quinta-feira, 18 de julho de 2013
Memória perigosa
Johann Baptist Metz em entrevista a António Marujo (24 de dezembro de 2006) in "Deus vem a Público"
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Bento XVI no Vaticano II, há 50 anos: "Foi um dia maravilhoso"
Bento XVI escreveu sobre o dia 11 de outubro de 1962, o início do Vaticano II. Começa assim: “Foi um dia maravilhoso”. No entanto, há pouco de memórias pessoais sobre o dia em que há 50 anos começou o II Concílio do Vaticano. Vale a pena ler. Extraí daqui o que me pareceu mais relevante. O títulos negritos sãos meus.
Um concílio convocado sem problemas concretos. Os concílios anteriores tinham sido quase sempre convocados para uma questão concreta à qual deviam responder; desta vez, não havia um problema particular a resolver. Mas, por isso mesmo, pairava no ar um sentido de expectativa geral: o cristianismo, que construíra e plasmara o mundo ocidental, parecia perder cada vez mais a sua força eficaz. Mostrava-se cansado e parecia que o futuro fosse determinado por outros poderes espirituais. Esta perceção do cristianismo ter perdido o presente e da tarefa que daí derivava estava bem resumida pela palavra «atualização»: o cristianismo deve estar no presente para poder dar forma ao futuro. Para que pudesse voltar a ser uma força que modela o porvir, João XXIII convocara o Concílio sem lhe indicar problemas concretos ou programas. Foi esta a grandeza e ao mesmo tempo a dificuldade da tarefa que se apresentava à assembleia eclesial.
Bélgica, França e Alemanha abrem caminhos. Obviamente, cada um dos episcopados aproximou-se do grande acontecimento com ideias diferentes. Alguns chegaram com uma atitude mais de expectativa em relação ao programa que devia ser desenvolvido. Foi o episcopado do centro da Europa – Bélgica, França e Alemanha – que se mostrou mais decidido nas ideias. Embora a ênfase no pormenor se desse sem dúvida a aspetos diversos, contudo havia algumas prioridades comuns. Um tema fundamental era a eclesiologia, que devia ser aprofundada sob os pontos de vista da história da salvação, trinitário e sacramental; a isto vinha juntar-se a exigência de completar a doutrina do primado do Concílio Vaticano I através duma valorização do ministério episcopal. Um tema importante para os episcopados do centro da Europa era a renovação litúrgica, que Pio XII já tinha começado a realizar. Outro ponto central posto em realce, especialmente pelo episcopado alemão, era o ecumenismo: o facto de terem suportado juntos a perseguição da parte do nazismo aproximara muito os cristãos protestantes e católicos; agora isto devia ser compreendido e levado por diante a nível de toda a Igreja. A isto acrescentava-se o ciclo temático Revelação-Escritura-Tradição-Magistério. Entre os franceses, foi sobressaindo cada vez mais o tema da relação entre a Igreja e o mundo moderno, isto é, o trabalho sobre o chamado «Esquema XIII», do qual nasceu depois a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo. Atingia-se aqui o ponto da verdadeira expectativa suscitada pelo Concílio. A Igreja, que ainda na época barroca tinha em sentido lato plasmado o mundo, a partir do século XIX entrou de modo cada vez mais evidente numa relação negativa com a era moderna então plenamente iniciada. As coisas deviam continuar assim? Não podia a Igreja cumprir um passo positivo nos tempos novos? Por detrás da vaga expressão «mundo de hoje», encontra-se a questão da relação com a era moderna; para a esclarecer, teria sido necessário definir melhor o que era essencial e constitutivo da era moderna. Isto não foi conseguido no «Esquema XIII». Embora a Constituição pastoral exprima muitos elementos importantes para a compreensão do «mundo» e dê contribuições relevantes sobre a questão da ética cristã, no referido ponto não conseguiu oferecer um esclarecimento substancial.
Liberdade religiosa. Inesperadamente, o encontro com os grandes temas da era moderna não se dá na grande Constituição pastoral, mas em dois documentos menores, cuja importância só pouco a pouco se foi manifestando com a receção do Concílio. Trata-se antes de tudo da Declaração sobre a liberdade religiosa, pedida e preparada com grande solicitude sobretudo pelo episcopado americano. A doutrina da tolerância, tal como fora pormenorizadamente elaborada por Pio XII, já não se mostrava suficiente face à evolução do pensamento filosófico e do modo se concebia como o Estado moderno. Tratava-se da liberdade de escolher e praticar a religião e também da liberdade de mudar de religião, enquanto direitos fundamentais na liberdade do homem. Pelas suas razões mais íntimas, tal conceção não podia ser alheia à fé cristã, que entrara no mundo com a pretensão de que o Estado não poderia decidir acerca da verdade nem exigir qualquer tipo de culto. A fé cristã reivindicava a liberdade para a convicção religiosa e a sua prática no culto, sem com isto violar o direito do Estado no seu próprio ordenamento: os cristãos rezavam pelo imperador, mas não o adoravam. Sob este ponto de vista, pode-se afirmar que o cristianismo, com o seu nascimento, trouxe ao mundo o princípio da liberdade de religião. Todavia a interpretação deste direito à liberdade no contexto do pensamento moderno ainda era difícil, porque podia parecer que a versão moderna da liberdade de religião pressupusesse a inacessibilidade da verdade ao homem e, consequentemente, deslocasse a religião do seu fundamento para a esfera do subjetivo. Certamente foi providencial que, treze anos depois da conclusão do Concílio, tivesse chegado o Papa João Paulo II de um país onde a liberdade de religião era contestada pelo marxismo, ou seja, a partir duma forma particular de filosofia estatal moderna. O Papa vinha quase duma situação que se parecia com a da Igreja antiga, de modo que se tornou de novo visível o íntimo ordenamento da fé ao tema da liberdade, sobretudo a liberdade de religião e de culto.
Religiões não-cristãs. O segundo documento, que se havia de revelar depois importante para o encontro da Igreja com a era moderna, nasceu quase por acaso e cresceu com sucessivos estratos. Refiro-me à declaração Nostra aetate, sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs. Inicialmente havia a intenção de preparar uma declaração sobre as relações entre a Igreja e o judaísmo – um texto que se tornou intrinsecamente necessário depois dos horrores do Holocausto (shoah). Os Padres conciliares dos países árabes não se opuseram a tal texto, mas explicaram que se se queria falar do judaísmo, então era preciso dedicar também algumas palavras ao islamismo. Quanta razão tivessem a este respeito, só pouco a pouco o fomos compreendendo no ocidente. Por fim cresceu a intuição de que era justo falar também doutras duas grandes religiões – o hinduísmo e o budismo – bem como do tema da religião em geral. A isto se juntou depois espontaneamente uma breve instrução relativa ao diálogo e à colaboração com as religiões, cujos valores espirituais, morais e socioculturais deviam ser reconhecidos, conservados e promovidos (cf. n. 2). Assim, num documento específico e extraordinariamente denso, inaugurou-se um tema cuja importância na época ainda não era previsível. Vão-se tornando cada vez mais evidentes tanto a tarefa que o mesmo implica como a fadiga ainda necessária para tudo distinguir, esclarecer e compreender. No processo de receção ativa, foi pouco a pouco surgindo também uma debilidade deste texto em si extraordinário: só fala da religião na sua feição positiva e ignora as formas doentias e falsificadas de religião, que têm, do ponto de vista histórico e teológico um vasto alcance; por isso, desde o início, a fé cristã foi muito crítica em relação à religião, tanto no próprio seio como no mundo exterior.
terça-feira, 20 de março de 2012
O esquecimento, esse inimigo
Rino Fisichella, "A Fé como resposta de sentido" (Paulinas), pág. 120.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Verdade e mentiras
Konrad Adenauer (1876-1967)
sexta-feira, 6 de maio de 2011
O que é uma mente judia
Ler - O que é uma mente judia?
Howard Jacobson - É estar sempre a questionar, a argumentar e contra-argumentar, sempre em disputa. Nunca descreve uma coisa como ela é realmente - descreve-a em metáforas e torna-a sempre maior. Há um proto-exagero, uma obsessão com a memória, com o contar histórias, que é uma maneira de nunca esquecer a mesma história e a melhor maneira de mentir. Vivo na minha mente, não vivo no meu corpo. Não vou ao ginásio, não gosto de caminhar, da vida no campo ou da natureza. Gosto de cidades, de conversar, de uma boa discussão, de pensar. Não estou a dizer que são apenas os judeus a gostar destas coisas, mas a combinação de todas é muito de judeus.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
A louca esperança de Jean d’Ormesson

Jean d’Ormesson, o escritor/cronista/jornalista/ensaísta/dirigente de organizações que ocupa a cadeira número 12 da Academia Francesa (aqui), um dos 40 imortais que neste momento são 37, conhecido pela alegria e boa disposição, escreveu recentemente um livro de memórias, buscas espirituais, sistemas do mundo, cheio de ormessonismes, como escreveu um jornalista do "Le Point" (aqui), talvez uma espécie de testamento sobre a sua visão do mundo - julgo eu. O livro, “C'est une chose étrange à la fin que le monde”, fala frequentemente de Deus. "Je doute de Dieu parce que j'y crois. Je crois à Dieu parce que j'en doute. Je doute en Dieu".
Perto do fim, d’Ormesson escreve: “Cada um faz como quiser. Espero que haja, depois da morte, alguma coisa da qual não sei nada. Espero que haja, fora do tempo, um poder que, por aproximação e por maior simplicidade, podemos chamar de Deus. Não tenho outra fé do que essa louca esperança”.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Memórias da prisão

Francisco Xavier Nguyen Van Thuan numa prisão vietnamita:
“Quando fui colocado no isolamento, fui confiado a um grupo de cinco guardas: dois deles estão sempre comigo. Os chefes mudam-nos de duas em duas semanas com os de outro grupo, para que não sejam «contaminados» por mim. Depois, decidiram não mudar mais, pois de outra forma todos ficariam contaminados!
No início, os guardas não falavam comigo, respondiam apenas «yes» e «no». É muito triste; quero ser gentil, cortês com eles, mas é impossível, evitam falar comigo. Não tenho nada para lhes dar de presente: sou prisioneiro, todas as roupas são marcadas com grandes letras «cai-tao», isto é, «campo de reeducação». Que devo fazer?
Uma noite, vem-me um pensamento: «Francisco, tu és ainda muito rico. Tens o amor de Cristo no teu coração. Ama-os como Jesus te ama.» No dia seguinte, comecei a amá-los, a amar Jesus neles, sorrindo, trocando palavras gentis. Começo a contar histórias das minhas viagens ao exterior, como vivem os povos na América, Canadá, Japão, Filipinas, Singapura, França, Alemanha… a economia, a liberdade, a tecnologia. Isso estimulou a curiosidade dos guardas, e excitou-os a perguntarem-me muitas outras coisas. Pouco a pouco, tornamo-nos amigos. Querem aprender línguas estrangeiras: francês, inglês… Os meus guardas tornam-se meus alunos! A atmosfera da prisão melhorou muito.
Até com os chefes da polícia. Quando vieram a sinceridade do meu relacionamento com os guardas, não só pediram para continuar a ajudá-los no estudo de línguas estrangeiras, mas ainda me mandaram novos estudantes”.
in "Cinco pães e dois peixes", de Francisco Xavier Nguyen Van Thuan (ed. Paulinas)
quinta-feira, 18 de junho de 2009
O ícone Lenine

Marcos Ana passou 23 anos na prisão, sob a ditadura franquista e conta em livro, aos 87 anos, como foi. A obra chama-se “Digam-me como é uma árvore” (ed. Guerra e Paz) e é descrita como memórias “menos políticas do que puramente humanas” (“Ípsilon”, 12 de Junho). Marcos Ana recorda histórias da sua infância pobre e católica, da sua adesão ao comunismo na adolescência, da prisão, do exílio. Conta, por exemplo, que na prisão os presos sujeitos a tortura eram reconfortados por um certo retrato de Lenine, como se fosse um ícone religioso.
Leio a recensão de Mário Santos no “Ípsilon” e, sem antes conhecer o resistente, fico desperto para pelo menos dar uma olhadela no livro na próxima visita a uma livraria: “Este livro é um testemunho de vitalidade e optimismo, sem sombra de ressentimento. São as memórias de alguém que não nomeia os companheiros que «tiveram fraquezas», nem os seus directos torturadores: «porque devem ter filhos e netos e tanto tempo depois não quero conspurcar a recordação que tenham dos pais ou avós». São as memórias de um homem. Coisa rara”.
Sinodalidade e sinonulidade
Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...
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O que aqui vou deixar não é um tratado nem sequer um artigo académico sobre a questão. Trata-se simplesmente de dicas recolhidas de outros...
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A fé começa precisamente onde o pensamento acaba. Kierkegaard
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Respondendo a alguns leitores, deixo aqui um artigo de Ariel Álvarez Valdés sobre a distinção, nos evangelhos, entre diabo e demónio. O tex...


