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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Bispos bergoglianos

Em Itália, dois bispos bergoglianos em dioceses tidas como "cardinalícias", Palermo e Bolonha. Um, talvez à falta de metro, anda de bicicleta. O outro escreveu um livro de "combate espiritual contra a máfia". Por outro lado, parece que agora manda mais a Comunidade de Santo Egídio do que a Opus Dei. Ler aqui.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Gálatas 3,28

A Igreja Anglicana aprovou na segunda-feira a possibilidade de ordenar mulheres bispas. Já podiam ser ordenadas em cinco países da Comunhão Anglicana, mas não em Inglaterra. Tenho pena de os católicos não estarem à frente nisto.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Vínculo da morte e morte do vínculo

Um artigo inteligente. Dos melhores que li sobre o assunto, embora tenha lido pouco, talvez por ter ideias próprias de mais e esperança no sínodo sobre a família de menos. Cinco posições do sínodo quanto à comunhão para os católicos recasados. Eu fico-me pela última:
e) há, enfim, a solução que propõe que se considerar a dissolução do vínculo por "morte" também como extensível à hipótese de "morte do vínculo". Na tradição oriental, essa leitura é possível graças a uma interpretação das "exceções matianas" [referentes ao Evangelho de Mateus] entendidas como verdadeiras exceções. A possibilidade de assumir essa leitura também no Ocidente, no entanto, não é totalmente pacífica.
Como disse o outro, é eterno enquanto dura.

Por outro lado, noto que um mal-entendido geral perdurou no sínodo - julgo eu, mas não acompanhei o sínodo com a devida atenção. As pessoas, desde a revolução industrial, casam-se por amor. Antes disso, casavam-se por outros motivos (a escolha dos pais, as questões do património, a obrigação de descendência). Casavam-se e depois talvez surgisse o amor. Se não surgisse, também pouco importava. Hoje casam-se por amor e desejo. Manda a paixão. E enquanto dura a paixão, tudo suportam. Quando acaba, é que pode passar a mandar a vontade. No fim, manda a vontade. E por isso muitos não se separam, mesmo que não se amem. Antes, no princípio mandava a vontade. É com base na vontade que existe todo o processo de casamento católico e toda a teologia sacramental matrimonial da indissolubilidade. Esta discrepância entre a mentalidade comum e a história da Igreja é a fonte de todos os equívocos. Só a alínea e) do artigo de Gillo a pode ultrapassar.

Ao que interessa:  O artigo pode ser lido aqui.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Oxalá que sim

No sínodo parece que não se entendem. E isso é capaz de ser bom. Para continuar tudo na mesma, não era preciso deslocaram-se a Roma. Mesmo em low cost.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Mulheres no episcopado

O sínodo da geral Igreja da Inglaterra (anglicana) aprovou nesta segunda-feira por esmagadora maioria a ordenação de mulheres como bispos, uma medida histórica que a dividia há anos.

Li aqui. Fico contente com a notícia. Um dia lá chegaremos nós, os católicos. Pena não estarmos à frente.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Anselmo Borges: Família em crise, desejo de família. 1

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado:

Quem porá em dúvida o valor essencial da família como lugar predilecto dos afectos, do amor, da partilha, célula fundamental da sociedade, espaço privilegiado para ter filhos e educá-los?

Sobre tema tão fundamental o Papa Francisco quis saber, em tempos de crise, o que verdadeiramente se passa. E saber directamente, não por intermediários, pois estes vão frequentemente ao Vaticano dizer apenas o que julgam que o Papa e a Cúria querem ouvir.

A síntese das respostas dadas, por diversos meios, pelos católicos do mundo inteiro ao famoso inquérito papal sobre a família, com 39 perguntas, foi publicada na semana passada pelo Vaticano. Esse documento de mais de 80 páginas servirá de base para o debate do próximo Sínodo dos bispos de todo o mundo sobre a família, a realizar em Roma de 5 a 19 de Outubro próximo.

Um dos pontos mais sublinhados pelo documento refere-se precisamente à importância da família. Ela é "núcleo vital da sociedade e da comunidade eclesial", a "célula fundamental da sociedade, o lugar onde se aprende a conviver na diferença e a pertencer a outros". "A família é reconhecida no povo de Deus como um bem inestimável, o ambiente natural de crescimento da vida, uma escola de humanidade, de amor, de esperança para a sociedade"; "reconhecida como o lugar natural para o desenvolvimento da pessoa, é também o fundamento de toda a sociedade e Estado"; ela é definida como a "primeira sociedade humana", "o lugar no qual se transmitem e se podem aprender desde os primeiros anos de vida valores como a fraternidade, a lealdade, o amor pela verdade e o trabalho, o respeito e a solidariedade entre as gerações bem como a arte da comunicação e da alegria. É o espaço privilegiado para viver e promover a dignidade e os direitos do homem e da mulher. A família, baseada no matrimónio, representa o âmbito de formação integral dos futuros cidadãos de um país". "A primeira experiência de amor e de relação tem lugar na família: sublinha-se a necessidade de que cada criança conte com o amor e o cuidado protector dos pais e viva uma casa onde habita a paz."

O documento é notável. Conseguiu em pouco tempo fazer uma síntese clara e integrada - reconheça-se que era uma tarefa dificílima - das respostas recolhidas pelas conferências episcopais de todo o mundo ou enviadas directamente por outros organismos. E há razões sérias para considerá-lo fidedigno, pois até reconhece inequivocamente as dificuldades e mesmo alguma "resistência" de boa parte dos católicos quanto à aceitação integral dos ensinamentos da Igreja sobre múltiplos temas: controlo da natalidade, o divórcio e novo casamento, as relações pré-matrimoniais, a fidelidade, as uniões de facto, o casamento à experiência, a homossexualidade, a fecundação in vitro, etc.

Embora se dirija directamente aos católicos e no quadro do pensar católico, o documento é mais abrangente, mesmo quando apresenta razões da crise da família e, mais concretamente, da moral familiar. Referindo as respostas recebidas, diz: "Existe unanimidade também no que se refere aos motivos de fundo das dificuldades, quando se trata de acolher os ensinamentos da Igreja: as novas tecnologias; a influência dos meios de comunicação social; a cultura hedonista; o relativismo; o materialismo; o individualismo; a secularização crescente; o facto de prevalecerem concepções que conduziram a uma excessiva liberalização dos costumes em sentido egoísta; a fragilidade das relações interpessoais; uma cultura que rejeita decisões definitivas, condicionada pela precariedade, a provisoriedade, própria de uma "sociedade líquida", do "usar e deitar fora", do "tudo e imediatamente"; valores sustentados pela denominada "cultura do descarte" e do "provisório", como recorda frequentemente o Papa Francisco".

E lá está a constatação: apesar da crise, há testemunhos significativos nos quais "se manifesta claramente, sobretudo nas novas gerações, um renovado desejo de família". Voltarei ao tema e suas dificuldades no próximo sábado.

terça-feira, 8 de abril de 2014

D. António Francisco. Do Paço aos Paços

Até há pouco era o meu bispo. Julgo que nunca falei dele no meu blogue (talvez apenas num ou noutro comentário, como reação). Agora que já não é meu, por cá estará sempre que... (na verdade, não sei qual é a condição), como hoje. Começa com um gesto simples. Caminhar a pé, do Paço até aos Paços. Um gesto simples de um homem grande. Que espero que conquiste o Porto com a sua simplicidade, humildade, serviço.


sábado, 1 de março de 2014

Anselmo Borges: "Eles já não são os mesmos"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (daqui).

1. A exposição do cardeal-teólogo Walter Kasper na semana passada aos cardeais, reunidos em Roma para darem início à reflexão sobre a família no mundo actual e a pastoral familiar, foi publicamente aplaudida pelo Papa Francisco.

A intervenção não veio a público. Mas o cardeal já tinha expressado claramente o seu pensamento, concretamente sobre a admissão à comunhão dos divorciados que voltam a casar. Já em Dezembro tinha dito ao semanário Die Zeit que os divorciados recasados "terão em breve acesso novamente aos sacramentos". E, na véspera do debate no consistório dos cardeais, afirmou, aliás na linha de Francisco, que repete constantemente "Deus não se cansa de perdoar": "Todo o pecado pode ser perdoado. Também o divórcio. Esse é o ponto de partida. Alguém pode cair num buraco negro de que Deus o pode tirar." E insistiu: "O Papa convida-nos a ir às periferias, aos subúrbios da existência humana, para sermos como o bom samaritano que ajuda e não como o sacerdote e o levita do Evangelho que têm respostas preparadas para tudo. A Igreja deve ser o hospital de campanha que cura todas as feridas." A doutrina "não é uma lagoa estancada. É uma viagem, um ponto de partida, não de chegada, e a tarefa da Igreja é ir ao encontro das pessoas". Não se pode "defraudar as expectativas, especialmente no referente à família".

Está, pois, aberto o caminho para a admissão à comunhão dos divorciados que se voltam a casar. A resposta definitiva virá dentro de dois anos, no Sínodo de 2015.

2. Nem todos estão de acordo. O cardeal G. Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, por exemplo, declarou: permitir "o acesso dos divorciados à Eucaristia causaria confusão nos fiéis quanto à doutrina da Igreja".

Então, há quem proponha como solução sobretudo a avaliação das condições de validade dos casamentos e a aceleração da declaração de nulidade. Ora, certamente é urgente acelerar e agilizar os processos de nulidade, mas pensar que essa é a via pura e simples de solução é perigosíssimo. Em primeiro lugar, porque daria azo a facilmente desqualificar a liberdade e a responsabilidade dos casais. Depois, porque o que acontece normalmente é que as pessoas partem de boa-fé e vontade para o ideal de um casamento estável, fiel e feliz, mas, depois, a vida é o que é, e por culpa de um ou do outro, por culpa dos dois ou por culpa de nenhum, a vida em comum já não é mais suportável, de tal modo que, em certas circunstâncias, o divórcio não só é legítimo mas necessário. A identidade humana é narrativa e o tempo tudo corrói. O grande Pascal disse-o de modo inexcedível nos Pensamentos: "O tempo cura as dores e as querelas, pois mudamos: já não somos a mesma pessoa. Ele já não ama esta pessoa que amava há dez anos. É isso: ela já não é a mesma, e ele também não. Ele era jovem, ela também; ela agora é totalmente diferente (tout autre). Talvez ele ainda a amasse, se ela fosse como era." E não terão o direito a recomeçar a vida e outro amor, na dignidade livre e na liberdade com dignidade?

3. Olhei para a imagem daqueles 150 cardeais em Roma e perguntei a mim mesmo: vão ser estes homens, só homens, solteiros e alguns com idade avançada, que, por mais dignos e competentes que sejam, vão, sozinhos, decidir da família do futuro, da moral sexual e da pastoral familiar? E aplaudi com as duas mãos a pergunta que organizações cristãs de todo o mundo fizeram ao Papa e ao G8 cardinalício: "Que seria um "Sínodo da Família" sem incluir aqueles que vivem numa família?" Evidentemente, um Sínodo autêntico sobre a família requer a participação de mulheres e homens comprometidos, vindos de todas as partes.

P. S. Depois dos descaminhos da imprensa no ensaio de nomes, o Papa Francisco nomeou finalmente o novo bispo do Porto: António Francisco dos Santos, até agora bispo de Aveiro. Homem simples, humilde e sábio, vem como pastor para uma diocese tão importante quanto difícil. Também se chama Francisco, e, neste caso, o nome não é mera coincidência.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Igreja não é uma coisa só minha!

Eu não sou mais que um momento de uma vida imensa - a da Igreja - que se personaliza em mim, mas que me envolve e me ultrapassa, me precedeu e sobreviverá depois de mim. Não é uma coisa só minha!

Yves Congar, 1967


E muito penso no papel de cada um, da leiga ao leigo, passando pelos ordenados e focando muito em concreto num bispo.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

E o Porto ali tão perto

Várias vozes, anónimas, por isso não sei se é a mesma, comentaram aqui no blogue que D. António Couto, bispo de Lamego, aceitou ir para o Porto. A ver vamos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Anselmo Borges: "As perguntas do Papa Francisco. I"

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado (aqui):


É normal, antes de cada Sínodo dos Bispos, auscultar os diferentes episcopados sobre a problemática a debater. Mas, desta vez, foi diferente, de tal modo que os media mundiais deram e dão imenso relevo ao tema. Que se passa?

Por um lado, o Papa Francisco não dirige o seu inquérito apenas aos cardeais, bispos, padres. Ele quer que todos sejam ouvidos, que o inquérito chegue às bases, pois, como constantemente acentua, a Igreja somos nós todos. Ele tem uma visão da Igreja enquanto um Nós, Povo de Deus. Por isso, não mantém uma concepção vertical de governo da Igreja, mas sinodal (a palavra é rica, quando se atende ao étimo grego: reunião, caminhar juntos, fazer juntos o caminho). No fim, será ele, em última instância, a decidir, mas sinodalmente, não separado dos outros bispos nem dos fiéis.

Por outro lado, sendo a próxima Assembleia do Sínodo sobre a família, Francisco quer saber o que pensam os católicos sobre esse tema fundamental e decisivo, sem ocultar as questões, mesmo que difíceis e fracturantes.

Assim, quer saber o que é que os católicos sabem da concepção da Igreja sobre a família e se essa doutrina é aceite. Que é que se pensa sobre o fundamento natural da família? Aceita-se o conceito de lei natural com relação à união entre o homem e a mulher? Como enfrentar os desafios que se colocam no caso de não praticantes ou não crentes pedirem o matrimónio? Que caminhos pastorais se tem seguido na preparação dos casamentos, no sentido da oração em família e transmissão da fé às novas gerações pelas famílias, e em relação a casais em crise?

Francisco não ignora situações matrimoniais difíceis. Por exemplo, a convivência experimental, uniões livres de facto. Como vivem os baptizados as suas irregularidades? São conscientes delas, manifestam indiferença, vivem com sofrimento a impossibilidade de receber os sacramentos? Quantas são as pessoas divorciadas e recasadas e que pedem os sacramentos da eucaristia e da reconciliação? A simplificação do processo de declaração de nulidade do vínculo matrimonial poderia ajudar nestes casos? Que pastoral existe para estas situações?

O Papa também quer saber se no respectivo país há uma lei civil que reconhece as uniões de pessoas do mesmo sexo equiparadas ao casamento. Que pastoral para as pessoas que escolheram viver segundo este tipo de uniões? Se adoptaram crianças, como comportar-se em ordem à transmissão da fé? Em geral: no quadro de situações matrimoniais irregulares, com que atitude se dirigem os pais à Igreja no sentido da educação religiosa dos filhos e que prática sacramental existe nestes casos?

Quanto à abertura dos esposos à vida: que conhecimento têm da doutrina oficial da Igreja sobre a paternidade responsável e que avaliação fazem dos diferentes métodos de regulação dos nascimentos? Que métodos naturais promove a Igreja? Que consequências tem a prática dos anticonceptivos na participação dos sacramentos, nomeadamente, na eucaristia? Como favorecer o aumento dos nascimentos? A família é um lugar privilegiado para o encontro com Cristo?

A pergunta, agora, é como procederão as Conferências Episcopais para que todos os interessados possam participar. Por exemplo, entre nós, teoricamente há pelo menos cinco milhões de católicos que poderão responder. Quem e como vai fazê-lo, para que haja na Igreja uma tomada de consciência real do que se passa?

Só dentro de dois anos saberemos as resoluções que Francisco tomará. Mas não é impossível antecipar linhas de orientação - no próximo sábado, apresentarei as minhas respostas pessoais. 1. Evidentemente, a Igreja continuará a afirmar o seu ideal de matrimónio: uma união definitiva e fiel de amor entre um homem e uma mulher, aberta à procriação. 2. Nenhuma criança será discriminada, seja qual for a sua origem. 3. Alguma abertura aos anticonceptivos, com a revisão da Humanae Vitae. 4. Admissão dos recasados, dentro de certas regras, à comunhão. 5. Maior compreensão e acolhimento dos homossexuais, mas sem admissão institucional ao casamento e à adopção. 

domingo, 24 de novembro de 2013

Fernanda Câncio: "As famílias dos bispos"

Texto de Fernanda Câncio, no DN de 22 de novembro, caindo no erro sinedoqual de tomar Lisboa pelo país, D. Manuel Clemente pelos bispos portugueses. Penso eu. (Agradeço a um leitor que me alertou para o texto). De resto, entre esta e outras confusões, talvez algo se aproveite. É ler.

Que situações críticas da família no mundo contemporâneo podem tornar-se um obstáculo ao encontro da pessoa com Cristo?" Não se assuste, a pergunta não é minha: faz parte do questionário para o Sínodo da Família, iniciativa do Papa vertida, pelos bispos portugueses, em 57 questões passíveis de resposta online. A maioria com opções para cruzinha, como nesta: "Aborto"; "redução do cristianismo a um sentimentalismo, a um moralismo, a uma ideologia"; "cuidar de idosos ou doentes"; "divórcio ou separação"; "doença"; "individualismo"; "infertilidade"; "monoparentalidade"; "sexualidade desordenada"; "situação económica"; "uniões de facto"; "uniões entre pessoas do mesmo sexo"; "outro (especifique)". 
Então o Papa acha que a sua Igreja tem andado muito obcecada com aborto e homossexualidade e ali está o aborto em "primeiros" mais a "união das pessoas do mesmo sexo" como empecilhos a estar com Cristo? Calma: esta é a versão que os bispos de cá deram à coisa. No original, que nem menciona o aborto, esta questão tem resposta "aberta" (adotada noutros países). Por cá, porém, faz-se mais do que condicionar respostas: mudam-se e complicam-se as perguntas. O original fala de "situações críticas na família", ou seja, dentro. O "da" permite misturar, nas hipóteses sugeridas, o conceito social e legal de família e seu afastamento do ideal católico - as tais "obsessões" - com problemas no seu seio. 
Mas olhemos melhor as respostas. Se nos problemas "dentro" faz sentido incluir doença e infertilidade (por acaso uma doença), "situação económica" e "individualismo", como compreender que não haja rasto da violência doméstica, e, citando a conferência episcopal num documento recente, da "forte sujeição [da mulher] ao homem", sua "opressão" e "menorização social e cultural"? Bem sabemos que para a CEP estas situações estão "graças a Deus a ser progressivamente ultrapassadas" (ainda bem que a divindade acordou para o problema), mas será que os bispos não se lembraram que levar pancada no casamento ou morrer de morte matada pode obstar ao encontro com Cristo? Ou estão numa de humor negro? 
Por outro lado, se estamos a falar da "família católica" - e essa só há uma, a hetero unida pelo sacramento do matrimónio e mais nenhuma - que fazem ali, como suas "situações críticas", "sexualidade desordenada", "monoparentalidade", mais o "divórcio ou separação"? Aí já não há, ou nunca houve, "família", não é verdade? A não ser que, em revolução inconsciente, a CEP esteja a admitir que há "famílias", plural, e não só "família", singular. O que explica a questão, na senda do inquérito original (o quanto terá custado aos nossos bispos fazê-la) sobre a forma de agir, "em vista da transmissão da fé", quando há "uniões do mesmo sexo que têm crianças a seu cargo". Para quem propõe um referendo sobre coadoção (que não é mais do que o reconhecimento legal da existência, e proteção, de crianças nessas relações), a pergunta há de ser blasfémia.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

domingo, 17 de novembro de 2013

Bento Domingues: "Sondagem ou dinamização da Igreja?"

Bento Domingues no "Público" de hoje. Aqui (agora o texto é de acesso livre).

Ou muito me engano, ou este processo é o começo de uma revolução. Não se pede aos católicos que estejam com os Bispos e o Papa. O que se procura é que os Bispos e o Papa estejam com a Igreja. Com a parábola do Bom Pastor não se pretende que as ovelhas estejam com o pastor, mas que este esteja com o rebanho.



1. Segundo o Pew Research Center (PRC), o centro de sondagens mais respeitado, em assuntos religiosos, em cada dez pessoas, oito são religiosas. Mais de 80% da população mundial faz parte de uma religião organizada.

A religião mais numerosa continua a ser o cristianismo. Conta com 32% da população mundial. Segue-se o islão com 23% e o hinduísmo com 15%. Enquanto o cristianismo e o islão estão em vários pontos do mundo, o hinduísmo concentra-se quase exclusivamente na Índia. Metade de todos os cristãos é católica romana, 37% são protestantes e 12% ortodoxos.

Estas realidades estão sempre em recomposição, mas indicam que as religiões não estão para acabar tão cedo. Têm-se revelado até mais resistentes do que as repetidas desqualificações críticas a que têm sido submetidas. Muitas vezes com razão. De reveladoras do sentido da vida, de fontes de renovação da esperança, de resistentes ao niilismo, abrindo horizontes ilimitados tornaram-se, por manipulações várias, instrumentos do medo. Deixaram-se envolver em absurdas guerras e torturas, dando campo livre ao fanatismo em nome de Deus.

De religião para religião, as formas de expressão simbólica e ritual, as normas que as regem, as exigências éticas a que obedecem são muito diversas. As interrogações, as perplexidades e as dúvidas suscitadas pelo mistério de existir nem sempre desaguam nas respostas que as diferentes religiões codificaram. O Espírito de Deus sopra onde, quando e como quer. De qualquer modo, as formas religiosas e as suas instituições são para o ser humano e não o contrário. O teste de autenticidade das celebrações litúrgicas, das vivências espirituais e das experiências místicas, dentro e fora das instituições, prova-se na relação com os excluídos.

2. Os números, no campo religioso, só por si, não revelam - podem até ocultar - a saúde espiritual ou as crises que o atravessam. No mundo católico, há muitas vozes a reclamar mudanças e também se nota que algumas temem que o Papa Francisco comece a duvidar da infabilidade do seu magistério. Ninguém espera que, ao procurar saber como vivem e pensam os membros da Igreja, seja para fazer o rol dos erros a combater, uma espécie de reedição actualizada do Syllabus de Pio IX (1864). É mais provável que ele acredite que o sentido da responsabilidade pela vida cristã não seja um monopólio de bispos e padres e queira conhecer a sensibilidade actual dos católicos.

 O melhor lugar para fazer a leitura dos sinais dos tempos não é, necessariamente, o Vaticano. Há muitos mundos no mundo, muitas comunidades cristãs e muitas sensibilidades católicas. Não há nenhum boletim meteorológico especializado em indicar a temperatura da fé, nas diferentes regiões da terra. Nada como escutar as experiências das pessoas, das famílias, dos grupos, das comunidades espalhadas pelo mundo. Não basta.
3. Está convocada, para Outubro de 2014, a III Assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos destinada a enfrentar os desafios da família, no nosso tempo. Será que os bispos e o Papa já não acreditam na doutrina que elaboraram, tão segura e clara, a partir da indissolubilidade do matrimónio? Será que pretendem informar-se da sorte desta doutrina, na sociedade e na Igreja?

Se fosse apenas uma questão de informação, nada como encomendar um inquérito a um instituto internacional especializado, com garantias científicas. Se fosse para dar a conhecer a Doutrina católica, não era preciso tanta pergunta. O que se pretende afinal?

Era costume dizer que onde está o bispo, está a Igreja. Com os Bispos reunidos em Sínodo com o Papa, não é preciso interrogar a Igreja!

Ou muito me engano, ou este processo é o começo de uma revolução. Não se pede aos católicos que estejam com os Bispos e o Papa. O que se procura é que os Bispos e o Papa estejam com a Igreja. Com a parábola do Bom Pastor não se pretende que as ovelhas estejam com o pastor, mas que este esteja com o rebanho. É por isso que não se trata aqui apenas de um inquérito de opinião. É, sobretudo, a oportunidade de que a leitura dos sinais dos tempos referentes à situação actual da família seja feita pelo conjunto da Igreja. O processo desencadeado faz supor que o Papa e os Bispos nada querem fazer sem as comunidades cristãs. A não ser assim, estariam a enganar o laicado e a desobedecer ao grande princípio: aquilo que a todos diz respeito deve ser tratado por todos.

Não julgo que este processo possa dar azo a cisões na comunidade católica. Se todos puderem falar e ouvir chegar-se-á à conclusão de que a Igreja sempre foi construída por várias tendências. A arte dos pastores consiste em encontrar os meios, os caminhos de diálogo para estimular a comunhão na diferença.


Muito cedo na Igreja foi preciso reunir um concílio, para ser possível extrair do conflito novos horizontes e novas práticas, no seio da mesma Igreja (Act 15). Vai sendo tempo de pensar no Vaticano III. Que este Sínodo sobre a problemática actual da família seja um bom ensaio.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

D. Manuel Clemente ainda é bispo do Porto segundo o "Inimigo Público"

O humor não tem de ser verdadeiro. Tem de ser engraçado, jogando com alguma verosimilhança. No caso desta "notícia" do "Inimigo Público" de hoje, o tiro sai ao lado. O humorista, porque este tipo de humor faz-se a ler as verdadeiras notícias, não deve ler notícias desde maio passado.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...