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quarta-feira, 29 de outubro de 2014
DN: Os perigos e as virtudes de combinar ciência com religião
No DN de hoje. Leia-se com atenção o depoimento de Carlos Filhais. Continuo a pensar que a afirmação de que o Big Bang precisa de Deus ou exige uma intervenção divina é infeliz. Como Fiolhais. Mas pelo que tenho lido noutros lados, a intervenção mais vasta do Papa parece ter em vista os criacionistas que não aceitam o Big Bang nem a teoria da evolução.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
A asneira franciscana da exigência divina do Big Bang
Eu acho que o Papa Francisco fez asneira ao afirmar o seguinte:
“O Big Bang, que hoje se coloca na origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a”, declarou, numa audiência aos membros da Academia Pontifícia das Ciências.
Li aqui.
Por estas e outras é que Stephen Hawking há de sempre repetir que, percebendo tudo da física, Deus não pode existir (por não ser preciso). A asneira pseudo-científica do Papa está, portanto, ao nível das habituais asneiras pseudo-religiosas de Hawking, que é (ou pelo menos era) membro da Academia Pontifícia das Ciências, pois, como disse, é um lugar onde se encontram muitos cientistas.
domingo, 21 de setembro de 2014
Anselmo Borges; "A ciência e o divino 2"
Texto de Anselmo Borges no DN de ontem:
É difícil, se não impossível, determinar qual a maior revolução da história da humanidade. Mas estaremos de acordo em conceder que a revolução científica no sentido moderno da palavra,se não foi a maior, está entre as maiores e decisivas.
A ciência exerce fascínio fundamentalmente por dois motivos. Um deve-se ao seu método empírico-matemático, de verificação experimental, que faz que seja verdadeiramente universal, não havendo, portanto, uma ciência para crentes e outra para ateus ou agnósticos. O outro: todos acabam por ser beneficiados pelas suas aplicações técnicas. O que devemos à ciência é incomensurável. Ela satisfaz a curiosidade natural do homem por saber, como bem viu Aristóteles, e também as suas outras necessidades: de saúde, bem-estar, locomoção, comunicação. Hoje, até se fala, mais propriamente, de tecnociência, pois a própria investigação científica precisa de tecnologia. Acrescente-se apenas que é preciso estar consciente dos perigos das tecnologias, como mostram as ameaças ecológicas.
É tal a dívida para com a ciência que se corre mesmo um risco e tentação: pensar que ela detém o monopólio da razão. De facto, não detém, pois a razão é multidimensional e há necessidades humanas a que a ciência não responde: por exemplo, a estética, a ética, a religião. O homem será sempre religioso, porque não deixará de colocar a questão do fundamento e sentido últimos.
Na continuação da semana passada, cito outros físicos eminentes na sua relação com o divino.
Max Planck: "Toda a matéria origina e existe apenas em virtude de uma força que leva a partícula do átomo a vibrar e mantém coeso este sistema solar muito diminuto do átomo. Devemos supor por trás dessa força a existência de uma mente consciente e inteligente."
Heisenberg: "Na história da ciência, desde o famoso julgamento de Galileu, tem sido repetidamente afirmado que a verdade científica não pode ser conciliada com uma interpretação religiosa do mundo. Embora eu esteja hoje convencido de que a verdade científica é inatacável no seu domínio próprio, nunca achei possível descartar simplesmente o conteúdo do pensamento religioso como parte de uma fase ultrapassada na consciência da humanidade, uma parte de que teríamos de desistir agora. Assim, no decurso da minha vida, tenho sido repetidamente obrigado a reflectir sobre a relação entre estas duas áreas do pensamento, uma vez que eu nunca consegui duvidar da realidade daquilo para que as duas apontam."
De Broglie: "Mesmo supondo a mais favorável das expectativas, que o amanhã sai do hoje de acordo com o jogo implacável de um determinismo estrito, a previsão de eventos futuros nas suas imensas densidade e complexidade vai infinitamente além de todos os esforços de que a mente humana é capaz e só seria possível a uma inteligência infinitamente superior à nossa. Portanto, mesmo que uma necessidade inexorável ligasse o futuro ao presente, poder-se-ia dizer que o futuro é um segredo de Deus."
Einstein respondeu à pergunta sobre se era uma pessoa religiosa: "Sim, sou, pode dizer isso. Tente penetrar, com os seus recursos limitados, nos segredos da natureza, e descobrirá que, por detrás de todas as concatenações discerníveis, resta algo de subtil, intangível e inexplicável. A veneração dessa força, que está além de tudo o que podemos compreender, é a minha religião. Nessa medida, sou realmente religioso."
quarta-feira, 16 de julho de 2014
domingo, 15 de dezembro de 2013
A razão do poeta
Disse Deus na entrevista que deu ao P.e Tolentino Mendonça,
ontem aqui referida e que pode ser lida aqui na íntegra:
Um poeta escreveu:
«Creio que uma folha de erva não vale menos do que a jornada
das estrelas,
E que a formiga não é menos perfeita...
E que o sapo é uma obra-prima para o mais exigente,
E que a vaca ruminando com a cabeça baixa supera qualquer
estátua,
E que um rato é milagre suficiente para fazer vacilar
milhões de infiéis».
Ele tem razão.quinta-feira, 17 de outubro de 2013
O rouxinol e a rosa
(...) Mas o espinho ainda não atingira o seu coração, e assim o coração da rosa continuava branco, pois somente o sangue do coração de um rouxinol pode tornar vermelho o coração de uma rosa.
Lido ontem. Do conto "O rouxinol e a rosa", de Oscar Wilde, que é impossível ler sem encontrar paralelos com o sacrifício e autossacrifício cristão, ainda que "amor" possa ter sentidos diferentes no conto e na mensagem cristã.
Lido ontem. Do conto "O rouxinol e a rosa", de Oscar Wilde, que é impossível ler sem encontrar paralelos com o sacrifício e autossacrifício cristão, ainda que "amor" possa ter sentidos diferentes no conto e na mensagem cristã.
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Onde está Deus, Mário de Carvalho?
Numa entrevista do "Jornal de Negócios" de sexta-feira passada ao escritor Mário de Carvalho este afirma, sobre Deus, que
não sabemos as surpresas que nos estão reservadas, mas quase de certeza não vamos encontrar essa face de barbas atrás de nenhuma galáxia no meio das poeiras.A entrevista tem como título geral "O saber é incómodo, está a mais, é maçador". Então a ignorância...
quinta-feira, 14 de março de 2013
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Uma árvore é um vestido de noiva na Primavera
Para todas as árvores que não aguentaram o temporal
Uma árvore é um vestido de noiva na Primavera
Uma árvore é um leque chinês gigante
Uma árvore é um grande mensageiro de Deus
Uma árvore é filha da Mãe Natureza
Árvores de morangos!
Árvores de xarope de bordo!
Uma árvore é um infantário para os
passarinhos
A árvore é um dador de ar
Uma árvore é um leitor de nuvens.
Macieiras!
Cerejeiras!
Uma árvore é a peruca de Deus.
Uma árvore esconde uma bela história.
Coqueiros!
Palmeiras!
Uma árvore é a casa de banho de um cão.
Arranha o céu!
No meio de nenhures.
Rodeada de animais maus
Uma árvore é o coro de um anjo.
Árvores vermelhas!
Árvores verdes!
Uma árvore conta a Deus os suspiros da terra.
Uma árvore é sofrimento no deserto.
Uma árvore é um antigo e sensato contador de
sensatez.
Uma árvore é uma árvore.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Vistas seletivas
Se olharmos apenas para as flores que florescem e para a beleza das estrelas, pomos a mão sobre a outra vista para não vermos o horror e mentimos a nós próprios.
Abbé Pierre, 1994
Abbé Pierre, 1994
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
"Vida de Pi", agora em filme
Estreou há dias, penso que ainda não em Portugal. O filme baseia-se num livro de Yann Martel. Li-o em 2003 (ou 2004? De qualquer maneira, obrigado, José Serra, pelo empréstimo!).
Dos poucos romances que me comoveram realmente. Diz-se que há uma dimensão religiosa no filme, que recupera a pergunta sobre as religiões (lido aqui). Realço que é uma das mais belas histórias de amizade dos tempos recentes.
Dos poucos romances que me comoveram realmente. Diz-se que há uma dimensão religiosa no filme, que recupera a pergunta sobre as religiões (lido aqui). Realço que é uma das mais belas histórias de amizade dos tempos recentes.
domingo, 23 de setembro de 2012
segunda-feira, 5 de março de 2012
Desde Moisés que ninguém tinha visto uma montanha com esta grandeza
Rainer Maria Rilke escreveu à sua mulher, Clara, sobre o quadro de Cézane intitulado "Mont Sainte-Victoire":
Desde Moisés que ninguém tinha visto uma montanha com esta grandeza... Só um santo conseguiria estar tão unido a Deus como Cézanne estava com a sua obra".Mas a qual "Mont Sainte-Victoire" de Cézanne se referia Rilke? Pintou o monte dezenas vezes. Aqui ficam dez.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Amizade com a criação
A amizade com a criação é o segredo da vida feliz e como tal é também o fundo adequado sobre o qual projectar os mapas dos nossos caminhos e o plano da vida. (...) A acção de graças abre-nos as portas do jardim da criação.
Carlos G. Vallés, s.j.
Carlos G. Vallés, s.j.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Jesus nas nuvens
Uma vez uma senhora mostrou-me uma série de fotografias de nuvens nas quais dizia ver em todo o lado anjos e imagens de Nossa Senhora. Por muito que me esforçasse, eu não via nada. Via apenas o seu esforço de encontrar mensagens do além nas coisas mais naturais.
Mas nestas fotografias, já vi Jesus, ora de braços abertos, ora a carregar a cruz. Porém, não servem para mais nada senão para mostrar que de vez em quando a natureza cria imagens que correspondem às nossas figurações mentais. Mas não me admiro nada se um dia destes as receber num e-mail daqueles que no fim pedem para não ter vergonha da fé cristã e reencaminhar para mais dez pessoas.
As fotos foram tiradas na francesa Ilha da Reunião, no Oceano Índico. Vi aqui.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Quando os humanos são os selvagens. Pior do que as touradas
Pensava que isto já só acontecia no ppt que de vez em quando circula de mail em mail.
Massacre. É um verdadeiro massacre. Todos os anos, desde o
século IX, mantém-se esta nas ilhas Faroé, na Dinamarca. O objectivo é
assinalar a passagem dos jovens para a idade adulta. Eles denominam a
selvajaria de "The grindadrap", ou seja, massacrar centenas de
golfinhos... com facões e paus. Não é, evidentemente, uma tarefa fácil , pois é
preciso conseguir quebrar a coluna vertebral dos animais, para paralisá-los e
assim poder cortar as suas gargantas. Uma crueldade sem igual em que mais de
1500 animais são mortos. Foto: Andrija Ilic/Reuters. Texto e imagem copiados daqui.
sábado, 5 de novembro de 2011
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
"Formigas", poema de Manoel de Barros
Não precisei de ler São Paulo, Santo Agostinho,
São Jerônimo, nem Tomás de Aquino, nem São
Francisco de Assis –
Para chegar a Deus.
Formigas me mostraram Ele.
(Eu tenho doutorado em formigas.)
Manoel de Barros
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Catalina Pestana e as joaninhas de S. Francisco
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Filme: Escolheremos a graça ou a natureza?
Ainda não o vi – mas não é filho único – e espero vê-lo em breve. “A árvore da vida”, de Terrence Malick, tem tido imensas referências positivas da crítica e de amigos credenciados. (As destes últimos credibilizam as dos primeiros e valem mais para incentivar a ida ao cinema.)
Volto ao assunto (ver aqui o trailer) porque li mais uma crítica positiva e, vá lá, uma negativa. Ambas vêm do Brasil, onde o filme estreou mais recentemente. A primeira é de Marcelo Gleiser, físico teórico que de vez em quando anda por este blogue (ver aqui, por exemplo). A segunda, em vídeo, é de Isabela Boscov, crítica da revista “Veja”.
O texto de Marcelo Gleiser (lido aqui):
Na semana passada assisti ao filme "A Árvore da Vida", de Terrence Malick. Se existe um gênero de cinema dito metafísico, esse filme é um exemplo perfeito. Algumas das questões mais profundas que foram (e são) feitas no decorrer da história reaparecem aqui, em meio à tribulada vida de uma família de classe média americana da década de 1950.
Malick nos lembra que o sublime e o trágico usam vários disfarces, alternando cenas de beleza numa rua comum com cenas pesadas.
O tema central do filme é a perda e nossa relação com ela. Malick contrasta a fragilidade humana com o esplendor dramático da natureza, inserindo uma narrativa da criação que começa com o Big Bang, mostra estrelas nascendo em gigantescas e coloridas explosões, a própria Terra surgindo, o desenvolvimento de criaturas e plantas multicelulares, a era dos dinossauros, até chegarmos ao nascimento de Jack, o filho mais velho da família O'Brien.
Com isso, Malick nos insere no épico da criação, mostrando que a história cósmica é a nossa história.
As imagens e a música evocativa (Mahler, Brahms, Couperin, Berlioz, e o tema original de Alexandre Desplat) nos induzem a ver o Universo, a vida e a humanidade como manifestação de um Deus Spinoziano, em tudo e em todos, transcendente.
No decorrer do filme, testemunhamos vários tipos de perda. O'Brien e sua esposa têm três filhos. Jack é o pivô dramático do enredo, sofrendo constantemente da ira do pai frustrado, que se mescla com um afeto violento.
O'Brien queria ter sido músico, mas acaba numa fábrica, talvez como engenheiro.Fora a fúria paterna, Jack tem de lidar com a superioridade do irmão mais novo, R. L., que toca violão e desenha muito bem, além de ser mais bonito. Nos ciúmes e adoração que Jack sente pelo irmão, vemos a luta que todos temos com nossas limitações. Lembrei-me da angústia de Salieri ao se deparar com o gênio de Mozart em "Amadeus".
Já a mãe é uma criatura em constante êxtase beatífico, uma mística que ama a natureza com fervor religioso: "Ame a todos e a tudo. Ame cada folha, cada raio de luz".
A paz (relativa) familiar é destruída quando R. L., o filho, é morto no Vietnã aos 19 anos - algo que vemos no início do filme.
A narrativa vai e volta no tempo, e vemos Jack adulto (Sean Penn), dentro de um prédio moderno em Dallas que parece um sarcófago, olhando para fora e perguntando "Onde você está?" ao seu irmão e a Deus. O filme usa muita narração sussurrada, como se fossem preces. Malick transforma a sala de projeção em templo: o cinema sacro.
O filme nos coloca entre "o caminho da graça e o caminho da natureza". Graça no sentido cristão de generosidade, humildade e bondade, de uma força interna imune a todo o tipo de barreira, ancorada na nossa humanidade. Sem nós, a graça não existe. Já a natureza é indiferente, avança resolutamente, criando e destruindo sem um objetivo final. Nós, frágeis humanos, estamos tentando compreender o significado de nossas vidas. Uma morte prematura é indesculpável.Não precisamos escolher entre a graça e a natureza. Existe uma terceira via, em que encontramos graça na natureza, não apenas através de sua beleza e cada folha e raio de luz, mas por meio da nossa profunda conexão com ela.
O que matou o pai, figurativamente, mesmo antes da morte do filho, foi ter se distanciado do sentido de graça, da conexão profunda com o que nos cerca, vivo ou não.
Espero que, das várias mensagens do filme de Malick, uma que perdure seja que graça e natureza constituem um todo indissolúvel.
Afinal, aqui estamos, criações cósmicas que somos, capazes de inventar o conceito de graça e de viver inspirados por ele. Dedico esse texto à minha amiga Ciça Guimarães.
O vídeo de Isabela Boscov:
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