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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

100 anos de Camus

Faz hoje 100 anos que Camus nasceu. A notícia que aqui reproduzo é do "Público" deste 7 de novembro.

É muito difícil pensar a fé e o sentido da vida - duas coisas intrinsecamente ligadas - sem aludir a Camus e a obras como "O mito de Sísifo", "A peste", "O homem revoltado".

Camus, que, como o texto diz, não é figura consensual, tinha uma grandeza moral e coerência que não encontrávamos (o "nós" é do grupo do seminário de filosofia sobre o existencialismo, no início da década de 1990) em Sartre.

Sartre dizia que o "inferno são os outros". Com Camus sabíamos que o inferno podia estar dentro de nós. Ele defendia que, se alguma redenção houvesse, viria pela arte. O que não chegava, mas já era algo. E os seus livros, com os títulos envoltos num azul turquesa (naquela coleção da Livros do Brasil), sobre o absurdo, ainda fazem sentido.



quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ravasi: Falar com o autêntico ateísmo é uma tarefa difícil



Da entrevista de António Marujo ao cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura

(…) Como fala hoje a Igreja com o ateísmo?
Esse é um problema grave. Falar com o autêntico ateísmo é uma tarefa difícil. Verdadeiros ateus como Nietzsche são pouquíssimos. Refiro-me aos que propõem uma visão do mundo e da vida realmente alternativa.
Muitos dos actualmente mais conhecidos procuram sempre uma frase ou a Bíblia lida de modo fundamentalista, para dizer que ainda acreditamos nestas coisas, sem se esforçarem em fazer hermenêutica. Diria que os últimos ateus foram os grandes pensadores marxistas e liberais…

Ernst Bloch…?
Bloch, sim. Penso também em alguns como Jean-Paul Sartre, Albert Camus ou grandes espíritos laicos em Itália como Norberto Bobbio. Eram grandes laicos que se batiam contra o poder clerical, mas que tinham grandes visões.
Os de agora são ateus que reflectem o clima do ateísmo actual, da indiferença. Tivemos a sociedade com Deus, depois a sociedade contra Deus, agora a sociedade sem Deus. É um problema, mesmo para alguns crentes, que acreditam em Deus mas para os quais acreditar ou não, não faz variar muito.
Dialogar com esses grandes pensadores constrangia-nos a reflectir e a reconstruir a nossa própria visão. Com os actuais, é um jogo de pergunta-resposta, em que se responde de maneira apologética.

António Marujo, “Deus Vem a Público. Entrevistas sobre a transcendência. I volume” (ed. Pedra Angular), pág. 71.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cardeal Ravasi: "O problema é a distribuição do mal"


Há dias, Anselmo Borges dizia aqui que “a nossa sociedade, afundada no ter, no poder, no cálculo, na eficácia, perante a morte, não sabe o que fazer”. “Uma sociedade poderosíssima nos meios, mas sem verdade e finalidades humanas, faz dela tabu: disso não se fala. Mas, se o pensamento sadio da morte reentrasse, faríamos a tempo o que temos a fazer e saberíamos finalmente distinguir entre o que realmente vale e as ilusões do que não vale e que é causa última da nossa crise”, acrescentou o padre e professor da Universidade de Coimbra.

A entrevista que Andrea Tornielli (“La Stampa”) fez ao cardeal Gianfranco Ravasi, no contexto do congresso da Associação de Médicos Católicos Italianos (existe associação similiar em Portugal? Não parece), ajuda a reflectir sobre estes dois temas. "Oculta-se a morte de todos os modos, ou talvez busca-se a possibilidade de viver até 120 ou 130 anos, continuando a afastar o encontro. Ao contrário, devemos ter a coragem de olhar para a doença e a morte de frente como componentes da existência". Copiei a entrevista daqui.
Como o senhor responde à questão sobre o porquê da doença?
A escritora norte-americana Susan Sontag, em 1978, contou a sua experiência de sofrer de câncer em um livro intitulado "A doença como metáfora". Definição interessante: a doença nunca é apenas uma questão biológica. Quando estamos doentes, precisamos ser confortados, olhamos para a vida de um modo diferente, as prioridades mudam e, se a doença se agrava, muda a escala dos nossos valores. E mesmo quem não crê pode chegar a perguntar a Deus o porquê do que lhe acontece. No entanto, a primeira resposta é simples, lógica e racional. 
Qual é a "racionalidade" inscrita na doença?
A dor é um componente da finitude das criaturas. Um dado que, na nossa sociedade orgulhosa e tecnológica, que alguém definiu de "pós-mortal", não se quer aceitar. Oculta-se a morte de todos os modos, ou talvez busca-se a possibilidade de viver até 120 ou 130 anos, continuando a afastar o encontro. Ao contrário, devemos ter a coragem de olhar para a doença e a morte de frente como componentes da existência. 
Uma capacidade que parece se perder no Ocidente, mas que ainda está presente em outras culturas...
É verdade. Quando eu estava no Iraque para fazer estudos arqueológicos, um dia, um dos meus colaboradores locais me convidou para a sua casa, para que eu pudesse ver seu pai que estava morrendo. Eu fui e vi aquele velho deitado no meio do centro da única grande sala da casa, com as mulheres que cozinhavam de um lado e as crianças que brincavam do outro e, de vez em quando, se aproximavam do avô para tocar em sua mão. 
A consciência da finitude não basta para explicar a dor inocente, a doença das crianças, o destino que persegue aqueles que já sofreram.
O problema é a distribuição do mal. Continua sendo dramática a página do "A peste", de Albert Camus, onde, perante a morte de uma criança, afirma-se: Eu não posso acreditar em um Deus que permite isso. É o excesso do mal. Aqui, começa a fronteira em que as religiões se atestam com as suas respostas, que não esgotam o mistério. No Livro de Jó, no auge do desespero humano, Deus fala e varre todas as explicações e as tentativas de racionalizar. A solução só pode ser metarracional, global e transcendente, e se encontra no encontro com Deus. 
E a resposta do cardeal Ravasi?
É a cristã, totalmente diferente das outras religiões. Porque, no cristianismo, é Deus mesmo, em Cristo, que não só se curva sobre nós para nos explicar o significado do sofrimento, não só em alguns casos cura graças à sua onipotência com os milagres, mas também entra na nossa humanidade e prova toda a dor do homem. A dor física, moral, o medo, o silêncio do Pai. E, no fim, até mesmo a morte, que é a carteira de identidade do homem, não de Deus. Ele se torna um cadáver, sem nunca deixar de ser Deus, sofre todo o sofrimento humano e nele depõe um gérmen de transfiguração, que é a ressurreição, fecundando a nossa natureza mortal. 
Porém, isso não anula a dor nem a pergunta. Mesmo para aqueles que creem.
Jesus Cristo, o Filho de Deus, não veio para apagar a dor, tanto é que ele a viveu. Mas ele a assumiu sobre si e a transfigurou com o gérmen do infinito, que é um prelúdio da eternidade para nós. O cristianismo é uma religião fortemente carnal e próxima do drama de quem sofre – ao contrário de muitas outras religiões –, porque, para os cristãos, Deus se tornou um homem e morreu na cruz. Os cristãos, como atesta o nascimento dos hospitais, sempre teve essa atenção pelos enfermos, porque acreditam em um Deus que foi sofredor, que conheceu a morte e ressuscitou. 
O seu dicastério organizou recentemente um congresso dedicado às células-tronco adultas, via alternativa ao uso das células embrionárias. Igreja e ciência podem se reencontrar?
A utilização das células embrionárias está obtendo resultados mínimos comparados aos obtidos com as células-tronco adultas: cancela-se assim o lugar comum que nos atribui a responsabilidade de não querer aliviar os sofrimentos de tantos doentes. Justamente as células-tronco adultas, que não têm nenhuma contraindicação de tipo ético, estão trazendo resultados encorajados no campo oncológico e contra o Parkinson e o Alzheimer.

quarta-feira, 23 de março de 2011

O que dizem de Jesus: Incapazes de morrer como Ele


Cristo morreu sem saber… Deixou-nos sós para continuar… mesmo quando estamos na masmorra, sabendo o que Ele sabia, mas incapazes de fazer o que Ele fez, incapazes de morrer como Ele.

Albert Camus (1913-1960)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Camus e Jesus Cristo


Eu não creio na sua ressurreição, mas não ocultarei a emoção que sinto diante de Cristo e dos seus ensinamentos. Perante Ele e a sua história não experimento senão respeito e reverência.

Albert Camus

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Sentido e atracção

A certeza de um Deus, que desse o seu sentido à vida, supera muito em atracção o poder impune de fazer o mal.

Albert Camus (1913-1960)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Ascese cega


A revolta é uma ascese, se bem que cega. Porque o revoltado blasfema na esperança de um novo Deus.

Albert Camus (1913-1960)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Bergson e Camus morreram no mesmo dia, com 19 anos de intervalo

Quando Henri Bergson ganhou o Nobel de Literatura, o Comitê justificou a escolha como “reconhecimento das suas ricas e vitalizadoras ideias e da brilhante forma com que foram apresentadas”.

Um outro laureado, que morreria também num dia 4 de Janeiro, mas 19 anos mais tarde, em 1960 (completa-se hoje meio século) receberia o Nobel “pela sua importante produção literária, que com uma visão perspicaz e profunda, ilumina os problemas da consciência humana dos nossos tempos”. Albert Camus.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

13 de Novembro de 354. Nasce Aurélio Agostinho

Aurélio Agostinho (Aurelius Augustinus), Agostinho de Hipona, Santo Agostinho, nasceu no dia 13 de Novembro de 354, em Tagaste, actual Souk Ahras, na Argélia.

Padre e bispo, escritor, filósofo, teólogo. Um dos poucos antigos de que se conhece a data de nascimento. Um dos poucos antigos a deixar uma autobiografia, as “Confissões”. Uma das mentes mais influentes da humanidade. Não foi só sobre a Idade Média que Agostinho pairou. Lutero, Calvino, Descartes, Kant, Hegel, os racionalismos em geral e mesmo os marxismos e utopias de todo o género, Camus, Hannah Arendt e Ratzinger, entre muitos outros, devem algo ao bispo de Norte de África. Foi há 1655 anos que nasceu.

sábado, 7 de novembro de 2009

7 de Novembro de 1913. Nasce Camus

Albert Camus, que com Nietzsche e Dostoiévski, formavam uma trindade de existencialistas (ou pré) que, estudantes, gostávamos de ler ou de dizer que líamos, nasceu no dia 7 de Novembro de 1913, um dia depois de Gandhi ter sido preso na África do Sul, quatro anos precisos antes de Lenine depor Kerenski, na Revolução que para o calendário ortodoxo (juliano) foi em Outubro.

Camus, no estudo da Filosofia/Teologia, era um existencialista aberto, não-cristão, ao contrário de Gabriel Marcel ou Karl Jaspers, mas representando um humanismo ateu dialogante, diferente do de Sartre.

A tese de doutoramento de Camus foi sobre Santo Agostinho. Nobel da Literatura em 1957 (três anos antes de morrer), escreveu “O estrangeiro”, “O mito de Sísifo. Ensaio sobre o absurdo”, “A peste”, “O homem revoltado”, entre outras obras.

Como isto anda tudo ligado, li ontem em “A Vertigem das Listas” (p. 309-310):

Eu lembro-me de que o protagonista de “O Estrangeiro” é Antoine (?) Meursault: foi frequentemente observado que ninguém se recorda do seu nome.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Não vás à frente nem atrás, pede Camus

Não vás à minha frente,
que não te posso acompanhar.
Não vás atrás de mim,
que não me poderás guiar.
Caminha apenas junto de mim
para, simplesmente, seres meu amigo.

Albert Camus, escritor francês (1913-1960)

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...