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domingo, 23 de março de 2014

Anselmo Borges e a morte de José Policarpo: "Ouvir o silêncio que fala"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem:

1. E pus-me a caminho de Lisboa. Com a única finalidade de prestar uma última homenagem ao colega e amigo José Policarpo, cardeal-patriarca emérito. Fomos colegas na Universidade Gregoriana, em Roma, e ficámos amigos e, quando um amigo se nos vai embora, precisamos de uma despedida.

Jazia dentro da urna fechada, no chão da sé catedral. Desde a sua morte que as palavras nunca mais pararam. E falou-se, falou-se, falou-se. E imagens e mais imagens sobre outras imagens. E talvez poucos se tenham ocupado com estar calados. Talvez precisemos tanto de falar porque temos medo do silêncio da morte. Os mortos não falam. Está ali, imenso, o silêncio que fala, a dizer o essencial. Mas quantos estão preparados para, num tempo de rebuliço, ouvir o silêncio?

Repetiu-se, e bem, que José Policarpo foi um intelectual, um homem de cultura, de inteligência superior. Por isso, várias vezes conversámos sobre o que agora ali estava: a morte e o seu impensável, que nos obrigam a pensar. Hoje, o pensamento é débil e banal, à tona das coisas, e porquê? A nossa é a primeira sociedade na história que teve de fazer da morte tabu. No entanto, é ela que põe a pensar até ao fundo, à ultimidade. A crise do nosso tempo, que é, antes de mais, uma crise de cultura, é a crise da morte e do seu tabu. Afinal, é o pensamento sadio da morte que nos coloca perante a distinção real do justo e do injusto, do que verdadeiramente vale e do que não vale. E até percebemos, bem lá no fundo, que somos mortais, logo, somos irmãos.

2. Desde cedo José Policarpo entendeu que a Igreja precisa de renovar-se, na linha do Concílio Vaticano II. Estar atenta aos "sinais dos tempos", tema da tese de doutoramento. E dialogar com todos, nomeadamente no mundo da cultura, dando razões da fé. E ser próximo daqueles e daquelas que estão nas margens, nas periferias existenciais, sociais e geográficas, como diz agora o Papa Francisco. Não ignorou os pobres e injustiçados. Permaneceu distante dos poderes, para poder manter a liberdade crítica da denúncia das injustiças e do anúncio de caminhos pelo pensar e a solidariedade.

Homem de convicções, afirmou-as sem medo. Por outro lado, teve o saber e a sabedoria de não criar rupturas, concretamente quando se tratou de questões ditas fracturantes, como o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo. Afinal, a Igreja tem o direito e o dever de anunciar claramente a sua doutrina, mas José Policarpo sabia também que vivemos numa sociedade democrática e pluralista e as leis são votadas no Parlamento.

3. Um homem afável, embora haja quem diga que ficou um pouco amargo nos últimos tempos. Também terá tido as suas tristezas: por exemplo, nem sempre ter sido compreendido, ver o País a afundar-se. Amigo do seu amigo, gostava da família e apreciava as coisas boas da vida. Bem--disposto, contava estórias, tinha um humor fino. Movia-se à vontade dentro da Igreja e na sociedade. Honrou a Igreja e o País, tanto dentro como além-fronteiras. Fiel ao espírito conciliar, olhava para o futuro e deve ter tido grande alegria com a renovação que via através do Papa Francisco.

Falhas? Quem as não tem? A tentativa de ir por diante com uma televisão da Igreja foi um erro e, lamentavelmente, nunca pediu desculpa a pessoas modestas que meteram lá dinheiro, pensando que era para bem da Igreja e do Evangelho. Como teólogo, argumentou que não há razões teológicas que impeçam a ordenação das mulheres, mas, depois, chamado ao Vaticano, voltou atrás, autocensurando-se. Foi pena que, reitor e magno chanceler da Universidade Católica, não tenha conseguido fazer com que a orientação nos domínios da economia e da gestão se aproxime mais da doutrina social da Igreja.

4. Dizia o filósofo Ernst Bloch, o ateu religioso, que os mortos apenas levam consigo as boas obras e a música. As falhas também, digo eu.

José Policarpo partiu e, como todos, não deixou endereço. Mas ele acreditava, e eu também, que não morremos para o nada, mas para o mistério da vida plena de Deus, o Deus que é amor e misericórdia.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Bento Domingues: "Código genético (1)"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem:


1. Fui interpelado acerca do texto do Domingo passado com duas perguntas pouco inocentes: haverá um baptismo para homens e outro para mulheres e será possível abordar o baptismo cristão sem falar da democracia na Igreja?

As tentativas de “resposta” só podem ser de ordem histórica e teológica. Na Idade Média, perante a floresta de símbolos que povoavam o imaginário sagrado do culto, das devoções e superstições, foram recortadas sete celebrações fundamentais, os sete sacramentos. No registo do pensamento analógico, são entendidos como irradiações da Páscoa de Cristo, nas etapas mais típicas e estruturantes da vida sacramental da Igreja. O baptismo é a porta de entrada, personalizada e comunitária, num processo vital da graça transfiguradora da existência humana no seu devir espiritual, do nascimento à morte, na esperança da ressurreição. A omnipresença da graça não suprime a liberdade humana nem o mistério da iniquidade actuante na nossa história.

No código genético cristão, não se conhece um baptismo para homens e outro para mulheres. Sendo assim, elas perguntam: qual é a deficiência natural ou sobrenatural de que sofremos para não podermos ser chamadas a receber o sacramento da ordem integrado pelo diaconado, presbiterado e episcopado?

Referem-se a uma situação de facto na Igreja católica romana e nas Igrejas ortodoxas. Para muitas teólogas e teólogos católicos trata-se de uma anomalia antiga que já vai sendo tempo de superar. Não existe nenhuma maldição de Cristo a dizer que as mulheres ficavam para sempre excluídas da possibilidade de serem chamadas aos ditos “ministérios ordenados”. As Igrejas protestantes, que assinaram o acordo baptismal com a Igreja católica romana e ortodoxa, estão a seguir um caminho diferente.

2. Pode-se falar do Baptismo, sem abordar a questão da democracia na Igreja? Era a segunda pergunta. A democracia não é uma invenção moderna. Amartya Sen (1933 -), considerado o mais humanista dos economistas, presta homenagem à Grécia que, no séc. VI (a. C.), adoptou um sistema eleitoral e cultivou o debate público. Os gregos, aliás, gostavam muito mais do diálogo com os persas, os indianos e os egípcios do que com os godos e visigodos. Alexandre Magno passou mais de um ano na Índia e os intelectuais da época estavam fascinados pelo Oriente que recebeu da Grécia o sistema eleitoral antes da França, da Alemanha ou da Grã-Bretanha. Seis séculos antes da Magna Carta inglesa, o Japão estava dotado de uma Constituição que impunha ao imperador consultas antes de decidir. A Índia vive uma antiga tradição de debate público, onde tudo poderia ser discutido.

A democracia, tal como a conhecemos hoje, é o produto da modernidade, do século das Luzes, sendo a sua história e a sua geografia muito mais vastas e antigas. Sem uma persistente educação para a cidadania e para a tornar uma atitude, uma tarefa permanente, uma forma de vida pessoal nas suas múltiplas relações, acaba por se esvaziar e ficar resumida a alguns momentos rituais que até eles tendem a desaparecer.

Recordo isto para dizer o seguinte: Desde o Vaticano II, os documentos da doutrina social da hierarquia católica, são abundantes e insistentes na defesa da democracia política, económica, social e cultural. O que diz respeito a todos deve ser tarefa de todos, para benefício de todos, segundo as capacidades de cada um. Para serem democráticas, as instituições não devem sufocar, antes estimular, a criatividade social, em todas as suas manifestações. Não podem contribuir para uma sociedade de privilégios, de monopólios, de opressão dos mais fracos pelos mais fortes. Os conflitos são inevitáveis. A controvérsia é normal. Os cidadãos não são clonáveis. A democracia é o regime da cooperação.

Esses documentos rompem com os receios e ataques do magistério eclesiástico do séc. XIX e princípios do séc. XX. A generosidade actual não se estende a uma gestão democrática da Igreja. Repete-se que a Igreja não é uma democracia.

 3. Importa, no entanto, não fechar demasiado depressa esse dossier. A concepção hierárquica neoplatónica vê a Igreja como uma pirâmide, um sistema escalonado: Deus, Cristo, o papa, os bispos, os padres e os diáconos, seguidos dos religiosos e, finalmente os “leigos”, primeiro os homens, depois as mulheres e as crianças. Nesse esquema, o Espírito Santo vai de férias. Ao “Vigário de Cristo”, com a sua infalibilidade definida no Vat. I, basta-lhe exigir obediência.

Quando se diz que a Igreja não é uma democracia continua-se a pensar na pirâmide, esquecendo que os seus membros, homens e mulheres, renascidos de um só baptismo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, formam uma vasta comunhão de fraternidades de profetas e sacerdotes do povo cristão ao serviço da humanidade inteira, na sua unidade plural.

A Igreja cristã não vive num vazio sociocultural e político. Não pode viver num gueto. Embora deva manter um distanciamento crítico em relação às estruturas socio-políticas – não são o Reino de Deus realizado –, mas uma gestão democrática do seu governo será sempre preferível, em qualquer circunstância, a um regime autoritário. Do código genético baptismal, não constam os genes de ditadura na Igreja.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Bento Domingues: "Um papa anticlerical?"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje.


1. A religião é uma das grandes dimensões mentais e culturais dos seres humanos. Hoje, no Ocidente, é uma realidade controversa, mas não apagada. O acolhimento ao Papa Francisco não resulta apenas, nem sobretudo, de qualquer estratégia publicitária. Nele, as pessoas vêem uma das expressões mais genuínas da atitude de Jesus Cristo, no meio do seu povo.

O divórcio entre as Igrejas e o mundo moderno não foi provocado, apenas, pela má vontade dos incréus e dos anticlericais. O anticlericalismo foi, muitas vezes, o reverso do clericalismo. Nasci numa zona do país em que não se podia viver sem padre, desde o baptismo ao funeral. Passava-se o tempo a dizer mal deles por causa do seu autoritarismo e da arbitrariedade ameaçadora dos seus comportamentos pouco pastorais. Não eram especialmente maus, mas apenas o resultado da formatação recebida.

Hoje já não se repetem estas palavras de Pio X (1), mas elas modelaram gerações: “só na hierarquia reside o direito e a autoridade necessários para promover e dirigir todos os membros para os fins da sociedade. Em relação ao povo, este não tem outro direito a não ser o de se deixar conduzir e seguir docilmente os seus pastores”.

A Civiltà Cattolica (2), na época da definição da infabilidade do papa, escrevia: “a infabilidade do papa é a infabilidade do próprio Jesus Cristo […]. Quando o papa pensa, é o próprio Deus que pensa nele”.

2. O Vaticano II ainda estava longe. O século XX, sobretudo em alguns países, foi um tempo de grandes movimentos de renovação do catolicismo: missionário, ecuménico, bíblico, teológico, social, litúrgico, laical, etc. Foi, também, uma época de condenações, sobretudo das experiências mais arrojadas, como por exemplo, a suspensão dos padres operários e dos teólogos que trabalhavam em diversas frentes culturais do mundo moderno.

O Concílio alterou, profundamente, as concepções eclesiológicas que justificavam o autoritarismo da hierarquia. Dizia-se mesmo que a eclesiologia se tinha transformado numa hierarquiologia. Agora, o papa, o bispo, o padre deixavam de ser considerados uma hierarquia de poderes sobre a Igreja, mas de serviço às comunidades. Estimular a sua criatividade, na diversidade dos seus carismas e funções, era a principal tarefa dos ministérios ordenados que, por sua vez, deviam suscitar iniciativas, segundo as necessidades de tempo e de lugar. Eram bons princípios, boas práticas, mas sem meios, nem vontade, de organizar a vida da Igreja, segundo essas orientações. Veio, depois, um longo inverno na Igreja e foram ressuscitados modos de agir autoritários que paralisaram reformas urgentes.

3. Veio o Papa Francisco. Como já disse noutras ocasiões, não apareceu com o Direito Canónico na mão, para dizer o que era para continuar na mesma e o que era para reformar, como se fosse um burocrata. Veio participar numa reforma que envolvesse a Igreja toda, embora destacando responsabilidades e neutralizando forças de obstrução. Não no estilo de mandar fazer. Começou por ser ele a agir conforme aquilo que depois tem vindo a propor, em diversas circunstâncias. A perspectiva geral foi dada na Exortação Apostólica e em várias entrevistas. Não se pode esquecer a forma como respondeu às perguntas dos Superiores Maiores das Congregações Religiosas. Destacou a importância da qualidade e do estilo da formação dos jovens religiosos. Em todas as ocasiões denuncia o clericalismo, com expressões tais que levam alguns a julgar que pertence a uma organização anticlerical! O Papa perdeu a devoção aos monsenhores. Pobres daqueles que já se julgavam na calha.

Nesse Encontro, a convicção mais abrangente é esta: as grandes mudanças da história acontecem quando a realidade é vista, não a partir do centro, mas da periferia. Trata-se, para o Papa, de uma questão hermenêutica: a realidade não se compreende a partir de um centro equidistante de tudo. Para a entender bem, é preciso mover-se da posição central da tranquilidade, da zona de conforto, para as zonas agitadas das periferias. Este é o melhor caminho para escapar ao centralismo e às focagens ideológicas. Os temas do citado diálogo com os superiores das congregações religiosas foram os da coragem, da profecia, do clericalismo e dos conflitos. Nada poderá substituir a leitura da gravação feita pela Civiltà Cattolica (3).

Dirigindo-se à Comissão Teológica Internacional (06.12.2013), em vez de lhes recomendar cautela e ortodoxia, incitou os teólogos a serem pioneiros do diálogo da Igreja com as culturas; a situarem-se como profetas nas fronteiras e não ficando para trás, na caserna. O magistério e os teólogos devem estar atentos às expressões autênticas do sensus fidelium.

A sensibilidade cristã dos fiéis não é só dos homens. As mulheres são sempre as esquecidas. O jornal L’ Osservatore Romano acaba de lançar um suplemento sobre Mulheres, Igreja e Mundo, de circulação mensal, de quatro páginas a cores. Mais vale tarde do que nunca.


1) Cf. Ramon Maria Nogués, Dioses, Creencias y Neuronas, Fragmenta Ed., 2011, pg. 280
2) Ibid. pg 281
3) http://www.laciviltacattolica.it/ ; tradução em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/526950-qdespertem-o-mundoq-o-

domingo, 8 de dezembro de 2013

Bento Domingues: "O discurso do método do Papa Francisco"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje (aqui):

1. O Papa está a tornar-se a referência dos que precisam de energia espiritual para resistir à idolatria do dinheiro, à tirania dos mercados, à especulação financeira, à economia que mata, às políticas que consideram os doentes e os velhos um estorvo e o desemprego uma fatalidade.

Como não há coragem, nem dentro nem fora da Igreja, para o mandar calar de vez, os seus adversários encomendaram a jornalistas e comentadores de serviço, a sua desvalorização: este Papa não diz nada de novo; repete o que está dito e redito, desde o séc. XIX, na Doutrina Social da Igreja, não passa de um populista.

Os desconsolados com o Papa Francisco não são contra a solidariedade. Sabem o que fazer para que nunca haja falta de pobres. Insuportável é o método do seu discurso e actuação: convocar toda a Igreja a olhar este mundo a partir dos excluídos, mudar o centro da sua missão para a periferia e organizar-se a partir daí.

Sonho, diz o Papa na Exortação Evangelli Gaudium, com a opção missionária capaz de transformar os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial num canal de evangelização e não apenas um instrumento da sua auto-preservação. Pertence ao Bispo promover uma comunhão dinâmica, aberta e missionária na sua diocese. Deverá estimular e procurar um amadurecimento dos organismos de participação propostos pelo Código de Direito Canónico e de outras formas de diálogo pastoral, com o desejo de ouvir todos e não apenas alguns, sempre prontos a lisonjeá-lo.

“Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado. Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo lhe deu e às necessidades actuais da evangelização” (n. 32).

O Papa pede o abandono de um critério pastoral muito cómodo e muito usado: “fez-se sempre assim”. Convida todos, sem contemplações, a serem ousados e criativos na tarefa de repensar os objectivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades. Vai mais longe: "Uma identificação dos fins, sem uma condigna busca comunitária dos meios para os alcançar, está condenada a traduzir-se em mera fantasia” (n.33).

2. Recorre ao Vaticano II para afirmar a hierarquia das verdades da doutrina católica, dado que nem todas têm o mesmo vínculo com o fundamento da fé cristã. Isto é tão válido para os dogmas de fé, como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a doutrina moral (n. 36). Invoca S. Tomás de Aquino para dizer que na mensagem moral da Igreja há uma hierarquia nas virtudes e acções que dela procedem. A misericórdia é a maior de todas as virtudes.

Esta falta de hierarquia na pregação e na catequese gera distorções muito graves. É o que acontece quando se fala mais da lei do que da graça, mais da Igreja do que de Jesus Cristo, mais do Papa do que da palavra de Deus (n.37-38). A defesa de uma doutrina monolítica não respeita a riqueza inesgotável do Evangelho. Impõe-se um constante discernimento para não atravancar o caminho com mensagens e costumes que já não são um serviço na transmissão do Evangelho: não tenhamos medo de os rever! Realça, na linha de Tomás de Aquino, que os preceitos dados por Cristo e pelos apóstolos ao povo de Deus são pouquíssimos, para não tornar pesada a vida aos fiéis nem transformar a nossa religião numa servidão. A misericórdia de Deus quis que ela fosse livre. A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. (n. 43-47)

3. É para chegar a todos, sem excepção, que a Igreja assume este dinamismo missionário. Mas, a quem deverá privilegiar? Quando se lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto os amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo os pobres e os doentes, aqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, aqueles que não têm como retribuir (Lc 14, 14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é o sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar, sem rodeios, que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Nunca os deixemos sozinhos! (n. 48)

Prefiro uma Igreja ferida e enlameada por ter saído pelos caminhos, a uma Igreja doente de tão fechada sobre si mesma, acomodada e agarrada às suas próprias seguranças. Mais do que o temor de falhar, devemos ter medo de continuar encerrados nas estruturas que nos dão uma falsa protecção, nas normas que nos tornam juízes implacáveis, em hábitos que nos deixem tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta. Jesus repete-nos, sem cessar: Dai-lhes vós mesmos de comer (Mc 6, 37). (49)


Este resumo da primeira parte da Exortação E.G. mostra que o método deste Papa não é o de repetir, mas de inovar e provocar inovações.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Vaticano II em Roma

Ainda não li a exortação apostólica de Francisco (que agora já está em português no vatican.va). E só li títulos dos comentários. Assim de repente, parece que o Vaticano II chegou a Roma. Ou então vem aí o Vaticano III.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Exercício para quem gosta de livros

Diz o padre António Rego no livro "Quando a Igreja desceu à terra" (Princípia), de António Marujo, sobre os 50 anos do II Concílio do Vaticano (pág. 28):

"Quando percorro a minha biblioteca e vejo os livros que adquiri ao longo destes últimos 50 anos, noto que há lá livros vivos e mortos. «Mortos» são os «datados», presos a estilos passageiros que nem se situaram no património cultural e espiritual, nem abriram qualquer fresta ao futuro".

António Rego refere-se ao livros de teologia, pastorais, de reflexão cristã. Mas seria um exercício curioso passar pelas estantes pessoais e ver quais os livros vivos e os mortos. Há livros claramente vivos. Há outros evidentemente mortos, mesmo mortos, que poderiam desaparecer sem qualquer prejuízo. E há os mortos que podem ressuscitar num momento qualquer. O mortos costumam ser enterrados quando se muda de casa, por exemplo. A não ser que haja uma esperança na ressurreição final de todos os monos. Tendo mudado de casa várias vezes, confesso que são muito poucos os livros mesmo mortos-mortos. Nos datados", que são os "mortos" de António Rego, vejo sempre qualquer coisa que ainda fumega.

domingo, 29 de setembro de 2013

Bento Domingues: "Francisco, um amigo lá de casa"

Bento Domingues no "Público" de hoje (amanhã porei aqui o texto na íntegra):
A reforma desejada, na linha aberta por João XXIII, foi sistematicamente adiada em vários domínios e, mais do que isso, contrariada. Os processos instaurados pela Congregação para a Doutrina da Fé ao pensamento cristão mais inovador pareciam querer restaurar um tempo de má memória. A debandada de padres, religiosos, religiosas e militantes católicos foi uma tristeza. Quando se falava da necessidade de um novo concílio, a resposta disponível era sempre a mesma: ainda não foi posto em prática o Vaticano II, como se vai entrar na aventura de um terceiro?
 O próprio "Ano da Fé" serviu para abafar os questionamentos que o cinquentenário do concílio poderia levantar. Optou-se por fazer dele um assunto de arquivo, em vez de uma provocação para o século XXI. 
Bento XVI mostrou-se incapaz de reformar a cúria - a que pertenceu durante muitos anos - e de convocar um novo concílio. Preferiu demitir-se e provocar um conclave electivo, tornando possível outro caminho.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O livro sublinhado de João XXIII


João XXIII - daqui a dias faz 50 anos que ele morreu - foi núncio em Paris até 1953. Dizem que, apreciando o nível cultural do clero francês e não por ironia, um dia afirmou: "Nenhum padre francês se dá por satisfeito enquanto não fizer gemer as prensas com um livro seu".

Na realidade, lia os autores franceses. Mais tarde foi encontrado entre os seus haveres um livro intitulado "Verdadeira e falsa reforma na Igreja", sublinhado e anotado, publicado originariamente em 1950. Autor: Yves Congar, o teólogo mais influente no II Concílio do Vaticano.

domingo, 19 de maio de 2013

Bento Domingues: "Celebrar a subversão"

Dois parágrafos do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:

No campo católico, a reforma litúrgica do Vaticano II, sem perder o sentido plural da ritualidade, tentou vencer a doença da obsessão ritualista. O fundamentalismo de uns, a incultura de outros, a preguiça e a mediocridade geral têm dificultado os caminhos de uma genuína criatividade. Em nome da ortodoxia e da piedade, está a ressurgir, em alguns grupos e paróquias, a mentalidade restauracionista.
...
O mundo não parou em 1965. Para se tornar católica, a Igreja no seu devir na história humana tem de rever, continuamente, as suas posições. Não pode dizer que não há alternativas. As configurações actuais dos ministérios ordenados já não correspondem ao que deles se deve exigir, para estarem abertos às surpresas do Espírito de Cristo, que não é exclusivo dos homens. A exigência desta mudança e da reforma da Cúria estão interligadas.
Esta é uma das prosas admiráveis do dominicano. E irritante para alguns dos leitores deste blogue. Amanhã estará cá o texto todo.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

O Papa não fala do II Concílio do Vaticano?


Há dias um jornalista espanhol (o mesmo que apostou todas as fichas na eleição de Bergoglio) notou que o Papa Francisco não fala do Vaticano II.

“Desde que llegó al solio pontificio, Francisco no citó (ni una sola vez, que yo sepa) el Concilio Vaticano II”, escreveu José Manuel Vidal.

A coisa pode ter muitas leituras. Desde a que afirma que não é necessário falar do que é evidente (a importância do Concílio) até à que diz que quem não é falado não é lembrado. Alguns preferem esta última versão, em geral, os mesmos que notaram que Francisco falou diversas vezes no diabo/demónio logo no arranque do pontificado (uma americano fez disso uma bandeira e só faltou dizer que “nem tudo está perdido”).

José Luis Segovia, director de um instituto pastoral madrilena, interpretou o silêncio franciscano como uma omissão intencional. “Se trata de una omisión intencionada, que busca unir y sumar, sin ahondar en la «piedra» de escándalo en que se ha convertido, para las derechas y las izquierdas eclesiásticas, el Vaticano II” – li no mesmo artigo atrás apontado.

Ontem, se dúvidas havia, Bergoglio desfê-las, alertando para os que resistem à ação do Espírito Santo no Concílio, que no fundo somos todos (“Fizemos tudo o que nos disse o Espírito Santo no Concílio, naquela continuidade do crescimento da Igreja que ele foi? Não”) e para os que olham para o Vaticano II como uma página negra da história eclesial (“Mais: há vozes que querem voltar atrás”).

Francisco não escreveu nenhuma encíclica sobre isto. Foi numa missa, provavelmente sem ler papéis. Li na Ecclesia. Mas se alguém tinha dúvidas, deu para esclarecê-las.

sábado, 6 de abril de 2013

Já que hoje muito se fala de números cá pelo burgo

Palavras que o Concílio Vaticano I não utilizou:
diálogo
amor
fraternidade
historia
leigo
ministério
novidade
serviço
pobre.

Palavras que o Concílio Vaticano I utilizou uma vez:
Evangelho.

Vezes que o Concílio Vaticano II utilizou as mesmas palavras:
amor 131
diálogo 31
fraternidade 87
história 63
leigo 200
ministério 147
novidade 37
pobre 42
pobreza 21
serviço 97
Evangelho / evangelizar 188.

Li num artigo de José Nunes o.p. sobre "A recepção do Concíliovaticano II nos dinamismos de evangelização", na "Communio" de Julho/Agosto/Setembro de 2012, que é sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II. A contagem, diz o teólogo dominicano português, foi feita pelo irmão de congregação Yves Congar.

sábado, 16 de março de 2013

Anselmo Borges: "O maior afrodisíaco"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Ainda Papa, J. Ratzinger disse o que é decisivo: "Nós somos a Igreja; a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente, isto é válido no sentido de que o 'nós', o verdadeiro 'nós' dos crentes, juntamente com o 'Eu' de Cristo, é a Igreja."

Mas, de facto e desgraçadamente, quando se pensa e fala e escreve sobre a Igreja, no que se pensa e fala e sobre que se escreve é, em primeiro lugar, a Igreja enquanto instituição e concretamente a organização central - em que se pensa, quando se diz o Vaticano? -, com o Papa, o cortejo de cardeais, arcebispos, bispos, monsenhores da Cúria e o Banco do Vaticano e regras e normas e escândalos e intrigas que se diz aninharem-se por lá e, evidentemente, também o espectáculo nem sempre edificante, e o folclore. Aliás, quem se não quiser enganar, mesmo dentro da Igreja, que se pergunte: o que juntou os mais de 5000 jornalistas estrangeiros em Roma para a eleição do novo Papa? Foi verdadeiramente a Igreja viva, constituída pelos discípulos de Jesus, que procuram real e verdadeiramente segui-lo no amor de Deus e do próximo?

Seja como for, acima de tudo e em primeiro lugar, é preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. Realmente, em síntese, como escreveu o teólogo Hans Küng, a Igreja é a comunidade dos que acreditam em Jesus Cristo: "A comunidade dos que se entregaram e entregam a Jesus e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível se disser a mensagem cristã, não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma, e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus."

A Igreja não pode entender-se como uma gigantesca empresa multinacional religiosa ou um aparelho de poder. Ela é povo de Deus espalhado pelos diferentes lugares do mundo. O Papa não pode ser visto como um "autocrata espiritual", mas como bispo que tem o primado pastoral, vinculado ao colégio dos bispos. E as funções nucleares da Igreja são oferecer aos homens e às mulheres de hoje a mensagem cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos, sem esquecer o dever de assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando à sociedade, sem partidarismos, opções fundamentais, orientações para um futuro melhor para a Humanidade, na paz, no respeito pelos direitos humanos, na preservação da natureza.

O novo Papa tem pela frente missões gigantescas. A credibilidade da Igreja-instituição bateu no fundo. Impõe-se, pois, uma conversão de fundo. A pedofilia tem de acabar definitivamente. Tolerância zero igualmente para os escândalos intoleráveis do Banco do Vaticano. Os direitos humanos têm de valer também no seio da Igreja: liberdade de investigação, de opinião, de expressão. A quem tem medo da democracia e da participação lembra-se o que diz o Vaticano II: "É perfeitamente conforme com a natureza humana que se constituam estruturas jurídico-políticas que ofereçam a todos os cidadãos, sem discriminação alguma e com perfeição crescente, possibilidades de tomar parte livre e conscientemente na eleição dos governantes." As mulheres não podem ser discriminadas. A moral sexual pede revisão, bem como a lei obrigatória do celibato, que deve ser opcional. Decisiva é a reforma da Cúria, verdadeiro cancro da Igreja: "Impõe-se reformar a Cúria Romana", exige o cardeal W. Kasper. A Cúria só se compreende enquanto serviço da autoridade eclesiástica, que não reside na Cúria, mas no colégio dos bispos com o Papa à cabeça, como lembra o teólogo J. I. González Faus, que quer também que desapareçam do círculo do Papa "todos os símbolos de poder e de dignidade mundana": "príncipes da Igreja" é "título quase blasfemo".

Mas não haverá reforma sem conversão no que se refere àquela que foi a única tentação com que Jesus também foi confrontado: a tentação do poder, disso que é - disse-o quem sabe (Henry Kissinger) - o maior afrodisíaco. Jesus deixou a palavra decisiva: "Não vim para ser servido, mas para servir."

No próximo sábado escreverei sobre o Papa Francisco, que, estou convicto, veio para servir.

sábado, 2 de março de 2013

Anselmo Borges: O testamento do Papa Bento XVI



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Agora, é apenas Papa emérito. Mas que ninguém se preocupe com os dois Papas vivos, pois Ratzinger retirou-se, para rezar, meditar, ouvir e tocar música, investigar, "desaparecendo" para o mundo.

Joseph Ratzinger também teve o seu momento de rebeldia e de progressismo, no Concílio Vaticano II. Chegou a dizer nas aulas, em Tubinga: "em Roma, como sabem, não se faz boa Teologia." Durou pouco tempo esse tempo. A sua orientação teológica agostiniana - Santo Agostinho não tinha em muito boa consideração o mundo - inclinava-o mais para uma visão conservadora. A mudança teve como ponto decisivo os excessos de 1968, com o radicalismo ateu dos estudantes de Teologia.

Reconhecido pela sua inteligência brilhante e uma rara cultura - dialogou com grandes intelectuais, incluindo Jürgen Habermas -, é mais um intelectual e um professor do que um pastor. As circunstâncias quiseram que este homem afável, tímido, "honesto, íntegro e encantador no trato pessoal", como reconhece também o teólogo J. I. González Faus, deixasse a vida académica, se tornasse arcebispo de Munique, seguisse para Roma como "inquisidor", condenando muitas dezenas de teólogos e a Teologia da Libertação, e se tornasse Papa - quando aconteceu a eleição, lembrou-se da guilhotina.

Deixa três encíclicas: a primeira, para dizer que a verdadeira "definição" de Deus é que é Amor; a segunda, para convocar os cristãos e todos os homens à esperança; a terceira é sobre "a caridade (o amor) na verdade". Nela, condena as posições neoliberais, cujo único objectivo é o lucro; reafirma a doutrina essencial de que a economia e o desenvolvimento só são verdadeiros se estiverem ao serviço do homem todo e de todos os homens; que, em ordem ao seu correcto funcionamento, a economia precisa da ética, "uma ética amiga da pessoa"; que, para conseguir o governo da economia mundial, o desarmamento, a segurança alimentar e a paz, a salvaguarda do meio ambiente e a regulação dos fluxos migratórios, "urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial, que deverá ser reconhecida por todos, gozar de poder efectivo para garantir a cada um a segurança, a observância da justiça, o respeito dos direitos".

Ideia nuclear é a do diálogo entre a fé e a razão. A fé, sem a razão, é cega e intolerante; a razão, sem a abertura à transcendência, pode enlouquecer. No cristianismo, acolhe-se a fé, dando lugar à descoberta do "Deus que é Razão criadora e ao mesmo tempo Razão-amor". Aí está o vínculo indissolúvel entre Razão, Verdade e Bem.

Na Sexta-Feira Santa de 2005, ainda cardeal, disse aquelas palavras: "quanto sujidade na Igreja! A traição dos discípulos fere mais Jesus." Referia-se certamente ao escândalo da pedofilia, à figura sinistra do padre Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, ao que se passava na Cúria. Quando assumiu funções, foi exemplar, pondo Maciel fora da vida pública, pedindo perdão às vítimas da pedofilia e tomando medidas drásticas e consistentes, para que os crimes se não repitam.

Não conseguiu reformar a Cúria nem pôr termo às intrigas, ao carreirismo, às lutas pelo poder, aos escândalos, desde a corrupção à lavagem de dinheiro no Banco do Vaticano e ao Vatileaks. Sem forças "no corpo e no espírito", renunciou, "em consciência e plena liberdade", para que outro lhe suceda.

Foi talvez a lição maior de Joseph Ratzinger enquanto Papa. Houve quem o criticasse, também dentro da Igreja e pensando em João Paulo II: que não se desce da Cruz e que dessacralizou o papado. Mas, afinal, o Papa é mais do que um homem? Não se trata tão-só de um cristão que leva consigo a específica missão gigantesca de ser sinal e promotor de unidade entre os cristãos e a Humanidade?

Este é o seu testamento: abandona pacificamente o poder. Porque na Igreja, como aliás no mundo em geral, é preciso escolher entre o poder como dominação e a força do serviço. O Deus cristão não se revela como Poder-Dominação, mas Força Infinita de criar no Amor. Bento XVI leu e recomendou que todos os Papas lessem a famosa carta de São Bernardo ao Papa Eugénio III: "Não pareces um sucessor de Pedro, mas de Constantino".

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Bento Domingues: "Ano da fé. Um decreto, para quê? (3)"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem.


1. No passado domingo, referi alguns dos movimentos que, durante a primeira metade do século XX, não aceitaram um destino previsível: a uma religião exterior ao tecer do mundo, sucederia um mundo fechado a qualquer transcendência.

Esses movimentos recusaram as alianças da Igreja com os poderes de dominação que a divorciavam de Cristo, dos pobres, do mundo operário e dos novos percursos culturais de surpreendentes e estranhas linguagens filosóficas, científicas, poéticas, musicais, artísticas. Eles desejavam-na mais leve, mais disponível, sem fixações doutrinais ou rituais que a impedissem de caminhar no interior misterioso de Deus e do mundo. Para ser fiel à sua condição de peregrina do Absoluto, bastavam-lhe provisórios recursos de viagem.
Com erros e acertos, procuravam que a Igreja fosse vivida e entendida, na diversidade de carismas e serviços do povo cristão, como voz de Cristo num mundo dilacerado por duas terríveis guerras mundiais. A repressão exercida sobre as expressões dos mais audazes criou uma atmosfera irrespirável, em vários sectores católicos. Perdia-se a esperança de que ela se tornasse um espaço de liberdade. Temos muitas narrativas dessa situação.

2. João XXIII, com os olhos postos nesse mundo em transformação, apostou no aggiornamento da Igreja. Este termo, usado para expressar uma das intenções fundamentais do Vaticano II, é muito mais do que uma operação de marketing ou um truque, como se este Papa procurasse uma imagem modernaça para um catolicismo envelhecido. Entretanto, já circulava outra expressão de sinal oposto, "voltar às fontes". Acabaram ambas conjugadas com os enigmáticos "sinais dos tempos". A aproximação destas metáforas é um bom caminho para perceber a importância incontornável da iniciativa deste Concílio, sem cair na sua sacralização.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Bento Domingues: "Ano da fé. Um decreto, para quê? (3)"


Do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje (amanhã poderá lê-lo aqui na íntegra; entretanto, se comprar o jornal, surpreender-se-á com a quantidade de informação relevante):

Diante dos gravíssimos problemas actuais da sociedade e da Igreja, nota-se um tal retraimento e timidez, que é legítimo perguntar: não estarão as comunidades cristãs a serem vítimas de um longo período no qual a sua voz não contou para nada? Quando, agora, nos interrogamos sobre a sua falta de empenhamento militante, talvez esqueçamos uma resposta antiga: ninguém nos convocou, ninguém quis ouvir a nossa voz, compartilhar as nossas dúvidas e interrogações, tomar a sério a nossa situação pouco canónica e pouco alinhada com a opinião dominante. Deixaram-nos em autogestão...
E explica o sentido da expressão "naquele tempo", com que habitualmente os evangelhos dominicais começam, que não é "inocente nem passadista".

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Congar: "Felizmente, há Ratzinger"


Yves Congar (1904-1995) não é só um dos maiores teólogos do séc. XX (na minha opinião, faz parte de um trio de primeiríssimos que, já que estamos na semana do ecumenismo, inclui três confissões cristãs: os dominicanos, os jesuítas e os reformados). É capaz de ser também o mais linguarudo. E isso é bom para quem gosta de perceber como as coisas funcionavam, porque a língua de Congar deu para deixar tudo escrito nos diários. A diarística é sem dúvida uma boa forma de sublimar a língua comprida que todos temos.

Congar começou a escrever diários praticamente no berço. Quer dizer aos 10 anos, pelo menos. E já então escrevia que os alemães são “os boches os canalhas os ladrões os assassinos os incendiários” (falei disso aqui). Mas tarde diria bem de um alemão em concreto.

No tempo do Concílio, como é sabido, escreveu um diário que é bem capaz de ser mais útil para compreender o que se passou no Vaticano entre 1962-65 do que as atas do concílio (desconfio, já que, quanto às atas, só as vi encaixotadas, por encadernar, à porta de uma biblioteca eclesiástica).

No dia 31 de março de 1965, sobre o grupo que estava a redigir o decreto “Ad gentes” (sobre a Igreja e as missões), escreveu:

- "o padre Seaumois é realmente um burro", com a sua "bagagem de ideias e as suas respostas já prontas";
- Dom Yago "não diz nada e parece se aborrecer muito";
- Dom Perrin "quase não acompanha e não é de nenhuma ajuda";
- "Felizmente, há Ratzinger. É razoável, modesto, desinteressado, de boa ajuda" (li aqui).

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...