Mostrar mensagens com a etiqueta Poder. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poder. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 21 de março de 2014

Anselmo Borges: "O maior afrodisíaco"

As tentações, segundo Botticelli

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado, 15 de março.

1 Soube que era chamado por Deus a uma missão essencial para o mundo. Para decidir, foi, como fazem todos os que na história são grandes, meditar. E então Jesus foi tentado. Três tentações, todas à volta do mesmo: o poder. O que ele tinha de decidir era entre um Messias do poder enquanto dominação e um Messias do serviço e da criação.

O diabo colocou-o sobre o pináculo do templo em Jerusalém e disse-lhe: "Se és Filho de Deus, deita-te abaixo, pois os anjos tomar-te-ão nas mãos." Esta é a tentação do domínio pelo espectáculo do poder.

Pela sua própria dinâmica, o poder quer ser total. Por isso, o demónio levou-o a um monte muito alto, mostrando-lhe todos os reinos do mundo e a sua magnificência e disse-lhe: "Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares." O que a gente faz, quantas prostrações, para poder dominar! Dominar todos os reinos do mundo.

Se há fascínio, é o do poder. A volúpia do poder! Porque subjugar a vontade de outros ao domínio próprio surge como redenção e bênção. Disse quem sabe, Henry Kissinger: o poder é "o maior afrodisíaco." E, no limite, o poder total. Porque, no fundo, há a ilusão de que, com o poder total, se teria o poder de todos os poderes: matar o poder da morte. Ser imortal.

Daí, por princípio, Deus ser concebido e apresentado como todo--poderoso, omnipotente. Como se a omnipotência fosse a característica mais própria de Deus. A tentação primeira, logo no início, foi a da serpente: "Sereis como Deus." A omnipotência seria agora nossa.

2 Jesus, porém, fez uma experiência avassaladoramente diferente de Deus: Deus não é omnipotente enquanto poder de dominação, Deus é omnipotente enquanto Força infinita de amar e de criar. Por isso, disse: "Eu não vim ao mundo para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos." E amou, amou até ao fim, por palavras e obras, criando e recriando a vida de todos os desamparados, feridos e perdidos, que somos todos. E amou até à morte e morte de cruz, para dar testemunho da verdade de Deus como Força infinita de criar e de amar. Por isso, morreu como blasfemo, contra o Deus da dominação.

A revolução de Jesus consiste na revolução operada na imagem de Deus. Deus é outro que não poder de dominação. Quem cria e ama é que é como Deus. Afinal, a história não pertence aos dominadores, mas aos criadores.

3 A vida é potência, força que se afirma e expande. Mas a vida só é vida se se afirmar e tiver possibilidade de se expandir em todos. O poder como dominação é apenas de alguns e para alguns, excluindo sempre a maior parte, os dominados. O poder como serviço, força de criar e amar, não exclui ninguém, pelo contrário, inclui a todos e não diminui mas acrescenta.

Quem quiser entender precisa de parar, para reflectir e meditar. Meditação tem a mesma raiz que medicina e moderação. Vivemos num mundo perigoso, impondo-se, pois, a moderação e a meditação como medicina que cura e, pela conversão, abre a possibilidades outras que não as da destruição.

Foi assim que esta semana o Papa Francisco pegou em si e na Cúria e foram todos para fora do Vaticano meditar, iniciando o retiro com o texto bíblico das tentações de Jesus, que são as nossas. Em ordem à conversão. Não sem antes dizer à Cúria que ela não é nem pode ser "a Corte".

Na primeira tentação, o diabo disse a Jesus para transformar as pedras em pão. Jesus disse-lhe que nem só de pão vive o homem. Há outras necessidades e é urgente perceber que a felicidade se não confunde com o consumismo sem limites e a auto-satisfação, que, dentro de um egoísmo insolidário, acabam por gerar o vazio. Isto sim: com a conversão, virão também a fome de justiça e o pão para todos. Como escreve o biblista José A. Pagola, que constata com Jesus que não basta o pão, "o ser humano precisa também de cultivar o espírito, conhecer o amor e a amizade, desenvolver a solidariedade com os que sofrem, escutar a sua consciência com responsabilidade, abrir-se ao Mistério último da vida com esperança".

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Anselmo Borges: "Mandela: o milagre do perdão"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.


Ainda se pode dizer algo que não tenha já sido dito sobre Nelson Mandela, perante quem o mundo todo se inclinou, em sinal de respeito e veneração, aquando da sua morte a 5 de Dezembro passado, aos 95 anos? Já antes também.

Estive várias vezes na África do Sul, ainda no tempo do apartheid. Ainda vi, por exemplo, em bancos de jardim ou indicação de praia, a ordem: "Whites only" (só para brancos). Se pude visitar o Soweto, foi porque o afável bispo católico de Joanesburgo, que não era racista, pediu ao pároco negro que me acompanhasse. E foi com muita simpatia que me receberam.

Muitas vezes me perguntei como é que aquela ignomínia iria acabar. Seria possível sem um banho de sangue? Foi possível. Pacificamente, abriu-se o caminho para a democracia no quadro da coexistência racial. Isso deveu-se certamente também à inteligência política do presidente De Klerk, no novo contexto criado pela queda do muro de Berlim. Mas, para evitar a tragédia, o espírito e a acção de Mandela foram determinantes. Afinal, tudo está naquele gesto de apertar a mão aos carcereiros e convidá-los para o banquete de inauguração da nova presidência da "nação arco-íris". É necessário caminhar com a utopia, que nos diz, por um lado, o que não pode ser, porque intolerável, e, por outro, nos indica o caminho do para onde se deve ir.

Mandela percebera que os seus carcereiros eram seres humanos habitados pelo medo. Ora, o medo é do pior que há. O medo tolhe a razão e a capacidade de pensar. É preciso ter medo de quem tem medo, de tal modo que a primeira libertação tem de ser a libertação do medo. Também e sobretudo no universo da religião. Aterrados pelo medo de Deus, homens e mulheres que se julgam religiosos caminham fatalmente para desgraças tenebrosas. Por isso, a Bíblia é atravessada pela compreensão histórica lenta, que culmina em Jesus, através da sua experiência, palavras e acções, de que a única tentativa de "definir" Deus é (está em São João): Ho theós agapê estín (Deus é amor incondicional, Deus é Força infinita de criar e só sabe amar).

Mandela era cristão. Por isso, sabia que se deve perdoar aos inimigos. Pelo Evangelho, também sabia que os romanos enquanto potência de ocupação podiam obrigar um judeu a transportar a bagagem na distância de uma milha, sendo neste contexto que se percebe o que Jesus diz: "Faz uma segunda milha de livre vontade." Talvez o romano começasse a conversar, e quem sabe se não acabariam por beber um copo juntos? A reconciliação, a solução pacífica dos conflitos é preferível à violência e à guerra. E Jesus, do alto da cruz, rezou: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem."

De qualquer modo, o perdão é um milagre, também em política. Jürgen Habermas, agnóstico, talvez o maior filósofo vivo, que quereria uma filosofia que herdasse, num processo de secularização mediante a razão comunicativa, os conteúdos semânticos da religião e a sua força, reconheceu que há um resto na religião não herdável pela simples razão. Disse-o num discurso famoso, por ocasião da recepção do prémio da paz dos livreiros alemães e já depois dos acontecimentos trágicos do 11 de Setembro de 2001. Esse resto tem que ver nomeadamente com o drama do perdão.

O perdão, em última análise, já não pertence à ordem do jurídico nem do político. No perdão do imperdoável, é a razão humana enquanto capacidade do cálculo que é superada, pois nem o algoz tem direito ao perdão nem a vítima é obrigada a perdoar. Como escreveu o filósofo Jacques Derrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência, "qualquer coisa de trans-humano": "na ideia do perdão, há a da transcendência", pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí, começa o domínio da religião. "A partir desta ideia do impossível, deste "desejo" ou deste "pensamento" do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito bem tentar-se uma génese do religioso."

sábado, 18 de janeiro de 2014

Anselmo Borges: "Francisco e Obama"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


Bento XVI teve um gesto histórico único ao determinar que no dia 28 do mês de Fevereiro passado, às 20 horas, a sede de Roma ficava vacante, abrindo assim caminho à eleição de um novo Papa. No dia 13 de Março, aconteceu pela primeira vez um Papa jesuíta: o cardeal de Buenos Aires, Bergoglio.

O nome escolhido, Francisco, foi todo um programa, que tem realizado. A sua atitude tem sido autenticamente franciscana. Conquistou o mundo, ao inclinar-se, despojado, perante a multidão e pedindo a sua bênção. Depois, com a sua humildade, simplicidade, bondade, compaixão, deixou o Palácio Apostólico para viver normalmente em Santa Marta. O seu interesse pelas pessoas é real e genuíno. Foi a Lampedusa, beija, diz piadas, sorri, ri, acaricia, escreve cartas, telefona. Não tem medo. Declara que também tem dúvidas.

Mas Francisco tem pela frente imensos problemas. Diria que o primeiro é tentar converter a sua Igreja ao cristianismo, começando pelos hierarcas. Que os cardeais, bispos, padres, católicos, se convertam ao Evangelho de Jesus.

Os problemas são ad intra e ad extra, isto é, no interior da Igreja e na sua relação com o mundo. Dentro, para lá da questão decisiva da conversão, há todo o problema de uma nova Constituição para a Igreja, a começar pelo papado. Não é compreensível que o Papa sozinho tenha tanto poder como o Papa e os bispos juntos, no quadro de uma monarquia absoluta. Significativamente, Francisco não fala de si como Papa, mas como bispo de Roma, o que indica que quer descentralizar, no quadro de maior participação dos bispos e das conferências episcopais. A Igreja Católica é a única instituição verdadeiramente global, e isso tem de implicar descentralização nos vários domínios da vivência do cristianismo. Se a Igreja é de todos, Povo de Deus, impõe-se a participação activa de todos, e será necessário dar também lugar às mulheres nos lugares cimeiros de decisão.

Para a pedofilia, tolerância zero. Essencial é a transparência no Banco do Vaticano. No contexto da moral, o próprio Francisco já condenou o legalismo e o ritualismo e avisou que não pode viver obcecada com o sexo. Assim, mostra compreensão em relação aos homossexuais, mandou um inquérito audaz a todos os católicos sobre o novo mundo da vivência familiar. É expectável que se abra a uma revisão da Humanae Vitae e aos anticonceptivos, à participação em toda a vida da Igreja, incluindo a comunhão, por parte dos divorciados recasados. Não irá ainda para a abolição da lei do celibato dos padres, mas poderá abrir as portas aos padres que entretanto casaram e à ordenação de homens casados.

Quanto à missão da Igreja para o seu exterior, Francisco já manifestou o seu empenhamento no ecumenismo - diálogo com as outras Igrejas cristãs, nomeadamente a ortodoxa, não sendo impossível vê-lo a visitar Moscovo - e no diálogo inter-religioso, concretamente com o islão. As Nunciaturas Apostólicas, isto é, as Embaixadas do Vaticano em quase todos os países do mundo terão o papel de pontes para a paz e a promoção dos direitos humanos. O Papa Francisco continuará a intervir no mundo como voz político-moral global, proclamando a justiça e a paz.

O efeito Francisco é inegável. Está aí a sua imensa influência nos média. Tem 11 milhões de seguidores no Twitter. Foi considerado a personalidade do ano 2013. Granjeou empatia, simpatia e admiração global. A prática religiosa tem aumentado. E a razão é simples: tomou a sério o Evangelho.

Mas não se pode ser ingénuo. Encontrará muitas resistências dentro e fora da Igreja. Sobretudo dentro, correndo o risco de, como Obama, cuja popularidade desceu, ver em parte bloqueada a sua revolução pacífica. É o que aconteceria se não conseguisse uma nova Constituição para a Igreja, uma profunda e rápida transformação da Cúria, transparência plena no Banco do Vaticano.

Mas há razões para uma esperança fundada. Rodeou-se do G8 cardinalício e quer rapidamente reformar a Cúria. Francisco faz a síntese de franciscano e de jesuíta. Ele é cristão franciscano, com formação de jesuíta para uma estratégia na eficácia.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Bento Domingues: "Um papa anticlerical?"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje.


1. A religião é uma das grandes dimensões mentais e culturais dos seres humanos. Hoje, no Ocidente, é uma realidade controversa, mas não apagada. O acolhimento ao Papa Francisco não resulta apenas, nem sobretudo, de qualquer estratégia publicitária. Nele, as pessoas vêem uma das expressões mais genuínas da atitude de Jesus Cristo, no meio do seu povo.

O divórcio entre as Igrejas e o mundo moderno não foi provocado, apenas, pela má vontade dos incréus e dos anticlericais. O anticlericalismo foi, muitas vezes, o reverso do clericalismo. Nasci numa zona do país em que não se podia viver sem padre, desde o baptismo ao funeral. Passava-se o tempo a dizer mal deles por causa do seu autoritarismo e da arbitrariedade ameaçadora dos seus comportamentos pouco pastorais. Não eram especialmente maus, mas apenas o resultado da formatação recebida.

Hoje já não se repetem estas palavras de Pio X (1), mas elas modelaram gerações: “só na hierarquia reside o direito e a autoridade necessários para promover e dirigir todos os membros para os fins da sociedade. Em relação ao povo, este não tem outro direito a não ser o de se deixar conduzir e seguir docilmente os seus pastores”.

A Civiltà Cattolica (2), na época da definição da infabilidade do papa, escrevia: “a infabilidade do papa é a infabilidade do próprio Jesus Cristo […]. Quando o papa pensa, é o próprio Deus que pensa nele”.

2. O Vaticano II ainda estava longe. O século XX, sobretudo em alguns países, foi um tempo de grandes movimentos de renovação do catolicismo: missionário, ecuménico, bíblico, teológico, social, litúrgico, laical, etc. Foi, também, uma época de condenações, sobretudo das experiências mais arrojadas, como por exemplo, a suspensão dos padres operários e dos teólogos que trabalhavam em diversas frentes culturais do mundo moderno.

O Concílio alterou, profundamente, as concepções eclesiológicas que justificavam o autoritarismo da hierarquia. Dizia-se mesmo que a eclesiologia se tinha transformado numa hierarquiologia. Agora, o papa, o bispo, o padre deixavam de ser considerados uma hierarquia de poderes sobre a Igreja, mas de serviço às comunidades. Estimular a sua criatividade, na diversidade dos seus carismas e funções, era a principal tarefa dos ministérios ordenados que, por sua vez, deviam suscitar iniciativas, segundo as necessidades de tempo e de lugar. Eram bons princípios, boas práticas, mas sem meios, nem vontade, de organizar a vida da Igreja, segundo essas orientações. Veio, depois, um longo inverno na Igreja e foram ressuscitados modos de agir autoritários que paralisaram reformas urgentes.

3. Veio o Papa Francisco. Como já disse noutras ocasiões, não apareceu com o Direito Canónico na mão, para dizer o que era para continuar na mesma e o que era para reformar, como se fosse um burocrata. Veio participar numa reforma que envolvesse a Igreja toda, embora destacando responsabilidades e neutralizando forças de obstrução. Não no estilo de mandar fazer. Começou por ser ele a agir conforme aquilo que depois tem vindo a propor, em diversas circunstâncias. A perspectiva geral foi dada na Exortação Apostólica e em várias entrevistas. Não se pode esquecer a forma como respondeu às perguntas dos Superiores Maiores das Congregações Religiosas. Destacou a importância da qualidade e do estilo da formação dos jovens religiosos. Em todas as ocasiões denuncia o clericalismo, com expressões tais que levam alguns a julgar que pertence a uma organização anticlerical! O Papa perdeu a devoção aos monsenhores. Pobres daqueles que já se julgavam na calha.

Nesse Encontro, a convicção mais abrangente é esta: as grandes mudanças da história acontecem quando a realidade é vista, não a partir do centro, mas da periferia. Trata-se, para o Papa, de uma questão hermenêutica: a realidade não se compreende a partir de um centro equidistante de tudo. Para a entender bem, é preciso mover-se da posição central da tranquilidade, da zona de conforto, para as zonas agitadas das periferias. Este é o melhor caminho para escapar ao centralismo e às focagens ideológicas. Os temas do citado diálogo com os superiores das congregações religiosas foram os da coragem, da profecia, do clericalismo e dos conflitos. Nada poderá substituir a leitura da gravação feita pela Civiltà Cattolica (3).

Dirigindo-se à Comissão Teológica Internacional (06.12.2013), em vez de lhes recomendar cautela e ortodoxia, incitou os teólogos a serem pioneiros do diálogo da Igreja com as culturas; a situarem-se como profetas nas fronteiras e não ficando para trás, na caserna. O magistério e os teólogos devem estar atentos às expressões autênticas do sensus fidelium.

A sensibilidade cristã dos fiéis não é só dos homens. As mulheres são sempre as esquecidas. O jornal L’ Osservatore Romano acaba de lançar um suplemento sobre Mulheres, Igreja e Mundo, de circulação mensal, de quatro páginas a cores. Mais vale tarde do que nunca.


1) Cf. Ramon Maria Nogués, Dioses, Creencias y Neuronas, Fragmenta Ed., 2011, pg. 280
2) Ibid. pg 281
3) http://www.laciviltacattolica.it/ ; tradução em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/526950-qdespertem-o-mundoq-o-

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Contra a fidelidade canina aos partidos


Luigi Sturzo, padre, fundou o Partido Popular Italiano em 1919, o primeiro de "inspiração católica". Mas explicou que "os dois termos («partido» e «católico») são antitéticos; com efeito, o catolicismo é religião, é universalidade; o partido, inversamente, é política, é divisão".

(Sturzo opôs-se ao fascismo e teve de se exilar, primeiro em Londres e depois em Nova Iorque.)

Cá está uma boa razão para os católicos poderem mudar de partido à vontade.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Leonídio Paulo Ferreira: "Só a papamania foi mais forte do que Putin"

Vladimir e Jorge

Leonídio Paulo Ferreira no DN de hoje:

Rondou o absurdo pensar que Putin poderia ter recebido o Nobel da Paz pela mediação na Síria. Mas "Figura do Ano" seria razoável. Mede-se o impacto, não se é positivo ou negativo. E se a Time serve de referência, note-se que já distinguiu Hitler como Gandhi e João Paulo II.
Porém, Jorge Mario Bergoglio é um fenómeno. O estilo terra a terra do argentino que chegou a Papa sob o nome Francisco atrai simpatias dentro e fora do mundo católico. Foi a escolha da revista americana, mas também do Le Monde. E perante a Papamania, o líder russo não teve hipóteses. Um remake do tal poder das divisões do Vaticano que Estaline desdenhava.

domingo, 6 de outubro de 2013

Como reformar o Vaticano

Thomas J. Reese

Por estes dias em que se tem falado da reforma da cúria vaticana, veio-me à memória um artigo que li há uns tempos sobre “Reformar o Vaticano”. O autor do artigo é Thomas J. Reese, um jesuíta.

Em português, o padre norte-americano que já foi diretor da revista “America” tem publicado o livro “No interior do Vaticano”, nas edições Europa-América, que é de longe o melhor livro em português, mesmo que haja outros sérios (conheço mais dois ou três, mas são panfletários) para perceber como funciona a organização vaticana (funções papais, sínodos, colégio dos cardeais, cúria romana, finanças do Vaticano, etc.).

E agora a nota de humor. Conta Reese, na página 197:
“O consultor de uma congregação organizou os cinco «não» para se sobreviver na Cúria:
Não penses.
Se pensas, não fales,
Se pensas e falas, não escrevas.
Se pensas e falas e escreves, não assines o teu nome.
Se pensas e falas e escreves e assinas o teu nome, não fiques surpreendido.”
Ele sabe do que fala. Ora, no tal artigo - não está no livro citado -, Reese explica seis propostas concretas para a reforma do Vaticano. São elas:

1. Transformação do Vaticano de uma corte real para uma burocracia.
2. Fortalecimento dos grémios legislativos na igreja.
3. Transformação das congregações em comissões sinodais eleitas.
4. Criação de um poder judicial independente.
5. Eleição dos bispos.
6. Fortalecimento das conferências episcopais.

Antes de estranhar ou contrariar algumas destas proposições, convém ler o que Reese escreve em concreto. O artigo, condensado, pode ser lido aqui (formato PDF).

Tenho quase a certeza de que o Bispo de Roma – uma vez jesuíta, jesuíta para sempre – conhece o artigo.

Thomas J. Reese termina assim:
¿Qué oportunidades reales tenemos de que estas reformas se produzcan? Como sociólogo debo contestar: prácticamente nulas. La iglesia está regida actualmente por grupos que se refuerzan unos a otros y que saben perfectamente que esta reforma restringiría su poder. Y esto es exactamente lo contrario de su teología de la iglesia. Pero como cristiano católico debo seguir esperando.
Há tempos, no rescaldo das congregações gerais e da eleição papal, o jesuíta voltou ao tema no "National Catholic Reporter". Escreveu, entre outras coisas, o que quase já me pareceu ouvir da boca de Francisco:
My own prescription for reforming the Curia is based on the supposition that it should be in service to the pope as head of the college of bishops. It should be organized as a civil service and not part of the hierarchy of the church. 
Ler tudo (no NCR) aqui.

sábado, 5 de outubro de 2013

Anselmo Borges: "Ratisbona, laicidade e laicismo"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


Quando, após o que parecia a "Primavera Árabe", surgiu um inverno, igrejas são destruídas e cristãos mortos - o Grande Mufti da Arábia Saudita, Abdul Aziz bin Abdullah, acaba de declarar que "é necessário destruir todas as igrejas da região" -, não falta quem se lembre do famoso discurso de Bento XVI em Ratisbona, no dia 12 de Setembro de 2006. Tratou-se de uma lição universitária na Aula Magna da universidade na qual tinha ensinado. A reacção de alguns sectores muçulmanos foi violenta.

Bento XVI começou por dizer que tinha acabado de ler a parte editada pelo professor Th. Khoury, de Münster, do diálogo que o douto imperador bizantino Manuel II, o Paleólogo tivera em 1391 com um persa culto sobre o cristianismo e o islão e a verdade de ambos. A um dado momento, o imperador toca o tema da jihad, guerra santa. Certamente, ele sabia que na sura (capítulo) 2, 256, talvez uma das suras do início, quando Maomé ainda não tinha poder e era ameaçado, se lê: "Não deve haver coacção na religião." Mas conhecia também as disposições posteriores acerca da guerra santa. Ora, "de modo surpreendentemente brusco, a ponto de ser para nós inaceitável, dirige-se ao seu interlocutor simplesmente com a pergunta central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: "Mostra-me o que é que Maomé trouxe de novo e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como a sua directiva de difundir por meio da espada a fé que pregava"." O imperador explica em seguida as razões por que a difusão da fé através da violência é um comportamento irracional. A violência é contra a natureza de Deus e a natureza da alma. "A Deus não agrada o sangue, diz o imperador. Não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus".

É esta a ideia que Bento XVI queria sublinhar: "A afirmação decisiva nesta argumentação contra a conversão através da violência é: não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus." Para o imperador, formado na filosofia grega, esta afirmação era evidente. Na compreensão muçulmana, porém, porque Deus é absolutamente transcendente, a Sua vontade não está ligada a nenhuma das nossas categorias, nem sequer à racionalidade, de tal modo que, se fosse essa a Sua vontade, "o Homem deveria praticar também a idolatria".

Aqui, para Bento XVI, abre-se um dilema que nos desafia: "A convicção de que agir contra a razão está em contradição com a natureza de Deus é só um pensamento grego ou vale sempre e por si? Eu penso que neste ponto se manifesta a profunda concordância entre o que é grego no melhor sentido e o que é fé em Deus com o fundamento na Bíblia." Lá está o prólogo do Evangelho de São João: "No princípio, era o Logos", que significa ao mesmo tempo razão e palavra, "uma razão que é criadora e capaz de comunicar-se, mas precisamente como razão".

Ainda nesse ano, Bento XVI visitou a Turquia. No regresso, declarou que o mundo muçulmano se encontra hoje, "com grande urgência", perante uma tarefa semelhante à dos cristãos a partir do Iluminismo e que o Vaticano II levou a bom termo. "É necessário acolher as verdadeiras conquistas do Iluminismo, os direitos humanos e especialmente a liberdade da fé e do seu exercício, reconhecendo neles elementos essenciais também para a autenticidade da religião." Mas, por outro lado, não deixou de prevenir para os perigos do laicismo, que quer retirar a religião do espaço público, cortando a relação com a Transcendência. Não é aceitável "uma ditadura da razão positivista que exclui Deus da vida da comunidade e dos ordenamentos públicos, privando assim o Homem de critérios específicos seus de medida".

Por mim, penso que este diálogo, que foi tão difícil para Igreja Católica, o será ainda mais para o mundo islâmico. De facto, enquanto Jesus disse que se deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, mandou Pedro meter a espada na bainha, e os cristãos nunca entenderam a Bíblia como ditado de Deus; o Alcorão, para lá de um livro sagrado, vindo directamente de Deus, é um código civil e penal, e Maomé, para lá de fundador religioso, foi também um líder político e militar.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Leonel Moura e a tentação fundamentalista: "Os católicos não são diferentes. Basta dar-lhes poder."

Este texto não é sobre Amália


No seu texto semanal de opinião no "Jornal de Negócios", Leonel Moura (de certeza que todos conhecem pelo menos uma das obra deste artista, aqui reproduzida) escreve:
Pois não tenhamos ilusões. Não há nenhuma religião que, tendo oportunidade, não queira submeter tudo e todos à sua crença e aos seus dogmas. Os católicos não são diferentes. Basta dar-lhes poder.
Isto foi no dia 20 de setembro. E, de vez em quando, tenho pensado nisto. A versão católica do cristianismo é, como ele dá a entender, geneticamente totalitária? Se olharmos para textos do Vaticano II, só para usar uma referência próxima, sem ir aos evangelhos, e, julgo eu, consensual, vemos que há uma ampla defesa da liberdade de expressão e opinião (Inter mirifica e principalmente Dignitatis Humanae), da liberdade de crença (Dignitatis Humanae, Unitatis redintegratio, Nostra Aetate), do direito de participação e de liberdade política (Gaudium et spes), só para referir alguns aspetos. Poder-se-á ser católico, hoje, sem defender as liberdades cívicas, os direitos, as garantias? Não me parece. E, no entanto, parece-me igualmente que o catolicismo não está completamente liberto da tentação fundamentalista e totalitária.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Liberdade sem sensatez

A nossa ruína reside na incapacidade de aproveitarmos ao máximo a liberdade que os nossos antepassados conquistaram para nós com tanta dificuldade ao longo de três séculos. Fartámo-nos de podermos fazer o que queremos sem sensatez suficiente para tirar partido da liberdade que usufruímos.

Alain de Botton na página 77 de "Religião para ateus"

domingo, 22 de setembro de 2013

Anselmo Borges: "O que pensa Francisco: 5. sobre a política"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem:


O Papa Francisco não é ingénuo em relação aos políticos e ao poder, sobretudo nas mãos de medíocres. Ainda cardeal de Buenos Aires, contava uma piada. "Uma pessoa aparecia a correr a pedir socorro. Quem o perseguia? Um assassino? Um ladrão? Não..., um medíocre com poder. É verdade: pobres dos que estão sob o domínio do medíocre. Quando um medíocre acredita e lhe dão um pouco de poder, pobres dos que estão sob a sua alçada.O meu pai dizia-me sempre: "Cumprimenta as pessoas quando fores subindo, porque irás encontrá-las quando vieres a descer. Não duvides"."

No entanto, somos todos animais políticos. Já Papa, respondeu a uma pergunta sobre a formação dos jovens: "Envolver-se na política é uma obrigação para o cristão. Enquanto cristãos não podemos lavar as mãos como Pilatos. Temos de nos meter na política, porque a política é uma das formas mais altas da caridade, pois procura o bem comum. Os leigos cristãos devem trabalhar na política. A política está muito suja, mas eu pergunto: "Está suja porquê?" Porque os cristãos não se meteram nela com espírito evangélico? É uma pergunta que eu faço. É fácil dizer que a culpa é dos outros... Mas eu, o que é que faço? Isto é um dever! Trabalhar para o bem comum é um dever para um cristão."

Então, o que se passa para que a política se tenha tornado suja? Os políticos pensam mais nos seus interesses e nos dos partidos do que no bem comum. E "todos temos tendência para ser subornáveis". Quando um agente da polícia manda parar um automobilista por excesso de velocidade, "é provável que a primeira frase a ouvir--se seja esta: "Como podemos resolver o assunto?" Faz parte da nossa natureza, temos de lutar contra esta tendência para a recomendação, para a cunha, para nos porem em primeiro lugar na lista." E há a tendência para "o pecado do carreirismo". E há a desinformação: "Hoje, cada órgão de comunicação social monta algo diferente com dois ou três dados: desinforma." E hoje importa mais a imagem do que as propostas políticas: "Já Platão dizia, em A República, que a retórica está para a política como a cosmética para a saúde." Isto é "um pecado contra a cidadania". Vivemos numa sociedade de sofistas, na qual as pessoas gostam de ser enganadas por discursos belos e falazes.

O cardeal acrescentava que a sua família materna é do lado radical e lembrava as conversas do avô, carpinteiro, com o senhor Elpidio, vendedor de anilinas. Afinal, tratava-se de Elpidio González, que fora vice-presidente da nação. "Ficou-me gravada a imagem desse antigo vice--presidente que ganhava a vida como vendedor. É uma imagem de honestidade."

É preciso trazer a ética para a política: urge reabilitá-la. Precisamente porque "o amor social se expressa na actividade política para o bem comum", é "necessário reverter o seu desprestígio". Essencial é o diálogo: "Diálogo, diálogo, diálogo." O poder tem a sua legitimação última no serviço do bem comum.

E a Igreja? Deve anunciar e promover os valores e denunciar as injustiças e a violação dos direitos humanos: aí, o padre ou o bispo estão "a profetizar, a exortar, a catequizar a partir do púlpito". Isto é política com maiúscula. "O religioso tem a obrigação de definir os valores, as linhas de comportamento, da educação." "O risco que os padres e os bispos devem evitar é o de caírem no clericalismo, que é uma posição viciada do religioso." "A Igreja defende a autonomia das questões humanas", não lhe competindo, por exemplo, pronunciar-se sobre como o médico deve fazer uma operação. Na política, é preciso respeitar uma "laicidade saudável", que respeite as diferentes competências. "O que não é bom é um laicismo militante, que toma uma posição contra a Transcendência ou exige que o religioso não saia da sacristia. A Igreja transmite os valores, e eles que façam o resto."

Religião e política estão ao serviço da comunidade. O religioso serve as dimensões humanas para o encontro com Deus e a plenitude da pessoa e, assim, "não é errado a religião dialogar com o poder político; o problema é quando se associa a ele para fazer negócios por baixo da mesa". Ora, tem havido de tudo.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

João Cesar das Neves: "Pedra de tropeço"

Quando a Igreja disser o mesmo que a multidão, opinião pública ou élite pensante, torna-se desnecessária. Para que serve uma doutrina que pactue ou tolere injustiças, abortos, interesses, adultérios, ficções, libertinagem, abusos? Por que razão quereríamos uma Igreja igual à RTP, PSD, UGT ou ONU? Os crentes querem ser, não populares, mas fiéis.

Texto de João César das Neves no DN de hoje:

Há cinco meses o mundo não sabia quem era Jorge Mario Bergoglio SJ; desde 13 de Março corre literalmente atrás do Papa Francisco. Há quase um concurso global para encontrar gestos inesperados e atitudes inovadoras do recém Sumo Pontífice.

A personalidade cativante de Francisco tem traços únicos, que o mundo e a Igreja ainda não compreenderam totalmente. Mas a unanimidade à volta deste carácter encantador é, pelo menos por enquanto, quase total. Ouvem-se muitos perguntar se ele é mesmo genuíno, ou se se trata de uma pose, pois parece bom demais para acreditar. Tanto os testemunhos dos íntimos como a experiência crescente destes meses indicam claramente que ele é exactamente como se vê: um grande homem de Deus, límpido, sábio, transparente. Isso leva todos os que se cruzam com ele a esperar muito do seu pontificado.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

sábado, 22 de junho de 2013

Anselmo Borges: "Atenienses e mélios, Portugal e a Europa, poder e política"

Final do texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Qual é o problema? Nos tempos modernos, nos Estados-nação, houve durante cerca de duzentos anos um casamento entre poder e política, e julgou-se que "poder e política deveriam continuar de qualquer maneira a viver juntos: a arte política como o poder de fazer coisas, diga-se um poder regulado, compensado e orientado pela política". Ora, o que está a acontecer é que numa globalização meramente negativa não conseguimos ainda instituições políticas de carácter global e o poder tende a evaporar-se no ciberespaço, num mundo planetário. Em síntese, "o poder globaliza-se enquanto a política permanece local". O poder já não está subordinado à política nem é por ela limitado. "A política encontra-se cada vez mais desprovida (e torna-se cada vez mais destituída) de poder, e os Estados-nação, como tal, podem fazer cada vez menos do que faziam antes."

sábado, 8 de junho de 2013

Abriu a época das transferências

Partindo das frequentes críticas do Papa Francisco ao carreirismo eclesiástico, Sandro Magister escreveu há dias um texto pertinente sobre as transferências de bispos de umas dioceses para as outras. Na realidade, duvido que as críticas franciscanas se dirijam especificamente aos bispos que mudam de diocese, porque, e julgo que não sou ingénuo por pensar assim, tal mudança deve-se mais à vontade do Vaticano do que aos desejos dos próprios.

Vale a pena ler o texto aqui. Em todo o caso, quando tanto se houve falar de transferências (não só para a Diocese do Porto), há citações relevantes que merecem ser meditadas:

- Vincenzo Fagiolo, cardeal, em 1999: “A dignidade do episcopado está no ‘munus’ que comporta, e este por si mesmo prescinde de toda hipótese de promoção e transferência, que deveriam ser, quando não eliminadas, cada vez mais raras. O bispo não é um funcionário, um interino, um burocrata, que se prepara para outros cargos mais influentes”.
- Bernardin Gantin, cardeal, em 1999: “Quando é nomeado, o bispo deve ser um pai e um pastor para o povo de Deus. E pai é para sempre. Do mesmo modo, um bispo, uma vez nomeado numa determinada sede, em linhas gerais e por princípio, deve permanecer nela para sempre. Sejamos claros: o que existe entre o bispo e a diocese é representado como um matrimônio; e um matrimônio, segundo o espírito evangélico, é indissolúvel. O novo bispo não deve ter outros projetos pessoais. Podem existir motivos graves, gravíssimos, por razão dos quais a autoridade pode decidir que o bispo saia, para passar de alguma maneira, de uma família para outra. Fazendo isto, a autoridade tem presente inúmeros fatores e, entre estes, não se encontra, é claro, o possível desejo de um bispo mudar de sede”.
- Joseph Ratzinger, cardeal, em 1999: “Especialmente, na Igreja não deveria existir nenhum sentido de carreirismo. Ser bispo não deve ser considerado uma carreira com diversos escalões, de uma sede para outra, mas, um serviço muito humilde. Penso que também o debate sobre o acesso ao ministério seria mais sereno, caso fosse visto no episcopado um serviço e não uma carreira. Também uma sede humilde, com poucos fiéis, é um serviço importante na Igreja de Deus. É claro, pode haver casos excepcionais: uma sede muito grande para a qual é necessário ter experiência do ministério episcopal; neste caso, pode se dar... Porém, não deveria ser uma práxis normal; somente em casos muito excepcionais”.
- Timothy Radcliffe, frade dominicano, em 2013:  “Pergunto-me também se é um bem para os bispos ser deslocados de uma diocese para outra. Carregam um anel que é um sinal de que estão ‘casados’ com a diocese, mas, muitas vezes, são separados de suas dioceses originais e casados com outras dioceses. Se soubessem, ao contrário, que permaneceriam em suas dioceses, então poderiam prestar-lhe sua completa atenção. É verdadeiramente estranho que seja permitido aos bispos se divorciarem de sua diocese, mas não as pessoas unidas em matrimônio!”

A acrescentar a isto, deveria desaparecer os bispos auxiliares, que são sempre bispos titulares de dioceses defuntas, como Mitilene ou Luperciana. Que ficção. E claro que as dioceses teriam de ser mais pequenas e muitas mais em número.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Solução «jesuítica» para falar de temas tidos como controversos


Um dia convidaram Carlos González Vallés para fazer uma série de conferências num país da América Latina sobre “Espiritualidade Oriental”. Quando já tudo estava tratado, incluindo as passagens aéreas, telefonam-lhe a dizer que tudo fora cancelado em certa diocese, porque o bispo não autorizava tais palestras. Certamente, o bispo não conhecia o jesuíta espanhol com longos anos dedicados à Índia.

Carlos González Vallés manteve a viagem. Se não podia falar em público, dedicar-se-ia ao turismo, “que é mais divertido”. Mas quando chegou ao aeroporto, receberam-no e disseram-lhe que estava tudo pronto e que no dia seguinte iniciariam as conferências. O que acontecera?
Conta o jesuíta:
Todo o «oriental» era perigoso, e isso bastava para proibir-me de falar. Mas tampouco meus anfitriões eram tolos. Voltaram à presença do bispo, disseram-lhe que acatavam obedientemente a suas decisão e que eu, como consequência, falaria em minhas palestras de um tema diferente: «Espiritualidade inaciana». Algum problema? Nenhum, plena bênção episcopal. Ela me foi transmitida no aeroporto por meus amigos, que acrescentaram: «Agora você fala tranquilamente o que preparou». Solução «jesuítica». Atrapalharam o meu turismo.

Adaptado das páginas 71-72 de “Querida Igreja” (Paulus - Brasil)

domingo, 26 de maio de 2013

Amor e audácia

Lido num livro de Carlos González Vallés:

Karl Rahner disse pouco antes de morrer que lamentava duas coisas em sua vida: não ter amado mais as pessoas e não ter tido mais audácia com as hierarquias da Igreja.

"Se Jesus fala de demónios e eles não existem, enganou-nos"


Por estes dias, regressou um velho argumento sobre a existência real de demónios (enquanto seres sobrenaturais que por vezes possuem pessoas e depois são expulsos por exorcismos). Digo regressou porque já por cá andou há um ano. E regressou num ou noutro comentário  de entradas recentes neste blogue, tal como nas mensagens privadas do meu espaço no Facebook. É de lá que retiro as seguintes frases, sem dizer quem é o autor. Ele poderia ter escrito no blogue, mas preferiu o recato do FB e por isso não digo o seu nome.
Cristo expulsou demónios. Está em todos os evangelhos. Os apóstolos fizeram o mesmo. Está nos Actos dos Apóstolos. Também nega isso tudo? Ou Cristo (que é Deus, nisso concordamos) desconhecia factos clínicos psicológicos, inacessíveis à ciência da época? Os apóstolos, coitados, ainda vá lá: poderiam desconhecer as diferenças entre doenças psicológicas e possessões. Agora, Deus? Cristo não consegue ver a diferença entre epilepsia e possessão? E, já agora, Cristo não podia ter sido mais claro, e ter dito que o Diabo não existia? É que Cristo, ao falar sobre o Diabo como se ele existisse, acaba por nos baralhar...
Resumiria assim o que está acima: Jesus Cristo sabe tudo e não engana ninguém (ou não seria Deus). Jesus Cristo expulsou demónios, como os evangelhos atestam. Logo, eles existem, pois Jesus não quereria induzir-nos em erro.

Em parte, estas questões já aqui foram abordadas. Primeiro, nos evangelhos, Jesus expulsa demónios (e não o diabo – são distintos) pela força da palavra e não por sortilégios (como faziam outros) no contexto do anúncio da soberania absoluta de Deus (reinado de Deus); depois, é possível interpretar as possessões como doenças do foro psíquico e, mais do que isso, vitimizações num contexto social opressor. Diz um autor, em parte afastando-se da ideia das doenças, que as possessões eram uma estratégia complexa utilizada de maneira mórbida por pessoas oprimidas para se defenderem de uma situação insuportável. Vale a pena ler e reler o texto (aquirefiro-me às páginas digitalizadas). No final, com aquela interpretação, sinto que os evangelhos são ainda mais reais e significativos para aqueles tempos e os tempos de hoje.

A linha de fundo do argumento “não podia enganar-nos” repousa na convicção de que Jesus, sendo Deus, sabe tudo; ou, sendo Deus, não pode mentir, errar, enganar.

Há aqui três questões subjacentes. Aponto: a) O que é Jesus ser Deus? (podemos ter entendimentos diferentes sobre isto); b) Estar errado é pecado? (julgo que todos concordamos que não) c) Podemos dizer que mente ou erra quem pensa de acordo com as conceções do seu tempo, se estas mais tarde mudam? (julgo que todos concordamos no não).

Fica-se com a ideia, obviamente inaceitável para um crente, de que se Jesus falou de demónios e eles não existem, enganou-nos, esquecendo que mentira (e erro moral) seria se Jesus soubesse uma coisa e dissesse algo deliberadamente diferente (alguns dizem: “Sendo Deus, tinha de saber”; nós dizemos: “Não tinha, não”). Mas se pensava de acordo com as conceções culturais do tempo (e temos muitos motivos para pensar que sim), não é mentir dizer algo que não corresponde ao que em fase posterior é tido por verdade. Jesus diz que o grão de mostarda é a semente mais pequena. Talvez pensasse mesmo que é. Fala do sinal de Jonas. Como qualquer judeu da época, pensava num Jonas real e não numa figura literária. Diz que “o princípio não foi assim”, ao falar do divórcio. Certamente pensaria num Adão e Eva reais, como aparecem nas primeiras páginas da Bíblia. E os exemplos poderiam continuar.

Desconfio que o tipo de teologia que nega a comunhão de Jesus com os conhecimentos do tempo desconhece o significado da kenose de Jesus, do abaixamento, do fazer-se humano, do caminhar com os contemporâneos.

Desconhece, certamente o que Bento XVI escreveu no livro sobre a infância de Jesus:
É verdade também que a sua sabedoria cresce. Enquanto homem, Jesus não vive numa omnisciência abstrata, mas está enraizado numa história concreta, num lugar e num tempo, nas várias fases da vida humana, e de tudo isto toma forma concreta o seu saber. Manifesta-se aqui, de modo muito claro, que Ele pensou e aprendeu de maneira humana.
Ele pensou e aprendeu de maneira humana.

Com isto chego finalmente ao que me moveu a escrever isto. Relendo um livro de Carlos González Vallés, dei com a página que condiz com as cristologias do Jesus que sabia tudo mesmo tudo. Quando a mim, padecem, como noutra altura já escrevei, de uma espécie de docetismo gnoseológico.

O jesuíta cita gigantes da teologia (Santo Hilário: “Jesus comia e bebia, não porque precisasse de fazê-lo, mas tão-somente para que não se surpreendessem os que viviam com ele”; São Cirilo de Alexandria: “Jesus sabia tudo desde seu berço, mas aparentava ir-se inteirando das coisas para dissimular”; Santo Atanásio: “Jesus nunca pôde adoecer nem envelhecer”; os salmanticenses: “Jesus foi de facto desde o princípio, e não apenas em potência como possibilidade futura, o maior filósofo, matemático, pintor, navegador… jamais existente” [esta faz lembrar os ditadores norte-coreanos]) e seguir fala da sua experiência:
Eu ouvi dizer em sermões que Jesus, desde o berço em Belém, poderia ter contado à Mãe tudo o que lhe aconteceria na vida; que podia ter falado com os Reis Magos na língua destes; que quando o Evangelho diz que «se surpreendeu» diante da fé do centurião, isso não passava de um gesto condescendente de Jesus, que na realidade não podia «surpreender-se» com nada, já que conhecia tudo; que, quando perguntou ao cego: «O que quer que eu faço por você?», esta era uma simples pergunta teórica, já que Jesus sabia sempre o que cada um pensava e queria; que, quando rezava era sói para dar bom exemplo aos discípulos, uma vez que ele, sendo Deus não precisava de oração; que, se dormia na barca, não era por cansaço físico, mas para testar a fé dos apóstolos; e que, se gritou na cruz: “Por que me abandonaste?”, não foi por sofrimento pessoal, mas como consolo para os nossos.
Como ficamos em relação aos demónios? Repito Bento XVI: “Ele [Jesus Cristo] pensou e aprendeu de maneira humana”.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Aprender com os ateus

De vez em quando gosto de ler os ateus. Penso mesmo que é um défice do catolicismo que se pretende informado desconhecer as ideias dos que pensam diferente. E pensar diferente não é necessariamente pensar o oposto. E mesmo que seja.

Frequentemente, ler ateus, mesmo que não se concorde com eles na generalidade, é oportunidade para questionar catolicíssimos comportamentos e práticas.

Há dias dei com esta passagem de "O significado das coisas" (Gradiva), de A. C. Grayling (aquele que compilou uma "bíblia" sem Deus; ver aqui e aqui) que me leva a questionar a presença social do cristianismo, que é essencialmente missionário. Não que a ponha em causa. Nada disso. Interrogo-me é sobre o modo como é levada a cabo. Uma questão de pedagogia, portanto. Escreve Grayling:
Ao obrigar os outros a agir de acordo com as preferências deles, revelam pelo menos algumas das seguintes características: insensibilidade, intolerância, falta de amabilidade, insuficiência de imaginação, incapacidade de compreender os sentimentos alheios, ausência de compreensão, ignorância relativamente à existência de interesses e necessidades alternativos na experiência humana e arrogância na convicção de que a sua forma de ver as coisas é a única aceitável.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...