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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Jesus teve um julgamento justo, diz José María Ribas Alba

Imagem tirada do NY Daily News

Jesus teve um julgamento justo, diz José María Ribas Alba, professor de Direito Romano na Universidade de Sevilha. "O julgamento de que resultou a condenação à morte de Jesus cumpriu todas as regras jurídicas vigentes na época e não se tratou de uma farsa legal, como muitas vezes é afirmado", refere a notícia do DN (aqui).

E o essencial: "Intitulado 'Proceso a Jesús' (Ed. Almuzara), segundo o seu autor, [o livro] demonstra que os acontecimentos que levaram à crucificação de Jesus "não foram uma reação arbitrária da época, camuflada sob aparências jurídicas, mas um verdadeiro e legítimo processo".

Estas revisitações periódicas do (duplo) julgamento de Jesus são curiosas. Ao contrário do que diz o autor, na realidade, tendem mais a confirmar o resultado do julgamento do que a dizer que foi a tal farsa legal. Procurei conhecer mais a posição do autor (em Espanha a notícia saiu há pelo menos cinco dias), mas não encontrei nenhum autor que dissesse que o julgamento foi uma farsa - ou mesmo ilegítimo. Na verdade a questão não é essa. Mais comum, nos teólogos e exegetas, é afirmarem que com a vida que Jesus levava, não poderia morrer de velhice.

Jesus é condenado por blasfémia pelos sacerdotes (principal poder religioso, judaico) e por subversão pelo poder romano (político). E havia matéria para tal, porque se dizia Filho de Deus (e tinha atitudes que os judeus só atribuíam a Deus, de desde perdoar os pecados a acalmar tempestades e a dizer "Eu sou", que em hebraico e aramaico remetia para o nome impronunciável de Deus) e porque se dizia rei dos judeus. Matéria havia. A questão é que a letra pode matar com justiça quando a justiça é levada à letra. O reino não era deste mundo. Mas se era rei, nem é preciso ouvir o resto - está contra o império. E o ser humano não é para o sábado. Se não é para o sábado, não é para Deus, logo...

Por outro lado (e talvez daí venha a farsa, mas repito que gostava de saber quais os autores que dizem que foi farsa), há de facto, segundo os evangelhos, uma tentativa de condenar mas sem querer sujar as mãos. Os sacerdotes condenam-no, depois de andar de "Anás para Caifás" , mas não o matam. Passa para o poder civil. Este até não quer matá-lo (Pilatos ainda tenta a troca por Barrabás, mas o poder popular prefere o salteador ao profeta), só que acaba por fazê-lo não sem antes lavar as mãos.

Esta transição entre poder religioso e civil faz-me sempre pensar nos processos da Inquisição.

Jesus, quanto a mim, continua a ser (também) símbolo do inocente condenado, da vítima da burocracia, do trucidado com alheamento de responsabilidades. Vítima de sistemas que pensam que são justos. E isso é que é terrível.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Vida cósmica

A ressurreição de Cristo fundamenta a esperança viva do êxito vitorioso e eterno da grande vida cósmica, êxito que nós não somos capazes de descrever, mas unicamente de pressentir e esperar.

Peter Nemeshegyi

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Falsificação

Falsificar-se-ia a ressurreição se se considerasse como "a outra cara da moeda", algo como um prémio concedido à obediência e sacrifício de Cristo.

Antonio Andrés

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Quem escreveu que "Ele é a meta antecipada"?

Quem escreveu isto?

Não podemos mais contentar em analisar o mundo a partir da criação in illo tempore, mas devemos compreendê-lo a partir da escatologia, do futuro presente em Jesus ressuscitado. Nele realizou-se no tempo o que para nós só se dará no fim do tempo. Ele é a meta antecipada. A partir do fim, devemos entender o começo.

a) W. Kasper
b) J. Ratzinger
c) L. Boff
d) J. Bergoglio

Resposta: Leonard Boff, na página 225 de "Jesus Cristo Libertador" (ed.Vozes). Na realidade, penso que qualquer um dos outros três subscreveria estas palavras.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Bento Domingues: A ressurreição continua

Texto de bento Domingues no "Público" de ontem.

O mundo pós-ressurreição

A fé cristã vive desta presença ["Eu estarei convosco todos os dias até à consumação do mundo", Mt 28,20] e desenvolveu uma ótica que lhe permite ver toda a realidade penetrada pelos revérberos da ressurreição. O mundo tornou-se, devido à ressurreição de Cristo, diáfano e transparente.

Leonardo Boff

terça-feira, 2 de abril de 2013

Bento Domingues: "A vida triunfa da morte"


Texto de Bento Domingues no "Público" de domingo passado.

1. Andrés Torres Queiruga, um escritor galego muito premiado, teve, no ano passado, um acidente de trabalho - assim o classificou -, provocado pela Comissão Episcopal Espanhola para a Doutrina da Fé que, por excesso de zelo, se despistou e foi contra ele.

Acontece, com frequência, que a obsessão pela ortodoxia não deixa ver que o verdadeiro inimigo da fé cristã se aloja na mediocridade cultural, nas receitas de espiritualidade acéfala, no rubricismo pseudo-litúrgico esquecido das exigências da linguagem simbólica para dizer a novidade da graça do Espírito Santo e, sobretudo, numa organização económica, social, cultural e política geradora de exclusão.

A teologia viva, criativa, dialogante, como a deste grande intelectual ibérico, nasce da recusa em aceitar que para ser cristão seja preciso continuar culturalmente pré-moderno ou, então, que a negação do divino constitua a condição prévia e indispensável para assegurar a realização social, psicológica, vital, livre e moral do ser humano.

Se para afirmar Deus fosse preciso sacrificar o ser humano, Deus estaria condenado e o ateísmo justificado. Deus, acolhido e celebrado como fonte de vida, foi acusado, na modernidade, de roubar a liberdade, a criatividade e a felicidade ao ser humano. O teólogo não pode recusar a participação numa investigação pluridisciplinar, capaz de apurar as responsabilidades das religiões, das igrejas e da cegueira humana, nessa acusação. A crítica das práticas e representações alienantes da religião pertence ao seguimento de Jesus Cristo. Não há discipulado sem a democratização desta atitude na Igreja.

Crítica não é má língua esterilizante. Para conceber e experimentar novos caminhos e expressões que assumam a tradição no seio da criatividade multifacetada de cada época, ou nos seus desvarios, é indispensável descernimento. Só um Deus de puro amor pode ajudar a humanidade a ser humana.

2. Uma das últimas investigações de A. T. Queiruga censurada - e que merece ser a mais estudada - mostra como a diferença cristã, na continuidade das religiões e da cultura, está centrada numa esforçada inteligência da Ressurreição (1), que nada tem a ver com a reanimação de um cadáver. No seu trabalho, não confunde fé - entrega a Jesus Cristo no seio das contradições da vida - com a pesquisa teológica. Esta implica a crítica rigorosa das linguagens, das imagens e dos conceitos para que as metáforas da ressurreição não sejam idolatradas. São criações poéticas surrealistas que exigem uma ruptura e um salto de significação: Jesus ressuscitado, embora já não esteja dominado pelas leis do espaço e do tempo, é o mesmo que teve um percurso que o crucificou, mas que vive agora, de modo misterioso e actuante, na transformação da existência de quantos o acolherem; a morte não é última palavra sobre a nossa vida. Não nascemos para morrer, mas para vencer a morte. No coração do Deus vivo, seremos os mesmos, mas não seremos da mesma maneira. Deveríamos, por isso, ter a devoção de andar acompanhados dos nossos mortos, que o não são, como gostamos da presença permanente de Cristo.

Dito assim, é só afecto. De forma mais profunda, só as grandes criações da pintura, da poesia e, sobretudo, da música podem sugerir essa nova vida. É nas transfigurações do quotidiano e na insurreição contra tudo o que degrada a condição humana e o seu ambiente que podemos evocar novos céus e nova terra.
Num funeral, só conseguimos dizer coisas convencionais, de pêsames ou de alívio, perante o inevitável. Vemos que tudo acaba e, perante a morte de uma pessoa que nos é muito querida, também morremos um pouco. Onde está a voz, o olhar, as mãos do outro? E nós, o que somos para essa pessoa que tínhamos como indispensável?

3. Perante as dificuldades em perceber o sentido da expressão ressurreição da carne (a ressurreição da pessoa), os pregadores e catequistas têm sempre à mão a tomada de posição de S. Paulo: se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia é também a vossa fé (1Co 15, 14). É um recurso de facilidade, não é um argumento.

Esquece-se que, há dois mil anos, este apóstolo inscrevia a ressurreição de Cristo numa convicção universal: se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. Se não há ressurreição, aqueles que adormeceram em Cristo também estão perdidos. Se temos esperança em Cristo, tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os seres humanos, argumenta o convertido do caminho de Damasco. Fala, por isso, de numerosas aparições, da sua própria experiência e desenvolve uma retórica fantástica, mas que não pode evitar aquilo a que não consegue responder: dirá alguém, como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam?

Paulo, como não sabe, recorre às metáforas da agricultura, à morte e vida das sementes. O fundo de todas as suas declarações e argumentações é, todavia, retintamente teológico: Deus não é niilista; o amor que nos tem é mais forte do que a morte. Paulo escreveu um poema fantástico, de leitura obrigatória: Rm 8,31-39.

1) Repensar la resurrección, Trotta, Madrid, 3.ª ed. 2005

domingo, 31 de março de 2013

Bento Domingues: "A vida triunfa da morte"

Bento Domingues no "Público" de hoje:


Se para afirmar Deus fosse preciso sacrificar o ser humano, Deus estaria condenado e o ateísmo justificado. Deus, acolhido e celebrado como fonte de vida, foi acusado, na modernidade, de roubar a liberdade, a criatividade e a felicidade ao ser humano. O teólogo não pode recusar a participação numa investigação pluridisciplinar, capaz de apurar as responsabilidades das religiões, das igrejas e da cegueira humana, nessa acusação. A crítica das práticas e representações alienantes da religião pertence ao seguimento de Jesus Cristo. Não há discipulado sem a democratização desta atitude na Igreja.

Crítica não é má língua esterilizante. Para conceber e experimentar novos caminhos e expressões que assumam a tradição no seio da criatividade multifacetada de cada época, ou nos seus desvarios, é indispensável discernimento. Só um Deus de puro amor pode ajudar a humanidade a ser humana.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Pirotecnia

Se examinarmos atentamente os evangelhos, ficamos estupefactos dando-nos conta de que na realidade eles não descrevem o ato da ressurreição de Jesus. São somente os apócrifos, isto é, os escritos populares fantasistas , que se ocupam de reconstruções pitorescas e pirotécnicas.

Gianfranco Ravasi

segunda-feira, 25 de março de 2013

quinta-feira, 7 de março de 2013

Abriu-se-lhes o espírito

A história da ressurreição do crucificado já não faz parte da história terrena de Jesus de Nazaré. No entanto, é a sua meta, para a qual tudo se encaminha e a única a partir da qual a pessoa e a missão de Jesus podem ser entendidas plenamente.

Joachim Gnilka

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Noutro mundo



Se o esforço de praticar o bem, de agir segundo a lei moral, tem que ter um sentido, é preciso que se possa esperar racionalmente que o bem (isto é, a união da virtude e da felicidade) se realize noutro mundo, visto que neste, manifestamente, não se dá.


Gianni Vattimo, "Acreditar em acreditar", pág. 11.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Seremos transfigurados



Michel Hubaut
Do Corpo Mortal ao Corpo de Luz
Gráfica de Coimbra 2
238 páginas

Tendo como subtítulo “Fundamentos e significado da ressurreição”, este livro parte da constatação de que a esperança cristã aparece como pouco atraente na cultura atual. Centra-se depois na análise dos textos do Novo Testamento que falam da ressurreição. E numa terceira parte fala da “fé na ressurreição de Cristo e a nossa transfiguração”.

Para falar do que promete a fé cristã, o autor prefere o termo transfiguração a ressurreição. Mas os termos são intercambiáveis, já desde as páginas bíblicas, em que a Transfiguração de Jesus aponta para a Ressurreição. Numa entrevista, esclareceu que “a palavra ressurreição continua a ser um pouco abstrata. A palavra transfiguração visa a mesma realidade. É a tradução da palavra grega «metamorphosis». Ela fala mais ao imaginário. Todas as crianças sabem muito bem o que é a metamorfose, a do bicho-da-seda, por exemplo, que deixa a sua crisálida para desenvolver asas de borboleta. Transfiguração tem a noção de mudança de forma”.

Hubaut detém-se em cada uma das passagens do Novo Testamento sobre a ressurreição de Jesus, no que constitui um ótimo guia para descobrir o sentido de muitas das leituras que são proclamadas no tempo litúrgico pascal. Mas o grande objetivo da obra é atingir cada leitor no momento presente. De pouco adianta falar da ressurreição de Jesus se ela nada tiver a ver com a nossa vida. Por isso, o capítulo mais que atualiza para nós a mensagem que mudou o mundo (“Ele está vivo!”) tem como título “Chamados a ser transfigurados, a nossa ressurreição começa hoje. Jesus transfigurado esclarece o seu itinerário pascal e o nosso”. E aí se realça que, porque a transfiguração já começou, a esperança cristã em vez de nos desmobilizar, impele-nos à transformação (transfiguração) do mundo em mais justiça, mais solidariedade, mais desenvolvimento, mais fraternidade (p. 210).

Para esta obra – e muito outros autores, principalmente da área da Bíblia e da antropologia – , a doutrina católica é capaz de não ser lá muito cristã quando fala do que acontece após a morte. Linguagem defeituosa do corpo e alma, demasiado colada aos conceitos gregos, como aparece no Catecismo e em algumas homilias. Escreve Hubaut:

“Segundo a doutrina oficial da Igreja Católica, só a alma sobrevive depois da morte biológica, uma alma que tem de esperar pela última Vinda de Jesus no fim dos tempos, para reencontrar o seu corpo. Este cenário não é muito coerente com as aparições de Cristo pascal, nem sequer com o conjunto da antropologia bíblica. Podemos perguntar se o cristianismo não se trará deixado contaminar um pouco pelo «dualismo platónico» segundo o qual a alma é uma entidade espiritual, autónoma, prisioneira do corpo” (pág. 112).

O último capítulo é “Ressurreição ou reincarnação”. Impõe-se o esclarecimento, já que a reincarnação bem ganhando terreno no mercado ocidental das crenças, ainda que, como defende o autor, não seja compatível com os conceitos judeocristãos de Deus, Homem, História e Mundo.

Michel Hubaut, padre franciscano, é autor de mais de duas dezenas de livros de teologia e espiritualidade. Anima o centro de espiritualidade e de peregrinações das Grutas de Santo António (o português), em Brive, no centro de França, e é conselheiro de uma associação de pais que perderam filhos.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sobriedade da Ressurreição



Os evangelistas não caíram na tentação de dizer que «viram a Ressurreição», o que dado o seu afã apologético, teria sido quase compreensível (e a prova é que alguns Evangelhos chamados «apócrifos» caíram nessa tentação fácil). Os evangelistas limitam-se a dizer que o Ressuscitado «se lhes manifestou». Deste modo tornam as coisas mais difíceis para nós na hora de acreditarmos. Mas talvez ganhem respeito por causa da própria sobriedade do seu testemunho.


González Faus

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ressurreição e transformação do mundo

Num livro sobre a ressurreição:
"A esperança cristã num mundo futuro, em vez de nos desmobilizar, impele-nos, pelo contrário, a colocar todos os recursos do homem e do universo ao serviço desta finalidade comum. A nossa esperança pode, por exemplo, sustentar e dar um formidável impulso à solidariedade internacional entre os povos. O cristão pode e deve interpretar os acontecimentos, como por exemplo os esforços pelo desenvolvimento, pela paz, por construir uma grande Europa solidária e aberta aos outros continentes, como «sinais dos tempos» que manifestam esta aspiração secreta dos homens à unidade e à fraternidade universal".
Michel Hubaut, "Do corpo mortal ao corpo de luz. Fundamentos e significado da Ressurreição", gráfica de Coimbra 2, pág. 210.

domingo, 8 de abril de 2012

Páscoa, moral de ultrapassagem

E quando Jesus nos convida a segui-lo no caminho da Páscoa, a «levar a nossa cruz», não é para fazer do cristianismo uma moral dolorista, mas uma moral de ultrapassagem. Sair de si, do nosso eu egoísta, todas as manhãs, para amar, é crucificante! É isso levar a nossa cruz. Não há crescimento sem transformação. Não há transformação sem morte.


Michel Hubaut, "Do corpo mortal ao corpo de luz. Fundamento e e significado da Ressurreição", Gráfica de Coimbra 2, pág. 205.

sábado, 7 de abril de 2012

As sete distorções de Queiruga

A "Notificación sobre algunas obras del Prof. Andrés Torres Queiruga", da Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola, com data de 29 de fevereiro e divulgada no dia 29 de março, pode ser lida aqui.

No final do documento, a Comissão deixa em síntese os elementos da fé da Igreja que são distorcidos nos escritos do teólogo galego. São sete, sobre a Revelação, as Religiões, a Ressurreição e a Oração. Aqui ficam, embora valha a pena ler o documento todo:

1. Clara distinção entre o mundo e o Criador, e a possibilidade de que Deus intervenha na história e no mundo para além das leis que Ele mesmo estabeleceu.  
2. A novidade da vida no Espírito que Cristo nos dá, com a consequente distinção entre natureza e graça, entre criação e salvação. Assim como a necessidade da graça sobrenatural para alcáçar o fim último do ser humano. 
3. O carácter não dedutível da Revelação, mediante a qual Deus deu a conhecer ao ser humano o seu desígnio salvífico, escolhendo um povo e enviando o seu Filho ao mundo. 
4. A unicidade e a universalidade da Mediação salvífica de Cristo e da Igreja. 
5. O realismo da ressurreição de Jesus Cristo enquanto acontecimento histórico (milagroso) e transcendente. 
6. O sentido genuíno da oração de petição, assim como o valor da intercessão e mediação da Igreja na sua oração pelos defuntos, especialmente na Eucaristia. 
7. A distinção real entre o momento da morte pessoa e o da Parusia, entendida esta como culminar e plenitude da História e do mundo.

Devo dizer que não conheço suficientemente o pensamento do teólogo galego (li um livrinho sobre a democracia na Igreja e outro sobre a esperança, sem ter chegado à terceira parte, sobre a realização da esperança a partir da ressurreição), embora me reveja no que ele afirma sobre os milagres e sobre o diálogo inter-religioso.

Sobre a ressurreição, tenho dúvidas quanto ao papel do corpo na ressurreição de Cristo (resume-se nisto: uns teólogos dizem que se se encontrasse o corpo de Jesus, a sua ressurreição estaria em causa; outros dizem que mesmo que se encontre o corpo, não está em causa a ressurreição) e tendo a distanciar-me de Queiruga (o "túmulo vazio", não sendo condição suficiente, é necessária e aponta nesse sentido).


Parece-me, contudo, que a dissonância entre teólogo e magistério, em certos aspetos, é mais semântica do que teológica – a julgar pelos dados apresentados. Queiruga diz que a ressurreição de Jesus Cristo não se pode considerar um acontecimento histórico, mas é real. O Catecismo diz que é um acontecimento “histórico e transcendente”. O que entendem por história, transcendência, realidade, facto e acontecimento, corpo e alma (o que a Notificação diz no n.º 23 sobre a alma e o “complemento do seu corpo” é antropologicamente indefensável e nada bíblico)? Aí reside o que se pode dizer e o que se deve calar sobre a ressurreição. Assunto em aberto.

Teólogo condenado: da criação à ressurreição, por Anselmo Borges

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Enquanto o Papa, em Cuba, fazia apelo à liberdade, a Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola publicava uma Notificação - na prática, para a opinião pública, a condenação de mais um teólogo, Andrés Torres Queiruga. Como se a liberdade fosse para os outros e não devesse vigorar também no interior da Igreja.


Para muitos - também para mim -, A. Torres Queiruga é um dos maiores teólogos católicos vivos. No meu entendimento, foi e é o teólogo que de modo mais profundo e conseguido enfrentou o cristianismo com a modernidade e a modernidade com o cristianismo. Desgraçadamente, alguns teólogos e bispos espanhóis não pensam assim.

O que aí fica é tão-só, na medida em que o permite uma crónica de jornal, o que considero nuclear no pensamento de A. Torres Queiruga.

1. Tudo arranca da fé, com razões, no Deus que cria por amor. Deus não criou por causa dele, da sua maior honra e glória, mas apenas por causa das criaturas e da sua felicidade.

Tomada no seu sentido radical, a criação por amor, a partir do nada, implica, por um lado, a presença suma de Deus à sua criação, de tal modo que, se ele se retirasse, tudo voltava ao donde veio, isto é, ao nada, e, por outro, a autonomia das criaturas. Assim, a ciência, a política, a economia, a própria moral, não vão buscar a sua legitimação à religião, pois devem reger-se pelas suas próprias leis.

Segue-se que, sendo tudo milagre - o que existe podia pura e simplesmente não existir -, não há milagres no sentido da suspensão das leis que regem a natureza. De facto, os milagres supõem o que não é pensável: um deus "intervencionista", que está fora do mundo e que, de vez em quando e de forma arbitrária, vem dentro. Ora, Deus ao mesmo tempo que é infinitamente transcendente ao mundo é infinitamente presente e activo no mundo, e é, enquanto Anti-mal, sempre Força infinita criadora e potenciadora das possibilidades das criaturas.

2. Deste modo, torna-se inteligível o conceito fundamental das religiões, a revelação: como sabem os crentes que Deus falou?

Tudo o que é autenticamente religioso é resposta humana a perguntas profunda e radicalmente humanas. O que a especifica é o facto de descobrir nela a presença viva de Deus que quer manifestar-nos o seu amor e salvação. Há uma só realidade para crentes e não crentes. O que acontece é que o crente tem a convicção de que a realidade não se esgota na sua imediatidade empírica, e essa convicção não surge porque é crente, mas porque a própria realidade, para a sua compreensão adequada, se apresenta incluindo uma Presença divina, que não se vê em si mesma, mas está implicada no que se vê. Mediante certas características - a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido último -, a própria realidade se mostra implicando essa Presença divina como seu fundamento e sentido último. Assim, cito, na estrutura íntima do processo religioso, "não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum".

3. A fé na ressurreição é central no cristianismo, mas ela não é a reanimação do cadáver nem pode ser constatável pelos historiadores. Ela é real, mas não é um facto da história empírica. Se o fosse, seria constatável empiricamente e não era precisa a fé nem seria ressurreição.

Os discípulos que, como Jesus, confessavam cada dia, na Shemoné Eshré, a fé no "Deus que ressuscita os mortos" e que tinham acreditado em Jesus continuaram a crer nele, após a sua morte, uma morte que testemunhava o que foi o centro da sua mensagem por palavras e obras: que Deus é amor. Mais uma vez, reflectindo, aprofundaram a convicção de fé de que Jesus não morreu para o nada, mas para o interior da vida de Deus, que é a vida plena e eterna. E disso deram testemunho até à morte.

Fica aqui a minha viva solidariedade de amigo e também filosófica e teológica com A. Torres Queiruga.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Túmulo cristão do ano 70


Vem no DN de hoje. Se é como se diz, é uma prova muito interessante de duas coisas: o uso de imagens numa fase muito inicial do cristianismo; e a crença na ressurreição em consonância com o que a Igreja sempre disse, logo na primeira geração de cristãos, antes da escrita dos Evangelhos.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...