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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Bispo confrade dos rojões

No JN de hoje. É curioso que por todo o lado surjam confrarias gastronómicas. Da broa, das migas, do bacalhau, dos rojões, da chanfana, do vinho desta e daquela região. E as confrarias implicam ritos e fardas. Pensava eu que os homens e as mulheres seriam cada vez mais alheios a este tipo de coisas.


Agora parece que  D. Manuel Clemente vai ser confrade dos rojões. Vai ter que comer e, provavelmente, vestir o gabão ou lá o que é e pôr um secular e ridículo chapéu. O que um bispo tem de sofrer.

sábado, 25 de junho de 2011

Anselmo Borges: As 'sopas' do Espírito Santo

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Várias vezes Natália Correia me desafiou para as festas do Divino Espírito Santo, nos Açores - ela era espírito-santista. Então, não foi possível. Mas este ano aconteceu.
É capaz de ser a festa mais humanista do mundo. Ah!, aquela coisa dos "impérios"! Chegue quem chegar, senta-se e come e bebe fartamente, sem que alguém lhe pergunte quem é, donde é, o que faz. De graça. No "império" a que me acolhi, lá estava o espírito: "A hora de repartir/Que a gente tanto gosta./Pão, carne, massa e vinho/Temos sempre a mesa posta." Ali, foram servidas mais de 600 "sopas" (um ensopado de carne excelente).
Se formos à procura da origem destas festas, encontraremos um monge célebre do século XII, Joaquim de Fiore, que deu o joaquimismo. Segundo ele, a História do mundo está dividida em três Idades: a Idade do Pai ou da Lei, que é a idade da servidão e do medo; a Idade do Filho, que é a idade da submissão filial; a Idade do Espírito Santo, na qual se ia entrar, e que é a idade do Amor, da Liberdade e da Fraternidade.
Houve sempre, ao longo da história da Igreja, um conflito entre os que acentuam o lado visível, institucional, hierárquico, e os que sobrepõem à Igreja visível uma Igreja espiritual, carismática, fraterna. O joaquimismo constituía uma mensagem revolucionária de contestação de uma Igreja pecaminosamente mundana; os franciscanos "espirituais" - fraticelli (irmãozinhos) -, desgostados com os Papas que abafavam o Espírito, aderiram à inspiração carismática, espírito-santista do joaquimismo.
Em 1282, D. Dinis casa com D. Isabel de Aragão, a futura Rainha Santa. O casamento realizou-se em Trancoso, que, significativamente, havia de ser a terra do sapateiro Bandarra, profeta do Quinto Império, tão querido do Padre António Vieira e Fernando Pessoa. Toda a família da nova rainha de Portugal era partidária dos frades espirituais, e a própria rainha possuía um conceito franciscano da vida: simplicidade, desapego dos bens terrenos, amor aos pobres e fracos. Santa Isabel protegia os franciscanos, e foi por seu intermédio que entrou um culto especial ao Espírito Santo. Fundaram-se confrarias do Espírito Santo, irmandades de socorro mútuo, e instauraram-se as Festas do Império do Espírito Santo, nas quais se celebrava o Pentecostes, comemorando a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos.
A principal cerimónia desse culto, durante a semana do Pentecostes, realizada por um franciscano, constava da coroação com três coroas, uma imperial e duas reais, do Imperador e dois Reis, geralmente na pessoa de uma criança e dois homens do povo pertencentes à Confraria do Espírito Santo. O Imperador, um menino, símbolo da humanidade renovada, religada às verdades básicas da pobreza evangélica e do amor ao próximo, empunhava o ceptro com que, tocando na fronte, se significava a bênção do Espírito Santo, e, depois de ter recebido as homenagens da população e das autoridades civis, militares e religiosas "fora" da igreja, procedia à libertação dos presos e à distribuição do pão, não como esmola, mas como preâmbulo da instauração na Terra da era da fraternidade profetizada.
Esta Festa dos Imperadores generalizou-se e encontramo-la em muitos pontos do País, mas de modo especial em Tomar e a sua Festa dos Tabuleiros ou do Divino Espírito Santo. Aqui, no fim da procissão, há a distribuição do bodo aos pobres.
Mas as festas do Divino Espírito Santo enraizaram sobretudo nos Açores e, por causa da emigração, em vários núcleos portugueses dos Estados Unidos e do Canadá. Nos Açores, temos as chamadas Igrejas "paralelas", de que ainda hoje é possível encontrar vestígios. No quadro das celebrações religiosas, continuam com lugar destacado as Festas do Divino Espírito Santo e do "Império", procedendo-se à coroação de uma criança, que segue na procissão com o ceptro, sendo igualmente de destacar as referidas "sopas". A soçobrar na crise, é bom lembrar estas Festas da Fraternidade universal. A utopia tem duas funções essenciais: criticar o presente e obrigar a transformá-lo. Outro mundo é possível.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O cheiro do hambúrguer no jejum do Ground Zero


Alguns dominicanos americanos decidiram comemorar o primeiro aniversário do 11 de setembro com um mês de jejum, consumindo apenas água. (…) Acampávamos em Union Square, imediatamente a norte do Nível Zero, e todos os dias falávamos com centenas de pessoas que vinham interrogar-nos e ler os nossos panfletos. Muitos judeus e muçulmanos juntaram-se a nós em oração, três vezes ao dia. O que me admirou foi que o significado simbólico do jejum foi imediatamente compreendido, mesmo pelos jovens – com excepção daquele rapaz que, todos os dias, vinha comer o seu hamburger com batatas fritas para junto de nós, e o hambúrguer tinha cada dia um cheiro mais delicioso.

Timothy Radcliffe, "Ser Cristão para quê?" (ed. Paulinas), pág. 34

domingo, 17 de abril de 2011

17 de Abril de 1885. Nasce Karen Blixen

A escritora dinamarquesa Karen Blixen, que também assinava com o pseudónimo Isak Dinesen, autora do livro que esteve na origem do filme “África Minha”, nasceu no dia 17 de Abril de 1885 e morreu no dia 7 de Setembro de 1962.

Lembro-a aqui porque é autora do maravilhoso conto “A festa de Babette” (uma frase à sorte: “Pode a soma de uma série de vitórias, espalhadas por muitos anos e muitas nações, ser uma derrota?”). Ou como um manjar francês pode quebrar o gelo dos circunspectos protestantes. Deu origem a um filme. O Vaticano considera-o um dos melhores de sempre (aqui).

quarta-feira, 30 de março de 2011

O que dizem de Jesus: Falou e fala


Cristo pronunciou uma vez a sua palavra, mas fá-la ressoar a cada instante, alimentando a esperança de todos.

Diego Fabbri (1911–1980), dramaturgo italiano

sexta-feira, 25 de março de 2011

Ir ao culto engorda? Um estudo indica que sim

Veio no "Público" de hoje e consigo imaginar várias razões para que a participação em actos de culto engorde, desde o "se não comes tudo, o Menino Jesus fica triste", argumento que os não religiosos não deverão usar (e muitos dos cristãos também não, como é evidente), à compra de bolos para ajudar as obras da igreja ou outra causa social. Mais um estudo de uma universidade americana, por coincidência, a mesma do Illinois que dizia que as religiões vão desaparecer em alguns países (aqui). 

sexta-feira, 11 de março de 2011

História para estes tempos de jejum e esmola


No séc. XVIII, um judeu piedoso e rico foi visitar um rabino, o Pregador (Maggid) de Mezeritch, e disse-lhe que estava a jejuar, comendo apenas pão escuro e sal. O Pregador ordenou-lhe que parasse com o jejum e comesse o pão branco mais puro, bolos e bom vinho. «Mas, rabi, porquê?» «Se te contentares com pão escuro e água, ainda chegarás à conclusão de que os pobres podem subsistir com pedras e água da nascente. Se comeres bolos, dar-lhes-ás pão».

História contada por Timothy Radcliffe nas páginas 259-260 de “Ir à Igreja porquê?” (ed. Paulinas)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O espírito é que abunda


Na nossa civilização, ao contrário da voz corrente que a diz muito material, o espírito é que abunda, verdadeiro sopro incontido, a insinuar-se na mínima fresta: se até o bacalhau pode ser espiritual!
Abel Barros Baptista, na revista "Ler" de Fevereiro de 2011

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Público 3: A relação entre as barriguinhas-de-freira e as nossas

Uma diversão de Miguel Esteves Cardoso sobre os doces conventuais e uma interpretação pouco ortodoxa da opção pela vida de claustro, mas real em algumas épocas e lugares.

A maioria das freiras não ia para os conventos por escolha espiritual. Como diz Alfredo Saramago: "As segundas filhas ricas, algumas herdeiras solteiras, viúvas, adolescentes órfãs mas com fortunas constituíam a população feminina dos conventos. Gente habituada a uma vida rica com os hábitos e costumes de uma classe privilegiada".

...

Imagine-se agora com uma mulher enclausurada. Para sempre. Tem fartura de açúcar, ovos e amêndoas. O que é que faz? Doces. Doces que levam muito tempo a fazer. Doces que pode comer. Doces que pode oferecer ou vender. Doces que dão prazer, que trazem elogios e são trocados por outros doces. Doces que se podem comer à mesa, numa atmosfera católica e portuguesa onde a gula gastronómica é mais uma prova de humanidade do que um pecado mortal. Que é, no máximo, uma marotice.

Dir-se-ia que [os doces] são o contrário da simplicidade e do sacrifício das freiras. Mas não são: são o resultado. Os doces conventuais são onde se soltam e concentram todos os desejos de liberdade e de prazer - toda a criatividade e toda a revolta - que não podem ser exprimidos e satisfeitos separadamente, de maneiras mais directas e mais fáceis (ler tudo aqui).

domingo, 5 de setembro de 2010

Comer sem ofender a Deus

Alheira grelhada

Ao almoço, a mãe italiana diz ao filho:
- Se não comeres a sopa toda, eu mato-te.

A mãe judaica diz:
- Se não comeres a sopa toda, eu mato-me.

A anedota é contada por Elena Loewenthal, num artigo do “La Stampa” (03-09-2010) sobre o livro de Giuliana Ascoli Vitali-Norsa, “La cucina nella tradizione ebraica” [“A cozinha na tradição hebraica”] (Ed. La Giuntina, 416 páginas). Lido aqui.

Como se sabe, a Bíblia está cheia de regras alimentares, o que levou os judeus (os cristãos aboliram-nas) a usar toda a criatividade na cozinha de modo a não faltarem ao texto bíblico. “(…) Foram justamente os vínculos que atraíram a fantasia e despertaram o talento da dona de casa que, destrincando-se nessa selva de proibições, soube criar nos quatro cantos do mundo não uma, mas milhares e diversas cozinhas judaicas, ricas de sabores e de perfumes”, diz Elena Loewenthal.

“A comida hebraica é, de fato, tão delimitada pelas proibições quanto capaz de se difundir na geografia física e humana: em todos os lugares em que chegou, a diáspora de Israel absorveu usos, sabores e ingredientes. Os judeus da Europa Central, exterminados pelo nazismo, alimentavam-se com bortsch [sopa de beterraba] e guisados, gengibre e a inevitável gelatina de pé de vitelo com ricas doses de alho”.

Em Portugal é inevitável pensar nas alheiras, aqueles enchidos feitos de carne de galinha (ou de outras aves), mas com temperos tão apurados que se assemelham aos enchidos de porco – o que era óptimo para enganar a Inquisição no teste da prova de carne de porco.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Um rabino e um bispo são convidados para um jantar...

Um rabino e um bispo são convidados para um jantar. O rabino aceita com a condição de que a comida seja pura (“kosher”). Durante a refeição, o bispo olha de soslaio para os pratos do rabino, diferentes dos demais comensais, e, a certa altura, não consegue deixar de perguntar com alguma indignação:

- Caro rabino, quando é que chegará o dia em que, finalmente, eu e o senhor poderemos comer da mesma comida?

O rabino responde no mesmo tem:

- Se Deus quiser, senhor bispo, será no dia do seu casamento.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Café

No dia da eleição do Papa a quem, de certa forma, devemos o café na Europa, uma frase célebre:


“O café deve estar quente como o inferno, ser negro como o diabo, puro como um anjo e doce como o amor”.

Charles Maurice de Talleyrand-Périgord (1754 – 1838), diplomata francês

30 de Janeiro de 1592. Eleição do Papa do café

Clemente VIII. Túmulo na Basílica de Santa Maria Maior, Roma

Clemente VIII (Ippolito Aldobrandini, 1536-1605) foi eleito Papa no dia 30 de Janeiro de 1592. O pontificado deste Papa, aluno de Filipe Neri (“um santo triste é um triste santo”) e dos oratorianos, ficou marcado pela paz entre França e Espanha e pela condenação do Giordano Bruno (17 de Fevereiro de 1600). Além disso, diz-se que deu um impulso determinante para a introdução do café na Europa.

Bebida dos muçulmanos, num tempo em que o inimigo da Europa eram os chamados “infiéis”, o café entrou por Veneza, vindo da Turquia, e só se propagou depois da aprovação de Clemente VIII. Diz-se que o Papa encontrou logo uma vantagem na bebida: permitia-lhe ficar a rezar até mais tarde, sem sono. E que terá dito: “É tão deliciosa que seria uma pena deixá-la para uso exclusivo dos infiéis. Vamos baptizá-la”.

Quando hoje tomar um cafezinho, lembre-se de Clemente VIII.

domingo, 14 de junho de 2009

"Ó devoto leitor"


Quem for a Roma por estes dias deve ver a Bíblia carolíngia que está exposta em São Paulo Fora de Muros, na parte da abadia. “Ir a Roma e não ver esta Bíblia seria pecado de bradar aos olhos”, escreve António Marujo no P2 de 13 de Junho.

Vê-se a Bíblia atrás do vidro e 24 reproduções das suas iluminuras de Ingoberto, o monge pintor. A Bíblia foi oferecida por Carlos, o Calvo (neto de Carlos Magno), ao Papa João VIII, no Natal de 875.

No prólogo da Bíblia aparece este texto (transcrevo do “Público”): “Ó devoto leitor, a tua inteligência será colocada à prova peranta o que este livro contém, a obra do Omnipotente (…), aqui escutarás a voz das cascatas com a qual o abismo clama pelo abismo e lhe grita com o rumor de muitas asas (…), aqui escutarás David, o poderoso salmista que toca para a sua cítara (…). Aqui está o doce alimento, aqui o maná, o penhor autêntico. (…) Ó leitor, não deixes de restabelecer-te e saborear este alimento…”

Na imagem, pormenor de iluminura relativa a São Paulo.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...