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sábado, 30 de outubro de 2010

Pacheco Pereira andou a ler a Vulgata no iPad

José Pacheco Pereira comprou um iPad e conta no “Público” de hoje:

“Por falar em livros, duvido que alguma vez utilize o iPad como ebook. Enchi-o logo com uma série de «aplicações», que incluem a Vulgata, as fábulas de Fedro, Shakespeare, Dante e Tolstoi completos e umas antologias de poesia. Mas se consulto os textos não os leio no iPad. O mais longe que fui em extensão de texto lido foi com a Vulgata, mas mais pelo fascínio do texto latino que me levou a ler o Genesis todo, em que praticamente cada frase é uma citação conhecida”.

A Vulgata, note-se, é a Bíblia traduzida para latim por S. Jerónimo. O texto mais lido e mais influente no Ocidente. A versão oficial da Bíblia durante a maior parte da história da Igreja Católica. Até nos erros. Dois exemplos curiosos.

* Se se diz que o fruto do pecado é a maçã, é somente que porque maçã e mal e mau são palavras parecidas, homónimas em alguns casos (malum, i - mal; malum, i; maçã; malus, a, um, mau).

* Se Miguel Ângelo representou Moisés com dois chifres, foi porque S. Jerónimo traduziu "raios de luz", que segundo o livro do Êxodo saíam da cabeça de Moisés após o encontro com Deus, por "chifres", que nas culturas antigas eram símbolo de poder. Não foi só Miguel Ângelo que representou Moisés desse modo. Na fachada do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, também há um Moisés com chifres. Já o procurei e não o encontrei. Mas garantiram-me que está lá.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

31 de Maio de 1469. Nasce D. Manuel I

D. Manuel I, 14.º rei de Portugal, o Venturoso, porque no seu reinado (1495-1521) o país descobre o caminho marítimo para a Índia e o Brasil e domina o comércio intercontinental, nasceu no dia 31 de Maio, em Alcochete. O facto está bem assinalado numa pequena praça da vila da margem esquerda do Tejo.

Mas deste reinado realço a “Bíblia dos Jerónimos”, talvez o livro mais valioso de Portugal. Foi encomendada por Manuel, ainda duque de Beja, em 1494, a uma oficina florentina, mas chegou quando Manuel, inesperadamente (era primo de D. João II, o antecessor), já era rei.

Chama-se “dos Jerónimos” porque foi deixada em herança ao Mosteiro dos Jerónimos. Na imagem apresenta-se a primeira página do livro de Josué, texto em latim. Na ilustração surge, por coincidência, o presbítero Jerónimo, ou seja, o Padre da Igreja que traduziu a Bíblia do grego para o latim (“Vulgata”).

quarta-feira, 24 de março de 2010

Para quem pede o pobre?

"O que pede não é o pobre, mas Deus no pobre, como diz São Jerónimo: Cada vez que estenderes as mãos aos pobres, pensa que as estendes a Cristo.

O que pede não é a tua fazenda, mas a sua; porque se Cristo é herdeiro e Senhor de todas as coisas, também o é da tua fazenda, da tua pessoa e da tua vida, pois ela, com tudo o demais, está na sua mão.

Mas, se consideras para quem pede, digo que pede mais para ti do que para si: porque para si pede bens da terra e a ti dá bens do céu. Como disse o Senhor àquele mancebo: Se queres ser perfeito, vai e vende todas as coisas que tens e dá-las aos pobres e terás um tesouro guardado no céu".


Frei Luís de Granada, in “Tratado da Oração, do Jejum e da Esmola” (ed. Paulinas; ver mais aqui), pág. 247.

sábado, 19 de dezembro de 2009

19 de Dezembro de 401. Morre o Papa Anastácio I

Anastácio I foi Papa de 27 de Novembro de 399 a 18 de Dezembro de 401. Era amigo de Agostinho e Jerónimo. Mas os factos que marcaram este papado foram a condenação das obras de Orígenes (por influência de Jerónimo?), nessa altura acabadas de traduzir para latim, a luta contra o donatismo (por influência de Agostinho?), que emergia no Norte de África, e uma ordem simples que ainda hoje se pratica: que as pessoas estejam de pé enquanto se proclama o Evangelho.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

11 de Dezembro de 384. Morre o Papa Dâmaso

Dâmaso foi Papa de 366 a 384. Morreu no dia 11 de Dezembro. Dizem que foi dos maiores papas do séc. IV, lutando contra os cismas, num tempo em que os cristãos já tinham liberdade.

Dâmaso, originário da Lustiânia, talvez de Guimarães ou de Idanha-a-Velha, fez três coisas que ficaram para a posteridade:

- pediu a São Jerónimo que traduzisse para latim a Bíblia (a chamada “Vulgata”);

- usou pela primeira vez o anel do Pescador, o anel papal, que actualmente é destruído no fim de um pontificado, mas na altura passava de Papa para Papa;

- mandou que se rezasse no fim dos salmos o “Glória ao Pai”, costume que ainda hoje se mantém.

Dâmaso foi sepultado Via Ardeatina, num local humilde. Na Cripta dos Papas da Catacumbas de S. Calisto fez escrever: "Aqui, eu, Dâmaso, desejaria que fossem sepultados os meus restos, mas tenho medo de perturbar as piedosas cinzas dos santos”.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

30 de Setembro de 1452. Gutenberg começa a imprimir a Bíblia


A Bíblia de Gutenberg, a chamada B 42 (“Bíblia de 42 linhas”, por ter precisamente colunas, duas, de 42 linhas) foi impressa entre 1452 e 1455. Não se sabe ao certo em que dia começou a ser impressa, mas há quem aponte o dia 30 de Setembro.
Não sei qual a razão para que alguns apontem este dia, mas reparo numa coincidência (que não vi referida em quem aponta esta data). É que 30 de Setembro é o dia da morte de São Jerónimo (de nome Eusebius Sophronius Hieronymus). Morreu no dia 30 de Setembro de 429. Ora, Jerónimo foi o tradutor da Bíblia de grego para latim vulgar. A sua Bíblia, geralmente seguida até ao advento das bíblias de reforma protestante, é conhecida por “Vulgata”. E foi essa versão da Bíblia que Johannes Gutenberg imprimiu.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Jerónimo reage à invasão de Roma

"S. Jerónimo", de Albrecht Dürer


Em Belém (Palestina), o tradutor da Bíblia para latim, a Vulgata, tem conhecimento da tomada de Roma pelos visigodos de Alarico e escreve esta página magnífica. Julgava eu, erroneamente, ter sido provocada pela queda definitiva do Império. Mas não. Nessa altura já Jerónimo (347-420) tinha morrido. Refere-se ao saque de 24 de Agosto de 410.

De uma só vez, vieram anunciar-me a morte de Pamáquio, de Marcela, a tomada de Roma, a morte de um grande número de irmãos e irmãs. Fiquei consternado, transtornado, assombrado. Dia e noite, não pensava noutra coisa, julgava-me prisioneiro com eles, com aqueles santos. Queria conhecer melhor aqueles acontecimentos, dividido como estava entre a esperança e o desespero. Eu assumia a minha quota-parte de cruz nos males do próximo. Mas quando a gloriosa luz do mundo se extinguiu, quando foi tomada a capital do nosso Império, quando nesta única cidade foram o universo inteiro e a civilização que pereceram, então “eu calei-me humilhei-me, não conseguia pronunciar uma única palavra e a minha dor fez-se mais viva; o meu coração exaltava-se e, enquanto eu meditava, um fogo se acendia nele”. (…)

Tudo tem um fim; os séculos transcorridos estão para sempre acabados e é uma verdade que aquilo que começa deve perecer, tudo aquilo que cresce conhece a decrepitude e a morte. Não há obra criada que a velhice não ataque e não faça desaparecer. Mas Roma! Quem podia pensar que, edificada com as vitórias alcançadas sobres o mundo inteiro, viria a ruir, transformando-se no túmulo dos povos de que tinha sido a mãe? Todas as costas do Oriente, do Egipto, da África estão agora cheias dos seus filhos, escravos fugitivos. Quem diria que Belém, a santa, iria receber todos os dias, com mendigos, homens e mulheres outrora nobres e ricos? Ai! Não podemos socorrê-los a todos, mas ao menos choramos com eles, misturamos as nossas lágrimas com as deles”.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Dom de si mesmo


São Jerónimo (347-420), num comentário ao Salmo 102, disse: “Sou como um pelicano do deserto, que fustiga o peito e alimenta com o próprio sangue os seus filhos”.

O pelicano alimenta os filhos, mas não chega a picar o peito até deitar sangue, como pensavam os medievais, seguindo os comentários de Jerónimo. Mas por esta doação de si mesmo, sacrifício de si mesmo, ficou como símbolo da Eucaristia.

O Salmo, uma oração do aflito, em concreto, diz: "Tornei-me semelhante ao pelicano no deserto". É uma imagem bela para falar de qualquer dor. A ave aquática torturada pelo deserto.

Já não temos a condição torturada de viver num "vale de lágrimas" (pelo menos alguns - para a maioria da humanidade, a condição normal é o sofrimento, ainda que não sem alegria), mas continuamos a precisar do Maná caído do céu, do Pão da Vida, da luz na noite, da água no deserto, ainda que estas imagens sejam lugares-comuns. Talvez porque sejam sentimentos universais.

Ontem foi dia do Corpo de Deus.


Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...