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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Há um cardeal que vai ser o ministro da família

Pelo que percebi, a família deixa de ser uma secretaria de estado e passa a ser um ministério. Por outras palavras, uma congregação. No Vaticano.

"Decidi instituir um novo dicastério com competência sobre leigos, a família e a vida, que vai substituir o Conselho Pontifício para os Leigos e o Conselho Pontifício para a Família, ao qual vai estar ligada a Academia Pontifícia para a Vida", disse o Papa.

E o que adianta? Não sei.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Vaticano responde perante a ONU sobre abusos sexuais

Da notícia do "Público":

O Vaticano está, pela primeira vez, a responder perante o Comité da ONU para os Direitos da Criança (CNUDC) sobre acusações de abusos sexuais de menores contra padres da Igreja Católica em vários países e ao longo de várias décadas. A sessão do comité começou esta quinta-feira em Genebra e prolonga-se, em reuniões à porta fechada, até ao fim do mês.

Isto é inédito por se tratar do mais alto nível da Igreja católica. Ainda não imagino o alcance desta atitude, mas conhecendo-se a longa história de os clérigos se justificarem apenas perante as autoridades eclesiais, há aqui uma mudança importante. Por outro lado, por outro lado, continuo a pensar que é um equívoco o Vaticano ter de responder por pessoas individuais, mas reconheço que a resposta faz sentido à tua da teologia do sacerdócio católico, como também as vítimas e seus advogados defendem - provavelmente por outros motivos.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Leonídio Paulo Ferreira: "Só a papamania foi mais forte do que Putin"

Vladimir e Jorge

Leonídio Paulo Ferreira no DN de hoje:

Rondou o absurdo pensar que Putin poderia ter recebido o Nobel da Paz pela mediação na Síria. Mas "Figura do Ano" seria razoável. Mede-se o impacto, não se é positivo ou negativo. E se a Time serve de referência, note-se que já distinguiu Hitler como Gandhi e João Paulo II.
Porém, Jorge Mario Bergoglio é um fenómeno. O estilo terra a terra do argentino que chegou a Papa sob o nome Francisco atrai simpatias dentro e fora do mundo católico. Foi a escolha da revista americana, mas também do Le Monde. E perante a Papamania, o líder russo não teve hipóteses. Um remake do tal poder das divisões do Vaticano que Estaline desdenhava.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Diplomacia sem a ajuda do Espírito Santo

João Marcelino (DN) escreveu ontem, num artigo sobre Mandela (aqui), que Adriano Moreira dizia “que todos os ocidentais devem desculpa aos países africanos e que a diplomacia portuguesa é tão boa como a do Vaticano mas sem a ajuda do Espírito Santo...”

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Francisco cumpre a profecia de von Balthasar?

Francisco e Ganswein

Há dias o perfeito da Casa Pontifícia, mons. Georg Ganswein, disse que no início ficou irritado por o Papa Francisco ter ficado a residir em Santa Marta. Agora já passou e os dois riem disso.

Questionei-me então se na opção de ficar em Santa Marta, para lá das "questões psiquiátricas" invocadas por Francisco, não estaria igualmente a sugestão de Hans Urs von Balthasar, que escreveu que para acabar com "escândalo inútil" seria bom que o Papa "transformasse o Vaticano num museu e se transferisse para a entrada de Roma".

O teólogo suíço, tão da preferência de Bento XVI, escreveu aquele desejo no livro "Punti fermi" (Rusconi), pág. 326, publicado em Milão no ano de 1972.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Bento XVI triste por desconfiarem do seu amigo Gotti Tedeschi


A revista "Sábado" de hoje, reportando-se a uma entrevista do secretário de Bento XVI, diz o que ouvi alguns jornalista mais avisados dizerem: "Que Bento XVI já não tinha mão naquilo". Provavelmente nunca teve. Ele era mais livros e menos política. 

O que disse mesmo o secretário a 23 de outubro:

É verdade que o Papa Ratzinger foi mantido às escuras sobre a expulsão de Gotti Tedeschi do IOR?
 
Eu me lembro bem desse momento. Era o dia 24 de maio. Naquele dia, houve também a prisão do nosso mordomo Paolo Gabriele. Ao contrário do que se pensa, não houve nenhum nexo entre os dois eventos, mas sim apenas uma infeliz coincidência, até mesmo diabólica. Bento XVI, que tinha chamado Gotti para o IOR, para levar adiante a política da transparência, ficou surpreso, muito surpreso pelo ato de desconfiança para com o professor. O papa o estimava e o queria bem, mas, por respeito às competências de quem tinha responsabilidade, ele optou por não intervir naquele momento. Depois da desconfiança, o papa, por motivos de oportunidade, embora nunca tenha recebido Gotti Tedeschi, manteve os contatos com ele de modo adequado e discreto. (Ler a entrevista toda aqui.) 
Como o nome de Ettore Gotti Tedeschi já por este blogue andou várias vezes, fui ver o que escrevi sobre ele. Já não me lembrava e não me imaginava tão informado em 25 de novembro de 2010:

Que as suspeitas tenham surgido após a visita ao Reino Unido, quando Ettore Gotti Tedeschi (...), um homem da confiança do Papa alemão, tem feito um trabalho notável à frente do IOR, leva a pensar no que já tem sido adiantado mais à boca fechada do que às claras: mais uma tentativa para atingir Bento XVI.

(Ler tudo aqui.)

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Adeus, bispo gastador. Olá, equipa de críquete

O bispo de Limburgo (Alemanha), que gastou 31 milhões de euros na sua residência episcopal, foi afastado temporariamente da sua diocese. Li aqui. O "Dinheiro vivo" há tempos escreveu sobre este senhor. Ler aqui.


Entretanto, diz uma notícia que o

Vaticano funda equipa de críquete e desafia Igreja de Inglaterra

Assim de repente, a gente lê e não acredita. Mas a notícia explica e lá se compreende.
Irá realizar-se um campeonato que será disputado por equipas de padres e seminaristas de instituições católicas em Roma. Depois de jogarem entre si num torneio “Twenty20”, os melhores jogadores são seleccionados para o “Vatican XI”, a equipa do Vaticano, e vão desafiar a Igreja de Inglaterra para que também forme uma equipa para disputar um jogo no Lord’s, o estádio mais célebre da modalidade, em Londres. Ler aqui.
É algo tão ridículo como a Clericus Cup. É desporto universitário e mais nada. Não sei por que é que o país do Papa se mete nestas coisas.

domingo, 6 de outubro de 2013

Como reformar o Vaticano

Thomas J. Reese

Por estes dias em que se tem falado da reforma da cúria vaticana, veio-me à memória um artigo que li há uns tempos sobre “Reformar o Vaticano”. O autor do artigo é Thomas J. Reese, um jesuíta.

Em português, o padre norte-americano que já foi diretor da revista “America” tem publicado o livro “No interior do Vaticano”, nas edições Europa-América, que é de longe o melhor livro em português, mesmo que haja outros sérios (conheço mais dois ou três, mas são panfletários) para perceber como funciona a organização vaticana (funções papais, sínodos, colégio dos cardeais, cúria romana, finanças do Vaticano, etc.).

E agora a nota de humor. Conta Reese, na página 197:
“O consultor de uma congregação organizou os cinco «não» para se sobreviver na Cúria:
Não penses.
Se pensas, não fales,
Se pensas e falas, não escrevas.
Se pensas e falas e escreves, não assines o teu nome.
Se pensas e falas e escreves e assinas o teu nome, não fiques surpreendido.”
Ele sabe do que fala. Ora, no tal artigo - não está no livro citado -, Reese explica seis propostas concretas para a reforma do Vaticano. São elas:

1. Transformação do Vaticano de uma corte real para uma burocracia.
2. Fortalecimento dos grémios legislativos na igreja.
3. Transformação das congregações em comissões sinodais eleitas.
4. Criação de um poder judicial independente.
5. Eleição dos bispos.
6. Fortalecimento das conferências episcopais.

Antes de estranhar ou contrariar algumas destas proposições, convém ler o que Reese escreve em concreto. O artigo, condensado, pode ser lido aqui (formato PDF).

Tenho quase a certeza de que o Bispo de Roma – uma vez jesuíta, jesuíta para sempre – conhece o artigo.

Thomas J. Reese termina assim:
¿Qué oportunidades reales tenemos de que estas reformas se produzcan? Como sociólogo debo contestar: prácticamente nulas. La iglesia está regida actualmente por grupos que se refuerzan unos a otros y que saben perfectamente que esta reforma restringiría su poder. Y esto es exactamente lo contrario de su teología de la iglesia. Pero como cristiano católico debo seguir esperando.
Há tempos, no rescaldo das congregações gerais e da eleição papal, o jesuíta voltou ao tema no "National Catholic Reporter". Escreveu, entre outras coisas, o que quase já me pareceu ouvir da boca de Francisco:
My own prescription for reforming the Curia is based on the supposition that it should be in service to the pope as head of the college of bishops. It should be organized as a civil service and not part of the hierarchy of the church. 
Ler tudo (no NCR) aqui.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Anselmo Borges: "Papa Francisco: uma revolução tranquila"

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado (3 de agosto):



Não me custa admitir que nas Jornadas Mundiais da Juventude possa haver muito de Woodstock católico, mas também é verdade que aqueles três milhões que estiveram presentes no Rio saíram de lá, na sua grande maioria, mais felizes e mais decididos ao combate pela paz, pela justiça e pela fraternidade. Embora a culpa não seja dele, será igualmente necessário estar atento para o perigo real de o encandeamento provocado pela figura de Francisco e até algum populismo e culto da personalidade apagarem a lúcida e necessária capacidade crítica.

De qualquer forma, em quatro meses, Francisco pôs em marcha uma revolução tranquila, mas real, na Igreja, e a sua figura e mensagem estão a abrir espaços de esperança num mundo globalizado, habitado por imensos perigos.

A viagem ao Brasil foi um êxito. A sua mensagem foi, em primeiro lugar, ele próprio, na simplicidade, na bondade, na imensa cordialidade, proximidade e empatia com as pessoas, que quer ver autenticamente felizes. Para isso, foi deixando recados e exigências para todos, à maneira de profeta livre e exigente, em voz encantatória.

O programa para a Igreja toda: "As Bem-aventuranças e o Evangelho de Mateus, no capítulo 25 (parábola dos talentos e o Juízo Final). Não precisam de ler mais nada." "A Igreja tem de reformar-se continuamente; se não, fica para trás. Há coisas que serviam no século passado ou noutras épocas e agora já não servem; então, é necessário reformá-las."

Aos jovens: "Tendes o futuro, sois o futuro, sede protagonistas da mudança." "Ide sem medo para servir", "destruir as barreiras do egoísmo, da intolerância e do ódio e edificar um mundo novo".

Contra a exclusão, proclamou a necessidade da luta pela dignidade de todos, concretamente, para "os dois pólos da vida: os jovens e os anciãos". Nesta civilização, é "tal o culto que se presta ao deus dinheiro que estamos na presença de uma filosofia e de uma praxis de exclusão". "Não se deixem excluir nem excluam."

Nas favelas: "Ninguém pode permanecer indiferente perante as desigualdades." "A medida da grandeza de uma sociedade é determinada pela forma como trata quem está mais necessitado, quem não tem senão a sua pobreza." "Porque somos irmãos, ninguém é descartável."

Aos desesperados da droga: "A lepra dos nossos dias chama-se droga", mas "não estais sós". "Não deixeis que vos roubem a esperança." "Tu és o protagonista da subida, ninguém pode subir por ti." E atacou os "negociantes de morte, que seguem a lógica do dinheiro e do poder a todo o custo".

Aos eclesiásticos: "Fazem falta bispos que amem a pobreza e não tenham psicologia de príncipes." "Devem ser pastores, próximos das pessoas, pais, irmãos, pacientes e misericordiosos." "Reina a cultura da exclusão e do descartável." Que tenham a coragem de ir contra dois dogmas da sociedade atual, "eficiência e pragmatismo", e "sair ao encontro das periferias, que têm sede de Deus e não têm quem lho anuncie". Devem ir à procura dos "afastados, que são os convidados vip".

Aos políticos: condenou a corrupção e pediu-lhes que sejam humanos, que tenham "sentido ético" e pratiquem o "diálogo, diálogo, diálogo". É preciso "reabilitar a política", que deve estar ao serviço do bem comum, que "evite o elitismo e erradique a pobreza".

Porque é que tantos têm abandonado a Igreja, incluindo "aqueles que parece viverem já sem Deus?" A Igreja "mostrou-se demasiado débil, demasiado afastada das necessidades deles, demasiado fria, demasiado auto-referencial, prisioneira da sua própria linguagem rígida". Talvez tenha tido "respostas para a infância do homem, mas não para a sua idade adulta".

"Com a Cruz, Jesus une-se ao silêncio das vítimas da violência, que já não podem gritar; com a Cruz, Jesus une-se a tantos jovens que perderam a confiança nas instituições políticas porque vêem egoísmo e corrupção, ou que perderam a fé na Igreja, e até em Deus, por causa da incoerência dos cristãos e dos ministros do Evangelho."

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Marco Politi: "O apartamento vazio do Papa Francisco assusta o Vaticano"

É aqui que o Papa Francisco não mora

Admirável prosa de Marco Politi (que já por aqui andou, por exemplo), no “Il Fatto Quotidiano” de domingo passado, sobre os 100 dias do Papa Francisco. Respigo alguns parágrafos (quase tudo, aliás). Texto todo aqui. Enquanto Igreja também me sinto questionado.

A decisão é tão inédita e chocante que o pântano conservador – aninhado no Vaticano e na Igreja universal, embora provisoriamente silenciado pelo fracasso do pontificado ratzingeriano – tenta rebaixar o gesto como "estilo pessoal", um pequeno tique de originalidade. Mas é como se Obama deixasse a Casa Branca, ou a rainha da Inglaterra desertasse oBuckingham Palace, preferindo um alojamento ao lado da Victoria Station. Bergoglio desvaloriza radicalmente o Palácio, exalta o verdadeiro chefe da Igreja – Cristo – e se coloca abertamente entre os "pecadores" como são os fiéis aos quais ele se dirige. 
Os símbolos contam muito. Especialmente quando são arquivados. Dia após dia, o papa que veio do fim do mundo desmontou a simbologia imperial e quase divina dos pontífices. Ele rejeitou o manto e os sapatos púrpuras dos imperadores romanos, eliminou as mitras triunfalistas, ficou na chuva com os fiéis, explicou que viver isolados como soberano não lhe é possível por "motivos psiquiátricos", como se dissesse que é coisa de anormais se encerrar em uma torre de marfim. 
Ele disse a expressão mais afiada – que muitos no Vaticano e nas esferas cardinalícias tentam esquecer – a uma menina (escolha precisa de se dirigir aos inocentes: Bergoglio, assim como João XXIII, nunca fala por acaso). Quem busca o papado, proferiu, não é uma pessoa equilibrada. "Uma pessoa que quer ser papa não quer bem a si mesma, e Deus não a abençoa". 
O Palácio vazio, redimensionado como sede de trabalho, expressa uma reviravolta epocal. Inquieta dentro e fora da Cúria. Despedaça o ícone ideológico da "sede apostólica" como centro de um poder de cunho divino. Impede que a burocracia vaticana se cubra de pretensões de infalibilidade. Reforça o pedido aos bispos do mundo para que não adoeçam com a "psicologia de príncipes". 
Bento XVI, abdicando, humanizou o papel papal. Francisco tira as suas consequências, apresenta-se somente como "bispo de Roma" e arquiva a aura onipotente de Pontífice Máximo. Bergoglio não é o primeiro papa global – Wojtyla marcou o salto de qualidade –, mas é o primeiro papa que descarta a ideologia da onipotência. 
O início do pontificado foi marcado por sinais claros. A Igreja deve ser pobre, clero e bispos não são autorreferenciais, os padres devem se projetar para as periferias existenciais. Não se trata de cuidar do próprio rebanho dentro dos muros das paróquias, porque agora não é a única ovelhinha que está perdida, mas são as "99 ovelhas" de 100 que estão longe. A corrupção e o escândalo de vidas duplas hipócritas no Vaticano (gays ou heterossexuais, pouco importa) deve ser resolvido. 
O enigma desse início de pontificado está aqui. Reestruturar a Cúria Romana não é difícil, limpar o IOR também não é impossível. Mas reformar a Igreja Católica, habituar os bispos a serem missionários sóbrios no estilo de vida e não potentados locais, reprogramar o pessoal vaticano e o clero a um trabalho essencialmente pastoral e não de funcionários mais ou menos sistematizados, erradicar tráficos, tirar da Cúria o papel milenar de centro burocrático e de poder incontestável, fazendo dela um instrumento de unidade em espírito de colaboração com os episcopados do mundo... é um objetivo gigantesco.

sábado, 15 de junho de 2013

Anselmo Borges: "O Papa Francisco, um novo João XXIII"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

1. Quando naquele dia 28 de Outubro de 1958 Angelo Giuseppe Roncalli foi eleito papa, escolhendo o nome de João XXIII, pensou-se que, atendendo à idade, seria um papa de transição. Rapidamente, porém, os mais atentos se aperceberam de que ele chegara para renovar a Igreja. Concretamente, convocando o Concílio Vaticano II, um dos acontecimentos decisivos na história do século XX - houve quem o considerasse até o acontecimento mais importante do século -, operou uma verdadeira revolução na Igreja Católica, com consequências fundamentais para o mundo inteiro.

Era um homem bom, generoso, simples, cristão. Próximo das pessoas - na noite da abertura do Concílio Vaticano II, em 11 de Outubro de 1962, observou que até à Lua o acontecimento não passara indiferente e saudou a todos, solicitando que fôssemos bons uns para com os outros e pedindo aos pais que levassem um beijo do papa para os filhos -, era ao mesmo tempo um conhecedor do mundo: a carreira diplomática levou-o, em tempos conturbados, à Bulgária, Grécia, Turquia e França.

Na inauguração do Concílio, tinha dito que "devemos discordar dos profetas de desgraças, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo". A Igreja, que quer servir a humanidade com a luz de Cristo e aprender a discernir "os sinais dos tempos", "prefere nos nossos dias usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade: julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que condenando erros".

Seis meses depois dessa abertura e quando já se encontrava gravemente doente, publicou, com a data de 11 de Abril de 1963, a encíclica Pacem in Terris, considerada por alguns como a mais importante da história, com imenso eco na opinião pública mundial. Nela, proclama-se a exigência da paz, fundamentada no reconhecimento da dignidade inviolável e dos direitos inalienáveis de todos os seres humanos.

Pelo seu sorriso, bondade, humildade, simpatia, capacidade de renovação a favor da liberdade, verdade e dignidade, ficou conhecido como o "Papa bom". Morreu no dia 3 de Junho de 1963 - neste ano de 2013 celebra-se o cinquentenário da sua morte e da publicação da Pacem in Terris - e foi chorado por todos, crentes e não crentes, políticos e intelectuais de várias ideologias e gente do povo.

2. Quando no passado dia 13 de Março o Papa Francisco apareceu à multidão, simples, quase tímido, inclinando-se e pedindo a bênção e a oração dos fiéis, muitos pensaram que podia vir aí um novo João XXIII. E não têm faltado sinais a confirmar a intuição. Ficou na Casa de Santa Marta, evitando os apartamentos pontifícios; não se esquece dos pobres; anuncia sem cessar o amor, a misericórdia e o perdão de Deus; quer a transparência na Igreja; critica o carreirismo eclesiástico; beija as crianças e os deficientes; recebe sem pompa e senta-se no meio do povo, depois de celebrar a Missa; lavou os pés a mulheres, incluindo uma muçulmana... Pela simplicidade, cordialidade, serviço, Francisco conquistou a simpatia de todos, crentes e não crentes. O Evangelho avança como notícia boa e felicitante.

Mas a Igreja, uma estrutura complexa, também precisa, e urgentemente, de reformas. E Francisco está na disposição de implementá-las, apesar das dificuldades. Os media fizeram-se eco da notícia em todo o mundo. "Reflexión y Liberación", esclareceu entretanto que as declarações atribuídas ao Papa podem não ser completamente textuais, mas exprimem "o seu sentido geral". Numa conversa cordial com a Confederação Latino-americana e Caribenha de Religiosas e Religiosos (CLAR), Francisco disse o que já se sabia, mas agora é dito por ele: "Na Cúria há gente santa, mas também uma corrente de corrupção. Fala-se do lóbi gay, e é verdade: está aí." E advertiu contra certos grupos restauracionistas. "A reforma da Cúria romana é algo que quase todos os cardeais pedimos, nas congregações que precederam o conclave. Eu também a pedi. A reforma não posso fazê-la eu." Mas confia na comissão de oito cardeais de todo o mundo, nomeada por ele: "Vão levá-la por diante."

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O que é um lóbi gay?

Confesso alguma perplexidade perante as afirmações do Papa Francisco sobre o "lóbi gay" no Vaticano. Como a coisa surge nas notícias, não temos afirmações diretas do Papa, mas apenas o eco do que ele terá dito a um grupo sul-americano.

Em todo o caso, há muito se fala do "lóbi gay". Será um grupo de influência sobre assuntos da homossexulaidade? Um lóbi é um grupo de pressão de interesses próprios ou a mando de outros. Lóbi gay será, portanto, um grupo para fazer passar assuntos gays, nas leis e nos costumes, tipo casamento homossexual, adoção de crianças por casas gays, etc., etc. (Ressalvo que considero que estes assuntos não devem ser apenas do interesse dos homossexuais, mas de toda a sociedade - mas costumam ser apresentados como quase exclusivos dos gays.) Neste sentido, não creio que haja um "lóbi gay".

Referir-se-á o Papa aos homossexuais na cúria romana? Certamente os haverá. Mas então não se trata de um lóbi. Se se trata de clérigos, que sejam hetero ou homossexuais, é irrelevante, pois têm de respeitar o compromisso do celibato. Ou não é irrelevante? Bento XVI dizia que não. Dizia que apenas os heterossexuais poderiam ser padres, porque, caso contrário, não estaria a ser cumprida a renúncia à paternidade biológica para se assumir a paternidade espiritual. Será que ele pensava que a ordenação de homossexuais é inválida?

Por último, a associação dos gays aos corruptos é, em tudo, injustificada, tipo "expulsar os gays e os corruptos da cúria romana". Qual é o problema, mesmo à luz da mais ortodoxa doutrina católica de se ser gay? Nenhum.

Espero que estas questões sejam esclarecidas em breve.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Banco do Vaticano vai publicar contas e balanços


Sede do IOR

O IOR (Instituto para as Obras de Religião, que toda a gente conhece como “Banco do Vaticano”) vai publicar na Internet as suas contas e balanços a partir do final do ano. Li aqui. Obrigado, Bento XVI.

Agora só falta que…
as dioceses,
as paróquias,
as congregações,
os institutos,
os jornais diocesanos e paroquiais,
os centros sociais paroquiais,
as confrarias,
as irmandades,
as fundações

e todas as outras instituições da Igreja católica que vivem, pelo menos em parte, do dinheiro dos fiéis tornem públicas anualmente as suas contas.

Provavelmente, a poucos interessarão. E algumas destas entidades já o fazem. Mas se todas o fizessem, de modo sistemático, aconteceriam duas coisas, pelo menos. A verdade e a transparência passariam a estar mais patentes nas instituições. E o semimito (porque nalguns sítios é mito e noutros realidade) de que a Igreja é rica começava a ruir.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

"Esperemos que não caia no banho, nem tome café adulterado"



Eric Frattini, que o “Público” de hoje diz ser espanhol (ele, no site pessoal, não diz de onde é, mas a Wikipédia diz que é peruano), dá uma entrevista com imensas tiradas sobre o Vaticano. A entrevista só fala disso. Umas acertadas, outras mirabolantes, ainda que com algum fundo de verdade. Deixo aqui as tiradas que me parecem mirabolantes (a não ser que um caso dê para montar uma teoria) e as que me parecem com mais interesse.

As mirabolantes:

Para o Vaticano, tudo o que não é sagrado é secreto. 
 [Os serviços secretos do Vaticano] são os mais antigos e os que têm a maior rede de informadores. 
 [Eles, o Vaticano,] vendem armas a ditadores, têm sociedades financeiras em paraísos fiscais. 
 “Tu apoias-me se eu te apoiar para secretário de Estado?” As congregações [pré-conclave] são isso. 
 Quando ele [Papa Francisco] disse que vinha do fim do mundo não estava a falar da Argentina, estava a dizer que vinha de muito longe da Cúria. 
 Esperemos que não caia no banho, nem tome café adulterado.


As que me fazem pensar.

Se ele suspender o banco, afastar toda a cúpula de Sodano ou de Bertone... aí sim, vou acreditar. Este Papa é diferente, usa os seus sapatos velhos, recusa carros blindados, vai pagar a conta do alojamento ao centro de Roma. Mas também é chefe do Estado do Vaticano, o que é que ele pode fazer? 
 Eu sou um anti-Ratzinger, mas sou um apoiante de Bento XVI, penso que ficará na História como um revolucionário. Falhou, porque os acontecimentos o ultrapassaram ou porque a pressão da imprensa com os casos de pedofilia foi demasiada. João Paulo II encobriu tudo, o campesino polaco, como eu lhe chamava, todos recordamos a bênção que deu a Marcial Maciel [acusado de inúmeros crimes de pedofilia]. Claro, é fundador dos Legionários de Cristo, que têm poder e muito dinheiro. João Paulo II pensou "o que é que me importa mais, o dinheiro que me dão os Legionários ou as 5000 crianças violadas por padres?". Teve de vir Ratzinger para condenar e afastar Maciel.
E para quem quiser ler tudo: 




Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...