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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Bento Domingues: "Jesus não faz anos dia 25"


Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem (na revista "2", o dominicano faz um balanço dos nove meses do pontificando de Francisco).

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A resposta de Bento XVI a Odifreddi no "La Repubblica"


Esta é a resposta de Bento XVI a Odifreddi, no "La Repubblica" de ontem. (Que bom! Um texto emeritopapal para pensar). O texto será publicado na íntegra num novo livro do matemático ateu. Vale a pena ler. Há muito mais - e mais interessante - do que o que ontem aqui referi, como comentou um leitor. Copiei-o do Unisinos (Brasil). Parece que não sabem que Magellan é Magalhães e acrescentei uns subtítulos para identificar os assuntos.
Ilustríssimo Senhor Professor Odifreddi, (...) gostaria de lhe agradecer por ter tentado até o último detalhe se confrontar com o meu livro e, assim, com a minha fé; é exatamente isso, em grande parte, que eu havia intencionado com o meu discurso à Cúria Romana por ocasião do Natal de 2009. Devo agradecer também pelo modo leal como tratou o meu texto, buscando sinceramente prestar-lhe justiça. 
O meu julgamento acerca do seu livro, no seu conjunto, porém, é em si mesmo bastante contrastante. Eu li algumas partes dele com prazer e proveito. Em outras partes, ao invés, me admirei com uma certa agressividade e com a imprudência da argumentação. (...)
Teologia não é ficção científica 
Várias vezes, o senhor me aponta que a teologia seria ficção científica. A esse respeito, eu me admiro que o senhor, no entanto, considere o meu livro digno de uma discussão tão detalhada. Permita-me propor quatro pontos a respeito de tal questão:

1. É correto afirmar que "ciência", no sentido mais estrito da palavra, só a matemática o é, enquanto eu aprendi com o senhor que, mesmo aqui, seria preciso distinguir ainda entre a aritmética e a geometria. Em todas as matérias específicas, a cientificidade, a cada vez, tem a sua própria forma, segundo a particularidade do seu objeto. O essencial é que ela aplique um método verificável, exclua a arbitrariedade e garanta a racionalidade nas respectivas modalidades diferentes.

2. O senhor deveria ao menos reconhecer que, no âmbito histórico e no do pensamento filosófico, a teologia produziu resultados duradouros.
Teologia e razão 
3. Uma função importante da teologia é a de manter a religião ligada à razão, e a razão, à religião. Ambas as funções são de essencial importância para a humanidade. No meu diálogo com Habermas, mostrei que existem patologias da religião e – não menos perigosas – patologias da razão. Ambas precisam uma da outra, e mantê-las continuamente conectadas é uma importante tarefa da teologia.
Ficção nas ciências 
4. A ficção científica existe, por outro lado, no âmbito de muitas ciências. Eu designaria o que o senhor expõe sobre as teorias acerca do início e do fim do mundo em Heisenberg, Schrödinger, etc., como ficção científica no bom sentido: são visões e antecipações para chegar a um verdadeiro conhecimento, mas são, justamente, apenas imaginações com as quais tentamos nos aproximar da realidade. Além disso, existe a ficção científica em grande estilo, exatamente dentro da teoria da evolução também. O gene egoísta de Richard Dawkins é um exemplo clássico de ficção científica. O grande Jacques Monod escreveu frases que ele mesmo deve ter inserido na sua obra seguramente apenas como ficção científica. Cito: "O surgimento dos vertebrados tetrápodes (...) justamente tem sua origem do fato de que um peixe primitivo 'escolheu' ir a explorar a terra, sobre a qual, porém, ele era incapaz de se deslocar, exceto saltitando desajeitadamente e criando, assim, como consequência de uma modificação do comportamento, a pressão seletiva graças à qual se desenvolveriam os membros robustos dos tetrápodes. Entre os descendentes desse audaz explorador, desse Magellan da evolução, alguns podem correr a uma velocidade de 70 quilômetros por hora..." (citado segundo a edição italiana de Il caso e la necessità, Milão, 2001, p. 117ss.).
Clero e pedofilia 
Em todas as temáticas discutidas até agora, trata-se de um diálogo sério, para o qual eu – como já disse repetidamente – sou grato. As coisas são diferentes no capítulo sobre o sacerdote e a moral católica, e ainda diferentes nos capítulos sobre Jesus. Quanto ao que o senhor diz sobre o abuso moral de menores por parte de sacerdotes, eu só posso reconhecer – como o senhor sabe – com profunda consternação. Eu nunca tentei mascarar essas coisas. O fato de que o poder do mal penetra a tal ponto no mundo interior da fé é para nós um sofrimento que, por um lado, devemos suportar, enquanto, por outro, devemos, ao mesmo tempo, fazer todo o possível para que casos desse tipo não se repitam. Também não é motivo de conforto saber que, segundo as pesquisas dos sociólogos, a porcentagem dos sacerdotes réus desses crimes não é mais alta do que a presente em outras categorias profissionais semelhantes. Em todo caso, não se deveria apresentar ostensivamente esse desvio como se se tratasse de uma imundície específica do catolicismo.
Mal e bem na Igreja 
Se não é lícito calar sobre o mal na Igreja, também não se deve silenciar, porém, sobre o grande rastro luminoso de bondade e de pureza, que a fé cristã traçou ao longo dos séculos. É preciso lembrar as figuras grandes e puras que a fé produziu – de Bento de Núrsia e a sua irmã Escolástica, Francisco e Clara de Assis, Teresa de Ávila e João da Cruz, aos grandes santos da caridade como Vicente de Paulo e Camilo de Lellis, até a Madre Teresa de Calcutá e as grandes e nobres figuras da Turim do século XIX. Também é verdade hoje que a fé leva muitas pessoas ao amor desinteressado, ao serviço pelos outros, à sinceridade e à justiça. (...)
O método histórico-crítico, Jesus e a sua historicidade 
O que o senhor diz sobre a figura de Jesus não é digno do seu nível científico. Se o senhor põe a questão como se, no fundo, não soubesse nada de Jesus e como se d'Ele, como figura histórica, nada fosse verificável, então eu só posso lhe convidar de modo decidido a tornar-se um pouco mais competente do ponto de vista histórico. Recomendo-lhe, para isso, sobretudo os quatro volumes que Martin Hengel (exegeta da Faculdade de Teologia Protestante de Tübingen) publicou juntamente com Maria Schwemer: é um exemplo excelente de precisão histórica e de amplíssima informação histórica. Diante disso, o que o senhor diz sobre Jesus é um falar imprudente que não deveria repetir. O fato de que na exegese também foram escritas muitas coisas de escassa seriedade é, infelizmente, um fato indiscutível. O seminário norte-americano sobre Jesus que o senhor cita nas páginas 105ss. só confirma mais uma vez o que Albert Schweitzer havia notado a respeito da Leben-Jesu-Forschung (Pesquisa sobre a vida de Jesus), isto é, que o chamado "Jesus histórico" é, em grande parte, o espelho das ideias dos autores. Tais formas mal sucedidas de trabalho histórico, porém, não comprometem, de fato, a importância da pesquisa histórica séria, que nos levou a conhecimentos verdadeiros e seguros sobre o anúncio e a figura de Jesus. 
(...) Além disso, devo rejeitar com força a sua afirmação (p. 126) segundo a qual eu teria apresentado a exegese histórico-crítica como um instrumento do anticristo. Tratando o relato das tentações de Jesus, apenas retomei a tese de Soloviev, segundo a qual a exegese histórico-crítica também pode ser usada pelo anticristo – o que é um fato incontestável. Ao mesmo tempo, porém, sempre – e em particular no prefácio ao primeiro volume do meu livro sobre Jesus de Nazaré – eu esclareci de modo evidente que a exegese histórico-crítica é necessária para uma fé que não propõe mitos com imagens históricas, mas reivindica uma historicidade verdadeira e, por isso, deve apresentar a realidade histórica das suas afirmações de modo científico também. Por isso, também não é correto que o senhor diga que eu estaria interessado somente na meta-história: muito pelo contrário, todos os meus esforços têm o objetivo de mostrar que o Jesus descrito nos Evangelhos também é o Jesus histórico real; que se trata de história realmente ocorrida. (...)
Deus, liberdade, amor e mal 
Com o 19º capítulo do seu livro, voltamos aos aspectos positivos do seu diálogo com o meu pensamento. (...) Mesmo que a sua interpretação de João 1, 1 seja muito distante da que o evangelista pretendia dizer, existe, no entanto, uma convergência que é importante. Se o senhor, porém, quer substituir Deus por "A Natureza", resta a questão: quem ou o que é essa natureza. Em nenhum lugar, o senhor a define e, assim, ela parece ser uma divindade irracional que não explica nada. Mas eu gostaria, acima de tudo, de fazer notar ainda que, na sua religião da matemática, três temas fundamentais da existência humana continuam não considerados: a liberdade, o amor e o mal. Admiro-me que o senhor, com uma única referência, liquide a liberdade que, contudo, foi e é o valor fundamental da época moderna. O amor, no seu livro, não aparece, e também não há nenhuma informação sobre o mal. Independentemente do que a neurobiologia diga ou não diga sobre a liberdade, no drama real da nossa história ela está presente como realidade determinante e deve ser levada em consideração. Mas a sua religião matemática não conhece nenhuma informação sobre o mal. Uma religião que ignore essas questões fundamentais permanece vazia.
Franqueza que ajuda o conhecimento a crescer 
Ilustríssimo Senhor Professor, a minha crítica ao seu livro, em parte, é dura. Mas a franqueza faz parte do diálogo; só assim o conhecimento pode crescer. O senhor foi muito franco e, assim, aceitará que eu também o seja. Em todo caso, porém, avalio muito positivamente o fato de que o senhor, através do seu contínuo confronto com a minha Introdução ao cristianismo, tenha buscado um diálogo tão aberto com a fé da Igreja Católica e que, apesar de todos os contrastes, no âmbito central, não faltem totalmente as convergências.

Com cordiais saudações e com todos os melhores votos para o seu trabalho.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O Reino de Jesus - 2

Todas as parábolas de Jesus, semeaduras, crescimentos, ou banquete de núpcias, obscuras para aquele que acredita saber tudo, mas luminosas para aquele que aceita contemplar, evocam esta realidade maravilhosa: Deus está disposto a subverter o nosso mundo para que o amor, enfim, aí tome o poder. É isso o Reino.

Jean-Noël Bezançon

sábado, 5 de janeiro de 2013

Anselmo Borges: "Cronista do Reino de Deus a caminho"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):


No passado dia 10 de Dezembro, realizou-se em Lisboa uma merecida homenagem a Frei Bento Domingues, com a apresentação do livro Frei Bento Domingues e o Incómodo da Coerência, onde escrevem personalidades destacadas de diferentes quadrantes da cultura, da política, da religião.

Os intervenientes na sessão salientaram os valores por que Frei Bento se rege: a coerência, o diálogo, o humanismo universalista (Guilherme d'Oliveira Martins), a sabedoria, a dignidade humana, a ética (Maria José Morgado), o amor, a tolerância (Luís Osório, que concluiu: "Sempre que vejo um homem e penso em Jesus, penso em Frei Bento").

Ao longo da sua vida, foi deixando lições fundamentais: a paixão por Jesus Cristo, a liberdade cristã - "foi para a liberdade que Cristo nos libertou", escreveu São Paulo -, uma teologia que tem de ser encarnada, o combate pelos direitos humanos, a magnanimidade com os perseguidores, o despojamento em relação ao Poder, que conhece mas ao qual nunca se colou, a alegria, aliada a uma ironia fina, uma generosidade sem limites. É enorme a dívida da Igreja e dos portugueses para com Frei Bento Domingues.

O que aí fica é uma brevíssima tentativa de leitura da sua teologia, expressa cada domingo nas suas crónicas. Ele também lê o Evangelho, e lá está, no Prólogo do Evangelho segundo São João: o Logos, a Palavra, fez-se carne, ser humano frágil, fez-se tempo (Chronos), assumindo-o na sua fragilidade e dando-lhe sentido. Aí está a crónica no sentido teológico: a Palavra no tempo - a Palavra habita o tempo, e então o ser humano transcende o tempo na sua voragem, há um Sentido de todos os sentidos - quantas vezes, nos seus textos, Frei Bento refere esta ideia: a articulação do Sentido de todos os sentidos.

O que são os Evangelhos senão narrativas - histórias do e no tempo, iluminadas pela Palavra? O que são os evangelistas senão cronistas do Reino de Deus a acontecer em histórias paradigmáticas? Será possível uma teologia viva que não seja teologia narrativa? Concretamente a teologia cristã o que é senão reflexão explicitada sobre a praxis do Reino de Deus? É assim que Frei Bento é o teólogo-hermeneuta, se se quiser, cronista do Reino de Deus, que é o reino do homem bom, justo, livre, fraterno e feliz.

E aí estão os seus grandes princípios arquitectónicos: teologia do Reino de Deus; contra a gnose, porque "não há salvação fora do mundo"; teologia que não abandona a razão crítica, também em relação à Igreja, frequentemente "pasmada e sentada", no dizer de Fernando Alves, até porque sabe que a razão autónoma, feito o seu percurso todo, descobre que ela própria se acende na noite do Mistério e que só um homem livre pode dizer sim a Deus; teologia que vincula ética e estética; teologia ecuménica: todos estão incluídos, sem anular, pelo contrário, implicando, as diferenças; teologia para a paz e articulando-se à volta da ética e da mística, num vínculo indissolúvel, pois a nova catolicidade passa por essa outra nova globalização desde baixo, desde os débeis, pobres e marginalizados, à escala mundial.

O tempo, na sua fragilidade e carácter efémero, é habitado: o Verbo fez-se carne no tempo. Frei Bento Domingues continuará a alumiar-nos como cronista do Reino de Deus a caminho, Reino de uma humanidade boa, livre, justa e feliz. Precisamente a concretização desta bondade, liberdade, justiça, fraternidade, diálogo, felicidade, no horizonte sempre mais aberto de esperança no Sentido de todos os sentidos, irá sendo o critério de verificação da verdade da fé e da teologia, uma verificação sempre frágil, porque, num mundo que é processo, a verificação última é para todos escatológica: só no fim se saberá.

De todos os modos, como ele escreveu, "A religião verdadeira é a respiração da alegria da terra ou o projecto contra o sofrimento do mundo. Quando uma religião, uma igreja ou uma seita se cala perante a humilhação da condição humana, é porque se esqueceu da pergunta de Deus que percorre a história da desumanidade: 'que fizeste do teu irmão?' A arte de viver de Jesus de Nazaré foi esta pergunta feita carne, humanidade de Deus".

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Papa bem tenta harmonizar os dois relatos da infância de Jesus. Mas é bem sucedido?

Tenho estado a ler o livro de Joseph Ratzinger / Bento XVI, que é uma leitura agradável, mas sem grande novidade. Também não é isso que se pede a um teólogo que não é biblista nem cristólogo. Como de algum modo já era previsível, no seu combate claramente afirmado nas obras anteriores pela continuidade entre o Jesus da história e o Cristo da fé, o Papa bate-se pela historicidade de fundo dos relatos da Infância de Jesus – e não dos aspetos epidérmicos, como o do burro – e é esse precisamente o ponto mais rebatido das críticas dos especialistas. É esclarecedor o texto de Vito Mancuso no “La Repubblica” (tirado daqui):
Nos Evangelhos, há dados historicamente certos ao lado de elaborações simbólicas historicamente não confiáveis, e a tarefa da exegese histórico-crítica consiste em distinguir as duas dimensões. 
 
Certamente, entre Mateus e Lucas, há elementos comuns: a identidade dos pais, o anúncio evangélico, a concepção de Maria sem relações sexuais com o marido, o nascimento em Belém sob o reinado de Herodes, a transferência para Nazaré. Mas também há discordâncias que não podem ser harmonizadas: antes do nascimento de Jesus, Maria e José ou residiam em Nazaré (Lucas) ou residiam em Belém (Mateus); a sua viagem de Nazaré a Belém ou aconteceu (Lc) ou não aconteceu (Mt); Jesus nasceu ou na casa dos pais (Mt) ou em uma manjedoura (Lc); o massacre das crianças de Belém ou aconteceu (Mt) ou não aconteceu (Lc); os pais ou fugiram para o Egito para salvar o menino dos soldados de Herodes (Mt) ou foram ao templo de Jerusalém para a circuncisão sem que os soldados de Herodes se preocupassem com o menino (Lc); a família de Belém ou voltou logo para casa em Nazaréda Galileia (Lc) ou foi para Nazaré só depois de ter estado no Egito e pela primeira vez (Mt). 
 
Além disso, está a questão de como a notícia da concepção virginal chegou aos evangelistas. O papa se inclina pela "tradição familiar" (p. 65), no sentido de que teria sido Maria que comunicou aos discípulos o extraordinário evento de ter concebido o filho sem relações sexuais. Mas, se realmente tivesse sido assim, não se explicaria a escassa atenção do Novo Testamento a Maria, incluindo o livro dos Atos dos Apóstolos escrito justamente por Lucas, que a menciona somente uma vez e quase de passagem, enquanto dá muito mais espaço não só a Pedro e a Paulo, mas até mesmo a personagens secundários como Lídia, a comerciante de púrpura. 
É crível, talvez, que Lucas, sabendo diretamente de Maria sobre a concepção extraordinária de Jesus, a ignore completamente nos Atos, sem escrever nada sobre onde ela vivia, o que fazia, como terminou a sua vida terrena e sem nunca ter lhe dado a palavra sequer uma vez? Tudo isso leva a duvidar muito do que o Papa sustenta. 
Ratzinger, porém, não gosta do método histórico-crítico; considera-o prejudicial para a fé e, talvez por isso, no seu livro, ele nem menciona o autor do estudo mais importante sobre os evangelhos da infância, o já citado Raymond Brown, sacerdote católico, por muito tempo membro da Pontifícia Comissão Bíblica. 
Brown conclui assim a sua obra monumental sobre os evangelhos da infância: "Qualquer tentativa de harmonizar as narrações a ponto de fazer delas uma história coerente está fadada ao fracasso" ("La nascita del Messia" [O Nascimento do Messias], Assis, 1981, p. 677). 
Ratzinger nem menciona Brown, mas justamente por isso a sua obra, apesar de algumas belas páginas de corte espiritual, vai ao encontro do destino prefigurado pelo grande biblista norte-americano.
Acrescento que esperava que o Papa citasse na bibliografia um dos melhores livrinhos que li (bem, li poucos) sobre os quatro capítulos evangélicos em causa: "Dios ha enviado a su hijo? El misterio de Navidad", de Rudolf Schnackenburg (na Herder, original em alemão de 1990), que era padre católico e um dos maiores especialistas no Novo Testamento. Mas não afina pelo diapasão do Papa. 

domingo, 11 de novembro de 2012

O melhor e o pior da Igreja


Reportando-se ao evangelho que hoje é escutado nas missas – uma viúva pobre dá duas pequenas moedas ao templo, dá “tudo o que tinha” - José António Pagola diz:
Também hoje, tantas mulheres e homens de fé simples e coração generoso são o melhor que temos na Igreja. Não escrevem livros nem pronunciam sermões, mas são os que mantêm vivo entre nós o Evangelho de Jesus. Deles, têm de aprender os presbíteros e os bispos.
Ler tudo aqui.

E explica o “Acautelai-vos com os escribas”. Ou, na verão de Pagola, “Cuidado com os letrados”.

O que podem ser hoje os letrados?

Os teólogos.
Os intelectuais.
Os dirigentes de comunidades que sabem muito.
Os que escrevem blogues.
Os que leem blogues.
Os que escrevem livros e artigos.
Os que fazem conferências, palestras e comunicações.
Os que defendem teses.
Os que ensinam.
Os que criticam.
Os que sabem muito.
Os que sabem tudo.
Os que acham muito.
Os que desculpam muito.
Os que impressionam.

Tudo isso, todos esses, mas sem amor, sem autocrítica, sem abertura, sem empurrarem debaixo para cima, com pouca ação, sem se darem, sem que o mundo fique melhor pela colaboração deles.

Livrai-nos destes todos, inclusive quando nos próprios estamos neles.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Três notas sobre o papiro da mulher de Jesus


1. A "Harvard Theological Review" adiou a publicação do artigo de Karen King (a investigadora que foi a Roma apresentar o papiro num congresso de estudos coptas) até ter a certeza da autenticidade do papiro. Aguardam-se as análises de laboratório. Em parte as dúvidas devem-se ao que vem no ponto 2.

2. As suspeitas de não autenticidade avolumaram-se com o estudo de Andrew Bernhard. Basicamente o que diz este “master of studies” da Oxford University é que o papiro da polémica é uma manta de retalhos (“patchwork”) elaborada a partir do Evangelho (copta) de Tomé. Alguém, nos tempos modernos, com conhecimentos básicos de copta, foi ao Evangelho de Tomé e copiou palavra a palavra o que se encontra no papiro da mulher de Jesus. O investigador encontrou correspondências para todas as palavras exceto para “esposa”. Este quadro resume a explicação:


No lado esquerdo, as palavras do Evangelho da Mulher de Jesus (The Gospel of Jesus’s Wife). Agradeço a Fernando d’Costa, que me mostrou este estudo (aqui).

3. Ainda sobre o papiro talvez valha a pena ler este estudo no Smithsonian. Ainda não o li, mas agradeço a Fernando Correia de Oliveira pela indicação.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Será fraude?


Ancient papyrus that 'proves Jesus was married' declared 'a forgery', 'unconvincing' and 'suspicious' by historical experts


  • Ancient document attracted worldwide attention because of a phrase that says Jesus refers to Mary Magdalene as his wife
  • Experts criticise its appearance and grammar, with one calling it 'dodgy'
...

Stephen Emmel, professor of Coptology at the University of Muenster, was on the international advisory panel that reviewed the 2006 discovery of the Gospel of Judas.

He said the text accurately quotes Jesus as saying 'my wife', but added: 'There's something about this fragment in its appearance and also in the grammar of the Coptic that strikes me as being not completely convincing somehow.'

...

  • Ler tudo (muito mais do que isto acima) aqui.

Agradeço a Fernando d'Costa, que me alertou para a notícia. O título da notícia da fraude também não é lá muito convincente, ao dizer que o papiro "prova que Jesus foi casado" - o que, sendo a conclusão de alguma comunicação social, não está afirmado nas palavras da investigadora que o revelou (ver e ouvir aqui).

sábado, 21 de julho de 2012

D 06 - Jesus e a doutrina tradicional do diabo e dos demónios - o que concluir?


Resposta a João Silveira, que na questão de Jesus, os demónios e os exorcismos, aqui, sem rebater os argumentos, que era o que se esperava, colocou mais alguns dilemas (no fundo é este: ou aceitamos o que a moderna investigação diz ou deitamos fora tudo da DTDD - doutrina tradicional dos diabo e dos demónios). Respondo aqui, em vez de responder nos comentários, para, no futuro, se necessário, fazer remissões para este texto (e não estar sempre a ler que não respondo às questões; às vezes não respondo; outras respondo, mas se o interlocutor é novo, e como não posso fazer links para os comentários, pode parecer que não).

Para alguns, este assunto já deu o que tinha a dar. Se é o seu caso, não perca tempo com isto, p.f.

Numa coisa concordamos, João. O texto, aqui, é uma manta de retalhos. Já o tinha dito logo no início. Mas não é uma manta de retalhos qualquer. É feita com citações de obras de referência, entre as muitas possíveis e apenas de algumas que tenho à mão (ou melhor atrás das costas, que é onde está a estante dos livros de teologia). Na realidade, o difícil foi escolher entre tantas possibilidades. E como a releitura (porque as leituras já vêm de longe), selecção e escrita foram feitas em duas ou três horas, eu próprio admito que tem limitações. É só um início. De qualquer forma, será curioso encontrar teses de doutoramento ou dicionários bíblicos de referência sobre o tema Jesus, os demónios e os exorcismos que fundamentem a DTDD e se oponham ao que deixei escrito. Se o João ou Bernardo quiserem fazer-me esse favor…

Poderá argumentar, contudo, que a dogmática católica não se faz somente com os dados bíblicos. Com certeza. Mas não contra os dados bíblicos.

Diz o João: Se… então temos que

…deitar fora o que a doutrina da Igreja diz sobre a existência do diabo e dos demónios;


Eu diria antes, e é o que tenho vindo a defender: Ponderar o que diz a doutrina da Igreja sobre o assunto; considerar o que é importante e relativo, Revelação, Tradição e circunstâncias históricas, sabendo que por vezes anda tudo misturado; reinterpretar o que realmente diz a doutrina da Igreja sobre o assunto; considerar os vários âmbitos de pronunciamento do Magistério, considerar a “hierarquia de verdades” e o desenvolvimento do dogma; ajudar a esclarecer; e não temer ter dúvidas.

…desprezar tudo o que os Papa disseram sobre a existência do diabo e dos demónios;

Há muito a desprezar (eu não usaria este termo, mas antes reconsiderar, reavaliar, interrogar), sim, se pensarmos, por exemplo, na cobertura legal à queima das bruxas (umas, sim, pensavam que tinham relacionamentos com o diabo; outras mulheres, sem nunca terem sido bruxas, por vezes por apenas terem um sinal corporal, foram vítimas da paranóia colectiva, católica e protestante, com certeza). E muito mais a reinterpretar. E ainda mais a ouvir quando se trata de estar atento ao mal e seus simbolismos.

Quanto aos Papas, na realidade, nos últimos anos, há mais silêncio do que pronunciamentos, muito raros, simbólicos ou não, sobre o diabo, e nenhum, que eu conheça, sobre possessões, por exemplo.

…desprezar tudo o que os santos disseram sobre a existência do diabo e dos demónios;

Com certeza que sim, neste e noutros capítulos, mas não "tudo". Eu diria relativizar em vez de desprezar. Gosto muito de São Bernardo (e, para questões teológicas, já agora, mais do seu arqui-inimigo Abelardo), mas quer que acredite que eram demónios as moscas que exorcizava? (É a terceira vez que refiro este exemplo; mas ainda não disse que Belzebu, Baal Zebu, quer dizer “Senhor das moscas”). Leio Lactâncio (não é santo, mas é um autor importante do cristianismo primitivo), mas quer que acredite que Deus e Satanás eram ambos vassalos de um Grande Deus? Admiro muitíssimo Orígenes (um monstro da teologia antiga, só superado por Agostinho), mas, por isso, aceite-se, até segundo a DTDD, que no final o diabo será salvo? Ou que Deus, por ardil, sacrificou Jesus ao diabo, como diz S. Gregório de Nissa? A ideia foi muito seguida pelos santíssimos padres da Igreja. Não há ironia em santíssimos.

considerar que santos como o Padre Pio, a beata Alexandrina, St. Teresa de Ávila ou S. João Maria Vianney eram malucos, porque testemunham contactos com o dito cujo.

Não diria malucos, mas antes que se exprimiam com os conceitos e comparações que tinham as suas convicções e que não são válidos nem credíveis hoje. E para pegar num exemplo de tempos relativamente recentes, do P.e Pio (os do Cura d’Ars/Vianney são idênticos), não estou a ver hoje alguém ouvir um barulho de noite, ver um cão a bufar e dizer: “É o demónio”.

Este exemplo, do princípio do séc. XX (não muito depois do Papa Leão XIII, grande homem, ter caído na patranha maçónico-demoníaca de Leo Taxil) foi-me fornecido pelo Alma Peregrina numa discussão anterior:

One night, Padre had returned to the convent of Saint Elia of Pianisi.  He couldn't fall asleep that night because of the enormous summer heat. He heard the footsteps of someone coming from a nearby room. Padre Pio thought, "Apparently, Friar Anastasio couldn’t sleep either."  He wanted to call out to him so that they could visit and speak for awhile. He went to the window and tried calling to his companion, but he was unable to speak. On the ledge of a nearby window, he saw a monstrous dog. Padre Pio, with terror in his voice, said, “I saw the big dog enter through the window and there was smoke coming from his mouth.  I fell on the bed and I heard a voice from the dog that said, "him it is, it is him". While I was still on the bed, the animal jumped to the ledge of the window, then to the roof and disappeared."

Os relatos dos santos sobre contactos com o diabo podem ser edificativos para nos alertar para as insídias do mal (nem sequer é o caso do texto acima), mas não lhes peçamos mais do que o que podem dar. Para terem validade factual e para uma interpretação literal, deveríamos contar com testemunhas, por exemplo, ou, em tempos mais recentes, com gravações (existem, por exemplo, para os estigmas do P.e Pio), o que não acontece em relação a casos demoníacos. É sempre o santo, na sua privacidade que relata a sua experiência. Visões? Estados mentais? Imaginação? Com certeza que sim, embora eu não saiba o que é ter visões. Ou simples imagens literárias? E que validade têm as visões particulares para afirmar a realidade de algo? Dir-me-á que nunca se poderá filmar o demónio, pela sua própria natureza – ou antes, pela sua própria supernatureza -, mas então entramos no campo do indemonstrável. Por outro lado, defendem, contudo, as possessões. Mas estas são filmáveis… tal como outras manifestações do demónio defendidas pela DTDD (levitações, xenoglossia e coisas do género). Há alguma credível?

Ainda sobre os relatos dos santos, há um caso exemplificativo, interessante, contado, imagine, pelo P.e Armoth (nem tudo é mau no livro recente “Mais fortes que o mal”). Ele conta-o, diz, porque “por vezes trata-se simplesmente de equívocos”. Ele conta um equívoco para contrastar com os outros casos, para que passem por verdadeiros, como se o reconhecimento de um equívoco evitasse o rótulo da ingenuidade e valorizasse os restantes casos. (Ressalvo que não é da seriedade e das boas intenções do P.e Amorth que duvido).

Transcrevo:

“É simpático o caso que aconteceu a D. Bosco [outro que admiro]. Uma vez, tinha ido a uma casa de campo para passar ali alguns dias de repouso. Estava junto com outras pessoas. Durante a noite, começaram a ouvir alguns rumores. Vinham do teto e pareciam inexplicáveis. Ele pensou na presenta do demónio, pois acontecia-lhe ser perturbado várias vezes. Pôs-se a rezar. Depois, constatando que os rumores não terminavam, decidiu com os seus amigos fazer uma revista ao local, encontrando uma galinha que ficara presa no sótão e aterrorizada batia as asas por todo o lado. Para festejar a conclusão burlesca e positiva daquela noite de sono perdida, mataram a galinha, depenaram-na e comeram-na enquanto o diabo esfrega um olho” (pág. 60).

O que tiro deste relato em comparação com outros é que, havendo várias testemunhas, o diabo não aparece. Se D. Bosco estivesse sozinho, não sei se não seria mais um caso demoníaco (em contrapartida, tinha-se salvado a galinha). Ou por outras palavras, o diabo só aparece, mesmo em forma de animais, e fala, como no caso do P.e Pio, quando só há uma pessoa a ver e ouvir – a que diz que é o demónio.

…considerar que todos os padres exorcistas do mundo são malucos ou burlões;

Nunca pensei isso dos padres exorcistas. Em França, como já disse noutro ponto, a grande maioria dos exorcistas diz-se “psicologizante” (como Charles Chossonnerie, da diocese de Lião) porque acredita que as possessões, sendo fenómenos psicológicos, não são possessões reais de demónios.


Nesta linha, já agora, leia o que diz aqui sobre possessões demoníacas.

Não fui eu que escrevi o artigo, embora já tenha usado expressões similares (como a do “efeito placebo”) antes de o ler. Sugiro que, se está em desacordo, o emende.

Há alguns exorcistas que não são lá muito equilibrados, isso há. Há muitos burlões quando se trata de lidar com os demónios, principalmente fora dos exorcistas. E há muitos que estão enganados mas não são burlões. Não conheço nenhum exorcista católico burlão. Quanto a malucos, já não posso assegurar (depende do que entende por maluco e estou a pensar num caso concreto – não é português, adianto). E muitos fazem o bem ajudando pessoas que pensam que estão possessas, sem minimamente acreditarem no diabo/demónio. Alguns, antes de fazerem o bem, fazem o mal, convencendo-as de que estão possessas.

E há exorcistas evangélicos que deixam filmar os exorcismos – estão na Internet – que com certeza são falsos para os exorcistas católicos, os quais não permitem filmar os exorcismos (ou antes, os preliminares do ritual é que vedam os exorcismos à comunicação social). Ou será que católicos e evangélicos, tão distantes em tantas matérias (Papa, Maria, Sacramentos), estão de acordo nas possessões? Temos então que o diabo será um ponto de união para um diálogo ecuménico com os evangélicos? O diabo a fazer o bem? [Aqui imagino qual será a resposta do João: Como só a Igreja Católica Apostólica Romana tem a razão toda e a fé verdadeira, o diálogo ecuménico só pode ser fruto do diabo].

Questão parecida com a da existência dos exorcistas é: porque é que a Igreja tem o rito dos exorcismos? Já esbocei uma resposta aqui, mas acrescento que, tanto quanto sei, lendo os preliminares e o ritual em si, a linguagem é muito simbólica (“repeli a força do diabo”), fala principalmente em “atormentados” pelo diabo e não “possuídos” ou "possessos", o que é totalmente diferente, e apenas uma vez tem um termo relativo a possessão. Diz assim: “Escutai, Pai Santo, o gemido da Igreja suplicante; não deixeis que o vosso filho (a vossa filha) sofra a possessão do pai da mentira”. Diria que a linguagem é escorregadia, pois não diz que está possuído/possesso. Pede, aliás, que não sofra a possessão. Parece que está para acontecer. Na chamada fórmula imperativa, diz-se: “Eu te esconjuro, Satanás (…), sai desta criatura de Deus”. Pergunto-me se a Igreja acredita realmente que com isto se expulsa uma criatura sobrenatural de um ser humano, ou se não estamos diante da linguagem litúrgica (ou quase litúrgica, neste caso, pois o ritual nem sequer é uma verdadeira ação litúrgica, como os sacramentos), simbólica, herdada de outros tempos, e, no meu ponto de vista, muito questionável para os tempos de hoje. Que os exorcismos deixem as pessoas que pensam que estão possuídas em paz, imagino que sim. Que a linguagem poderia ser outra? Provavelmente haverá vantagens nesta.

…achar que Jesus também era supersticioso e ignorante em relação à existência de demónios. Que sabia a vida da samaritana, que sabia o que Natanael tinha andado a fazer, que sabia que ia morrer e ressuscitar ao terceiro dia, mas andava enganado em relação aos demónios;

Bom, nunca se disse que Jesus é supersticioso – evito pensar em qualificar este tipo de afirmação do João. Porém, no que afirma, não percebe, primeiro, as diferenças entre os evangelhos sinópticos e o de João Evangelista, já que os exorcismos só acontecem nos sinópticos (e nunca em João – porquê?) e fala-me de exemplos do evangelho de João, como o episódio da Samaritana e o de Natanael. Não duvido dos seus parcos conhecimentos escriturísticos (porque ainda não reconheceu que o apóstolo João não é o discípulo amado – estou a ser mauzinho com esta), ainda que também não me possa orgulhar dos meus, porque estou sempre a aprender. Mas ignora que cada evangelho tem uma lógica interna, que, de facto, episódios isolados podem ser contraditórios. Além de que nenhuma cristologia séria, hoje, defende uma omnisciência de Jesus como a que a sua breve afirmação deixa patente. Ou pelo menos não entende a omnisciência de uma forma mágica. Também é isso que Jesus recusa nas tentações… do diabo.

…trocar a credibilidade desta gente toda para ficar com teólogos dissidentes;

Falso dilema, porque não se trata de "trocar", nem de "credibilidade", nem de "desta gente toda". “Teólogos dissidentes?” Isto é difícil de contrariar quanto aos autores dos artigos dos dicionários, por exemplo, porque não os conheço (aliás, nem fui ver quem são). Mas eles falam de coisas consagradas no saber teológico. E escrevem em obras de referência. Por outro lado, noto que as obras estão publicadas em editoras católicas como a Sal Terrae, Sigueme, Gráfica de Coimbra (que é da diocese de Coimbra), Paulus (que tanto editou os livros de Ariel como os de Amorth). Quanto à Herder, embora seja das mais importantes editoras de teologia, julgo que não tem o estatuto de católica, que aqui invoco, não porque para mim seja relevante, mas porque julgo que será para o João, ou pelo menos responde à dissidência.

Desculpe-me se a resposta foi bastante maior do que as provocações. Ou se me provocou por provocar e eu o levei a sério.


Para rir um pouco veja este vídeo sobre a levitação. É a terceira parte de cinco. Sugiro que veja(m) as outras, até porque a levitação, pelo menos no cinema, é um fenómeno associado às possessões. E ficamos a conhecer o patrono dos astronautas.


sexta-feira, 20 de julho de 2012

D 05 - Jesus, os demónios e os exorcismos


O que aqui vou deixar não é um tratado nem sequer um artigo académico sobre a questão. Trata-se simplesmente de dicas recolhidas de outros que pensaram a questão com mais profundidade do que eu. É mais um esboço com alguns elementos mal ligados do que uma exposição sistemática.

Na questão dos demónios nos evangelhos e em qualquer outra bíblica, não devemos olhar para os textos com as nossas ideias dogmáticas, mas analisá-los e procurar entender o que querem dizer. Num segundo momento, poderemos tirar conclusões para a dogmática e para a nossa ação e a da Igreja, a pastoral. Fico-me só pelo primeiro aspeto: procurar perceber o que significaram os exorcismos de Jesus.

Para isso, em primeiro lugar, temos de apontar o que hoje sabemos sobre as mentalidades da época de Jesus, a partir de obras de referência.

Nos últimos séculos a. C., a chamada época intertestamentária, “sob influência do dualismo persa, produziu-se uma evolução nas conceções de determinados meios judaicos. Apareceram então «espíritos do mal», opostos a Deus” (Diccionario Enciclopédico de la Bíblia, Herder, 1987, 414).

Notemos, também, que os evangelhos foram escritos em grego e no meio da mentalidade greco-romana (certamente em comunidades judaicas no seio da cultura helenística).

“Segundo a crença popular grega, o mundo está cheio de demónios, de seres que ocupam um lugar intermédio entre os deuses e os homens e sobre o quais influenciam e aos quaise se aplaca mediante a magia, a bruxaria e o conjuro ” (Diccionario Teologico del Nuevo Testamento, II, Sigueme, 14).

“Segundo a história das religiões, o que se diz entre os cristãos do demónio está sujeito a influxos extrabíblicos, pagãos e pré-cristãos: já séculos antes de Cristo existia o dualismo persa dos princípios do mundo, com o deus mau das travas, Angra Manyu, que influenciou certos círculos do judaísmo. E certamente na formação da doutrina eclesiástica sobre o demónio influenciaram eficazmente tais correntes extracristãs; influenciaram as doutrinas gnósticas (…) Não se funda na Bíblia o mito de Lucifer: Satanás originariamente seria um anjo de luz que se teria levantado contra Deus e teria sido derrubado para ser submetido a um castigo (Diccionario Teologico del Nuevo Testamento, IV, Sigueme, 165-6).

Prossigamos para Jesus e o seu ambiente cultural.

“No judaísmo, abandona-se a grande moderação que a religiosidade veterotestamentária  mantinha sobre este ponto [o demónio] e propaga-se a crença nos demónios, se bem que o judeu nunca se tenha sentido ameaçado pelos demónios como os adeptos  das religiões à sua volta. Os doutores da lei também admitiram a crença nos demónios. As figuras demoníacas são numerosas - sedim, poderosos; mazzidin, maléficos; mehabilim, corruptores; pegaim, tentadores; sirim, demónios com figura de bode; ruah raah, espírito mau. Numa época mais antiga acreditava-se que os demónios tinham nascido da união dos anjos caídos com mulheres (Gn 6,1). Outros pensavam que uma parte da geração dos homens que construíram a Torre de Babel foram transformados em demónios; ou que os demónios surgiram do comércio entre Adão e Eva com espíritos femininos e masculinos, respetivamente; ou que os demónios são uma criação singular de Deus” (Diccionario Teologico del Nuevo Testamento, II, Sigueme, 15).

É neste contexto que vive, pensa, anuncia, come, bebe, fala, cura Jesus.

“Sem dúvida que Jesus e o cristianismo primitivo têm a mesma ideia do demónio que os seus contemporâneos. Mas enquanto o ambiente judaico e pagão tentava desterrar e exorcizar os demónios recorrendo a sortilégios, conjuros e outras práticas mágicas, Jesus expulsa-os com a sua palavra (Mt 8,16), de tal forma que as expulsões de demónios são fenómenos que acompanham a sua pregação, a par com as curas (Mc 1,39). Dado que Jesus tem plenos poderes de Deus e se mostra como o mais forte (Mc 1,14), os demónios temem-no e inclinam-se diante dele. Graças a esta soberania que ele possui, pode outorgar aos seus discípulos o poder de expulsar os demónios (Mt 10,1.8) e esta autoridade sobre as potências demoníacas é o sinal de que em Jesus aconteceu a irrupção do reino de Deus (Mt 12,22)” (acrescentarei mais tarde a fonte deste trecho).

Temos ainda que notar que os conceitos de verdade e de história desta época não são os nossos. Uma lenda herdada da noite dos tempos é apropriada como verdade. E não podemos esquecer que a linguagem bíblica, oriental, é fantasiosa e imaginativa.

Por outro lado, nos evangelhos diz-se que se dão possessões demoníacas, mas nunca possessões diabólicas. Essa distinção é significativa e é feita por muitos autores, entre os quais o que aqui se cita. Este ponto da doutrina deste autor não foi posto em causa pela autoridade eclesiástica, ao contrário de outros, num processo pouco claro e já apontado por alguns neste blogue para desconsiderar o pensamento do autor. Insisto que o texto é uma exposição acessível para compreender a questão.

Jesus expulsa demónios. Jesus não expulsa o diabo porque não há possessões diabólicas na Bíblia. Jesus acalma a tempestade da mesma forma que expulsa um demónio. O demónio sai e a pessoa fica calma, curada. O demónio sai da tempestade e o mar fica calmo, curado. Outros expulsavam demónios, mas nenhum curava a natureza. Só Jesus.

Nenhum dos possessos curados por Jesus mostra os sinais que “podem indiciar a presença de distúrbios de origem diabólica” referidos pelos exorcistas atuais. Cito os tais sinais (aqui, ponto 13):

“Conhecer línguas desconhecidas à pessoa, bem como factos ocultos, manifestar uma força acima do normal e ter aversão às coisas sagradas; ver, ouvir, sentir, cheirar e imaginar coisas inexplicáveis à luz das ciências psicológicas; ter doenças ou distúrbios somáticos inexplicáveis à luz das ciências médicas; acontecimentos estranhos com objetos e animais inexplicáveis à luz da ciência, como por exemplo, coisas que se movem do lugar sozinhas, eletrodomésticos que se acendem e desligam sozinhos, etc.”.

[Temos de concluir por aqui, em alternativa, que a) as possessões no tempo de Jesus não eram verdadeiras possessões; ou b) as possessões de agora não são verdadeiras possessões como no tempo de Jesus; ou c) umas e outras são outras coisas que verdadeiras possessões; também podemos ser pela d) os sinais das chamadas possessões mudam de época para época; eu sou pela d) porque c)].

Claro que no tempo de Jesus não havia eletrodomésticos. E há um caso de alguém com uma força acima do normal, o possesso de Gerasa (Mc 5,1-14, episódio tão querido de Saramago por causa do desperdício de carne de porco com tanta gente a passar fome, dizia ele, numa interpretação literalista, aliás muito próxima, nos seus métodos, da dos defensores da doutrina tradicional do diabo e do demónio).

Vejamos o que diz um investigador atual sobre esta “possessão”, que geralmente é apontada pelos exorcistas como a mais importante, e o que significa a ação de Jesus de exorcizar. Considero que, entendido assim, as ações de Jesus são muito mais iluminadoras para o homem contemporâneo.






Os texto acima é retirado de "Jesus, uma abordagem histórica", de José Antonio Pagola (Gráfica de Coimbra 2, 2008).

Manuel Fraijó, em “Satán en horas bajas”, Sal Terrae, 1993, afirma, em resumo (reconheço que alguns, invocando determinadas cristologias, repudiam à partida o que se segue):

"É provável, ainda que não seguro, que Jesus participasse da mentalidade do seu tempo e acreditasse nos demónios. Não seria o único erro que há que lhe imputar. Também parece que contou com o fim iminente do mundo. Os escritos bíblicos afirmam que Jesus foi igual em tudo a nós, menos no pecado. Não esteve, pois, isento de erros. Nem tal significa que os cristãos estão obrigados a partilhar estes erros".



“A maioria das passagens em que os evangelhos falam de Satã e seus sequazes são criação da comunidade posterior. Não são, pois, expressão das ideias pessoais de Jesus sobre Satã. (…) Do conjunto da mensagem de Jesus deduz-se que o autêntico perigo para o ser humano não procede de Satã, mas do coração humano. O que mancha o homem, diz Jesus, nunca é o que vem de fora, mas o que procede de dentro".


"A figura de Satã não faz parte da autocompreensão essencial de Jesus nem é necessária para que os cristãos acedam a Ele. Jesus anunciou a Deus, não a Satã. Se alguma vez recorreu a Satã, foi para exemplificar melhor a sua mensagem. Mas não especulou sobre ele nem desenvolveu uma teoria demonológica. Toda a sua vida, morte e ressurreição se orientou em prol do positivo, da boa nova. O verdadeiramente importante para os cristãos não é Satã nem os milagres de Jesus, mas o «milagre Jesus»".

Citando Vasco Pinto de Magalhães, que se reporta a Walter Kasper, temos de afirmar que “interpretando os textos bíblicos com a exegese atual [que não é feita aqui; apenas se dão pistas] não é possível manter a doutrina tradicional” do diabo e do demónio.

Quero ainda mostrar como um autor atual e insuspeito entende hoje a missão de Jesus dada aos discípulos de “exorcizar e curar”. A seguir, mas não sei ao certo quando.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Como criticar a Igreja

Num debate sobre a Igreja, entre crentes, é comum a certa altura dizer-se que os mais críticos da Igreja, ao criticarem a Igreja, criticam o próprio Jesus Cristo. Já por este blogue, diversas vezes, andaram conceções semelhantes, que radicam numa eclesiologia que diz que a Igreja é o "corpo místico de Cristo", ou que não é possível ter a foz sem ter o rio todo, servindo-me agora de uma imagem de John Henry Newman.

Walter Kasper, no livro que tenho andado a reler com imenso proveito, vai por outro lado. (E não é, claro,o único.) Diz que acentuar o carácter escatológico da fé (isto é, uma fé aberta ao futuro, nunca completamente realizada no momento presente) implica que se tome a sério a diferença entre Igreja e Reino de Deus, entre Cristo e a Igreja. "Esta não mais pode ter-se a si mesma como representação de Deus ou como Christus prolongatus". Aponta depois o fundamento e, de certa maneira, o modo de fazer boa crítica eclesial, que, a meu ver, assemelha-se muito ao fundamento e ao modo como Jesus Cristo criticou o judaísmo, com base nas Escrituras, sem nunca deixar de ser completamente judeu:
No passado, conseguiu-se muitas vezes, por meio de tal pretensão, ficar imune contra toda a crítica, recusando-se esta como expressão da falta de eclesialidade ou até de descrença. Mas, no caso de se reconhecer que a Igreja possui no Evangelho uma norma prévia e superior, então é viável e susceptível de fundamento teológico a crítica sobre a Igreja. Por derivar do Evangelho e sublinhar o seu carácter escatológico de crise, será mais radical que toda a crítica proveniente do exterior. Toma, por assim dizer, a Igreja pela própria palavra e tenta transformá-la a partir de dentro. Não constitui uma crítica altaneira e distante, a partir de cima, mas uma crítica ativa e passiva, cuja finalidade única consiste em relevar o elemento cristão distinto e decisivo, movendo-o à provocação no meio da Igreja. 
Pág. 182 de "Introdução à fé"

terça-feira, 19 de junho de 2012

O diabo e o demónio são o mesmo?

Respondendo a alguns leitores, deixo aqui um artigo de Ariel Álvarez Valdés sobre a distinção, nos evangelhos, entre diabo e demónio. O texto foi retirado de "Que sabemos da Bíblia? - IV", edição Paulus, 1996, pág. 5-18. É, digamos, um texto de divulgação, mas faz distinções, numa linguagem mais do que acessível, que ajudam a esclarecer a questão. Mais subsídios noutra altura.














quarta-feira, 2 de maio de 2012

Ortodoxia dramática



Os homens habituaram-se, loucamente, a falar da ortodoxia como de qualquer coisa pesada, estúpida e segura. Nunca houve coisa tão perigosa ou tão excitante como a ortodoxia. Era a sanidade: o ser são é mais dramático do que ser louco.


Chesterton, "Ortodoxia" (Livraria Tavares Martins, 1947), 163.


Citação com certeza ao gosto de alguns dos leitores ortodoxíssimos que de vez em quando comentam neste blogue. Mas faço notar que, segundo Chesterton, agora outra vez tão em voga em alguns círculos, se a ortodoxia não é pesada, porque libertadora, nem estúpida, porque sabedoria, também não é segura, porque plural. A ortodoxia não é unívoca, desde o princípio. Pensemos nos quatro evangelhos, diferentes, complementares e irreconciliáveis, para não dizer contraditórios. Está dito. A ortodoxia é dramática. Por isso é que Chesterton andava frequentemente despenteado.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sobriedade da Ressurreição



Os evangelistas não caíram na tentação de dizer que «viram a Ressurreição», o que dado o seu afã apologético, teria sido quase compreensível (e a prova é que alguns Evangelhos chamados «apócrifos» caíram nessa tentação fácil). Os evangelistas limitam-se a dizer que o Ressuscitado «se lhes manifestou». Deste modo tornam as coisas mais difíceis para nós na hora de acreditarmos. Mas talvez ganhem respeito por causa da própria sobriedade do seu testemunho.


González Faus

sábado, 21 de abril de 2012

Anselmo Borges: O efeito de Mateus

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui), desmentindo aquela celebre afirmação pessoana de que Jesus não percebia nada de economia.



Significativamente, os mestres religiosos foram advertindo particularmente contra a ganância, que leva à corrupção, à opressão, à injustiça, à violência e à morte.

Ficam aí, a título de exemplo, três textos famosos do Evangelho segundo Lucas e São Mateus. Não se esqueça que Mateus sabia bem do que falava, pois tinha sido chefe de cobradores de impostos.

1. A primeira parábola é a do administrador infiel. Um homem rico tinha um administrador, que foi denunciado por ter dissipado os seus bens. Chamado a prestar contas e percebendo que ia ser demitido, reflectiu: "Que farei, visto que o meu patrão me tira o emprego? Lavrar a terra? Não posso. Mendigar? Tenho vergonha. Já sei o que vou fazer, para que haja quem me receba em sua casa, quando for despedido. Chamou, pois, separadamente, a cada um dos devedores do seu patrão e perguntou ao primeiro: Quanto deves? Ele respondeu: Cem medidas de azeite. Disse-lhe: Toma a tua conta, senta-te depressa e escreve: cinquenta. Depois, perguntou ao outro: Tu, quanto deves? Respondeu: Cem medidas de trigo. Disse-lhe o administrador: Toma os teus papéis e escreve oitenta."

Quando se olha para o descalabro de bancos, défices brutais em obras públicas, corrupções em cadeia, conhecidas e desconhecidas, somos levados a perguntar quantas vezes esta parábola se tornou realidade entre nós. Até sem papéis.

2. A segunda parábola é a dos talentos. A um foram dados cinco talentos - talento era uma unidade monetária. E ele, negociando, ganhou outros cinco. O que recebeu dois ganhou outros dois. O que recebeu apenas um, foi cavar a terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.

Quando o senhor voltou, prestaram contas. E os que tinham recebido cinco e dois talentos ouviram a sentença: "Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, confiar-te-ei muito. Vem regozijar-te com o teu senhor." Mas o que recebeu um só talento disse: "Senhor, sabia que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, tive medo e fui esconder o teu talento na terra. Aqui está, toma o que te pertence." Sentença do senhor: "Servo mau e preguiçoso! Sabias que colho onde não semeio e que recolho onde não espalhei. Devias, pois, levar o meu dinheiro ao banco e, à minha volta, eu receberia com os juros o que é meu. Tirai-lhe este talento e dai-o ao que tem dez."

E seguem-se estas palavras terríveis: "Ao que tem dar-se-á e terá em abundância. Mas ao que não tem até o que tem lhe será tirado."

Ora, não é esta a lógica da Banca? Não se trata, evidentemente, de modo nenhum, de legitimar a preguiça e a inépcia. Mas não é uma constatação: os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres? Aí está o que os sociólogos denominam, precisamente a partir da parábola, o "efeito de Mateus": quem leu mais em criança tem mais possibilidades em adulto; com trabalhos e resultados iguais, os cientistas mais famosos serão mais citados do que os menos famosos; quem mais tem, em princípio, aumentará constantemente a sua riqueza.

3. Mas, no Evangelho, depois destas parábolas, vem o Juízo Final. Do que se trata é de revelar o essencial da história do mundo, na perspectiva de Deus. E o decisivo não são actos de culto, mas a justiça e a solidariedade : "Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado, porque tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e acolhestes-me; nu e vestistes-me; enfermo e visitastes-me; estava na prisão e viestes ver-me."

Os justos não sabiam: "Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber, peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos, enfermo ou na prisão e te fomos visitar?" E Cristo: "Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim mesmo que o fizestes." O que se faz ao outro é feito a Cristo.

Entretanto, parece confirmar- -se cada vez mais o "efeito de Mateus": não está o fosso entre os ricos e os pobres cada vez mais fundo? Cuidado! A situação pode tornar-se explosiva.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...