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segunda-feira, 5 de março de 2012

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Calos por amor



No livrinho “Saber esperar” (ed. Paulinas), frei Maria Rafael (Maria Rafael Arnáiz Barón 1911-1938), místico espanhol canonizado no dia 11 de Outubro de 2009, cita na pág. 187: “É uma grande consolação ter calos por amor de Deus”. Cita, mas não diz quem cita. Teresa de Ávila?

Nesta frase estão as duas actividades que segundo Freud dão sentido à vida. O amor e o trabalho. Por isso é que é trágico que 12 por cento da população portuguesa se veja privada de um dos âmbitos santificadores, isto é, dadores se sentido, da vida.

O que Maria Rafael pensava de governar impérios.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

23 de Setembro de 1936. Morre Sigmund Freud



Freud morreu no dia 23 de Setembro de 1936, aos 83 anos.


O fundador da psicanálise preconizava que a religião acabaria quando desaparecesse o complexo neurótico obsessivo. A religião era uma ilusão sem futuro ("O futuro de uma ilusão", 1927), profundamente ligada à repressão dos desejos humanos. Quanto mais negados, mais religiosos seriam os homens.


Já em "Totem e tabu", de 1912, a origem da religião está no relacionamento pai-filho. "Deus - resume o próprio Freud na obra de 1927 - era o pai exaltado, e o anseio pelo pai constituía a raiz da necessidade de religião".


Concorde-se ou não (eu discordo), as teses de Freud fazem pensar os crentes de qualquer fé.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

As sete maiores contribuições judaicas para a humanidade

Os sete judeus mais influentes:

Abraão, ao pressentir que tudo deve servir a um só Deus. 
Moisés, ao afirmar que tudo deve estar submetido à lei.
Jesus, ao dizer que tudo reside no amor.
Marx, ao estabelecer que tudo é dominado pelo dinheiro.

Freud, ao descobrir que tudo é comandado pelo sexo.
Bergson, ao declarar que tudo pode ser objecto de riso.
Einstein, ao concluir que tudo é relativo.

terça-feira, 8 de março de 2011

15 livros que estão a estragar o mundo



Quem gosta de livros dificilmente resiste a um título como este: “Dez livros que estragaram o mundo”. Subtítulo: “E mais cinco que também não ajudaram nada” (ed. Alêtheia). Pensamos logo: Quais são? Quais deles já li? Quais deles estão na minha estante? Quais deles repudiei? Quais deles me influenciaram? A resposta a esta última pergunta é simples: quase todos. O mundo todo está influenciado por muitos deles. Todos nós incluídos. Não há redomas que nos livrem da sua influência – alerta o autor, Benjamin Wiker, um “eticista” (formado em ética teológica) católico norte-americano.

Os cinco que “não ajudaram nada" são:
“O Príncipe”, de Maquiavel
“O Discurso do Método”, de Descartes
“Leviatã”, de Hobbes
“Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, de Jean-Jacques Rousseau
 “A mística feminina”, de Betty Friedan

Os dez que estragaram o mundo (no interior do livro, no topo de cada página, diz-se antes que “destruíram o mundo”) são:
“Manifesto do Partido Comunista”, de Marx e Engels
“Utilitarismo”, de John Stuart Mill
“A Ascendência do Homem”, de Charles Darwin
“Para além do bem e do mal”, de Nietzsche
“O Estado e a Revolução”, de Lenine
“O Eixo da Civilização”, de Margaret Sanger
“Mein Kampf”, de Hitler
“O futuro de uma ilusão”, de Freud
“Crescer em Samoa”, de Margaret Mead
“O Comportamento Sexual dos Homens”, de Alfred Kinsey.

Cada título mereceria várias linhas de resumo, se bem que as ideias básicas de cada um fazem parte da cultura geral. Eu não conhecia o livro “O Eixo da Civilização”, de Margaret Sanger, mas rapidamente verifiquei que, além de defender o controlo da natalidade (está na origem da Associação Americana do Planeamento Familiar), o que por si pode não ser negativo, a autora era uma defensora do eugenismo, ainda antes de Hitler, e da esterilização dos “débeis mentais”.

Mesmo antes da leitura do livro sobre os livros e dos livros em si, fica a pergunta: o que fazer com estes 15 livros? Queimá-los? O autor responde: “Nem pensar nisso! Trata-se de uma proposta indefensável, quanto mais não seja por razões ambientais. Há muito tempo que cheguei à conclusão de que a melhor solução – a única solução possível (…) – é lê-los, conhecê-los de trás para a frente e da frente para trás, extirpar o seu coração maligno e dá-lo a conhecer ao mundo”. É isso o que faz neste livro informado, crítico e saudavelmente demolidor.


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ainda podemos falar de Deus? Editorial do "Le Monde des Religions"


Editorial de Frédéric Lenoir, director do “Le Monde des Religions”. É do início do ano, mas vale a pena ler, agora que está traduzido em português (copiei daqui), sobre a dificuldade de falar de Deus. Pode ser lido em francês aqui.

Quando foi feita a pergunta “Você acredita em Deus” a Albert Einstein, este respondeu: “Me diga o que você entende por Deus e eu te direi se creio nele ou não!” Seu interlocutor ficou calado. E por quê! Quando se diz “Deus”, de que Deus se está falando? Do Deus ao qual os astecas sacrificavam crianças? Do Deus pessoal da Bíblia que fala a Moisés e aos profetas? Do Deus de Espinosa que se identifica com a natureza? Do Grande Relógio de Voltaire? Mesmo no interior de uma tradição como o cristianismo, as imagens de Deus são inúmeras: o que há de comum entre o Pai amoroso de Jesus “que faz brilhar o sol tanto sobre os bons como sobre os maus” e o padre Fouettard do século XIX que, pela boca de muitos clérigos, ameaça o menor pecador com o fogo eterno? Entre o Deus da Madre Teresa, em nome do qual ela deu sua vida a serviço dos mais despojados, e o do Grande Inquisidor, que estava convencido de ser seu mais fiel servidor ao condenar à fogueira os heréticos? 
Diante das aberrações da religião, os “mestres da suspeita” vão desenvolver uma crítica radical de Deus e da fé. Denunciada como uma alienação intelectual por Augusto Comte, como uma alienação antropológica por Ludwig Feuerbach, como uma alienação econômica por Karl Marx e como uma alienação psíquica por Sigmund Freud, a fé em Deus é vista pelos principais pensadores do final do século XIX como a sobrevivência infantil de uma necessidade de segurança que impede o homem de atingir sua plena estatura.
Os dramáticos acontecimentos do século XX também vão dar um golpe fatal à ideia bíblica do Deus bom e todo-poderoso. Como ainda podemos crer nesse Deus providencial, que cuida de cada um, depois de 50 milhões de mortos das duas guerras mundiais? Após dezenas de milhões de mortos do Holocausto? Após Hiroshima? Após Auschwitz? “Deus morreu pendurado em uma corda por um verdugo em Auschwitz”, dirá Elie Wiesel para explicar a perda de sua fé após ter atravessado o horror dos campos de concentração. 
Ainda podemos falar de Deus no começo do século XXI? Deus ainda é crível? Alguns filósofos judeus e cristãos, como Emmanuel Lévinas ou Paul Ricoeur, tentaram redesenhar a possível figura de Deus na nossa pós-modernidade. Pois, como destacou Hannah Arendt, “não é certo que Deus esteja morto, porque sabemos tão pouco sobre sua existência [...], mas, sem dúvida, a maneira como se pensou Deus ao longo de séculos não convence mais ninguém: se alguma coisa está morta, só pode ser a maneira tradicional de pensá-lo”. Assim, a maioria dos autores “crentes” contemporâneos e posteriores à Segunda Guerra Mundial enfatiza a necessidade de repensar Deus não mais como o “Todo-poderoso”, mas como o “não-poderoso”, esse que se deixa pregar na cruz, que se apaga diante da liberdade humana. “Deus é impotente e fraco no mundo. E assim apenas está conosco e nos ajuda”, escreveu Dietrich Bonhoeffer pouco antes de ser morto pelos nazistas, fazendo assim eco às proposições de Etty Hillesum. 
Mas, a maneira que me parece hoje a mais justa para um crente para falar de Deus... é falar dele o menos possível. De retornar à posição apofática de muitos místicos de todas as religiões, que lembram que a única coisa que podemos dizer de Deus é o que ele não é. É assim que podemos compreender a desconcertante oração do Mestre Eckart que pede a Deus... para se liberar de Deus! Se quisermos tornar Deus crível em nosso mundo desencantado, mais que falar dele, os crentes deviam sobretudo viver uma experiência interior transformadora e testemunhá-lo através de uma vida alegre e amorosa. Porque, no final das contas, como escreveu o grande teólogo Hans Urs von Balthasar: “Só o amor é digno de fé”.

sábado, 28 de agosto de 2010

Anselmo Borges: Há receitas para a felicidade?

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje. Note-se que termina referindo-se a Santo Agostinho. Hoje é dia dele.


O que queremos verdadeiramente é, sem sombra de dúvida, ser felizes. Mas como se chega à felicidade? É que, para se ser feliz, é necessária uma multidão de coisas e de condições: algum prazer, saúde, uma vida familiar agradável, realização profissional mínima, reconhecimento social, algum dinheiro, amigos - "sem amigos, ninguém escolheria viver", disse Aristóteles. Depois, também é preciso ter sorte, como diz a própria palavra no seu étimo ("felix"), e isso não acontece apenas com felicidade ("felicidad", em espanhol, e "felicità", em italiano): o "Glück" alemão significa felicidade e sorte, a raiz de "happiness" é "happ", com o significado de acaso, fortuna ("perhaps" significa talvez), o mesmo acontecendo nas palavras grega e francesa, respectivamente: "eudaimonia" e "bonheur".


E há choques, oposições, contradições. O Prémio Nobel da Literatura Heinrich Böll escreveu uma estória cheia de humor e sentido - eu ouvi-a ao Padre Tony de Mello. Chega um turista e dialoga com um pescador pobre, a apanhar sol na praia, com o resultado da sua pescaria: dois peixes. - Porque não pescas mais? - Para quê? - Para teres dinheiro, criavas uma empresa, tinhas muitos empregados, eras cada vez mais rico, exportavas, montavas mais empresas... - E depois?, pergunta o pescador. - Serias tão rico que já nem precisavas de trabalhar e passarias os dias na praia a apanhar sol... - Mas é precisamente o que estou a fazer, sem ter de passar por toda essa trapalhada, atirou-lhe o pescador.


Sob certo aspecto, é o pescador que tem razão. Será que precisamos de tanta quinquilharia, da qual já não conseguimos prescindir e pela qual nos desgraçamos a trabalhar? Por outro lado, o que seria a vida sem iniciativa e realizações? Hegel foi avisando que as páginas da história sem sofrimento são páginas em branco.


Há filósofos que colocaram a raiz da felicidade no prazer. Mas eles próprios foram prevenindo que há prazeres e prazeres e que os prazeres não podem ser desregrados. Outros apelaram para a virtude: o sábio é livre, porque consente no que não depende dele. Residirá a fonte da felicidade no poder? Seja como for, a omnipotência é uma ilusão. Não há felicidade perfeita neste mundo, só "ilhas de felicidade". No fim, é a morte que nos espera.


Mas há algumas regras práticas, a partir também de conhecimen-tos da neurofisiologia, para uma vida minimamente feliz. Enumero algumas, segundo o filósofo Richard D. Precht, numa estimulante viagem filosófica: "Wer bin ich und wenn ja, wie viele?" (Quem sou eu, e, se sou, quantos?).


Primeira regra: actividade. "Os nossos cérebros estão ávidos de ocupação". Para lá do ter e do ser, é preciso agir, sem agitação.


Segunda regra: vida social. A amizade, o casamento, a família, provocam o sentimento de protecção. Quem tem uma rede densa de relações não enfrenta sozinho preocupações e angústias.


Terceira regra: concentração. É preciso aprender a fruir o aqui e agora nos prazeres simples: o perfume de uma rosa, a sua beleza, o sabor de um vinho excelente. Não se pode viver obcecado com o futuro. Quem só espera vir a ser feliz nunca é feliz.


Quarta regra: expectativas realistas. "Comete-se muitas vezes o erro de exigir demais de si, mas também o de não exigir suficientemente. As duas atitudes geram insatisfação".


Quinta regra: pensamentos positivos. Embora seja mais fácil de dizer do que de conseguir, é preciso ter em atenção a astúcia dos psicólogos: "procede como se fosses feliz, e sê-lo-ás".


A sexta regra refere-se à capacidade de aprender a arte de lidar com as dificuldades e o sofrimento. Há crises salutares na vida.


Finalmente, a alegria pelo trabalho. "O trabalho é a melhor das psicoterapias." É sabido que para Freud a felicidade consistia em "poder amar e trabalhar".


Mas o ser humano vive numa tensão permanente: é um ser de desejo insaciável, de tal modo que o que alcança nunca o satisfaz plenamente. Por isso, Paul Ricoeur falava da "tristeza da finitude" e Santo Agostinho escreveu: "O nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti, ó Deus".

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Na Biblioteca de Louçã

Francisco Louçã mostrou os seus livros ao Público (22 de Setembro). Só retenho isto:


“Entre a filosofia e a história há psicanálise, incluindo L’avenir d’une illusion, de Freud.
- Comprei-o quando estava no secundário, no Padre António Vieira. É um livro sobre religião, e lembro-me de o ter usado para uma discussão muito grande sobre a existência de Deus com o padre Armindo Garcia, que é meu amigo até hoje. A passagem do politeísmo ao monoteísmo, a projecção do pai… Ainda hoje acho que o Freud tem razão”.

sábado, 11 de julho de 2009

A incredulidade de Pedro Mexia no santo divã


Gosto de apontar neste blogue os usos profanos da linguagem religiosa. Chamo-lhes “inspirações” (ver etiqueta), palavra que remete para algo que vem do alto. Há quem nos seus textos fale de pecados e revelações, céus e heresias… Faço estas notas como sinais da impossibilidade de reclusão da semântica religiosa no que é estritamente religioso. A linguagem religiosa dá quase sempre boas metáforas para falar do que é importante, sublime, doloroso…

Pedro Mexia, no P2 de 11 de Julho, escreve sobre uma visita à casa de Freud em Londres (n.º 20 de Maresfield Gardens, como refere), a sua familiaridade com os textos de Freud e a fé ou falta de fé na psicanálise.

O texto chama-se “santo divã”. Logo no título temos um caso, a que será de acrescentar a imagem que ilustra o texto. O cronista descreve um sofá com colcha, mais de acordo com a imagem que se reproduz acima do que com a do “Público”, onde o móvel aparece despido. É bem de ver que o divã é o altar da psicanálise, embora não seja usada a palavra altar, nem sacerdócio (saberá Mexia da abstinência sexual da segunda metade da vida de Freud?), nem sacrifício.

Pedro Mexia diz que entrou a medo, “num espreito quase religioso”. Claro, estava a pisar o santuário. A certa altura diz: “Aproximei-me o mais que pude do divã. O santo divã, relíquia do mundo ocidental”. Parecia Moisés a aproximar-se da sarça.

E ainda: “A Psicanálise como terapia tem uma dimensão de fé. É como os bonecos vudu: só morre quem acredita. Ou, neste caso, só vive quem acredita. Eu não acredito, nunca acreditei, passei pelos santos divã como jogo intelectual, mas ninguém cura coisa nenhuma, ou pelo menos não me foi dada essa fé”.

Pedro Mexia saiu “de mansinho da casa do bom doutor”. Saiu “reconfortado”, mas não convertido.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...