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sábado, 12 de abril de 2014

Anselmo Borges: "O dinheiro faz a felicidade?"

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado (5 de abril; tirado daqui):


Lá está Epicuro: "É preciso meditar sobre o que traz a felicidade, pois, se ela estiver presente, temos tudo, mas, se estiver ausente, fazemos tudo para obtê-la." E é o que faz F. Lenoir, num belo livro recente, exigente e acessível, Du bonheur. Un voyage philosophique: como alcançar a felicidade, ser feliz. E não podia faltar um capítulo sobre o dinheiro: ele traz a felicidade?

J. Renard atirou: "Se o dinheiro não faz a felicidade, dê-o." Mas quantos estão dispostos a isso? No entanto, num artigo célebre de 1974, o economista americano R. Easterlin mostrou que no seu país, embora o rendimento bruto por habitante tenha dado o salto extraordinário de 60%, entre 1945 e 1970, a proporção de pessoas a considerar-se "muito felizes" não tinha variado: 40%. Não se confirma a fórmula mágica do capitalismo liberal: crescimento do PIB = aumento da felicidade. Aliás, as estatísticas do Insee diziam o mesmo em relação à França: embora entre 1975 e 2000 se observe um crescimento global do PIB superior a 60%, a proporção das pessoas "satisfeitas ou muito satisfeitas" permaneceu à volta de 75%. Mas há mais. Na Inglaterra, por exemplo, enquanto a riqueza nacional quase triplicou em meio século, as pessoas que se declaram "muito felizes" passaram de 52% em 1957 para 36% em 2005. E quando se compara o índice de satisfação em países com níveis de vida incomparáveis? Ao contrário do que se poderia esperar, a taxa de satisfação é praticamente a mesma nos Estados Unidos ou na Suécia e no México ou Gana, embora o rendimento por habitante nestes países divirja numa escala de um a dez.

Depois, para o sentimento de felicidade, é determinante a comparação social. O grau de felicidade é influenciado pela comparação que se faz da situação própria com a dos vizinhos e de pessoas de nível social próximo. Por exemplo, uma investigação com estudantes mostrou que uma grande maioria deles (62%) se sentiria "mais feliz" a ganhar num primeiro emprego 33 mil dólares, sabendo que os colegas receberiam 30 mil, do que a receber 35 mil, sabendo que os outros ganhariam 38 mil. "O que revela a nocividade de uma disparidade de rendimentos demasiado forte no seio de uma sociedade, devido à frustração criada." A questão agrava-se com a globalização mediática, que leva a comparações à escala planetária. Lá está Séneca: "Nunca serás feliz enquanto fores torturado por alguém mais feliz." A comparação com outros acaba por envenenar a felicidade própria.

Repare-se agora no paradoxo. Por um lado, quando se pergunta: "Que coisas lhe parecem mais importantes para ser feliz?", o que surge em primeiro lugar não é o dinheiro e o conforto material, mas sim, em todos os continentes, a família, a saúde, o trabalho, a amizade e a espiritualidade, pilares do bem-estar e da felicidade. Diga-se que a religião ocupa um lugar importante nos Estados Unidos, já que as pessoas praticantes de uma religião se dizem mais felizes, vivendo em média mais sete anos que as outras (menos álcool, menos droga, menos suicídios, depressões e divórcios).

Mas, por outro lado, agora, quando se pergunta: "Que coisas gostaria de ter para ser mais feliz hoje?", a maioria responde: "Dinheiro." Três explicações. Vivemos na mais grave crise económica do pós-guerra e ao mesmo tempo numa sociedade que exacerba o desejo de posse. Depois, um período de enorme incerteza, com o perigo de desemprego, de ameaças financeiras, e dificilmente se consegue viver sem aquelas facilidades que entretanto se tornaram necessidades: televisão, telemóvel, carro. Finalmente, o dinheiro dá possibilidades de satisfação de desejos, desde viajar a uma vida independente.

A sabedoria de viver, neste campo, ouvi-a uma vez ao grande Viktor Frankl, o da logoterapia: "A medida exacta do dinheiro é aquela que não nos obriga a pensar nele, nem por cima nem por baixo." É evidente que a falta cruel de um mínimo impede até a possibilidade de viver, mas fazer-se escravo dele, tornando-se o objectivo da vida enriquecer a todo o custo, impede o melhor: a família, os amigos, a poesia, a música, as alegrias simples, a vida interior, a transcendência.

O dinheiro não faz a felicidade, mas uma chuva de notas...

sábado, 28 de dezembro de 2013

Anselmo Borges: "Pequenos pensamentos para 2014"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

É. Quando se chega a uma certa idade e mais um ano passa, o que mais dói é cair sobre nós as ausências de tantos que partiram. Partiram para onde? Ah, esse partir sem deixar endereço, e a falta que nos fazem!

Um novo ano novo começa. Novo: 2014. Por mais diagnósticos e prognósticos, é novo, imprevisível. Não está pré-escrito em parte alguma. Também é nosso: vamos fazê-lo. Mas é na surpresa que ele vem.

Envelhecemos, mas, por mim, não tenho inveja da juventude. Pelo contrário, agora, à distância, o que quero é que os jovens vivam intensamente cada tempo. Na dignidade livre e na liberdade com dignidade. O que deveria ser norma para todos. Que vivam com atenção e intensidade, pois tudo passa muito rápido.

Essa norma também pode ter outra expressão, que vou buscar ao início do Evangelho segundo São João, o passo mais filosófico do Novo Testamento. "No princípio, era o Verbo. Mediante Ele tudo foi criado. E o Verbo fez-se carne." Encontra-se aqui todo um programa para a existência. No princípio, era o Verbo. No original grego, está: era o Logos, a Razão, a Palavra. E tudo foi criado mediante o Logos, a Razão, a Palavra. E o Logos, a Razão, a Palavra, fez-se carne, tornou-se um de nós, por amor. Chama-se Jesus Cristo. O que sustenta o mundo é o Logos, a Razão, a Palavra, que não é impessoal, mas uma pessoa.

Onde deve então assentar a vida senão no vínculo da Razão e do Amor? Tantas vezes perdemos a vida, porque agimos sem razão e até contra a razão. Afinal, de que valem o ódio e o rancor e a exploração dos outros e a inimizade e a imensa estupidez de não pensar? Mas não basta a razão, pois a razão, só, pode ser cruel e mortal. Tem de ser a razão aliada à bondade e a bondade vinculada à razão, pois a bondade, só, sem a razão, pode lutar em vão e perder-se. Uma vida humana plena vive dessa aliança entre a razão que não olvida a bondade e a bondade que se ilumina com a razão.

O objectivo final só pode ser a felicidade, uma tarefa simples, que é ao mesmo tempo terrivelmente complexa. Como todos sabem por experiência. De qualquer forma, se me fosse permitido, gostaria de deixar aqui que muitas vezes fui chamado à cabeceira - isso: à cabeceira - de quem estava de partida, a tal de que falei no início. E devo dizer que não era propriamente a carreira - é certo que alguns/algumas nem carreira tiveram - que os ocupava ou preocupava naqueles momentos derradeiros nem o dinheiro ou a fama. Apenas a verdade maior, que tinha que ver com a família, com os amigos e o pouco tempo para eles e para o mais importante e decisivo. E queriam arrumar com verdade as coisas do aqui e do Além.

Mas isto tudo que para aí fica talvez se diga melhor de modo mais simples. Socorro-me de algumas regras para o bom viver de Manuela Santos, no seu blogue "umavidacomsentido". "Aproveite cada dia para aprender algo diferente. Não viva apenas para o trabalho, pois existe outra vida para além dele. Cuide da sua família todos os dias com amor. Aproveite para cuidar do seu bem-estar interior. Ouça música. Dedique-se a um hobby. Conheça os seus limites e não vá além deles. Aprenda a perdoar. Cultive a honestidade, a verdade, a humildade. Ame-se e namore todos os dias. Seja feliz! Dedique algum tempo à meditação, é muito importante."

Algum tempo, todos os dias, para meditar. É realmente muito importante, decisivo mesmo, vital. Significativamente, meditação, moderação e medicina têm o mesmo étimo: mederi (radical med-, "pensar, medir, julgar, tratar um doente"), que significa: cuidar de, tratar, dar remédio a, medicar, curar.

Quem quiser uma vida sensata e feliz tem de ir por aqui: dedicar todos os dias algum tempo à meditação, para ir ao encontro do essencial, do mais fundo, que é também o mais perto, porque mora dentro de cada um de nós, para ouvir a Palavra primeira, que fala no silêncio e diz a sabedoria do viver na sabedoria e que leva a cuidar do mais importante e melhor e a pensar e a julgar, a dar remédio e a curar. Seja feliz! Bom Ano Novo!

sábado, 19 de janeiro de 2013

Anselmo Borges: "A regra de ouro e a empatia"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (tirado daqui):

Na Inglaterra, foi de tal modo valorizada que aí recebeu, nos inícios do século XVII, o nome por que é conhecida: "regra de ouro" (golden rule), com duas formulações, uma negativa: "não faças aos outros o que não quererias que te fizessem a ti", e outra positiva: "trata os outros como quererias ser tratado". Frédéric Lenoir faz, com razão, notar que a maior parte dos moralistas prefere a versão negativa, pois o perigo de auto-projecção sobre os outros pode levar a esquecer que cada um tem os seus gostos e a sua própria visão do que é bem. Neste quadro, Bernard Shaw escreveu com o seu sentido de humor: "Não façais aos outros o que quereríeis que vos fizessem; talvez não tenham os mesmos gostos que vós!"

É uma regra tão universal que o filósofo R.-P. Droit perguntava recentemente no Le Monde: "Existem regras morais presentes em todos os tempos e lugares, seja qual for a cultura ou a época? Isso é posto em dúvida a maior parte das vezes. No entanto, há uma excepção notável face ao relativismo generalizado." E apontava precisamente a regra de ouro.

De facto, ela encontra-se em todas as áreas culturais e religiosas do mundo. Apresentam-se exemplos, segundo Olivier du Roy, que acaba de publicar: La règle d'or. Histoire d'une maxime universelle.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Homens e dinheiro

Com todo o dinheiro do mundo não se fazem homens, degradam-se; mas com homens que se entregam a si próprios fazemos tudo o que é preciso, incluindo o dinheiro necessário desde que ele não seja um amo, mas servidor.

Abbé Pierre, 1955

domingo, 29 de julho de 2012

Breu

O grande enigma da vida humana não é o sofrimento, é a infelicidade. (...) A infelicidade torna Deus ausente durante algum tempo, mais ausente do que um morto, mais ausente do que a luz num cárcere totalmente mergulhado no breu.


Simone Weil (1909-1943)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Orientação


O amor é uma orientação e não um estado de alma. Se o ignoramos caímos no desespero ao primeiro golpe da infelicidade.


Simone Weil, "Espera de Deus" (Assírio & Alvim), pág. 123

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Como alcançar a felicidade – II


Carlos Vallés sentiu que o seu caminho para a felicidade ficou a descoberto com a objeção do ouvinte. Defendeu, por isso, que se havia quatro pilares para a felicidade (a liberdade, o trabalho, os afetos e a fé), haveria que apontar mais quatro pilares para cada um dos primeiros – e assim sucessivamente “numa interminável torre de Babel”.

O pessoal da conferência rio e, diz Vallés, “o riso final contribuiu mais para a alegria de todos os presentes do que o discurso que o precedeu”.

Conclusão: “Menos teoria e mais alegria. Praticar a alegria é a melhor maneira de pregar a alegria. Sentir a alegria é comunicá-la”.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Como alcançar a felicidade



Carlos Vallés conta num dos seus livros que um dia deu uma conferência sobre como alcançar a felicidade. Falou dos quatro pilares da felicidade: 1) Liberdade interior; 2) Satisfação afetiva; 3) Gosto pelo trabalho; 4 ) Energia da fé.

No diálogo que se seguiu, um ouvinte levantou a mão e interrogou o jesuíta: “Você disse que a felicidade consegue-se com a liberdade interior, a satisfação afetiva, o gosto pelo trabalho e a energia da fé. Poderia agora dizer-me como se conseguem a liberdade interior, a satisfação afetiva, o gosto pelo trabalho e a energia da fé?”

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Inveja

A nossa inveja dura sempre mais tempo que a felicidade daqueles que invejamos.


François de La Rochefoucauld (1613-1680)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Amizade com a criação

A amizade com a criação é o segredo da vida feliz e como tal é também o fundo adequado sobre o qual projectar os mapas dos nossos caminhos e o plano da vida. (...) A acção de graças abre-nos as portas do jardim da criação.


Carlos G. Vallés, s.j.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Anselmo Borges: Os trabalhos mais felicitantes

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).

O que é que verdadeiramente queremos? Ser felizes, não? Mas, quando começamos a tentar definir o que é a felicidade, essa definição não se encontra. É um não sei quê, que tem a ver com alegria, realização, bem-estar, vida preenchida, bem-aventurança. De qualquer forma, é o contrário de infelicidade e desgraça.

Kant foi dizendo que a felicidade é "a satisfação de todas as nossas tendências e inclinações", ao mesmo tempo que preveniu que isto não é senão "um ideal da imaginação". De facto, a felicidade coincide com o Sumo Bem na plenitude, de que nesta Terra apenas poderemos encontrar antecipações. Tendemos para ser de modo pleno, precisamente para a eudaimonia, a felicidade, como lhe chamou Aristóteles, e que Andrés Torres Queiruga caracterizou como aquele "estado no qual, sem contradições, se realizariam todas as potencialidades, se manifestariam todas as latências e se cumpririam todos os desejos e aspirações que habitam o coração humano, individual, colectivo e cósmico". Mas a felicidade perfeita não é deste mundo. Há instantes de felicidade, aqueles instantes tocados pela eternidade e que anulam o tempo.

Aliás, para a felicidade, são necessárias muitas condições: saúde, prazer, algum dinheiro, amigos, um trabalho realizante, uma família estável, um projecto de vida, a acção, a justiça, o conhecimento, o reconhecimento. Claro, o amor. A religião, na medida em que se refere ao sentido, e sentido último, pode ser decisiva. Santo Agostinho dizia a Deus: "O nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti."

De todo o modo, ao contrário do pensamento corrente, não é o ter que decide da felicidade. Neste sentido, é significativo que a famosa revista "Forbes" tenha publicado os resultados de um estudo levado a cabo pela National Organization for Research, da Universidade de Chicago, segundo o qual, entre os trabalhadores mais felizes do mundo, se encontram os padres e pastores protestantes, os bombeiros, os fisioterapeutas, os escritores...

A ordem é exactamente esta: clérigos (sacerdotes católicos e pastores protestantes), bombeiros, fisioterapeutas, escritores, educadores do ensino especial, professores, artistas, psicólogos, agentes financeiros, engenheiros de operações.

Segundo os estudiosos, o que une estas profissões tão diversas é a baixa remuneração e a ligação e entrega aos outros. A confirmar esta opinião está que são as profissões com menos contacto humano que trazem mais insatisfação. Assim, entre os dez trabalhos menos felicitantes e até mais odiados, encontram-se postos de direcção e salários elevados: directores de tecnologias da informação, directores de vendas e marketing, produtores/managers, peritos de Web, técnicos especialistas, técnicos de electrónica, secretários jurídicos, analistas de suportes técnicos, maquinistas, gerentes de marketing.

Nestes tempos de tantas dificuldades para tantos, estes resultados dão que pensar.

Já agora, tendo apresentado estas duas listas de top 10, permita-se-me mais uma lista com 10, mas, desta vez, com os dez mandamentos das relações humanas, segundo Alejandro Córdoba. Tornariam a nossa vida mais fácil: 1. Fala com as pessoas. Nada há tão agradável e estimulante como uma palavra de saudação cordial. 2. Sorri para as pessoas. 3. Chama as pessoas pelo seu nome. Para quase todas, a música mais suave é ouvir o seu próprio nome. 4. Sê amigo e prestável. Se queres ter amigos, sê amigo. 5. Sê cordial. Fala e age com toda a sinceridade: tudo o que fazes fá-lo com gosto. 6. Interessa-te sinceramente pelos outros. Recorda que sabes o que sabes, mas que não sabes o que outros sabem. 7. Sê generoso a elogiar e cauteloso a criticar. Os líderes elogiam. Sabem animar, dar confiança e elevar os outros. 8. Aprende a captar os sentimentos dos outros. Em toda a controvérsia, há três ângulos: o teu, o do outro e o do que só vê o seu com demasiada certeza. 9. Preocupa-te com a opinião dos outros. São três as atitudes de autêntico líder: ouvir, aprender e saber elogiar. 10. Ama e depois age. É transversal a todos os anteriores e é a maneira mais eficaz de dar testemunho e evangelizar.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Felicidade da credulidade?


Disse George Bernard Shaw para supostamente defender a descrença. Gostando de frases estimulantes, concordo. Na realidade, a felicidade da credulidade aplica-se mais a horóscopos, superstições, práticas ritualistas e crendices do que à fé crítica. Digo "fé crítica" na falta de uma expressão melhor. Fé esclarecida parece demasiado iluminista. Fé genuína, podem ser todas. Fé em diálogo com a razão é algo presunçoso. E a frase de Shaw?
  
O facto de um crente ser mais feliz do que um céptico não é mais pertinente do que o facto de um homem bêbado ser mais feliz do que um sóbrio. A felicidade da credulidade é uma qualidade barata e perigosa.

domingo, 31 de julho de 2011

Bem-aventurados os alucinados



Bem-aventurados os alucinados, porque deles será o real
bem -aventurados os desiludidos, porque neles o pensamento se fará humano
bem-aventurados os corpos que morrem, porque deles será a sensualidade do invisível
bem-aventurados os desesperados, porque deles será a restante esperança
bem-aventurados sejas tu, ó Terra, porque será a explosão
que levará o vivo a todo o Universo.


Maria Gabriela Llansol (1931-2008)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Felicidade e irritação

Se um homem aspira a ser feliz por uma semana, deve arranjar uma esposa; se projecta ser feliz por um mês, deve matar um porco, mas se deseja ser feliz para sempre, deveria plantar um jardim.


Ditado chinês (lido em "Ser cristão para quê?", de Timothy Radcliffe), que poderá irritar feministas, protectores dos animais e ecologistas. 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Bento Domingues: Deus ou o dinheiro?

Bento Domingues no "Público" de hoje: "A sacralização do dinheiro e do seu império é uma idolatria. Faz dele o absoluto critério de tudo. É preciso sacrificar-lhe tudo e todos os valores. O rico nunca pensa que é suficientemente rico e o pobre ou remediado o que deseja é ser rico. A publicidade incendeia a insatisfação, o desejo, para nos tornar infelizes se não tivermos tudo, e já, que ela nos propõe. (…) Não há rivalidade entre Deus e a riqueza. Há rivalidade entre a Plenitude da Vida e a distorção do desejo que se deixa possuir pelo fascínio do dinheiro e de tudo o que ele exige e permite". Clique para ler tudo.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A velha ideia da felicidade interna bruta

Há um novo partido em Portugal. É o PAN – Partido pelos Animais e pela Natureza. Todos os partidos devem ser pela natureza e pelos animais, incluindo o ser humano, por isso é um pouco insólito um partido como este. Aliás, os direitos dos animais e da natureza só se entendem como deveres do ser humano e não como direitos em sentido estrito.

O PAN quer que as despesas com medicamentos, cuidados veterinários e alimentação dos animais de estimação sejam deduzidas no IRS (por causa das pessoas que só têm como companhia animais de estimação), o que tem algo de descabido e de pouco justo, socialmente, na minha perspectiva. Quanto ao dia vegetariano por semana, até pode ser uma proposta útil. Mas é preciso um partido para isto?

Por outro lado, afirma Paulo Borges no “Público” (a entrevista pode ser lida no sítio da organização, aqui) que
já se tem falado que talvez o mais importante não seja o produto interno bruto, mas a felicidade interna bruta. Foi o primeiro-ministro do Nepal que surgiu com esta ideia e nós achamos muito interessante.
De facto, tem-se falado esporadicamente, nos últimos tempos. Há meses, até o Sarkosy falou disso (ver notícia aqui). Mas a ideia já é velhinha. António Alçada Baptista explicou-a nas páginas de “A Capital de 25 de Julho de 1972”. Na altura, o holandês Sicco Mansholt (que viria a ser presidente da Comissão Europeia) havia proposto a Franco Maria Malfatti (presidente da Comissão Europeia, de 2 de Julho de 1970 a 1 de Março de 1972) que à noção de PNB (produto nacional bruto) fosse preferida a de BNB (“bonheur” – felicidade nacional bruta). Uma “felicidade bruta” parece uma contradição nos termos. De qualquer forma, é uma ideia com quatro décadas de idade.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Bento Domingues: Bem-aventurada desconstrução

Este domingo, diz Bento Domingues, sendo o das bem-aventuranças, é dedicado a retomar a desconstrução das falsas evidências acerca dos caminhos da felicidade, à descoberta de uma vida paradoxalmente feliz, sem publicidade enganosa.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Público 2: A religião traz a felicidade ou ela já está no cérebro?

“Há uma felicidade do instante, outra associada à participação na vida cívica, outra identificada com Deus ou a religião. A felicidade confronta-se com o mal e o sofrimento. Será que podemos saber onde ela mora?” Artigo de António Marujo no P2 de hoje. Aqui, com uma belíssima imagem de Marc Chagall.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Anselmo Borges: Religião, felicidade e infelicidade

Texto de Anselmo Borges no DN de 18 de Dezembro de 2010 (aqui).

Realizou-se nos dias 9 e 10 de Outubro passado, no Seminário da Boa Nova, Valadares, um Colóquio internacional, subordinado ao tema "Religião e (In)felicidade", com 220 participantes, e conferencistas vindos das Neurociências, da Sociologia, da Filosofia, da Teologia.


Aquele "in" de (In)felicidade indicava, à partida, o reconhecimento de que as religiões foram e são simultaneamente causa de felicidade e infelicidade.


Pela sua própria definição, a religião está referida à salvação: felicidade, sentido último, o sentido de todos os sentidos...


Grandes filósofos, como Kant, Hegel, Bloch, Habermas, reconheceram que foi pelo cristianismo que soubemos da dignidade da pessoa humana. Em tempos terríveis de miséria material e humana, foi a religião que ajudou homens e mulheres a erguerem-se um pouco acima da animalidade e do quotidiano embrutecedor.


Quando não havia médicos nem analgésicos, foi a oração e a cruz de Cristo que deram sentido e algum alívio a todo aquele mundo de horror. E as pessoas sabiam que tinham uma missão na vida, e Deus acolhia-as na morte. Não é calculável o que as religiões fizeram e fazem pela cultura, pelo combate pela justiça e dignidade, no exercício da compaixão e do amor. Quem não reconhece o que a Igreja faz na presente crise pelos mais pobres?


Mas a corrupção do óptimo é péssima, e lá está a perversão da religião/religiões e as suas patologias. Como não pensar no terrorismo, na guerra e na tentativa de legitimar a violência com a religião?


Há três impulsos com que o Homem tem de aprender a viver: o ter, prazer, o poder. Saber viver com eles - nisso consiste a arte de viver.


O mais difícil é o poder, porque ele é o maior afrodisíaco. Por isso, de modo geral, Deus é pensado como omnipotência. Significativamente, na revelação cristã, Deus não se apresenta imediatamente como omnipotente, mas como Força infinita de criação e de amor. O Evangelho diz: "Sabeis que, nas nações, os poderosos mandam e dominam; entre vós, não será assim: quem quiser ser o primeiro deve ser o último." "Eu não vim para ser servido, mas para servir", disse Jesus.


Assim, quando a Igreja se identificou como instituição de poder, começou o afastamento do Evangelho. Até Constantino e Teodósio, os pagãos diziam, referindo-se aos cristãos: "Vede como eles se amam." Depois, surgiu o poder sacro, à maneira do poder imperial, e tudo se modificou. Não é possível a uma pessoa que conheça minimamente o Evangelho e a História deixar de fazer perguntas como esta: como é que o Evangelho de- sembocou num Papa chefe de Estado, com uma Cúria imperial, e bispos a viver em palácios?


Quando se toma o poder sacro em nome de Deus, os perigos são imensos e terríveis. Até surge a tentação de "administrar" Deus. Então, quem não está com os "administradores" de Deus é herético e condenado. Lá está o perigo do fanatismo: somos a única religião verdadeira e todas as outras devem ser combatidas. Lá está o impedimento da liberdade de pensar e a censura. O pior é a imagem de um deus mesquinho, cruel, violento, causa de ateísmo e de infelicidade.


Esses "administradores" da religião e do próprio Deus arrogam-se também o direito de administrar a moral e são eles então quem determina o que é bem e mal, o que se deve fazer e não fazer. E lá está o controlo do prazer pelo poder, porque o prazer subverte o poder. Lá está então uma sexualidade envenenada, a proibição dos contraceptivos, o celibato eclesiástico obrigatório e a sua grandeza e miséria. Lá está a pedofilia dos clérigos, ocultada para tentar preservar a instituição-poder.


E ainda: quem detém o poder deverá, no quadro desta lógica, ter também mais teres e privilégios.


A questão da religião é mesmo a religião (o conjunto de atitudes e organizações na relação com Deus): o que a religião fez e faz de Deus e como usou e usa o seu nome na sua relação com os humanos e destes com Deus. Para a felicidade, é preciso voltar ao Evangelho.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A mulher de Einstein e a relatividade da felicidade

Albert e Elsa

Perguntaram um dia a Elsa Einstein se compreendia a teoria da relatividade do seu famoso marido. Respondeu: «Oh, não, apesar de ele ma ter explicado muitas vezes, ela não é necessária para a minha felicidade».

(Lido em Chet Raymo, “Cépticos e Crentes”, Ed. Âncora, pág. 125)

Mas salvaguarde-se que a ciência é importante, se não para a felicidade, pelo menos para o bem-estar. Mas também para a felicidade. Ajuda a compreender o universo.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...