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quarta-feira, 19 de março de 2014

Disse o Tomás...

Uma inteligência que te conheça,
uma solicitude que te procure,
uma sabedoria que te encontre,
uma vida que te aguarde,
uma perseverança que te espere com confiança
e uma confiança que, por fim, te possua.

Tomás de Aquino

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Quem escreveu isto?

Quem disse esta frase tão citada, glosada, parafraseada?

Os feitos se Sócrates, dos quais ninguém duvida, estão menos provados do que os de Jesus Cristo.

a) Tomás de Aquino
b) Jean Jacques Rousseau
c) Alfred Loisy
d) Rudolf Bultmann


Resposta (selecione): Jean-Jacques Rousseau. Nunca imaginava, mas dei agora mesmo com essa afirmação do filósofo genebrino.

sábado, 2 de março de 2013

Menos do que Tomé

De facto, não consigo ver as tuas chagas como Tomé,
mas como ele quero dizer:
Meu Senhor e meu Deus!
Torna a minha fé mais profunda,
a minha esperança mais firme,
o meu amor mais fiel.

Tomás de Aquino

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Bento Domingues: "O Papa não é a cabeça da Igreja"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem.


1. Quando a anormalidade se torna normal, o reencontro com a mais pura normalidade surge como algo de extraordinário. É certamente essa secular situação que explica o espanto, ora sincero ora fictício, diante da clarividente renúncia de Bento XVI. Além disso, as canonizações rituais dos titulares de certas funções na Igreja e a intensa promoção do culto da personalidade acabam por se exprimir numa beata retórica de finados: "Que iria ocorrer agora? Como continuaria sem ele o Ano da Fé?"

É precisamente porque estamos no chamado Ano da Fé, que importa não a desfigurar com expressões ridículas resvalando para a idolatria. Os católicos sabem que o Papa não é a Igreja, nem a cabeça da Igreja e que a si próprio se designa como "servo dos servos de Deus". Como diz S. Paulo, seguindo a verdade no amor, cresceremos em tudo em direcção Àquele que é a cabeça,Cristo; Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude daquele que plenifica tudo em todos (Ef. 4, 15; 1, 22-23 e par.).

O apóstolo escolheu e usou estas imagens para que ninguém, na Igreja, pretenda substituir Jesus Cristo, fundamento da unidade eclesial na pluralidade dos seus carismas, por qualquer culto idolátrico. Como os papas não são sucessores de Cristo, é de elementar decência teológica denunciar qualquer expressão de papolatria.

2. S. Tomás de Aquino teve o cuidado de lembrar que o terminal da Fé cristã não é o articulado do Credo, fruto das Igrejas cristãs, mas o próprio Mistério de Deus e, por isso, acrescentou que, em rigor, nem sequer é na Igreja que acreditamos, mas no Espírito Santo, que santifica a Igreja (Cf. ST II-II q. 1 a 1 ad 2; a. 9 ad 5).

Seria, no entanto, abusivo concluir: se o que importa é o Espírito Santo, então não se preocupem nem com a qualidade humana e espiritual da hierarquia eclesiástica, nem com as formulações da fé cristã. Deus providenciará!

Um tal sobrenaturalismo seria uma ofensa à própria teologia de Tomás de Aquino. Bento XVI, no dia 27 do mês passado, véspera da festa deste santo, aludiu a uma das suas mais ousadas buscas de harmonia, embora carregada de tensões, sobretudo em momentos de grandes viragens culturais: a fé cristã não eclipsa a razão; oferece-lhe até, no seu interior, uma nova paisagem e novos campos de investigação. Como diz no seu hino eucarístico, de poética modernidade, quantum potes tantum aude (atreve-te quanto puderes).

A graça não substitui a natureza, nem a natureza dispensa a graça do infinito amor. Importa derrotar as representações que substituem uma tensão existencial por uma persistente rivalidade: se damos muito a Deus, roubamos o ser humano, se concedemos muito ao ser humano, roubamos a Deus. Yves Congar, no diagnóstico da situação religiosa dos anos 30 do século passado, escreveu de forma lapidar: a uma religião sem mundo, sucedeu um mundo sem religião. Jesus Cristo é a radical superação desta rivalidade. Ele incarna a abertura humana ao Mistério de Deus e a abertura divina ao Mistério do Mundo. O encontro da finitude humana, do não divino, com a infinita profundidade divina, faz parte da identidade cristã.

3. Como escreveu E. Schillebeeckx, um dos grandes teólogos do séc. XX: não existe automatismo da graça. Os católicos acreditam que o Espírito de Cristo actua no mundo, na vida da Igreja e na acção ministerial das suas lideranças, mas também sabem que o povo crente e, dentro dele, a hierarquia eclesiástica podem, de diversas formas, acolher ou recusar os dons do Espírito. Quem não está atento à multiforme mediação eclesial da acção do Espírito Santo - porque supõe que goza do monopólio da verdade - acaba por se subtrair à sua influência.

Sempre que o magistério oficial deixa de estar atento às diversas instâncias de mediação que estruturam, o povo cristão corre o perigo de não escutar os reais apelos do Espírito de Deus. Quem ignora estas mediações sucumbe à tentação do facilitismo ou da negligência e torna-se vítima de cegueira e de surdez ideológicas.

Um apelo do Magistério ao Espírito Santo, sem ter em conta as mediações eclesiais, informando-se cuidadosamente antes de assumir as suas próprias responsabilidades, é um apelo em vão. Retirar-se para escutar os murmúrios do Espírito é, sem dúvida necessário, mas não basta nem dispensa o estudo das situações concretas de um mundo em mudança. A omnipresença do mistério da graça não suprime, automaticamente, a presença do mistério da iniquidade na história do mundo, das religiões e das Igrejas cristãs, no passado e na actualidade.

O Estado do Vaticano não é a Igreja Católica. Na opinião pública, até parece que sim. As frequentes narrativas sobre a corrupção e o crime organizado que afectariam algumas das suas instâncias exigem uma informação limpa, acerca de tudo o que vem minando a sua credibilidade e a do papado. As comunidades católicas, espalhadas pelo mundo, têm direito a essa informação. Não se pode esquecer que, sem ética, as invocações místicas são mistificações. O Vaticano só se justifica como instrumento de liberdade da missão da Igreja. Atraiçoa-se quando se deixa dominar pelo carreirismo e por endeusados negócios de banqueiros, nas suas vertigens criminosas.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Sobre o neoneoneotomismo que domina algum ensino teológico



Réginald Garrigou-Lagrange foi um teólogo francês medieval em pleno século XX. Morreu em 1964, em Roma. Dominicano, dava aulas no Angelicum. Grande teólogo, mas sem escrever qualquer tratado ou ensaio. Fez comentários, como em geral os teólogos dos séculos anteriores, desde a Idade Média. E talvez não se importasse de participar numa disputatio. Aliás, nem sei se não participou.

Garrigou-Lagrange comentou quase toda a Suma teológica, coisa que poucos fizeram, e terá sido um dos últimos a levar a cabo tal empreendimento.

Sabemos agora que ele estava à frente do seu tempo, embora fosse tido por alguns como um fóssil teológico. É que o comentário a Tomás de Aquino regressou com força. Diz-se que não é preciso mais teologia do que a do dominicano do séc. XIII. Pululam por aí teólogos novinhos que mais não fazem do que ler Aquino,mas não todo, e, ainda mais, comentários de Tomás de Aquino. Teologia requentada, pois, e quanto mais indiferente à vida concreta, melhor.

Se os medievais também faziam teologia comentando, pois concebiam-se como anões ao ombro de gigantes (diz João de Salisbúria que Bernardo de Chartres dissera isto), estes teólogos de hoje são anões, ainda que rechonchudos, nalguns casos, e mesmo apreciadores de rock, ao ombro de anões ao ombro de gigantes. Temo que tantas camadas humanas acabe por dar origem a um estrondoso tombo.

sábado, 14 de abril de 2012

Que Deus seja omnipotente...

Tomás de Aquino alertava que, "de facto, não se diz que Deus seja omnipotente, mas sim: «Creio em Deus todo-poderoso»".


Há diferença entre conhecimento da fé e conhecimento da razão. Não é que se oponham. Mas nem sempre se acompanham.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Adivinhe quem disse (1)

Quem escreveu isto?

"Se resolvemos os problemas da fé apenas pelo caminho da autoridade, possuiremos certamente a verdade, mas numa cabeça vazia".

a) John Henry Newman
b) Leonardo Boff
c) Hans Jung
d) Tomás de Aquino

Ler aqui a resposta (selecione): Tomás de Aquino. A frase aparece em Quaestiones quodlibetales, 4. a.18.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Eco do eco que Eco faz de Tomás





Eu gosto de Umberto Eco. Os livros dele são apreciados cá por estes lados (vi agora que tenho 19 referências a ele neste blogue). Há meses que me falta ler umas 30 páginas de “O Cemitério de Praga”, não por desejar adiar o final, mas por me parecer que o desenlace não vai surpreender e entretanto terem surgido outras leituras. É o caso de “Construir o Inimigo e outros escritos ocasionais” (Gradiva), também de Eco, de que já li os primeiros seis de quinze ensaios. Ora num deles, Eco não é honesto.

Em “Os embriões fora do paraíso”, que há dias foi reproduzido pelo suplemento “Q” do “Diário de Notícias”, Eco diz o seguinte, depois de expor as ideias de Tomás de Aquino sobre a vida embrionária: “É curioso que a Igreja, que sempre se reclama do magistério do doutor de Aquino, sobre este ponto tenha decidido afastar-se tacitamente das suas posições”.

Quais as posições do “doutor angélico”? Quanto à vida embrionária, Tomás pensava que primeiro surgia a alma vegetativa, depois a alma animal ou sensitiva e só por fim a alma racional, intelectiva, a realmente alma humana, pelo que “seria infantil pedir a São Tomás absolvições para quem pratique um aborto dentro de um dado período de tempo [antes da chegada da alma intelectiva, que incluía e superava as outras]”. Eco não o diz, mas podia acrescentar que, segundo Tomás, a alma racional (ou intelectiva) habitava o corpo do embrião masculino mais cedo do que o embrião masculino, pelo que, pela mesma ordem de ideias ecotomistas, haveria mais tempo para abortar um embrião feminino.

Eco remata que, na questão do aborto, não seguindo Tomás, a posição da Igreja “parece sobretudo um alinhamento com as posições do protestantismo fundamentalista”. Se a Igreja seguisse Tomás - pergunto -, deveria fazê-lo só em relação aos embriões masculinos ou também femininos? E neste segundo caso, como não acusá-la de machista? 

Eu preferia que Eco criticasse a Igreja de outro modo, mais ou menos assim: se a Igreja não segue Tomás de Aquino na questão do aborto porque os avanços científicos permitiram conhecer mais e melhor a vida intra-uterina, porque o segue noutras áreas em que o aquinitense também revela concepções antropológicas necessariamente limitadas pelo conhecimento científico da época? Estou a pensar na misoginia – à luz de hoje, não do seu tempo – do maior teólogo e filósofo cristão.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

domingo, 3 de julho de 2011

Domingo, dia de festa

Hoje é domingo. Para os judeus, o dia santo, o sábado, é dia de fazer amor. Para os católicos, também, excepto para os ministros, mesmo quando podiam ser casados. Aliás, essa é uma das origens da imposição celibato. Por uma questão cultual, o sacerdote, no dia da oferta do sacrifício, à maneira do Antigo Testamento, devia estar ritualmente puro. Por isso, ao domingo, nada de relações sexuais. Isto passou a ser assim quando o neoplatonismo entrou em força no cristianismo. O cristianismo perdeu feições bíblicas e ganhou traços helénicos, mais ou menos ao mesmo tempo que na missa se sublinhou mais o lado sacrificial do que o festivo, mais o sangue do que a bebida/comida, a refeição. Se no lado oriental, os sacerdotes só celebravam ao domingo, tinham os restantes dias da semana para estarem com as suas mulheres. Mas no lado oriental do império, latino, celebravam todos os dias. Para quê estar casado?


Lembrei-me disto ao ler hoje Timothy Radcliffe (pág. 140-1 de Ser cristão para quê?):
Numa ocasião em que estava a pregar sobre sexualidade, São João Crisóstomo notou que algumas pessoas coravam e ficou indignado. «Porque coram? Não é puro? Comportai-vos como heréticos». Pensar que o sexo é repugnante é uma negação da verdadeira castidade e, segundo nada menos do que São Tomás de Aquino, uma imperfeição moral.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Fortitudo mentis

Tendemos a pensar a coragem como algo físico. São Tomás de Aquino dizia que é uma fortitudo mentis, uma qualidade da mente.

domingo, 19 de junho de 2011

Tomás sobre o erro pequeno

No "Público" de hoje, num texto de opinião contra o Acordo Ortográfico, de Francisco Miguel Valada, cita-se Tomás de Aquino:


Quia parvus error in principio magnus est in fine.


Um pequeno erro no princípio dá um grande no no fim.

sábado, 11 de junho de 2011

Anselmo Borges: Hermenêutica feminista das religiões e seus textos

Texto de Anselmo Borges no DN deste sábado (aqui).

Acho bonito que, na Madeira, chamem à Feira do Livro a Festa do Livro. Pois foi na última Festa que apresentei - e é disso que dou conta nesta crónica - o livro "E Deus criou a mulher. Mulheres e Teologia". É o subtítulo que diz o tema geral de um Colóquio realizado há um ano na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com comunicações de várias filósofas e teólogas - Fernanda Henriques, Maria Julieta Dias, Laura Santos, Teresa Toldy, Isabel Allegro de Magalhães -, que o livro entrega agora ao público. Na apresentação, chamei a atenção para a problemática em epígrafe.


Em primeiro lugar, quando se pensa em hermenêutica feminista das religiões e dos seus textos sagrados, é necessário perceber que a revelação religiosa é sempre indirecta, tornando-se assim claro que a leitura dos textos não pode ser literal, mas histórico-crítica. Por outro lado, referindo-nos concretamente à Bíblia, é preciso ver que ela só vale no seu todo, e o critério último de leitura é a salvação, a libertação. Por isso, os textos opressores - neste contexto, os textos que oprimem as mulheres - devem ser evitados nas celebrações litúrgicas.


Elencando alguns princípios mais concretos, sublinharia, antes de mais, a necessidade de uma hermenêutica da suspeita. De facto, se os autores dos escritos, os seus tradutores, os seus intérpretes, os seus transmissores, são homens, é preciso suspeitar, no sentido de perceber que eles tenham colocado as mulheres em lugares subordinados, inferiores, as tenham esquecido. Por exemplo: na explicação do mal, não seria "natural" que eles as tenham culpado?


Há igualmente que ter atenção a uma hermenêutica da memória. É preciso fazer uma leitura da História no seu reverso, isto é, a História que conhecemos é a História na qual os homens são os heróis, é a História dos vencedores, sendo necessário ler o que lá falta: a História dos vencidos, portanto, dos escravos, dos colonizados, dos pobres, das mulheres. No caso presente, é preciso reconstruir a História, encontrando o lugar activo e criativo das mulheres, lugar que foi ocultado e silenciado.


A leitura feminista das religiões e dos seus textos faz-se a partir dos movimentos de emancipação das mulheres, portanto, dentro da luta pelos direitos humanos, que são indivisíveis.


Esta leitura terá de atender particularmente ao funcionamento sexista da linguagem. Repare-se como a língua portuguesa sofre deste perigo: para que a mulher aceda à sua identidade humana, fá-lo mediante o uso do genérico "homem" - "nós, os homens", incluindo varões e mulheres.... A mulher é ser humano pela mediação do masculino. Neste contexto, esquece-se frequentemente a fortíssima influência da liturgia e o processo de socialização religiosa no masculino: uma menina é baptizada em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, refere-se a Deus como Pai, será confrontada com uma estrutura hierárquica masculina: o padre, o bispo, o papa.


Impõe-se ser particularmente crítico com as imagens patriarcais de Deus. De facto, se Deus é masculino, o masculino acaba por ser divinizado. As imagens patriarcais de Deus: Pai, Rei, Juiz, Senhor, acabam por legitimar religiosamente o poder dos homens, como sublinha Juan José Tamayo, e gerando atitudes de submissão e dependência por parte das mulheres, no quadro de uma religião autoritária.


O que diriam os fiéis (eles e elas), se na Missa, o padre iniciasse o Credo assim: Creio em Deus Mãe toda poderosa, criadora dos céus e da terra? No entanto, Deus é assexuado e Pai é apenas uma metáfora, podendo, por isso, dizer-se também Mãe. O que se passa é que o óvulo feminino só foi descoberto em 1827. Antes, seguiu-se a concepção aristotélica do hilemorfismo, continuada por São Tomás de Aquino. Nesta visão, a mulher era passiva e um macho falhado e, por isso, Tomás de Aquino afirmou que a mulher não pode ter poder na Igreja, não pode pregar, e os pais devem amar mais os filhos do que as filhas.


Esta atenção de uma hermenêutica crítica pertence a todas as religiões e é tarefa tanto das mulheres como dos homens.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mestres medievais por Bento XVI


Os Mestres
Bento XVI
Paulus
240 páginas

Desde o início do seu pontificado, Bento XVI dedicou as catequeses das quartas-feiras a mestres do cristianismo, começando pelos apóstolos, passando pelos padres apostólicos (aqueles que lidaram com os apóstolos), os apologetas (primeiros defensores do cristianismo), os Padres da Igreja (grandes teólogos dos primeiros séculos), etc. Pelo meio houve catequeses sobre São Paulo, no Ano Paulino.

Todas as catequeses beneditinas, geralmente de quatro ou cinco páginas, deram origem a livros. Agora chega às livrarias o volume que reúne “padres escritores do primeiro milénio” (após os Padres da Igreja), mais os “padres e escritores da Idade Média”, mais os “franciscanos e dominicanos”. As denominações não são exactas, porque na realidade são todos medievais, mas compreende-se a arrumação. E a seguir, espera-se, virá o volume dedicado às místicas deste período da história, como Ângela de Foligno, Hildegarda ou Juliana de Norwich.

Estas catequeses leves constituem excelentes introduções ao pensamento dos autores abordados. Alguns deste período são verdadeiros monstros sagrados da teologia e da espiritualidade, como João Damasceno, Anselmo de Aosta, Bernardo de Claraval, António de Lisboa, Boaventura e Tomás de Aquino.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Tomás, Maquiavel e a ética na política

César Bórgia

Um leitor deste blogue comentou por duas vezes a minhas afirmações sobre “O Príncipe”, de Maquiavel. Penso que será um entendido em Teoria Política ou em História das Ideias, pois até escreve “Machiavelli” (ver aqui e aqui).
Eu não sou entendido em Maquiavel. Sei basicamente o que é de cultura geral, de uma ou outra leitura e de alguma observação da prática política. O facto de hoje fazer anos que nasceu a irmã de um dos príncipes que Maquiavel vê como modelo faz-me voltar ao assunto e esclarecer o meu ponto de vista. Lucrécia Bórgia era irmã de César Bórgia, ambos filhos do Papa Alexandre VI, gerados quando Rodrigo Bórgia ainda não estava no trono de São Pedro. Diz Maquiavel: “Desejo ilustrar duas formas de se chegar a príncipe, por virtude ou por fortuna, com dois exemplos do nosso tempo: são eles Francisco Sforza e César Bórgia” (cap. VII).
Ora o essencial das minhas observações e do meu entendimento básico de Maquiavel está nisto: ele teoriza sobre a conquista do poder, geralmente servindo-se de casos concretos da história, justificando os meios pelos fins e separando a ética da razão política. Isto não quer dizer, obviamente, que antes dele a acção política era sempre ética. Longe disso. Os exemplos de que se serve são do passado. Acontece é que nunca ninguém tinha teorizado dessa maneira. A teoria que existia, pensemos em Tomás de Aquino, ia justamente pela obrigatoriedade de aliar moral e política. O príncipe, para Tomás de Aquino, tinha de ser um homem de, pelo menos, virtudes públicas. Ética provada. O dominicano achava que a piedade (podíamos dizer hoje: a fé) não era propriamente uma qualidade necessária para o governante, mas havia qualidades que o governante devia possuir em coerência.
Ora a teoria de Maquiavel vai em sentido diverso, para não dizer oposto, certamente observando a política real do tempo. Frases como as seguintes revelam bem que estamos perante uma teoria política completamente nova. Muitos certamente já tinham vivido segundo esses princípios, mas estes nunca haviam sido escritos e abertamente assumidos. Tornados normativos mesmo. E a partir daqui passam a estar na mesa-de-cabeceira dos governantes, como diz Benjamin Wiker. Geralmente dos governantes que estragaram a vida dos governados.

Diz Maquiavel:
- O príncipe que comanda um exército e vive de pilhagens, saques, impostos e dos bens alheios precisa de ser magnânimo, pois, de contrário, não será seguido pelos seus soldados (Cap. XVI). 
- Será melhor ser amado ou temido ou o inverso? (…) É muito mais seguro ser temido do que amado, se só se puder ser uma delas (Cap. XVII). 
- (…) A experiência do nosso tempo ensina-nos que os príncipes que pouco tiveram em conta a palavra dada e souberam astuciosamente ludibriar os espíritos dos homens fizeram grandes coisas e acabaram por superar aqueles que se apoiaram na lealdade (Cap. XVIII). 
- Nunca a um príncipe faltam motivos legítimos para colorir as inobservâncias (Cap. XVIII).- Um príncipe não precisa de possuir de facto todas as qualidades acima enumeradas, mas convém que pareça possuí-las [as qualidades em questão são: piedoso, leal, humano, íntegro e religioso] (Cap. XVIII). 
- Um príncipe deve, acima de tudo, esforçar-se por dar uma imagem de homem notável e de excelente engenho (Cap. XXI).
Os exemplos poderiam continuar. E algumas dessas frases adequam-se na perfeição à  actualidade política portuguesa.
A política pré-Maquiavel não era ética. Mas os teóricos diziam que devia ser. A política pós-Maquiavel é tanto ou tão pouco ética como a outra. Mas os teóricos, a começar por Maquiavel, dizem que a ética pouco interessa quando está em questão o poder. Os que dizem o contrário são menos ouvidos.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Moral e política. Separam-nas por conveniência

Num debate televisivo que, pelo que pude presumir, tinha como base o livro aqui referido, porque estava lá o seu autor, Vítor Bento, mais Morais Sarmento (PSD) e Francisco Assis (PS), este último dizia que um governo de santos seria catastrófico como foram os da história. Falava-se de ética, moral, economia e política. Os dois primeiros defendendo que as coisas são inseparáveis, o terceiro temendo a inseparabilidade. No fundo, todos diziam que tem de haver ética e moral, mas havia nuances.
Ora, assim de repente, não me lembro de nenhum governo de santos. Governos teocráticos, sim. Pessoas religiosas à frente dos governos, sim. Savonarolas, Khomeinis, e piedosos, sim, e horríveis para quem teve de ser governado. Mas santos, nem um. Por uma razão simples, os santos só são proclamados santos depois de morrerem. De resto, se olharmos para os governantes que foram ou podem vir a ser santos (S. Luís de França, K. Adenauer, A. Gasperi, R. Schuman…), penso que não há nada a temer e muito a imitar.
S. Tomás de Aquino dizia que a principal qualidade dos políticos não é a piedade mas a justiça no serviço ao bem comum. Creio que essa é também uma qualidade dos santos. Essa e não mentir, por exemplo. Como sabemos, a política pós-Maquiavel ignora a ética. Não interessa a legitimidade dos meios. A mentira é um entre muitos meios, todos legítimos para a manutenção do poder.

segunda-feira, 7 de março de 2011

7 de Março de 1274. Morre Tomás de Aquino


Tomás de Aquino morreu no dia 7 de Março de 1274, aos 49 anos. Nasceu no sul de Itália, filho dos condes de Aquino. Andou por Paris, Colónia, Itália, sempre a falar e escrever em latim, quando já se falavam as três línguas em questão. A sua principal obra é a “Suma Teológica”, síntese harmónica entre relevação cristã e filosofia aristotélica.

Repudiado pela Igreja nos primeiros anos após a morte, o pensamento filosófico e teológico de S. Tomás, durante séculos, foi considerado doutrina oficial da Igreja Católica, a “filosofia perene”, com o consequente prejuízo de outras formas de pensar.

Tomás de Aquino é o patrono dos filósofos e das universidades e escolas católicas, entre mais uma série de coisas, incluindo os fabricantes de lápis. Menos conhecidas, mas muito belas, são as suas orações. Como esta, que revela a sua fé na Eucaristia.


Adoro-Te com amor, ó Deus escondido
Que, sob estas espécies, verdadeiramente estás presente;
Dou-Te o meu coração inteiramente
Em Tua contemplação estou rendido;

A vista, o tacto, o gosto nada sabem.
Só no que o ouvido sabe se há-de crer.
Creio em tudo o que o Filho de Deus veio dizer.
Nada mais verdadeiro pode ser
Do que a própria Palavra da Verdade.

Na cruz estava oculta a divindade,
Aqui também o está a humanidade.
E, contudo, eu creio e o confesso
Que ambas aqui estão na realidade;
E o que pedia o bom ladrão, eu peço.

Não consigo ver as Tuas chagas, como Tomé,
Mas confesso-Te meu Deus e meu Senhor!
Faz-me ter cada vez em Ti mais fé,
Uma esperança maior e mais amor.

Ó memorial da morte do Senhor,
Pão vivo que ao homem dás a vida!
Que a minha alma sempre de Ti viva!
Que sempre lhe seja doce o Teu sabor!

Senhor Jesus, doce pelicano!
Lava-me com o Teu sangue a mim, imundo,
Com esse sangue do qual uma só gota
Pode salvar, do pecado, todo o mundo.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...