Mostrar mensagens com a etiqueta Conversão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Conversão. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Virginia Woolf horrorizada com a conversão de T. S. Elliot



T. S. Eliot com Virginia Woolf. A da direita é Vivienne, mulher de Eliot. A foto é de 1932. A conversão foi em 1927. Talvez Woolf tivesse mudado de ideias

Virginia Woolf ficou horrorizada quando descobriu que T. S. Eliot se tornara cristão:

Tive uma entrevista vergonhosa e difícil com o pobre e querido Tom Eliot que, de hoje em diante, se poderá dizer morto para nós. Tornou-se anglo-católico, acredita em Deus e na imortalidade, e vai à igreja. Fiquei realmente horrorizada. Um cadáver parecer-me-ia mais credível do que ele. Creio que há algo de obsceno numa pessoa viva, que se senta à lareira e acredita em Deus.

Lido em "Imersos na vida de Deus", de Timothy Radcliffe, das Paulinas.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

A mensagem do Papa para a Quaresma diz 28 vezes caridade

Quando tinha frutos também tinha ninhos

A mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2013 (li-a aqui) insiste na relação entre fé e caridade. “Uma fé sem obras é como uma árvore sem frutos: estas duas virtudes implicam-se mutuamente”. O Papa diz que tanto é “redutiva a posição de quem acentua de tal maneira o carácter prioritário e decisivo da fé que acaba por subestimar ou quase desprezar as obras concretas da caridade reduzindo-a a um genérico humanitarismo” como é igualmente redutivo “defender uma exagerada supremacia da caridade e sua operatividade, pensando que as obras substituem a fé. Para uma vida espiritual sã, é necessário evitar tanto o fideísmo como o ativismo moralista”.

Claro que o Papa não é pelagiano porque diz que as obras de caridade “não são fruto principalmente do esforço humano, de que [alguém poderia] vangloriar-se, mas nascem da própria fé, brotam da graça que Deus oferece em abundância”.

A mensagem não é muito provocadora, como penso que seria desejável num texto que afirma que estamos a entrar num tempo precioso de reavivar a fé. Mas tem elementos suficientes para quem quiser um pouco de metanóia. A principal provocação é ao mesmo tempo uma das frases mais ignoradas de Bento XVI, pelo menos nas suas consequências. Afirma ele, citando-se a si próprio (“Deus caritas est”, 1):

«No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. (...) Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um “mandamento”, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro».

Pode haver fé (e logo caridade) sem este encontro pessoal? Porque continua a Igreja a dar sacramentos (todos eles) a quem manifestamente não dá sinais do encontro pessoal? Basta começar pelo Batismo e necessariamente chegar o Matrimónio, como, aliás, há dias o Papa já disse. Encontros pessoais não se delegam por muita fé que tenham os delegados.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Fé e crítica

A fé, que preserva a diferença do elemento cristão, precisa também de ser crítica. Se esta última palavra soar aos ouvidos de alguém como concessão à moda, pode calmamente substituí-la pela expressão «pronta para a penitência», pois esse é o significado da palavra «crítica». A penitência constitui a crítica mais radical. Exige uma conversão, que afeta os fundamentos. Radica no retorno escatológico de todas as coisas. Uma crítica assim entendida pode e deve, no futuro, existir também na Igreja.


Walter Kasper, "Introdução à fé", pág. 182

quarta-feira, 18 de maio de 2011

18 de Maio de 1911. Morre o músico Gustav Mahler


Gustav Mahler morreu há precisamente 100 anos, no dia 18 de Maio de 1911, aos 51 anos. Em vida foi reconhecido como grande maestro, mas como compositor, o grande compositor da transição entre o romantismo e o século XX, só foi reabilitado após a II Guerra Mundial e mais ainda na década de 1960.

Proveniente de uma família judaica da Boémia, então parte o império Austro-Húngaro, converteu-se ao catolicismo em Fevereiro de 1897. Há quem diga que foi uma conversão interessada, pois passados dois meses é nomeado Kappellmeister (mestra capela) da Ópera da Corte de Viena. Na Viena imperial diversos cargos estavam vedados a não-católicos (foi no tempo em que o imperador podia vetar a escolha do conclave, como aconteceu com Francisco José, que vetou em 1903 o cardeal Rampola, que havia sido o mais votado, vindo depois a ser eleito Giuseppe Sarto como Pio X).

Outros, a favor da conversão sincera de Mahler, defendem que a Terceira Sinfonia, dos anos imediatamente anteriores ao baptismo católico, se inspira claramente nos sofrimentos de Cristo.

Mahler perde o emprego em 1907, devido à perseguição da imprensa anti-semita, e foi para os EUA, onde dirigiu primeiro a Ópera Metropolitana e depois a Filarmónica de Nova Iorque. Viria a morrer em Viena, de uma infecção no sangue, ele que um dia disse: “Sou três vezes apátrida! Como natural da Boêmia, na Áustria; como austríaco, na Alemanha; como judeu, no mundo inteiro. Em toda a parte um intruso, em nenhum lugar desejado!"


quarta-feira, 20 de abril de 2011

A Madonna vai ser do Opus Dei?



A notícia veio no DN de segunda (aqui). É tão improvável que até pode ser verdade. E se for, vai ser lindo. Vai ter de repudiar metade do reportório, a começar por "Like a virgin", e mudar todos os espectáculos, cheios de encenações para-religiosas. Pode até ter de mudar o seu nome, a sr.ª Ciccone, digo eu. Mas o da filha mais velha, Lurdes, fica.
Segundo o "Daily Mirror", Madonna teria abandonado a Kabala, seita de origem judaica da qual fazia parte há anos, para integrar a Opus Dei, de cariz católico.O tablóide britânico diz que na base da renúncia de Madonna à Kabala está a polémica do alegado desvio de fundos de uma ONG pertencente à seita no Malawi. E avança ainda que a cantora esteve reunida em Londres com padres ingleses na última sexta-feira."Ela está interessada em explorar diferentes religiões. Madonna sempre teve curiosidade pela Opus Dei. Até agora, ela não é membro, está apenas tendo conversas informais", disse uma fonte ao jornal.O jornal, porém, não garante que Madonna já se tenha desligado da Kabala. Mas refere que a cantora ficou muito incomodada com a polémica do desvio dos fundos e teria mesmo despedido alguns directores da seita.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Cinco ideias erradas dos católicos sobre os ateus e mais cinco atitudes que os crentes podem promover



Jennifer Fulwiler, colunista do “National Catholic Register”, apontou cinco concepções erradas dos católicos sobre os ateus. Refira-se que, tendo crescido num ambiente ateu, foi baptizada aos 33 anos, na Páscoa de2007 (o que, até pela atenção que lhe é dada, faz sempre pensar que mais vale um ateu convertido do que 99 católicos de carreira), sabe do que fala. O texto original está aqui. Traduzo apenas os títulos das five common misconceptions about atheists”:

1. Eles sentem falta de algo.
2. Acham que a Bíblia é convincente.
3. Estão à vontade com a doutrina católica.
4. Podem ser convencidos apenas por argumentos.
5. Estão imunes ao poder da oração.

A isto gostava de acrescentar mais cinco atitudes que os católicos deve ter para com os ateus.

1. Ouvir os argumentos em vez de pensar que temos a verdade toda, à partida. Os ateus também pensam - não é irrelevante afirmá-lo em ambiente católico. Alguns pensam muito bem. Alguns até descobrem que os crentes costumam manipular argumentos e factos (estou a pensar no estafado argumento contra o aborto, muito usado por crentes, segundo o qual Beethoven nasceu depois de uma série de crianças portadoras de deficiência, quando foi o segundo filho). Outros colocam questões que, na verdade, devem ser pensadas. Um deles dizia daquele argumento de C.S Lewis, segundo o qual, se Jesus disse que era o salvador, das duas uma, ou era mesmo ou era mentiroso. Parecendo inviável a segunda, resta a primeira hipótese. Observa um dos ateus mais em voga: “E não excluem a hipótese de ele, Jesus, estar enganado?” Pois, tem de ser considerada num confronto deste género.

2. Evitar dizer com triunfo, ao mínimo pretexto, “Ah! Você não acredita num Deus em que também eu não creio”, até porque eles podem perguntar: “Então qual é o Deus em que crê?” A resposta não será, necessariamente, uma pérola de fé e teologia.

3. Ter consciência do aspecto purgativo do ateísmo. A Igreja já o disse várias vezes. Há muitos ateus que o são por causa das ideias, práticas, valores dos cristãos. Aliás, geralmente os ateus são ateus católicos, ateus protestantes, ateus ortodoxos, isto é, ateus contra a cultura cristã em que vivem. O que os ateus dizem terá sempre o aspecto positivo de nos fazer pensar. Contribuem muito para uma fé esclarecida e mais forte.

4. Evitar o raciocínio “és ateu, logo, és a favor do divórcio, do aborto, do amor livre”, ou “não tens Deus, não tens qualquer referência moral”, não só porque se arranjam católicos que também são a favor daquilo tudo como há ateus que têm altos padrões morais. E há ateus que estão em lutas, principalmente no campo social, que passam ao lado de muitos católicos.

5. Convidá-los para jantar lá em casa. É mais o que une do que o que separa. Alister McGrath diz do diálogo entre crentes e cientistas (em “O Deus de Dawkins”): “Ao ouvirem-se mutuamente, talvez possam ouvir cantar as galáxias. Ou mesmo os ceús, declarando a glória do Senhor (Salmo 19,1)”. Ao partilharem uma boa refeição, podem saborear juntos um bom vinho. E o bom vinho faz milagres.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Máscaras


"No Carnaval, as máscaras servem para cobrir as máscaras de todos os dias. A Quaresma deve servir para as arrancar e encontrar o Rochedo que nenhuma tempestade poderá abalar".

Bento Domingues, no "Público" de 06 de Março de 2011

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Papel marginal de Jesus na Igreja

Por vezes podemos ficar surpreendidos ao observar o papel completamente marginal que é reservado a Jesus na Igreja, a partir do momento em que, com frequência, a centralidade do interesse da comunidade roda substancialmente à volta da divisão de papéis e atribuições de poder entre clérigos e leigos. Ser discípulo do Senhor é a base comum de todos os cristãos e deveria permanecer como a sua qualificação mais importante. Os factos revelam um problema de constante conversão das comunidades cristãs ao Evangelho. Conversão tornada mais urgente ainda com a abertura e o progresso do diálogo ecuménico e o encontro entre as grandes religiões do mundo.

Carlo di Cicco in "Pegadas de um Deus difetente" (ed. Gráfica de Coimbra 2), pág. 89

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Os AA portugueses também seguem os 12 passos


Um leitor comentou na entrada "Um padre nos Alcoólicos Anónimos":

"Não é exacto ao dizer «Procurando no sítio dos AA portugueses (aqui), não encontrei a formulação dos 12 Passos». Poderia dizer, com razão, que deveriam estar mais visíveis naquela página, dada a importância daquele programa na respectiva comunidade.

De facto estão lá os 12 Passos. É a pergunta 30 desta lista. Fica reposta a verdade.

Aqui ficam:

  • Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que as nossas vidas se tinham tornado ingovernáveis.

  • Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos nos poderia restituir a sanidade.

  • Decidimos entregar a nossa vontade e a nossa vida aos cuidados de Deus, como O concebíamos.

  • Fizemos, sem medo, um minucioso inventário moral de nós mesmos.

  • Admitimos perante Deus, perante nós próprios e perante outro ser humano a natureza exacta dos nossos erros.

  • Dispusemo-nos inteiramente a aceitar que Deus nos libertasse de todos estes defeitos de carácter.

  • Humildemente Lhe pedimos que nos livrasse das nossas imperfeiçőes.

  • Fizemos uma lista de todas as pessoas a quem tínhamos causado danos e dispusemo-nos a fazer reparaçőes a todas elas.

  • Fizemos reparaçőes directas a tais pessoas sempre que possível, excepto quando fazê-lo implicasse prejudicá-las ou a outras.

  • Continuámos a fazer o inventário pessoal e quando estávamos errados admitíamo-lo imediatamente.

  • Procurámos através da oraçăo e da meditaçăo melhorar o nosso contacto consciente com Deus, como O concebíamos, pedindo apenas o conhecimento da Sua vontade em relaçăo a nós e a força para a realizar.

  • Tendo tido um despertar espiritual como resultado destes passos, procurámos levar esta mensagem a outros alcoólicos e praticar estes princípios em todos os aspectos da nossa vida.

  • quarta-feira, 6 de outubro de 2010

    Entrevista a José Antonio Pagola: “Jesus pode ser um desafio muito perigoso para a Igreja actual”


    O sacerdote basco José Antonio Pagola (Guipúzcoa, 1937), o já célebre autor de "Jesús, Aproximación histórica", mantém uma visão contemporânea e radical de Jesus Cristo. O número dois de José María Setién [bispo de 1979 a 2000] na diocese de San Sebastián vendeu 40 mil exemplares de seu livro em dois meses, antes que a Conferência Episcopal interferisse no assunto e a obra fosse retirada das livrarias eclesiásticas e diocesanas pela editora católica que a publicou. Em Portugal a obra está publicada na Gráfica de Coimbra 2 (“Jesus, uma abordagem histórica”), vendendo-se com um livrinho de 62 páginas, “suplemento”: “Uma explicação ao meu livro «Jesus, uma abordagem histórica”. A obra principal tem 552. A entrevista de Matías Vallés foi publicada no jornal “La Nueva España”, no dia 03 de Outubro de 2010. Copiei daqui. Original aqui.
    Considera-se uma vítima?
    Não. No meu livro apresento Jesus como conflitivo e perigoso. Agora comprovei na minha própria carne que ele o foi e o será sempre. Quando são conhecidas as suas palavras de fogo, a sua liberdade para defender as pessoas, o seu projecto de uma sociedade ao serviço dos últimos ou a sua crítica a uma religião vazia de compaixão, Jesus gera reacções encontradas de atracção ou de rejeição. Creio que, em boa parte, meu livro suscitou inquietação quando se captou que Jesus pode ser um desafio muito perigoso para a Igreja actual.
    Jesus Cristo era mais homem do que Deus?
    Provavelmente, ninguém exerceu um poder tão grande sobre os corações como Jesus, ninguém expressou como ele as inquietações e interrogações do ser humano, ninguém despertou tantas esperanças. Ainda hoje, quando as ideologias e religiões experimentam uma crise profunda, Jesus continua a alimentar a fé de milhões de homens e mulheres. Nós, cristãos, pensamos que Jesus é tão plenamente humano que não é como nós. Leonardo Boff dizia que “tão humano só pode ser Deus”. Para mim, Jesus é Deus, falando-nos, acompanhando-nos e salvando-nos a partir desse homem entranhável.
    A nomeação de Munilla [José Ignacio Munilla Aguirre, 48 anos, nomeado bispo de San Sebastián em Novembro de 2009 ] é um desafio de Rouco [arcebispo de Madrid] à Igreja nacional basca?
    É um erro analisar o que ocorreu em San Sebastián a partir de chaves exclusivamente políticas. Penso, ao contrário, que o que se vive em minha diocese é, sobretudo, um conflito eclesial que está a ocorrer também em outras partes, como consequência de um confronto entre dois modelos de Igreja ou duas sensibilidades sobre o conteúdo e o significado do Vaticano II ou sobre a missão da Igreja na sociedade secularizada. O lamentável é que, em geral, as nossas mútuas desqualificações não estão a conduzir-nos em direcção a uma Igreja mais fiel a Jesus e ao seu projecto.
    Vai ler o livro de Hawking que nega a existência de Deus?
    Não. Os trabalhos de Stephen Hawking sobre astronomia sempre me interessaram, mas não as suas conjecturas sobre Deus. Os especialistas no diálogo ciência-fé afirmam que nem as religiões podem provar a existência de Deus, nem a ciência a sua não existência. Parece que o homem moderno decidiu que o que o ser humano não pode provar cientificamente não existe.
    Deus é necessário?
    Deus não é necessário para ganhar dinheiro, adquirir poder ou conquistar bem-estar. Também não é necessário para nos dispensar do mal, do sofrimento ou das desgraças da vida. Deus serve, para nós, crentes, para enfrentarmos com uma luz, um estímulo e um horizonte novo a dureza da vida e o mistério da morte.
    Gostaria de manter um debate aberto com Bento XVI sobre os conteúdos de seu livro?
    Gostaria que, em Roma, fossem ouvidas as diversas correntes teológicas existentes no seio da Igreja – não só na Europa –, mas, principalmente. Alegrar-me-ia que a hierarquia liderasse um movimento de conversão a Jesus Cristo. Não há nada mais urgente.
    Jesus tomaria as mesmas decisões que o Vaticano toma sobre a mulher?
    Jesus critica uma sociedade patriarcal que estabelece o domínio e o poder do homem sobre a mulher. Essa actuação de Jesus está a exigir-nos hoje uma revisão profunda da situação injusta da mulher na Igreja e na sociedade, uma consciencialização mais viva da nossa infidelidade a Jesus e um processo valente de renovação para que a mulher possa desfrutar da sua dignidade, direitos e protagonismo.
    Jesus acabou numa vala comum como os desaparecidos da Guerra Civil?
    Não. Historicamente, é muito provável. Essa hipótese do norte-americano John Dominic Crossan não encontra apenas aceitação entre os especialistas.
    Inclusive, seus críticos mais duros renderam-se diante do brilhante estilo literário de “Jesus”.
    O que me enche de alegria é comprovar que muitas pessoas que lêem o meu livro sentem Jesus mais vivo e próximo, encontram um sentido diferente para a sua vida, desperta-se neles o desejo de uma vida mais humana. Encontram no meu livro algo que eu não coloquei.
    Pensou alguma vez que ele se converteria num sucesso de vendas?
    Nunca. Normalmente, o êxito de um livro mede-se nesta sociedade pelo número de exemplares vendidos. Eu não acho isso. De "O Código Da Vinci", de Dan Brown, foram vendidas milhões de cópias, mas eu considero-o um fracasso, pois não introduz verdade nem esperança, não nos aproxima do mistério de Jesus, não ajuda a viver de forma mais humana.
    As contradições no discurso de Jesus abundam nos evangelhos?
    Os evangelhos não são relatos biográficos redigidos para oferecer informação precisa de carácter histórico. São relatos em que, de forma variada e matizada por cada evangelista, se recolhe a memória de Jesus. Para nos aproximarmos do conteúdo histórico que eles conservam sobre Jesus é necessário contrastá-los, analisar os géneros literários que empregam, os procedimentos narrativos, o vocabulário próprio de cada evangelista, o contexto.
    Jesus Cristo expulsaria os mercadores do Vaticano?
    Não se deve esperar que Jesus volte. A partir dos milhões de famintos e desnutridos da terra, dos pobres esquecidos pelas religiões, das mulheres humilhadas em todos os povos, Jesus está a grita-nos agora mesmo, aos dirigentes do Vaticano e a todos os que nos dizemos cristãos, que expulsemos da Igreja riquezas, poderes, grandezas ou interesses que ocultam sua mensagem de esperança.
    Pode-se seguir Jesus sem seguir sua Igreja?
    Nestes momentos, eu não encontro outra forma melhor de seguir Jesus do que vivendo nesta Igreja, mas esforçando-me por me converter, eu mesmo, ao Evangelho, e trabalhando para fomentar nela um clima de conversão para Jesus.
    A crise económica que tanto nos ocupa irá provocar um renascimento da espiritualidade?
    Observo que o desejo de espiritualidade se desperta principalmente em pessoas que experimentam com força o vazio existencial, o sem sentido de sua vida, a saturação de bem-estar. Não é fácil viver uma vida que não aponta para nenhuma meta.
    O que um não crente pode obter com a leitura de seu livro?
    Recebi muitas centenas de cartas e escritos de leitores não crentes. A maioria me diz que se encontrou com um Jesus que nem sequer suspeitavam; alguns sentiram-se chamados a repropor a sua vida com mais verdade e honestidade; muitos sentiram-se libertos de medos e fantasmas religiosos que lhes fizeram sofrer muito apesar de se terem distanciado da Igreja; muitos ficam comovidos com um Deus amigo que ama com amor incrível e imerecido a todos os seus filhos. Alguns dizem: “Oxalá que esse Deus exista”. Muitos animam-se a trabalhar por um mundo mais humano e justo.

    quarta-feira, 15 de setembro de 2010

    Dez passageiros que se descobriram no autocarro errado


    10 ateus que mudaram de autobus
    José Ramón Ayllón
    160 páginas
    Gráfica de Coimbra 2
    No início de 2008 surgiram em Londres alguns autocarros que diziam: “There's probably no God. Now stop worring and enjoy your life” (“Provavelmente, Deus não existe. Deixe então de se preocupar e desfrute a vida”). Promovia a iniciativa a Associação Humanista Britânica (em alguns países os ateus intitulam-se “humanistas”). Copiaram-na outras cidades europeias. A seguir apareceram autocarros com mensagens cristãs. Por estes dias, com a visita do Papa ao Reino Unido, há autocarros a pedir a ordenação de mulheres.
    Esta luta de autocarros é capaz de ter sido mais favorável a Deus do que desfavorável. A descrença não precisa de apóstolos no contexto em que vivemos. Pelo contrário, até a negação de Deus obriga a nomeá-lo. E o “provavelmente”, levado a sério, só significa que não há certezas. Há, pelo contrário, grande margem de erro na mensagem, Ou seja, probabilidades para Deus, nas mensagens dos que o querem negar.
    Este livro de José Ramón Ayllon, um antigo professor do secundário que agora se dedica à escrita de sentido cristão, serve-se dessa polémica para falar de 10 convertidos, 10 pessoas que deixaram o autocarro (“autobus” e “autobuses” são traduções incomuns e infelizes dos termos espanhóis “autobús” e “autobúses”) da descrença para se converterem ao cristianismo (católico mas também anglicano e ortodoxo). 10 pessoas que pensavam, diziam, escreviam que provavelmente Deus não existe, mas que deram com Ele ou sinais dele quando estavam empenhadas em investigações científicas, quando mergulhavam em estudos literários ou na escrita de romances, quando entraram fortuitamente (!) numa igreja vazia (Frossard), quando contemplavam o Sena em Paris (Yepes), quando ou diziam mecanicamente o Pai-Nosso como exercício de yoga (Goricheva), porque Deus escreve direito, mas os seus caminhos são sinuosos. E às vezes só a meio do percurso os passageiros reparam que apanharam o autocarro errado.
    Os 10 ex-ateus de que este livro fala são…
    1. Francis Collins (EUA, 1950 - …), cientista da área de genética, director do Projecto Genoma Humano, responsável pelo mapeamento do DNA humano.
    2. Ernesto Sábato (Argentina, 1911 - …), cientista de formação, tornou-se escritor no final da II Guerra Mundial e ensaísta de renome.
    3. Fiódor Dostoievski (Rússia, 1821-1881), escritor russo, autor de “Crime e Castigo”, “O idiota” e “Os irmão Karamazov”.
    4. Tatiana Goricheva (URSS, 1947 - …), fundadora do movimento feminista soviético. Foi expulsa do país após a conversão. Escreveu o livro “É perigoso falar de Deus”.
    5. C. S. Lewis (Irlanda do Norte 1898 – Inglaterra 1963), escritor, professor de Literatura, autor de “As Crónicas de Nárnia”.
    6. André Frossard (Franca, 1915-1995), filho do fundador do Partido Comunista Francês, jornalista e escritor. Foi biógrafo de João Paulo II.
    7. Edith Stein (1891-1942), de ascendência judaica, foi aluna do filósofo Edmund Husserl. Baptizou-se aos 20 anos e entrou para as carmelitas. Morreu no holocausto de Auschwitz.
    8. Vittorio Messori (Itália, 1941 - …), jornalista, autor das “Hipóteses sobre Jesus” e de livros sobre o Opus Dei, João Paulo II e Joseph Ratzinger.
    9. Narciso Yepes (Espanha, 1927-1997), guitarrista com dezenas de discos publicados (música erudita), membro da Real Academia de Belas Artes
    10. Gilbert K. Chesterton (Inglaterra, 1874-1936), escritor, romancista e polemista, autor de “Ortodoxia” e se uma série de livros sobre o Padre Brown, sacerdote e detective.

    sexta-feira, 10 de setembro de 2010

    "Ele sabe bem do que se trata", texto de J. H. Newman


    Deus criou-me para fazer um serviço definido: confiou-me uma tarefa que não confiou a mais ninguém.
    Eu tenho a minha missão. Talvez jamais a conheça nesta vida, mas na outra ser-me-á revelada.
    Sou um anel de uma corrente, um vínculo de ligação entre pessoas.
    Ele não me criou para o nada.
    Executarei a sua tarefa. E bem.
    Serei um anjo de paz, um pregador da verdade no meu próprio lugar, ainda que apenas observando os seus mandamentos.
    Por isso, confiarei n’Ele. O que quer que seja, onde quer que seja, jamais posso ser deitado fora.
    Se estiver doente, que a minha doença o sirva.
    Se estiver angustiado, que a minha angústia o sirva.
    Ele nada faz em vão. Ele sabe bem do que se trata.
    Ele pode levar meus amigos.
    Ele pode lançar-me entre estranhos.
    Ele pode fazer que me sinta desolado, fazer o meu espírito naufragar e esconder-me o futuro.
    Em tudo isso. Ele sabe o que faz.

    John Henry Newman (1801-1890)

    terça-feira, 31 de agosto de 2010

    Autocarro – 2: Ateus que apanharam outro

    Na Gráfica de Coimbra 2 saiu há dias o livro “10 ateus que mudaram de autobus”, sim, “autobus”. Não sei se em Portugal mais alguém usa a palavra “autobus” além do tradutor, mas é esse o termo com que verteu a palavra espanhola “autobús”.

    Os ateus que mudaram de autocarro são: Francis Collins, Ernesto Sábato, Fiódor Dostoievski, Tatiana Goricheva, C. S. Lewis, André Frossard, Edith Stein, Vitorrio Messori, Narciso Yepes e G. K. Chesterton.

    De alguns destes ex-ateus nunca tinha ouvido falar. Uma foi fundadora do movimento feminista russo (Goricheva); outro foi músico (Yepes).

    De meia dúzia de parágrafos lidos a saltar pareceu-me que o livro é mais convincente do que a tradução do título.

    segunda-feira, 19 de julho de 2010

    A cruz de Prince


    The Cross - LoveSexy Tour Dortmund 1988

    The Cross (de Sign “☮” the Times, 1987)

    Black day, stormy night
    No love, no hope in sight
    Don't cry, he is coming
    Don't die without knowing the cross

    Ghettos 2 the left of us
    Flowers 2 the right
    There'll be bread 4 all of us
    If we can just bear the cross

    Sweet song of salvation
    A pregnant mother sings
    She lives in starvation
    Her children need all that she brings

    We all have our problems
    Some BIG, some are small
    Soon all of our problems
    Will be taken by the cross

    Black day, stormy night
    No love, no hope in sight
    Don't cry 4 he is coming
    Don't die without knowing the cross

    Ghettos 2 the left of us
    Flowers 2 the right
    There'll be bread 4 all, y'all
    If we can just, just bear the cross, yeah

    We all have our problems
    Some are BIG, some are small
    Soon all of our problems, y'all
    Will be taken by the cross.

    A conversão 2 - Prince, testemunha de Jeová


    "É um dia calmo lá em casa. A campainha toca. Espreita-se pelo óculo da porta para ver quem é. Vislumbra-se um homem baixo, cabelo com gel, roupas coloridas, sapatos de salto alto e Bíblia na mão. Pensamos ser um sósia de Prince. Depois o homem fala, diz que quer falar connosco sobre Deus, fica-se curioso e abre-se a porta. E às tantas percebe-se que não é um sósia. É mesmo ele.

    Em Portugal não se corre esse risco. Mas em pequenas cidades do interior dos Estados Unidos, nos últimos dez anos, tem acontecido. A maior parte das vezes não é reconhecido. Às vezes enverga até uma roupa mais comedida e faz questão de metamorfosear o cabelo. Mas muitos já apanharam o sobressalto da vida, abrindo a porta a uma testemunha de Jeová e acabando a falar com uma das maiores estrelas pop das últimas três décadas.

    A história vem contada no jornal inglês "Daily Mirror", que distribuiu gratuitamente o seu último álbum, "20Ten", na edição de sábado passado, mas tem sido reafirmada ao longo dos últimos anos em vários artigos de imprensa. Prince é Testemunha de Jeová, professando com convicção, inclusive no porta a porta".

    Não, a história vem no "Ípsilon" de sexta-feira passada. Pode ser lida on-line aqui.

    A conversão 1 - Nina Hagen

    Nina Hagen, cantora de quem há anos não ouvia falar, provavelmente por andar distraído, porque parece que nunca deixou de cantar, converteu-se. Numa entrevista que li em português do Brasil (aqui) e que depois encontrei no espanhol original (aqui), diz que Deus e Jesus são o seu “manager”. Não sei a que cristianismo se converteu, mas não me parece que tenha sido ao católico. Lê muito a Bíblia.

    De qualquer forma, o disco, “Personal Jesus", é bom – dizem. “Um surpreendente e agradável trabalho de country, blues e gospel, dedicado, claro, a Deus”.

    Mais uma busca e encontro no mesmo “El País” (aqui) que a cantora alemã foi baptizada numa igreja evangélica, em Schüttorf, no sul da Alemanha, no dia 17 de Agosto de 2009.

    quarta-feira, 7 de julho de 2010

    Fé nas quatro linhas

    Wezley Sneidjer

    Há aquela anedota de Jesus ir ao estádio e acudir sempre pelos que têm a bola, fossem católicos ou protestantes. Era um jogo entre confissões cristãs, mas o que interessava a Jesus era o jogo pelo jogo.

    Agora, com uma meia-final realizada e outra por realizar, parece-me que há algo de comum nos dois jogos: a criatividade e o crer católico (Uruguai e Espanha) contra o rigor e método protestante (Holanda e Alemanha).

    Na realidade, as coisas não são assim tão lineares. É certo que os latinos geralmente são católicos. Mas na selecção do Brasil há diversas igrejas. Muitos são evangélicos. Como Kaká, que é marido de uma pastora. De qual denominação? E na Holanda, tradicionalmente um país de liberdade religiosa, o mais certo é serem indiferentes. É um dos países mais seculares da Europa, embora há 50 anos 30 por cento fossem católicos e os restantes protestantes.

    Quando após a fase de grupos todas as equipas falantes de português e espanhol seguiam em frente excepto a das Honduras, parecia que a fé católica dominava o mundial. Mas não só não se sabe o que é realmente a fé, como parece abundar a superstição. Vejam-se as oito vezes que Maradona se benze antes de cada jogo. E uma no final.

    Mas quem pode qualificar tais gestos? Claro que este texto não é sobre fé. É sobre sinais de fé. E como disse o escritor uruguaio Eduardo Galeano, “o futebol é a única religião que não tem ateus”. Não sei se se referia a adeptos, se a jogadores.

    Agora vem-se a saber que o Uruguai atribui a sua boa prestação a São Cono, porque um menino de nove anos distribuiu pelos jogadores da equipa uma imagem de São Cono antes de partirem para a África do Sul (aqui). O número de São Cono é o 3. Celebra-se a 3 de Junho. Ontem, mais uns minutos de jogo e o Uruguai marcava o terceiro. Mas não deu.

    Do outro lado esteve uma selecção onde tem pontificado Wesley Sneijder… o católico.

    “Em Milão, onde Mourinho lhe outorgou toda a sua confiança e lhe deu plenos poderes, Sneijder não só recuperou seu nível de jogo de antigamente – excelente cobrador de faltas, boa visão de jogo, grande chegada à área desde a zaga –, mas também colocou sua vida em ordem. E tudo graças a outra mulher, a bela Yolanthe Cabau van Kasbergen, atriz, apresentadora e modelo holandesa nascida em Ibiza, com a qual começou a sair em agosto do ano passado, pessoa que o convenceu a completar sua conversão ao catolicismo.

    «Fui à missa uma vez junto com meus companheiros e, ao fazer parte dela, senti uma força e uma confiança que me perturbaram”, destacou o jogador, que, animado pela sua nova namorada e pelo capitão da Inter, Javier Zanetti, se inscreveu nos cursos de catequese para adultos, até receber o sacramento do batismo em junho deste ano, poucos dias antes de viajar para a África do Sul. Li aqui.

    Faltam dois jogos para acabar o mundial: a outra meia final (Espanha - Alemanha) e a final. O jogo de apuramento do terceiro e quarto lugares pouco conta. Se houver novidades, volto ao assunto. Falo de fé e religião, não de golos.

    domingo, 13 de junho de 2010

    Bento Domingues: O demónio não é ateu

    "A fé verdadeira é o acolhimento humilde de Deus na nossa finitude e dos outros como dons da sua graça", escreve Bento Domingues, referindo o caso do judeu francês com nome de árabe, esquerdista e discípulo de Nietzsche, que se converteu ao catolicismo: Fabrice Hadjadj.

    segunda-feira, 5 de abril de 2010

    Magdi Cristiano Allam: O dia mais belo da minha vida

    “Foi o dia mais belo da minha vida. Receber o dom da fé cristã na festa da Ressurreição de Cristo, das mãos do Santo Padre, é um privilégio sem comparação e um bem inestimável. Para mim, com quase cinquenta e seis anos, é um acontecimento histórico, único e inesquecível, que assinala uma reviravolta radical e definitiva relativamente ao passado. Na noite de 22 de Março de 2008, na Vigília Pascal, durante a solene liturgia celebrada na magnificente Basílica de São Pedro, berço da nacionalidade, renasci para Cristo”.

    Magdi Cristiano Allam in Obrigado, Jesus. A minha conversão do islamismo ao catolicismo (Gráfica de Coimbra 2)

    Sinodalidade e sinonulidade

    Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...