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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Anselmo Borges: "O Papa e o maldito sexo. 2"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (daqui):

Num gesto sem precedentes, o Papa Francisco enviou aos católicos de todo o mundo um inquérito com 39 perguntas, para saber directamente e não já só pelos bispos o que se passa em domínios considerados tabu: novas formas de família, casais homossexuais, uniões de facto, relações pré-matrimoniais, divorciados que voltam a casar e a sua relação com os sacramentos, adopção, contracepção, uniões à experiência, educação religiosa das crianças...

Os resultados, que ajudarão na preparação para a Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos sobre "Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização", em Outubro próximo, ainda não são totalmente conhecidos, mas nomeadamente as Conferências Episcopais da Alemanha e da Suíça já publicaram os referentes aos seus países. Em ambos os casos, bem como num inquérito realizado pela Bendixen & Amandi para a cadeia de televisão norte-americana Univisión a católicos dos cinco continentes, conclui-se que a maioria dos católicos não está de acordo com a doutrina oficial da Igreja.

Concretamente nos relatórios alemão e suíço, pode ler-se a valorização do casamento católico. Textualmente, no alemão: "A ideia do casamento enquanto sacramento, que implica a fidelidade e a exclusividade do cônjuge bem como a transmissão da vida, é normalmente aceite por quem se casa na Igreja." Mas logo a seguir: "Pelo contrário, as afirmações da Igreja sobre as relações sexuais pré-matrimoniais, a homossexualidade, os divorciados recasados e o controlo da natalidade são aceites por pouquíssimos ou prevalentemente rejeitadas de forma explícita."

Não se deverá esperar um simples aval do Papa e do Sínodo ao resultado do inquérito mundial. Marcello Semeraro, secretário do G8 cardinalício que aconselha o Papa, já preveniu contra a ideia de ver as maiorias aprovadas: "O papel do Papa e dos bispos não consiste em serem notários de uma maioria." Mas é igualmente claro que algo tem de ser feito.

Como escreveu Miguel Oliveira da Silva, deve perguntar-se se, no universo sexual, que continua a ser "um imenso, incómodo e multifacetado mistério", vale tudo. É claro que não, e reconhece que "a sociedade ocidental vive um profundo e grave vazio ético em matéria de sexualidade, que a múltipla oferta de uma sexualidade por vezes devassada sem pudor na praça pública e passível de excessos não consegue minimamente preencher - ao contrário".

De qualquer modo, a Igreja precisa de reconciliar-se com o mundo e a ciência, o corpo e a sexualidade. E lá está, por exemplo, o famoso número 14 da encíclica Humanae Vitae contra a contracepção artificial. Neste domínio, o equívoco fundamental da encíclica encontra-se numa concepção de lei natural fixa, estática e centrada na biologia. Ora, por natureza o ser humano é cultural e histórico e a própria realidade é processual. A sexualidade humana não pode ser vista apenas na sua vertente biológica, pois envolve o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual, e é preciso superar o dualismo de fim primário (procriativo) e fim secundário (unitivo) e a argumentação moral centrada nos actos isolados. Por outro lado, não é o homem interventivo e transformador da natureza? E ainda serão naturais os métodos que têm que ver com uma descoberta e aproveitamento humanos dos períodos inférteis da mulher?

Como pedia o cardeal Carlo Martini, "é um sinal de grandeza e autoconsciência alguém confessar os seus erros e visão limitada". Assim, "o Papa talvez não retire a encíclica, mas pode escrever uma nova e ir mais longe. É legítimo o desejo de que o Magistério diga algo de positivo sobre o tema da sexualidade". "Procuramos um caminho para, de modo fiável, falar sobre o casamento, o controlo da natalidade, a procriação medicamente assistida, a homossexualidade, a contracepção."

Mas, aqui, impõe-se uma outra pergunta: enquanto se mantiver a lei do celibato obrigatório, que Martini também interrogava, não estará todo o discurso eclesiástico sobre o tema debaixo do fogo da suspeita?

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O que é evangelizar

É um aspeto extremamente importante da missão evangelizadora, um tipo de ajuda que se pode propor a qualquer pessoa, prescindindo da sua confissão ou da sua fé. Não consiste em dizer em primeiro lugar: deixa as tuas convicções e acede às minhas, que são melhores; consiste em oferecer uma ajuda a partir da experiência de Jesus, com a qual cada homem deve confrontar-se se quer chegar à liberdade dos filhos.

Carlo Maria Martini

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Jesuíta por jesuíta

Completa-se amanhã um ano que morreu o jesuíta Martini, que muitos dizem ter podido ser papa. Quem há um ano diria que hoje teríamos um papa jesuíta?

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Porta

Aplico o ouvido e aprendo a discernir os sinais dos tempos, oiço claramente os sinais da tua presença confortante à minha porta.

Carlo M. Martini

sábado, 22 de dezembro de 2012

Anselmo Borges: "Natal da dignidade humana"

Eco e Martini em Espanha, no ano 2000

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).

Numa troca célebre de cartas entre o cardeal Carlo M. Martini e o agnóstico Umberto Eco, publicadas com o título "In cosa crede chi non crede?", U. Eco escreve: Mesmo que Cristo fosse apenas o tema de um grande conto, "o facto de esse conto ter podido ser imaginado e querido por bípedes implumes, que só sabem que não sabem, seria miraculoso (miraculosamente misterioso)". O Homem teve, a dada altura, "a força, religiosa, moral e poética, de conceber o modelo do Cristo, do amor universal, do perdão aos inimigos, da vida oferecida em holocausto pela salvação dos outros. Se fosse um viajante proveniente de galáxias longínquas e me encontrasse com uma espécie que soube propor-se este modelo, admiraria, subjugado, tanta energia teogónica, e julgaria esta espécie miserável e infame, que cometeu tantos horrores, redimida pelo simples facto de ter conseguido desejar e crer que tudo isto é a Verdade."

Mas Jesus não é um simples conto ou um mito. Hoje, ninguém com honradez intelectual põe em dúvida a sua existência e há um acordo de base quanto a dados históricos fundamentais, como mostra Xabier Pikaza, na obra Quem Foi, Quem É Jesus Cristo?, que coordenei, e na qual especialistas de renome mundial tratam das perguntas essenciais sobre Jesus: uma biografia 'impossível' de Jesus, Jesus e a gnose, Jesus e Deus, Jesus e o dinheiro, Jesus e a política, Jesus e as mulheres, Jesus e as religiões, que quer dizer: "ressuscitar dos mortos"? Sintetizo X. Pikaza quanto ao consenso de base sobre "Jesus: quem foi, o que queria, que final?"

1. Jesus foi um profeta escatológico, que anunciou e actuou na perspectiva da acção iminente de Deus, que iria transformar a ordem social e política do mundo. 2. Foi um sábio, perito em humanidade, contando histórias iluminantes para a condução da vida, para lá da banalidade do mundo e em ordem ao seu entendimento e transformação. 3. Foi um taumaturgo e um carismático. Tinha "poderes" especiais, com grande capacidade de influência. Colocou-se do lado dos oprimidos, com "sinais" a seu favor, preocupando-se com a saúde das pessoas, a sua libertação e autonomia pessoal. 4. Foi homem de mesa comum. Estava interessado na comunicação viva e fraterna entre todos, como mostram os banquetes com pecadores e excluídos, ultrapassando as divisões entre puros e impuros. 5. Criticou uma forma de família baseada só na genealogia, para procurar uma forma nova de comunhão e inter-relação entre todos: num momento de grande desestruturação social, apresentou-se como impulsiona- dor de um movimento messiânico, aberto a todos e integrando os diversos estratos da sociedade, especialmente os marginalizados. 6. Foi um comprometido radical, de tal modo que a sua proposta não foi aceite por muitos "bons" judeus do seu tempo. Rompeu com normas sacras aceites pela maioria religiosa e abriu-se aos marginalizados sociais, num momento de grande crise económica, cultural, social e familiar. A sua proposta tornou-se perigosa, originando um conflito com os defensores da ordem religiosa e os representantes de Roma. 7. Foi um pretendente messiânico, executado em Jerusalém. Foi um profeta, um sábio, um carismático, mas não apenas isso. Ele subiu a Jerusalém pela Páscoa do ano 30 como portador do Reino de Deus, ainda que se discutam as características da sua pretensão. Foi rejeitado pelas autoridades sacerdotais de Jerusalém e condenado à morte por Pôncio Pilatos como "rei dos judeus". 8. Depois da sua morte, o seu movimento profético-messiânico manteve-se e transformou-se. Muitos continuaram a acreditar nele, confessando que ele está vivo em Deus. Reflectindo sobre o modo como viveu, como agiu e se comportou, sobre a sua experiência de Deus, que proclamou, com palavras e obras, como amor incondicional, tiveram a experiência avassaladora de que ele não morreu para o nada, mas para o interior da Vida plena de Deus. É o Vivente em Deus.

Afinal, o Natal verdadeiro é o Natal da dignidade humana. Como dizia o filósofo ateu Ernst Bloch, foi com Jesus que sabemos que nenhum ser humano pode ser tratado como "gado". Já Hegel tinha escrito também que por ele sabemos da dignidade divina do ser humano. Bom Natal!

sábado, 15 de setembro de 2012

Anselmo Borges: Martini, "Um Papa da frente"

Bela prosa de Anselmo Borges sobre Padre Carlo Maria Martini. Tirei do DN de hoje.

Segundo o protocolo, um cardeal é tratado por Eminência. O cardeal Carlo Maria Martini recusava esse tipo de tratamento: "Chame-me Padre Carlo Maria Martini."

Até nisto era eminente. Por isso, denunciava vícios impregnados na Igreja. Para ele, "o vício clerical por excelência" é a inveja. Mas há outros pecados capitais na Igreja: a vaidade e a calúnia. "Que grande é a vaidade na Igreja! Ela tem essa tendência para a ostentação, o alarde." E há o "terrível carreirismo" clerical, especialmente na Cúria Romana, "onde todos querem ser mais". Precisamente por causa do carreirismo é que muitos se calam: "certas coisas não se dizem, porque se sabe que bloqueiam a carreira." Isso é "péssimo na Igreja". A verdade brilha pela ausência, pois "procura-se dizer o que agrada ao superior e age-se como cada um imagina que o superior gostaria, prestando deste modo um fraco serviço ao Papa".


Cardeal Martini em Jerusalém

Especialista em ciências bíblicas, Martini era um intelectual reconhecido mundialmente, com vários doutoramentos e falando muitas línguas. Foi Director do Instituto Bíblico de Roma e Reitor da Universidade Gregoriana. Depois, esteve à frente da arquidiocese de Milão durante 22 anos e presidiu ao Conselho das Conferências Episcopais da Europa. Quando completou 75 anos, retirou-se para Jerusalém - não quis ficar perto do Vaticano: "Jerusalém é a minha pátria. Antes da pátria eterna."

Falava com liberdade interior limpa, em sincera sintonia com os problemas dos homens, das mulheres e dos jovens, e tinha convicções e coerência de vida. Não receava discutir com Deus e fazer-lhe perguntas - não disse Heidegger que "a pergunta é a piedade do pensamento"? "Como bispo, perguntei frequentemente a Deus: porque não nos dás ideias melhores, porque não nos fazes mais fortes no amor, mais corajosos ao lidar com as questões actuais?" Não conseguia compreender porque é que Deus deixou morrer o seu Filho na cruz. "Combati com Deus", "porque, quando vejo o mal do mundo, fico sem alento e entendo os que chegam à conclusão de que Deus não existe".

Não era de modo nenhum partidário de propostas tíbias, e criticava a nossa sociedade, que não sabe viver com a dificuldade e, "no fundo, se baseia no espectáculo e no aparecer", mas ousou enfrentar com realismo e valentia questões de ética, nomeadamente no domínio sexual, como a homossexualidade, a contracepção, o preservativo, o problema dos divorciados recasados -"prevejo que a Igreja deva encontrar soluções para estas pessoas"-, e propugnava reformas profundas na estrutura da Igreja, como mais participação de todos, fim do celibato obrigatório, ordenação de mulheres - "os homens de Igreja têm de pedir perdão às mulheres".

Era um místico, que confiava radicalmente em Deus. "Talvez, ao morrer, alguém segure a minha mão. Desejo nesse momento poder rezar. Durante toda a vida reflecti sobre Deus e sobre o além; neste momento, não sei nada a não ser que eu próprio na morte também me sinto acolhido. Isto é também a minha esperança." No seu último escrito no Il Corriere della Sera, escreveu: "Deus quis que passássemos por esta 'dura viela' que é a morte e que entrássemos na escuridão que mete sempre um pouco de medo. A morte obriga-nos a confiar totalmente em Deus."

Gostava da expressão "a concupiscência da criatividade" e declarava-se um enamorado da justiça, "o atributo fundamental de Deus." Reclamava coragem para si e para Igreja, também porque "a vida me demonstrou que Deus é bom", um Deus que sentia "nas estrelas, no amor, na música, na literatura e na palavra da Bíblia". "O assombro pode levar a Deus."

Homem de diálogo, criou em Milão a "Cátedra dos não crentes" e, reportando-se a um pensamento de Norberto Bobbio, dizia: "O que me interessa é a diferença entre pensantes e não pensantes. Quero que todos vós sejais pensantes. Depois, escutarei as razões de quem crê e as de quem não crê."

A quem o acusava de ser anti-Papa, respondia: "Serei um 'ante-Papa' (um Papa da frente), alguém que se adianta ao Santo Padre como seu colaborador e que trabalha para ele."

sábado, 8 de setembro de 2012

Anselmo Borges: "Uma igreja outra é possível"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):



No dia 8 de Agosto, em jeito de testamento espiritual, deu a sua última entrevista, no Il Corriere della Sera, afirmando que a Igreja precisa de "uma mudança radical. A começar pelo Papa e pelos bispos". Preocupava-o uma Igreja 200 anos atrasada, sem vocações, agarrada ao bem-estar: "os nossos rituais e vestimentas são pomposos." "Na Europa do bem-estar e na América, a Igreja está cansada." Três instrumentos para sair deste esgotamento: "O primeiro é a conversão. Deve reconhecer os próprios erros. Os escândalos de pedofilia obrigam-nos a empreender um caminho de conversão. As perguntas sobre a sexualidade e sobre todos os assuntos que dizem respeito ao corpo são um exemplo. Devemos perguntar-nos se as pessoas ainda escutam os conselhos da Igreja em matéria sexual. A Igreja é ainda uma autoridade de referência ou apenas uma caricatura nos media?" O segundo conselho e o terceiro têm a ver com a recuperação da palavra de Deus e dos sacramentos como ajuda e não como castigo.

O cardeal Carlo M. Martini morreu na semana passada. Lúcido, e depois de ter recusado a obstinação terapêutica. Perito em crítica textual do Novo Testamento, foi arcebispo de Milão durante 22 anos e um intelectual eminente. Homem de diálogo - é um best-seller a obra Em Que Crê quem não Crê, debate com o agnóstico Umberto Eco -, era a figura mais brilhante do Colégio dos Cardeais.

Em 2008, exprimiu, com coragem, o seu pensamento sobre questões fundamentais para a Igreja e para o mundo actual, num livro de conversas com outro jesuíta, G. Sporschill: Colóquios Nocturnos em Jerusalém. Aí, interrogava-se: "Quando o Reino de Deus chegar, como será? Como será, depois da minha morte, o meu encontro com Cristo, o Ressuscitado?"

Causava-lhe preocupação "a falta de coragem". "A Igreja deve ter coragem para reformar-se", pois ela "precisa constantemente de reformas". "Porque eu próprio sou tímido, digo a mim mesmo na dúvida: coragem!" Atreveu-se a pôr Lutero, "o grande reformador", como exemplo, recordando que "a Igreja católica se deixou inspirar pelas reformas de Lutero no Concílio Vaticano II". A Igreja actual tem "medo", mas, se Jesus voltasse, "lutaria com os actuais responsáveis da Igreja", recordando-lhes que "não devem estar fechados em si mesmos, mas olhar para lá da própria instituição".

Foi sempre fiel à "sua" Igreja, que devia ser "uma Igreja simples, com menos burocracia", pobre, humilde, que não depende dos poderes deste mundo, uma "Igreja inventiva", "jovem", que dá ânimo sobretudo aos mais pequenos e pecadores, que luta pela justiça, mais colegial, e que volte ao Concílio, pois "há a tendência de afastar-se dele".

Sobre a juventude e a sexualidade, incluindo as relações pré-matrimoniais: "nestas questões profundamente humanas, não se trata de receitas, mas de caminhos." A Igreja deve ir ao encontro de uma sexualidade que não está "reservada ao confessionário e ao âmbito da culpa", uma sexualidade "sã e humana", com "uma nova cultura que promova a ternura e a fidelidade".

Foi sensível no trato com os homossexuais e compreendia o uso do preservativo. Confessou que a encíclica Humanae Vitae, em 1968, com a proibição da "pílula contraceptiva", "é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra". Mas estava convicto de que "a direcção da Igreja pode mostrar um caminho melhor do que o da encíclica". Procuramos "um novo caminho" para falar sobre a sexualidade, a regulação da natalidade, a procriação medicamente assistida. Contra o celibato obrigatório, disse que era preciso "debater a possibilidade" de ordenar homens casados e de abrir a ordenação às mulheres.

Reconheceu as suas "dúvidas de fé". "Combati com Deus", "porque, quando vejo o mal do mundo, fico sem alento e entendo os que chegam à conclusão de que Deus não existe". Mas acreditava que "o amor de Deus é mais forte", e o inferno está vazio.

Alguma imprensa inglesa definiu-o como o "Papa perfeito para o século XXI". Como seria a Igreja, se Martini tivesse sido Papa? De qualquer modo, ele foi um exemplo de que uma Igreja outra é possível.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Eclesialmente estamos em 1812, no tempo de Pio VII

Na "Visão" desta quinta-feira.

A entrevista em questão, pode ser lida em português aqui na íntegra.

A Igreja ficou 200 anos para trás. Como é possível que ela não se sacuda? Temos medo? Medo ao invés de coragem? No entanto, a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem. Eu sou velho e doente e dependo da ajuda dos outros. As pessoas boas ao meu redor me fazem sentir o amor. Esse amor é mais forte do que o sentimento de desconfiança que às vezes eu percebo com relação à Igreja na Europa. Só o amor vence o cansaço. Deus é Amor. Eu ainda tenho uma pergunta para você: o que você pode fazer pela Igreja?

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Público: A liberdade do cardeal que discutia com Deus


No "Público" de hoje recorda-se o Cardeal Martini.

Adivinhe quem disse que a teologia deve pensar no que deve "deixar cair" e "inteiramente renovar"

Quem disse isto numa entrevista?

A teologia não atua num universo vazio e, por isso, deve continuamente interrogar-se sobre qual o horizonte em que está situada, a que ponto se chegou, que devemos deixar cair, que devemos inteiramente renovar. Perante uma visão do mundo, por muitos aspetos radicalmente nova, elaborada no século XX, a teologia vê-se perante a tarefa de repropor a questão de como poderá a fé conservar a sua identidade e, ao mesmo tempo, também renovar-se.

a) Joseph Ratzinger
b) Carlo Maria Martini
c) Karol Wojtyla
d) Hans Kung

Resposta: a) Joseph Ratzinger, numa entrevista de Patrick Bahners e Christian Geyer publicada em "Existe Deus?", de Joseph Ratzinger e Paolo Flores d'Arcais, ed. Pedra Angular, 2009.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Como um pedaço de madeira pode ter mudado a direção da Igreja

Martini no conclave de 2005

O jesuíta James Martin (ver a partir daqui algumas referências a este padre) conta na “America” (revista e sítio dos jesuítas dos EUA) um episódio curioso e engraçado do cardeal Carlo Maria Martini. Traduzo daqui.

Estou muito contente por o meu amigo Thomas J. Fitzpatrick, S.J., que há uns anos me contou esta história maravilhosa sobre o Cardeal Carlo Martini, s.j, me ter permitido partilhá-la consigo. Está apenas ligeiramente editada a partir do que ele me enviou hoje. É simultaneamente engraçada, provocadora e comovente, e fala bem alto sobre humildade. Ouvimos com regularidade este tipo de histórias, contadas e recontadas, e descritas como “apócrifas”, mas esta não é.
Quando eu era superior do Pontifício Instituto Bíblico de Jerusalém, levava com regularidade o Cardeal Martini ao aeroporto quanto ele tinha de viajar, ele que era membro da nossa comunidade de jesuítas. Antes do conclave papal de 2005, o núncio papal na Terra Santa, arcebispo Pietro Sambi, convenceu o Cardeal a usar os serviços VIP no aeroporto de Tel Aviv. Assim, no dia antes de o levar ao aeroporto por causa do conclave, informei a segurança do aeroporto de que iria chegar com o Cardeal Martini. Chegámos na manhã seguinte, pelas 4 da madrugada, e fomos guiados para uma sala num edifício reservado do resto do aeroporto. 
As viagens para o aeroporto com o Cardeal Martini eram ocasiões para conversas descontraídas, mas esta manhã particular tinha uma aura diferente. Eu estava espantado por um membro da minha comunidade, da qual era superior, não só participar no conclave, mas ser apontado com um dos principais favoritos. Eu sabia que o Cardeal Martini não queria ser Papa. 
Por isso, em parte a brincar, mas também com muita seriedade, disse-lhe quando foi chamado para embarcar: “Carlo, eu sei que não queres ser Papa; eu sou o teu superior religioso e os jesuítas devem obedecer aos seus superiores; permite-me que te diga que se fores eleito Papa, por favor, aceita”. Rimos; abracei-o e ele partiu para o conclave. 
Quando o Cardeal Martini regressou do conclave, voltei ao lugar especial para o cumprimentar, na sua chegada. Depois de passarmos pelos “check points” do aeroporto e estarmos a caminho de Jerusalém, disse-lhe que estava um bocado zangado com ele. Tinha visto muito do Cardeal nas reportagens televisivas, e reparara que estava a usar a sua bengala. 
Por isso, disse-lhe: “Eu sei que não tens de usar a tua bengala, e julgo que apareceste com ela para mostrar às pessoas como estás doente. Estou certo?” 
“Sim”, disse ele. 
Depois disto, na casa de Jerusalém, poderei apontar para a bengala do Cardeal e dizer: “Aqui está o pedaço de madeira que mudou a direção da Igreja Católica”.
Esta história alinha com o que diz o porta-voz dos bispos portugueses, um jesuíta, aqui. 

domingo, 2 de setembro de 2012

Cardeal Martini. Últimas palavras


Um texto no “Público”, só online, recorda o cardeal Martini. Excertos:
A edição deste sábado do jornal "Corriere della Sera" divulga aquela que foi a última entrevista do cardeal, que há dez anos sofria de Parkinson. Na conversa, gravada no mês de Agosto, o cardeal diz que "a Igreja está cansada... e os nossos lugares de oração estão vazios". 
Num dos últimos [livros], "Colóquios Nocturnos em Jerusalém" (ed. Gráfica de Coimbra), diz: “Sim, desejo uma Igreja aberta, uma Igreja cujas portas estejam abertas à juventude, uma Igreja com horizontes vastos. A Igreja não se tornará atraente por adaptações ou por ofertas tíbias. Eu confio na palavra radical de Jesus, nessa palavra que temos que traduzir para o nosso mundo como ajuda para a vida, como Boa Nova que Jesus quer trazer." 
Na entrevista publicada pelo Corriere della Sera, Martini – cujo funeral se realiza segunda-feira – dizia, referindo-se ao catolicismo: "A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes e estão vazias e a burocracia aumenta, os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos." 
No seu último livro, sobre a figura do bispo, o cardeal diz que aquele deve ser antes de mais "íntegro, honesto, leal, capaz de não mentir nunca, paciente, misericordioso, pronto a oferecer esperança a quem sofre, mas, acima de tudo, um homem verdadeiro, capaz de ouvir a todos, mesmo não crentes, separados, divorciados e homossexuais". 
A falta "dramática" de padres, o papel da mulher na Igreja e na sociedade, a sexualidade, as relações com os ortodoxos e o ecumenismo em geral, bem como a relação entre a democracia e as leis morais, eram temas para os quais Martini propunha novas abordagens da Igreja e a necessidade de debate num novo concílio.

Reproduzo também um texto do cardeal sobre a morte. A sua morte. Tirei daqui.
Mais de uma vez eu lamentei com o Senhor pelo fato de que, morrendo, não tirou de nós a necessidade de morrer. Seria tão bonito poder dizer: Jesus também enfrentou a morte em nosso lugar, e, mortos, poderemos ir para o Paraíso por um caminho florido. 
Ao invés, Deus quis que passássemos por esta "dura viela" que é a morte e que entrássemos na escuridão que sempre dá um pouco de medo. Eu me pacifiquei novamente com o pensamento de ter que morrer quando compreendi que, sem a morte, nunca chegaríamos a fazer um ato de plena confiança em Deus. De fato, em cada escolha comprometedora, nós sempre temos "saídas de segurança". Ao invés, a morte nos obriga a confiar totalmente em Deus. 
O que nos espera depois da morte é um mistério, que requer da nossa parte uma confiança total. Desejamos estar com Jesus, e expressamos esse desejo de olhos fechados, às cegas, colocando-nos totalmente nas suas mãos.
Desejamos também nós gozar daquela paz interior que vence toda ansiedade e se confia a Deus com todo o coração.

O último texto que o cardeal Martini assinou no espaço semanal que tinha no “Corriere della Sera” pode ser lido aqui.

sábado, 1 de setembro de 2012

O "papabile" que queria uma Igreja mais aberta


Notícia de hoje, no "Público", sobre a morte do Cardeal Martini. O DN não traz nada na edição em papel, mas uma notícia pode ser lida aqui.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Dignidade e dor na última coluna do Cardeal Martini


“Chegou o momento em que a idade e a doença me dão um claro sinal de que é o momento de me retirar mais das coisas da terra para me preparar para o próximo advento do Reino”.

O cardeal Carlo Maria Martini, arcebispo emérito de Milão, assinou pela última vez a sua coluna semanal no jornal “Corriere della Sera” (24 de junho). Vale a pena ler na íntegra (tirei daqui).

Desejo iniciar esta última página da coluna, confiada há mim há alguns anos, agradecendo a todos aqueles que me escreveram nesses anos. Recebi milhares de cartas de afeto, de gratidão, de estímulo e de crítica.
Peço perdão àqueles a quem não consegui responder e àqueles que, mesmo tendo recebido uma indicação de resposta, a consideraram pouco ou nada exaustiva. Agradeço ao diretor do "Corriere della Sera" que me concedeu um longo tempo de diálogo, apesar do enfraquecimento da voz. Agradeço também a todos os seus colaboradores. Um obrigado de coração também aos meus sucessores na Cátedra de Ambrósio pela paciência demonstrada, apesar da minha intervenção mensal.
Agora chegou o momento em que a idade e a doença me dão um claro sinal de que é o momento de me retirar mais das coisas da terra para me preparar para o próximo advento do Reino. Asseguro a minha oração para todas as perguntas que permaneceram sem resposta. Que Jesus possa responder às questões mais profundas do coração de cada um.
A maior dor: perder um filho criança
Caro cardeal Martini, segunda-feira, 2 de abril de 2012, perdi o meu filho de 10 anos. Peço humildemente ao senhor uma palavra de conforto e o caminho a seguir, para que, de algum modo, eu volte a viver. Mas como se fez, Eminência, para crer em Jesus? Peço-lhe, Eminência, ajude-me, o senhor é um homem especial (Francesco Rizzo).
Caro Francesco, não há palavras verdadeiras de conforto diante de uma dor tão grande, talvez a maior dor para um ser humano. Eu também não sei lhe indicar caminhos precisos. Posso lhe dizer que rezo por você, para que seja Jesus, o Filho, que lhe indique o caminho. Mas certamente não será logo, porque dores tão fortes tiram a força, a visão, a audição e ferem até a nossa força fundamental que é a coragem de enfrentar qualquer acontecimento.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O livro que tem andado por este blogue



O livro que tem andado por este blogue. É de 2009. Como já comentou um leitor, tem muitas gralhas e erros de tradução e de revisão, o que, infelizmente, é comum a muitos livros desta editora, a qual sofre também por não ter um marketing adequado às muitas boas obras que publica.

Este livro, 176 páginas, é basicamente uma entrevista de Georg Sporschill, jesuíta austríaco, que juntou às suas perguntas mais uma série de questões lançadas por jovens. Ou melhor, a partir de interrogações dos jovens, desenvolve várias perguntas ao longo de sete capítulos: O que dá consistência a uma vida; Coragem para decidir; Conquistar amigos; Em familiaridade com Deus; Aprender a amar; Por uma Igreja aberta; Lutar contra a injustiça.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Não temer os confrontos internos

É bom não esquecermos as confrontações que Paulo teve por causa disso mesmo [divulgação da Boa Nova] com os apóstolos, e as dificuldades que tiveram que superar, nos seus começos, a mensagem de Jesus e a própria Igreja. Comparados com tudo isto, os confrontos que se seguiram ao Vaticano II não passam de dificuldades envoltas numa luz suave. À coragem que, naquele tempo, tiveram os apóstolos se deve o florescimento e a difusão da Igreja. É dessa coragem que hoje precisamos. Não podemos retroceder perante as dificuldades; temos é de avançar e de permanecer em diálogo com toda a gente.

Carlo Maria Martini, "Colóquios nocturnos em Jerusalém", pág. 147.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Como escalar uma parede vertical



Noutro tempo, eu era um alpinista entusiasta. Quando se pretende escalar uma parede vertical é preciso ter, pelo menos, três pontos de apoio na rocha. Só dessa maneira é possível subir e alcançar o quarto ponto. Se existe somente um ponto de apoio, fica-se suspenso sem qualquer ajuda. Desse modo, é impossível avançar. Nem sequer dois pontos de apoio são suficientes. Só com três conseguimos subir. Esses pontos de apoio estão, para mim, na Sagrada Escritura.



Cardeal Carlo Maria Martini, Colóquios nocturnos em Jerusalém. Sobre o risco de acreditar, pág. 101-102

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...