Mostrar mensagens com a etiqueta Ortodoxos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ortodoxos. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de dezembro de 2014

Bento Domingues: "Um milénio entre a excomunhão e a bênção"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:

1. Segundo a cronologia, devia ter deixado para hoje o que escrevi no Domingo passado. Mas assim é melhor. Vamos, então, à fonte donde nasceram as questões que os jornalistas levantaram ao Papa, no voo de regresso da Turquia.

Foi uma peregrinação que durou três dias cheios de acontecimentos, cuja significação profunda e decisiva para o futuro passou quase despercebida. Começo pelo contraste complementar entre as declarações fervorosas sobre o Islão – a não confundir com as organizações que o invocam para matar em nome de Deus - e o apelo veemente aos dirigentes religiosos e políticos muçulmanos para que se unam na denúncia clara e pública desses crimes e ameaças.

 A Turquia é a fronteira de muitas fronteiras políticas, religiosas e cristãs. Bergoglio não foi lá dar lições a ninguém. Foi encorajar os que procuram caminhos de paz no Medio Oriente, intensificar o diálogo inter-religioso e revigorar a proximidade católica com o mundo cristão da Ortodoxia.

Era conduzido pelo desejo de congregar as energias de todas as pessoas de boa vontade, daquelas que vêem o mundo a partir do rosto das vítimas da violência, dos pobres e dos excluídos e que não aceitam esta vergonha como uma fatalidade.

2. Depois de se referir ao horror da islamofobia, da cristianofobia e de realçar a importância do diálogo inter-religioso, ele próprio explicou a alma da sua viagem: Eu fui à Turquia e fui como peregrino, não como turista. De facto, o que me levou, o motivo principal, foi a festa de hoje: fui precisamente para a partilhar com o Patriarca Bartolomeu; foi um motivo religioso. Depois, quando fui à Mesquita, não podia dizer: "Não! Agora sou turista!" Isto não; era tudo religioso. E vi aquela maravilha! O mufti explicava-me bem as coisas, com tanta serenidade e mesmo com o Alcorão, onde se falava de Maria e de João Baptista, explicava-me tudo... Naquele momento, senti necessidade de rezar. E disse: "Rezamos um bocado?" "Sim, sim!" – disse ele. E rezei… pela Turquia, pela paz, pelo mufti... por todos... por mim, que bem preciso... Rezei verdadeiramente. E, sobretudo, rezei pela paz. Disse: "Senhor, acabemos com a guerra!" Assim mesmo. Foi um momento de oração sincera.

3. Ao participar na Oração Ecuménica, na Sede do Patriarcado Ortodoxo, no dia da festa de Santo André, fez e disse algo, que irritou os fanáticos da superioridade católica e à qual as outras igrejas se deveriam render: “(...) André e Pedro eram irmãos de sangue, mas o encontro com Cristo transformou-os em irmãos na fé e na caridade. E nesta noite jubilosa, nesta oração de vigília, quero, sobretudo, dizer: irmãos na esperança.

Que grande graça, diz Francisco a Bartolomeu, poder ser irmãos na esperança do Senhor Ressuscitado! Que grande graça – e que grande responsabilidade – poder caminhar juntos nesta esperança, sustentados pela intercessão dos Santos irmãos Apóstolos, André e Pedro! Saber que esta esperança comum não desilude: está fundada - não sobre nós e as nossas pobres forças – mas sobre a fidelidade de Deus.

Com esta jubilosa esperança, transbordante de gratidão e trepidante expectativa, formulo a Vossa Santidade, a todos os presentes e à Igreja de Constantinopla os meus votos cordiais e fraternos pela festa do Santo Patrono. E peço um favor: de nos abençoar, a mim e à Igreja de Roma.

Um milénio entre este pedido de bênção e o envio de uma excomunhão papal!

Com este espírito, não era difícil que, no final da Divina Liturgia, de Domingo, o Patriarca Bartolomeu e o Papa assinassem uma Declaração Comum de empenhamento em superar os obstáculos que dividem estas Igrejas.

Não é uma Declaração para servir as respectivas “sacristias”, mas para colocar as duas Igrejas no horizonte das suas responsabilidades no mundo, escutando as suas vozes: a voz dos pobres, que pedem uma ajuda material necessária em muitas circunstâncias, mas sobretudo que os ajudemos a defender a sua dignidade de pessoas humanas e a lutar contra as causas estruturais da pobreza; a voz das vítimas dos conflitos, em diversas partes do mundo - conflitos, muitas vezes entre grupos religiosos; a voz dos jovens, que vivem sem esperança, dominados pelo desânimo e resignação e que vão buscar a alegria apenas à posse de bens materiais e na satisfação das emoções do momento. Devemos encorajar as multidões de jovens, ortodoxos, católicos e protestantes, que se reúnem em Taizé, apressando o momento da unidade de todos.

Na Catedral Católica, o Papa sublinhou a nossa permanente tentação de resistir ao Espírito Santo, porque ele perturba, revolve, faz caminhar e incita a Igreja a avançar. É sempre mais fácil e confortável acomodarmo-nos nas posições estáticas e inalteradas. Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo, quando desiste de o regular e domesticar e afasta a tentação de só olhar para si própria. Nós, cristãos, tornamo-nos autênticos discípulos missionários, capazes de interpelar as consciências, se abandonarmos um estilo defensivo para nos deixamos conduzir pelo Espírito. Ele é frescura, criatividade, novidade.

O diagnóstico das 15 doenças do Vaticano só pode vir de quem se incomoda e não se acomoda. Bom Ano!

domingo, 21 de dezembro de 2014

Bento Domingues: Quantos Cristos ressuscitaram? (1)


1. Nas crónicas de Natal, durante vários anos, preocupei-me, com questões de ordem histórica e teológica, levantadas pelo género literário dos chamados “Evangelhos da Infância”. Esses belos tecidos simbólicos, anunciando o reinado do Espirito de Cristo – recusa do mundo de senhores e escravos – são mal servidos por uma leitura estéril de biologia milagrosa.

Este ano, opto pela peregrinação ecuménica do Papa Francisco à Turquia, fundamental para o renascimento das Igrejas. Selecciono, apenas, duas respostas descontraídas a perguntas dos jornalistas, no voo de regresso [1]. Voltarei, em breve, a outros aspectos.

O Papa Bergoglio tinha afirmado que, para chegar à suspirada plenitude da unidade, “a Igreja católica não tem intenção de impor qualquer exigência”. Daí a questão: “estaria a referir-se ao Primado (do Bispo de Roma)?

Resposta: A questão do Primado não é uma exigência; é um acordo porque também os ortodoxos o desejam. É um acordo para encontrar uma modalidade que seja mais conforme com a dos primeiros séculos. Li, uma vez, algo que me fez pensar – um parêntesis – aquilo que sinto de mais profundo acerca deste caminho da unidade está na homilia que fiz, ontem, sobre o Espírito Santo. Li, com efeito, que só o caminho do Espírito Santo é caminho certo, porque Ele é surpresa. Ele mostrar-nos-á onde está o ponto decisivo. Ele é criativo…

Talvez isto seja uma autocrítica, mas corresponde, mais ou menos, ao que eu disse nas congregações gerais, antes do Conclave, o problema está no seguinte: a Igreja tem o defeito, o hábito pecador, de olhar demasiado para si mesma, como se imaginasse que possui luz própria. Mas, como sabem, a Igreja não tem luz própria. Deve voltar-se para Jesus Cristo!

À Igreja, os primeiros Padres chamavam-lhe mysterium lunae, o mistério da lua, porquê? Porque dá luz, mas não tem luz própria; é a que lhe vem do sol. E, quando a Igreja olha demasiado para si mesma, aparecem as divisões. Foi o que sucedeu depois do primeiro milénio. Hoje, à mesa, falávamos do momento, de uma terra – não me lembro qual – em que um cardeal foi comunicar a excomunhão do Papa ao Patriarca (ortodoxo). Naquele momento, a Igreja olhou para si mesma; não estava voltada para Cristo. Creio que todos estes problemas que surgem entre nós, entre os cristãos – falo pelo menos da nossa Igreja católica – surgem quando ela olha para si mesma: torna-se auto-referencial.

Hoje, Bartolomeu usou uma palavra, não foi "auto-referencial", mas era muito semelhante, uma palavra muito bela… Agora não me recordo, mas era muito bela, muito bela [o termo na versão italiana é introversão].

Eles aceitam o Primado [do Bispo de Roma]. Hoje, na Ladainha, rezaram pelo "Pastor e Primaz". Como diziam? "Aquele que preside…". Reconhecem-no; disseram-no, hoje, na minha frente. Mas, quanto à forma do Primado temos de ir um pouco ao primeiro milénio para nos inspirarmos. Eu não digo que a Igreja errou, não. Percorreu a sua estrada histórica. Mas, agora, a estrada histórica da Igreja é aquela que pediu João Paulo II: "Ajudai-me a encontrar um ponto de acordo à luz do primeiro milénio".

Este é o ponto-chave. Quando se fixa em si mesma, a Igreja renuncia a ser Igreja para ser uma ONG teológica.

2. Uma jornalista interpelou-o “acerca da histórica inclinação” que ontem o Papa Francisco tinha feito diante do Patriarca de Constantinopla: como pensa agora enfrentar a crítica de quem talvez não entenda estes gestos de abertura?

Resposta: Atrevo-me a dizer que não se trata de um problema só nosso; é também um problema dos ortodoxos. Eles têm o problema de alguns monges, de alguns mosteiros que estão nessa estrada. Por exemplo, há um problema que se discute desde os tempos de Paulo VI: é a data da Páscoa. E não nos pomos de acordo! Mas porquê? Porque, se a fizéssemos na data da primeira lua depois do 14 de Nisan, com o avanço dos anos, correríamos o risco – os nossos bisnetos – de ter de a celebrar em Agosto. E devemos procurar… Paulo VI propôs uma data fixa concordada, um domingo de Abril.

3. Bartolomeu foi corajoso, sublinhou o Papa. Por exemplo, em dois casos, recordo um, mas há outro. Na Finlândia, ele disse à pequena comunidade ortodoxa: festejai a Páscoa com os luteranos, na data dos luteranos, para que num país de minoria cristã não haja duas Páscoas. E o mesmo problema vivem os orientais católicos. Ouvi esta, uma vez, à mesa, na Via della Scrofa: preparava-se a Páscoa na Igreja católica e estava presente um oriental católico que dizia: "Ah, não! O nosso Cristo ressuscita um mês mais tarde! O teu Cristo ressuscita hoje?" O outro observou: O teu Cristo é o meu Cristo.

A data da Páscoa é importante. Há resistência a isto por parte deles e nossa. Quanto a estes grupos conservadores, devemos ser respeitosos, sem nos cansarmos de explicar, catequizar, dialogar, sem insultar, sem os denegrir nem criticar porque tu não podes arrumar uma pessoa dizendo: "este é um conservador". Não. Este é tão filho de Deus como eu. Mas convidemo-lo: vem cá, falemos! Se não quer falar é um problema dele, mas eu respeito-o. Paciência, mansidão e diálogo.

Boas festas.

[1] Cf. Seguirei, de perto, a narrativa do L’Osservatore Romano, 04.12.2014

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Ortodoxia dramática



Os homens habituaram-se, loucamente, a falar da ortodoxia como de qualquer coisa pesada, estúpida e segura. Nunca houve coisa tão perigosa ou tão excitante como a ortodoxia. Era a sanidade: o ser são é mais dramático do que ser louco.


Chesterton, "Ortodoxia" (Livraria Tavares Martins, 1947), 163.


Citação com certeza ao gosto de alguns dos leitores ortodoxíssimos que de vez em quando comentam neste blogue. Mas faço notar que, segundo Chesterton, agora outra vez tão em voga em alguns círculos, se a ortodoxia não é pesada, porque libertadora, nem estúpida, porque sabedoria, também não é segura, porque plural. A ortodoxia não é unívoca, desde o princípio. Pensemos nos quatro evangelhos, diferentes, complementares e irreconciliáveis, para não dizer contraditórios. Está dito. A ortodoxia é dramática. Por isso é que Chesterton andava frequentemente despenteado.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

27 de abril de 1463. Morre Isidoro de Kiev

Isidoro de Kiev, nascido em 1380, em Tessalónica, inicialmente ortodoxo, foi dos que mais fez pela aproximação entre ortodoxos e católicos. Esteve no Concílio de Basileia-Ferrara-Florença, na parte de Florença (1439), que procurou a aproximação entre as duas confissões cristãs.

Isidoro, que para os ortodoxos ficou na historia como o “apóstata”, anunciou em Moscovo a união Ocidente-Oriente, na sequência do concílio, e por causa disso foi deposto e aprisionado. Conseguiu fugir, acabando por morrer em Roma, no dia 27 de abril de 1463, depois de uma série de aventuras. Dez anos antes, vê "in loco" a queda de Constantinopla. Consegue fugir com vida vestindo um cadáver com as suas roupas de bispo. O cadáver é decapitado como sendo o bispo.


A união, essa, ficou para sempre adiada.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

28 de fevereiro de 870. Termina o IV Concílio de Constantinopla


O IV Concílio de Constantinopla, o oitavo reconhecido como ecuménico pela Igreja Católica (mas não pelos ortodoxos, que dizem que o IV é o de 879-880), começou no dia 5 de outubro de 869 e terminou no dia 28 de fevereiro de 870.

Neste concílio, convocado pelo imperador bizantino Basílio I pelo Papa Adriano II, estiveram em discussão principalmente dois assuntos: a condenação do Patriarca Fócio (que defendia mais poder para Constantinopla e, supostamente, uma curiosa teoria das duas almas, uma terrena e mortal e outra celeste e imortal) e a confirmação da veneração de imagens, assunto que já vinha de Niceia II, contra a iconoclastia.

Fócio é condenado (mas mais tarde é reabilitado pelos ortodoxos e venerado como santo até aos dias de hoje) e o poder de Constantinopla sai reforçado sobre os outros patriarcados orientais (Alexandria, Jerusalém e Antioquia).

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

14 de fevereiro de 869. Morre o inventor do alfabeto cirílico

 Кѷриллъ

Cirilo em cirílico


Cirilo não era Cirilo de batismo. Era Constantino. E Metódio não era Metódio. Era Miguel. Quando se tornaram monges é que os dois irmãos mudaram de nome. Havia o curioso hábito de adotar na nova vida um novo nome começado pela mesma letra do anterior. Terá vindo daí o gosto pela linguística?


Os dois irmãos, enquanto missionários dos povos eslavos, foram inventores do alfabeto cirílico (talvez mais o primeiro deles, que era mais intelectual, chegou a ser bibliotecário e ganhou o cognome de "o filósofo"), que hoje é usado por uns 300 milhões de pessoas, incluindo uma etnia chinesa.


Cirilo morreu no dia 14 de fevereiro de 869. Metódio morreu no dia 6 de abril de 885.


João Paulo II proclamou estes bizantinos pré-cisma co-padroeiros da Europa, com S. Bento. Mais tarde acrescentou mais padroeiras: Brígida da Suécia, Catarina de Sena e Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein).


Da maneira que as coisas estão na Europa, hoje teria de acrescentar mais alguns patronos.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A falsa questão do ecumenismo português

Estamos na semana da oração pela unidade dos cristãos. Ao catolicismo português isto pouco diz, porque as confissões protestantes e ortodoxas, em Portugal, quase sempre eram e são formadas por ex-católicos ou então por imigrantes: os ingleses anglicanos do Vinho do Porto, os alemães luteranos da Linha e de um ou outro sítio onde havia minas de volfrâmio e agora os ucranianos ortodoxos um pouco por todo o país.

Verdadeiro ecumenismo não é necessário. Podemos não nos darmos com o vizinho do lado, mas tanto ele como eu, mais ou menos crentes, mais ou menos ateus, somos católicos. Para mais, por muito que digam, o verdadeiro ecumenismo é uma questão de cúpulas, não de povo. O povo dá-se bem. Se as cúpulas quisessem, a união fazia-se. Uma questão das hierarquias.

Mariano Perrón, delegado de Ecumenismo da Arquidiocese de Madrid, diz isso mesmo:  "Las diferencias entre cristianos las establecen las jerarquías eclesiásticas más que los mismos fieles" (aqui).

Por outro lada cá da minha base, bem junto ao chão, é com tristeza que vejo que há mais aproximação real aos ortodoxos do que aos luteranos, calvinistas (presbiterianos) e metodistas, com quem tanto aprendemos como católicos. E em relação aos anglicanos, há mais aproximação aos anglicanos em dissensão com o anglicanismo do que ao anglicanismo moderado. Num Concílio Vaticano III, se não regressarmos a Trento e ao dogmatismo, voltaremos a aprender com as tendências moderadas das atuais igrejas reformadas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Bispo, ex-espião


Patriarca Maxim, 97 anos

Onze dos 15 atuais bispos búlgaros foram agentes da polícia secreta durante o regime comunista que vigorou no país até 1989. Uma das exceções é o velhinho patriarca Maxim (na imagem). 

A conivência do poder religioso com o poder político, e para mais totalitário, é lamentável, ainda que no caso búlgaro possa ser relativizada. 

(Uma piada etimológico-eclesiástica diria que é próprio dos bispos espiar, já que "episcopos" quer dizer "olhar sobre").

Por um lado, porque dizem as notícias que os dirigentes da comunidade muçulmana também eram agentes secretos, tal como vários dos deputados atuais e até o próprio presidente do país. Por outro, porque a teologia da tradição ortodoxa sobre o poder gosta do cesaropapismo, ainda sem césar nem czar nem Papa. Para os ortodoxos, não costuma haver escrúpulos na união entre o trono e o altar – e dificilmente se concebem como não sendo uma igreja oficial.

Talvez as coisas estejam a mudar. Na Grécia são cada vez mais em número e em tom as vozes contra os bens da Igreja (ortodoxa) e as isenções fiscais. E na Rússia, um bispo ousa dizer que o governo deve ouvir a voz da rua.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

André, o protóclito

Hoje é dia de Santo André, o protóclito, isto é, o primeiro a ser chamado por Jesus Cristo. Por sinal, o seu nome grego, no meio de judeus, significa "homem". Este santo é especialmente venerado pelos ortodoxos, que, para este dia, compuseram este comentário (excertos):



Alegra-te, André, tu que anuncias por todo o mundo a glória de Deus com a eloquência do céu (Sl 18,2); tu, que foste o primeiro a responder ao chamamento de Cristo e te tornaste Seu amigo íntimo; tu, que imitando a Sua bondade, reflectes a Sua luz por sobre aqueles que habitam nas trevas.
(…)
Com a linha da pregação e o anzol da fé, deixaste a pesca do peixe pela pesca dos homens e afastaste do abismo do erro todos os povos; a tua voz ressoa por toda a terra. Vem instruir e iluminar todos aqueles que celebram a tua benigna memória, André, o primeiro a ser chamado (protóclito) entre os discípulos.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O monge que vaticina uma terceira guerra mundial



O monge ortodoxo grego Joseph de Vatopedi, falecido no dia 1 de Julho de 2009 com fama de santidade, profetizou uma terceira guerra mundial, com início num conflito entre a Turquia e a Grécia, velhos rivais. Os turcos agiriam com o apoio dos EUA e da UE e a Grécia teria o apoio da Rússia (também ela, em grande escala, ortodoxa). Com esta guerra que os gregos acabariam por vencer, terminaria a influência da Igreja Católica no mundo. Li aqui.
Obviamente, se trata de una profecía que poco tiene para contrastar con la realidad más allá de los hechos consumados, así que será cuestión de tiempo (como siempre sucede en estos casos) ver si el viejo monje tuvo una premonición o si simplemente se trató de desvaríos seniles.
Acontece é que a Grécia pode entrar em bancarrota antes da guerra. E muito provavelmente vai sobrar para Portugal. O monge pode ser muito santo, mas parece que percebe pouco de política internacional.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

"Hristos voskrse", "Cristo ressuscitou" em sérvio


Ortodoxos sérvios cantam a Páscoa.


Ljudi likujte, narodi čujte:
Hristos voskrse, radost donese!
Zvezde igrajte, gore pevajte,
Hristos voskrese, radost donese!
Šume šumite, vetri brujite,
Hristos voskrse, radost donese!
Mora gudite, zveri ričite,
Hristos voskrse, radost donese!
Pčele se rojte, a ptice pojte
Hristos voskrse, radost donese!

Anđeli stojte, pesmu utrojte,
Hristos voskrse, radost donese!
Nebo se snizi, zemlju uzvisi,
Hristos voskrse, radost donese!
Zvona zvonite, svima javite,
Hristos voskrse, radost donese!
Slava ti Bože, sve ti se može,
Hristos voskrse, radost donese!
Anđeli stojte, pesmu utrojte,
Hristos voskrse, radost donese!
Nebo se snizi, zemlju uzvisi,
Hristos voskrse, radost donese!
Zvona zvonite, svima javite,
Hristos voskrse, radost donese!
Slava ti Bože, sve ti se može,
Hristos voskrse, radost donese!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Walter Kasper andou a bebeu vodka pelo bom relacionamento das confissões cristãs


O cardeal Walter Kasper contou há dias, num encontro de formação de leigos em Roma, que a coisa mais difícil que teve de fazer enquanto responsável pelo Conselho Pontifício da Unidade dos Cristãos, que promove o ecumenismo, foi beber vodka nas conversações com os responsáveis da Igreja Ortodoxa Russa. Um dia, um metropolita russo insistiu que o cardeal bebesse vodka ao pequeno-almoço. O que valeu foi que a vodka era bastante boa – disse o cardeal alemão.

Sempre bem-humorado, Walter Kasper contou também que a fé é uma virtude teologal, mas isso não quer dizer que todos os teólogos são virtuosos, tal como o facto de haver as virtudes cardeais não implica que todos os cardeais sejam homens de virtude.

terça-feira, 15 de março de 2011

"Consegui desarmar-me"

Consegui desarmar-me.
Participei nesta guerra. Durante anos e anos.
Foi terrível. Mas agora estou desarmado.
Já não tenho medo de nada, porque “o amor afugenta o medo”.
Estou desarmado da vontade de prevalecer,
De me justificar à custa dos outros.
Já não estou alerta,
Zelosamente apegado às minhas riquezas.
Acolho e partilho.
Não me importam especialmente as minhas ideias, os meus projectos.
Se me propõem outros melhores, aceito-os de bom grado.
Quer dizer, não os melhores, mas os bons.
Bem sabem, renunciei ao comparativo…
O que é bom, verdadeiro, real, esteja onde estiver,
É o melhor para mim.
Por isso já não tenho medo.
Quando nada se possui, já não se sente medo.
“Quem nos separará do amor de Cristo?”
Mas, se nos desarmarmos, se nos despojarmos,
Se nos abrirmos ao Deus homem que renova todas as coisas,
Então é Ele que apaga o passado mau
E nos devolve um tempo novo,
Onde tudo é possível.

Patriarca Atenágoras

Atenágoras I foi Patriarca de Constantinopla de 1948 a 1972 e, portanto, o maior representante da Igreja Ortodoxa. Aristokles Spyrou (nome de baptismo) nasceu no dia 25 de Março de 1886, em Epiro (Grécia), e morreu em Istambul (Turquia), no dia 7 de Julho de 1972. O Papa Paulo VI e o Patriarca de Constantinopla encontraram-se três vezes (no Vaticano, no decorrer do Concílio; em Jerusalém (na foto em cima, 5 de Janeiro de 1964 ); e durante a viagem papal a Istambul, Éfeso e Esmirna), lançando as bases para um entendimento entre a Igreja Católica e a Ortodoxa, separadas desde 1054. Atenágoras e Paulo VI levantaram as excomunhões mútuas que recaíam sobre a catolicidade e a ortodoxia desde o séc. XI.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

17 de Janeiro de 395. Morre Teodósio I, o imperador que tornou o cristianismo religião oficial

Teodósio I, o Grande, nasceu em 346, perto de Segóvia, Espanha, e morreu no dia 17 de Janeiro de 395, em Milão. Foi o último líder do Império Romano unido. Depois dele, nunca mais o império seria governado por uma única pessoa.

Em 380, Teodósio, com o Édito de Constantinopla, torna o cristianismo religião oficial do império. A decisão tem consequências enormes. O paganismo é proibido, o judaísmo tolerado, mas por vezes perseguido, e o cristianismo passa a ser obrigatório.

Teodósio é venerado como santo pelos ortodoxos.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

5 de Janeiro de 1964. Paulo VI visita a Terra Santa

De 4 a 6 de Janeiro de 1964, Paulo VI peregrinou à Terra Santa. Foi a primeira vez desde Pio VII (Papa de 1800 a 1823; viajou a Paris para coroar Napoleão e esteve preso em Savona e Fontainebleau) que um Papa saiu de Itália. Julgo que foi a primeira vez que um Papa foi à Terra Santa, além de Pedro.

Num sábado, domingo e segunda, o Papa aterrou em Amã, na Jordânia, esteve em Amã e Jerusalém no primeiro dia, seguindo os passos de Jesus na Vida Dolorosa, presidindo à missa no Santo Sepulcro e rezando no Getsémani. No dia 5, esteve em Nazaré, Caná, Cafarnaum, Monte Tabor (tudo na Galileia) e regressou a Jerusalém. Na Jordânia, ainda neste dia 5, um momento histórico de primeira grandeza: encontra-se com o patriarca Atenágoras de Constantinopla. É a primeira vez que o primaz de Roma e o de Constantinopla se encontram desde a tentativa de aproximação das duas igrejas no Concílio de Florença (1439).

No dia seguinte vai a Belém, volta a Jerusalém e fala novamente com ortodoxos e muçulmanos. De Amã regressa a Roma com o epíteto de “Papa peregrino”.

sábado, 4 de dezembro de 2010

4 de Dezembro de 749. Morre João Damasceno, pai da cultura audiovisual

João Damasceno nasceu em 676 e morreu no dia 4 de Dezembro de 749.

Reconhecido pela Igreja católica e também por confissões protestantes, João Damasceno, o último Padre da Igreja do Oriente, é um dos pilares da ortodoxia. Escreveu “Exposição da Fé Ortodoxa”.

Teólogo, poeta, filósofo e músico, João Damasceno defendeu o uso de imagens no culto cristão, contra a iconoclastia. Distinguiu entre adoração (“latreia”), que só se pode prestar a Deus, e veneração (“proskynesis”), que pode ser prestada às imagens.

A teologia do Damasceno viria a prevalecer no segundo Concílio de Niceia (787), que condena a iconoclastia. Esta, em si, poderá ter surgido por causa do islamismo circundante e em ascensão, profundamente iconoclasta (pense-se na polémica dos cartoons dinamarqueses; para muitos, o que era condenável era a representação do profeta Maomé; nem sequer tinham visto as caricaturas).

Regis Debray disse há tempos que Hollywood nasce em Niceia II. João Damasceno é, podemos dizer, um dos pais da nossa cultura audiovisual.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Medos dos símbolos ou superstição?

A Igreja Ortodoxa grega (na Grécia, o Estado é constitucionalmente ortodoxo) está a pedir às autoridades que não utilizem o número 666 nos novos cartões de identificação dos cidadãos, que estão em preparação para emitir no próximo. Isto porque, justificam, o número 666 é o símbolo do Anticristo (li aqui).

Suponho que o Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa faz esta exigência por medo do símbolo e não por superstição. Mas na minha perspectiva, isto não faz sentido nenhum. Isto e, por exemplo, a obsessão dos chineses pela sorte que o 8 dá, a nossa superstição no 13, a paranóia norte-americana de alguns prédios passarem do 12.º para o 14.º andar (em Portugal, os grandes prédios costumam parar no 12.º andar), ou o medo cigano dos sapos. Será necessário eliminar o 666 da matrícula dos carros, dos números de porta, dos números das facturas, do conta quilómetros, das páginas dos livros...?

Uma notícia de hoje do "Público" (aqui) diz que os comerciantes de Beja estão a pôr sapos à porta dos seus estabelecimentos para evitar que os ciganos entrem (a discriminação acontece em muitos outros locais do país).

Seria bom que a mentalidade científica e o cristianismo crítico ajudassem a acabar com estes símbolos que revelam, mais do que tudo, superstição, mesmo que baseada em tradições culturais e religiosas.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Evacuado da sua própria criação


É porque o ser humano pode dizer não que o seu sim assume uma plena ressonância e se coloca no mesmo registo que o sim de Deus. E é por isso também que Deus aceita ser recusado, desconhecido, rejeitado, evacuado da sua própria criação.

Paul Evdokimov (1901-1970)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

12 de Julho de 1580. Publicação da Bíblia de Ostrog

A Bíblia de Ostrog, a primeira edição integral do texto sagrado em línguas eslavas, foi publicada no dia 12 de Julho de 1580. Ostrog é uma povoação que actualmente faz parte da Ucrânia (não confundir com o mosteiro homónimo no Montenegro). No séc. XVI, integrava o Estado Polaco-Lituano.

Esta foi a primeira Bíblia impressa em caracteres cirílicos. Serviu de modelo a muitas das edições seguintes. Tem 1256 páginas. O Antigo Testamento é traduzido da versão grega dos LXX (ou Septuaginta).

Contribuiu muito para a manutenção da fé ortodoxa em regiões de grande pressão católica.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

8 de Julho de 1579. É descoberto o ícone de Nossa Senhora de Kazan

Nossa Senhora de Kazan. Cópia do séc. XVI

No dia 8 de Julho de 1579, uma menina chamada Matrona descobre o ícone de Nossa Senhora na cidade de Kazan. O ícone, também conhecido por “Theotokos Kazan” (“Mãe de Deus de Kasan”), esteve na cidade homónima até 1904, altura em que foi roubado. Mais tarde apareceu a moldura de ouro e pedras preciosas, mas não original.

Há várias cópias deste ícone, igualmente veneradas. O ícone assemelha-se mais a um sacramento do que a uma obra de arte.

Também na Igreja católica há quem venere Nossa Senhora de Kasan. Uma das cópias mais significativas deste ícone, mas do século XVIII, esteve em Fátima, no Exército Azul, dos anos 70 do século passado até 1993, altura em que foi dado a João Paulo II. Este devolveu-o à Igreja Russa Ortodoxa em 2004.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...