Um defensor da DTDD (doutrina tradicional do diabo e dos demónios) coloca três questões que entendo responder para todos os que passam por este lados, em vez de me limitar a uma resposta nos comentários.
As perguntas são:
a) o Diabo existe?
b) o Diabo pode exercer efeitos negativos sobre o ser
humano, até ao cúmulo da possessão?
c) a Igreja tem poder para o evitar ou remediar?
a) o Diabo existe?
Sinceramente, creio que não existe. Há motivos para o sim e
para o não. Julgo que há mais e mais fortes para o não (dados bíblicos, dados da história, da psicologia, da antropologia cultural e da teologia), entendendo "existir" no
sentido mais comum que esta palavra tem. Existe como símbolo do mal, como personificação simbólica. Não existe
como ser pessoal, como “anjo caído”. De qualquer forma, o tema é secundário na
fé cristã-católica. A Congregação para a Doutrina da Fé afirma o seguinte e
julgo que não deixa grande espaço para dúvidas sobre a pouca pertinência da
questão: “É verdade que ao
longo dos séculos a existência de Satanás e dos demónios nunca foi objeto de
uma afirmação explícita do seu magistério”.
O mal existe? Sem dúvida. Mas não vejo porque tem de existir
o diabo para explicar a questão do mal. Só complica. E soa a desculpa irresponsável.
b) o Diabo pode exercer efeitos negativos sobre o ser
humano, até ao cúmulo da possessão?
Mesmo que exista, sendo sobrenatural, não possui ninguém.
Não há casos de chamadas possessões que não sejam explicados por outras razões
(culturais, médicas, psicológicas, histeria, sugestões, superstições,
obsessões, síndromas, alucinações, paranoia, etc. etc. e, claro, embustes). Diz o velho princípio que não devemos invocar razões mais complicadas quando os fenómenos são explicáveis por razões mais simples.
Quem diz que há possessões, apresente-as. O apelo tem sido
infrutífero. A resposta de alguns que nos comentários têm defendido a teologia
tradicional do diabo, incluindo as possessões, é zero. Mesmo os casos históricos
clássicos (Ursulinas de Loudun, por exemplo) e aparentemente misteriosos por o
possuído falar corretamente línguas desconhecidas são hoje explicados sem
qualquer recurso ao sobrenatural.
O mal tem efeitos negativos sobre o ser humano? Claro. Mas
essa é outra questão.
c) a Igreja tem poder para o evitar ou remediar?
Reformulo: a Igreja tem poder para o evitar ou remediar o
mal?
A igreja, na sua própria identidade, na sua génese e finalidade, é sacramental, sinal de
salvação. E salvação é, claro, contra o mal, todo o mal. Tem sacramentos dados
por Cristo, e, como uma espécie de apêndice - alguns dizem que são uma espécie de
placebos espirituais - tem bênçãos e exorcismos, porque a história pesa e por
razões de eficácia pastoral. No seu cuidado pastoral para com as pessoas que pensam
que estão sob influência do demónio, os exorcismos têm efeito positivo, ainda
que muito relativo. Por outro lado, alguns teólogos vêm os exorcismos como um
prolongamento da reconciliação (com o próprio; com ou outros e a igreja; com
Deus). Têm a ver com o mal, sim, que antes era concebido em íntima ligação ao diabo.
Os relatos de possessões disponíveis, de pessoas sérias, são
geralmente relatos dos exorcistas, obviamente interessados, e, em si, os
relatos, são pouco sérios. Não se encontram relatos isentos. Ou pelo menos eu
não consigo ter acesso a eles (de observadores críticos, por exemplo). Em
muitos casos – estou a pensar em relatos de P.e Amorth – os exorcistas passam
dezenas de sessões a convencer os pacientes (chamemos-lhes assim) de que têm o
demónio (embora não reconheçam que fazem isso) para depois expulsá-lo. Mais do
que possessões, há obsessões das pessoas que vão aos exorcistas e dos próprios
exorcistas. Não está em causa a santidade ou não dos exorcistas nem o efeito
benéfico dos seus gestos. Está, sim, a verdade do que fazem.
Por outro lado, os exorcismos são algo tão reservado, com
tantas reticências, com licenças superiores e tão historicamente
contextualizados (parece que a tipologia das chamadas possessões muda consoante
muda a história humana; e felizmente o fogo já deixou de ser um procedimento comum
para lidar com pessoas que lidavam com o diabo) que podemos dizer estão em
regressão. Mas parece que ao longo da história há fases de maior e menor atividade demoníaca, correlacionáveis com determinados ambientes culturais, o que é estranho. Digamos que o demónio é muito tentado pela mente humana.
Contudo, não me admirarei se a Igreja um dia destes reformular ou suprimir o
ritual, não devendo deixar de atender com amor as pessoas que se dizem tentadas
ou possuídas pelo demónio. Geralmente não são pessoas más. São pessoas frágeis,
muito mais mulheres do que homens. E precisam de cura para essa fragilidade.
É basicamente isto que eu penso, mas não é só isto. Ah, a fotografia do diabo: