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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Vasco Graça Moura: O que fazer com esta tiara?


Mais um daqueles artigos do género tive-educação-católica-mas-não-sou-crente-no-entanto-lá-vou-eu-perorar-sobre-a-situação-da-Igreja-e-ser-for-sobre-o-Papa-ainda-melhor. O seguinte artigo é de Vasco Graça Moura, no DN de hoje. Note-se, contudo, que eu gosto deste tipo de artigos. Como a Igreja é uma coisa pública, todos podem escrever sobre ela. E se for escrito com inteligência, ainda melhor. É o caso.

Sem dúvida que vivemos numa cultura de matriz cristã, pelo menos no horizonte que ficou para trás. Mesmo os ateus são católicos. Como naquele diálogo:
- Qual é a tua religião?
- Nenhuma. Sou ateu. 
- Mas ateu de que religião? Católico? Protestante? Muçulmano?
- Ah, sou ateu católico, claro.



Como toda a gente que teve uma educação católica, mesmo sem depois ter tirado dela consequências de maior no plano das convicções religiosas, também eu, ao saber da renúncia de Bento XVI, fiquei com a impressão de estar a viver um momento histórico cujas consequências principais estão ainda muito longe de poder ser abarcadas.

Não foi apenas o ineditismo da situação, já tantas vezes referido e perspectivado, para trás e para a frente, que me impressionou. Também não direi que me tenha propriamente preocupado a discussão a lo divino, já a puxar as coisas para o plano híbrido em que o direito canónico e a área do sagrado se confrontam, sobre a liberdade plena do acto de renúncia ao vicariato de Deus ou as eventuais dificuldades de coexistência de quem "já foi" e de quem "passou a ser", num caso de tamanha envergadura.

O que me veio ao espírito foi a relação histórica tão profunda e tão antiga de Igreja de Roma com a Europa, a começar pelo sacro Império Romano-Germânico de que o Habsburgo Carlos V, após tê-lo vitoriosamente disputado ao Valois Francisco I, veio ainda a ser um poderoso símbolo moderno, não obstante o terrível saque de Roma que promoveu com os seus lansquenetes em 1527.

sábado, 8 de outubro de 2011

Anselmo Borges: Os do Sul


Max Weber

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Se há país de que eu gosto, ele é a Alemanha. Tenho excelentes e queridos amigos alemães. O que eu sei devo-o em grande parte à Alemanha. É de lá que vem da melhor filosofia, da melhor teologia, da melhor música, da melhor matemática, da melhor física, da melhor literatura. A língua alemã é singular no forjar do pensamento.

Diz-se que os alemães são racionais, ordenados, quase marciais. Mas aí são os alemães na exterioridade e na organização social. Afinal, donde vêm o romantismo, as filosofias da vida, a descoberta do inconsciente? Então, por causa dessa vitalidade, precisaram do travão racional.

E aí estão as guerras, guerras mundiais, com todo o seu cortejo terrível de tragédia. Ouvi o grande Karl Rahner numa aula dizer que passou a vida a perguntar como tinha sido possível o horror de Auschwitz e não encontrou resposta. De qualquer forma, essa experiência foi e ainda é um nó na alma alemã. Eles não poderão esquecer as ajudas que então receberam para se reerguer. Mas a Alemanha também foi generosa. Sem ela, não haveria o que se chama União Europeia nem o euro.

Mas as circunstâncias são outras, há eleições, e até os políticos se precipitam. E lá vieram declarações desgraçadas: que os do Sul são preguiçosos, que se retiraria soberania aos incumpridores, com a bandeira nacional a meia haste.

Essa dos do Sul já vem de longe. Tem que ver com o choque com Roma, Kant refere-se-lhe a propósito dos Descobrimentos e do debate sobre a posse das terras descobertas, Hegel foi dizendo, numa abertura abrangente dos do Sul, que a África "não é uma parte do mundo histórico", que a Europa, concretamente a Europa do Norte, surge como o centro e o fim do mundo antigo e do Ocidente.

Depois, há a racionalidade económico-social, com raízes religiosas. É bem conhecida a tese de Max Weber, na sua famosa "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", querendo mostrar a ligação estreita entre a ética do protestantismo puritano do século XVII, referente ao trabalho e à profissão, e o aparecimento do capitalismo burguês moderno. Paradoxalmente, a transformação dos valores, que no início da modernidade desvinculou moralmente o êxito pessoal e a persecução da vantagem própria de outros valores que antes detinham o primado, tem uma das suas raízes na tradição religiosa cristã de orientação calvinista e zuingliana. O que antes era desaprovado, concretamente a persecução desenfreada de interesses comerciais e de negócios, transforma- -se, "com base no ethos económico capitalista-calvinista", num modelo de forma de vida que agrada a Deus, de tal modo que o aumento da riqueza económica é quase sinónimo de aumento da glória de Deus.

Por causa da doutrina calvinista da predestinação, abatia-se sobre as pessoas a angústia da incerteza da salvação. Como meio mais eficaz para atingir a sua certeza, "recomendava-se o trabalho profissional incessante, pois este e só este afastaria as dúvidas religiosas e daria a certeza da condição de eleito". A fé comprova-se na vida profissional secular. Em ordem à certificação da sua própria salvação, era necessário levar uma vida ascética, não já fora do mundo, em comunidades monásticas, mas dentro dele e nas suas instituições. "Esta racionalização da conduta no mundo com vista ao futuro extraterreno foi o efeito da concepção da profissão como vocação, que o protestantismo ascético tinha." O que Deus pede e exige não é o trabalho em si, mas o trabalho profissional racionalizado. A riqueza aparece, portanto, como sinal de que se é eleito para a salvação. "A riqueza só é condenável enquanto tentação do ócio e do gozo pecaminoso da vida." Neste contexto, o "espírito do capitalismo" nasce da conjunção do desejo de lucro e da limitação do consumo: a inibição de bens de consumo "favorecia a sua aplicação produtiva enquanto capital de investimento".

Num mundo global, encontramo-nos numa das situações mais complexas e graves da história humana. A Europa unida tem um papel decisivo para o futuro do mundo. Aos do Norte exige-se mais solidariedade e aos do Sul mais rigor.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Fideísmo, desconfiança da razão, Bíblia e desenvolvimento

Primeira frase de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (o primeiro parágrafo ocupa três páginas), de Max Weber:

“Uma panorâmica da estatística profissional de um país pluriconfessional costuma mostrar com uma frequência significativa um fenómeno por várias vezes vivamente discutido na imprensa, literatura e congressos católicos da Alemanha: o facto de os dirigentes das empresas e os detentores de capitais, bem como as camadas superiores da mão-de-obra qualificada e, mais ainda, o pessoal técnico e comercial altamente especializado das empresas modernas, serem predominantemente protestantes”.

A constatação e a tese de Max Weber são espantosas, porque, historicamente, o protestantismo distingui-se por uma desconfiança radical da razão. Lutero dizia que a "razão é a rameira do diabo". Enquanto o catolicismo sempre quis conciliar fé e razão. Uns, oposição. Outros, diálogo. A questão é que naqueles que desconfiam da razão por razões religiosas, o desenvolvimento científico aconteceu em maior grau. A questão é que quem desconfiava da razão (incapaz de colaborar na salvação) realçava a leitura a Bíblia (ao contrário dos católicos). Ora, para ler a Bíblia, era preciso, ante de tudo, saber ler.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Um clássico: Max Weber, o capitalismo e a ética protestante

Com o “Público” de hoje, por mais 5,95 euros, um clássico da sociologia, mas também da economia e da teologia: “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber.

Confesso que já hoje dediquei mais tempo a este livro do que o que devia – o que comporta alguma ironia pois a ética protestante é uma ética do dever e eu tenho simpatias pelo capitalismo com ética cristã. Portanto, devia estar ocupado com o dever, em vez de estar a fruir do livro.

Até hoje só tinha treslido esta obra-prima. (“Tresli”, como dizem os bloquistas, quando lhes perguntam se já leram “O Capital”. Tresler é uma maneira de dizer que se leu o que não se leu, que apenas se pousou os olhos sobre uns resumos e umas citações). Mas hoje comecei a ler e só pela introdução (19 páginas) e pelas primeiras páginas já pensei uma dúzia de vezes: “Onde é que eu já ouvi isto? Tanta gente que já aqui veio beber”. Um clássico absoluto.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

“Deus está de volta”


O livro chama-se “God is Back: How the Global Revival of Faith is Changing the World” (algo como “Deus está de volta: Como o renascimento global da fé está a mudar o mundo”), de John Micklethwait e Adrian Wooldridge, na Penguin Press. Um é católico, o outro é ateu (não sei qual deles é o quê). Ambos são jornalistas da “Economist”.

Uma leitura sumária de críticas (na “Sábado” de 18 de Junho, no FT.com, no site da Amazon) revela o teor do livro: o capitalismo é benéfico para a religião e a religião é benéfica para o capitalismo. E isto faz-se por duas vias: 1.ª, o capitalismo, com a mudança permanente, deixa as pessoas vulneráveis e fá-las procurar segurança na religião; 2.ª, a religião usa os meios do capitalismo – a tecnologia e os mercados – para se expandir.

Mas o livro fala também de uma mudança de percepção na Europa, que vai “Da Necessidade de Ateísmo” (título do primeiro capítulo, que começa com a expulsão de Oxford do poeta Percy Bysshe Shelley, por ter escrito um panfleto precisamente intitulado “A Necessidade do Ateísmo”), às “Guerras culturais globais”, ao “Aprender a viver com a Religião” (conclusão).

O livro tem uma visão global, ainda que realce o arco Europa – EUA. A religião, dizem, está a deixar de ser vista como uma força da ignorância e obscurantismo. É “uma grande força para o progresso social no mundo em vias de desenvolvimento”. Sobre o Pentecostalismo dizem que “dá às pessoas uma predisposição psicológica para os conduzir ao capitalismo, pela sua ênfase na disciplina, nos hábitos, na poupança, na preservação da família”.

Quatro comentários à queima-roupa (como disse um crítico, quando não se sentir inspirado para escrever uma crítica, em último recurso, leia o livro):

* Quantas vezes já se falou de regresso do religioso, da fé, do sagrado? Muitas. Desde finais dos anos 80 que se fala disso e dos “rumores dos anjos”, da secularização frustrada… Agora acrescenta-se a globalização e a Internet.

* A tese do refúgio na religião não se assemelha àquela do senhor de barbas que mais criticou o capitalismo, cujo nome num livro dos anos 50 era traduzido por Carlos Marques?

* A tese de o Pentecostalismo ajudar ao capitalismo (ou criar a predisposição para tal) não é a mesma que a de Max Weber com o seu “A ética protestante e o espírito do capitalismo?”

* Finalmente, este livro insere-se numa observação que já tem pelo menos uma década: “Deus, outrora menos vivo do que se julgava, está menos morto do que se diz” (Jean Delumeau).

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...