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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Morreu o teólogo João Batista Libânio

Morreu na quinta-feira, 30, o padre jesuíta João Batista Libânio, grande teólogo brasileiro, da teologia da libertação, mas também da pastoral urbana.



No sítio digital dele (aqui), há de voltar a ser possível conhecer alguns dos seus escritos. E há aqui uma revista digital sobre o seu percurso e pensamento.

Agradeço ao P.e Pedro José, que nos seus tempos brasileiros me deu a conhecer este teólogo.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Francisco quer ler livro de Boff

No DN de hoje, entre as várias notícias do Papa no Brasil, está esta acima. O Papa quer ler o mais célebre livro de Leonardo Boff, precisamente o que mais conflito criou na relação com a Congregação para a Doutrina da Fé, então comandada por Ratzinger. A notificação da CDF sobre esse livro está aqui. Então Francisco ainda não leu este clássico da teologia? Não acredito. E deve haver vários exemplares lá pelos arquivos do Vaticano.

Na realidade, uma notícia do "Público" de segunda-feira diz outra coisa. O que Francisco quer ler é "Francisco de Assis e Francisco de Roma: uma nova primavera na Igreja?" Ver notícia abaixo. Boff cheio de esperança.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Memória perigosa

O Messias aponta-nos a grande missão de compaixão pela humanidade. Se percebêssemos isso como cristãos, hoje, essa seria a nossa memória perigosa.

Johann Baptist Metz em entrevista a António Marujo (24 de dezembro de 2006) in "Deus vem a Público"

sábado, 1 de setembro de 2012

Anselmo Borges: A teologia da libertação na Doutrina da Fé?

Gerhard L. Müller

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Uma vez, num seminário na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, um juiz perguntou-me o que é que eu pensava sobre a teologia da libertação. Disse-lhe: "Permita que lhe responda com uma pergunta: o que pensa o senhor sobre a teologia da opressão?"

Percebe-se. Se a teologia não for teologia da libertação, não será urgente bani-la, excomungá-la? Mas ele referia-se, evidentemente, a um tipo de teologia que dá por esse nome e que quer trabalhar e pensar a partir e ao serviço dos mais pobres, passando, portanto, de um cristianismo "sacral" a um cristianismo "social", e à qual o cardeal Joseph Ratzinger teceu fortes reservas.

Em 1972, foi o livro do teólogo G. Gutiérrez, Teologia da Libertação, que acabou por consagrar o seu nome. Em 1983, Ratzinger enviou à Conferência Episcopal do Peru observações críticas sobre a teologia de Gutiérrez, acusando-o concretamente de utilizar um método de interpretação marxista, fazer uma leitura parcial dos textos bíblicos e pôr o acento na economia e na política, não acautelando suficientemente a realidade religiosa e transcendente do Reino de Deus. Os bispos do Peru foram chamados a Roma em 1985 e pressionados para que o condenassem. A condenação não aconteceu, pois, como conta o teólogo X. Pikaza, foram vários a dizer que não tinha sentido "obrigá-los" a condenar um irmão crente comprometido com os pobres.

O singular nesta história é o alemão Gerhard L. Müller, que foi catedrático de Teologia na Universidade de Munique, bispo de Ratisbona desde 2002 e que, em substituição do norte-americano William Levada, que abandona o cargo por motivos de idade, acaba de ser nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o organismo responsável pela vigilância da ortodoxia. Müller não esconde a sua amizade com Gutiérrez e, por isso, há quem chegue a pensar que esta nomeação é uma espécie de reparação de J. Ratzinger.

Müller escreveu: "A teologia da libertação está para mim unida ao rosto de Gustavo Gutiérrez." Em 1988, participou num seminário dirigido por ele, e confessa: "Operou-se em mim uma viragem na reflexão académica sobre uma nova concepção teológica dirigida para a experiência com as pessoas para as quais tinha sido desenvolvida essa teologia."

E pergunta: "Como se pode falar de Deus perante o sofrimento humano dos pobres, que não têm sustento para os filhos nem direito a assistência médica nem acesso à educação, excluídos da vida social e cultural, marginalizados e considerados um fardo e uma ameaça para o estilo de vida de uns poucos ricos?" A teologia de Gutiérrez "é ortodoxa, porque é ortoprática".

Durante 15 anos passou 2 ou 3 meses por ano na América Latina, vivendo em condições muito simples, o que, como confessa, "para um cidadão da Europa central implica um grande esforço". Mas isso marcou-o profundamente e, assim, é inclemente na condenação do capitalismo neoliberal, cuja expressão sem escrúpulos são os vulture funds. "Depois da queda do comunismo, alguns pensaram que se poderia conseguir o paraíso na terra com um capitalismo desenfreado. As forças auto-reguladoras do mercado à escala mundial trariam por si mesmas o bem-estar para todos ou, pelo menos, para a maioria. A realidade é muito diferente. Foi a cobiça de homens concretos que provocou a actual crise financeira mundial, cujas consequências, mais uma vez, os pobres e os mais pobres dos pobres têm de pagar com a sua vida, a sua saúde, a morte prematura e todas as perspectivas perdidas, previstas por Deus para eles."

Deu recentemente uma entrevista ao Osservatore Romano, onde reafirma que é necessário "distinguir entre uma teologia da libertação equivocada e outra correcta", mas "qualquer teologia boa tem que ver com a liberdade e a glória dos filhos de Deus".

A sua chegada ao Vaticano não significa uma revolução - também foi prevenindo contra a "ordenação" das mulheres -, mas pode ser um bom sinal. Quer, com Paulo VI, que o aspecto positivo esteja em primeiro plano na Congregação para a Doutrina da Fé: "Ela deve, sobretudo, promover e tornar compreensível a fé, e este é o factor decisivo."

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Pedro Casaldáliga: "Hora de decepción y de involución"


Pedro Casaldáliga

Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, Brasil, afirma que "nuestra Iglesia vive una hora de decepción y de involución, de distancias dolorosas entre la institución y el pueblo". Na Igreja, "falta proximidad en las estructuras y credibilidad" (li aqui).

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Simpósio dos renegados "teólogos marxistas da libertação"



Notícia retirada de ACI Digital:

Teólogos e pensadores sancionados pela Igreja por difundir ideias contrárias à doutrina católica participarão de um congresso latino-americano que busca equiparar o Concílio Vaticano II com a teologia marxista da liberação em São Leopoldo (RS). O evento leva o nome de "Congresso Continental de Teologia: Aos 50 anos do Vaticano II e 40 anos da Teologia Latino-americana e Caribenha" e admite ademais promotores da ideologia de gênero. 
O evento se realiza entre os dias 7 a 11 de outubro de 2012 na universidade jesuíta Unisinos, com o apoio da Pontifícia Universidade Javeriana da Colômbia (que há poucos dias apoiou a adoção de crianças por casais homossexuais) o grupo de pressão Amerindia e a agência informativa de cunho marxista Adital, que tem entre seus colunistas o frade dominicano brasileiro Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como "Frei Betto", que promove a despenalização do aborto. 
ACI Digital teve acesso ao programa oficial do evento que contará com a presença de teólogos como o espanhol Andrés Torres Queiruga, cujas obras foram recentemente consideradas incompatíveis com a doutrina da Igreja pela Conferência Episcopal Espanhola. 
Outro participante do evento é o conhecido autor e conferencista Leonardo Boff, considerado um dos principais promotores da teologia marxista da liberação, quem na década de 90 abandonou o sacerdócio, casou-se, e se afastou da Igreja Católica para converter-se em "ecoteólogo de matriz católica" dedicado a escrever livros de ecologia e “espiritualidade”. 
Jon Sobrino, sacerdote jesuíta e líder entre os teólogos marxistas, também se apresentará no congresso latino-americano apesar da que suas idéias "não estejam conformes com a doutrina da Igreja", como opinou a Congregação para a Doutrina da Fé no ano 2007 através de uma notificação oficial.

Pela notícia em cima, parece que só falta convidar o diabo para este congresso da “teologia marxista da libertação”. Os hiperfidelíssimos, em contrapartida, poderiam sempre responder com um congresso com Marcial Maciel (que já cá não está, mas há mais quem siga os seus métodos), Karadima e um ou outro negacionista do Holocausto, mas que sabe muito latim. 

Ler mais aqui.
Sítio do Congresso aqui.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A teologia da revolução de D. Januário segundo Alberto Gonçalves

Um excerto do DN de hoje, de um texto de Alberto Gonçalves (aqui). Mais um caso de usos  Os negritos são meus.
Teologia da revolução
Januário Torgal Ferreira, que desempenha a emérita função de bispo das Forças Armadas, prevê a queda do regime para breve. Desde sempre que me lembro de D. Januário ocupar o tempo a prever turbilhões do género. A cada quinze dias, o homem antecipa quedas de governos, regimes, sociedades e civilizações. Não obstante, os anos passam e ainda cá estamos todos. E, Deus seja louvado, D. Januário também.Mas o problema não é a absoluta falta de talento premonitório revelada pela eclesiástica figura. O problema, de resto bastante comum, é D. Januário parecer menos empenhado em acertar nas calamidades do que em convocá-las. Apesar da crise e da austeridade e do empobrecimento e da injustiça, uma pessoa olha em redor e vê um Governo cujo principal partido lidera destacadíssimo as sondagens e uma população que, acabrunhada com razão e às vezes com legitimidade, por enquanto (repito: por enquanto) não anda propriamente a espalhar a destruição pelas ruas. Em mais do que um sentido, Portugal de facto não é a Grécia ou pior. D. Januário, decerto sem querer, dá a impressão de que gostaria que fosse.É pena. Seria bom que, além de espantosamente conciliar a dimensão bélica com a religiosa, D. Januário não acrescentasse a política ao caldo. E seria óptimo que o caldo não inspirasse militares a sério, para cúmulo organizados em arremedos sindicais, a se meterem onde literalmente não são chamados. Um Otelo chega e sobra, assim na terra como no céu.
Nota histórico-teológica: Teologia da revolução foi o primeiro nome da teologia da libertação. José Comblin publicou em 1970 uma obra chamada "Teologia da revolução" (a expressão já era usada desde os anos 1950). Só depois, em 1971, Gustavo Gutiérrez publicou o seu "Teologia de la liberación - perspectivas", que fixou definitivamente a denominação desta corrente da teologia.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

2 de fevereiro de 2005. O Papa aceita a renúncia de D. Pedro Casaldáliga


Pedro Casaldáliga (Barcelona, 16 de fevereiro de 1938), uma das vozes maiores da teologia da libertação, deixou a prelazia de S. Félix do Araguaia, no Mato Grosso, do dia 2 de fevereiro de 2005, dia João Paulo II aceitou a sua renúncia por motivos de saúde.

Este bispo ordenado ao ar livre – a melhor catedral, como dizia – não tinha anel de ouro, nem mitra, muito menos brasão. Usava e usa um anel de tucum (há vídeos no youtube que explicam porquê). Tinha como lema “nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”.
Os seus escritos podem ser lidos aqui.

   AL MISIONERO ANÓNIMO
   
   Quizás no daba más tu teología,
   del Reino y de un imperio servidor,
   salvar y conquistar la paganía,
   cruzado entre las armas y el Amor.


   La espada tu Evangelio desmentía,
   los yelmos apagaban tu fervor,
   ¡la mucha sangre de tu Eucaristía
   no era sólo la sangre del Señor!


   ¿Pudo la Pascua hacernos gente esclava?
   ¿Qué nueva libertad nos liberaba
   en las violentas aguas del Bautismo?


   ¿Qué paz traían tus atadas manos?
   ¿Hacía de verdad hijos y hermanos
   el Padre Nuestro de tu catecismo?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Católicos do Reino versus da Comunhão

Timothy Radcliffe escreveu em “Ser cristão para quê?” (Ed. Paulinas) um capítulo (p. 239-259) sobre as divisões internas da Igreja que corroem  comunidades e semeiam ira entre os cristãos.


Estas divisões internas atravessam toda a Igreja, do Vaticano às dioceses, dos bispos aos padres, dos movimentos às paróquias, dos teólogos aos comentadores neste blogue. Leiam-se os comentários aqui neste post. Este tipo de diálogo é recorrente em alguns assuntos neste blogue.


Radcliffe chama a estas tensões “católicos do Reino” e “católicos da Comunhão”. Sintetizo as características de uns e outros. Embora a maioria dos cristãos se reencontre em ambos, quase todos nós preferimos mais um ou outro tipo.

Católicos do Reino
Católicos da Comunhão
Veem-se como Povo de Deus em peregrinação para o Reino

Vêem-se como membros da instituição Igreja, a Comunhão dos crentes
Os principais teólogos colaboram na revista “Concilium”

Os principais teólogos colaboram na revista “Communio”
Não há revelação nem verdade sem liberdade

A verdade e a beleza têm autoridade para atrair as pessoas
Doutrina central: Incarnação


Doutrina central: Cruz
Veem a verdade como uma libertação


Veem a verdade como um  reagrupar das forças
Centram-se na práxis e na experiência


Centram-se na adoração e na liturgia
Cristo é o que derruba fronteiras


Cristo é o que reúne uma comunidade
Ubi Christus, ibi ecclesia – Onde está Cristo, aí está a Igreja

Ubi ecclesia, ibi Christus – Onde está a Igreja, aí está Cristo
Dão mais destaque ao “sangue derramado pela multidão” (“por todos”)

Dão mais destaque ao “pão dado aos discípulos” (“por vós”)
Pensam (erradamente) que os católicos da Comunhão são uns saudosistas do passado
Pensam (erradamente) que os católicos do Reino sucumbiram à cultura do relativismo

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Montesinos e Romero, profetismo e política



Por estes dias, nos 500 anos do sermão de Montesinos contra a exploração dos índios, tem-se falado muito de teologia da libertação, até porque foi há 40 anos que Gustavo Gutiérrez publicou “Teología de la Liberación”.

Jesús Espeja, dominicano como Montesinos e (agora) Gutiérrez, escreveu sobre o profetismo e a política no jesuíta Romero, recordando Montesinos. Não sou propriamente adepto da teologia da libertação; todas têm de ser da libertação; se não forem, se forem da opressão, não são cristãs. Mas é preciso admirar os bons exemplos de presença cristã na sociedade. Por outro lado, o texto tem bons princípios para a acção política do cristão.  
O sermão de Montesinos foi a expressão de alguns missionários que, vendo as vexações desumanas dos colonos contra os índios, se deixaram impactar e levantaram sua voz: "Acaso estes não são homens? Como os tendes tão oprimidos e fatigados? Não estais obrigados a amá-los como a vós mesmos?". Logicamente, sua denúncia tinha um impacto político; exigia uma mudança de mentalidade e de estruturas na organização da sociedade. A mudança punha em perigo os interesses econômicos dos encomenderos espanhóis que reagiram tentando silenciar, por todos os meios, a voz profética. 
Por muito tempo, manteve-se nos manuais de história uma lenda negra sobre aquele gesto dos dominicanos na La Española, que depois o Frei Bartolomé de Las Casas moldou em sua prática evangelizadora. 
Anos atrás, foi notícia o assassinato de Óscar Arnulfo Romero, arcebispo de San Salvador, que, em um dia de 1980, foi premeditadamente eliminado enquanto celebrava a Eucaristia. Quando eu li suas homilias e escritos detidamente, eu já conhecia um pouco a situação em El Salvador e em outros povos da América Latina. Esse conhecimento logo me ajudou a entrar em sintonia com a preocupação e o pensamento do bispo mártir. 
Impressionou-me especialmente a sua lucidez sobre a dimensão política da fé em uma conferência que ele deu na Universidade de Louvain, pouco antes de lhe arrancarem a vida. No entanto, pouco depois desse crime lamentável, eu assisti a uma conferência em que um alto cargo eclesiástico fazia este comentário: "É uma pena a morte sacrílega de Dom Romero que era um bispo. Mas o problema foi que ele se meteu na política". Eu não sei se fiz bem ficando em silêncio, mas não pude digerir aquele diagnóstico tão simplista e falso. 
Passados já vários anos, vendo como tanto na América Latina quanto no próprio coração da nossa sociedade espanhola os pobres são cada vez mais irreverentemente coisificados e excluídos, vejo que a denúncia de Montesinos e a de Dom Romero, embora em uma situação histórica e cultural diferente, responde ao mesmo espírito evangélico: "Acaso estes não são homens?", gritava Montesinos. "A dignidade humana acima de tudo", "pare a repressão!", era o grito profético de Dom Romero. 
A Igreja continua proclamando que "o profundo estupor com relação ao valor e à dignidade do ser humano se chama Evangelho". Mas a prática de acordo com essa convicção necessariamente deve ter uma incidência política. É verdade que a missão da Igreja não é diretamente política, mas sim religiosa. Mas como ser testemunhas do Deus revelado em Jesus Cristo, cuja imagem é todo ser humano, senão ouvindo a voz das vítimas, defendendo sua dignidade como pessoas e entrando assim em conflito com estruturas e e com aqueles que provocam a situação injusta ou não fazem o possível para mudá-la? 
A Igreja, que nunca deve se identificar com nenhum partido político, não pode ficar de braços cruzados quando se nega a dignidade e os direitos fundamentais das pessoas. E a questão não é só que os bispos falem, nem que alguns cristãos, a partir de sua cadeira no Congresso, tentem gerenciar a política, buscando que todos possam gozar dessa dignidade. O desafio é para todos os batizados. 
Uma conduta, desvinculada da cobiça insaciável, cujos valores máximos são a diversão e o consumo. Uma conduta que respire os sentimentos de Deus, manifestados no Natal: profundo estupor perante a dignidade do ser humano, compaixão eficaz perante o sofrimento das vítimas, atitude do bom samaritano que põe em jogo todas as seguranças para levantar os humilhados e ofendidos. Nessa conduta, é inevitável a incidência política da fé cristã.
Copiado daqui.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Luís Miguel Cintra profere sermão de Montesinos em favor dos índios


Estátua de Montesinos em Santo Domingo

Faz amanhã, 21 de Dezembro, 500 anos que António de Montesinos, em nome da comunidade dos frades dominicanos de La Hispaniola, pronunciou um sermão em defesa dos índios explorados pelos colonizadores da ilha que hoje é República Dominicana e Haiti.


Amanhã, às 21h30, no Convento de S. Domingos (Rua João de Freitas Branco, 12), em Lisboa, o actor Luís Miguel Cintra vai ler o sermão de há meio século. O sermão será complementado com peças gregorianas de Advento.
Todos vós estais em pecado mortal. Nele viveis e nele morrereis, devido à crueldade e tiranias que usais com estas gentes inocentes. Dizei-me, com que direito e baseados em que justiça, mantendes em tão cruel e horrível servidão os índios? Com que autoridade fizestes estas detestáveis guerras a estes povos que estavam em suas terras mansas e pacíficas e tão numerosas e os consumistes com mortes e destruições inauditas? Como os tendes tão oprimidos e fatigados, sem dar-lhes de comer e cura-los em suas enfermidades? Os excessivos trabalhos que lhes impondes, os faz morrer, ou melhor dizendo, vós os matais para poder arrancar e adquirir ouro cada dia... Não são eles acaso homens? Não tem almas racionais? Vós não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Será que não entendeis isso? Não o podeis sentir?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Misticismo de olhos abertos


Da entrevista de António Marujo a Johann Baptist Metz

A sua proposta de uma mística da compaixão como uma mística política não é uma contradição nos termos?
Misticismo e política? Não. Se se entender a mística política em confronto com as diferentes formas de misticismo de olhos fechados, não é uma contradição. Já em 1980 falei do misticismo de olhos abertos, que é uma característica básica do misticismo bíblico. Porque todos temos responsabilidade por outros sofrerem. Isso é também uma diferença básica em relação ao budismo.
Não estou a afalar em política partidária, mas de uma inspiração para o âmbito público da nossa vida. É uma motivação e inspiração para o que chamamos política. Não podemos separar estas duas dimensões.

António Marujo, “Deus Vem a Público. Entrevistas sobre a transcendência. I volume” (ed. Pedra Angular)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Missionários, bíblias e terra

Jomo Kenyatta (1894-1978), fundador da nação queniana


Quando os missionários chegaram pela primeira vez à nossa terra, eles tinham as bíblias e nós tínhamos a terra. Cinquenta anos depois, nós tínhamos as bíblias e eles tinham a terra. 

Jomo Kenyatta


No mês das missões, é preciso pensar que nem tudo foi bom, embora eu não tenha qualquer dúvida de que os missionários actuais, mais do que os jornalistas ou os políticos, mesmos os bons, são os verdadeiros heróis do nosso tempo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Será verdade que "Povo de Deus" desapareceu?



José Comblin, o padre belgo-brasileiro, teólogo da libertação, "teólogo da enchada", morreu no dia 27 de Março de 2011. Mas há dias foi publicado um artigo dele sobre o Vaticano II, "50 anos depois".


Vale a pena ler. Alguns dirão, é claro, que é de evitar.


O que mais me impressionou foi a afirmação de que desde 1985 a expressão "Povo de Deus" foi eliminada do vocabulário do Vaticano. Ou seja, dos documentos do Magistério. Será verdade? Uma expressão com tanta raiz bíblica, a "Qahal" de Javé...


O artigo está aqui.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Comecei a ler "Introdução ao Cristianismo", de Joseph Ratzinger



Comecei a ler "Introdução ao Cristianismo", de Joseph Ratzinger (ed. Princípia). Não é um começo integral, porque já lera partes do livro, até copiei para aqui um longo excerto sobre o pecado na Igreja, mas será uma leitura sistemática - assim espero. Por isso comecei pelo prefácio escrito em 2000 (a edição original foi lançada em 1968), onde se expõe claramente a opinião negativa sobre o Maio de 1968, a crítica à teologia da libertação, a impotência do cristianismo para apresentar uma alternativa à defunta "doutrina marxista da salvação", a partir de 1989.


Em parte, esta leitura corresponde à minha promessa a um comentador deste blogue, que dizia que Ratzinger é o maior teólogo do século XX, um autêntico "Padre da Igreja". Prometi conhecer mais o pensamento do teólogo Ratzinger. Continuo a achar que nem sequer vai à final de oito. O prefácio à edição de 2000 mostra que é um teólogo quezilento. Amargo, até. Mas é sabido que o resto da obra em causa, ou seja, a totalidade da edição original, ainda respira do optimismo pós-concílio.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A teologia não se inspira no marxismo, diz Boff

Boff lembrando Marx

“A teologia inspira-se no Cristo libertador e não no marxismo, que já morreu”. “Marx não foi pai nem padrinho da Teologia da Libertação”. Quem o disse foi Leonard Boff, no 24.º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, em Belo Horizonte.

Se Marx não foi pai nem padrinho, deve ter sido pelo menos conselheiro. Esta corrente da teologia até esteve para se chamar “teologia da revolução”, que é o título de uma obra de 1970 de José Comblin (1923-2011).

Boff disse também que a Teologia da Libertação continua viva e presente nos movimentos sociais (Partido dos Trabalhadores, Movimento dos Sem-Terra, Conselho Indigenista Missionário, Comissão Pastoral da Terra e outras pastorais), apesar de ter sido "incompreendida, difamada, perseguida e condenada pelos poderes deste mundo", civis e eclesiásticos.

E uma farpa para Bento XVI/Ratzinger, que quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, castigou o teólogo brasileiro: "Ratzinger entrará na história como inimigo dos pobres".

Li aqui.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Morreu o teólogo José Comblin


Morreu ontem, 27 de Março, em Simões Filho, perto de Salvador, no Brasil, o padre José Comblin, teólogo de libertação, de origem belga. Tinha 88 anos, completados no dia 22 de Março. Foi assessor de D. Hélder Câmara (imagem abaixo). Era uma voz profética, ou seja, incómoda, quer para o exterior quer para o interior da Igreja.


Conferência crítica sobre a Igreja actual aqui. Entrevista na mesma linha aqui.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...