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terça-feira, 28 de março de 2017

E tem muito peso na sua vida?

Lido hoje no DN. Entrevista a Patrícia Reis (a da revista "Egoísta").


Falámos só do abuso em relação à Sofia mas há outros temas que aparecem n" A Construção do Vazio.

Há questões de identidade fortíssimas, de total desapego às coisas, o que é uma desistência - a construção do vazio - e depois há este cenário de pré-catástrofe. Há algumas referências religiosas de que eu não me tinha apercebido.

Como deu agora por isso?

Um professor meu perguntou-me por que me tinha interessado pelas religiões e eu fiquei a pensar. Percebi que todos os livros têm qualquer coisa relacionada com a religião. Este território judaico-cristão onde nós crescemos ainda é muito forte.

E tem muito peso na sua vida?

A religião?

Sim.

A fé em bastante peso na minha vida, não a religião institucional, essa não tem peso nenhum. A fé tem imenso peso.

Em que sentido?


A fé que eu tenho, a fé que eu sinto. É fundamental, acho que deve ser muito exigente viver sem fé, muito solitário, e eu optei por não viver nessa exigência nem nessa solidão.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Cinco escritores que se inspiram na Bíblia

Erri De Luca, Sergio Ramírez, Emmanuel Carrère, Ricardo Menéndez Salmón e Amos Oz são cinco autores contemporâneos que usam a Bíblia como matéria-prima. Artigo de Berna González Harbour no El País de 23-11-2015, lido no IHU.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O que é o inferno


Leio na "Ler" que Jón Kalman Stefánsson escreveu uma trilogia em que "a procura de sentido para a ideia da existência de um Deus bom e todo-poderoso que permite o sofrimento dos homens, quando Lhe seria tão fácil evitá-lo, é a bússola" que o guia.

Dessa trilogia estão publicados em português os títulos "Paraíso e Inferno" (2013) e "A Tristeza dos Anjos" (2014).

Não sei onde foi buscar a ideia de que seria tão fácil a Deus evitar o sofrimento dos homens. Nunca foi fácil. Pelo menos pelos critérios humanos, está patente. Deve vir da afirmação da omnipotência de Deus a ideia da facilidade de fazer tudo. Não sendo Deus omnipotente, ainda pode ser Deus? Talvez Deus tenha dito que é omnimpotente e quem ouviu percebeu mal. E Deus, na sua omnimpotência, não percebeu que o perceberam mal. E gerou-se o equívoco.

Mas concordo com Stefánsson: "O Inferno é ter braços mas ninguém para abraçar". 

sábado, 8 de novembro de 2014

A possibilidade de estar perto da fé segundo Ian McEwan

"Acreditar no amor sem limites é o mais perto que algum dia estarei da fé"


Ian McEwan no DN de hoje. Um bocadinho aqui.
Ian McEwan com a questão de Deus já por cá andou.

domingo, 26 de outubro de 2014

Sobre um escritor que não tem tabus

Leio que o escritor Sr. Assim Etc. Etc. não tem nada de sagrado, quebra os tabus todos, é um iconoclasta. Na pergunta seguinte ou duas mais abaixo, fala das suas irritações, do que o indispõe, do que não tolera. Afinal está cheio de ídolos. É um dogmático. E eu não tenho de o tolerar. Nem de ler.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Qual o livro que mais o marcou, sr. Brecht?


Resposta de Bertolt Brecht à pergunta de uma revista berlinense, no anos 20, sobre "a impressão mais forte" de leitura das suas vidas:
- Você vai rir-se: a Bíblia.
(Lido no livro "Alfabetos", de Claudio Magris)

sábado, 26 de outubro de 2013

Anselmo Borges: "O mal e Deus: com Valter Hugo Mãe"

Valter Hugo Mãe, Nuno Camarneiro e Anselmo Borges

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

1. Foi um convite amável e insistente. Para uma conversa com Valter Hugo Mãe. Na Universidade de Aveiro, no dia 8 de Outubro. O tema: Mal.

O que é que se diz sobre o mal? Comecei por recordar que há muitos tipos de mal: o mal físico, o mal moral, o mal metafísico, o mal fora de nós, o mal em nós..., chamando sobretudo a atenção para o facto de, se estávamos ali para essa conversa-debate, é porque nos sentíamos razoavelmente, com algum conforto e sem grandes aflições. Porque, quando o mal se abate sobre nós - um cancro, um terramoto, um tsunami, um filho que se nos morre desfeito em dores e perante a nossa impotência total, quando nos destruímos mutuamente, quando tudo se afunda sob os nossos pés, quando o futuro todo se apaga... -, aí gritamos, choramos, blasfemamos, rezamos..., não debatemos.

Ao longo do tempo, houve tentativas várias de solução para o mal, sobretudo quando nos confrontamos com Deus. Como é que Deus é compatível com todo o calvário do mundo? Lá está Epicuro: ou Deus pôde evitar o mal e não quis; então, não é bom. Ou quis e não pôde; então, não é omnipotente. Ou quis e pôde; então, donde vem o mal? Na sua justificação de Deus, Leibniz concluiu que este é o melhor dos mundos possíveis. Schopenhauer contrapôs: este mundo não passa de uma arena de seres torturados, que sobrevivem devorando-se uns aos outros, ele "é o pior dos possíveis". A solução gnóstica e dualista coloca o mal no interior da Divindade. Há quem pense que devíamos despedir-nos do Deus omnipotente e ir ao encontro do Deus sofredor e crucificado. Segundo Kant, toda a tentativa de teodiceia teórica fracassa.

Penso que é o teólogo A. Torres Queiruga que abre para uma correcta reflexão, ao exigir uma ponerologia (de ponerós, mau): tratar do mal, antes de qualquer referência a Deus, pois o mal atinge todos, crentes e não crentes. Aí, percebe-se que a raiz do mal é a finitude. O mundo é finito e, por isso, não podendo ser perfeito, tem falhas e carências, choques.

Assim, Deus é omnipotente e infinitamente bom. Mas pretender que poderia acabar com o mal no mundo, criando-o perfeito, mas não quer, é uma contradição. Não tem sentido perguntar por que é que Deus não criou um mundo perfeito, pois Deus não pode criar outro Deus. Não se diz que há algo que Deus não pode fazer, apenas se nega uma contradição. Se o mundo inevitavelmente finito não pode ser perfeito, não podemos pretender que Deus o faça.

A pergunta é outra: se o mal é inevitável, porque é que Deus o criou? Aqui começa a pisteodiceia (de pistis: justificação da fé). Há diferentes pisteodiceias, pois todos têm de enfrentar-se com o mal e cada um encontra a sua resposta. O crente religioso também tem a sua: crê em Deus como Amor e anti-Mal e espera a salvação definitiva e plena para lá da morte. Sem Deus, fica-se com o mal e sem esperança, também para as vítimas inocentes.

2. Poucos dias depois, uma jovem senhora, com uma tese académica já pronta, que acabara de sepultar o pai ainda relativamente jovem, telefona-me e eu sinto e ouço as lágrimas a correr e a voz embargada, a tremer e a suplicar, porque também uma irmã acabava de ter um AVC: "É de mais; por favor, reze, por favor reze, a razão não sabe nada, não pode nada..."

E eu lembrei-me das palavras do início em Aveiro: que, perante o sofrimento atroz, as pessoas não debatem, mas choram, gritam, blasfemam, rezam (talvez tudo isto ao mesmo tempo).

E também me lembrei do que escreveu o filósofo agnóstico J. Habermas sobre o último encontro com o filósofo ateu H. Marcuse, que tinha citado: ele "estava na sala de cuidados intensivos de um hospital de Frankfurt, rodeado de aparelhos nos dois lados da cama. Nesta ocasião, que foi o nosso último encontro filosófico, Marcuse, em conexão com a nossa discussão de dois anos atrás, disse-me: "Sabes? Agora sei em que é que se fundamentam os nossos juízos de valor mais elementares: na compaixão, no nosso sentimento pela dor dos outros"".

Estou convicto de que, nisto, quanto à compaixão, Valter Hugo Mãe estará totalmente de acordo comigo.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Virginia Woolf horrorizada com a conversão de T. S. Elliot



T. S. Eliot com Virginia Woolf. A da direita é Vivienne, mulher de Eliot. A foto é de 1932. A conversão foi em 1927. Talvez Woolf tivesse mudado de ideias

Virginia Woolf ficou horrorizada quando descobriu que T. S. Eliot se tornara cristão:

Tive uma entrevista vergonhosa e difícil com o pobre e querido Tom Eliot que, de hoje em diante, se poderá dizer morto para nós. Tornou-se anglo-católico, acredita em Deus e na imortalidade, e vai à igreja. Fiquei realmente horrorizada. Um cadáver parecer-me-ia mais credível do que ele. Creio que há algo de obsceno numa pessoa viva, que se senta à lareira e acredita em Deus.

Lido em "Imersos na vida de Deus", de Timothy Radcliffe, das Paulinas.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Imagem

O Novo Testamento, ao relatar a vida de Jesus, não dá qualquer pista acerca da sua aparência externa. Contudo, quando lemos os evangelhos, podemos perfeitamente fazer uma ideia muito viva de Jesus, graças ao facto de as pessoas que realmente o conheceram não mais o terem esquecido ao longo das suas vidas.

Shusaku Endo

terça-feira, 7 de maio de 2013

Mais

É por Jesus ser o mais verdadeiramente humano que conheço, penso eu, que é também o mais de Deus.

Joaquín Gomis

terça-feira, 30 de abril de 2013

Essencial

Jesus tem hoje um supremo sentido para todas as necessidades básicas do ser humano do nosso tempo.

David Watson

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Onde está Deus, Mário de Carvalho?

Numa entrevista do "Jornal de Negócios" de sexta-feira passada ao escritor Mário de Carvalho este afirma, sobre Deus, que
não sabemos as surpresas que nos estão reservadas, mas quase de certeza não vamos encontrar essa face de barbas atrás de nenhuma galáxia no meio das poeiras.
A entrevista tem como título geral "O saber é incómodo, está a mais, é maçador". Então a ignorância...

segunda-feira, 4 de março de 2013

Gonçalo M. Tavares: "O incompetente não entrará no reino da Terra"


O poema 37 de "O homem ou é tonto ou é mulher", de Gonçalo M. Tavares, começa assim:
Uma vez abri a Bíblia ao acaso e li:
"É inútil ensinar o imbecil."
Ficamos a saber que de vez em quando lê a Bíblia.

Noutro momento, o mesmo escritor disse que:
Abrir um livro é muito semelhante a entrar numa igreja.
Mas não esclareceu se entrar numa igreja é muito semelhante a ler um livro. Supomos que se trata mesmo de entrar numa igreja e não entrar para uma Igreja. A quantos livros corresponde entrar para uma Igreja?

Gonçalo M. Tavares diz que a sua religião é o novo. Mas com maiúsculas:
A minha Religião é o Novo.
Os pecados da religião dele são o velho, o desoriginal? Qual será o pecado desoriginal? O plágio?

De facto, ele reflete sobres os pecados. Todos os escritores são moralistas. Se não fossem, não escreviam. E ele escreveu no "Público" de 3 de janeiro de 2013:
A moral europeia é, em parte, a moral da máquina. É bom aquilo que funciona. É bom, não apenas em termos de eficácia, mas em termos morais. 
A noção de pecado socializou-se e entrou na esfera da tecnologia. Alguém que não saiba calcular ou que não domine a última versão do Windows comete um pecado. O pecado maior é a ineficácia. Alguém que não funcione bem torna-se um pecador. Os pecados capitais são agora oito: gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça, vaidade e incompetência. O incompetente não entrará no reino da Terra.

domingo, 23 de dezembro de 2012

A inclinação de Deus


Num texto sobre o Cardeal Martini, no "Corriere dela Sera" (em português aqui), o escritor Claudio Magris diz a certa altura que

 A ética não é uma sondagem estatística dos costumes que prevalecem naquele momento.

E escreve ainda que

Assim como o indivíduo, a Igreja também deve aceitar os desafios do tempo, justamente porque o cristianismo é a fé que mais se inclinou, inclinando-se Deus também, na historicidade e na precariedade do tempo.

Esta última frase tem tudo a ver com o Natal, essa inclinação máxima de Deus.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Ensaios sobre literatura e crença



Dei com este livro por acaso, quando andava à procura de um outro, coisa que não é nada incomum. Já conhecia o autor de “A Mecânica da Ficção”, que julgava já ter citado neste blogue. Não citei, apenas o usei sem citar, esperando que um leitor culto que me criticou chegasse ao autor. Todas as informações deste texto tinham sido tiradas de “A Mecânica da Ficção”. Daí que eu afirmasse no final do texto: “O meu caríssimo leitor que se queixa da descida de nível decerto saberá encontrá-las no agradável bosque de Jacob”.

“Bosque de Jacob” é uma referência a James Wood. Demasiado rebuscado. E irrelevante, admito.

Incomum foi só ler o título completo ao chegar a casa. James Wood garante ensaios rigorosos, apetecíveis e informativos sobre literatura. Lendo o índice, vi que os ensaios tinham todos uma temática religiosa e para-religiosa, razão por que o comprei à primeira vista. Como trabalho ao pé de várias livrarias, só compro determinado livro depois da segunda ou terceira sessão de namoro.

No índice deste volume dei com títulos como: “Sir Thomas More: Um Homem para a Efemeridade”, “O todo e o Se: Deus e Metáfora em Melville”, “As Perversões Cristãs de Knut Hamsun”, “O Misticismo de Virginia Woolf”, “O Antissemitismo Cristão de T. S. Eliot”, “A Herança Perdida: O Legado de Ernst Renan”. São 21 ensaios, todos eles, sei-o agora, com temática de fundo religioso, mesmo “O Shakespeare de Bloom”. Mas só quando cheguei a casa reparei que o título, completo, é “A Herança Perdida. Ensaios sobre Literatura e Crença”.

Na pág. 23, e foi o primeiro anticlímax do livro, vem que "como Lorde Conselheiro, [Thomas More] prendera e interrogara luteranos, por vezes na sua própria casa, e enviou seis defensores da Reforma para a fogueira (...)".

Com certeza que voltarei a este livro, mais que não seja para falar da tese da herança perdida, que diz que, mais do que a ascensão da ciência, foi a ascensão do romance que arrumou com a divindade de Jesus.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O coração comunista de Urbano Tavares Rodrigues


Urbano Tavares Rodrigues diz que merece “amplamente o Prémio Camões”. Não me pronuncio. Pouco conheço da sua obra. Li dele um livro de contos, mas a tarde na relva junto à Torre de Belém, na primavera de 2004, foi mais agradável pela companhia do que pela leitura. Literatura pouco marcante. Nem me lembro do título do livro de contos. E é raro esquecer um título. Só sei que era das Edições Europa-América.

Li a entrevista que deu ao Ípsilon de sexta-feira passada. E vou aqui reproduzi-la, uma parte. Acho piada à religião comunista, contra todos os argumentos, e ao repúdio do cristianismo com base num argumento, nesta caso a moral sexual, que até lhe teria sido benéfica – a avaliar pelo que o próprio revela na entrevista.

…Uma vez [Álvaro Cunhal] disse-me: “Ai Urbano, às vezes parece que tens teias de aranha na cabeça, mas o teu coração é comunista”. 
E o que é isso?
Um comunismo de solidariedade com os pobres e os infelizes que é profundamente ligado ao socialismo. Eu tornei-me comunista um pouco por influência de um primo meu que casou com a irmã do Álvaro Cunhal, o Fernando Medina. Ele deu-me a ler os textos comunistas quando eu tinha 13 ou 14 anos. Fiquei tocado com a solidariedade para com os pobres e humilhados. Eu antes de ser comunista estava ligado a uma espécie de socialismo cristão, embora repudiando a confissão e tudo isso. Descobri muito cedo que era uma farsa.
 
Teve essa educação católica?
Sim, tive catequese e tudo. Fiz a primeira comunhão.
 
E como é que descobriu “a farsa”?
Quando me pediam para prometer não repetir determinadas ações e que tinha de rezar uns tantos Padre-Nossos e eu sabia perfeitamente que ia repetir.
 
Por exemplo.
Umas histórias que eu já tinha tido com umas priminhas, em que havia sexo, embora sem chegar ao fim. Tinha unas 13, 14 anos. Achava de uma desonestidade profunda dizer que não repetia. E mandei isso à fava.
 
E alguma vez sentiu culpa?
Nunca a sexualidade me pareceu um pecado. Aí estava muito mais de acordo com os gregos. Noutras coisas senti. Por exemplo, no relacionamento que tive com as mulheres. Algumas vezes acho que as magoei. Posso ter sido egoísta. Disso arrependo-me.
…
 
Foi um mulherengo?
Acho que não, mas tive muitas mulheres. Às vezes fico comovido quando encontro uma dessas pessoas de quem gostei.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Kenn Follett e a Igreja Católica

Na "Sábado" da semana passada, Ken Follet (devo-lhe algumas tardes adolescentes bem passadas a ler "O Homem de Sampetersburgo", quando o muro ainda não tinha caído; livro do Círculo de Leitores com uma capa toda "guerra-fria") justificava o seu anticatolicismo.

Dizem que no enredo de "Os Pilares da Terra", quando o gótico é introduzido em Inglaterra, há de tudo para afirmar que a Igreja é obscurantista, retrógrada, déspota, como é típico na associação entre Idade Média e Igreja.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Gore Vidal e a Igreja Católica. Detesta-a, pois.


Gore Vidal morreu no dia 31 de julho de 2012. Eu devia (queria) tê-lo referido aqui, mas afazeres inadiáveis – como as férias – não me possibilitaram tal texto. Não foi a única coisa que queria ter feito e não fiz cá por estes lados.

E porquê assinalar a sua morte? Basicamente porque escreveu um livro sobre Jesus, “Em Directo do Calvário”. Subtítulo: “O Evangelho segundo Gore Vidal”. Saiu na Dom Quixote em 1994. Na altura, não me lembro de qualquer vestígio de polémica, mas o livro, apodado de “a mais escandalosa novela de Vidal”, “uma sistemática subversão de todos os valores”, diz a Newsweek, põe discípulos a sapatear, estações de televisão em guerra para a transmissão em direto do Calvário e Paulo com uma capacidade de persuasão que faz esquimós comprarem frigoríficos. O livro é narrado por um discípulo de Paulo, Timóteo, bissexual, que se converte porque “que mais se pode fazer aos domingos numa pequena cidade como Listra?”

O livro não tem qualquer pretensão histórica, embora use dos conhecimentos de história antiga de Gore Vidal, que é autor de “Juliano, o Apóstata”, e é claramente anticristão e anticatólico (e também antijudeu ou, talvez mais corretamente, antissionista). Mas fascina-me sempre que alguns arreligiosos ou ateus como Vidal não resistam a abordar a figura de Jesus Cristo, mesmo que tentem ridicularizá-lo. E parece que os alvos últimos da paródia são os republicanos e os sionistas dos EUA. Adiante.


Mas se me lembrei hoje de Gore Vidal foi porque li na “Ler” deste setembro, num texto de Eduardo Pitta, esta citação (Pitta diz que as suas preferidas não são citáveis na revista – citado e citador são homossexuais, é necessário dizê-lo –, pelo que, por exclusão, fica esta):
Se eu fosse Presidente ou estivesse, de qualquer outro modo, no governo de um país bem administrado, a primeira coisa que faria era proibir à Igreja Católica ensinar qualquer pessoa. Não lhe permitiria manter escolas, pois vejo a educação religiosa como contrária aos melhores interesses da República. Onde a Igreja Católica tem dominado, nunca a sociedade foi democrática.
Para terminar, nunca tinha pensado numa citação preferida de Gore Vidal, mas há uma que me vem com alguma frequência à memória quando se fala de assunto maior da política internacional. Está num dos prefácios (o livro tem dois; o outro é de Edward Said) de “História judaica, religião judaica. O peso de três mil anos”, de Israel Shahak (ed. Hugin, 1997):
 (…) Nenhuma outra minoria na história Norte-Americana conseguiu desviar tanto dinheiro dos contribuintes norte-americanos para investir no “lar nacional” [como os judeus dos EUA]. É como se o contribuinte norte-americano fosse obrigado a apoiar o Papa na sua reconquista dos Estados Pontifícios simplesmente porque um terço do nosso povo é católico.
Discordo de Gore Vidal em quase todos os assuntos (mas não, não defendo a restauração dos Estados Pontifícios). Só que ele bateu-se pelo direito a discordar, apesar de, pelos vistos, negar o direito de educação à Igreja Católica. Mas escreveu também: “Deixem pluralismo e diversidade ser o nosso objetivo”. A melhor comunhão é a de diferentes.

Gore Vidal (1925-2012)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

23 de agosto de 1912. Nasce Nelson Rodrigues


O escritor brasileiro Nelson Rodrigues nasceu há cem anos - 23 de agosto de 1912, no Recife. Morreu em 1980. Veio no "Público" de hoje, que dedica duas páginas, por Pedro Lomba, ao "prolífico dramaturgo, jornalista, cronista e ficcionista".

Conheço pouquíssimo do escritor - somente umas passagens das crónicas futebolísticas - mas as páginas do jornal, lidas apenas porque tive de esperar um pouco mais para o almoço, despertaram o apetite.

Uma frase: "Nos meus textos, o desejo é triste, a volúpia é trágica e o crime é o próprio inferno".

Outra, de quem se via como "anjo pornográfico" e tinha como grande talento a construção de personagens como o "revolucionário de festival", o "padre de passeata" e o "idiota da objectividade": "É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez".

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...