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domingo, 19 de janeiro de 2014

Bento Domingues: "Consciência ecuménica, consciência baptismal"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje (aqui):

1. A urgência do diálogo ecuménico nasceu, nos finais do séc. XIX, nas chamadas terras de missão, para vencer o contratestemunho das igrejas cristãs divididas que se hostilizavam no anúncio do Evangelho da paz. As vicissitudes do movimento ecuménico já foram historiadas.

Em 1948 foi fundado o Conselho Mundial das Igrejas, em Amesterdão, que tem a Sede internacional em Genebra. É a principal organização ecuménica, com mais de 350 igrejas e denominações, presente em mais de 120 países, excedendo os 500 milhões de fiéis. Trabalha-se, desde há algum tempo, na criação de um Fórum Cristão Global que reúna, sem vínculos institucionais, à volta de uma só mesa de diálogo, as grandes famílias cristãs: ortodoxa, católica, anglicana e protestante.

Resultado: esquece-se a falta que os outros nos fazem, para comungar em experiências que nos poderiam provocar a descoberta de caminhos para a fé cristã, que nem suspeitamos. A maioria dos cristãos nada sabe das outras tradições eclesiais, a não ser os lugares-comuns de desconfiança mútua, transmitidos em casa ou nas igrejas. A verdadeira falta de ecumenismo entre as igrejas cristãs é uma falta de cristianismo e não apenas de inconvenientes a propósito de baptismos e casamentos que se resolvem de forma mais ou menos burocrática.

Em certas zonas do mundo, o cenário é devastador: matam-se os cristãos sem perguntar pela identidade eclesial. O cristianismo está a ser completamente eliminado. É urgente um ecumenismo global de socorro.

2. Mais abrangente é o Parlamento Mundial das Religiões. Nasceu em Chicago, em 1893, para fomentar o diálogo inter-religioso. Cem anos depois, voltou a reunir-se na mesma cidade. A 4 de Setembro de 1993, foi assinada a Declaração das Religiões para uma Ética Global, preparada pelo teólogo Hans Küng, guiado pela convicção, que tem justificado e desenvolvido, condensada no aforismo: sem paz entre as religiões, não há paz entre as nações. Parte de uma verificação: o mundo está a experimentar uma crise fundamental e global: na economia, na ecologia e na política. Por toda a parte se verifica a falta de grandes visões, o emaranhado de problemas não resolvidos, a paralisação e as lideranças políticas medíocres, com pouca visão interna e externa e, em geral, muito pouco sentido do bem comum. Centenas de milhões de seres humanos sofrem cada vez mais com o desemprego, a fome e a destruição das suas famílias. Crianças morrem, matam e são mortas. Há cada vez mais países abalados pela corrupção na política e nos negócios. Devido aos conflitos sociais, raciais e étnicos, ao abuso de drogas, ao crime organizado e, até, à anarquia torna-se cada vez mais difícil viver em paz nas nossas cidades. Por vezes, mesmo entre vizinhos, vive-se com medo uns dos outros. O nosso Planeta continua a ser escandalosamente destruído. Embora a esperança de uma paz duradoura entre as nações nos pareça cada vez mais afastada, sabemos que não é por falta de recursos, de ciência e de técnica que se arrastam mundos mergulhados na miséria e na violência. É por falta de vontade política, de sabedoria e de ética.

3. O Movimento Ecuménico português já apresentou serviço: representantes das Igrejas Católica, Lusitana, Presbiteriana, Metodista e Ortodoxa, em Portugal, irão assinar, no próximo dia 25, em Lisboa, uma declaração de reconhecimento mútuo do baptismo. Ainda bem.

A Capela Sistina é conhecida, venerada e visitada pela sua extraordinária beleza. Aí reúnem-se os cardeais para escolher o futuro bispo de Roma, o papa. Mais importante do que eleger um papa é celebrar um baptismo, a transformação cristã da vida. O Papa Francisco resolveu estabelecer a verdadeira hierarquia no Vaticano. No domingo passado, baptizou o filho de uma mãe solteira e a filha de um casal, casado apenas pelo civil, nessa Capela. Não é muito usual. Perante varias mães, pais e 32 crianças, chamou a atenção para a nova orquestra: “Hoje o coro vai cantar, mas o coro mais belo é o das crianças. Algumas delas irão chorar porque têm fome ou porque não estão confortáveis. Estejam à vontade, mamãs: se elas tiverem fome, dêem-lhes de comer, aqui elas são as pessoas mais importantes”. Este Papa já tinha afirmado que as mães não deviam ter problemas em dar de mamar aos seus filhos, durante as cerimónias papais.

Bergoglio quer abrir ao mundo, um futuro novo, mesmo a partir do Vaticano. Quem não gosta das suas inovações, irá sempre encontrar algum precedente para desvalorizar estes atrevimentos. O que importa é subverter a desordem estabelecida, que se tinha transformado numa ordem sagrada.

 O Papa mandou uma carta aos futuros cardeais: “O cardinalato não significa uma promoção nem uma honra nem uma condecoração, é simplesmente um serviço que exige ampliar o olhar e alargar o coração”.

Ai minha Nossa Senhora!

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Isto é uma novidade. Isolada?

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Mohammad Javad Zarif, desejou bom Rosh Hashanah aos judeus, que mudaram de ano e começaram a celebrar ao pôr do sol de quinta-feira.

Tirei daqui.

sábado, 27 de abril de 2013

O diálogo, essa coisa tão difícil para a nossa tradição intolerante


Excerto de uma entrevista ao teólogo moralista Juan Masiá, que há dias esteve ali ao lado, e, Vigo. Esta parte aplica-se a certas discussões cá no blogue:
Não é verdade que muitas pessoas não o consideram Igreja? Você não se sentiu excluído? 
É que aqui no nosso país [a Espanha] há um fenômeno um pouco peculiar que é essa tradição inquisitorial dos dois extremismos, da agressividade... Na Espanha, não houve transição cultural, não se deu o passo para a capacidade de poder compartilhar e opinar diferente, ter ideias diferentes e discuti-las, sem que isso signifique insultar, nem quebrar o pau. Aquilo que dizia Unamuno sobre a inveja espanhola. Nisto não houve transição. Os fanatismos estão muito arraigados, e isto se vê também dentro das instituições. Como se costuma dizer, “se você entrega a cabeça do Batista, em troca recebe um prêmio”. Se você denuncia alguém, alguns anos depois terá uma mitra. Às vezes, fomenta-se a denúncia, cartas anônimas, etc. E isso também é um problema fora da Igreja. A situação política espanhola delata a incapacidade em relação à democracia, ao debate plural.

E esta também:
Deixarão que Francisco faça mudanças? 
O deixaremos (porque os que podem impedir não são um grupinho ao lado, a Cúria; temos que nos incluir). Ou o apoiamos ou o freamos. 
E como podemos apoiá-lo? Como ele poderia fazer para contentar a uns e outros? Acredita que buscará o consenso? 
Mas não é o consenso dos políticos, que sempre é de meias palavras. Precisamos convergir nas coisas verdadeiramente essenciais. Um exemplo: há alguns dias estava em um grupo discutindo sobre a homofobia, e havia algumas pessoas que diziam que não se deve chamar casamento a união homossexual, enquanto outros diziam que sim. Este é um tema que juridicamente e por muitas razões está aí, e é possível continuar discutindo. Os que dizem uma coisa e os que dizem o contrário aduzem suas razões, e se não se convencem mutuamente, continuarão pensando igual. Mas há um ponto em que o mais avançado e o mais conservador não podem senão estar de acordo, e o digo citando um documento nada suspeito de “excessiva abertura”: o Catecismo, que diz que de maneira alguma e sob nenhuma hipótese se pode nem se deve discriminar uma pessoa por sua orientação sexual. Isto não é passível de debate. Então, com a tranquilidade de estar de acordo em algo tão fundamental, podemos seguir falando das outras questões sem discutir e sem nos discriminar mutuamente.
A dinâmica de buscar o que nos une em vez daquilo que nos separa? 
Claro. Isto já o dizia Santo Agostinho, e todos enchem a boca citando-o, mas depois não o colocam em prática. Nas coisas essenciais, unidade. Nas outras, liberdade. E em todas, acrescentava, caridade.

E esta responde a uma pergunta que já algumas vezes tinha colocado a mim próprio:
O fato de que seja um Papa jesuíta enche a Companhia de orgulho? 
Muitas pessoas, no dia da eleição, vieram me felicitar porque é um Papa “dos nossos”. Mas isso significa que se fosse um Papa da Opus Dei teríamos que ficar chateados. Se eu me alegro com o fato de que seja um Papa jesuíta e alguns anos depois me entristeço que seja um Papa da Opus, isso quer dizer que eu não mudei nada. Ou seja, que a mudança de que estávamos falando eu não a fiz. Posso me alegrar pelo fato de como é e do que está fazendo, mas se me alegro com o fato de que seja jesuíta é como se acreditasse que agora eu tenho o poder.
Entrevista na íntegra aqui.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Mário Soares: "O Papa dos pobres"

Texto de Mário Soares no DN de 3 de abril. Daqui.

Os portugueses sabem que não sou religioso, apesar de o meu Pai ter sido um católico praticante e antigo padre capelão e ter posto uma ação no Vaticano - com êxito - para poder casar-se com a minha Mãe pela Igreja, como aconteceu, tinha eu oito ou nove anos.

Mas não sou ateu, sou agnóstico, por nessa matéria não ter certezas, só dúvidas. Aliás, sempre me interessei pelas religiões monoteístas, do cristianismo ao budismo, dos ortodoxos aos muçulmanos, sunitas, xiitas e os outros. Na minha modesta biblioteca tenho livros de todos eles.

É sabido, de resto, que durante cerca de dois anos fui nomeado, pelo primeiro-ministro Sócrates e pelo ministro da Justiça, Alberto Costa, Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, onde estive voluntariamente e sem aceitar sequer senhas de presença. Onde aliás aprendi muito, com os membros da Comissão, representantes de todas as religiões, existentes em Portugal. Que são mais do que se julga, desde os católicos aos judeus, dos muçulmanos aos protestantes, aos budistas e aos hindus.

Vem isto a propósito do Papa dos pobres, o italo-argentino, antigo cardeal Jorge Mario Bergoglio, hoje Papa Francisco (em homenagem a Francisco de Assis), antigo jesuíta, hoje chamado o Papa dos pobres. Porquê? Porque a sua mensagem e preocupação desde o primeiro dia do seu mandato são os pobres, os que sofrem por terem grandes carências. É pois o Papa dos pobres e do apego à simplicidade, sejam católicos, ateus ou de outras religiões - como disse e repetiu -, todos são irmãos e filhos de Deus.

É pois um Papa antineoliberal, valorizando as pessoas, em favor do Estado social, sem dar valor ao dinheiro, às riquezas, à ostentação, mas sim aos pobres, independentemente das religiões que praticam e mesmo dos que são ateus, porque, segundo ele, são todos filhos de Deus. Com a sua simplicidade, visitando os presos, lavando e beijando os pés das mulheres e dos homens, como iguais, visitando o seu antecessor, o Papa a que chamou emérito, Bento XVI, Francisco conquistou não só os católicos mas a gente de todas as religiões - e os não religiosos - provocando uma verdadeira revolução pacífica no Vaticano, afastando a ostentação, a riqueza inútil e a corrupção, em favor dos pobres e dos que sofrem, sejam de que religiões forem ou mesmo de nenhuma. A crise da instituição eclesiástica é profunda e deve ser ultrapassada, como disse o teólogo Leonardo Boff. É o que pretende o Papa Francisco.

Confesso que, como não religioso, este Papa me fascina. Como me fascinou João XXIII, que lançou o Concílio Vaticano II. Para varrer a Igreja Católica da corrupção, da pedofilia e da ostentação da riqueza precisávamos de um Papa vindo da América Latina, onde o catolicismo é aberto e progressista, com uma visão anti-neoliberal e anticapitalismo selvagem. Não podia ser da Europa, cujos dirigentes são incapazes e sedentos tão-só de dinheiro e não veem outra coisa. Podia vir do Brasil ou de outro país latino. Mas este enche-me as medidas, com o facto de ter 76 anos e uma experiência imensa que o levou de Santo Inácio de Loyola a Francisco de Assis. Um caminho muito original. Sabe o que quer e tem a coragem de defender o Estado social. E atacar os mercados usurários. Não tem papas na língua e está decidido. Oxalá não o eliminem, como sucedeu com alguns outros. Seria o começo do fim do Vaticano e o descrédito absoluto da Igreja Católica.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Anselmo Borges: O cristianismo e o islão em diálogo?

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (o da semana passada, sobre o mesmo assunto, pode ser lido aqui):


Asua finalidade é estabelecer pontes para o diálogo entre as religiões e as culturas. Olhando para o futuro, elaborou já um programa de actividades, como: colaboração multi-religiosa para a sobrevivência e bem-estar das crianças - o primeiro projecto terá lugar no Uganda, em aliança estratégica com "Religiões pela Paz" -, um ciclo de conferências sobre "a imagem do outro", um projecto internacional para futuros professores de religião e líderes religiosos com um profundo compromisso com o diálogo inter-religioso e intercultural.

Estou a referir-me ao Centro Internacional para o Diálogo Inter-Religioso e Intercultural King Abdullah bin Aziz (KAICIID), com sede em Viena, cujo Comité Directivo se reuniu pela primeira vez nos dias 1 e 2 de Fevereiro, em Madrid, como aqui anunciei no sábado passado. Os seus fundadores são a Arábia Saudita, a Espanha e a Áustria. Tem o nome do monarca saudita, que teve a iniciativa.

Como não saudar e colaborar com o que é hoje o maior centro mundial de diálogo? O próprio Papa Bento XVI o fez e a Santa Sé (Vaticano) assumiu o papel de observador fundador.

Mas, evidentemente, há perguntas que têm de ser feitas e problemas que não podem ser ignorados.

Assim, pergunta-se legitimamente se vai ser possível e quando um encontro do Comité Directivo do KAICIID, com representantes das grandes religiões mundiais, em Riade ou na capital de outro país islâmico. De facto, o diálogo não pode ser unidireccional. Por isso, também se pergunta, por exemplo, quando é que a liberdade de construção de mesquitas no mundo de influência cristã será acompanhada da mesma liberdade de construção de igrejas nos países de influência islâmica. De qualquer forma, o cristianismo é hoje a religião mais perseguida do mundo, a ponto de se falar em autêntica cristianofobia, e essa perseguição dá-se também em países de orientação islâmica, sem que sejam suficientemente claros e fortes os protestos dos seus responsáveis políticos e religiosos.

Evidentemente, seria abusivo generalizar, mas é necessário reconhecer que a raiz dos problemas é, porém, mais funda e tem a ver com três ordens de questões: a interpretação dos textos sagrados, a separação da religião e da política e a atitude de Jesus e de Maomé face à violência.

A atitude dos cristãos ao longo dos séculos e também da Igreja Católica enquanto instituição não foi de modo nenhum exemplar. Pelo contrário, foi frequentemente vergonhosa no que se refere a estes três domínios. Mas, quando pensam nas origens, na atitude de Jesus e no que ele verdadeiramente quis, os cristãos têm de arrepender-se e arrepiar caminho.

Nunca os teólogos cristãos afirmaram que a Bíblia foi ditada por Deus: é Palavra de Deus em palavras humanas. Por isso, mais tarde ou mais cedo, teriam de abrir-se a uma leitura histórico-crítica e à hermenêutica. Mas, no islão, afirma-se, de modo geral, que o Alcorão foi ditado por Deus e, por isso, tantas vezes os teólogos islâmicos que exigem uma hermenêutica histórico-crítica, não podendo fazê-lo livremente nos seus países, tiveram de refugiar-se em universidades europeias e norte-americanas.

Jesus disse que se deve "dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Tem aqui um dos seus fundamentos a separação da Igreja e do Estado, em ordem à salvaguarda da liberdade religiosa. Mas, no islão, continua, com raras excepções, a confusão dos dois planos, tanto mais quanto Maomé foi simultaneamente um líder religioso, político e militar.

Maomé entrou vitorioso em Meca, após anos de combates, e expandiu o islão, certamente mediante a força da palavra e do exemplo, mas também com a luta pelas armas. Jesus, porém, entrou pacificamente na cidade de Jerusalém, para apresentar e oferecer o seu projecto de Reino enquanto Reino de graça e de amor entre os seres humanos. Quando Pedro puxou pela espada, mandou que a metesse na bainha, pois quem com ferros mata com ferros morre, e ele próprio foi crucificado por quem não aceitou a sua mensagem.

A aprendizagem que tanto custou à Igreja Católica terá de ser também o caminho doloroso, mas urgente, do islão.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Anselmo Borges: O KAICIID em Madrid

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (tirado daqui):

Independentemente de se ser crente ou não, ninguém, consciente da presente situação do mundo, em convulsão global e à procura de um novo horizonte de compreensão, porá em dúvida a importância fundamental do diálogo inter-religioso e intercultural em ordem à paz. De facto, como há anos vem repetindo o teólogo Hans Küng, autor principal da "Declaração para uma Ética Mundial", aprovada pelo Parlamento Mundial das Religiões, em Chicago, em 1993, "Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso globo sem um ethos global, um ethos mundial."

Em Novembro de 2007, o rei da Arábia Saudita, Abdullah bin Abdulaziz, encontrou-se no Vaticano com o Papa Bento XVI, sublinhando ambos a urgência da promoção do diálogo em ordem à convivência pacífica entre os povos.

No ano seguinte, com o seu patrocínio, realizou-se em Madrid uma Conferência Internacional para o Diálogo.

No dia 26 de Novembro último, na presença de centenas de convidados e de figuras eminentes do universo religioso, cultural e político de todo o mundo, foi inaugurado em Viena o KAICIID (King Abdullah bin Abdulaziz International Centre for Interreligious and Intercultural Dialogue: Centro Internacional King Abdullah bin Abdulaziz para o Diálogo Inter-religiosos e Intercultural). O Centro teve o apadrinhamento dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos sócios fundadores, do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, bem como de representantes das principais confissões religiosas mundiais.

A sede do Centro é Viena. Os fundadores são a Áustria, a Espanha e a Arábia Saudita. A Santa Sé (Vaticano), apoiando explicitamente a iniciativa impulsionada pelo monarca saudita, que dá o nome à instituição, participa como observador fundador. Há um comité directivo, constituído por representantes católicos, protestantes, ortodoxos, judeus, hindus, budistas e os três ramos principais do islão: sunita, xiita, wahabi. Entre os seus membros, conta-se uma mulher, a budista japonesa Kosho Niwano.

Embora seja Riade a financiar o Centro, sediado no Palácio Sturany, o seu secretário-geral, o saudita Faisal bin Abdul Rahman bin Muaammar, afirmou que "não haverá interferências políticas de nenhum tipo", sendo a direcção o único responsável pelas actividades. Aliás, fontes diplomáticas austríacas declararam que o centro faz parte dos esforços do rei saudita para apoiar sectores mais abertos do seu país. Neste sentido, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha, J. M. García- -Margallo, depois de sublinhar que "o que pretendemos é inverter a situação e que a religião seja, não parte de um problema, mas parte de uma solução", acrescentou que a iniciativa é um fórum de diálogo "não entre religiões, mas entre crentes de diferentes religiões que partilham valores e princípios, em última análise para alcançar um mundo mais pacífico, mais harmonioso e mais estável". O cardeal J.-L. Tauran, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, apresentou a saudação do Papa bem como "os seus melhores desejos para o sucesso deste Centro para o Diálogo".

Ontem e hoje, o KAICIID celebra, em Madrid, o seu primeiro acto internacional, com o primeiro encontro do Comité Directivo, a que voltarei.

Quais os objectivos estratégicos do Centro? Dentro da sua missão de "facilitar o diálogo e a compreensão inter-religiosos e interculturais, aumentar a cooperação, o respeito pela diversidade, a justiça e a paz", consistem em "gerar, desenvolver e difundir o conhecimento no âmbito do diálogo inter-religioso e inter-cultural; cultivar e promover o respeito pelas diferenças através do diálogo; criar pontes, debater e promover a colaboração entre os diversos grupos".

Perante tão elevados desígnios, só se pode, sinceramente, pedir: Oxalá! Mas fica, inevitável, a pergunta: para quando uma reunião internacional, com a presença de representantes das grandes religiões mundiais, em Riade?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Ano da Fé. Ter fé na fé

3.
Há um submundo de pessoas que têm fé na fé sem terem fé. Escrevem nos jornais sobre Bento XVI sem serem católicos, defendem o Papa, realçam a importância social do cristianismo, participam em debates e diálogos com crentes, não para esgrimir argumentos sobre o crer mas para encontrar pontes de diálogo. São pela presença da religião no espaço público. São capazes de defender a Igreja católica, nos meios laicos a que têm acesso, com base na “missão histórica e social” da Igreja. E porque feito pela Igreja fica mais barato. Têm fé na fé.

Geralmente os ministros da Igreja Católica gostam de ouvir estes que não sendo propriamente católicos, têm fé na fé. Fazem o jogo do lado de cá. Não são os ateus ou agnósticos puros. Nem ateus inveterados, nem agnósticos retintos. São antes uma espécie de, como alguém lhes chamou, “patos mancos”. Sou simpático para eles. Conheço dois ou três. Mas não gosto de ter fé na fé sem ter fé.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Átrio com poucos gentios

A sessão portuguesa do Átrio dos Gentios chegou aos gentios? Procurei na grande imprensa, "Público", CM, DN, JN, Expresso, Visão, Sábado e... nada. Posso não ter visto tudo, é certo.

A julgar pelo impacto na imprensa escrita não confessional, o Átrio não existiu. Quanto a rádio e tv, só ouço música, não sei.

Para saber algo do Átrio, podemos ler na Ecclesia e no SNPC, ou no "Diário do Minho", mas parece-me muito pouco para o objectivo de sair do templo e falar com gentios.



No "Diário do Minho" de 17 de novembro.

sábado, 22 de setembro de 2012

Anselmo Borges: Bento XVI no Líbano


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

As circunstâncias podiam não aconselhar a viagem do Papa ao Líbano. Por um lado, o conflito sangrento - 27 000 mortos - na Síria, com o risco de reabertura de tensões no próprio Líbano, já com combates em Trípoli. Por outro, a violência dos radicais no mundo islâmico, indignados com um vídeo de um extremista copta americano -Inocência dos Muçulmanos -, ridicularizando Maomé.

Mas a Bento XVI, que tem o sentido de missão e do dever, não faltou coragem, aproveitando precisamente o momento tão delicado da região, para levar aí a mensagem da paz e encorajar os cristãos a não abandonar o Médio Oriente, onde o seu número tem caído constantemente ao longo do último século, podendo o cristianismo desaparecer. Como disse ao Público o antigo arcebispo católico de Argel H. Teissier - ele sabe por experiência de que é que está a falar -, "é nas situações de tensão que a Igreja deve estar presente, mesmo que tenha de assumir riscos para tentar anunciar a sua mensagem de paz, de respeito recíproco."

E a visita foi um êxito. Muhammad Sammak, assessor político do Grande Mufti do Líbano e secretário-geral do Comité Libanês para o diálogo islâmico-cristão, declarou: "A visita de Bento XVI demonstrou ao mundo que o povo libanês, cristãos e muçulmanos, estão unidos enquanto os partidos políticos e as facções se dividem e criam conflito. A esperança é que os políticos do Líbano também aprendam algo com o espectáculo de unidade que se viu nestes dias da visita papal." De facto, juntaram-se cristãos e muçulmanos, incluindo mulheres com chador e jovens do Hezbollah, para a recepção papal, no único país islâmico (35% de cristãos) onde o Presidente é um cristão (num original sistema de governo, o Presidente da República deve ser cristão maronita, o primeiro-ministro, muçulmano sunita e o presidente do Parlamento, muçulmano xiita).

Durante a visita, Bento XVI assinou oficialmente a exortação Ecclesia in Medio Oriente (A Igreja no Médio Oriente), um documento papal, na sequência do Sínodo dos Bispos sobre o Médio Oriente, realizado há dois anos em Roma. Nele, reconhecendo a situação actual das Igrejas como "um grito cheio de angústia" e "de desespero de tantos que se encontram em situações humanas e materiais difíceis, que vivem fortes tensões com medo e inquietação e que querem seguir a Cristo, que dá sentido à sua existência, apesar de muitas e muitas vezes se verem impedidos de fazê-lo", apela aos 15 milhões de cristãos para que permaneçam. Foi nesse Sínodo que M. Sammak, convidado especial, declarou que a diminuição da presença dos cristãos "é uma preocupação tanto cristã como islâmica, não só para os muçulmanos do Oriente, mas para todos os muçulmanos do mundo." Nele, os Bispos rejeitaram o recurso à Bíblia para justificar as "injustiças" e advogaram um Estado para os Palestinianos, no quadro de "dois Povos, dois Estados". Dizia o cardeal Carlo Martini: "Quando houver paz em Jerusalém, haverá paz em todo o mundo."

O Papa declarou que vinha como "amigo de Deus e dos homens" e, "simbolicamente", visitava todos os países da região. E falou sobre a primavera árabe, o fundamentalismo, a Síria.

Exortou ao fim da entrega de armas à Síria: "As importações de armas devem acabar de uma vez por todas. Sem essas importações, a guerra não poderia continuar." Viu na primavera árabe "um desejo de mais democracia, mais liberdade, mais cooperação e uma renovada identidade árabe. Este grito da liberdade, que vem de uma juventude mais bem formada cultural e profissionalmente, que quer mais participação na vida política e social, é um progresso, algo muito positivo". Mas não se deve esquecer que a liberdade "só pode crescer na solidariedade, no viver juntos com determinadas regras". A liberdade deve "corresponder a um diálogo maior, não ao domínio de uns sobre os outros". Quanto à religião, insistiu que tem de ser a favor da tolerância e da paz, contra a violência. Esta, como o fundamentalismo, é uma "falsificação da religião". "O verdadeiro crente não mata." Esta região está ligada às três grandes religiões monoteístas. Que seja, pois, o espaço do grande diálogo entre as três: um "triálogo"!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

"Jornal de Negócios" atento à viagem do Papa ao Líbano


É uma viagem importante, a de Bento XVI, às "Suíça do Médio Oriente", na próxima sexta, sábado e domingo. Mas importante todas as do Papa devem ser, porque ele não tem tempo a perder. Veio no "Jornal de Negócios" desta quarta-feira. De assinalar.

sábado, 21 de julho de 2012

Anselmo Borges: A música, a transcendência e a paz

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje. Tirei-o daqui.

Sobre o poder encantatório da música disse Homero na Odisseia. Era tanta a beleza, a doçura, o fascínio e o feitiço do canto das sereias que, para não correrem o perigo da atracção e da morte, Ulisses ordenou que tapassem com cera os ouvidos dos marinheiros e a ele o amarrassem sem possibilidade de fuga ao mastro do navio.

Não há nenhum povo sem música. Nada de tão material como a música: a voz, instrumentos de sopro, de percussão e de cordas e disso tudo resulta o que nos enleva, nos transporta para a transcendência, nos coloca lá no donde viemos e lá para onde verdadeiramente queremos ir e habitar. Feita de tempo, a música pára o tempo, transcende o tempo e tange o eterno. Ali, onde quereríamos estar sempre, e já não há morte.

Por isso, Ernst Bloch disse que a música é "a mais utópica das artes". Ela é o divino no mundo ou, pelo menos, o que nos abre à experiência do divino. Aí está a beleza, que, no dizer de Dostoiévski, "salvará o mundo". O belo abre a porta do que normalmente, no meio da banalidade rasante, se não vê nem ouve. Mas, quando se viu o invisível e se ouviu o inaudível e a sua beleza, tudo se transfigura e reconcilia. Este mundo torna-se outro, sem deixar de ser este. Daí, a exclamação de felicidade, que também os discípulos experimentaram, aquando da transfiguração de Jesus: "Como é bom estar aqui!"

No belo, tornamo-nos vizinhos imediatos do próprio transcendente. Como escreveu George Steiner, "a poesia, a arte, a música são os meios portadores desta vizinhança". A música, nomeadamente, é inseparável do sentimento religioso: "Ela foi durante muito tempo, continua a ser hoje, a teologia não escrita dos que não têm ou recusam qualquer crença formal."

Até pela negativa, através do dilacerante, o que ela procura é a harmonia. Como escreveu Fernando Savater, "na denúncia que falta vê-se contra a luz a possibilidade futura daquilo que poderia ser a plenitude".

Neste vislumbre e porque é um melómano, entusiasta da grande música, Miguel Oliveira da Silva, num debate sobre o diálogo inter-religioso, sugeriu que o modo de entendimento do Papa e de um chefe religioso muçulmano, por exemplo, seria a música. Como se sabe, Bento XVI é um pianista; se esse chefe muçulmano fosse um violinista, os dois, que talvez não se entendam na doutrina, entender-se- -iam num concerto para piano e violino.

A sugestão é realidade. Daniel Barenboim nasceu em 1942, em Buenos Aires, e tem tríplice nacionalidade: argentina, israelita e espanhola. Ele e o falecido Edward Saïd fundaram, em 1999, a célebre West--Eastern Divan Orchestra, com sede em Sevilha e formada por músicos espanhóis, israelitas, palestinianos, sírios, jordanos, egípcios, libaneses, iranianos e turcos.

No passado dia 11, a orquestra ofereceu um concerto ao Papa Bento XVI, grande amante da música clássica, tocando a Sexta Sinfonia (Pastoral) e a Quinta em dó menor, de Ludwig van Beethoven.

E o Papa agradeceu: "Podem imaginar quanto estou feliz por acolher uma orquestra como esta, que nasceu da convicção e sobretudo da experiência de que a música une as pessoas, para lá de todas as divisões; porque a música é harmonia das diferenças, como acontece cada vez que se inicia um concerto, com o 'rito' da afinação. Da multiplicidade dos timbres dos diversos instrumentos, pode surgir uma sinfonia. Mas isto não acontece de modo mágico nem automaticamente. Só se realiza graças ao empenho do maestro e de cada músico individualmente. Um empenho paciente, trabalhoso, que requer tempo e sacrifícios, no esforço da escuta recíproca, evitando protagonismos excessivos e privilegiando o melhor resultado do conjunto."

A mensagem a tirar da orquestra e do concerto é que, "para conseguir a paz, é necessário comprometer-se, pondo de lado a violência e as armas, e comprometer-se com a conversão pessoal e comunitária, com o diálogo e a busca paciente de acordos possíveis". Afinal, "a harmonia da música ensina-nos a paz". Por isso, pediu: "Continuem a semear pelo mundo a esperança da paz através da linguagem universal da música."

sábado, 9 de junho de 2012

Anselmo Borges: Sobre o diálogo inter-religioso

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):



Aquestão do diálogo inter-religioso volta constantemente, também por causa da paz. Actualmente, a religião mais perseguida é o cristianismo.

Para esse diálogo, há pressupostos essenciais.

1. Religioso e Sagrado não se identificam. Trata-se de realidades distintas: religioso diz respeito ao pólo subjectivo, isto é, ao movimento de transcendimento e entrega confiada por parte das pessoas religiosas ao pólo objectivo, que é o Sagrado ou Mistério, a que todas as religiões estão referidas, configurando-o a seu modo.

2. Questão decisiva é a da revelação. A pergunta é: como sabem os crentes que Deus falou? Mediante certas características - por exemplo, a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a esperança para lá da morte, a exigência de sentido último -, a própria realidade, sempre ambígua, mostra-se ao crente co-implicando a Presença do Divino como seu fundamento e sentido últimos. Como escreve A. Torres Queiruga, "não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum".

3. A leitura dos livros sagrados não pode ser de modo nenhum literal, mas histórico-crítica. Por outro lado, se toda a religião tem como ponto de partida e de "definição" esta pergunta essencial: o quê ou quem traz libertação e salvação?, a libertação-salvação total é que constitui o fio hermenêutico decisivo para a interpretação correcta dos livros sagrados na sua verdade final. Só a esta luz é que eles são verdadeiros.

4. Condição essencial para a paz é a separação da(s) Igreja(s) e do Estado. Só mediante a neutralidade religiosa do Estado, é possível a garantia da liberdade religiosa de todos os cidadãos sem discriminação. Mas a laicidade não significa de modo nenhum que o Estado e a(s) Igreja(s) não possam e devam colaborar.

O diálogo inter-religioso assenta em quatro pilares fundamentais.

1. Todas as religiões, desde que não só não se oponham ao Humanum, mas, pelo contrário, o afirmem e promovam, são reveladas e verdadeiras. Desde sempre Deus procura manifestar-se e comunicar-se a todos. Assim, em todas as religiões há presença de revelação e, portanto, de verdade e santidade. Precisamente porque todas são reveladas, mas no quadro de interpretações humanas, todas são também simultaneamente verdadeiras e falsas, precisando de autocrítica.

2. As religiões são manifestações e encarnações da relação de Deus com o homem e do homem com Deus. Elas estão referidas, isto é, em relação com o Absoluto, mas elas próprias não são o Absoluto. O Absoluto não pode ser possuído ou dominado pelo homem. Quando o homem fala de Deus, está sempre a falar do Deus dito por ele e não, embora referido a ele, do Deus em si mesmo.

3. Se as religiões não são o Absoluto, embora referidas a ele, as pessoas religiosas devem dialogar para melhor se aproximarem do Mistério divino absoluto já presente em cada religião, mas sempre transcendente a cada uma e a todas.

4. Paradoxalmente, o quarto pilar afirma que do diálogo inter-religioso fazem parte também os agnósticos e os ateus, pois o que, antes de mais, nos vincula a todos é a humanidade, concluindo-se, assim, que os agnósticos e os ateus são aqueles que, por estarem "de fora", talvez melhor possam aperceber-se da inumanidade, superstição e idolatria, que tantas vezes afectam as religiões históricas.

Antes de sermos crentes ou não crentes, estamos vinculados pela humanidade comum e é pela sua realização plena em todos os homens e mulheres que devemos estar unidos. Critério essencial da verdade de uma religião é, pois, o seu compromisso com os direitos humanos e a realização plena do ser humano. O respeito pelo outro, crente ou ateu, e a salvaguarda da criação, não são algo acrescentado à religião, mas suas exigências intrínsecas.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Direito de resposta do "Público": Diocese do Funchal e o “diálogo com os ateus”

A Diocese do Funchal respondeu ao jornal "Público", que há dias afirmava "Bispo do Funchal suspende projecto de diálogo com ateus" (notícia aqui):

Diocese do Funchal e o “diálogo com os ateus” 
 1. Foi publicado, na 11.ª página da edição do Público de 5 de Maio último, um texto intitulado «Bispo do Funchal suspende projecto de diálogo com ateus», assinado por Tolentino de Nóbrega e que não corresponde minimamente à verdade, devendo ser esclarecido. 
 2. Independentemente de quem possa ser a sua “fonte”, a verdade é que o BISPO DO FUNCHAL NÃO PROIBIU e nem sequer podia ter dado ordens para suspender um projecto, que não lhe foi apresentado, e que a realizar-se carecia do seu conhecimento e autorização, como iniciativa que extravasava a paróquia. 
Ler tudo aqui.
 Agradeço a Henrique Dias, que me alertou para o comunicado.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

"Religião e Diálogo inter-religioso", livro de Anselmo Borges


Só hoje tive acesso a um livrinho de Anselmo Borges, embora me lembre do entusiasmo de Bento Domingues num dos seus textos, na altura em que o livro saiu, Setembro de 2010 (recorde aqui).

"Religião e Diálogo inter-religioso", n.º 8 da coleção "Estado da Arte", da Imprensa da Universidade de Coimbra, é, muito provavelmente o que de melhor se escreveu sobre religião, religiões e diálogo inter-religioso nos últimos tempos. 136 páginas que me valeram uma maravilhosa manhã de leitura.

Num excursus, o professor e padre fala de A. Comte-Sponville. Não é irrelevante a particularização. Comte-Sponville, com a razão de afirmar que crê que Deus não existe (escreve Borges citando o filósofo francês: “Se alguém disser que sabe que Deus não existe, «não é em primeiro lugar um ateu, mas um imbecil», do mesmo modo que, se alguém disser que sabe que Deus existe, «é um imbecil que toma a sua fé por um saber». Cada um com as suas razões, tanto o ateu como o crente, têm fé”), é exemplo daqueles que procuram uma espiritualidade, “no quadro de um certo tipo de experiência mística, feito de evidência, de plenitude, silêncio, experiência oceânica, simplicidade, eternidade”.

A segunda parte, sobre o diálogo inter-religioso, tem de ser de leitura obrigatória para quem se interessa minimamente pelas religiões e culturas. E avança bastante em relação ao que há 50 anos ficou consagrado no Vaticano II.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Cardeal Martini escreveu um livro sobre o que é ser bispo

O cardeal Carlo Maria Martini escreveu um livrinho (92 páginas, Ed. Rosenberg & Sellier) intitulado “Il vescovo”, (“O Bispo”). O “Correio da Tarde” transalpino publicou um excerto que pode ser lido aqui em português.


É responsabilizante que todos os católicos pensem nos seus bispos, já que não há Igreja católica sem bispos. É isso que é ser apostólica. A editora, de Turim, com obras como esta, quer “curar palavras” doentes para que voltem ao seu significado mais pleno. “Bispo” é uma delas.

No excerto lido há dias, três assuntos ficaram a pulsar ma minha mente e por isso trago-os hoje para aqui.

1. A pergunta de Montini (Paulo VI) que toda a Igreja, em todos os níveis, tem constantemente de fazer.
O arcebispo Montini, que ocupou a cátedra de Santo Ambrósio por mais de oito anos e depois se tornou o Papa Paulo VI, constantemente se fazia a pergunta: "O que o homem moderno pensará ou entenderá do que eu digo?" Importava muito a impressão que o seu discurso e a sua ação podiam criar sobre os não crentes e os não praticantes. 
2. A ressalva de Martini: Freiras e pessoas “da paróquia” não, por favor.
Pessoalmente, em Milão, eu instituí a Cátedra dos Não Crentes, com a qual eu entendia que também poderia pôr em cátedra os não crentes e aprender a escutá-los, mesmo que com uma escuta crítica. Uma das coisas as quais eu estava mais atento era que não se fizesse apenas uma lição acadêmica, mas que o relator soubesse escutar dentro de si as palavras que um rabino disse a alguém que o assediava com argumentos contra a existência de Deus: "Mas talvez seja verdade". 
É claro que a Cátedra dos Não Crentes pressupõe um ouvinte atento e qualificado, que exerça um juízo crítico sadio. O bispo julgará se se sente apto a propor um tal exercício um pouco "inquietante". Também por isso eu pedia que as irmãs, assim como as pessoas chamadas "da paróquia", não fossem.
3. A ilicitude de renunciar à arte e a dificuldade de pagar aos sacristães
Entre as acusações mais frequentemente dirigidas contra a Igreja há aquela de ser rica ou pelo menos ávida por dinheiro. As pessoas logo se dão conta se um padre é apegado ao dinheiro. Infelizmente, na Itália, a Igreja possui muitas obras de arte, igrejas e palácios importantes, embora, todos os dias, ela custe a encontrar o dinheiro necessário para pagar os seus colaboradores leigos, por exemplo os sacristães. Vendendo algumas dessas obras, se poderia obter muito dinheiro. Mas nós somos considerados como conservadores e responsáveis por todo esse tesouro: portanto, não é lícito renunciar a eles.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Levantar questões


A Igreja tem de tornar-se um espaço de uma liberdade provocadora, no qual ousamos lançar ideias, pôr à prova hipóteses, afirmar uma verdade incómoda e impopular, dizer ao Rei que vai nu ou ouvir dizer que nós é que estamos nus. Nunca nos poderemos aproximar do mistério se não tivermos a lúdica liberdade dos filhos de Deus, se não fizermos experiências e errarmos e avançarmos às apalpadelas para a verdade. (…) Os cristãos deveriam ser aqueles que continuam a levantar questões, quando todos os outros pararam de o fazer.

Timothy Radcliffe, "Ser cristão para quê?", p. 266

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Os bons e os maus ateus



Ainda a propósito de Christopher Hitchens, veja-se este texto de Giacomo Galeazzi no “Vatican Insider”, aqui traduzido. Acontece, de facto, que os crentes são mais capazes de dialogar com os ateus abertos (alguém já lhes chamou “mancos”, porque lhes falta qualquer coisa e é nessa qualquer coisa que se encontram com os crentes) do que com os ateus missionários, os que combatem militantemente a fé/religião. Os bold são meus.

E Hitchens ficou de fora do Átrio dos Gentios. Faltou o convite do Vaticano para um intelectual anticonformista e um espírito livre. No post Consigli a un giovane ribelle do seu blog Parola & Parole, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura conta: "Eu não consegui convidar Hitchens para entrar no Átrio. Teria me agradado a ideia de dialogar com [ele] fora de polêmicas e atitudes preconcebidas, isto é, como methórios, assim como definia o sábio Filão de Alexandria".
E, acrescenta, "é precisamente essa a ideia do Átrio dos Gentios: um espaço aberto à luz, em que se encontram e se desencontram o absurdo e o mistério, a pura racionalidade e o 'Tu Desconhecido'. Espero que a morte tenha sido para ele 'uma porta que se escancara e irrompe o futuro', retomando o aforismo de Graham Greene que ele tanto gostava de citar. Seria, para ele, como entrar em uma nova infância".
O purpurado parte de uma referência a outro grande laico: "Para Mitterrand que perguntava: 'Em cinco minutos, diga-me a substância da sua experiência de filósofo', Jean Guitton respondia: 'É a escolha entre duas soluções: o absurdo e o mistério'". E, especifica o cardeal, "Christopher Hitchens tinha escolhido a primeira solução, denunciando a religião como 'a principal fonte do ódio neste mundo'. Insistia Mitterrand: 'Mas qual é a diferença? O mistério também parece absurdo'. E Guitton: 'Não, o absurdo é um muro impenetrável contra o nos batemos em um suicídio. O mistério é uma escada: sobe-se de degrau em degrau rumo à luz, esperando'", para depois concluir: "Como homem de fé, a minha esperança é de ver o jovem rebelde voltar-se à luz e subir de degrau em degrau até o oceano de amor em que todo o ódio do mundo imerge". 
Porém, com apenas dois meses de vida pela frente, o polemista britânico Christopher Hitchens desferiu um último e duro ataque contra o Vaticano, acusando-o de cumplicidade com os regimes totalitários dos anos 1930 na Europa. Hitchens, ateu militante até a sua morte na semana passada [15 de dezembro] por causa de um tumor no esôfago, defendeu, na última entrevista com Richard Dawkins na New Statesman, que todo governo fascista da Europa daquela época era, na realidade, um "partido católico de extrema direita". 
Para Hitchens, autor de Deus não é Grande, "quase todos esses regimes chegaram ao poder com a ajuda do Vaticano e com a compreensão da Santa Sé". O polemista defendeu as suas posições como uma batalha contra todo totalitarismo, seja de direita, seja esquerda: "O totalitarismo para mim é o inimigo: aquele que quer ter o controle sobre o que você pensa, não só sobre as suas ações e os seus impostos. E a origem disso é teocrática". 
Não foi apenas Hitchens que ficou de fora do Átrio dos Gentios. Outros ateus ilustres ficaram de fora: por exemplo, Richard Dawkins, Piergiorgio Odifreddi e Michel Onfray. Odifreddi também escreveu um longo artigo em que manifestou seu próprio desacordo: "Na visão não só de Ravasi, mas de toda a Igreja Católica – escreveu – há ateus 'bons' e ateus 'maus'. Os melhores dentre os bons são aqueles como Cacciari: isto é, aqueles que não são ateus por nada e servem como útil cobertura laicista nos debates entre aqueles que acreditam abertamente e aqueles que acreditam de forma escondida. Se esse juízo parece impiedoso, basta olhar no YouTube o recente vídeo de Massimo Cacciari e Piero Coda em diálogo. Aqui, diálogo significa, na realidade, monólogo do primeiro, inserido entre duas frases do segundo. E qualquer um pode julgar por si só se as palavras de Cacciari sobre a Trindade são as de um ateu ou de um perfeito crente, como, aliás, confirma a opinião do teólogo. É óbvio que o cardeal Ravasi prefere escolher como interlocutores, para a passarela do Átrio dos Gentios, filósofos crentes em vez de matemáticos ateus. Até porque com os primeiros ele pode livremente desviar o discurso sobre assuntos como vida e morte, bem e mal, amor e dor, verdade e mentira, liberdade, solidariedade, bioética, medicina, economia".

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O que diz o assessor do ministro da Cultura da Igreja

Já hoje aqui reproduzi um poema de Tolentino Mendonça. Agora dei com a entrevista dele ao DN, no dia 12 de Dezembro, sobre a nomeação para consultor do Conselho Pontifício para a Cultura. Vale a pena ouvir o que diz o novo assessor do ministro da Cultura da Igreja Católica pelo programa que encerra quanto ao pode ser o diálogo fé-ciência-cultura.



quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ravasi: Falar com o autêntico ateísmo é uma tarefa difícil



Da entrevista de António Marujo ao cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura

(…) Como fala hoje a Igreja com o ateísmo?
Esse é um problema grave. Falar com o autêntico ateísmo é uma tarefa difícil. Verdadeiros ateus como Nietzsche são pouquíssimos. Refiro-me aos que propõem uma visão do mundo e da vida realmente alternativa.
Muitos dos actualmente mais conhecidos procuram sempre uma frase ou a Bíblia lida de modo fundamentalista, para dizer que ainda acreditamos nestas coisas, sem se esforçarem em fazer hermenêutica. Diria que os últimos ateus foram os grandes pensadores marxistas e liberais…

Ernst Bloch…?
Bloch, sim. Penso também em alguns como Jean-Paul Sartre, Albert Camus ou grandes espíritos laicos em Itália como Norberto Bobbio. Eram grandes laicos que se batiam contra o poder clerical, mas que tinham grandes visões.
Os de agora são ateus que reflectem o clima do ateísmo actual, da indiferença. Tivemos a sociedade com Deus, depois a sociedade contra Deus, agora a sociedade sem Deus. É um problema, mesmo para alguns crentes, que acreditam em Deus mas para os quais acreditar ou não, não faz variar muito.
Dialogar com esses grandes pensadores constrangia-nos a reflectir e a reconstruir a nossa própria visão. Com os actuais, é um jogo de pergunta-resposta, em que se responde de maneira apologética.

António Marujo, “Deus Vem a Público. Entrevistas sobre a transcendência. I volume” (ed. Pedra Angular), pág. 71.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...