A mentira de que os discípulos de Jesus roubaram o corpo dele para a seguir proclamarem a ressurreição "divulgou-se entre os judeus até ao dia de hoje", diz Mateus (28,15).
E, de facto, o sequestro do corpo de Jesus continua, mas entre cristãos.
Ontem, Quinta-feira santa, o Papa lavou os pés a algumas jovens. "Foi a primeira vez que um pontífice lavou os pés de raparigas", diz o "Público". Admira-me a quantidade de coisas que o Papa Francisco já fez "pela primeira fez", não por serem extraordinárias, mas serem comuns. Talvez ele banalize suficientemente o papado para se deixar de dizer "pela primeira vez" e se reparar mais como os atos deixam transparecer a normalidade do cristianismo. Des-sequestrar o corpo de Jesus Cristo.
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sexta-feira, 29 de março de 2013
segunda-feira, 11 de março de 2013
domingo, 10 de março de 2013
José Augusto Mourão: “Nas fronteiras deste mundo”
Deus nas fronteiras deste mundo,
Deus que cruzamos como as sombras,
dá-nos um corpo de desejo
e um ouvido de começo,
fica connosco Deus que passas
e nossas mãos te larguem,
Deus confundido com a sede,
e as palavras que dizemos,
vem alterar o nosso corpo,
vem confundir a nossa fome,
Deus da palavra,
flor do vento,
manhã que vem em Jesus Cristo.
Dê-te prazer o nosso canto,
Deus das manhãs azuis e rosa,
que o nosso corpo te anuncie qual fonte, rio ou chaga aberta,
que nossas mãos persigam o teu passar escondido.
Deus invisível para os olhos,
palavra solta, luz que passa,
é neste tempo que dizemos o claro escuro do teu nome,
onde é secreta a tua face e o teu passar adivinhado.
José Augusto Mourão (1947-2011). Poema deixado aqui por Helena
Valentim, a quem agradeço.
sábado, 9 de março de 2013
Anselmo Borges: Desafios para a Igreja com o novo Papa
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.
Olivier Bobineau
A Igreja Católica leva consigo um imenso paradoxo. O sociólogo Olivier Bobineau descreveu bem a situação. "A Igreja católica é uma junção paradoxal de dois elementos opostos por natureza: uma convicção - o descentramento segundo o amor - e um chefe supremo dirigindo uma instituição hierárquica e centralizada segundo um direito unificador, o direito canónico. De um lado, a crença no invisível Deus-Amor; do outro, um aparelho político e jurídico à procura de visibilidade. O Deus do descentramento dos corações que caminha ao lado de uma máquina dogmática centralizadora. O discurso que enaltece uma alteridade gratuita coexiste com o controlo social das almas da civilização paroquial - de que a confissão é o arquétipo - colocado sob a autoridade do Papa. Numa palavra, a antropologia católica tenta associar os extremos: a graça abundante e o cálculo estratégico. Isso dá lugar tanto a São Francisco de Assis como a Torquemada."
Esta junção paradoxal é superável? Os desafios para a Igreja com o novo Papa são muitos. Ficam aí alguns, sem cuidar muito da sua ordem.
1. Desafio essencial é a conversão de todos os seus membros ao Evangelho, começando pelos que estão mais alto: papa, bispos, cardeais, padres. Acreditar em Jesus e tentar segui-lo. E anunciar a fé viva de sempre na linguagem do nosso tempo, articulando-a com a razão. E, contra um cristianismo reduzido a proibições, apresentá-lo como mensagem positiva e realização felicitante de sentido.
2. Outro, decisivo para o futuro: a reforma da Cúria Romana e do governo da Igreja em geral (há quem se pergunte: mas a Cúria será reformável?). Tem de haver mais simplicidade (acabar com aqueles títulos todos: Eminência, Excelência, Monsenhor...) e transparência e democraticidade. Pergunta-se, por exemplo, se o actual modelo de eleição papal não sofre de endogamia, já que o Papa escolhe aqueles que elegerão o sucessor. Não se impõe um processo mais participativo e universal? Quanto às dioceses, alguém já sugeriu, em vez de dioceses gigantes, um bispo para um número mais reduzido de fiéis, que deveriam participar na sua eleição.
3. É intolerável que possa haver sequer suspeitas de que pelo Banco do Vaticano passa lavagem de dinheiro. Exige-se, pois, uma gestão eficaz e transparente. Jesus foi contundente: "Não podeis servir a Deus e a Mamôn" (o Dinheiro divinizado).
4. Tem de continuar a mão inflexível da tolerância zero no que se refere à pedofilia.
5. É uma pergunta enorme, a de um biblista belga, que me disse um dia em Bruxelas: como é que o movimento iniciado por Jesus desembocou numa instituição com um Papa chefe de Estado?
Evidentemente, onde há homens e mulheres - e os católicos são 1200 milhões - tem de haver um mínimo de instituição. O que ela não pode é ter o primado, pois este pertence às pessoas e aos seus problemas. O Papa é uma figura de influência mundial e, uma vez que, por razões que a História explica, a Santa Sé e o Vaticano existem, exige-se que estejam, através das suas redes diplomáticas, ao serviço da paz, dos direitos humanos e do diálogo entre as nações.
6. Sem se negar, a Igreja tem de modernizar-se e, sendo verdadeiramente global, tem de estar aberta ao pluralismo. Esta abertura implicará também o acesso da mulher aos ministérios ordenados, o fim da lei do celibato, a reconciliação com a sexualidade e a revisão de questões como a pílula e o preservativo, a possibilidade da ordenação de homens casados, a comunhão para os divorciados recasados.
7. A continuação do diálogo ecuménico intracristão e inter-religioso e intercultural é um desafio irrenunciável, bem como o contributo para o debate nas questões de bioética.
8. A Igreja de Cristo tem de estar ao lado dos problemas dos homens e das mulheres, a começar pelos mais fragilizados. Por isso, espera-se dela pronunciamentos sem tibieza sobre a justiça social, a condenação de doutrinas económicas que endeusam o lucro, o combate pela dignidade de todos, a salvaguarda da paz, dos direitos humanos, a preservação da natureza.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Observação rápida sobre o latim
Claro que o latim é importante. Que haja países não latinos a ensiná-lo, atesta isso mesmo. Seja a Alemanha (a terceira língua estrangeira mais estudada, depois do inglês e do francês - era o que faltava pensar que os alemães estão a ficar mais papistas...), a Finlândia, os EUA, sempre saudosos do Império Romano, ou a Rússia com a sua terceira Roma.
Mas porquê missa em latim, seja no rito ordinário ou extraordinário, em comunidades que não falam essa língua? Não é preferível que as pessoas compreendam o que se diz, quando alguém fazendo memória de uma palavras em aramaico diz: "Isto é meu Corpo", "Este é o cálice do meu Sangue"?
Parece-me que única defesa possível da missa em latim para as pessoas que não o falam nem o compreendem é responder "não" à pergunta acima. E, a seguir, gostava de saber: Porquê este "não"?
Mas porquê missa em latim, seja no rito ordinário ou extraordinário, em comunidades que não falam essa língua? Não é preferível que as pessoas compreendam o que se diz, quando alguém fazendo memória de uma palavras em aramaico diz: "Isto é meu Corpo", "Este é o cálice do meu Sangue"?
Parece-me que única defesa possível da missa em latim para as pessoas que não o falam nem o compreendem é responder "não" à pergunta acima. E, a seguir, gostava de saber: Porquê este "não"?
sábado, 9 de junho de 2012
Do Corpo de Deus ao corpo na Linha
Sobre o fim do feriado do Corpo de Deus – ou supressão
meramente temporária, se voltar mesmo em 2018 –, deixa-me perplexo a indignação
de alguns eclesiásticos. Um exemplo. D. Nuno Brás (auxiliar de Lisboa) disse
aos microfones da Renascença:
A Igreja poderia bater o pé e dizer 'não queremos', mas com que autoridade moral é que o faria? (…) Convenhamos que nós, os católicos, temos alguma culpa nisso. Se todos fossem à missa nesse dia em vez de irem para a praia, muito possivelmente não haveria Governo que tivesse condições para retirar este feriado (li aqui).
O Governo retirou este feriado? Sim, porque os feriados são todos do Estado. Mas não foi a Igreja (e
no caso Conferência Episcopal coincidiu com a Santa Sé) que propôs que fosse
este? Mais sensata parece-me a atitude de D. José Cordeiro:
Nós não deixamos de celebrar a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus, comummente designado como Corpo de Deus. Passa é para o domingo seguinte, deixando de ser feriado. [A supressão do feriado civil não traz] nada de grave e relevante (li aqui).
E em Bragança-Miranda não se faz sentir o efeito das praias da Linha.
domingo, 18 de março de 2012
Nouwen: A minha vida é inimaginável sem a palavra
Quando Henri J. M Nouwen foi para L'Arche fez um retiro em que Jean Vanier, o fundador da comunidade de portadores de deficiência e cuidadores, disse que L'Arche estava construída sobre o corpo e não sobre a palavra, o que implicou uma mudança de perspetiva na vida ou pelo menos no modo de pensar de Nouwen.
Por isso, escreveu no diário desses dias (20 de março de 1986):
Por isso, escreveu no diário desses dias (20 de março de 1986):
A minha vida é inimaginável sem a palavra. Um dia bom é um dia com uma boa conversa, uma boa conferência proferida ou escutada, a leitura dum bom livro ou um bom artigo para escrever. A maioria das minhas alegrias e tristezas estão ligadas à palavra.Como o compreendo.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Mudar
Os sentimentos que são recalcados durante demasiado tempo manifestam-se
no nosso corpo como problemas de saúde ou, então, caímos numa situação de
dureza interior e de insatisfação. É frequente que só nos apercebamos demasiado
tarde de que as coisas não poderão continuar assim.
Anselm Grun, “A vida e o trabalho. Um desafio espiritual” (Paulinas),
pág. 152
domingo, 16 de outubro de 2011
Memórias combustivas
Meditação de domingo:
Não há ordem jurídica nem forma de governo que não procure fundar a sua legitimidade na religião. Foi o cristianismo que se secularizou, não a sociedade que se cristianizou. A saída da religião diz muito cruamente que as religiões deixaram de ser memórias activas, combustivas. A sacralização da ordem política tem uma matriz ocidental. A cura do corpo está hoje a cargo do Estado, que se tornou o grande terapeuta. Até os bombeiros se propõem a salvação pública.José Augusto Mourão na página 69 de "Quem vigia o vento não semeia" (ed. Pedra Angular)
sábado, 6 de agosto de 2011
Anselmo Borges: Antropologia e medicina
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):
Já não vivendo em círculos fechados, acontece-me ser convidado para intervir sobre o tema em epígrafe, no contexto de colóquios de e para médicos.
De facto, o conceito de saúde e doença depende também da ideia que se tem de Homem.
1. Assim, sublinharia, em primeiro lugar, a neotenia, para reconhecer que o ser humano é um prematuro, nasce antes do tempo, sendo esta a condição de possibilidade de se tornar Homem. Enquanto os outros animais vêm ao mundo já feitos, o ser humano nasce por fazer e tem de se fazer. Por isso, é sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura em história, com encontros e desencontros e onde há lugar para a liberdade. O Homem é por natureza cultural.
Sobre a possibilidade de aparecer um novo Wolfgang Amadeus Mozart, escreveu Leon Eisenberg: para isso, "teríamos necessidade não apenas do genoma de Wolfgang, mas também do útero da mãe de Mozart, das lições de música do pai de Mozart, da irmã Nannert, da esposa Constanze, do estado da música na Áustria do século XVIII, do apoio de Haydn, do patrocínio do imperador Joseph II, etc., etc. Sem o seu genoma único, o resto não teria sido suficiente. Mas também não podemos concluir que este genoma, aparecido noutro mundo e noutra época histórica, resultaria igualmente num génio musical tão criativo".
2. A concepção tradicional de Homem foi dualista, no sentido de ele ser o composto de duas substâncias: corpo e alma, matéria e espírito. Deste modo, responder-se-ia à pergunta: donde vem toda a actividade espiritual e o pensamento e as ideias abstractas e a ética e a questão de Deus e da ânsia de imortalidade.
Mas esta concepção não resiste a objecções fundamentais, concretamente hoje, por causa da imagiologia cerebral. E de facto não nos vivemos como uma alma que tem um corpo ou um corpo no qual habita uma alma. Vivemo-nos antes como um ser unitário, ainda que em tensão.
De qualquer modo, nesta concepção, frente à doença, ficaríamos com um técnico especialista (o médico), de um lado, e uma máquina desarranjada, do outro (o doente).
3. Face às debilidades da concepção dualista, há a tentação reducionista materialista, no quadro de um modelo mecanicista e biologista de Homem.
Mas, aqui, quem reduz o Homem a impulsos eléctricos, a física e química no cérebro, há-de confrontar-se com esta pergunta: como se passa de mecanismos físicos e químicos da ordem da terceira pessoa para uma vivência de si na primeira pessoa? Há, de facto, a vivência do eu e da liberdade.
Como escreve Manuel João Quartilho, "a saúde física e a saúde mental não estão separadas, do mesmo modo que o corpo e a mente não estão separados. O corpo e a mente são as duas faces da mesma moeda". Há aqui um enigma não completamente desvendável. Não se consegue passar directamente do conhecimento do cérebro para uma explicação linear das experiências conscientes. Há uma correlação entre fenómenos mentais e estrutura cerebral, mas não uma identidade. Onde está o eu no cérebro? O filósofo Thomas Nagel caricaturou: "...se um cientista louco te abrir a cabeça enquanto comes chocolate, e lamber o teu cérebro, é seguro que não terá a mesma experiência que tu, saboreando o chocolate".
Por isso, António Damásio conclui na sua última obra "O Livro da Consciência": "Nem as ideias discutidas neste livro nem as ideias apresentadas por vários colegas que trabalham nesta área resolvem os mistérios em torno do cérebro e da consciência de forma conclusiva".
4. Que concluir de tudo isto? No quadro de uma antropologia emergentista, portanto, para lá do dualismo e do materialismo, que pensa o Homem em processo e como realidade bio-psico-sócio-transcendente, para entender uma pessoa (evidentemente, também a pessoa doente) e ajudar na cura, é preciso usar os dois métodos: a explicação (biologia) e a compreensão (o que tem que ver com as experiências do indivíduo, a sua história, as suas crenças, a sua cultura).
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