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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Nova linguagem contra a "linguagem bafienta e bolorenta"


No "Página 1" (RR) de ontem. É raro o dia em que uma alta figura da Igreja, padre, bispo, teólogo, não diga que é preciso uma "nova linguagem". Mas porque ninguém se dedica a falá-la? Há alguns que a falam, é certo, mas geralmente não dizem que é nova. Limitam-se a falá-la. Com mais ou menos naturalidade.

E qual é mesmo a "linguagem bafienta e bolorenta"? Todos imaginarão algo. Mas duvido que concordemos sobre seja o que for.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Fermento ressequido

Frase de D. Carlos Azevedo no "Correio da Manhã" de hoje. É um pouco oleosa (como é que o fermento pode ser ressequido e oleoso ao mesmo tempo?). Mas compreende-se a ideia. O fermento é o princípio de transformação, é o oposto do ópio, que é princípio de acomodação. Não se confundem, apesar de ambos serem brancos.
Tempos houve em que o Evangelho - ou a religião - era o ópio do povo, segundo a frase que Marx copiou de outro autor. Hoje, nem ópio é, porque já não procuram a religião para consolo. Ainda bem. Falta é o resto.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Um deles será o próximo cardeal. Ou não


Logo à partida, seria mais certo dizer: "Um deles será o próximo patriarca". É que cardeal depende da nomeação do Papa, após ser patriarca. Pode dar-se o caso de ser patriarca (a diocese Lisboa é um dos poucos patriarcados) e não chegar ao consistório seguinte para receber o barrete.

E depois, pode ser um destes ou não. Na realidade, apontam-se motivos vários para que não seja nenhum deles. Tirar ao Porto D. Manuel Clemente? Tão pouco tempo no Porto? D. António Marto a saltitar de diocese em Diocese? Viseu, Leiria, Lisboa (em direcção ao sul)? Já para não falar dos bairrismos diocesanos, que dizem que o patriarca não pode vir de certas regiões ou ter  determinado sotaque. Tudo ponderado, sobra para D. Manuel Clemente. Daqui a dois anos.

Os prognósticos vieram na revista Notícias Sábado (DN /JN). O "i" também já falou do assunto, aqui.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Quem sucede a D. José Policarpo? o jornal "i" aponta três bispos

Fumo branco porquê? Só se for por causa dos cabelos brancos do cardeal-patriarca. Notícia do "i" de 19 de Fevereiro sobre a saída e sucessão de D. José Policarpo. 


sábado, 15 de janeiro de 2011

Anselmo Borges: O bispo no casino

D. Carlos Azevedo

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):


Os casinos, que, pela sua natureza, andam ligados ao jogo, também podem ir além e tornar-se espaços de debates profícuos. Prova disso está o Casino da Figueira da Foz, que, ao longo de 2009 e 2010, foi palco desses debates, à volta de grandes questões, com figuras cimeiras, da literatura à política, da história à filosofia, da economia à teologia.

A última tertúlia, em Dezembro, teve como tema questões sociais e solidariedade, e o conferencista foi Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social.

Já na segunda parte, ousei perguntar-lhe, utilizando uma via mansa: "Dizem as más línguas que as Faculdades de Economia e Gestão da Universidade Católica Portuguesa (UCP) seguem uma orientação teórica mais no sentido de um capitalismo neoliberal do que propriamente mais social." E ele, inesperadamente, tanto mais quanto também foi vice-reitor da Católica: "Eu também ouço essas más-línguas. Os meus ouvidos têm escutado esses comentários, o que deve levar a fazer crer que algum fundamento existe." Questionado por Fátima Campos Ferreira sobre se a Doutrina Social da Igreja não é aplicada nos cursos de gestão da UCP, respondeu: "Pelos vistos, não." Há uma cadeira que trata disso, "mas é capaz de ser uma cadeira um bocadinho isolada do resto".

Fátima Campos Ferreira observou que a UCP, neste domínio, se encontra no topo dos rankings. Carlos Azevedo retorquiu: "Foi dado o Prémio Nobel da Economia a gente que defendeu as teorias que agora são a causa da nossa desgraça. Portanto, não admira que também possa ser apreciado um certo tipo de gestão selvagem. Nem sempre o Prémio Nobel é razão de apreço ético quanto às consequências para o futuro. Mas sabemos que muitas Faculdades e também as da Católica, do ponto de vista da Gestão, foram numa perspectiva que era a onda."

Evidentemente, há a “libertas academica”, que é necessário respeitar, mas torna-se urgente uma conversão ao Evangelho. De facto, "estamos a ver, neste momento, que esse tipo de gestão não tem em conta a globalidade do desenvolvimento, o desenvolvimento integral, tem em conta apenas o lucro. E, de facto, as empresas, quando contratam esses gestores, exploram ao máximo, despedem quanto é preciso. São ferozes em dimensões humanistas. Não é esse tipo de gestores que respeita a Doutrina Social da Igreja".

E sublinhou o que já várias vezes aqui também tenho repetido: que o centro da economia e da política tem de ser a pessoa humana; que o primado é do ser e não do ter; que o trabalho é um bem escasso, que é preciso saber partilhar; que criámos uma sociedade irracional do consumo sem limites, que acaba por consumir-nos no stress, no sem sentido, na desumanidade.

Já depois da tertúlia, fui ver o filme-documentário sobre a crise: “Inside Job”. Lá está como a ganância dos especuladores sem regulação nos colocou à beira do abismo. O mais perverso: como professores prestigiados de Economia ensinaram teorias, não em função da cientificidade, mas dos seus interesses pessoais económico-financeiros.

Hoje, também por causa das novas tecnologias, é mais fácil aquela distinção a que já Martinho Lutero se referiu, há 500 anos, num sermão célebre (tradução um pouco livre): "Quando olhamos para o mundo hoje através de todas as camadas sociais, constatamos que não passa de um grande, enorme covil de ladrões... Aqui, seria necessário calar quanto aos pequenos ladrões particulares, para atacar os grandes e violentos, que diariamente roubam não uma ou duas cidades, mas a Alemanha inteira... Assim vai o mundo: quem pode roubar pública e notoriamente vai em paz e livre e recebe aplausos. Em contraposição, os pequenos ladrões, se são apanhados, têm de carregar com a culpa, o castigo e a vergonha. Mas os grandes ladrões públicos devem saber que, perante Deus, são isso mesmo: os grandes ladrões."

Desgraçadamente, o que Lutero disse, há 500 anos, referindo-se à Alemanha, continua válido para todo o mundo hoje, também em Portugal.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Maria José Nogueira Pinto critica proposta de D. Carlos Azevedo

O bispo (católico) fez uma proposta que ainda ninguém tinha feito: que os políticos (católicos) dêem 20 por cento do ordenado para combater a pobreza. Tempos duros exigem sinais fortes. A política (católica) não concorda. Ou, pelo menos, está confusa. A condição do político é transitória. Uma outra forma de dizer o mesmo: a condição do político é pouco católica.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O mal que nos fez Deus

Texto de D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, no Correio da Manhã desta sexta-feira. O último da sua autoria, como diz na última frase.


Que mal te fiz eu?

"Que mal nos fez Deus para o tratarmos mal, com indiferença, com comportamentos indignos?"

Quem hoje participar na celebração da Paixão ouvirá cantar com muita probabilidade, durante a adoração da cruz, os impropérios dirigidos por Deus ao seu povo. O texto completo do refrão assim repete: "Meu povo, que mal te fiz eu? Em que te contristei? Responde-me."

A enumeração dos benefícios operados por Deus contrasta com as atitudes do povo para com Jesus: "Libertei-te da terra do Egipto e tu preparaste uma cruz para o teu Salvador", "abri o mar diante de ti e tu abriste-me o peito com uma lança", "dei-te o ceptro real e tu colocaste-me na cabeça a coroa de espinhos…"

Que mal nos fez Deus para o tratarmos mal, com indiferença ou desprezo, com comportamentos indignos? Será que temos alguma tristeza, alguma mágoa proveniente de um acto de Deus? Aguarda resposta, pede argumentos justificativos das atitudes. Desafia: "responde-me". Considerei oportuno actualizar, neste dia, as possíveis razões de queixa de Deus aos crentes. Perdoem-me o atrevimento de dar voz ao silêncio de Deus:

Ofereci-te a beleza da criação e tu danificas a natureza e atentas contra a vida! Vives num universo imenso e reduzes os horizontes a ti próprio!

Muni o teu ser de inteligência e semeei-lhe o desejo da verdade, e tu matas a sede de procurar com ilusões e anestesias mentirosas. Criei-te para a relação, incluindo a vivência da sexualidade num projecto de vida humanizador, e tu não dominas nem vives com liberdade essa energia espantosa! Entreguei ao teu governo tantos bens da natureza e tu recusas-te a partilhá-los com generosidade!

Pensei-te apto para viver a alegria e escolher a felicidade, mas enredas e complicas o sentido da vida com múltiplos medos!

Rasgo na história sinais de esperança, em homens e mulheres que captam a direcção do futuro, e ficas mergulhado em olhares acusadores e mesquinhos!

Entendo cada ser humano, mesmo criminoso, porque percebo as cadeias da maldade colectiva, e estranho a forma justiceira com que atiras pedras! Distingo absolutamente o bem do mal, mas fico admirado como, recorrendo a meios de maldade obscura, tu destróis e abates a luz da bondade!

E Deus podia continuar…

Em Sexta-Feira Santa, no dia do quinto aniversário da morte de João Paulo II e de grande significado pessoal, com este artigo, suspendo a colaboração com este jornal. Obrigado aos leitores.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

sexta-feira, 26 de março de 2010

D. Carlos Azevedo: As provas de Bento XVI

"Não tem sido um pontificado fácil. Veja-se: a suspeita que rodeou a sua escolha e a recente prova de fogo".

Portugal prepara-se para receber o Papa Bento XVI entre 11 e 14 de Maio. Podem alguns pensar que será uma ocasião desfavorável, quando carrega sobre os ombros a vergonha de situações lastimáveis e está sob os holofotes da inquisição jornalística, atirada para as suas palavras e em inspecção das suas atitudes episcopais.

Ao perfazerem-se cinco anos da morte de João Paulo II, no próximo dia 2 de Abril, vêm à memória as intervenções do cardeal Ratzinger nesses dias de luto e de expectativa. A serenidade lúcida, revelada nos diversos actos e celebrações a que presidiu, abriu caminho à sua escolha para suceder a uma figura tão carismática, criadora de forte empatia humana. Conhece bem a Igreja que deve conduzir e conhece os seus limites, sabe das divergências entre movimentos de tendência contrastante e a todos deseja ver em comunhão numa mesma Igreja de Cristo, sem fatiar a verdade, em nacos ao agrado de cada grupo.

Ter como pastor um notabilíssimo teólogo conduziu à surpreendente valorização central da concepção e do papel da caridade no cristianismo e no Mundo actual. A caridade surge neste pontificado como um dos fundamentos essenciais para a vida e a missão da Igreja. O seu equilíbrio entre teoria e prática, a procura honesta de diálogo entre Fé e Razão, a paixão por Cristo e pela sua Igreja, orientam a firmeza transparente da sua doutrina e abrem para consequências pastorais e sociais.

Não tem sido um pontificado fácil. Veja-se: a suspeita inicial que rodeou a sua escolha, as várias tentativas de encostar as suas afirmações a posições ultrapassadas, como aquando do discurso de Ratisbona, sujeito a malévolas interpretações; ou da resposta aos jornalistas na viagem a África, descontextualizada do sentido pleno; e a recente prova de fogo-cruzado, devida a aberrantes abusos, para além da procura de pacificação com os lefebvrianos, de comunhão com os anglicanos.

É esta figura fisicamente frágil e desgastada por todos estes problemas mas firme e determinada que nos visitará, como peregrino de Fátima. Após a primeira fase dos preparativos, inicia-se agora a organização pormenorizada dos encontros e das celebrações e apela-se a todos que vivam espiritualmente a Páscoa deste ano com forte interrogação sobre a Verdade e o sentido da vida. É tempo para que cada um programe o seu tempo de modo a ter o privilégio de participar em algum dos momentos da sua visita.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

Fonte: Correio da Manhã

sexta-feira, 19 de março de 2010

D. Carlos Azevedo: "Pensamento de Galileu"

Galileu considerou a descoberta de planetas menores, os satélites de Júpiter, uma graça especial de Deus.

Foi lançada, no passado dia 17, na Gulbenkian, a primeira tradução portuguesa do livro de Galileu Galilei (1564--1642) publicado há quatrocentos anos em Veneza, ‘Sidereus Nuncius’ (‘O Mensageiro das Estrelas’). A importância deste texto breve para a história do pensamento científico mereceu o enquadramento, no fechar do Ano Internacional de Astronomia. Espanta o tom simples, próprio de gazeta, da descrição maravilhosa do que Galileu acabava de observar, graças ao novo instrumento, o telescópio, criado pelos holandeses e aperfeiçoado pelo cientista.

As novidades que Galileu relata eram sensacionais e revolucionárias e catapultaram o professor universitário de Pádua, perito em mecânica, para pioneiro da astronomia moderna e permitiram-lhe conquistar o lugar de filósofo natural e matemático de corte, junto dos Medici, em Florença. Ainda hoje ficamos admirados com as gravuras e os esquemas, os power-point da altura, aos quais Galileu recorre na edição de 1610. O estudo da superfície da Lua demonstra o génio observador e a sua capacidade de transmissão literária e visual.

Absoluta novidade astronómica era a existência de planetas menores, os satélites de Júpiter. Galileu considerou essa descoberta uma graça especial de Deus.

Em excelente tradução muito anotada e informadíssimo texto introdutório, Henrique Leitão revela o seu domínio da história da ciência e oferece aos leitores uma perspectiva simultaneamente acessível e rigorosa do enquadramento desta obra fantástica, autêntico relatório científico, escrita nos últimos 15 dias de Janeiro de 1610. Sujeita a sucessivas correcções, seria publicada a 13 de Março e com 550 exemplares esgotados em poucos dias. Até teve uma edição pirata em Frankfurt logo em 1610, tal era a procura!

Depressa os jesuítas romanos confirmaram estas notícias sensacionais e Galileu realizava uma viagem entusiasta à Accademia dei Lincei, em plena Roma. Foi através dos jesuítas que Galileu chegou a Portugal, à Índia e à China. Logo em 1615, o ‘anúncio sideral’ era objecto do curso de Giovanni Paolo Lembo, no Colégio de Santo Antão, em Lisboa. Os problemas cosmológicos que as novidades galileanas lançavam eram aí discutidos.

A edição da Fundação Gulbenkian esclarece cabalmente o lugar ímpar que certos escritos assumem na história. No meio de uma semana pesada de inquietações, será estimulante reconhecer, nos degraus do avanço científico, os rasgos de inovação provenientes de observadores corajosos, como Galileu.

D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa

Fonte: Correio da Manhã

sexta-feira, 12 de março de 2010

D. Carlos Azevedo: "Credibilidade"

“ Aproveitam-se os pecados da Igreja para desacreditar o cristianismo e os valores cristãos. Mas os media não narram as maravilhas dos que se desgastam no dom de si aos outros, os que dedicam a sua vida a construir a justiça e a paz, os que na fidelidade optam por viver com os pobres, os que investigam para curar os males do mundo, os que na política e na justiça seguem a ética com liberdade da consciência”. Estará o Bispo Auxiliar de Lisboa a pensar no renovado escândalo da pedofilia na Igreja?


Credibilidade

O que torna crível o discurso não é a sua maior ou menor eloquência, nem sequer a maior ou menor precisão do ponto de vista doutrinário, mas a maneira como funciona na prática a representação concreta dos fundamentos éticos.

Diversas situações minam a confiança fundamental para viver em sociedade: está posta em questão a credibilidade das medidas para combater a crise, a credibilidade dos servidores da Igreja perante escândalos, a credibilidade dos políticos e dos economistas, a credibilidade da justiça e dos jornalistas. Não é novo que haja pressões de interesses, cedências aos instintos mais perversos, queda na corrupção, atrasos atávicos da justiça, ilusões de artistas da engenharia económica. A resistência, a firmeza perante as tentações, ou seja, a liberdade de espírito, é que está muito ausente do cultivo pessoal.

A todos compete servir, ao seu nível, para dar credibilidade às instituições e às profissões com maior alcance social. Será que continuamos a lamentar as consequências sem prevenir as causas? Há um dever fundamental e primário de sermos livres, de promover e educar para a liberdade como parte da transcendência humana. A valorização da liberdade humana é a forma mais verdadeira de responder à questão do mal no mundo, dos males que oprimem os nossos contemporâneos. Eis a eficácia maior da credibilidade cristã, já para D. António Ferreira Gomes (Cf. Cartas ao Papa, 165-166).

Detenho-me apenas em breve análise à credibilidade da Igreja. A sociedade actual, na qual a Igreja se integra, vinga-se em desenterrar casos do passado, merecedores de crítica clara, não para elevar o nível do futuro, mas para justificar a generalizada decadência e tentar abater a autoridade das poucas instâncias éticas. Aproveitam-se os pecados da Igreja para desacreditar o cristianismo e os valores cristãos. Mas os media não narram as maravilhas dos que se desgastam no dom de si aos outros, os que dedicam a sua vida a construir a justiça e a paz, os que na fidelidade optam por viver com os pobres, os que investigam para curar os males do mundo, os que na política e na justiça seguem a ética com liberdade da consciência.

Reparemos no exemplo claro de Jesus. Chocou as autoridades judaicas não a propósito da fé em Deus, mas ao ver como funcionava essa fé na relação com os pobres e os pecadores. Impõe-se no campo atingido pelo descrédito uma visão positiva e humanizada da sexualidade, com pleno sentido no amor. Importa desenvolver, neste campo da sexualidade e do matrimónio, reflexões credíveis, sérias, com respeito pela complexidade do mundo afectivo e com abertura às progressivas exigências da liberdade inaugurada por Cristo.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

Fonte: Correio da Manhã

sexta-feira, 5 de março de 2010

D. Carlos Azevedo: O dispensável

"A nível individual, quem conseguir ser livre na relação com os bens e despojar-se, em nome da fé ou da opção por uma vida simples e austera, encontra sabedoria na afirmação «tudo quanto me acontece é dispensável»".


D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa, no "Correio da Manhã" desta sexta-feira:

O dispensável

Há palavras ou versos que nos rasgam a mente, abrem os olhos e nos deixam a pensar. Dei estes dias de retiro quaresmal com um verso de Sophia de Mello Breyner Andresen que teve este efeito e aqui partilho. Reza assim: "Tudo quanto me acontece é dispensável" (Obra poética, Vol. 1, p. 171).

Fixada na experiência da solidão, a autora do Coral reconhece esta nudez, exercício difícil para cada um de nós, na acumulação de adereços que justificamos e fazemos indispensáveis.

As cenas de destruição, a que estes últimos tempos nos habituaram, podiam, se tivéssemos tempo para pensar, conduzir a nossa reflexão. De facto, esses acontecimentos eram bem dispensáveis!... não nos recordavam o efémero da vida! Porém, Sophia aponta para um "tudo quanto me acontece", o que pode originar desamparada vertigem. Esta sugestão de pleno despojamento assusta.

O conceito de dispensável sofreu grande alteração na época consumista e na lógica da posse que adquiriu espaço quase sem limites, na omnipresente teoria do mercado. Contudo, o desemprego, os salários em atraso e o encerramento diário de empresas põem muita gente no limite de ter de pensar o que é ou não indispensável.

A nível individual, quem conseguir ser livre na relação com os bens e despojar-se, em nome da fé ou da opção por uma vida simples e austera, encontra sabedoria na afirmação "tudo quanto me acontece é dispensável". Que força não encerra esta advertência na hora de moderar o consumo, ainda que para tristeza de alguns negócios, mas para alegria futura de todos. Como implica cautela no endividamento, em vez de incentivo! Como obriga a repensar a utilização dos meios de transporte, a reduzir os desperdícios e a recorrer à reciclagem!

Mais complexos serão os passos corajosos a dar na vida pública, em contexto globalizado, para preparar um futuro no qual não mais haverá trabalho abundante e onde o sistema, até agora imperante, ceda lugar a outra harmonia mais sábia, que atenda a todos os elementos desde a salvaguarda da criação, uma cultura solidária, até um paradigma de desenvolvimento integral e baseado na melhoria das condições de vida de cada local, fomentador de uma democracia participativa. O papel do Estado necessita de ser resgatado para, seguindo princípios éticos, exercer, sem medo, uma andragogia política que ajude a identificar o dispensável e para motivar cada região, em ordem a optar por um desenvolvimento que a faça mais serenamente feliz.

Fonte: CM

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

D. Carlos Azevedo, a pobreza, Jesus Cristo e os cristãos

"Por favor, por amor de Deus, não me venham justificar a impossibilidade de erradicação da pobreza com a frase de Jesus". D. Carlos Azevedo no Correio da Manhã de hoje (aqui):

Pobreza zero

Ir às raízes das injustiças e destruir-lhes a fatalidade é trabalho de caridade e dever de cada ser humano.

Por favor, por amor de Deus, não me venham justificar a impossibilidade de erradicação da pobreza com a frase de Jesus, no momento da unção em Betânia, na casa de Simão, quando a mulher perdoada lhe derramava caro perfume nos pés: "Sempre tereis os pobres convosco, e quando quiserdes, podeis fazer-lhes o bem, mas a mim nem sempre tereis" (Mc 14, 7; Mt 26,11). Esta afirmação tem sido citada como justificação para manter o estado da pobreza, como autorização de Jesus Cristo a resignar-se perante os pobres. Ora esta citação não manifesta nenhuma declaração de Jesus sobre a pobreza como um factor social permanente. Jesus não justifica a miséria. O que se sublinha é o carácter efémero da permanência de Jesus entre eles. Passados uns dias já não podiam fazer-Lhe bem, mas tinham muita oportunidade para tratar dos pobres. A união íntima entre o serviço a Cristo e o serviço aos pobres está presente no Evangelho.

O lema do ano Europeu, infelizmente, tem actualidade acutilante no drama permanente e nas tragédias que se abatem sobre a humanidade, como agora sobre a Madeira. Neste caso, como em ocasiões similares, logo a Cáritas se mobilizou como expressão viva da solidariedade dos portugueses. A partilha não é posta de lado, mesmo em horas mais apertadas, como a que vivemos. Portugal sente é falta de quem tenha autoridade moral para o mobilizar para o bem comum. Sem este crédito, abre falência.

A Cáritas europeia adoptou o lema ‘pobreza zero’. Realmente, ir às raízes das injustiças e destruir-lhes a fatalidade é trabalho de caridade e dever de cada ser humano diante de si próprio. Há soluções para a pecaminosidade que a situação evidencia. Os pobres e excluídos não são realidade homogénea e a nossa visão é situada e variada, a partir do ponto social em que a olhamos e consideramos. A conversão do nosso olhar adquire objectividade para reconhecer que é o modelo de desenvolvimento que seguimos a abrir ou não a nossa mente e coração aos que perdem os mais essenciais laços de pertença social e de cidadania consciente, propendem para a marginalidade, afastados das oportunidades de integração.

A consciência que os pobres e excluídos têm de si mesmos e a assunção do seu caminho libertador é paciente serviço ao futuro. Importa passar ao seu terreno fazendo nosso o seu projecto – não dirigindo-o, mas apoiando-o, estando ao serviço. Ser companheiro das suas lutas e defensor dos seus interesses, ajudá-los a ter peso na sociedade, implica em nós um êxodo mental e cultural, político e afectivo.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

D. Carlos Azevedo: "Artifícios ou sacrifícios"

No Correio da Manhã, o bispo auxiliar de Lisboa diz que os católicos presentes na vida pública têm responsabilidade acrescida no valioso serviço à pátria

Artifícios ou sacrifícios

O ‘grande teatro do mundo’ português soma cenas e cenários, multiplica actores e afasta personagens, em rodopiante vertigem, infelizmente abismal. Descobrem-se falhas de carácter mas os dotes de persuasão tudo apagam; investigam-se crimes graves no peso ético mas os processos enredam-se sem fim, numa justiça doente; verificam-se engenharias ou melhor engenhocas financeiras que infernizam pessoas bem intencionadas e ninguém é responsabilizado; exportam-se jovens sábios e experimentados sabedores deixam o país à procura de saídas para os seus problemas; inventam-se antagonistas para, na divisão, fomentar hostilidades.

Era aqui que me queria deter, por hoje. Superar divisões artificiais é serviço à pátria, se ainda há amor cívico de autênticos compatriotas. Tanto é bom para a sociedade que não se abafem divergências sobre as formas de orientar o destino colectivo da nação, como é nocivo fomentar conflitos sem real e profunda diferença de visão sobre o futuro. Uma estratégia rigorosa e consistente, não meramente economicista, antes sustentada no sistema educativo e judicial, sustentará a esperança a médio e longo prazo.

O momento atribulado que o nosso Portugal atravessa não pede fracturas, mas unidade de esforços que permitam planear corajosas e drásticas medidas, sacrifícios de todos, em vez de artifícios de uns poucos, sem respeito pela realidade. Não é hora para fogos-de-artifício politiqueiro, antes para pés na terra e olhar no futuro.

São de saudar todas as intervenções decorrentes da natureza social do ser humano, presentes na bondade espontânea do povo português, e que tenham em vista ultrapassar a atmosfera de guerra, que o império absoluto da comunicação social indaga, orienta ou promove.

Até quando resistirão os artifícios financeiros e políticos, até quando cederá o cupulismo partidário à tentação do domínio das bases e negligenciará o bem comum do país?

Um deficit de sensatez campeia nas hostes. Pede-se a cada patriota que redefina a sua responsabilidade no delinear de caminhos exigentes, sólidos e eficazes, que nos permitam relançar a esperança. Políticos apaixonados pelo bem comum e determinados, sem medo das reformas sérias e de antagonismos manobrados e artificiais. Venham sacrifícios justificados, explicados e medidos nas consequências. É hora para uma reconciliação entre sensibilidades políticas, completando-se para uma visão maior, e facilitando uma acção colectiva. Os católicos presentes na vida pública têm responsabilidade acrescida nesse valioso serviço à pátria.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Das escutas à escuta

A crónica de D. Carlos Azevedo no "Correio da Manhã" parte das escutas, que por estes dias andam pelos jornais, para chegar à escuta que é própria do tempo quaresmal.




À escuta

Desde há uns meses que o assunto das escutas ocupa grande espaço na comunicação portuguesa, com perversa confusão entre meios e fins, condenação dos modos e acolhimento dos resultados. O que não se devia saber publicamente faz-se notícia e revela sentimentos, carácter, comportamentos de pessoas responsáveis pelo bem público. A lentidão do sistema judicial contrasta com a celeridade dos boatos. A dedicação ao bem comum do país é desviada para a defesa pessoal dos visados. Eis o que produzem as escutas: uma murmuração em cadeia, uma grande baralhada que promete durar, porque o gosto por mexer na porcaria é próprio de alguns animais!
Esta introdução serve para abrir o tema da escuta, da criação de silêncio, próprio do tempo quaresmal, a iniciar na próxima quarta--feira pelos cristãos. Deus é a Palavra, nós somos escuta: e a escuta pressupõe o silêncio, isto é o despojamento de todas as vozes que nos distraem da escuta, sejam aquelas que partem do nosso coração ou da nossa inteligência, sejam aquelas que entram em nós, usurpando um lugar indevido...
É difícil falar de silêncio num mundo habituado ao barulho. Não é grande prova o silêncio sobre um monte deserto, onde tudo nos convida à harmonia com a terra, o céu, as estrelas, as flores, o vento. Sem o silêncio, o ser humano morre de fome, não fome de pão, mas de escuta da Palavra do Senhor (Amós 8,11).
O silêncio cria à volta de nós o clima de deserto levando-nos à nobre e necessária solidão. O valor justo da solidão é o contrário de um isolamento, de uma distância aristocrática, de uma presunção auto-suficiente. A solidão do deserto é contínua procura de água, de lugar de encontro, de oásis. Deus atrai ao deserto para se revelar, para falar ao coração, para fazer conhecer o Seu desígnio. No deserto aprende-se a ter sede e a organizar a própria vida, dirigir o próprio caminho. É a experiência de que só Deus basta: pobreza radical e plenitude perfeita.
A fuga diante da solidão, a murmuração no deserto, a procura quase nevrótica do dia cheio, da actividade, da distracção e da companhia testemunham a incapacidade de viver sem débeis apoios e como Deus não aparece guia absoluto dos passos incertos, atento a qualquer grito ou a qualquer desequilíbrio.
As escutas lusitanas, aludidas no início, apelam a murmuração, impedem a escuta dos apelos profundos do Portugal real. O tempo de Quaresma, marcado pela escuta da Palavra, permitirá passos novos, Páscoa verdadeira.
Fonte: CM

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

D. Carlos Azevedo: "Igreja Republicana"

D. Carlos Azevedo continua a reflexão sobre a Igreja e a I República no "Correio da Manhã". O primeiro texto pode ser lido aqui.

Igreja republicana

Em 1910, Portugal era habitado por cerca de seis milhões de pessoas, que na grande maioria se consideravam católicas. O processo de implantação da República incluiu uma questão religiosa que parece contrastar com este dado. A relevância da questão religiosa situa-se em terreno ideológico e alia-se a problemas sociais.

Acentuava-se o debate acerca do estatuto do Estado. A laicização era objectivo e instrumento. Concretizava-se na defesa do regime de separação, na adopção do registo civil; nas áreas da família, como o direito ao divórcio; no campo da educação, pela supressão de referências à religião ou à Igreja Católica. Tratava-se de uma disputa sobre a influência da Igreja na sociedade, isto é, sobre a regeneração social e política do país, patente na geração de 70. Esta geração via na Igreja Católica um elemento contribuinte para a decadência nacional. Neste âmbito, a religião era ultrapassada, porque incapaz de progresso. Daí que a problemática religiosa fosse central no debate político e cultural. Outros consideravam a Igreja capaz de contribuir para a desejada regeneração. A dita "separação à portuguesa" implicava a imitação habitual do que França realizava!

O 5 de Outubro uniu facções radicais, independentemente da visão proposta para os problemas nacionais, o que provocaria enorme desordem na governação. A recente República contou com a parceria de vasta e activa campanha anti-religiosa. Os carbonários puseram em movimento uma caça ao "jesuíta" e ao "talassa". As frentes variavam entre assaltos, fogos, saques a casas religiosas e a igrejas. Organizações católicas foram assaltadas, padres e religiosos espancados. Alguns foram presos e sujeitos a interrogatórios.

Após desacatos soltos, o governo provisório entrou em furor legislativo com o intuito, declarado por Afonso Costa, de acabar com a religião no espaço de duas gerações. Medidas laicistas e anticlericais não faltaram. O país não reagiu. Juntaram-se as decisões administrativas como o encerramento de sedes e órgãos de imprensa de organizações católicas. Tudo isto não podia deixar os bispos insensíveis. Surge a Carta Pastoral Colectiva. Expunha serenamente a doutrina sobre o problema religioso. Insurgiam-se contra a expropriação da Igreja, contra o desrespeito da autonomia eclesiástica em assuntos religiosos. O Governo, em atitude de despotismo, proibiu a sua leitura. O governo provisório queria ou uma igreja republicana, dominada pelo Estado, ou nada. Quando um governo teme a liberdade está para morrer.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

sábado, 30 de janeiro de 2010

D. Carlos Azevedo: "República porquê?"


D. Carlos Azevedo escreve ("Correio da Manhã" de 29 de Janeiro) sobre as comemorações do centenário da República.

Inicia dia 31 de Janeiro a comemoração dos 100 anos da República. Como surge o novo regime? Porquê? A implantação do regime republicano resultou de uma vanguarda sócio-ideológica muito compósita e teve a preciosa colaboração de um regime monárquico esgotado.

De facto, na conjuntura das últimas décadas de oitocentos vemos os factores que conduziram ao declínio da monarquia: uma economia profundamente desajustada ao processo de industrialização europeu, fortemente marcada por actividades comerciais; uma pesada dívida externa; uma debilitada presença ultramarina, colonial e imperial; uma crescente instabilidade devido a tensões urbanas; a militância por novos valores e nova sociedade.

O confronto ideológico não apareceu repentinamente. Provinha do liberalismo. Foi-se radicalizando. Começa por apelar à cidadania, passa pelo sistema democrático, chega à agitação revolucionária.

Os olhares críticos lançavam compreensões da realidade seja decadentistas, motivadas pelo crónico atraso nacional, seja saudosistas, justificando perspectivas de restauração nacional ou de regeneração. O poder político arrastava o País para a decadência.

Na base das aspirações republicanas havia correntes de cientismo, positivismo e espiritualismo. Os diversos movimentos sociais e as diferentes soluções correspondiam a distintas percepções.

É no final da década de 70 que o republicanismo se autonomiza, deixa em segundo plano o movimento social operário e opta pela propaganda e agitação política, actuando entre a conquista do poder pelo processo eleitoral e a conspiração militar. A instauração da República correspondia à valorização de um paradigma assente na realidade regeneradora, protagonizada pelos sectores sociais urbanos em ascensão.

A agitação de grupos e a crescente propaganda era ambiente para a revolta do Porto a 31 de Janeiro de 1891, considerada geralmente como primeira tentativa de revolução republicana.

As fragilidades internas, o desgaste do sistema rotativo e a crise da autoridade conduziram à ditadura, fora do controlo parlamentar. A alternativa de sucessivos governos, com base demasiado fragmentada, cria a decomposição da autoridade política. Neste contexto aconteceu o regicídio (Fevereiro de 1908) e as forças republicanas conquistavam espaço e organizavam a revolta de 5 de Outubro de 1910.

Veremos, a seguir, como entrou a Igreja na mira da revolução.


D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

Fonte: CM


sábado, 23 de janeiro de 2010

D. Carlos Azevedo: "O diálogo pode tornar-se uma máscara do imobilismo das igrejas"


Ontem, no Correio da Manhã, D. Carlos Azevedo escreveu sobre o diálogo ecuménico. O
bispo auxiliar de Lisboa enumera os principais frutos do movimento ecuménico e diz o que muitos pensam mas não dizem: "O diálogo pode tornar-se uma máscara do imobilismo das igrejas".

O texto na íntegra.

A semana da oração pela unidade dos cristãos, que termina a 25, é momento para reconhecer os passos dados no ecumenismo, ou seja, no esforço para encontrar meios e modos, atitudes e gestos que encaminhem para refazer os desencontros e as separações mais duras e importantes como a que originou os ortodoxos, no século XI, e a do protestantismo, ao longo do século XVI, com sucessivas cisões. Passo a passo, como todos os caminhos, requer paciência. As etapas intermédias são fundamentais: já se passou do anátema ao diálogo; do diálogo está a passar-se ao acolhimento e do acolhimento passaremos ao reconhecimento recíproco.

Podemos enumerar os principais frutos. Em primeiro lugar dissiparam-se inúmeros preconceitos e favoreceu-se a compreensão verdadeira, não facciosa, ou astuciosa ou polémica. O segundo fruto é ter mantido a possível compatibilidade de doutrinas que no passado eram apresentadas e vividas unicamente como antagonistas e alternativas. O terceiro é ter clarificado o núcleo irredutível de diversidades reais ou também divergências que não podem ser harmonizadas nem podem ser simplesmente consideradas complementares. A estação do diálogo deu o que podia dar e importa continuá-la sem a prolongar até ao infinito, iludindo os empenhos ulteriores. O diálogo pode tornar-se uma máscara do imobilismo das igrejas.

Perante a persistência das divisões entre as igrejas, admite-se não ter soluções simples a propor. Não há euforia ecuménica. A visão cristã da reconciliação deve empenhar todos os cristãos a procurar entre eles "incansavelmente" a unidade visível. Para isso será necessário "reexaminar as decisões", perguntando se elas não são produto de diferenças que noutros tempos foram consideradas fonte de divisão, mas hoje podem aparecer como um enriquecimento.

Além disso, os cristãos são chamados a dar passos: 1) Para avançar na unidade e chegar à comunhão é fundamental curar as feridas da memória, sobretudo com factos. 2) Favorecer a colaboração em todos os campos, evitando a rivalidade que destrói já que a construção de justiça social para com os pobres, os doentes, os marginalizados, os mais débeis e pequenos é a verdade da caridade. 3) Afirmar a igualdade de estatuto e de direitos das igrejas e dos povos minoritários. 4) Empenhamento comum pelo conhecimento sempre mais aprofundado da Bíblia. É esta palavra de Deus e o Seu Espírito que guiarão as igrejas para a comunhão.

O ecumenismo pede um novo arranque com a coragem da fé, uma vez que o olhar da esperança já abraça novo tempo.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"A imagem do padre", por D. Carlos Azevedo


O Bispo Carlos Azevedo prefere um padre meio atrapalhado com a espiritualidade do sacerdócio ao que é mero executor da lição aprendida.

A imagem do padre

Por estes dias, várias dioceses portuguesas reúnem os padres para encontros de reflexão, com particular incidência neste "ano sacerdotal". A concepção de sacerdócio ou identidade sacerdotal reconfigura-se perante o sacerdócio comum na figura do leigo. Pelas mudanças sociais operadas o padre pode sentir-se marginado da sociedade, sem papel na construção do mundo. Realmente, o padre tem uma imagem intimamente ligada à Igreja e à evolução do mundo. A imagem é impossível sem esta dupla e condicionante relação. O tipo de padre está determinado pela pertença à Igreja e ao mundo, pelas formas concretas graças às quais funciona e se compreende a Igreja e pela situação sociocultural do mundo. Portanto, imagem em mudança e também imagem plural, na coexistência histórica necessária de imagens sacerdotais, de espiritualidades e formas várias de realizar a vocação.

Não podemos continuar como se nada tivesse acontecido. A crise não se afronta com lamento ou passivismo, encomendando ao tempo o que requer consciência lúcida e vontade decidida. Partiram-se, quebraram--se os modelos presbiterais do passado. Não podemos crer que se possa voltar a posições e perspectivas do passado, ainda que renovada a fachada e realizadas acomodações de emergência. Não, definitivamente. O amanhã não será continuação pacífica do ontem. Não há soluções evidentes e mágicas, apesar da tentação de declarar definitivas as hipóteses que respondem às interrogações postas pela consciência do padre de hoje.

Importa perceber com sagacidade e sensibilidade o decurso da história, em conexão com o dinamismo da Igreja que nasce da sua autocompreensão para dentro e da sua projecção para fora. Seria erro impor uma espiritualidade de modelo único, sinal de pobreza, prova de impermeabilidade ao mistério e ao dinamismo histórico e desrespeito pela criatividade de cada pessoa. A pluralidade não vem da pressão da moda, mas de fidelidade esclarecida devido à cultura em que se situa, evolução social e religiosa que o rodeia. Urge a vida. A imagem sairá de dentro da alma do padre posto a trabalhar e brotará como dom de Deus. É a atitude pastoral que produz estilos.

Prefiro um padre meio atrapalhado com a dificuldade de fazer cristalizar os dados sólidos que a teologia oferece sobre a sua vocação do que a figura de quem executa a lição aprendida. Os melhores mestres – os místicos – foram sempre parcos em assimilar caminhos e pródigos em despertar atitudes pessoais.

Fonte: Correio da Manhã

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Casa perfeitíssima - D. Carlos Azevedo no CM


D. Carlos Azevedo no Correio da Manhã de hoje:

Casa perfeitíssima infelizmente não se refere à casa portuguesa, neste início de 2010. É o título de uma deslumbrante exposição patente no Museu Nacional do Azulejo, em Lisboa, até 11 de Abril. A figura central desta iniciativa, comemorativa dos 500 anos da Fundação do Convento da Madre de Deus, é a rainha D. Leonor (1458-1525), mulher de D. João II, cognominado Príncipe Perfeito. O cenóbio de Clarissas de Xabregas escolhe o título de Madre de Deus bem centrado na espiritualidade franciscana. Ao colocar Santa Maria a contemplar de joelhos o Menino que deu à luz, provocava a comunidade a contemplar a carne do Verbo.

É conhecida a acção de D. Leonor, Rainha Perfeitíssima, na criação das Misericórdias em 1498, a sua inserção no movimento humanista, a associação à imprensa e ao teatro de Gil Vicente, a aquisição de obras de arte do norte de Europa a da oficina florentina dos Della Robbia, as tapeçarias flamengas, bem como o trabalho dado a pintores portugueses como Jorge Afonso, autor tradicional do retábulo da Madre de Deus de 1515, Vicente Gil e Manuel Vicente. A exposição Casa Perfeitíssima ilustra as vertentes da acção cultural desta mulher excepcionalmente influente na criação do gosto da primeira metade do século XVI.

A exposição reúne um precioso conjunto de pinturas do primitivo Convento da Madre de Deus, hoje, na sua maioria, no Museu Nacional de Arte Antiga, como o Retábulo das Sete Dores de Maria, constituído por oito quadros da Oficina de Quentin de Metsys, ou o recomposto e célebre retábulo da Santa Auta. Outro tipo de objectos é acolhido: o quatrocentista Livro de Horas da Rainha D. Leonor, da Biblioteca Nacional, e o Breviário, que se guarda em New York; a edição da Vita Christi de Ludolfo de Saxónia de 1502-1503, pertencente à Fundação da Casa de Bragança; as bulas com privilégios ao Mosteiro, do Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa.

A escultura luso-flamenga de S. João Baptista e os bustos relicários tardo-quinhentistas que se conservaram na Madre de Deus associam-se ao famoso relicário de ouro e pedras preciosas de c. 1510, do Arte Antiga.

Visitar a exposição é considerar-se no convívio com o primeiro quartel do século XVI. Parabéns à comissária Alexandra Curvelo e sua equipa e à dinâmica Directora do Museu, Maria Antónia Pinto de Matos, pelo esforço de reunir peças que há séculos não se via e por provocar o estudo rigoroso do nosso património.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

D. Carlos Azevedo: Às voltas com o Planeta

D. Carlos Azevedo, na sua coluna do Correio da Manhã, escreve sobre crise ecológica e crise moral, invocando a Cimeira de Copenhaga, a mais recente encíclica de Bento XVI ("A Caridade na Verdade") e a mensagem do mesmo Papa para o dia 1 de Janeiro de 2010, "Se queres cultivar a paz, preserva a criação".

O texto foi retirado daqui.

Passou o tempo de pagar a quem ridicularizasse as ‘questões verdes’. Já não há lugar para desvalorizar a consciência ecológica, que implica a responsabilidade de todos, como "problema social de grande envergadura". Assim o revelou a Cimeira de Copenhaga, na Dinamarca, que termina hoje com a presença de delegados de 192 países. Só a quantidade de países, quase totalidade do mundo, é por si extremamente significativa da gravidade do problema ecológico.

É fundamental uma palavra credenciada para orientar a reflexão, dado que sobre o tema do clima e da salvaguarda da criação há muita confusão, diversidade de visões, de análises e até de explicações científicas. A ciência parece vendida a quem lhe encomenda o estudo ou o parecer! Realmente, qual a evolução, qual a gravidade, qual o peso das intervenções humanas na evolução do Planeta? Bento XVI dedica a sua mensagem para o dia 1 de Janeiro de 2010, Dia Mundial da Paz, ao tema ‘Se queres cultivar a paz, preserva a criação’.

Ora, é impossível ignorar a preocupação não alarmista, mas fidedigna, que o desleixo ou mesmo o abuso em relação à terra e aos bens naturais está a causar. "Seria irresponsável não tomar em séria consideração" o apelo a uma nova solidariedade que atinja uma renovação cultural profunda. Na linha do que Bento XVI afirmou na ‘Caritas in Veritate’, a crise ecológica só pode ser avaliada por uma "revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e também reflectir sobre o sentido da economia e dos seus objectivos, para corrigir disfunções e deturpações".

Dado que o ‘estado da saúde ecológica’ se inter-relaciona com as outras crises, como a crise moral, impõe-se um modo de viver "marcado pela sobriedade e solidariedade, com novas regras e formas de compromisso". É este discernimento que os governantes do mundo têm imperiosamente o dever de operar de modo responsável pelo futuro das novas gerações. O ser humano não é um igual entre os seres vivos. Somos guardiães da criação e não podemos cruzar os braços. "Quando cuidamos da criação, verificamos que Deus, através da criação, cuida de nós." Atravessa a mensagem papal um vivo apelo à responsabilidade ecológica de todos os cidadãos. A degradação ambiental questiona comportamentos e estilos de vida, modelos de consumo e de produção. Só uma "real mudança de mentalidade" salvará o Planeta. Divulguem-se modelos positivos que inspirem a educação para a responsabilidade ecológica.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...