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domingo, 5 de maio de 2013

Bento Domingues: "Ditadura do medo"


Bento Domingues no “Público” de hoje.

Importa que a DSI passe a ser reelaborada com o contributo de especialistas das ciências sociais. Qual é o papel da Doutrina Social dos Papas nas Universidades Católicas e das investigações das Universidades Católicas na elaboração da DSI? Mas, para se poder chamar, com verdade, DSI tem de seguir a eclesiologia do Vaticano II (Lumen Gentium, 36 e a Gaudium et Spes). A Igreja é constituída pelas mulheres e homens que se reconhecem em Jesus Cristo. Todos juntos, não teremos medo.

Texto na integra, aqui, a amanhã.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Vasco Graça Moura: O que fazer com esta tiara?


Mais um daqueles artigos do género tive-educação-católica-mas-não-sou-crente-no-entanto-lá-vou-eu-perorar-sobre-a-situação-da-Igreja-e-ser-for-sobre-o-Papa-ainda-melhor. O seguinte artigo é de Vasco Graça Moura, no DN de hoje. Note-se, contudo, que eu gosto deste tipo de artigos. Como a Igreja é uma coisa pública, todos podem escrever sobre ela. E se for escrito com inteligência, ainda melhor. É o caso.

Sem dúvida que vivemos numa cultura de matriz cristã, pelo menos no horizonte que ficou para trás. Mesmo os ateus são católicos. Como naquele diálogo:
- Qual é a tua religião?
- Nenhuma. Sou ateu. 
- Mas ateu de que religião? Católico? Protestante? Muçulmano?
- Ah, sou ateu católico, claro.



Como toda a gente que teve uma educação católica, mesmo sem depois ter tirado dela consequências de maior no plano das convicções religiosas, também eu, ao saber da renúncia de Bento XVI, fiquei com a impressão de estar a viver um momento histórico cujas consequências principais estão ainda muito longe de poder ser abarcadas.

Não foi apenas o ineditismo da situação, já tantas vezes referido e perspectivado, para trás e para a frente, que me impressionou. Também não direi que me tenha propriamente preocupado a discussão a lo divino, já a puxar as coisas para o plano híbrido em que o direito canónico e a área do sagrado se confrontam, sobre a liberdade plena do acto de renúncia ao vicariato de Deus ou as eventuais dificuldades de coexistência de quem "já foi" e de quem "passou a ser", num caso de tamanha envergadura.

O que me veio ao espírito foi a relação histórica tão profunda e tão antiga de Igreja de Roma com a Europa, a começar pelo sacro Império Romano-Germânico de que o Habsburgo Carlos V, após tê-lo vitoriosamente disputado ao Valois Francisco I, veio ainda a ser um poderoso símbolo moderno, não obstante o terrível saque de Roma que promoveu com os seus lansquenetes em 1527.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Leão XIII, o primeiro Papa a ser filmado

Leão XIII foi o primeiro papa a ser filmado. Um integrado, pois. Já aqui havia referido o assunto. Mas hoje pude ver finalmente tais filmagens.



Agradeço a José Serra, que me deu a conhecer o vídeo.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Humor de Leão XIII

Leão XIII foi o primeiro Papa a ser filmado, em 1896


Em 1902, durante uma visita ad limina, um bispo americano, imaginando que a visita seguinte, passados cinco anos, já não seria com Leão XIII (e não foi, já que este Papa morreu em 1903, com 93 anos), disse, inesperadamente: 
- Dado que já não nos veremos mais neste mundo, adeus, Santidade, adeus...
O Papa, nitidamente alarmado, perguntou-lhe:
- Excelência, por acaso sofre de algum mal incurável?


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Não ponhamos limites à Divina Providência



Um bispo cumprimenta Leão XII, já bastante debilitado:
- Santidade, desejo-lhe que chegue até aos cem anos.
O Papa respondeu-lhe:
- Cem anos? Por favor, não ponhamos limites à Divina Providência.

Leão XIII teve um dos maiores pontificados, 25 anos, e morreu com 93 anos, em 1903 (João Paulo II esteve mais dois anos na Cadeira de Pedro, mas pouco antes dos 85 anos).

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

20 de fevereiro de 1878. É eleito Leão XIII



Leão XIII (Vincenzo Buzzi) foi eleito Papa no dia 20 de fevereiro de 1878, a poucos dias de fazer 68 anos, e morreu em 1903, no dia 20 de julho.


Leão XIII foi um renovador, depois de Pio IX, papa do Vaticano I e da infalibilidade, da reclusão no Vaticano perante a reunificação da Itália.


Notou-se especialmente a renovação de Leão XIII na atenção à "questão operária" com a publicação da encíclica "Rerum Novarum", em 1891, que inaugurou um estilo de proclamação do pensamento social da Igreja, a chamada doutrina social da Igreja. Com a "Rerum Novarum", o Papa repudiou o comunismo e preconizou a formação de associações de trabalhadores. Lançou os fundamentos do que viria a ser em alguns países europeus a democracia cristã.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Uma longa tradição na formação de anticlericais



Estou a ler “O Cemitério de Praga”, de Umberto Eco. Uma antologia maravilhosa de tudo o que é preconceito antijudeu, antijesuíta, antifrancês, anti-alemão. A certa altura diz de Léo Taxil que este “tinha frequentado a escola dos jesuítas e, como consequência óbvia, pelos dezoito anos, tinha começado a colaborar em jornais anticlericais” (pág. 364).

Fez-me lembrar um professor jesuíta que, falando-se do anticlericalismo de Voltaire, que foi educado pelos padres SJ, comentou: “Sim, nós temos uma longa tradição na educação dessa gente”.


[Léo Taxil, diz a Wikipédia, mas a informação na Internet é abundante - ver aqui as confissões das suas falsificações -, enganou meio mundo com uma falsa confissão sobre a Maçonaria. Até o Papa Leão XIII acreditou nele em vez de dar ouvidos ao bispo de Charleston, Carolina do Sul, D. Northrop, que havia denunciado as falsas confissões de Taxil].

quinta-feira, 24 de março de 2011

24 de Março de 1921. Morre o cardeal Gibbons, defensor dos trabalhadores


Bispo de Richmond (1872-77) e arcebispo de Baltimore desde 1877, James Gibbons foi o segundo cardeal dos EUA, elevado por Leão XIII em 1886. Nasceu no dia 23 de Julho de 1834 e morreu no dia 24 de Março de 1921.

James Gibbons foi um grande defensor dos trabalhadores católicos na Costa Leste dos EUA. Advogava que os trabalhadores católicos tinham o direito a lutar e a proteger-se contra a avareza, a opressão e a corrupção, participando em sindicatos. Diz-se que teve um papel importante na permissão e mesmo defesa que Leão XIII veio a consagrar na "Rerum Novarum", de 1891, quanto à pertença de católicos a sindicatos e associações de carácter laboral.


Outra efeméride: No dia 24 de Março de 1966 Paulo VI ofereceu o seu anel de arcebispo de Milão ao arcebispo de Cantuária (aqui).

quarta-feira, 2 de março de 2011

2 de Março de 1810. Nasce Leão XIII

Nasceu Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci Prosperi Buzzi, no dia 2 de Março de 1810, e morreu Leão XIII, no dia 20 de Julho de 1903. Foi Papa de 20 de Fevereiro de 1878 até à data da sua morte.
Leão XIII foi o grande Papa do século XIX, o Papa do desanuviamento, da abertura às classes operárias ("Rerum novarum"), da reconciliação com o mundo depois da perda dos Estados Pontifícios, das bases da Democracia Cristã. E um Papa que aparece a sorrir em quase todas as fotos.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

21 de Fevereiro de 1848. Publica-se o Manifesto Comunista


Karl Marx e Friedrich Engels publicaram no dia 21 de Fevereiro de 1848 o "Manifesto Comunista" (inicialmente, "Manifesto do Partido Comunista", Manifest der Kommunistischen Partei), provavelmente o documento político mais influente dos tempos modernos. Passados 43 anos, a 15 de Maio de 1891, sairia a “Rerum novarum”, de Leão XIII, a primeira resposta católica ao comunismo.

O Manifesto pode ser lido em português aqui.

sábado, 15 de maio de 2010

15 de Maio de 1891. Leão XIII publica a encíclica “Rerum Novarum”

Leão XIII publicou no dia 15 de Maio de 1891 a encíclica “Rerum Novarum”, sobre a condição dos operários nos países industrializados. Apelidado de “Magna Carta”, o documento foi fundamental para ao aparecimento do associativismo católico e mesmo da democracia cristã.

Primeiro parágrafo do documento:

“A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social. Efectivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito”.

Encontra-se on-line aqui.

No mesmo dia nasceu Mikhail Bulgakov (15-05-1891 – 10-03-1940), autor do romance póstumo “Margarita e o Mestre”. O romance inclui um diálogo entre Satã e um poeta sobre a existência de Jesus Cristo e um diálogo entre Jesus e Pôncio Pilatos, antes da crucifixão. O grande tema do livro é, no entanto, a crescente paranóia da União Soviética.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

27 de Fevereiro de 1620. O Cardeal de Richelieu proíbe os duelos em França

Cardeal de Richelieu por Philippe de Champaigne

Armand Jean du Plessis, Cardeal de Richelieu, que de eclesiástico tinha pouco, embora tivesse sido ordenado bispo de Luçon, proibiu os duelos em França no dia 27 de Fevereiro de 1620.

Na origem da decisão terá estado a morte do seu irmão mais velho, Henri du Plessis, num duelo com o Marquês de Thémines, no ano anterior.

Com um cargo que hoje poderíamos comparar ao de primeiro-ministro, Richelieu esteve ao serviço de Luís XIII e fez uso exímio da “raison d’État”. Por exemplo: reprimiu os huguenotes (protestantes calvinistas) em França, mas apoiou os protestantes holandeses e alemães, no exterior, contra os Habsburgos.

A proibição dos duelos já tinha sido pedida pelo Concílio de Trento (1545-1563). “As pessoas que participassem em duelos seriam expulsas da Igreja, e estavam impedidas de receber os sacramentos e proibidas de ter sepultura católica”, escreve Thomas E. Woods, jr. em “O que a civilização ocidental deve à Igreja Católica” (ed. Alêtheia), pág. 226. Mas demorou muito até ser cumprida pela generalidade dos estados. Leão XIII, Papa de 1878 a 1903 ainda tem de escrever contra aquilo que, pela sua "própria natureza", "encerra manifestamente uma temeridade cega e um profundo desprezo pela vida".

quarta-feira, 8 de julho de 2009

DSI 7 - Da RN à "Caritas in veritate". Leão XIII

O Papa da mudança

«Leão XIII lamentava o isolamento para o qual Pio IX empurrara a Igreja, com a sua hostilidade em relação ao mundo contemporâneo. E decidiu traçar um novo caminho. Tomou como mestre [aquele que], mais do que ninguém, conseguiu fazer uma síntese de fé e razão, graça e naturalidade, cristianismo e humanismo: São Tomás de Aquino. E, em 1891, fez chegar ao mundo inteiro uma carta, a “Rerum Novarum”, o primeiro texto do pensamento papal moderno sobre a sociedade, a magna carta da visão católica da “reconstrução da ordem social”. E esse documento, embora não fosse perfeito, acabou por revelar-se profético.»

Michael Novak, "A Ética Católica e o Espírito do Capitalismo", Ed. Princípia, pág. 60

DSI 5 - Da RN à "Caritas in veritate". Início do associativismo (e sindicalismo) dos operários católicos


A aplicação da máquina (“rápidas, regulares, precisas, incansáveis” – a expressão é de David Landes, na obra “A Riqueza e a Pobreza das Nações”, Ed. Gradiva) ao trabalho gerou a revolução industrial. Não uma revolução rápida, como são as políticas, mas profunda, como são as económico-sociais. Nada ficou como antes. E muitos ficaram pior do que antes, “numa situação de infortúnio e de miséria imerecida” ("Rerum Nvarum" 1), “como instrumentos de lucros”, apenas considerados “em termos de quanto podem a sua fora e o seu vigor” (RN 14), embrutecidos de espírito e enfraquecidos de corpo (RN 31)...

Onde havia massas de operários (centro e norte de Europa), a Igreja percebeu que estava a perder a classe trabalhadora, atraída pelas ideologias socialistas (“perdeu os intelectuais no séc. XVIII, os trabalhadores no séc. XIX e está a perder as mulheres nos séc. XX”, afirmou um padre teólogo espanhol, há década e meia). Note-se que no “socialismo” desta época cabiam diversas ideologias de esquerda, todas elas muito distantes do actual socialismo democrático.

Leão XII denota o afastamento dos trabalhadores da Igreja em diversos pontos da RN. Tal acontece por dois motivos: por um lado, o próprio trabalho impede o descanso e a dedicação de um dia por semana a Deus (RN 31); por outro, há a influência de associações “de que a religião tem tudo a temer”, “governadas por chefes ocultos” e obedecendo a uma “orientação externa” (RN 37). Estas associações e partidos, nas suas correntes mais extremadas defendiam a supressão da propriedade privada. Contra eles, escreve Leão XIII, quase a abrir a encíclica: “Os socialistas, para curar este mal [a imposição por um pequeno número de ricos e de opulentos de um jugo quase servil à massa imensa do proletariado], instigam nos pobres o ódio contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares seja suprimida, que os bens de qualquer indivíduo sejam comuns a todos, e a sua administração pertença aos municípios ou ao Estado” (RN 2). Não se pense, contudo, que a defesa contundente da propriedade privada é a defesa do liberalismo económico vigente da época. Pelo contrário, Leão XII defende a propriedade privada na óptica do trabalhador, visto que “o fim imediato visado pelo trabalhador [ao trabalhar] é conquistar um bem que possuirá como seu” (RN 3).

Contra o “erro capital” de “crer que as duas classes [patrões / trabalhadores, ricos / pobres] são inimigas natas uma da outra”, o Papa parece embarcar numa visão fixista da sociedade ao invocar a imagem da complementaridade dos vários membros no corpo humano (RN 14), mas a seguir afirma principalmente as obrigações dos “ricos e patrões”. “Devem respeitar no operário a dignidade de homem (…). Devem ter em conta os interesses espirituais dos operários (…). Que o trabalhador tenha tempo para cumprir os seus deveres religiosos (…), não seja afastado da família. (…) Não tenha um trabalho superior às suas forças ou que não seja adaptado à sua idade ou sexo. (…) Receba um salário justo.” (RN 14).

A "Rerum Novarum" representou uma sistematização do pensamento social católico e foi positivamente acolhida por trabalhadores cristãos. Sem dúvida que fez despertar uma esquerda católica que veio mais tarde a constituir-se em socialismo cristão (com ou sem esse nome) e na democracia cristã.

Passados quarenta anos, Pio XI escreveu: “Deve atribuir-se à Encíclica Leonina o terem florescido tanto por toda a parte as associações operárias. Apesar de serem, infelizmente, ainda inferiores em número às dos socialistas e comunistas, agrupam notável multidão de sócios e podem defender energicamente os direitos e aspirações legítimas do operariado católico e propugnar os salutares princípios da sociedade cristã” (QA 36).

segunda-feira, 6 de julho de 2009

DSI 2 - "Temível conflito", diz Leão XIII

O Manifesto do Partido Comunista, de 1848, teve um efeito inebriante junto de muitos trabalhadores. Ainda hoje, mesmo sabendo dos efeitos catastróficos que a aplicação das teses marxistas viria a ter nos países de Leste (principalmente a ditadura do proletariado, a luta de classes, o materialista dialéctico, a abolição da propriedade privada… pela via leninista), que não estavam industrializados (daí a junção da foice dos agricultores ao martelo dos proletários), é tentador ceder à explicação marxista da história, interpretada como uma luta entre exploradores e explorados, senhores e esvravos, senhores feudais e servos, capital e trabalhadores - na fase moderna.

“O operário torna-se um mero acessório da máquina ao qual se exige apenas o manejo mais simples, mais monótono, mais fácil de aprender. (…) Massas de operários, comprimidos na fábrica, são organizadas como soldados. São colocadas, como soldados rasos da indústria, sob a vigilância de uma hierarquia completa de oficiais subalternos e oficiais”, escrevem Marx e Engels no MPC.


A Igreja apercebe-se – com atraso, dizem alguns – que os acontecimentos ligados à RI subverteram a secular organização da sociedade, levantando graves problemas de justiça e pondo a primeira grande questão social, a “questão operária”, suscitada pelo conflito entre capital e trabalho” (Compêndio de Doutrina Social da Igreja, Ed. Princípia, n. 88). Fala-se então da “res novae” (realidade nova). É necessário “um renovado discernimento da situações, apto a delinear soluções apropriadas para problemas insólitos e inexplorados” (CDSI, 88).

É neste contexto que surge a encíclica Rerum Novarum (“Das coisas novas”), de Leão XIII, em 1891, que escreve logo na primeira página: “Os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito” (RN, 1).

DSI 1 - O ambiente da "Rerum Novarum"


Charles Dickens escreve em 1854 no romance “Tempos Difíceis”: “Seguramente, nunca houve porcelana mais frágil do que aquela de que eram feitos os industriais de Coketown... Ficavam arruinados se se lhes pedia para mandar as crianças operárias à escola, ficavam arruinados quando eram designados inspectores para visitarem as suas fábricas, ficavam arruinados se estes mesmos inspectores consideravam duvidoso que tivessem direito a cortar as pessoas aos bocados com as suas máquinas, ficavam completamente arruinados se se insinuava que talvez nem sempre precisassem de fazer tanto fumo”.

Coketown é um nome fictício. Trata-se da típica cidade industrial do séc. XIX. Provavelmente nenhum autor como Charles Dickens soube escrever tão bem as consequências sociais da Revolução Industrial: condições de vida miseráveis nas cidades, exploração do trabalhador, crianças enviadas para orfanatos (quando ainda não podiam estar na fábrica), luxo e arrogância para a alta burguesia. Os salários eram baixos, havia trabalho infantil em grande escala (nas minas, as crianças podiam passar por galerias mais pequenas), os horários de trabalho podiam ser de 18 horas, abundavam os castigos físicos, não havia direitos de férias, descanso semanal, auxílio no desemprego. A conquista dos direitos é lenta e com muitos mártires.

A Revolução Industrial (RI), iniciada na segunda metade do séc. XVIII, na Inglaterra, com a mecanização dos têxteis, a exploração mineira em grande escala e o caminho-de-ferro, alastra-se a outros países e transforma por completo a vida da pessoas (a Portugal só chegou no séc. XX; e o processo repete-se hoje no Extremo Oriente). Algumas consequências: a casa deixa de ser o local de trabalho (como era desde a Idade Média) para ser a fábrica; as cidades crescem (Londres é a primeira cidade moderna a ultrapassar um milhão de habitantes porque é possível lá fazer chegar, por comboio, todos os dias, alimentos frescos); a família deixa de ser alargada e passa a nuclear; a mulher, trabalhando, torna-se autónoma; os bens são produzidos e consumidos em massa; o calendário passa a ser gerido em função do trabalho (as férias são um fruto da RI)… Hoje, os nossos costumes são, ainda, claramente fruto da RI, mais do que da Revolução Francesa de 1789.

Se Dickens descreve a sociedade, outros autores, naquela época, avançavam já para a interpretação e solução política. Karl Marx e Friedrich Engels escreveram em 1848 o “Manifesto do Partido Comunista” (MPC - mais tarde simplesmente "Manifesto Comunista"), que termina com o célebre apelo: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...