Mostrar mensagens com a etiqueta Catolicismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Catolicismo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

O PCP, os católicos e a Igreja

Hoje, em Coimbra, fala-se de "PCP, os católicos e a Igreja", com Edgar Silva e Sérgio Dias Branco. Parece uma coisa dos anos 60. É capaz de aparecer por lá um intelectual de óculos redondinhos, saído de uma carvena e com uma calhamaço de Lenine, mais meia dúzia de católicos ingénuos. Desculpem o oxímoro. Um católico mais depressa deve ser cético do que ingénuo - ou mesmo dogmático, como é o PCP. Mas católicos que ainda pensem numa relação com o PCP e o comunismo em geral (com como o temos no PCP), só podem ser ingénuos. E pouco católicos.

Reparem: os católicos têm tantas inseguranças, tantas dúvidas, tantas falhas, tantas misérias. É tudo o contrário do PCP, onde tudo é perfeito e sempre foi e será.

Eu admito que os católicos possam dialogar com o PCP e o Comunismo e que haja católicos genuinamente comunitários e de preocupações socializantes, como devem ser em geral. Podem dialogar e até aliar-se por terem "inimigos comuns". Imaginemos um país de ditadura de direita. Comunistas e católicos tendem a aliar-se. Ou mesmo em Portugal. Na questão da eutanásia, PCP e católicos assumiram a mesma posição.

De resto... um católico nunca deve abdicar da liberdade de consciência, da defesa da democracia (no mínimo), da propriedade privada, do destino universal dos bens, da defesa da liberdade dos povos, da liberdade de mercado, da relação fé-razão, da preponderância da sociedade civil, da subsidiariedade... Além de que não pode aceitar o materialismo dialético, o antiamericanismo primário, a estatização da economia e da sociedade, a ditadura do proletariano e as putinices em geral.



  

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O diabo detesta o Halloween



Com a americanice cada vez mais difundida, é difícil não dar com o dia das bruxas. Ao almoço fui servido por uma senhora cheia de teias de aranha. Literalmente. Mas suponho que as teias não eram literais. O café estava cheio de motivos halloweenescos.

E quem tem filhos sabe que é impossível ignorar a data. Pelos vistos, pelas minhas constatações diárias em dois infantários, é das ocasiões preferidas para os educadores motivarem os mais pequenos (há dias, um dos meus filhos: “Não te esqueças de me dizer que é o dia das bruxas logo que eu acordar”), mudarem a decoração, testarem pinturas faciais, pedirem a colaboração dos pais.

Ora – e é por isso que escrevo – ontem dei com um louvor católico do dia das bruxas. Cá está (Why the Devil Hates Halloween). O autor, “expert” em catolicismo (e católico, como se pode ler e por outros textos sobre novenas e afins), diz que o diabo detesta o Halloween. E dá seis razões, que até estão bem vistas. E que se aplicam como uma luva ao nosso “pão por Deus”, coisa em que nunca participei, nem sei se há no centro do país, mas da qual ouvia falar as minhas colegas de trabalho na meia década que vivi em Lisboa. Eram saloias-no-bom-e-verdadeiro-sentido (eram de Mafra) e gostavam muito do “pão por Deus”.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

JOC: Jovens Organizados e Combativos


A JOC belga, no fundo, a mãe de todas as juventudes operárias católicas e do próprio movimento mais geral da Ação Católica, fundada pelo quase beato Cardijn, deixou de ser Operária e Católica. Agora, JOC quer dizer Jovens Organizados e Combativos.
“Há dois anos, os jovens jocistas decidiram iniciar um longo processo de reflexão sobre a identidade da JOC”, explica o movimento num comunicado. Foram realizados debates internos sob a forma de questionário, dirigido aos membros, e encontros com os militantes históricos. 
Visto à luz do novo nome, a combatividade torna-se o principal valor do movimento num contexto de crise. “A JOC procura organizar todos aqueles que estão revoltados e querem lutar contra todas as formas de opressão causadas especialmente pelo sistema capitalista, precisa o comunicado. Não se trata apenas de denunciar as injustiças que os jovens vivem, mas também de lutar concretamente para aboli-las”. Li aqui.

Isto provoca-me duas ou três reações (ainda não as contei, porque é tudo tão rápido que não dá tempo). A primeira seria uma peroração sobre o fim da identidade católica da Bélgica. Mas isso há muito que foi feito. A segunda, seria uma breve dissertação sobre o catolicismo enquanto religião (ou confissão) da saída da religião, à Marcel Gauchet. Mas neste momento até duvido do nome do autor e da correcção da ideia. A terceira seria uma saudação por os jovens jocistas belgas terem feito o que muitos jocistas e emeceístas (do Movimento Católico de Estudantes) portugueses no fundo querem, mas não têm coragem para tal. A quarta seria um lamento vattimista sobre a dentidade débil do catolicismo no séc. XXI. A quinta seria ver aqui um sinal dos tempos. E a sexta, seria falar dos pobres tempos que vivemos. A sétima, porque está mesmo a ser pedida, seria.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Mais um artigo arrojado: Os jesuítas são os luteranos católicos; e os opus são os calvinistas católicos

Há dias pus aqui um artigo de Pedro Arroja, que ultimamente tem vindo a refletir sobre a catolicidade da Igreja e do país.

Ontem, no jornal “A Ordem”, saiu o que a seguir reproduzo. Tem a sua piada, embora, na minha perspetiva, ainda que haja comparações entre Lutero e Inácio, o otimismo jesuíta não se coaduna com o pessimismo luterano (segurança antropológica jesuíta versus insegurança luterana). Mais parecidos com os luteranos eram os jansenistas, ambos fruto de tendências agustinianas exacerbadas. Ora, jesuítas e jansenistas não se podiam ver nem pintados, ainda que ambos andassem de preto (o preto dos jesuítas, diz a lenda, era do mais negro que há desde que o decretasse o superior, ainda que fosse branco).

O jornal “A Ordem”, quinzenário, é do Porto, de um grupo de leigos, suponho, e vai no centésimo ano de publicação.

Posso já adiantar que a edição de 21 de fevereiro traz novo artigo de Pedro Arroja. Desta vez o economista reflete sobre a “religião pública” que deve ser o catolicismo. Se o catolicismo está cada vez menos público (“os representantes da Igreja deixam de estar presente nas cerimónias oficiais, os padres agora raramente aparecem em debates na televisão…”), é porque está a privatizar-se, ou seja, a protestantizar-se. Como sei? O número de 21 de fevereiro já saiu hoje.




quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Os "pingos amargos" do sr. Pingo Doce



Bento Domingues referiu há dias (ver aqui e comentários), na sua crónica, a entrevista que Alexandre Soares dos Santos deu a Anabela Mota Ribeiro (revista “2” do “Público” de 2 de setembro). Aqui ficam os “pingos amargos” do acionista principal da Jerónimo Martins.

(…) Sou católico, crente, praticante, e gostava, se na realidade houver alguma coisa para lá, de encontrar o meu pai (…). 
Tem na sala uma fotografia com o Papa João Paulo II. Foi importante para si o encontro com ele? O que é que representou? 
Foi importante conhecê-lo, mas o Papa que conheci era um Papa com muita idade. Era uma reunião privada, organizada por um padre muito nosso amigo. Eu tinha esperado uma hipótese de… falar. 
Sobre o quê? 
Por que é que a Igreja é tão lenta a reformar-se? São coisas que discuto como bispo D. Manuel Clemente. Por que é que não se devem admitir mulheres padres? Por que é que não se há-de admitir o casamento? Por que é que a Cúria Romana é constituída por uns tipos que têm 80 anos, que não sabem nada de nada da vida, que estão ali fechados? (…) 
A conversa com o Papa seria para discutir a sociedade. Não seria para falar dos seus problemas íntimos. Tudo está direccionado para o domínio social. 
Filha, quando se chega à minha idade, sei exactamente para onde vou. (...)
Tanto diz coisas que politicamente consideraríamos à esquerda como outras à direita. 
Mas isto não é um problema de esquerda ou de direita. Eu não sou de esquerda nem de direita. O António Barreto diz-me que sou um conservador liberal. Sou é cristão. Não digo que sou católico. Sou cristão. Como tal, tenho um conjunto de valores e princípios que tenho de respeitar (...).

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O sucesso do catolicismo aumenta proporcionalmente ao preço da graça?



Ando a ler “Tudo tem um preço”, de Eduardo Porter, jornalista norte-americano especialista em economia. É mais um daqueles livros de economia tão em voga que explicam tudo, do formato dos pacotes de leite ou das caixas de DVD à relação entre aborto e crime, dos congestionamentos de trânsito à ascensão da China. Porque tudo reside em escolhas humanas.

Ora este “Tudo tem um preço” (o título original tem um sentido algo diferente: “The price of everything”), subtítulo: “a lógica secreta dos preços que pagamos”, propõe-se explicar
a) o preço da vida
b) o preço da felicidade
c) o preço das mulheres
d) o preço do trabalho
e) o preço do grátis
f) o preço da cultura
g) o preço da fé
h) o preço do futuro
E dedica ainda um capítulo a “quando os preços falham”, o constitui um toque de eficiente humildade.

O livro é suficientemente atrativo para – no meu caso – não saltar logo para o capítulo da alínea g). Mas a tese é enunciada logo nas primeiras páginas:
“Os economistas sugerem que a Igreja Católica tem vindo a perder fiéis, não porque as pessoas tenham deixado de acreditar em Deus, mas porque ser católico se tornou demasiado barato face ao cristianismo evangélico, que exige dos seus membros um investimento mais avultado nas igrejas, inspirando assim mais lealdade” (pág. 11).
Antes de avançar mais na leitura, com a liberdade que a ignorância me dá (e antes de perguntar se a Conferência Episcopal Portuguesa conhece a tese, se a tem em conta para analisar a perda de católicos em Portugal, uma perda apesar de tudo, enfim, pífia, isto é, sem pôr nada em causa; ainda se fosse uns 20 ou 30 por cento...), interrogo-me se não estará aqui, também,
a) a explicação do sucesso dos movimentos de sinal conservador – passe a convenção –  que dão muitas vocações à Igreja católica; 
b) a explicação de missas cheias de fiéis de párocos que são déspotas (eu não conheço nenhum), mas já ouvi falar que isso existe; 
c) a explicação de assembleias numerosas a ouvir párocos que não se cansam de pedir dinheiro – para obras, claro (só conheço um e já não está na paróquia em que estava); 
d) a explicação do sucesso dos lefebvrianos (poucos, estatisticamente, mas aguerridos e com alta taxa de vocações oriundas de boas famílias), cujo regresso à Santa Madre Igreja é tão desejado por alguns, a começar pelo Papa; 
e) a explicação para o medo de que a perda da obrigatoriedade do celibato faça baixar a qualidade dos padres; 
f) a explicação para o medo de conceder o sacerdócio ministerial às mulheres, uma espécie de democratização inflacionadora do sacramento; 
g) a explicação para o sucesso do cristianismo quando este é oposição aos totalitarismos (o maior sucesso do cristianismo quando o totalitarismo é de esquerda do que quando é de direita também é explicável pelo facto de o cristianismo de direita – oposto aos comunismos – ter uma moral sexual mais, digamos, “cara”). 
A lista pode continuar. E eu até compreendo a lógica das opções humanas, que não é, nunca foi, estritamente racional. Contudo, temos sempre de perguntar: e onde fica a verdade? Se a tese estiver correta – e parece-me que tem um fundo de verdade – significa que a verdade, que tem de estar coladinha ao amor, não é lá muito considerada no cristianismo (este assunto exige outras explicações, mas há duas pessoas à minha espera).


Justamente na linha da tese acima referida, Bonhoeffer escreveu o seguinte: A graça barata é o inimigo mortal da nossa igreja. Aqui citado. Tão católico, este luterano.

terça-feira, 17 de abril de 2012

António Marujo: Houve uma idade de ouro do cristianismo?

Opinião de António Marujo a acompanhar o inquérito da U. Católica às práticas religiosas dos portugueses no "Público" de hoje.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Morreu D. Manuel Franco Falcão

Morreu o antigo bispo de Beja, D. Manuel Franco Falcão.




Quero assinalar aqui a sua partida, já que sou leitor da sua "Enciclopédia Católica Popular", na versão impressa.


A Enciclopédia pode ser consultada online.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Joseph Moingt: "Ficai" na Igreja, apesar de tudo



Joseph Moingt, 96 anos, jesuíta, escreveu o livro “Croire quand même” (algo como “Acreditar apesar de tudo”, já aqui referido) e diz que a Igreja ainda é o melhorzinho lugar para se estar. Por isso, se Hessel diz “Indignai-vos”, Moingt afirma: “Ficai”.


O livro tem merecido amplo debate em França e levou muitas pessoas a agradecerem a este teólogo que foi aluno de Henri de Lubac e de quem o espanhol Olegario González de Cardedal (este recentemente homenageado pelo Papa) diz que é dos poucos cuja obra, na actualidade, oferece uma visão sistemática da teologia (quem são os outros? Em breve neste blogue).


Há dias surgiu um artigo no “La Croix” sobre Moingt. Ler aqui. Copio um bocadinho:
Para Joseph Moingt, não é se concentrando na instituição eclesial que se poderá realizar uma reforma radical do catolicismo, mas sim voltando ao Evangelho. "Há a urgência de repensar toda a fé cristã para dizer 'Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem' na linguagem de hoje e em continuidade com a Tradição", repete, baseando-se na sua imensa cultura teológica e bíblica para confirmar que a Igreja não poderá mais seguir em frente com respostas dogmáticas e que é preciso que, dentro dela, os teólogos "façam coisas novas sem ser serem ameaçados de excomunhão". Quanto a ele, a sua prudência nunca foi motivada pelo medo de uma sanção eclesial, mas sim pelo desejo de escrever de acordo com a sua fé. E, depois, "na minha idade, já não se corre muito risco".

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

No início do ano 5772 do calendário judaico

Do "Público" de hoje. Início da crónica de Esther Mucznik:
"Dez dias terríveis". É assim que a tradição judaica qualifica os dez dias que mediam entre a celebração do novo ano judaico - iniciado na passada semana - e o Dia do Perdão, o Iom Kipur. Dez dias dedicados à introspecção, à reflexão e ao balanço interior. "Terríveis" porque no diálogo íntimo, directo e solitário, é posta à prova a capacidade individual de auto-análise, sem rodeios nem subterfúgios...
Parece uma breve quaresma judaica. De qualquer forma, não vejo nenhuma diferença entre a espiritualidade judaica e a cristã na versão católica.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sombras da Igreja em Portugal, segundo D. Manuel Clemente



No DN de ontem (7 de Setembro de 2011). Uma radiografia da Igreja Católica em Portugal. Parece-me que o diagnostico é bom, mas falta a cura. A solução não é simplesmente fazer o contrário do que se descreve como "sombras". Falta Moisés (Bíblia) e Espírito Santo (ousadia, profetismo, criatividade). Mas não, certamente, Moisés Espírito Santo (outra vez). Está a mais nas páginas.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A grande virtude eclesial

A grande virtude de que necessitamos hoje, na Igreja, é a coragem de avançar, de tomar iniciativas, de pedir perdão, de procurar dar atenção mesmo àqueles que nos condenam. É mais fácil e mais seguro censurar os outros, em especial a hierarquia.


Timothy Radcliffe, pág. 281 de "Ser cristão para quê?" (ed. Paulinas) 

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Por onde há-de ir a evangelização?


"Voltemos a ensinar a fé. Mas que tal pôr o foco nos ensinamentos básicos de Jesus? Será que a nossa Igreja está a proclamar e a viver adequadamente seus ensinamentos?" Questões lançadas no editorial do jornal "National Catholic Reporter" de 04-11-2010. Copio daqui uns parágrafos (e aqui em inglês).

De novo, o que estamos a ouvir? A resposta triste é que ouvimos muito pouco sobre as bem-aventuranças e muito sobre o julgamento e a admoestação, aparentemente sempre com um foco no comportamento sexual. A nossa Igreja ganharia a atenção de muitos se fosse vista como uma comunidade inclusiva e acolhedora.

A evangelização efectiva exige uma boa dose de humildade. Nós vemos isso suficientemente na nossa Igreja hoje. A humildade requer ouvir, e ouvir um pouco mais – abster-se do julgamento, reconhecendo os desafios e as lutas que todos enfrentamos. Algo poderia ser conquistado ao reconhecer a bondade e a compreensão daqueles que estão fora da fé católica? Isso poderia iniciar uma conversa mais efectiva sobre a fé? Ao contrário disso, temos visto uma ênfase na expressão do catolicismo como a única e verdadeira fé. As nossas superioras religiosas norte-americanas estão a ser investigadas hoje pelo Vaticano por não defenderem adequadamente a supremacia da fé católica. Talvez as mulheres sejam simplesmente melhores ouvintes.

Será que a nossa Igreja se apresenta como afectiva, acolhedora e inclusiva? Pergunte aos gays e lésbicas e aos seus pais. Eles vão dar-lhe um raspanete. Muitas das nossas paróquias são inclusivas, são acolhedoras para todos. Mas isso também acontece muitas vezes em contramão com a natureza episcopal, não com ela.

E depois está o elefante branco na sala. Ele apenas está lá e bloqueia uma visão para o avanço da boa evangelização. É a questão das mulheres na Igreja. Nesse ponto, há uma década no século XXI, as mudanças culturais e educacionais do século XX que levaram as mulheres a posições de liderança mundial não se espelham na nossa Igreja. As mulheres simplesmente não têm voz nas decisões-chave.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Crise que mina a identidade sacerdotal católica

O Papa reconheceu a caminho de Edimburgo que o combate à pedofilia dos sacerdotes não foi eficaz. O Vaticano e os bispos não foram suficientemente “vigilantes, velozes e decisivos”.

Se a solução está na vigilância, velocidade e decisão, temo que os casos se perpetuem. Se a actuação do Vaticano e dos bispos incide sobre a repressão – é o que as palavras permitem concluir –, pouco se avançará.

Na realidade, podemos perguntar por que é que tantos não foram vigilantes, velozes e decisivos. O Vaticano não tem possibilidade de ser vigilante, veloz e decisivo para o mundo inteiro. Só sabe o que lá chega. Só é vigilante na medida em que os bispos o são. E por que é que os bispos não foram vigilantes, velozes e decisivos nestes casos todos? Não foram porque não querem nem podem ser. Se o bispo é pai da diocese e dos seus padres, como o padre é pai da sua comunidade – é o que os católicos entendem dos seus pastores, apesar da exortação de Mateus 23 (“Não chameis pai ninguém…”) –, como poderá o bispo denunciar os seus próprios filhos? Não pode, ainda que etimologicamente "bispo" provenha de uma palavra grega que significa algo como supervisor, aquele que vê por cima... vigilante.

O jesuíta Xavier Dijon escreveu na “Civiltà Cattolica” (revista dos jesuítas italianos e que funciona quase como órgão oficial do Vaticano) que entre um bispo e um padre existe um vínculo comparável ao que une os familiares e, desta maneira, “não é justo” impor-lhe a obrigação da denúncia à justiça nos casos de abusos sexuais.

Não faz sentido aplicar a obrigação da denúncia “a pessoas da Igreja relacionadas por um vínculo que resulta digno de consideração até para as autoridades civis” (li aqui).

E D. Manuel Martins, bispo, emérito de Setúbal – sabe com certeza o que significa ser bispo para os padres – escreveu no “Página 1” (17-09-2010), da Rádio Renascença: “O bispo vê-se nos seus padres, gosta deles como filhos ou irmãos, procura todos os meios para estabelecer com os padres uma relação de natural e agradável amizade, dá-lhes sempre o primeiro lugar no calendário das suas preocupações. Ele sabe que nos seus planos pastorais pode ter que deixar muitas alíneas para se encontrar pessoalmente com os seus padres. Os encontros canónicos podem ser pouco. A maior desgraça que pode acontecer a um pai é perder o coração do filho. Se as coisas acontecerem assim, o padre sente o bispo consigo, gosta de encontrar, não foge dele”.

Perante isto há solução possível para a crise da pedofilia? O que o Papa disse serve? A meu ver, não. Com uma igreja clerical que exige a consagração da sexualidade dos seus pastores, o bispo não pode ser polícia do padre a quem impõe as mãos e consagra. Esta crise mina a identidade sacerdotal católica.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Esquizofrenia teológica

Até onde e quando vai durar a crise da pedofilia? É, sem qualquer margem para dúvidas, o maior e pior escândalo dos tempos modernos na Igreja Católica. Os responsáveis eclesiais já deixaram de comparar os números dos casos provocados por membros do clero com os da população em geral. Era uma péssima estratégia. Não há comparação possível porque a população em geral não assume o mesmo sentido da sexualidade que assume um padre.

Mas não sei se estão a tirar as conclusões que uma situação como esta sugere. Temo que não. E o pior de uma crise é quando não é aproveitada para repensar, renovar, suprimir, inovar, criar. Pensa-se sempre no reforço da disciplina. Não se pensa na doutrina e teologia que está na sua base. Seguindo um preceito evangélico, os odres continuam velhos. Estragam o vinho. Mas só se pensa em remendos para os odres. Em remendos novos para o vestido velho que não os aguenta.

Há a questão das vítimas e da sua protecção e, da maneira que for possível, a tentativa de recompensar pelos danos feitos. Todos de acordo. Mas ninguém questiona que os padres pedófilos podem ser vítimas de um sistema educativo, ideológico e teológico que leva à esquizofrenia moral. Comportamentos públicos virtuosos e taras privadas.

E se, na teologia católica, a Eucaristia presidida por um padre indigno é tão válida como aquela que é presidia por um padre santo (é o que se depreende da teologia do sacerdócio; "o padre é sempre padre, mesmo no inferno", diz um axioma católico), residindo nisso a origem da deferência e respeito com que o clero é tratado pelo povo crente, como separar o trigo do joio? É que aqui é mesmo preciso separá-lo. Mas a prática pastoral diz que o padre indigno (e não penso só em pedofilia, porque não conheço nenhum pedófilo, mas sei de alguns que não são virtuosos noutros campos e situações) pode continuar o seu trabalho santificador desde que não dê suficiente escândalo. Pode ser muito católico. Mas não é nada evangélico. Esquizofrenia teológica.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Depois do Concílio Vaticano IV


Pedro Mexia, n'A Lei Seca (aqui, ver 14 de Julho):

Em Catholics, bizarro telefilme de 1975 baseado num romance de Brian Moore, a Igreja teve o seu Concílio Vaticano IV, e depois disso um grupo de frades rebeldes refugiou-se numa ilha. Aí celebram a missa em latim e vivem uma cristandade antiga, em comunidade. A Igreja Católica do futuro, tal como surge nesta ficção, é a Igreja dos sonhos de Küng. Ou, desçamos o nível, de Anselmo Borges. É uma Igreja modernaça, onde tudo o que é sagrado ou metafísico foi tornado meramente «simbólico» e mediaticamente aceitável. A Igreja aboliu a confissão, a transubstanciação, a oração, e defende a união de todas as religiões numa única grande ideologia «humanista» e imanente. Já não há «mistério da fé», porque já não há mistério nem fé. E a hierarquia tenta que os rebeldes se submetam à ortodoxia liberal. Somos então confrontados com uma curiosa dúvida: vale mais uma fé inabalável baseada em possíveis falsidades ou a verdade humanista mas sem convicção? Não é de todo esse o estado do catolicismo em 2010, mas este objecto de 1975 deve ser guardado para memória futura.

Fim de cópia.

O actor principal do filme (que vários sítios da Internet dizem que é de 1973; o romance é de 1972) é Martin Sheen.

Brian Moore nasceu em 1921, na Irlanda, e morreu em 1999, na Califórnia. Oriundo de uma família de nove irmãos, perdeu a fé quando era jovem. As suas obras reflectem com frequência as temáticas católicas, principalmente a perda de fé. Teve uma irmã freira que criticou os seus escritos. É autor do romance que está na origem do filme "The Statement", de 2003, sobre um francês colaboracionista que entregou judeus aos nazis.

Não creio que a Igreja do filme (e do romance, pelo que acabei de ler on-line) seja a de Kung ou Borges. Seria mais a do prosseguimento do protestantismo liberal e de algum modernismo católico. Mas passa a ideia.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A palavra de Deus em dialecto de gangster

Li o título “A palavra de Deus em dialecto de gangster” e pensei: “Mais uma notícia sobre o Banco do Vaticano”. Mas não. Vem no i de sábado passado. No México, há uma paróquia onde o padre fala a linguagem dos gangues.

“Frederick Loos praguejava como um marinheiro. Não deixava de ser surpreendente. Afinal, é um padre católico e naquela noite, na Cidade do México, o seu discurso obsceno estava a ser proferido no púlpito para as centenas de fiéis reunidos perante ele.

Falou de
Deus, da necessidade de O servir e como Ele pode transformar vidas. Porém, espalhado pelo seu sermão estava o mais colorido do castelhano que se fala nas ruas, o que fez sorrir os muitos membros de gangue, toxicodependentes e outros jovens que se comprimiam para o ouvir”.

A peça não dá exemplos. Poder ser lida aqui.

sábado, 8 de maio de 2010

O Papa no "Público" e no "Diário de Notícias"

O "Público" e o "Diário de Notícias", bem como muitos outros jornais e revistas, têm dedicado várias páginas a Bento XVI e à sua visita a Portugal.

O "Público" criou um espaço especial no seu sítio, aqui.

O DN, sem espaço especial, dedica o "DN Gente" deste sábado a Bento XVI. On-line aqui.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...