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sexta-feira, 18 de março de 2011

Este judeu não quer ser "absolvido" da morte de Jesus


Joseph Weiler foi o advogado de defesa de um grupo de nações, lideradas pela Itália, que recorreu da decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que dizia que os crucifixos nas salas de aula italianas violavam a liberdade religiosa (o resultado do recurso foi divulgado hoje: não há violação da liberdade religiosa; cada Estado é soberano para decidir nesta questão; notícia da Agência Ecclesia aqui). É um dos maiores especialistas em direito constitucional europeu. Na questão dos crucifixos, argumenta que
remover a cruz é algo realmente iliberal. Permitir a cruz é a posição liberal, a posição pluralista, porque a Europa tem tanto uma França quanto uma Grã-Bretanha. A França é um Estado oficialmente laico, mas, na Inglaterra, o hino nacional é "God Save the Queen", e a Rainha é a chefe da Igreja da Inglaterra. Toda imagem da Rainha em uma sala de aula britânica é tanto um símbolo nacional quanto religioso. Você poderia dizer que essa é uma grande tradição, que é a Europa autêntica. A posição esclarecida é aceitar uma Europa tanto com a França, quanto com uma Grã-Bretanha, e não afirmar que, como a Câmara fez, que todos têm que ser como a França – ou, neste caso, como os EUA. O que é preciso fazer é capacitar uma potencial maioria a se sentir que está fazendo a coisa certa, que deveriam se orgulhar por isso. Isso não é, de nenhuma forma, antieuropeu, antiliberal ou reacionário.
Acontece que Joseph Weiler é judeu. Nasceu na África do Sul, filho de um rabino da Letónia. “Judeu ortodoxo profundamente fiel”. Deu uma entrevista a John L. Allen Jr., do “National Catholic Reporter”, na qual insiste que a defunta Constituição Europeia deveria ter referido as raízes cristãs.
As pessoas me perguntam um milhão de vezes como um judeu praticante pode defender uma referência às raízes cristãs na Constituição Europeia, e eu digo que, nesse contexto, não sou um judeu praticante. Eu sou um constitucionalista praticante. Sou um pluralista praticante.
Mas a parte mais interessante da entrevista é aquela em que aborda o julgamento de Jesus. Afirma três teses e vale a pena ler a entrevista toda (e confronta-la, por exemplo com o que Bento XVI escreve sobre o mesmo episódio evangélico), porque este resumo é necessariamente limitado:

1. O julgamento de Jesus não foi suficientemente apreciado como o alicerce das sensibilidades ocidentais em relação à justiça.

2. Jesus é a pessoa referida em Dt 13,1-5, que diz que se deve matar o visionário que mostrar sinais e prodígios e (diz a Bíblia, mas não Weiler), mandar seguir deuses estrangeiros, pelo que os judeus (sim, os judeus como colectivo), mataram Jesus, cumprindo a ordem de Deus. “Se Jesus tem que morrer inocentemente, alguém tem que matá-lo injustamente”… obedecendo a Deus. No entanto, não há, no cristianismo, uma teologia do julgamento, o que constitui uma lacuna notável.

3. Houve uma transferência de responsabilidade da cruz para o julgamento. O mesmo é dizer: dos romanos para os judeus. No Vaticano II, a Igreja “desmontou” a responsabilidade colectiva dos judeus na morte de Jesus, desculpabilizando-se  inconscientemente a ela própria, no presente, pela perseguição aos judeus no passado (coisa que João Paulo II, ao pedir perdão pela Igreja, contrariou). Ora Weiler, ao arrepio de tudo, quer manter a responsabilidade colectiva dos judeus.
(…) Eu também não quero ser "absolvido". Temos que diferenciar entre culpa e responsabilidade. Eu quero ser capaz de dizer: "Sim, os judeus levaram Cristo à morte, porque é isso que o Senhor nos ordenou a fazer". Claro, pessoalmente, eu não sou responsável, eu não sou Caifás. Mas, como judeu, eu quero ser capaz de dizer que, quando alguém veio como profeta que operava sinais e prodígios e tentou mudar a lei, nós fizemos o que Deus nos pediu para fazer.
Joseph Weiler está a escrever um livro que deverá estar concluído no final do ano. As teses são muito discutíveis, a começar pelo facto de a questão da responsabilidade colectiva versus responsabilidade individual evoluir ao longo dos tempos bíblicos. E não são inéditas as tentativas de reconstituição moderna do julgamento de Jesus com resultados semelhantes ao verificado nos evangelhos. De qualquer forma, promete debate.

A entrevista pode ser lida aqui em português e aqui em inglês.


Joseph Weiler participou na quarta-feira, 16 de Março, num seminário acolhido pelo Parlamento Europeu sobre intolerância e discriminação contra cristãos. À Rádio Vaticano afirmou o seguinte: “Aquilo que eu acho mais chocante não é o facto de haver discriminação, ódio, cristianofobia, mas que estas coisas sejam aceites, que não hajam protestos, que este seminário seja um dos primeiros eventos deste género”. Li aqui.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Como cair no recurso ao estereótipo sem se dar conta


A homilia de Raniero Cantalamessa na Sexta-Feira Santa (2 de Abril) provocou aquilo que ela própria queria evitar: violência. Verbal, mas violência.
No Domingo, o “Diário de Notícias” titulava “Críticas judaicas abrem nova crise para o Vaticano” (4 de Abril). E o “Público”: “Rabis e vítimas indignadas com comparação ao anti-semitismo”. Na entrada, este último (texto de Ana Fonseca Pereira) afirma: “Padre Cantalamessa equiparou ataques à Igreja com perseguição aos judeus. Polémica adensa uma crise que ensombra esta Páscoa”.
Comparou mesmo? Talvez. Mas quem fez primeiro a comparação foi um judeu.
Se eu me sentisse perseguido, como muitos responsáveis da Igreja se dizem sentir, e se tivesse recebido um carta de alguém que pertence a um povo que foi a maior vítima do século XX, julgo que a usaria, como fez Cantalamessa. Não reivindicaria para mim tal estatuto de vítima – nem ele o fez. O Holocausto, o cúmulo do anti-semitismo, foi algo inominável e não é invocável para autodefesa por quem nele não participou. Mas se um elemento do povo judeu adverte para mecanismos semelhantes aos do anti-semitismo, de “recurso ao estereótipo” e de “passagem da responsabilidade pessoal para a colectividade”, nos tempos de hoje, em relação à Igreja, não poderei eu usar essas palavras?
O melhor é ler que o pregador do Papa disse (versão brasileira da Zenit, aqui):

«Por uma rara coincidência, neste ano nossa Páscoa cai na mesma semana da Páscoa judaica, que é a matriz na qual esta se constituiu. Isso nos estimula a voltar nosso pensamento aos nossos irmãos judeus. Estes sabem por experiência própria o que significa ser vítima da violência coletiva e também estão aptos a reconhecer os sintomas recorrentes. Recebi nestes dias uma carta de um amigo judeu e, com sua permissão, compartilho um trecho convosco. Dizia:
“Tenho acompanhado com desgosto o ataque violento e concêntrico contra a Igreja, o Papa e todos os féis do mundo inteiro. O recurso ao estereótipo, a passagem da responsabilidade pessoal para a coletividade me lembram os aspectos mais vergonhosos do anti-semitismo. Desejo, portanto, expressar à ti pessoalmente, ao Papa e à toda Igreja minha solidariedade de judeu do diálogo e de todos aqueles que no mundo hebraico (e são muitos) compartilham destes sentimentos de fraternidade. A nossa Páscoa e a vossa têm indubitáveis elementos de alteridade, mas ambas vivem na esperança messiânica que seguramente reunirá no amor do Pai comum. Felicidades a ti e a todos os católicos e Boa Páscoa”».

A citação no final de um belíssimo texto contra a violência (de como com a morte de Jesus se ultrapassa a violência que é alma de um certo tipo de sagrado) transformou-se em mais um episódio de violência mediática. Chamou-se “obsceno”, “inapropriado” e “moralmente errado” ao sermão de Cantalamessa (via “Público”), quando as palavras são de um judeu. Foi imprudente Cantalamessa? Dizer que sim é admitir que a pressão mediática nos priva de liberdade.
A reacção ao sermão por parte de judeus e de vítimas de abusos, apesar de o porta-voz do Vaticano ter vindo dizer que havia palavras que podiam ser mal interpretadas, revela que a violência verbal está latente na nossa sociedade. Como já nem se olha aos factos e aos contextos, como já nada se distingue e muito se confunde, começo a pensar que a Igreja está mesmo a ser perseguida (mas nada desculpa os abusos). Ou pelo menos é um alvo fácil para quem quer fazer pontaria.

sábado, 20 de junho de 2009

Clássicos 6: "História de Cristo", de Giovanni Papini


(Primeiro parágrafo) "Há quinhentos anos para cá, os que se intitulam «espíritos livres» por terem desertado da Milícia pelos Ergástulos anseiam por assassinar Jesus pela segunda vez – por matá-lo no coração dos homens."
História de Cristo | Título original Storia di Cristo | Giovanni Papini | Livros do Brasil, 2006, 422 páginas

Giovanni Papini (1881-1956) nasceu em Florença. Começou por ser céptico e ateu e acabou católico, refugiado num convento de Viena, após o fim de Mussolini, de que fora apoiante e que lhe valera o lugar de professor universitário em Bolonha. Fundou a revista “Leonardo” e “L’Anima” e escreveu para “Il Regno” e para o “Corriere della Sera”. Principais obras: “História de Cristo”, de 1935, “Il crepuscolo dei filosofi”, "Gog", “O Diabo”, “Cartas aos Homens do Papa Celestino VI” e “Relatório sobre os homens”. Devido ao seu fascismo e anti-semitismo, Papini está “injustamente esquecido”, na expressão de Jorge Luís Borges. Ainda não é politicamente correcto citá-lo, mas a “História de Cristo” é, apesar de tudo, um clássico do pensamento católico do século XX.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...