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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Vaticano II em Roma

Ainda não li a exortação apostólica de Francisco (que agora já está em português no vatican.va). E só li títulos dos comentários. Assim de repente, parece que o Vaticano II chegou a Roma. Ou então vem aí o Vaticano III.

domingo, 17 de novembro de 2013

Bento Domingues: "Sondagem ou dinamização da Igreja?"

Bento Domingues no "Público" de hoje. Aqui (agora o texto é de acesso livre).

Ou muito me engano, ou este processo é o começo de uma revolução. Não se pede aos católicos que estejam com os Bispos e o Papa. O que se procura é que os Bispos e o Papa estejam com a Igreja. Com a parábola do Bom Pastor não se pretende que as ovelhas estejam com o pastor, mas que este esteja com o rebanho.



1. Segundo o Pew Research Center (PRC), o centro de sondagens mais respeitado, em assuntos religiosos, em cada dez pessoas, oito são religiosas. Mais de 80% da população mundial faz parte de uma religião organizada.

A religião mais numerosa continua a ser o cristianismo. Conta com 32% da população mundial. Segue-se o islão com 23% e o hinduísmo com 15%. Enquanto o cristianismo e o islão estão em vários pontos do mundo, o hinduísmo concentra-se quase exclusivamente na Índia. Metade de todos os cristãos é católica romana, 37% são protestantes e 12% ortodoxos.

Estas realidades estão sempre em recomposição, mas indicam que as religiões não estão para acabar tão cedo. Têm-se revelado até mais resistentes do que as repetidas desqualificações críticas a que têm sido submetidas. Muitas vezes com razão. De reveladoras do sentido da vida, de fontes de renovação da esperança, de resistentes ao niilismo, abrindo horizontes ilimitados tornaram-se, por manipulações várias, instrumentos do medo. Deixaram-se envolver em absurdas guerras e torturas, dando campo livre ao fanatismo em nome de Deus.

De religião para religião, as formas de expressão simbólica e ritual, as normas que as regem, as exigências éticas a que obedecem são muito diversas. As interrogações, as perplexidades e as dúvidas suscitadas pelo mistério de existir nem sempre desaguam nas respostas que as diferentes religiões codificaram. O Espírito de Deus sopra onde, quando e como quer. De qualquer modo, as formas religiosas e as suas instituições são para o ser humano e não o contrário. O teste de autenticidade das celebrações litúrgicas, das vivências espirituais e das experiências místicas, dentro e fora das instituições, prova-se na relação com os excluídos.

2. Os números, no campo religioso, só por si, não revelam - podem até ocultar - a saúde espiritual ou as crises que o atravessam. No mundo católico, há muitas vozes a reclamar mudanças e também se nota que algumas temem que o Papa Francisco comece a duvidar da infabilidade do seu magistério. Ninguém espera que, ao procurar saber como vivem e pensam os membros da Igreja, seja para fazer o rol dos erros a combater, uma espécie de reedição actualizada do Syllabus de Pio IX (1864). É mais provável que ele acredite que o sentido da responsabilidade pela vida cristã não seja um monopólio de bispos e padres e queira conhecer a sensibilidade actual dos católicos.

 O melhor lugar para fazer a leitura dos sinais dos tempos não é, necessariamente, o Vaticano. Há muitos mundos no mundo, muitas comunidades cristãs e muitas sensibilidades católicas. Não há nenhum boletim meteorológico especializado em indicar a temperatura da fé, nas diferentes regiões da terra. Nada como escutar as experiências das pessoas, das famílias, dos grupos, das comunidades espalhadas pelo mundo. Não basta.
3. Está convocada, para Outubro de 2014, a III Assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos destinada a enfrentar os desafios da família, no nosso tempo. Será que os bispos e o Papa já não acreditam na doutrina que elaboraram, tão segura e clara, a partir da indissolubilidade do matrimónio? Será que pretendem informar-se da sorte desta doutrina, na sociedade e na Igreja?

Se fosse apenas uma questão de informação, nada como encomendar um inquérito a um instituto internacional especializado, com garantias científicas. Se fosse para dar a conhecer a Doutrina católica, não era preciso tanta pergunta. O que se pretende afinal?

Era costume dizer que onde está o bispo, está a Igreja. Com os Bispos reunidos em Sínodo com o Papa, não é preciso interrogar a Igreja!

Ou muito me engano, ou este processo é o começo de uma revolução. Não se pede aos católicos que estejam com os Bispos e o Papa. O que se procura é que os Bispos e o Papa estejam com a Igreja. Com a parábola do Bom Pastor não se pretende que as ovelhas estejam com o pastor, mas que este esteja com o rebanho. É por isso que não se trata aqui apenas de um inquérito de opinião. É, sobretudo, a oportunidade de que a leitura dos sinais dos tempos referentes à situação actual da família seja feita pelo conjunto da Igreja. O processo desencadeado faz supor que o Papa e os Bispos nada querem fazer sem as comunidades cristãs. A não ser assim, estariam a enganar o laicado e a desobedecer ao grande princípio: aquilo que a todos diz respeito deve ser tratado por todos.

Não julgo que este processo possa dar azo a cisões na comunidade católica. Se todos puderem falar e ouvir chegar-se-á à conclusão de que a Igreja sempre foi construída por várias tendências. A arte dos pastores consiste em encontrar os meios, os caminhos de diálogo para estimular a comunhão na diferença.


Muito cedo na Igreja foi preciso reunir um concílio, para ser possível extrair do conflito novos horizontes e novas práticas, no seio da mesma Igreja (Act 15). Vai sendo tempo de pensar no Vaticano III. Que este Sínodo sobre a problemática actual da família seja um bom ensaio.

sábado, 19 de outubro de 2013

Anselmo Borges "Ateísmo, agnosticismo, teísmo"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


A modernidade tem como característica fundamental a nova visão científica da realidade. A problemática é de tal modo decisiva que o filósofo e teólogo Javier Monserrat advoga a convocação de um Concílio para confrontar a fé com esse novo dado - ver "Hacia el Nuevo Concilio", de onde partem as reflexões que se seguem.

Alguns resultados estão alcançados. 1. Para a ciência actual, o universo todo, incluindo a consciência, "produziu-se pelas propriedades ontológicas e dinâmicas da matéria que foi produzida no big bang com altíssima densidade e energia". 2. Estamos em presença de um mundo real e aberto. 3. Este mundo aparece-nos ordenado finalisticamente. Trata-se de uma "ordem viva" e "ordem antrópica". De qualquer modo, apresenta-se como um mundo enigmático, sendo possíveis três conjecturas metafísicas: ateísmo, agnosticismo, teísmo.

Os autores ateus "mostraram que entender a consistência eterna de um universo sem Deus é possível". A ciência pode, segundo algumas teorias, conceber a auto-suficência do universo, "a sua consistência e estabilidade dinâmica num tempo eterno, sem fim".

Perante a impossibilidade de a ciência resolver com certeza as questões últimas, de ordem metafísica, o agnosticismo assume a ausência de resposta: trata-se de "um incompromisso filosófico". Respeita tanto o ateísmo como o teísmo. Provavelmente a percentagem de agnósticos é hoje muito mais elevada do que a dos ateus.

O ateísmo não pode ser excluído como "teoria possível". Mas o ateísmo não é evidente. Se o fosse, não haveria teístas, do mesmo modo que, se o teísmo fosse uma evidência, não haveria ateus. Perante um mundo obscuro e enigmático, tanto o ateísmo como o teísmo constituem uma "fé filosófica", uma "crença".

Também o teísmo apresenta razões para argumentar a favor da existência de Deus. Já não se trata de "demonstrar", mas de mostrar que a razão científico-filosófica torna verosímil a existência de Deus: "uma certeza moral livre da existência de Deus". 1. A hipótese de um Deus transcendente e criador enquanto fundamento da consistência, estabilidade e suficiência de "um universo que começa no tempo (a grande explosão) e que previsivelmente acabará numa morte energética e na sua dissolução final" surge como a mais verosímil. É defensável a hipótese de que "o fundamento do ser, a verdadeira realidade auto-suficente em si mesma e eterna, seja um ser divino transcendente que - com intencionalidade - "cria", "funda" o universo visível no seu fluir temporal finito". 2. O universo que autonomamente produziu a ordem física e biológica, conducente à liberdade, torna verosímil um desígnio racional de Deus enquanto criador. O teísmo actual não aceita o Deus tapa-buracos, mas, precisamente ao reflectir sobre a ordem "quase-racional" constatável, e, portanto, sobre as propriedades da matéria e as leis evolutivas que permitem produzir autonomamamente a ordem psicobiofísica e a sua orientação antrópica - porquê estas propriedades e leis e não outras? - ,constata que esta ordem, congruente com um fim inteligível, "torna verosímil a hipótese de que poderia estar causada pelo "desígnio" racional de uma Inteligência Criadora." 3. Esta verosimilhança é confirmada e aprofundada, quando se constata que o processo evolutivo dá origem no seu termo a seres humanos enquanto pessoas autoconscientes e livres. Não é mais razoável e inteligível o processo, se na sua raiz e como sua Causa está o Deus transcendente e pessoal, que cria livremente por amor? O teísmo actual "assumiria a superação do dualismo e identificar-se-ia com a lógica do emergentismo, incluindo a emergência do psiquismo humano, da razão e da sua especial abertura à Divindade", "que abarca o universo e o contém criativamente no seu interior". Este universo é um "universo para a liberdade", a partir de um "desígnio para a liberdade" e, portanto, do "princípio antrópico cristão", embora não se imponha como inevitável a "solução divina".

Tanto o ateísmo como o teísmo têm na base uma crença ou uma fé, com razões, devendo, portanto, ateus, agnósticos e teístas respeitar-se e dialogar.

domingo, 29 de setembro de 2013

Bento Domingues: "Francisco, um amigo lá de casa"

Bento Domingues no "Público" de hoje (amanhã porei aqui o texto na íntegra):
A reforma desejada, na linha aberta por João XXIII, foi sistematicamente adiada em vários domínios e, mais do que isso, contrariada. Os processos instaurados pela Congregação para a Doutrina da Fé ao pensamento cristão mais inovador pareciam querer restaurar um tempo de má memória. A debandada de padres, religiosos, religiosas e militantes católicos foi uma tristeza. Quando se falava da necessidade de um novo concílio, a resposta disponível era sempre a mesma: ainda não foi posto em prática o Vaticano II, como se vai entrar na aventura de um terceiro?
 O próprio "Ano da Fé" serviu para abafar os questionamentos que o cinquentenário do concílio poderia levantar. Optou-se por fazer dele um assunto de arquivo, em vez de uma provocação para o século XXI. 
Bento XVI mostrou-se incapaz de reformar a cúria - a que pertenceu durante muitos anos - e de convocar um novo concílio. Preferiu demitir-se e provocar um conclave electivo, tornando possível outro caminho.

sábado, 28 de setembro de 2013

Leonardo Boff escreve sobre o diálogo Scalfari/Francisco

O ateu Scalfari deixou umas interrogações do Papa, no jornal “La Repubblica”, por ele fundado, e o bispo de Roma respondeu. Leonardo Boff, em carta ao diretor, comentou o diálogo Scalfari/Francesco.
(...) Para Francisco, não é relevante se Scalfari é ou não crente, porque cada um tem a sua própria história e o seu caminho, mas é importante a capacidade de estarmos abertos à escuta. Nas palavras do grande poeta espanholAntonio Machado, "a tua verdade? Não, a Verdade. E vem comigo buscá-la. A tua, guarda-a contigo". Mais importante do que saber é nunca perder a capacidade de aprender. Esse é o sentido do diálogo.
...
Nesse sentido, como eu já escrevi a Francisco, é urgente a um Concílio Vaticano III, aberto a todos os cristãos e não somente aos católicos, a todas as pessoas, até mesmo ateias, que possam nos ajudar a analisar as ameaças que pairam sobre o planeta e como enfrentá-las. As mulheres, em primeiro lugar, já que é a própria vida que está sendo ameaçada. O Cristianismo é um fenômeno ocidental. Ele deve encontrar o seu espaço na nova fase da humanidade, na fase planetária. Só assim pode ser uma Igreja de todos e para todos.
Ler tudo aqui.

sábado, 30 de junho de 2012

Anselmo Borges; A caminho do Vaticano III?

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (tirado daqui).

Juan José Tamayo

Durante esta semana, em Santander, na UIMP (Universidade Internacional Menéndez Pelayo), realizou-se um Curso de Verão sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II (1962-1965). A direcção pertenceu ao teólogo Juan José Tamayo.

O Concílio foi um enorme acontecimento. Sem ele, é inimaginável a situação da Igreja Católica e, consequentemente, dada a sua influência no mundo, também do próprio mundo. Como sublinhou Tamayo, operaram-se grandes transformações:

De uma Igreja que se considerava uma sociedade perfeita passou-se à Igreja como comunidade de crentes. Do mundo como inimigo da alma ao mundo como lugar da vivência da fé. Da condenação da modernidade e das religiões não cristãs ao diálogo multilateral. Da condenação dos direitos humanos ao seu reconhecimento e proclamação. Da condenação da secularização à sua defesa, no sentido do reconhecimento da autonomia das realidades temporais. Da Igreja imutável e imóvel à Igreja que deve estar em constante reforma. Do integrismo católico ao respeito pelas outras crenças. Do autoritarismo centralizado em Roma à colegialidade episcopal. Da Cristandade ao cristianismo. Da pertença à Igreja como condição necessária para a salvação à liberdade religiosa como direito humano fundamental. De uma Igreja europeia a uma Igreja verdadeiramente universal.

Houve limites? Alguns, maiores: apesar de certa abertura ao mundo, o seu carácter eurocêntrico - o horizonte de compreensão foi a modernidade europeia e, nesse quadro, a problemática da crise de Deus no mundo ocidental e o fenómeno da descrença -, e a não centralidade da opção pelos pobres, não se dando a devida atenção às maiorias populares do Terceiro Mundo. O Ocidente acabou por ser o destinatário principal do Concílio. Depois, o antropocentrismo exacerbado fez com que a problemática da ecologia fosse ignorada.

Alguns temas foram silenciados. O Papa Paulo VI impediu que o tema do celibato dos padres fosse debatido - mais tarde, num Sínodo Episcopal, submeteu-o a votação, mas a maioria dos bispos opôs-se. O lugar das mulheres na Igreja e, concretamente, a sua ordenação, bem como o controlo da natalidade, foram arredados do debate.

No dizer de Tamayo, "o Concílio foi uma curta Primavera a que se seguiu um longo Inverno, que dura há mais de 40 anos". Perante os excessos de então, Paulo VI, que tinha convictamente levado a termo o Concílio, mas que era um intelectual hesitante, teve receio e começou a pôr algum travão, numa história de avanços e recuos. Depois, já com João Paulo II, avançou a involução e pôs-se em marcha "um programa calculado de restauração". Acentuou-se o carácter hierárquico-papal da Igreja, limitou-se a liberdade de investigação teológica, muitos teólogos foram condenados, passou-se do pensamento crítico ao pensamento único e dogmático, a Cúria readquiriu poder, os bispos conciliares foram sendo substituídos por bispos fiéis ao neoconservadorismo e ao Vaticano.

Com Bento XVI, que constituiu uma surpresa pela sua humanidade, por medidas fortes contra o clero pedófilo, pela admiração por parte dos intelectuais, o caminho da involução continua: aí estão a restauração da Missa em latim, as negociações com os lefebvrianos, a condenação de teólogos, a centralização.

Perante a grave crise que atravessa hoje a Igreja, muitos reclamam um novo Concílio: um Vaticano III, convocado por um João XXIV. Mas há quem, para lá de outras objecções, lembre a questão financeira: um novo Concílio seria demasiado caro.

Pergunta-se, então, se não deveria dar-se, pelo menos, a convocação dos Presidentes de todas as Conferências Episcopais do mundo - há quem, com razão, questione a utilidade do cardinalato -, para resolver problemas urgentes: os escândalos no Vaticano, a questão do celibato, o lugar da mulher na Igreja, reformas das estruturas eclesiásticas, maior descentralização, uma linguagem nova para a expressão da fé, questões novas postas pela globalização e pelas novas tecnologias, tanto no domínio da comunicação como no da vida.

sábado, 10 de março de 2012

Anselmo Borges: Ciência, espiritualidade e justiça


Artigo de Anselmo Borges no DN de hoje.

Quando se fala da Igreja e do mundo, há, à partida, um equívoco fundamental: a Igreja e as pessoas na Igreja querem dialogar com o mundo, como se também elas não fossem mundo. Ora, há um só mundo, no qual vivemos todos. Os cristãos também vivem neste único mundo, mas a partir da perspectiva do Deus revelado em Jesus Cristo. E dialogam com os outros, dando e recebendo luz, na procura comum da verdade e do sentido.

O equívoco alarga-se e aprofunda-se com o perigo de os "quadros" da Igreja - padres, bispos, papa - poderem viver dentro de um mundo muito artificial: de modo geral, nascem dentro de famílias católicas tradicionais, são formados em ambientes fechados, seguem uma carreira sem riscos, não vivem intensamente o que constitui o grosso das preocupações das pessoas: emprego, filhos, casa...
Leandro Sequeiros

Foi, pois, para mim gratificante a entrevista de Leandro Sequeiros, um jesuíta que acaba de jubilar-se, após quase 50 anos vividos no meio universitário, a José Manuel Vidal. Trabalhou em cinco Universidades, dedicado sobretudo à Paleontologia. Daí, a afirmação: "A vida não se pode explicar a não ser a partir do ponto de vista da evolução."

Nunca deixou de acreditar em Deus. "A minha fé em Deus não é um puro assentimento racional a um credo abstracto. Deus não é uma ideia. Tão-pouco uma divindade difusa no oceano dos confins do cosmos, como defende a New Age. O meu ponto de partida é a adesão e o seguimento de Jesus de Nazaré. A sua relação com o Pai é que me ensinou a saber o que é Deus. Há uma experiência interior que se vai consolidando, encarnando e com que se convive amorosamente. O grande problema de muitos cientistas é que mantêm uma imagem infantil de Deus e essa imagem não se dá bem com a maturação de uma visão científica do mundo. O conflito cognitivo não se resolve e quebra na parte mais débil: a experiência interior. Sem vida interior, não é possível crer. Mas essa vida interior não é intimista, ausente da realidade. A experiência de Deus deve alimentar-se da experiência humana, do contacto com a vida, com a realidade dura, com as mordeduras na própria carne da injustiça de um mundo desigual. O clamor das vítimas sobe até Deus e alimenta a nossa consciência profunda."

Portanto, "ciência, liberdade e justiça não são três mundos incomunicáveis". Pelo contrário, "não se pode ser cristão, sem ser desesperadamente humano". A ciência sem espiritualidade está vazia, dizia Einstein, mas "uma espiritualidade que não brota do contacto com a vida, com as injustiças de inumanidade, não é espiritualidade". Assim, "todo o ser humano deve viver do seu trabalho. Para mim, a Universidade era, entre outras coisas, um posto de trabalho", dependendo de um contrato.

O nível intelectual está em baixa na Igreja? Algo que é fundamental: "Para poder exercer como intelectual, é necessário ter muita liberdade de espírito e muita maturidade. Com arrogância ou com medo, não se pode exercer de intelectual. E correm maus tempos para a liberdade."

Muitos dos seus contactos são pessoas que consideram a Igreja uma instituição longínqua. "Mas creio que da parte da Igreja há um excesso de preocupação com este assunto. A vida é muito mais ampla do que as capelinhas." Como ter afeição por instituições religiosas fechadas em problemas que nada têm a ver com a vida? "A vida humana plena e libertadora é muitas vezes maior e primaveril do que a que se oferece a partir das instituições." Como declarou António Gala, "desejo que, quando morrer, na minha lápide escrevam: 'morreu vivo'".

Convida à autocrítica: "aprendemos a viver num mundo plural e secular?" A verdade é que "sedução evangélica" só se vê em grupos à margem das Igrejas e das religiões. Por isso, "vários movimentos propugnam a convocação de um Vaticano III, e outros, mais ambiciosos, sonham com uma grande Assembleia inter-religiosa, na qual as religiões debatam o seu lugar nesta sociedade complexa". De qualquer modo, "ninguém deve ter privilégios: nem as Igrejas nem os partidos nem os políticos nem as culturas. Numa sociedade igualitária, são os Direitos Humanos que devem ser a norma de conduta".

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Católicos da Flandres tomam a palavra

Depois dos teólogos de língua alemã com o seu manifesto e dos padres austríacos com o apelo à desobediência, surge o manifesto “Os fiéis tomam a palavra” dos católicos belgas da Flandres. Algo está a mudar. Copei daqui. Original aqui. Assinaram até há pouco 6279. Parece pouco, mas diz quem sabe que por lá uma paróquia católica pode ter apenas uma centena de praticantes, mesmo nas zonas populosas. 
Paróquias sem padres, celebrações eucarísticas em horários inapropriados, celebrações da palavra sem comunhão: tem que ser assim? Por que as reformas necessárias da Igreja não são feitas? Nós, fiéis flamengos, pedimos que os nossos bispos encontrem uma saída ao impasse em que estamos. Fazemos isso em solidariedade com os irmãos da Áustria, da Irlanda e de muitos outros países, que também clamam por reformas que são vitais para a Igreja. 
Nós não entendemos por que a liderança das nossas comunidades locais (as paróquias, por exemplo) não é confiada a um homem ou a uma mulher, casado ou não, profissional ou voluntário, que tenha recebido a necessária formação. Precisamos de pastores comprometidos. 
Nós não entendemos por que esses fiéis não podem presidir as celebrações dominicais. Precisamos. em todas as comunidades vivas, de ministros litúrgicos. 
Nós não entendemos por que – onde nenhum padre está à disposição – não é permitida uma celebração da Palavra de Deus com a comunhão. 
Nós não entendemos por que leigos qualificados e animadores de celebrações adequadamente preparados não podem pregar. Precisamos da Palavra de Deus 
Nós não entendemos por que deve ser negada a comunhão a fiéis de boa vontade que, depois de um divórcio, se casaram novamente. Assim como os outros, eles pertencem à comunidade. 
Felizmente, já há lugares onde se age assim. 
Pedimos também que, no menor tempo possível, mulheres e homens casados também sejam admitidos ao presbiterato. Nós, fiéis, precisamos isso desesperadamente.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O perigo de um Vaticano III nos próximos tempos

Alberto Melloni até gostava de ver o Vaticano III, mas receia os resultados

Há dias, um texto no "Corriere della Sera" falava de um III Concílio do Vaticano (aqui). Eu penso que é mais do que necessário. Ou um Jerusalém II. Não chega aprofundar o Vaticano II, quando muitos olham ainda mais para Trento. É irrealista pensar que o Vaticano III acontecerá dentro de uma década, mas as questões do sacerdócio/celibato, mulheres/ordenação, poder/democracia, que são decisivas para o modo de estar da Igreja no mundo, só se resolvem com um concílio.

Alberto Melloni, no diário italiano, lembrava a tomada de posição do Cardeal Martini. Ao seu lado – é a nota portuguesa – surgiu nesse sínodo de 1999 D. António Marcelino, que agora é bispo emérito de Aveiro. Dizia o arcebispo de Milão, diocese que, como afirma o articulista, é o lugar mais importante para se chegar a Papa (por isso, quando há meses foi nomeado para Milão Angelo Scola, que estava em Veneza, muitos disseram: Olhem para ele. Pode suceder a Bento XVI), que havia uma série de questões a discutir. Foi há 12 anos. E ainda estão por discutir.
Os pontos que Martini indicava como agenda de uma futura assembleia de bispos de escala universal – um eufemismo que não queria fazer sombra ao papa, ao qual compete a convocação do Concílio – haviam sido no máximo encostados pelo magistério de Karol Wojtyla: a "carência dos ministros ordenados", a "posição da mulher", a participação "dos leigos em algumas responsabilidades ministeriais", "a sexualidade, a disciplina do matrimónio, a práxis penitencial", a revitalização da "esperança ecuménica".
De então para cá, o que aconteceu?
Certamente, a julgar pela mediocridade do debate teológico destes anos – muitas vezes reduzido a banalidades adulatórias, vícios personalistas e acuradas eliminações dos verdadeiros problemas das Igrejas –, se poderia dizer que o Concílio de uma Igreja, mesmo que vasta como a católica, correria o risco de se empobrecer em traços óbvios. E o sonho de um Concílio "das Igrejas" – que no Conselho Mundial de Igrejas, de Genebra, se esgotou em um precioso trabalho de diplomacia infra-eclesiástica – parece muito longe para quem conhece a quantidade de descortesias que as Igrejas sabem trocar entre si.
Se o Vaticano II, apesar de inesperado, foi o culminar de um trabalho das bases (o movimento patrístico, o movimento bíblico, o movimento litúrgico, o movimento ecuménico e a Acção Católica, para falar dos movimentos mais importantes), só podemos temer pela realização de um Vaticano III nos próximos anos. A ter em consideração o pensamento teológico dominante, que se resume a um Papa que pensa e a uma legião de comentadores do Papa, seria mais um Trento II. Valha-nos o Vaticano II, que foi mais ruptura do que continuidade na linha oficial, embora agora se ouçam vozes a dizer foi mais continuidade. Dizer isso é uma forma de desvalorizar o Vaticano II.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...