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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

“Aos jovens, como podem tirar proveito das letras pagãs”


Quando o bizantino Manuel Crisolora foi para Florença, no ano de 1397, pago pela signoria da cidade para ensinar grego aos florentinos, levou consigo a sua biblioteca.

Sabe-se que incluía obras de Homero e Tucídides, Platão e Plutarco e de mais alguns. Entre os volumes, um teve especial influência no Renascimento que havia de vir: “Aos jovens, como podem tirar proveito das letras pagãs”.

Não é errado pensar que este livro teve uma influência gigantesca no amor pelos clássicos, tão essencial ao Humanismo. O autor? São Basílio, o capadócio, o grande teólogo do Espírito Santo no séc. IV e inventor dos hospitais.

Quem poderia hoje escrever um novo: “Aos jovens, como podem tirar proveito das letras ateias?”

Basílio Magno

domingo, 30 de outubro de 2011

Dez convites para um novo humanismo


Julia Kristeva


“Não são dez mandamentos, mas sim dez convites para pensar pontes entre nós”. Segue-se a parte final do discurso de Julia Kristeva no encontro de Assis. O Papa ouviu-o. Um texto para cristãos, ateus e agnósticos que pensam e olham para o outro lado. Copiei daqui.
1. O humanismo do século XXI não é teomorfismo. O Homem Masculino não existe. Não existem nem "valores" nem "fins" superiores, não há nenhum atracadouro do divino junto aos atos mais altos daqueles homens que, do Renascimento em diante, se chamaram "gênios". Depois do Holocausto e do Gulag, o humanismo tem o dever de lembrar os homens e as mulheres que, se nos consideramos como os únicos legisladores, é somente graças ao contínuo questionamento da nossa situação pessoal, histórica e social que podemos decidir a sociedade e a história.
2. Processo de contínua refundação, o humanismo se desenvolve necessariamente por meio de rupturas que são inovações (o termo bíblico hiddouch significa inauguração-inovação-renovação; enkainosis e anakainosis; novatio e renovatio). Conhecer intimamente a herança greco-judaico-cristã, colocá-la sob rigoroso exame, transvalorar (Nietzsche) a tradição: não há outro meio para combater a ignorância e a censura, e, assim, facilitar a coexistência das memórias culturais que se construíram ao longo da história. 
3. Filho da cultura europeia, o humanismo é o encontro de diferenças culturais favorecidas pela globalização e pela informatização. O humanismo respeita, traduz e reavalia as variantes das necessidades de crer e dos desejos de saber que são patrimônio universal de todas as civilizações. 
4. Humanistas, "nós não somos anjos, mas temos um corpo". Assim se expressava, no século XVI, Santa Teresa de Ávila, inaugurando a idade barroca, que não é uma Contrarreforma, mas sim uma Revolução Barroca que inicia o século das Luzes. Porém, o desejo livre é um desejo de morte. E era preciso esperar a psicanálise para reunir na única e última regulamentação da linguagem essa liberdade dos desejos que o humanismo nem censura nem lisonjeia, mas que se propõe a pôr em evidência, a acompanhar e a sublimar. 
5. O humanismo é um feminismo. A libertação dos desejos necessariamente devia conduzir à emancipação das mulheres. Depois dos filósofos do Iluminismo que abriram o caminho, as mulheres da Revolução Francesa pretenderam essa emancipação comThéroigne de Méricourt, com Olympe de Gouges, e assim por diante com Flora Tristan, com Louise Michel e com Simone de Beauvoir, acompanhadas pelas lutas das sufragistas inglesas. E quero lembrar aqui as mulheres chinesas da Revolução Burguesa de 4 de maio de 1919. As lutas por uma paridade econômica jurídica e política requerem uma nova reflexão sobre a escolha e a responsabilidade da maternidade. A secularização é a única civilização que ainda está isenta de um discurso sobre a maternidade. O vínculo passional entre a mãe e a criança, este primeiro outro, aurora do amor e da hominização – aquele vínculo no qual a continuidade biológica se torna sentido, alteridade e palavra é um confiar, um confiar-se. Diferente da religiosidade assim como da função paterna, a confiança materna completa ambas, participando assim, plenamente, da ética humanista. 
6. Humanistas, é por meio da singularidade compartilhada da experiência interior que podemos combater aquela nova banalidade do mal que é a automatização da espécie humana a que estamos assistindo. A partir do momento que somos seres falantes e escritores, já que desenhamos, e pintamos, e tocamos, e jogamos, e calculamos, e imaginamos, e pensamos: justamente por isso não somos condenados a nos tornar "elementos de linguagem" na hiperconexão acelerada. O infinito das capacidades de representação é o nosso habitat, a nossa dimensão profunda e libertadora, a nossa liberdade. 
7. Mas a Babel das línguas também gera caos e desordens que o humanismo jamais conseguirá regular com a simples escuta, embora atenta, prestada às línguas dos outros. Chegou o momento de retomar os códigos morais do passado: sem enfraquecê-los com a pretensão de problematizá-los, e renovando-os a despeito das novas singularidades. Longe de serem puros arcaísmos, as proibições e as limitações são obstáculos que não podem ser ignorados, se não se quer suprimir a memória que é o pacto dos humanos entre si e com o planeta, com os planetas. A história não pertence ao passado: a Bíblia, os Evangelhos, o Alcorão, o Rigveda, o Tao habitam o nosso presente. É utópico criar novos mitos coletivos, e não é suficiente nem mesmo interpretar os antigos. Cabe-nos reescrevê-los, repensá-los, revivê-los: dentro das linguagens da modernidade. 
8. Não existe mais um Universo. A pesquisa científica descobre e investiga continuamente o Multiverso. Multiplicidade de culturas, de religiões, de gostos e de criações. Multiplicidade de espaços cósmicos, de matérias e de energias que coabitam com o vácuo, que se compõem com o vácuo. Não tenhais medo de serdes mortais. Capaz de pensar o multiverso, o humanismo é chamado a se confrontar com uma tarefa epocal: inscrever a mortalidades nos multiversos da vida e do cosmos. 
9. Quem poderá fazer isso? O humanismo, porque ele sabe como cuidar disso. Poder-se-á dizer que o cuidado amoroso do outro, o cuidado ecológico da Terra, a educação dos jovens, a assistência aos doentes, aos deficientes, aos idosos, aos fracos não detém nem a corrida das ciências nem a explosão do dinheiro virtual. O humanismo não será um regulador do liberalismo: ao contrário, será capaz de transformá-lo, sem inversões apocalípticas ou promessas de futuros gloriosos. Tomando-se o seu tempo, criando uma nova vizinhança e solidariedades elementares, o humanismo acompanhará a revolução antropológica que é anunciada tanto pela biologia que emancipa as mulheres, quanto pelo deixar-fazer da técnica e das finanças, e pela impotência do modelo democrático-piramidal, que não consegue canalizar as inovações. 
10. O homem não faz a história, mas a história somos nós. Pela primeira vez, o Homo sapiens é capaz de destruir a terra e a si mesmo em nome das suas religiões, crenças ou ideologias. E, pela primeira vez, os homens e as mulheres são capazes de reavaliar em total transparência a religiosidade constitutiva do ser humano. O encontro das nossas diversidades, aqui em Assis, testemunha que a hipótese da destruição não é a única possível. Ninguém sabe quais seres humanos sucederão a nós, que estamos comprometidos nessa transvaloração antropológica e cósmica sem precedentes. A refundação do humanismo não é nem um dogma providencial, nem um jogo do espírito: é uma aposta. 
A era da suspeita não é mais suficiente. Diante das crises e das ameaças cada vez mais graves, chegou a era da aposta. Devemos ter a coragem de apostar na renovação contínua das capacidades dos homens e das mulheres de crer e de saber juntos. Para que, no multiverso cercado de vácuo, a humanidade possa perseguir longamente o seu destino criativo.

terça-feira, 12 de julho de 2011

12 de Julho de 1536. Morre Erasmo de Roterdão


Erasmo Desidério nasceu na cidade holandesa de Roterdão, no dia 27 de Outubro de 1466, e morreu na cidade suíça de Basileia, no dia 12 de Julho de 1536.

Personagem admirável do Renascimento, dele se diz que “pôs o ovo que Lutero chocou”, como se fosse o inspirador da Reforma Protestante. Na realidade, para desilusão de Lutero, Erasmo nunca aderiu à Reforma e, à distância dos séculos, até se diz que se a Igreja Católica lhe tivesse dado ouvidos a tempo, talvez a Reforma nunca tivesse acontecido.

Erasmo não aderiu à Reforma Protestante mas também manteve uma posição dúbia em relação ao catolicismo. O Papa Paulo III quis dar a Eramos o cardinalato, em 1535, a poucos meses da morte do humanista, mas este alegou condições de saúde para recusar. E após a sua morte, rapidamente os seus livros foram colocados no Index.

Além de “Elogio de Loucura”, dedicado a Tomás Moro (ver aqui), Erasmo traduziu do grego e do latim e comentou escritos de Aristóteles, Cícero, Agostinho, Basílio, Crisóstomo, entre muitos outros.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"Cristo é um refugiado que se afoga no Mediterrâneo"



Em Portugal quase não se falou do assunto. Ou pelo menos não teve grande eco nas consciências. É a lei da proximidade. Longe não incomoda. Em Itália, falou-se, mas a persistência das tragédias cria insensibilidade. O escritor Claudio Magris retomou o assunto, provocando o debate:
Em alguns jornais, 200 mortos ou desaparecidos no mar como os de anteontem, em uma fuga do desespero, não acabam nem mais mais na primeira página; deslizam para as seguintes, entre as notícias certamente relevantes, mas não clamorosas. Para catástrofes semelhantes, poucos anos atrás, até um primeiro-ministro se comovia ou pelo menos sentia o dever de se comover publicamente. 
As tragédias de hoje dos refugiados em busca de salvação ou de uma sobrevivência menos miserável que perecem, muitas vezes anônimos e desconhecidos, no mar não são menos dolorosas, mas não são mais uma exceção, embora frequente, mas sim uma regra. 
Tornam-se, portanto, uma crônica costumeira, da qual já estamos calejados, que quase já se espera antes de abrir o jornal e que, portanto, não escandaliza e não perturba mais, não provoca mais emoções coletivas. Essa habituação que leva à indiferença certamente é inquietante e aumenta a distância intransponível entre quem sofre ou morre, naquele momento sempre sozinho, como os fugitivos engolidos pelos redemoinhos, e os outros, todos ou quase todos os outros, que, para continuar vivendo, não podem ser muito absorvidos por aqueles remoinhos que arrastaram fundo. 
É justo mas também é fácil nos acusarmos dessa insensibilidade, que se refere também a mim mesmo enquanto estou escrevendo estas linhas e todos ou quase todos que eventualmente as lerão. Ao contrário de outros casos, em que a indiferença ou a lívida hostilidade se reforçam contra o estrangeiro, o miserável, contra quem é etnicamente ou socialmente diferente, nessa circunstância a nossa insensibilidade não nasce da proveniência e da identidade a nós hostil daqueles afogados. Nasce da repetição desses dramas e do inevitável costume que deles deriva. 
Mesmo que, por circunstâncias adversas, todos os dias os jornais tivessem que reportar notícia de soldados italianos mortos no Afeganistão, a reação, depois de um certo tempo, se tingiria de um hábito cansado. Mesmo crimes atrozes da máfia são, pouco a pouco, vividos como um hábito. 
Não podemos sobreviver emocionando-nos com todas as desventuras que atingem os nossos irmãos no mundo; mesmo a comoção por qualquer delito particularmente macabro, por exemplo o brutal assassinato de uma criança, depois de um certo tempo, horrivelmente se aplaca; a notícia foi absorvida, não agita mais a ordem do mundo nem o coração. 
A habituação – às drogas, à guerra, à violência – é a rainha do mundo. "É preciso, no entanto, viver – diz-se  em um romance de Bernanos – e esta é a coisa mais horrível". Talvez uma das maiores misérias da condição humana consiste no fato de que até o cúmulo de dores e desgraças, além de um certo limiar, não incomoda mais. Se eu anuncio a morte de um parente, encontro uma compreensão contrita, mas se logo depois anuncio uma outro e depois outra corro o risco até do ridículo. 
Justamente por isso – porque, diferentemente de Cristo, não podemos verdadeiramente sofrer por todos, assim como não nos entristece a leitura dos obituários nos jornais –, não podemos confiar-nos apenas ao sentimento parar sermos próximos dos outros. O nosso sentimento, compreensivelmente, nos faz chorar por um amigo que amamos e não por um desconhecido, mas devemos saber – não abstratamente, mas realmente, com a compreensão de toda a nossa pessoa – que homens por nós nunca vistos e não concretamente amados também são reais. 
Aqui reside a diferença entre o pensamento reacionário e a democracia. O reacionário facilmente zomba da humanidade abstrata e do abstrato amor ideológico pelo gênero humano, porque sabe amar o seu próprio colega de escola, mas não sabe verdadeiramente entender que os colegas de pessoas de pessoas a ele desconhecidas também são reais; não abstrações, mas carne e sangue. 
A democracia – ridicularizada como fria e ideológica –, ao contrário, é concretamente poética, porque sabe se colocar na pele dos outros, como Tolstoi na de Anna Karenina, e, portanto, também na dos náufragos no fundo do mar.
A propósito, o teólogo leigo Christian Albini lembra palavras de Thomas Merton e sublinha o desconforto que deve provocar nos cristãos, nos que ainda são sensíveis, a morte de africanos no Mediterrâneo.
 "De que serve organizar cursos de doutrina do Corpo Místico e de sagrada liturgia, se não se tem nenhum interesse pelo sofrimento, pela miséria, pela doença e pela morte prematura de milhões de membros potenciais em Cristo?" (Thomas Merton, Vita e Santità, Ed. Lindau, p. 100). 
É a diferença entre a religião da forma, das palavras, do conformismo e a fé que nasce da escuta de uma Palavra que converte a minha vida, que rompe a casca da minha autossuficiência e me faz reconhecer que não sou nada sem o outro que me ama e que eu amo. 
Quando escrevi há alguns dias que a tarefa dos cristãos na política é elaborar uma gramática do bem comum, queria dizer um retorno ao humano, ao reconhecimento da humanidade de todo o tipo e à sua proteção, sem fechamentos e particularismos tribais. 
(…) Para nós, italianos, Cristo é um refugiado que se afoga no Mediterrâneo. É essa convergência no amor que pode se tornar uma verdadeira lei universal. 
Dito novamente com a sabedoria rabínica: "Como tu podes dizer que me amas se não sabes o que pode me ferir?". É a partir do sofrimento pelas feridas dos outros que começa o caminho do amor.
Texto de Claudio Magris aqui.
Texto de Christian Albini aqui.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Livro italiano para fazer bom uso do ateísmo

Saiu na quinta-feira, em Itália o livro “Senza Dio. Del buon uso dell’ateismo” (“Sem Deus. Sobre o bom uso do ateísmo”), de Giulio Giorello, que parece uma obra saudavelmente provocadora, ralvez ao estilo de “Being good without God”, de Greg Esptein, mas mais continental, ou seja, com mais História e Filosofia.

O "Corriere della Sera" (reflectido aqui) diz que “Senza Dio” não é um livro de ateísmo baixo ou vulgar, “daquele género que crê libertar-se do problema com fórmulas ou frases”, mas que procura um caminho, uma opção de vida, a de não ter nenhuma autoridade acima de si. Outro aspecto do ateísmo aqui afirmado consiste não em se livrar de Deus, mas daqueles que falam frequentemente muito à toa em seu nome, e que dão força aos argumentos do ateísmo vulgar.

O autor considera-se um “ateu protestante”. No entanto, não quer demonstrar a ausência do Ser Absoluto, mas antes definir uma existência sem ele, mas com arte, ciência, liberdade. Um ateísmo não dogmático que serve também para crentes cansados de fundamentalismos.

O cardeal Martini, no mesmo “Corriere della Sera”, escreve que não compartilha de todos os pontos de vista do autor (o cardeal havia-o convidado para a cátedra dos não-crentes quando era arcebispo de Milão) mas que o livro pode ser útil para entender a mentalidade de um ateu. Diz ainda que é uma escrita emotiva, alicerçada em exemplos da história. E a história da Igreja tem tantos. Maus (que o autor aponta, desta e doutras religiões) e bons (que deveriam ser considerados). Critica, também, que a recusa de Deus se faça em nome do mal do mundo.

sábado, 15 de maio de 2010

O luxo de prescindir de Deus

Anselmo Borges escreve no DN de hoje, apoiando-se nas palavras do teólogo galego Torres Queiruga, que “a exigência moral não nasce de facto de se ser crente ou ateu, mas «da condição simplesmente humana de querer ser pessoa autêntica e cabal»”. Se assim é, impõe-se a consequência: “Se se pensar a sério e desde que ambos queiram ser honestos, «não existe nada que a nível moral deva fazer um crente e não um ateu» (o seu desacordo em muitas opções será, em rigor de termos, por motivos morais e não propriamente religiosos)”.

É curioso o inciso “desde que ambos queiram ser honestos”. Qual deles poder ser mais honesto, o crente ou o ateu? Ser crente ou ateu tem alguma coisa a ver com honestidade? Crer em Deus influência a honestidade? Na linha do raciocínio do texto, crer em Deus não terá nada a ver com a honestidade, como não tem a ver com a moralidade.

Porém, no final, Anselmo Borges cita Max Horkheimer, entrando em contradição com o pensamento anteriormente exposto: “É inútil pretender salvar um sentido incondicional sem Deus. A morte de Deus é também a morte da verdade eterna”. “Do ponto de vista do positivismo, não é possível desenvolver uma política moral. A partir da perspectiva meramente científica, o ódio não é pior do que o amor. Não há nenhum raciocínio logicamente concludente para que eu não deva odiar, se isso me não trouxer nenhuma desvantagem social. Como pode argumentar-se com rigor que eu não devo odiar, se isso me divertir? O positivismo não encontra nenhuma instância transcendente aos homens que distinga entre o altruísmo e o afã de lucro, entre bondade e crueldade, entre egoísmo e autodoação. Todos os intentos de fundamentar a moral na prudência terrena em vez de na referência a um além... apoiam-se em ilusões harmonizadoras. Tudo o que tem a ver com moral assenta em última instância na teologia”. É certo que Horkheimer fala de positivismo. Mas, na realidade, o positivismo está no mesmo ponto que muitas outras correntes não teístas. Exceptuando as correntes cristãs (tomismo, personalismo, humanismo cristão…), hoje claramente na mó de baixo nas faculdades europeias, que correntes pressupõem Deus? Deus não existe nas faculdades de Filosofia. E em Portugal a Teologia é toda confessional. Há uns cursos de Ciências das Religiões. Mas não de Teologia.

Com estas ausências, o serviço à moral, à política, ao sentido fica claramente coxo. Deus é preciso. Podem defender que não. Mas sem Deus, tudo se desmorona. É uma questão de tempo.

Há dias (07 de Maio de 2010), José Manuel Fernandes escrevia no “Público”: “Pouco tempo antes da morte de João Paulo II, numa conferência na Escola de Cultura Católica de Santa Croce, em Bassano, o ainda cardeal Ratzinger propôs a inversão do axioma dos iluministas de acordo com o qual era possível definir as normas morais essenciais etsi Deus non daretur, como se Deus não existisse, para passar a propor que «mesmo aqueles que não conseguem encontrar o caminho da aceitação de Deus deveriam procurar viver e orientar a sua vida veluti si Deus daretus, como se Deus existisse». Lembrou então que esse fora o conselho de Pascal aos seus amigos não-crentes, considerando que, assim, "ninguém fica limitado na sua liberdade, mas todas as nossas coisas encontram o apoio e o critério de que têm urgente necessidade".

Para o bem da moral, do sentido, da política, enfim, da vida da humanidade, não chega um humanismo sem Deus. O horror ao vácuo nunca foi tão verdadeiro. Deus tem de estar lá. A alternativa não é sermos mais homens e mulheres, como diziam os velhos ateísmos. A alternativa é não sermos nada, depois de sermos menos do que os animais. O luxo de prescindir de Deus é uma tragédia.

Max Horkheimer

quarta-feira, 28 de abril de 2010

28 de Abril de 1973. Morre Jacques Maritain

Jacques Maritain nasceu no seio de uma família protestante, em 18 de Novembro de1882 e cresceu num ambiente republicano, liberal e anticatólico. Converteu-se ao catolicismo em 1906. Teve como padrinho de baptismo Léon Bloy (1846 – 1917), poeta e polemista católico. Morreu no dia 28 de Abril de 1973.

Maritain é um dos renovadores do tomismo no século XX. Defensor do “humanismo integral” (Humanisme integral” é uma obra de 1936), que inclui a dimensão espiritual – contra os humanismos seculares, inevitavelmente anti-humanos –, o seu pensamento está na origem da Democracia Cristã.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Há dias falava-se aqui de Pico della Mirandola...


Uma história de Giovanni Pico della Mirandola (outros elementos aqui e aqui):


Toda a gente em Itália admirava Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494) como sendo um grande sábio quando contava apenas dez anos de idade. Uma personagem que foi de visita a sua casa, permitiu-se comentar que as crianças precoces costumam enlouquecer quando crescem. O pequeno grande sábio exclamou: “Ah, como devia ser inteligente o monsenhor quando era criança!”


Retirada de "Pinceladas de bom-humor", de Alfonso Francia, nas ed. Paulus

sábado, 30 de janeiro de 2010

Anselmo Borges: "A humanidade sob ameaça"

Anselmo Borges escreve sobre quatro ameaças (revoluções: a económica, a cibernética, a genética e a ecológica) e deixa um dado, pontual mas significativo, lá mais para o fim do texto, sobre a evolução da percepção do valor da vida humana pelos estudantes universitários. Mais uma vez, fica a ideia de que sem Deus o humanismo não vai longe. Fonte: DN.


Não há dúvida de que estamos a viver uma transformação prodigiosa do mundo, uma revolução talvez só parecida com a do "tempo-eixo", como lhe chamou Karl Jaspers.

Há quatro revoluções em marcha. Uma revolução económica, com a mundialização, que significa a concretização da ideia de McLuhan de que formamos uma "pequena aldeia" e a chegada ao palco da História de grandes países emergentes. Outra é a revolução cibernética, que, como disse Jean-Claude Guillebaud, faz nascer um quase-planeta, um "sexto continente". A revolução genética transforma a nossa relação com a vida, a procriação e pode fazer bifurcar a Humanidade: a actual continuaria ao lado de outra a criar. Também está aí a urgência da revolução ecológica, que, se a Humanidade quiser ter futuro, obriga a uma nova relação com a natureza. Sem esquecer o perigo atómico e do terrorismo global.

Perante todas estas revoluções e face aos problemas que agora são globais, como a droga ou o trabalho, impõe-se, em primeiro lugar, pensar numa governança mundial. Depois, não sei de que modo o futuro será, como diz J.-Cl. Guillebaud, uma "modernidade mestiça", mas, para evitar o "choque das civilizações", impõe-se o diálogo intercultural e inter-religioso. Há anos que o famoso teólogo Hans Küng se não cansa de repetir que, sem paz entre as religiões, não haverá paz entre as nações, e essa paz supõe o conhecimento e o diálogo entre as religiões.

Coube também a Hans Küng o desafio para preparar o projecto do que em 1993 se tornou a "Declaração para uma ética mundial", aprovada pelo Parlamento das Religiões Mundiais, em Chicago. A Declaração é um documento humanista, que proclama programaticamente: "Frente a toda a inumanidade, as nossas convicções religiosas e éticas exigem que cada ser humano deve ser tratado humanamente. Isto significa que cada ser humano - sem distinção de idade, sexo, raça, cor da pele, capacidades físicas ou espirituais, língua ou religião, consideração política, origem nacional ou social - possui uma dignidade inalienável e inviolável. Todos - tanto o indivíduo como o Estado - têm de respeitar esta dignidade e garantir a sua defesa efectiva". Os direitos e os deveres humanos é aqui que assentam.

Este princípio fundamental de humanidade determina-se mais proximamente pela regra de ouro - o princípio da reciprocidade --, que constitui o segundo princípio de uma ética comum à Humanidade: "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti" ou, formulado positivamente: "Faz aos outros o que queres que te façam a ti."

Mas onde se fundamentam a dignidade e os direitos humanos? Questão gigantesca, que tem a ver com a problemática do pré-jurídico e do pré-político, debatida há anos, num diálogo célebre entre o então cardeal J. Ratzinger e o filósofo J. Habermas, e a que se referiu também, pouco antes de morrer, L. Kolakovski: "Sem tradições religiosas, que razão haveria para respeitar os direitos humanos? Vendo as coisas cientificamente, o que é a dignidade humana? Superstição? Do ponto de vista empírico, os homens são desiguais. Como justificar a igualdade? Os direitos humanos são uma ideia a-científica."

Numa universidade portuguesa, o professor de Ética confronta há anos os estudantes com um experimento mental: "Suponhamos que um país vai invadir outro - nessa hipótese, vai haver, evidentemente, muitos mortos. Mas o país invasor suspende a invasão, se o Governo do país a ser invadido estiver na disposição de matar um inocente." Há quatro anos, todos os estudantes se revoltaram contra a perspectiva da morte do inocente. Há dois anos, já dois estudantes se pronunciaram a favor. No ano lectivo em curso, em 16 estudantes, só uma jovem se opôs ao assassinato do inocente. Os outros foram argumentando que, aceitando a invasão, muitos morreriam, eventualmente também o inocente. Portanto...

A conclusão é que o próprio Homem se tornou objecto de cálculo, coisa negociável. Assim, já não pode haver dúvidas: no meio das gigantescas crises mundiais, o núcleo mesmo da crise no nosso tempo é a crise de valores, a crise moral.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Harvard tem uma capelania para os ateus

Greg Epstein

A Universidade de Harvard, nos EUA, tem 40 capelães, representantes de 25 “tradições mundiais”. Há o capelão católico, o baptista, vários judeus, o adventista e até o do zoroastrismo, entre muitos outros. Mas há também o capelão humanista. Mais concretamente, Greg Esptein, autor do livro “Being good without God”, que explica que humanismo é acreditar na vida cheia de significado, apenas graças à força da razão e da compaixão, sem uma ajuda sobrenatural. E quando lhe perguntam se os humanistas rezam, ele responde que os humanistas cantam. Há textos ligados à capelania humanista que defendem que devem ter rituais, o que não deixa de ser curioso.

A capelania dos humanistas acolhe “humanistas, ateus, agnósticos e não-religiosos”, diz o capelão. Greg Epstein, uma estrela entre os humanistas, estudou na… Harvard Divinity School. Refere-se várias vezes à compaixão humanista.

Até onde pode ir uma compaixão alicerçada neste humanismo que exclui Deus? Bento XVI diz que não vai longe.

Ah, a página Internet dos Humanistas é muito mais bonita e funcional do que a dos Católicos, que logo na abertura pedem dinheiro. Os humanistas têm como símbolo uma chama. Se eu não soubesse, pensava que eram carismáticos católicos ou então pentecostais.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Secularistas, humanistas e católicos



Um revista humanista inglesa, ou seja, anti-religiosa, resolveu presentear os seus assinantes com um conjunto de cartas sobre os sistemas religiosos.

Insiro aqui duas dessas cartas. As outras podem ser vistas online, aqui. Os secularistas/humanistas são os menos maus. Piores do que os católicos, só os muçulmanos.

As religiões saem muito mal vistas. Mas a leitura dos cartões acaba por ser instrutiva se for feita com um olhar tolerante. "O que dizem eles de nós?"

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Humanismo sem Deus é desumanismo

Na encíclica sobre o desenvolvimento “Caritas in veritate”, Bento XVI diz que “o ser humano não é capaz de gerir sozinho o próprio progresso, porque não pode por si mesmo fundar um verdadeiro humanismo”.

Entende o Papa que o verdadeiro humanismo funda-se, afinal, em Deus, no Absoluto, que, segundo a revelação cristã, encarnou na humanidade em Jesus Cristo. Porque Jesus Cristo é homem, o cristianismo é um humanismo – podemos resumir assim a questão.

“A maior força do desenvolvimento é um humanismo cristão que reavive a caridade e que se deixe guiar pela verdade, acolhendo uma e outra coo dom permanente de Deus”, diz Bento XVI (CV, 78).

Curiosamente, a Europa a os EUA entendem “humanismo” e “humanista” de forma diferente, pelo menos na cultura popular. Nos EUA os “humanistas” são ateus. Se incluírem Deus nas suas visões, deixam de ser humanistas. Na Europa, não se entende um cristão sem ser humanista. Daí que haja humanismo ateu e humanismo cristão.

Mas não são a mesma coisa, pelo que Bento XVI afirma: “O humanismo que exclui Deus é um humanismo desumano”.

Um “humanismo desumano” é um oximoro. Mas sabemos bem que depois da morte (filosófica e cultural) de Deus veio a morte (filosófica e cultural) do ser humano. O humanismo sem Deus é desumanismo.

Na questão do desenvolvimento, Bento XVI acrescenta: “O fechamento ideológico a Deus e o ateísmo da indiferença, que esquecem o Criador e correm o risco de esquecer também os valores humanos, contam-se hoje entre os maiores obstáculos ao desenvolvimento”.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...