Recuperando do évola: "My focus, however, remains the same - to follow God"
Kent Brantley e a sua mulher, Amber
A boa notícia do dia é que pode ter sido encontrada a cura
para a febre hemorrágica do évola. Kent Brantly está praticamente curado,
depois de o Hospital Universitário de Emory (Atlanta) lhe ter administrado um
soro feito a partir da planta do tabaco geneticamente modificada.
Quando estava na Libéria e percebeu que tinha adoecido com o
ébola, Kent Brantly isolou-se e, contou mais tarde, percebendo que ia morrer,
teve um “sentimento profundo de paz, para além de qualquer compreensão”.
When I started feeling ill on that Wednesday morning, I immediately isolated myself until the test confirmed my diagnosis three days later. When the result was positive, I remember a deep sense of peace that was beyond all understanding. God was reminding me of what He had taught me years ago, that He will give me everything I need to be faithful to Him.
Agora que está quase curado, escreveu na página da Bolsa doSamaritano que está agradecido a Deus “pela sua misericórdia”.
I am growing stronger every day, and I thank God for His mercy as I have wrestled with this terrible disease.
Kent Brantly trabalha para a Samaritan’s Purse, uma
organização dos cristãos evangélicos. Ele e Nancy Writebol (que está a
recuperar, ainda que mais lentamente), estavam como médicos missionários na
Libéria.
Now it is two weeks later, and I am in a totally different setting. My focus, however, remains the same - to follow God. As you continue to pray for Nancy and me, yes, please pray for our recovery. More importantly, pray that we would be faithful to God’s call on our lives in these new circumstances.
Na terça-feira, morreu em Madrid o padre Miguel Pajares, da
Ordem Hospitaleira de São João de Deus, que também tinha estado na Libéria, tratando
de doentes com évola.
Pode ser da minha visão seletiva, mas os que estão com os
mais desgraçados estão porque veem neles Jesus Cristo – algo bem difícil ou impossível para quem não tem os olhos da fé. Aliás, as duas coisas são intercambiáveis. Não vi Donald Trump fazer barulho pelo repatriamento de ninguém
da Associação Ateia ou da Liga Humanista.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
sábado, 19 de outubro de 2013
Anselmo Borges "Ateísmo, agnosticismo, teísmo"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:
A modernidade tem como característica fundamental a nova visão científica da realidade. A problemática é de tal modo decisiva que o filósofo e teólogo Javier Monserrat advoga a convocação de um Concílio para confrontar a fé com esse novo dado - ver "Hacia el Nuevo Concilio", de onde partem as reflexões que se seguem.
Alguns resultados estão alcançados. 1. Para a ciência actual, o universo todo, incluindo a consciência, "produziu-se pelas propriedades ontológicas e dinâmicas da matéria que foi produzida no big bang com altíssima densidade e energia". 2. Estamos em presença de um mundo real e aberto. 3. Este mundo aparece-nos ordenado finalisticamente. Trata-se de uma "ordem viva" e "ordem antrópica". De qualquer modo, apresenta-se como um mundo enigmático, sendo possíveis três conjecturas metafísicas: ateísmo, agnosticismo, teísmo.
Os autores ateus "mostraram que entender a consistência eterna de um universo sem Deus é possível". A ciência pode, segundo algumas teorias, conceber a auto-suficência do universo, "a sua consistência e estabilidade dinâmica num tempo eterno, sem fim".
Perante a impossibilidade de a ciência resolver com certeza as questões últimas, de ordem metafísica, o agnosticismo assume a ausência de resposta: trata-se de "um incompromisso filosófico". Respeita tanto o ateísmo como o teísmo. Provavelmente a percentagem de agnósticos é hoje muito mais elevada do que a dos ateus.
O ateísmo não pode ser excluído como "teoria possível". Mas o ateísmo não é evidente. Se o fosse, não haveria teístas, do mesmo modo que, se o teísmo fosse uma evidência, não haveria ateus. Perante um mundo obscuro e enigmático, tanto o ateísmo como o teísmo constituem uma "fé filosófica", uma "crença".
Também o teísmo apresenta razões para argumentar a favor da existência de Deus. Já não se trata de "demonstrar", mas de mostrar que a razão científico-filosófica torna verosímil a existência de Deus: "uma certeza moral livre da existência de Deus". 1. A hipótese de um Deus transcendente e criador enquanto fundamento da consistência, estabilidade e suficiência de "um universo que começa no tempo (a grande explosão) e que previsivelmente acabará numa morte energética e na sua dissolução final" surge como a mais verosímil. É defensável a hipótese de que "o fundamento do ser, a verdadeira realidade auto-suficente em si mesma e eterna, seja um ser divino transcendente que - com intencionalidade - "cria", "funda" o universo visível no seu fluir temporal finito". 2. O universo que autonomamente produziu a ordem física e biológica, conducente à liberdade, torna verosímil um desígnio racional de Deus enquanto criador. O teísmo actual não aceita o Deus tapa-buracos, mas, precisamente ao reflectir sobre a ordem "quase-racional" constatável, e, portanto, sobre as propriedades da matéria e as leis evolutivas que permitem produzir autonomamamente a ordem psicobiofísica e a sua orientação antrópica - porquê estas propriedades e leis e não outras? - ,constata que esta ordem, congruente com um fim inteligível, "torna verosímil a hipótese de que poderia estar causada pelo "desígnio" racional de uma Inteligência Criadora." 3. Esta verosimilhança é confirmada e aprofundada, quando se constata que o processo evolutivo dá origem no seu termo a seres humanos enquanto pessoas autoconscientes e livres. Não é mais razoável e inteligível o processo, se na sua raiz e como sua Causa está o Deus transcendente e pessoal, que cria livremente por amor? O teísmo actual "assumiria a superação do dualismo e identificar-se-ia com a lógica do emergentismo, incluindo a emergência do psiquismo humano, da razão e da sua especial abertura à Divindade", "que abarca o universo e o contém criativamente no seu interior". Este universo é um "universo para a liberdade", a partir de um "desígnio para a liberdade" e, portanto, do "princípio antrópico cristão", embora não se imponha como inevitável a "solução divina".
Tanto o ateísmo como o teísmo têm na base uma crença ou uma fé, com razões, devendo, portanto, ateus, agnósticos e teístas respeitar-se e dialogar.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
O que nos resta?
Se removermos Deus desta equação, que é que nos resta? Humanos aos berros a apelar em vão a um céu vazio.
Alain de Botton na pág. 187 de "Religião para ateus"
domingo, 9 de junho de 2013
sábado, 4 de maio de 2013
Anselmo Borges: "O bispo R. Williams enfrenta o ateu R. Dawkins"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje ( e no final o vídeo do debate Williams/Dawkins & others):
1-Não tem faltado aqui, nestas crónicas, a denúncia das patologias da religião. Como ser insensível ao sofrimento das vítimas da pedofilia do clero? Vítimas de escrúpulos, vítimas da humilhação intelectual, vítimas da intolerância religiosa, de um deus mesquinho e escravizador... O historiador católico Jean Delumeau escreveu: "As minhas investigações convenceram-me de que a imagem do Deus castigador e vingativo foi um factor decisivo para uma descristianização cujas raízes são antigas e poderosas".
Parece que, enquanto pôde, o clero controlou a vida sexual dos fiéis, a ponto de outro historiador, Guy Bechtel, afirmar que a fractura entre a Igreja católica e o mundo moderno se deu na teoria do sexo e do amor, com uma confissão inquisitorial centrada na actividade sexual.
Será preciso lembrar os homens e mulheres que foram assados nas fogueiras da Inquisição e não só, porque tinham ideias novas? E houve o medo-pânico da mulher, que se chegou a acusar de manter relações sexuais com o diabo. E os livros considerados heréticos também foram queimados. E houve as cruzadas, as guerras de religião, a missionação forçada. Pio VI condenou essa "detestável filosofia dos Direitos do Homem". Pio IX condenou expressamente a evolução como uma aberração. No século XX, o teólogo E. Drewermann escreveu: "Há 500 anos, a Igreja recusou a Reforma; há 200, o Iluminismo; há 100, as ciências naturais; há 50, a psicanálise. Como viver com tantas rejeições?"
Apesar de tudo, creio que é inegável que, no cômputo geral, o saldo é superior a favor da religião, nomeadamente do cristianismo. E não estou sozinho nesta apreciação.
2-Cada quarta-feira, a Cambridge Union Society, um clube de debate ligado à Universidade de Cambridge, realiza um debate sobre temas actuais. No passado dia 31 de Janeiro, com a presença de mais de 800 pessoas, sendo a maioria constituída por estudantes universitários, o tema era debater a necessidade da religião neste século, a partir das seguintes perguntas: "A religião é compatível com a vida do século XXI? Como pode conseguir-se que encaixe com as leis e os valores modernos? E se fosse compatível, a religião faz mais bem do que mal?"
Para o debate, partindo da premissa, "A religião não tem espaço no século XXI", foram convidados vários intervenientes, entre os quais o arcebispo Rowan Williams, que deixou há pouco a liderança da Igreja Anglicana, e o biólogo Richard Dawkins, ateu convicto e apóstolo do ateísmo a nível mundial.
Segundo R. Dawkins, a religião é "redundante e irrelevante", para lá de "uma traição à inteligência, uma traição ao melhor de nós, ao que nos torna humanos", continuando: "parece responder à pergunta enquanto a não examinas e te dás conta de que o não faz. Espalha explicações falsas, quando se poderia ter oferecido explicações reais, explicações falsas que obstaculizam a iniciativa de descobrir explicações reais." No contexto científico, funciona como um "charlatão pernicioso". Em suma: a sociedade funcionaria melhor, se as religiões estabelecidas desaparecessem.
Para R. Williams, a religião "foi sempre uma questão de construir comunidades, uma questão de construir relações de compaixão e de inclusão". A questão fundamental é ver qual deveria ser a atitude que se tem para com ela. Os direitos das pessoas "têm profundas raízes" nas comunidades de fé. "A Declaração dos Direitos Humanos não teria sido o que é se não tivesse havido o debate filosófico e religioso." Assim, o respeito pela vida humana e a igualdade são inerentes a todas as religiões organizadas. Por isso, pretender que "o compromisso religioso deve ser um assunto meramente privado vai contra a história da religião".
No final, depois de todas as intervenções, parte do público votou. Aí, os favoráveis à afirmação "a religião não tem espaço no século XXI" saíram derrotados: 136 contra 324. A religião autêntica pratica o amor, faz comunidades, oferece transcendência e sentido final. Mas é claro que, também no domínio da religião, se não pode abandonar a presença da razão crítica.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Esteves Cardoso fala do batismo do neto
Miguel Esteves Cardoso no "Público" de ontem. Um condensado de teses religiosas. Como geralmente é a vida.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
"Como é estúpido defender o cristianismo"
John F. Haught
A história do cristianismo é mais uma história do sofrimento
e da ignorância humanas do que uma história da resposta ao amor de Deus.
Sam Harris
Como é estúpido defender o cristianismo… Defender algo
equivale sempre a desacreditá-lo.
Kierkegaard
Frases citadas por John F. Haught no último capítulo de “Diós e el
nuevo ateísmo” (Sal Terra; índice e primeiro capítulo aqui). Este autor tem pelo menos uma obra em português, "Cristianismo e evolucionismo em 101 perguntas e respostas", na Gradiva.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
D 02 - O demónio pode possuir quem não acredita nele?
Charles Baudelaire
O debate sobre o diabo acabou. A minha investigação, não,
mas o debate neste blogue, sim, porque os meus amigos pró-crença no diabo e nos
demónios, ou na doutrina tradicional do diabo e dos demónios (DTDD), incluindo possessões,
debandaram. É um bom sinal porque assim aproveitam melhor o tempo. Pena não me
terem convidado para um exorcismo, ao contrário do que prometeu um deles.
Não chegaram a citar aquela frase de Baudelaire que diz que “a
maior astúcia do diabo é fazer-nos crer que ele não existe”, até porque ela já havia
sido citada neste blogue. Nem aquela de Papini que diz que “a última astúcia do
diabo foi a de espalhar a notícia da sua morte”, talvez porque, segundo dizem
as estatísticas, o diabo está a regressar em força, pois rege-se por vagas e
tendências, e os exorcistas não têm mãos a medir em certas épocas.
Às duas frases acima há que dizer, com Jean Vernette, que cita
a frase sem dizer quem é o autor, que “os demónios só esperam uma coisa,
especialmente em teologia: é que os achem apaixonadamente interessantes e que
os levem a sério, sistematicamente, se possível”.
Não levar a sério. Rir é o melhor remédio contra os
demónios? Ou quanto mais acreditamos neles, mais eles estão presentes? E não
crer neles? Não será também um remédio contra o seu poder?
Muitos dizem que o ateísmo puro, a negação radical, a “aversão
pronunciada pelos valores religiosos”, é sinal da possessão demoníaca (juntamente
com outros, como as levitações; infelizmente as coisas só levitam quando não há câmaras a filmar para pôr no Youtube). Mas gostava de colocar a questão ao contrário: Alguma vez alguém
que não acredita no demónio foi objeto de uma possessão?
É que uma ideia perniciosa
(um “demónio”) a que se dá credibilidade pode levar uma pessoa a mostrar-se “possuída” por aquilo em que
acredita, deixando patentes os ditos sinais da possessão. Ouvi um exorcista todo-o-terreno
contar que lida principalmente com pessoas que antes de encontrarem o demónio
andavam pela superstição e em ambientes parecidos, em sítios onde não deviam
estar se tivessem uma fé um pouco mais, digamos, esclarecida. Mas quem não
acredita mesmo nada no demónio pode ser possuído por ele? Estarão os ateus mais bem preparados para não ceder às insídias do demónio? Serão estas questões banais?
quinta-feira, 15 de março de 2012
Adivinhe quem disse (2)
Quem escreveu isto?
"Se o fiel pode realizar a sua fé sobre o oceano do nada, da tentação e da dúvida, sendo o oceano das incertezas o único lugar possível da sua fé, devemos admitir, dialeticamente, que o descrente, por outro lado, também não pode ser visto simplesmente como um ateu".
a) Joseph Ratzinger
b) Hans Kung
c) Olegario Cardedal
d) Henri de Lubac
Veja a resposta aqui (selecione): Joseph Ratzinger, na página 31 de "Introdução ao Cristianismo", ed. Principia, 2006.
"Se o fiel pode realizar a sua fé sobre o oceano do nada, da tentação e da dúvida, sendo o oceano das incertezas o único lugar possível da sua fé, devemos admitir, dialeticamente, que o descrente, por outro lado, também não pode ser visto simplesmente como um ateu".
a) Joseph Ratzinger
b) Hans Kung
c) Olegario Cardedal
d) Henri de Lubac
Veja a resposta aqui (selecione): Joseph Ratzinger, na página 31 de "Introdução ao Cristianismo", ed. Principia, 2006.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Ateus empenhados
Num espaço curto de anos, surgem:
Pequeno catecismo do Ateu (1903)
Pequeno Catecismo Popular do Livre-Pensador (1902) (na imagem, uma 5.º edição, de 1904)
Catecismo do Livre-Pensador (1877)
Contra-Catecismo Elementar (1913)
Este último, de Antoine Serchl, é ao estilo pergunta e reposta, como o "Catecismo de Pio X", de 1905 (todos os que têm mais de 40 anos e andaram na catequese lembram-se pelo menos de uma pergunta / resposta da versão resumida: "- Onde está Deus? - Está no céu, na terra e em toda a parte").
Um excerto do Contra-Catecismo de Antoine Serchl:
- É cristão?
- Não, sou livre-pensador
- O que é um livre-pensador?
- O livre-pensador é aquele que apenas acredita e admite a autoridade da ciência
...
- Não é só Deus que tem o poder de criar e de destruir?
- Não creio em Deus.
- Porquê?
- Porque para acreditar em Deus é preciso situá-lo no tempo e no espaço e então será material, ou seja, já não é Deus.
Fonte: História do Ateísmo, de Georges Minois, aí pelas páginas 560-570.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Ateísmo como opção de crença
Hoje é Dia do Orgulho Ateu
porque neste dia, há 113 anos, nasceu Charles Darwin (que não era ateu, mas
agnóstico).
No Brasil, o dia está a ser assinalado pelo primeiro encontro
nacional de ateus, o qual tem sido algo criticado não por crentes em religiões,
mas por ateus. Dizem os ateus críticos que os colegas ateus fervorosos começam a confundir o
ateísmo com uma religião (alguns até querem templos). O ateísmo como opção de crença. Crença na negação. Por outro lado, repete-se o apelo de Richard Dawkins
para que os ateus saiam do armário.
Com o dia do "orgulho ateu" e este apelo, parece-me até que os ateus imitam mas é o movimento
gay. Li aqui.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Anselmo Borges: Deus e a pergunta final
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):
Quatro momentos de uma reflexão sobre Deus, o Homem, o niilismo e a pergunta final.
1. Conta-se que uma vez alguém se aproximou de Buda e lhe perguntou: "Deus existe?" Buda respondeu: "Sim". Depois de comer, veio outra pessoa, que queria saber: "Deus existe?" E Buda disse: "Não, não existe." No final da tarde, uma terceira pessoa veio com a mesma pergunta: "Deus existe?" "Terás de decidir isso tu próprio", respondeu Buda. "Mestre, que absurdo!", disse um dos seus discípulos. "Como podes dar respostas diferentes à mesma pergunta?" "Porque são pessoas diferentes", res- pondeu o Buda, o Iluminado. "E cada uma delas aproximar-se-á de Deus à sua maneira: através da certeza, da negação e da dúvida."
Jean Paul (1763-1825)
2. No ano de 1796, Jean Paul escreveu um dos textos mais sublimes e ao mesmo tempo mais terríveis da grande literatura alemã: Rede des toten Christus vom Welgebäude herab, dass kein Gott sei (Discurso do Cristo morto, desde o cume do mundo, sobre a não existência de Deus).
Nele, o grande escritor descreve um sonho. Pela meia noite e em pleno cemitério, numa visão apavorante, o olhar estende-se até aos confins da noite cósmica esvaziada, os túmulos estão abertos, e, num universo que se abala, as sombras voláteis dos mortos estremecem, aguardando, aparentemente, a ressurreição. É então que, a partir do alto, surge Cristo, uma figura eminentemente nobre e arrasada por uma dor sem nome. E, com um terrível pressentimento, "os mortos todos gritam-lhe: 'Cristo, não há Deus?' Ele respondeu: 'Não, não há Deus.' Então, a sombra de cada morto estremeceu, e umas a seguir às outras desconjuntaram-se. E Cristo continuou, anunciando o que aconteceu no instante da sua própria morte: 'Atravessei os mundos, subi até aos sóis, voei com as galáxias através dos desertos do céu; e não há Deus. Desci até onde o ser estende as suas sombras, e olhei para o abismo, gritando: 'Pai, onde estás?' Mas apenas ouvi a tormenta eterna, que ninguém governa". Quando, no espaço incomensurável, procurou o olhar divino, não o encontrou; apenas o cosmos infindo o fixou petrificado "com uma órbita ocular vazia e sem fundo, e a eternidade jazia sobre o caos e roía-o e ruminava-se". O coração rebentou de dor, quando as crianças sepultadas no cemitério se lançaram para Cristo, perguntando: 'Jesus, não temos Pai?' E ele, debulhado em lágrimas, respondeu: 'Somos todos órfãos, eu e vós, não temos Pai'. "Nada imóvel, petrificado e mudo! Necessidade fria e eterna! Acaso louco e absurdo! Como estamos todos tão sós na tumba ilimitada do universo! Eu estou apenas junto de mim. Ó Pai, ó Pai! Onde está o teu peito infinito, para descansar nele? Ah! Se cada eu é o seu próprio criador e pai, porque é que não há--de poder ser também o seu próprio exterminador?"
Para Jean Paul, a morte de Deus não é ainda um destino espiritual inevitável, mas apenas a tentação de uma possibilidade ameaçadora, contra a qual quer prevenir. Quando acordou do pesadelo ateu, a sua alma "chorava de alegria, por poder de novo adorar a Deus - e a alegria e o choro e a fé nele era a oração".
3. Um século depois (1882), o louco de Nietzsche proclamou a morte de Deus: "O louco saltou para o meio deles e trespassou-os com o olhar. 'Quem vos vai dizer o que é feito de Deus sou eu', gritou! "Quem o matou fomos todos nós, vós mesmos e eu!"
"Nunca existiu acto mais grandioso." Mas, ao mesmo tempo, Nietzsche não se mostra completamente eufórico. "Para onde vamos nós, agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?"
4. O filósofo Gilles Lipovetsky escreveu, comentando, que Deus morreu e os homens não estão preocupados com isso. Mas outro filósofo, Leszek Kolakowski, disse que desde então nunca mais houve ateus serenos.
Lá está, pelo menos, a pergunta dos versos de H. Heine: "E continuamos perguntando,/uma e outra vez,/até que um punhado de terra/nos cale a boca./Mas isto é uma resposta?"
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Grande Interregno dos valores
G. Gusdorf citado por Georges Minois citado por A. Borges no livro aqui referido:
A humanidade do ano 2000 "vive no Grande Interregno dos valores, condenada a uma travessia do deserto axiológico de que ninguém pode prever o fim".Georges Gusdorf, um francês de ascendência alemã e judaica, nasceu em 1912, em Bordéus, e morreu no dia 12 de outubro de... 2ooo. Mais uma ideia dele aqui.
sábado, 14 de janeiro de 2012
Anselmo Borges: Secularização e destino da Europa
"Como viu o filósofo Georges Gusdorf, "Deus morreu, a História enlouqueceu, o Homem morreu: tudo fórmulas desesperadas que exprimem a tomada de consciência, e o ressentimento, da ausência de sentido". Não colocando sequer a questão de Deus enquanto questão, que é a questão do sentido último, a Humanidade europeia sucumbe ao imediatismo, a uma visão fragmentária do aqui e agora, sem horizonte de ultimidade. Aí está então a falta de força anímica, de projecto, de futuro. Thanatos toma conta da Europa".
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.
Aí está um tema fundamental. Mas, quando se reflecte, é necessário perceber que há vários sentidos de secularização.
1. O primeiro sentido - secularização vem do latim saeculum (mundo) - tem a ver com a autonomia das realidades terrestres. A Bíblia é essencialmente dessacralizadora da natureza, da história e da política, precisamente porque a criação ex nihilo por Deus, pessoal e transcendente, criando, não por necessidade, mas livremente e por amor, implica a autonomia das criaturas.
Este sentido de secularização é particularmente importante para a política, que deve estar separada da religião. O Estado deve ser laico e não confessional. Jesus tinha dito: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." Mas também as ciências, a economia, a filosofia, a própria moral são autónomas, com as suas próprias leis, sem pedir legitimação à religião.
2. Há um segundo sentido de secularização. Tem a ver com aquele processo mediante o qual, concretamente na modernidade, se pretendeu realizar no mundo o Reino de Deus. A modernidade ainda era teológica, na medida em que queria, pela razão, pela ciência, pela técnica, pelo progresso ilimitado, trazer para a imanência, realizando-as, ideias religiosas da fé cristã: messias, salvação, consumação da história - o Além deveria realizar-se no aquém. Pense-se em Feuerbach, Marx, Condorcet, Bloch... O seu ateísmo era de algum modo "positivo", no sentido de que não negava Deus pura e simplesmente: o que queria era realizá-lo no mundo e na história intramundana.
3. Que sucedeu no nosso tempo? As grandes esperanças da modernidade ruíram. O "socialismo real" faliu, o progresso científico-técnico põe problemas graves, sobretudo por causa da ecologia, a razão já se não encontra divinizada, assiste-se ao fim das meta-narrativas - só há pequenas histórias, o pensamento é débil (il pensiero debole, de G. Vattimo). Assiste-se assim a uma crise geral de Deus, na medida em que a descrença parece normal - pelo menos na Europa, já não se sabe se Deus existe ou não, e reina a indiferença, numa sociedade que já é, em grande parte, pós-cristã.
Consequências: encontramo-nos cada vez mais inseguros e assiste-se ao aumento do consumo de drogas e antidepressivos. A perspectiva é cada vez mais pragmática - o que interessa é o aquém sem Além: a vida depois da morte já não parece sequer ser problema. Continua a festa do consumo, mas os europeus andam cada vez mais insatisfeitos. Não há filhos nem futuro. É a desorientação e a consumação do niilismo.
A actual situação é fruto do terceiro sentido de secularização: secularização da secularização, isto é, fim da secularização moderna e secularismo radical. Deste modo, a questão essencial é precisamente a crise dos valores e do sentido. Como viu o filósofo Georges Gusdorf, "Deus morreu, a História enlouqueceu, o Homem morreu: tudo fórmulas desesperadas que exprimem a tomada de consciência, e o ressentimento, da ausência de sentido". Não colocando sequer a questão de Deus enquanto questão, que é a questão do sentido último, a Humanidade europeia sucumbe ao imediatismo, a uma visão fragmentária do aqui e agora, sem horizonte de ultimidade. Aí está então a falta de força anímica, de projecto, de futuro. Thanatos toma conta da Europa.
Isto tem, evidentemente, repercussões também na economia e na democracia. Para quê poupar, por exemplo, e investir no futuro? Václav Havel, um dos europeus mais lúcidos do século XX, preveniu: "Pela primeira vez na História, assistimos ao desenvolvimento de uma civilização deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos". "A transcendência é a única alternativa à extinção." E o agnóstico M. Gauchet disse: "O que ameaça a democracia, hoje, é o vazio, a futilidade, o esquecimento, a facilidade, o curto prazo, a superficialidade. As religiões, e o cristianismo em particular, têm o sentido do essencial, do trágico, do mistério da aventura humana, coisas que a democracia facilmente ignora. Elas podem ser decisivas para a democracia."
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Os bons e os maus ateus
Ainda a propósito de Christopher Hitchens, veja-se este
texto de Giacomo Galeazzi no “Vatican Insider”, aqui traduzido. Acontece, de
facto, que os crentes são mais capazes de dialogar com os ateus abertos (alguém
já lhes chamou “mancos”, porque lhes falta qualquer coisa e é nessa qualquer
coisa que se encontram com os crentes) do que com os ateus missionários, os que
combatem militantemente a fé/religião. Os bold são meus.
E Hitchens ficou de fora do Átrio dos Gentios. Faltou o convite do Vaticano para um intelectual anticonformista e um espírito livre. No post Consigli a un giovane ribelle do seu blog Parola & Parole, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura conta: "Eu não consegui convidar Hitchens para entrar no Átrio. Teria me agradado a ideia de dialogar com [ele] fora de polêmicas e atitudes preconcebidas, isto é, como methórios, assim como definia o sábio Filão de Alexandria".
E, acrescenta, "é precisamente essa a ideia do Átrio dos Gentios: um espaço aberto à luz, em que se encontram e se desencontram o absurdo e o mistério, a pura racionalidade e o 'Tu Desconhecido'. Espero que a morte tenha sido para ele 'uma porta que se escancara e irrompe o futuro', retomando o aforismo de Graham Greene que ele tanto gostava de citar. Seria, para ele, como entrar em uma nova infância".
O purpurado parte de uma referência a outro grande laico: "Para Mitterrand que perguntava: 'Em cinco minutos, diga-me a substância da sua experiência de filósofo', Jean Guitton respondia: 'É a escolha entre duas soluções: o absurdo e o mistério'". E, especifica o cardeal, "Christopher Hitchens tinha escolhido a primeira solução, denunciando a religião como 'a principal fonte do ódio neste mundo'. Insistia Mitterrand: 'Mas qual é a diferença? O mistério também parece absurdo'. E Guitton: 'Não, o absurdo é um muro impenetrável contra o nos batemos em um suicídio. O mistério é uma escada: sobe-se de degrau em degrau rumo à luz, esperando'", para depois concluir: "Como homem de fé, a minha esperança é de ver o jovem rebelde voltar-se à luz e subir de degrau em degrau até o oceano de amor em que todo o ódio do mundo imerge".
Porém, com apenas dois meses de vida pela frente, o polemista britânico Christopher Hitchens desferiu um último e duro ataque contra o Vaticano, acusando-o de cumplicidade com os regimes totalitários dos anos 1930 na Europa. Hitchens, ateu militante até a sua morte na semana passada [15 de dezembro] por causa de um tumor no esôfago, defendeu, na última entrevista com Richard Dawkins na New Statesman, que todo governo fascista da Europa daquela época era, na realidade, um "partido católico de extrema direita".
Para Hitchens, autor de Deus não é Grande, "quase todos esses regimes chegaram ao poder com a ajuda do Vaticano e com a compreensão da Santa Sé". O polemista defendeu as suas posições como uma batalha contra todo totalitarismo, seja de direita, seja esquerda: "O totalitarismo para mim é o inimigo: aquele que quer ter o controle sobre o que você pensa, não só sobre as suas ações e os seus impostos. E a origem disso é teocrática".
Não foi apenas Hitchens que ficou de fora do Átrio dos Gentios. Outros ateus ilustres ficaram de fora: por exemplo, Richard Dawkins, Piergiorgio Odifreddi e Michel Onfray. Odifreddi também escreveu um longo artigo em que manifestou seu próprio desacordo: "Na visão não só de Ravasi, mas de toda a Igreja Católica – escreveu – há ateus 'bons' e ateus 'maus'. Os melhores dentre os bons são aqueles como Cacciari: isto é, aqueles que não são ateus por nada e servem como útil cobertura laicista nos debates entre aqueles que acreditam abertamente e aqueles que acreditam de forma escondida. Se esse juízo parece impiedoso, basta olhar no YouTube o recente vídeo de Massimo Cacciari e Piero Coda em diálogo. Aqui, diálogo significa, na realidade, monólogo do primeiro, inserido entre duas frases do segundo. E qualquer um pode julgar por si só se as palavras de Cacciari sobre a Trindade são as de um ateu ou de um perfeito crente, como, aliás, confirma a opinião do teólogo. É óbvio que o cardeal Ravasi prefere escolher como interlocutores, para a passarela do Átrio dos Gentios, filósofos crentes em vez de matemáticos ateus. Até porque com os primeiros ele pode livremente desviar o discurso sobre assuntos como vida e morte, bem e mal, amor e dor, verdade e mentira, liberdade, solidariedade, bioética, medicina, economia".
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
João César das Neves sobre Christopher Hitchens
João César das Neves escreveu na segunda-feira passada, no DN, sobre o "cavaleiro do Apocalipse" Christopher Hitchens, que morreu no dia 15 de dezembro passado.
O ateísmo é a doutrina religiosa com o dogma de que Deus não existe. Embora se considere científica é uma crença como as demais, pois relativamente à divindade o ser humano nada conhece. A única coisa que podemos é formular convicções. Eu acredito que Deus existe, Hitchens tinha a certeza que não, mas ninguém realmente sabe. Um dia veremos, mas então será demasiado tarde.
…
(…) Existe aqui uma assimetria curiosa. Se eu escrever algo contra uma fé alheia ou atacar o ateísmo, sou intolerante e fanático. Mas um ateu que critique abertamente a religião e até faça disso carreira profissional, manifesta liberdade de expressão. Durante muito tempo atacar a Igreja era, não perseguição e chauvinismo, mas suprema prova de democracia e humanismo. Os mais ferozes anticlericais chamavam a si mesmos "livre pensadores".
O "novo ateísmo" caracteriza-se precisamente por esta dureza contra a religião, o que é compreensível por várias razões. Primeiro por ser comum em crenças pequenas e inseguras. Depois porque este novo ateísmo tem de viver na evidência do fiasco do antigo. Até há cem anos todos os pensadores cépticos acreditavam piamente na morte próxima da religião e num futuro ateu, crença que falhou redondamente.
Acima de tudo, o ateísmo é a certeza de que a vida não tem sentido e a morte é o nada. Por isso era tão importante observar o fim de Christopher Hitchens. Este autor, a quem os conhecidos descrevem com uma personalidade encantadora, sabe agora se a sua aposta é certa ou errada. Como pessoa religiosa, rezo sinceramente pela alma que ele achava não ter. Faço-o confiante no sentido de humor do Senhor do universo, que deve esmerar-se em receber com especial delicadeza aqueles que pessoalmente O negam.
Ler tudo aqui.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
3 de Janeiro de 1962. Fidel Castro é excomungado
Fidel Castro nas Nações Unidas, em 1962
Se fosse depois do II Concílio do Vaticano, duvido que Fidel
Castro tivesse sido excomungado. Mas o concílio só começaria uns meses mais
tarde. Aliás, nesta altura, ainda havia a ideia de que um concílio novo não era
necessário porque não havia heresias novas a condenar nem dogmas a declarar.
Fidel Castro foi excomungado no dia 3 de Janeiro de 1962,
por João XXIII, no seguimento de um decreto de Pio XII, de 1949, que determinava
a excomunhão dos católicos que se declarassem marxistas-leninistas.
Ora Fidel, batizado
na fé católica, antigo aluno de jesuítas, além de se proclamar comunista e de determinar
que o Estado cubano é ateu (desde 1992 é “laico”), expulsou 131 padres e fechou
escolas católicas.
Entretanto as coisas mudaram, tanto em Roma como em Havana,
e em 1998, a quando da visita de João Paulo II, Fidel Castro assistiu com o seu
governo a uma missa, a primeira desde a infância – dizem (li aqui).
A excomunhão não foi levantada, mas isso não deverá tem
qualquer influência na visita de Bento XVI a Cuba no final do próximo mês de
Março.
Nota: A partir de hoje vou seguir o Novo Acordo Ortográfico para a língua portuguesa.
Nota de 2 de abril de 2012: Afinal, Fidel Castro não está excomungado. Ver aqui.
Nota de 2 de abril de 2012: Afinal, Fidel Castro não está excomungado. Ver aqui.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
"Vivemos na primeira civilização ateia", diz Vaclav Havel
“Vivemos na primeira civilização ateia, por outras palavras,
numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade”, disse Vaclav
Havel (1936-2011) na abertura da 14.ª Conferência do Forum 2000, em Praga, e
repetiu uma série de vezes, como recordou Jorge Almeida Fernandes, num artigo
do “Público” no sábado passado, a propósito da morte do estadista checo (18-12-2011).
Quando li estas palavras, pensei que se referia à realidade
checa. O seu país é o que tem maior número de ateus na Europa – facto abundantemente
recordado a quando da visita de Bento XVI à República Checa, em Setembro de
2009. Mas Havel pretendeu abarcar a realidade europeia e mesmo mundial. Disse em
2007 ao “Nouvel Observateur” (em relação a Vaclav Havel cito sempre o mesmo
texto do “Público” de 24-12-2011) que a sua grande preocupação não era o
terrorismo: “É a dinâmica suicidária da evolução da nossa civilização
planetária”. Neste sentido geográfico, o checo concordaria com Marcel Gauchet,
que afirmou em 2004 que o séc. XXI se anunciava como “o século da marginalização
social e política do cristianismo”. Isso já acontece na Europa, a qual, diz o
francês, “neste ponto, anuncia o futuro”.
Porquê “dinâmica suicidária”? Havel: “É como se estivesse
obstinada em perseguir objectivos de curto prazo, quando a sorte do planeta
exige um mais agudo e voluntário sentido de antecipação”. E ainda: “Pela primeira
vez na História, assistimos ao desenvolvimento de uma civilização
deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos”. Noutro momento afirmou: “A transcendência
é a única alternativa à extinção”. Esta frase não anda longe de outra de Remi Brague
à revista católica “30 Giorni”: “O ateísmo não mata os homens, mas impede que
eles nasçam”. Sociedade sem horizontes de futuro, principalmente meta-histórico,
transcendência, não se reproduzem. Outra vez Havel: “O Ocidente democrático
perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar
como seus. (…) O pragmatismo dos políticos que querem ganhar eleições futuras,
reconhecendo a vontade e os humores duma caprichosa sociedade de consumo,
impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e
trágica da sua própria linha de acção. (…) Uma nova divindade tende a suplantar
o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e
de um consumo incessantemente crescentes”.
Havel não se considerava crente – “sou apenas meio crente” –,
mas estava convencido de que “há um ser, uma força velada por um manto de
mistério”. “É o mistério que me fascina”.
Novamente Gauchet, que é agnóstico, para terminar, não sobre
a sociedade, mas sobre a democracia numa sociedade pós-cristã: “O que ameaça a
democracia, hoje, é o vazio, a futilidade, o esquecimento, a facilidade, o curto
prazo, a superficialidade. As religiões e o cristianismo, em particular, têm o
sentido do essencial, do trágico, do mistério da aventura humana, todas as
coisas que a democracia facilmente ignora. Elas podem ser decisivas para a
democracia”.
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