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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Dinheiro 5 - O banqueiro católico



Mesmo ao fundo. Fernando Ulrich: "O que tinha de aprender, aprendi com a minha família, na escola e na Igreja Católica. Não tenho de pedir desculpa a ninguém."

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Isabel Jonet: "Recuperar Portugal"


Texto de Isabel Jonet no "Diário Económico" de hoje (que é gratuito, em papel, nas bancas). Também pode ser lido aqui, como muitas outras opiniões.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Bento Domingues: Será Jesus Cristo uma causa perdida? (2)


Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje.

Escreve o dominicano: "Nenhum católico está obrigado a concordar nem com o diagnóstico, nem com a terapêutica que D. Manuel Martins propõe para sairmos do buraco que, dia a dia, se apresenta mais fundo". 

Ainda bem. É o meu caso. Ainda que concorde que o diagnóstico inspira cuidados (mas se formos ler as previsões do ano passado, não estamos tão mal como se dizia), não me revejo na cura preconizada pelo portuense ex-bispo de Setúbal (o comité de sábios para avaliar o candidato a ministro é mirabolante; ouvir aqui), que em agosto do ano passado temia que os portugueses deixassem de ser um povo de "brandos costumes" devido à crise e, salve-se a coerência, também criticava o governo de Sócrates.

Frei Bento: "Não me parece nada que Jesus seja uma causa perdia. Penso o contrário".

Ainda bem. Subscrevo totalmente.


"Será Jesus Cristo uma causa perdida? (1)"

sábado, 29 de dezembro de 2012

D. Manuel Clemente: "O papel da Europa na crise..."


Texto de D. Manuel Clemente no DN de hoje, edição comemorativa dos 148 anos do matutino lisboeta.

O meu resumo. A Europa enquanto identidade humana e cultural, que é mais a consequência do cristianismo pós queda do império do que propriamente do Império Romano (que não incluía grande parte da Europa atual e incluía muitas outras áreas que não são Europa), emergiu de dois conflitos mundiais mas está em em crise, pondo em causa o sonho dos pais fundadores, provenientes, justamente, dos dois lados conflituantes do Reno. Para ultrapassar a crise atual, há dois factores positivos e relativamente novos: a interdependência dos mercados e a geração "europeia" de migrantes e estudantes.

A edição dos 148 anos do DN foi toda escrita com a mão esquerda?



O DN faz hoje 148 anos. Parabéns. É um jornal que leio quase todos os dias em papel e cuja página na Internet consulto várias vezes ao dia. E nunca esquecerei a alegria de ter visitado a redação deste jornal tendo por cicerone Acácio Barradas, grande jornalista que morreu no dia 28 de outubro de 2008. Nem as tardes maravilhosas que passei nos arquivos deste jornal a ler as edições à volta de morte de João XXIII (que andava eu lá a investigar? – disso não me lembro).

Mas hoje, apesar de a edição ser maior, em número de páginas e formato (“berliner”), sinto-me defraudado. Esperava o suplemento “Q” e nada. Esperava o texto de Anselmo Borges e nada.

A edição comemorativa é dirigida por Manuel Carvalho da Silva e, como opinadores, surgem, entre outros, Mário Soares, Boaventura de Sousa Santos e Carlos Carvalhas. Opiniões que não vou ler, porque já sei não saem da cartilha. Também lá está a opinião de D. Manuel Clemente. E essa vou ler e copiar para este blogue porque considero que o bispo do Porto lança pontes, enquanto os três opinadores atrás referidos dinamitam-nas. É a minha visão das coisas, com certeza.

O jornal tem algumas peças interessantes, como uma reportagem sobre o Estado social na China (hei de ler), e outras de interesse nulo (hei de evitar), como um debate com Arménio Carlos (CGTP), João Proença (UGT) e Manuel Carvalho da Silva (ex-CGTP). Deve ser algo como um debate entre Mr. Dupond, Mr. Dupont e, sei lá, Mr. Duponth. Só que uns estão mais à esquerda do que outros.

E como se faltasse esquerda no jornal, ainda entrevistam Lula e publicam opiniões de Tarso Genro (PT - Brasil) e José Antonio Griñan (PSOE - Espanha) entre outros. Se escrevessem “Pravda” em gótico no topo da primeira página, ficava a condizer.

Para contrabalançar, talvez em 2013 convidem João César das Neves para diretor por um dia.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Liberdade

A liberdade deve ser de um valor incomensurável para que o Eterno tenha assumido o risco de no-la conceder! Sem ela seríamos autómatos. Tomai cuidado! Com ela temos a capacidade de amar. Ou de recusarmos a amar. Ele arrisca nisso a sua glória...

Abbé Pierre, 1965

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Alain de Botton: "As sociedades vão ter de aprender a ser mais bondosas"


Alain de Botton esteve em Portugal e disse que "a religião tem uma envolvência social, mas também tem um lado moral, também nos ajuda a lidar com a dor. Somos péssimos a lidar com a dor fora da religião. Pensamos sempre que o médico tem de ter uma resposta, que o economista tem de apresentar uma solução".

O autor de "Religião para ateus", que veio para falar da reforma (questão laboral), afirmou que "as empresas ainda não conseguiram resolver o problema das pessoas mais velhas. Ainda veem: jovens e baratos, velhos e mais caros. Mas vão ter de resolver, até porque o problema não é apenas económico, mas de perda de status. As sociedades vão ter de aprender a ser mais bondosas. Esta também é uma crise de generosidade".

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Da utilidade da crise para a Igreja

No "Correio da Manhã" de terça-feira, 13. A crise é uma "oportunidade de evangelização", mas daí até a crise ser "útil" para a Igreja... Só falta dizer que a Igreja deseja a crise. Até se pode entender isso do título.

Quero ler - 1

Diálogo entre um monge que é gestor e um gestor que é missionário. Mas talvez salte o habitualmente dispensável, porque irrelevante, prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa. Parece que as editoras querem é ter lá o nome do comentador, diga as banalidades que disser. Digo-o sem ter lido este.



sábado, 20 de outubro de 2012

O monoteísmo do capital financeiro e a felicidade

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.
Pepe Mujica

De finanças o meu conhecimento é praticamente nulo. De ciência económica, quase. Mas não fico muito aflito, pois o que noto é que entre os economistas a confusão é imensa, tornando-se cada vez mais claro que, afinal, a economia é tudo menos uma ciência exacta.

Mas vamos ao capital, que é mesmo capital, como diz o étimo: caput, capitis (cabeça), necessário e até essencial para a existência humana. Seguindo em parte uma taxonomia de P. Bourdieu, X. Pikaza apresenta os diferentes sentidos de capital.

Nos capitais simbólicos, encontramos o capital sócio-cultural - o conjunto das riquezas simbólicas dos grupos e da humanidade, começando na língua e continuando nas tradições, nas esperanças de futuro, nas artes e tecnologias, nos saberes tradicionais e nos novos saberes científicos e técnicos - e o capital ético, incluindo os diferentes domínios da vida, no plano social, laboral, jurídico, abrangendo, portanto, o capital político, jurídico, religioso...

Mas, quando se fala em capital, pensa-se fundamentalmente no capital monetário e financeiro. Evidentemente, também este é um capital simbólico, mas hoje é o dominante, acabando por subordinar os outros. O capital de consumo situa-se no mundo da vida, está ao serviço da vida e da produção de meios para o consumo, bem-estar e desenvolvimento da humanidade. Há um capital monetário ligado à produção e distribuição do poder, isto é, das relações sociais, no quadro dos valores humanos e da democracia, da distribuição dos meios que permitem a realização dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, num plano ético.

O problema maior é que nas últimas décadas se foi dando o triunfo do capital financeiro, sobretudo na sua vertente neoliberal, desligado da produção de bens materiais e da distribuição de bens sociais, para se transformar em fim em si mesmo, sem atender à vida das pessoas e acima dos próprios Estados, que devem garantir os direitos humanos e a igualdade dos cidadãos. Fim em si mesmo, domina os próprios mercados, que "já são mercados do capital".

Encontramo-nos diante do "perigo de um monoteísmo do capital financeiro, que aparece assim como o único Deus do nosso mundo. Um capital por cima da produção de bens e da administração da justiça dos Estados, um capital sem normas éticas, sem outra finalidade que não a do desenvolvimento do próprio capital nas mãos de poderes financeiros frequentemente sem nome."

Este capital toma conta de todos os outros, a começar pelo capital ético, e está na base de uma guerra em curso, que custa milhões de vítimas.

Esta situação exige reflexão, pois cada vez se torna mais clara a urgência de mudar globalmente de paradigma. Entretanto, é salutar saber de exemplos de solidariedade e ética, que animam a esperança e são sinal de que a humanidade verdadeira mora para outras bandas.

A gente nem quer acreditar, quando lê, em Isabel Gómez Acebo e no "Courier International", o exemplo impressionante do presidente do Uruguai, José Mujica. Após a eleição, continua a viver na sua pequena casa, numa zona da classe média, nos arredores de Montevideu. Tem um salário de 12500 dólares mensais, mas dá 90%, vivendo com 1250 (que lhe basta, pois muitos concidadãos vivem com menos). A mulher, a senadora Lucía Topolansky, também dá a maior parte do seu salário. Como transporte oficial utiliza um Chevrolet Corsa. Durante o Inverno, a residência oficial servirá de abrigo aos sem tecto. Mandou vender a residência de Verão do presidente, e o resultado da venda destina-se, entre outros usos, à construção de uma escola agrária para jovens sem posses.

Na reunião do Rio+20, pronunciou um discurso especial. Aconselhou a uma mudança de vida, pois foi para sermos felizes que viemos ao mundo. Ora, na sociedade actual, vivemos completamente obcecados com o consumismo: trabalhamos para consumir sempre mais... tendo de pedir empréstimos que temos de devolver, e esquecemo-nos da felicidade. É este o destino da vida humana? Terminou, estimulando à luta pela conservação do meio ambiente, porque "é o primeiro elemento que contribui para a felicidade".

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Dois bispos do Porto falam dos sacrifícios económicos dos portugueses

A entrevista a D. Januário Torgal Ferreira vem no DN de hoje. A de D. Manuel Clemente veio no "Correio da Manhã" de ontem. Ambos ligados ao Porto. D. Januário é natural do Porto. D. Clemente é bispo do Porto. Ambas as entrevistas em jornais da Lisboa. Mas tons, modos, conteúdos muito diferentes. Nesta caso concreto, porque o assunto de fundo é o mesmo, prefiro a clareza, os modos, a humildade, também, de D. Manuel Clemente. Basta ler a primeira resposta de cada entrevista.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

Crise de comunicação ou de identidade?



A Igreja não sabe comunicar com os fiéis e, vai daí, cria uma comissão para estudar a questão e ensinar a comunicar.

Na Ecclesia, acrescenta-se algo à frase de cima, que resume a notícia do CM de hoje:
O sacerdote jesuíta [padre Morujão, porta-voz dos bispos] disse, por outro lado, que a “dificuldade” sentida pela Igreja Católica em transmitir a sua mensagem é a mesma de “todos os pedagogos” de hoje, perante “milhões de mensagens” e "profetas alternativos". 
“Perante essas dificuldades [a Igreja], não cruza os braços; esperemos melhores tempos”, acrescentou (aqui).
Fico aliviado por saber que as dificuldades eclesiais não estão sós. Mas esta desculpa é uma ilusão. Isto de a Igreja não saber comunicar – isto é, não saber cumprir a sua missão – é verdadeiramente paradoxal. A crise de comunicação é uma crise de identidade. Mas centro-me na questão da comissão. Criar uma comissão para resolver um problema faz-me sempre lembrar aqueles versículos que não entraram no Livro do Êxodo mas estão implícitos. Passa-se no deserto, entre dois israelitas, quase à entrada na Terra Prometida:
- Sabes por que é que Deus nomeou Moisés para nos tirar da escravidão do Egito? [Não altura ainda diziam com “p”, mas eu sigo o acordo, apesar de engolir em seco, sentindo o pó do deserto, sempre que escrevo Egito.]
- Porque se tivesse nomeado uma comissão, ainda lá estávamos.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Anselmo Borges: O tempo, a crise e a transcendência

Texto de Anselmo Borges, no DN de hoje.


Vaclav Havel

Enigma maior é o do tempo. Não o tempo meteorológico, mas aquele tempo que nos faz envelhecer e desaparecer, morrer os nossos pais e amigos, aqueles a quem mais queremos, que tudo devora e anula. Naquele seu abismo devorador, tudo se despenha, e torna-se como se não tivesse sido.

Já Santo Agostinho se abismava perante o enigma: o que é o tempo? Eu sei. Mas, se alguém me perguntar e eu quiser responder, já não sei. Porque o passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente nunca se capta. Ah, se soubéssemos o que é o tempo, teríamos talvez descoberto o mistério de ser e do ser.

Mas é decisivo perceber que já os gregos apresentaram dois grupos semânticos fundamentais referentes ao conceito do tempo: chrónos, o tempo quantitativo e linear, para significar o fluir inelutável do tempo, sem qualquer possibilidade de intervenção humana, e kairós, incidindo sobre o tempo qualitativo, enquanto crise e enquanto oportunidade, para referir aqueles momentos no tempo em que o homem é convocado a uma intervenção decisiva. Chrónos devora os seus próprios filhos, segundo o mito; kairós é a oportunidade oferecida aos homens para a viragem e a conversão, e tem também a ver com aquela experiência de pontos no tempo tangidos pela eternidade - pense-se na experiência da beleza, do amor, da música, da criação -, quando o tempo na sua voragem fica suspenso e mesmo anulado. A experiência da transcendência!

No termo de mais um ano, de forma mais intensa, é o enigma do tempo que outra vez nos visita, na sua dupla face: o tempo cronológico (devorador) e o tempo kairológico (criador).
Quantos neste ano deixaram de cá estar! Um fim de ano qualquer também já cá não estaremos.

Entre tantos que partiram - partiram para onde? (no domínio da ultimidade, a linguagem atraiçoa-nos sempre)-, fica aí, gigante na luta pela liberdade, no humanismo, na fundura e na altura do pensar político, Vaclav Havel.

É iniludível o seu pensar precisamente sobre o tempo, a crise e a transcendência, como, entre nós, chamou a atenção Jorge Almeida Fernandes.

O que provoca a crise maior do nosso tempo senão a vivência do tempo apenas como imediatidade de sucesso, produção e consumo, esquecendo a dimensão moral, metafísica e trágica da existência? Lá estava Havel a avisar em 2007: "O Ocidente democrático perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar como seus. O pragmatismo dos políticos que querem ganhar futuras eleições, reconhecendo como autoridade suprema a vontade e os humores de uma caprichosa sociedade de consumo, impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e trágica da sua própria linha de acção. Uma nova divindade tende a suplantar o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e de um consumo incessantemente crescentes".

Tenho aqui repetido que, numa sociedade sem transcendência nem eternidade, o tempo não faz texto, pois tudo se dissolve no aqui e agora, na pura imediatidade. E isso, claro, tem consequências até na economia. Vaclav Havel constatou: "Estamos a viver na primeira civilização global", acrescentando: "Mas também vivemos na primeira civilização ateia, isto é, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade." Consequências: uma civilização "obstinada em perseguir objectivos a curto prazo", "o que é importante é que um investimento seja rentável em 10 ou 15 anos" e não os efeitos dentro de 100 anos. Depois, "o orgulho", a hybris dos gregos. Por isso, suspeitava que a "nossa civilização caminha para a catástrofe", a não ser que cure "a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho".

Achava que "o desenvolvimento desenfreado de uma civilização deliberadamente ateia deve alarmar-nos". Considerava-se apenas meio crente, mas com "a certeza de que tudo no mundo não é apenas efeito do acaso" e convencido de que "há um ser, uma força velada por um manto de mistério. E é o mistério que me fascina." Afinal, "a transcendência é a única alternativa à extinção".




Ler reflexão com as palavras de Havel e alguns pontos de semelhança com este texto aqui.

domingo, 18 de dezembro de 2011

D. Manuel Clemente tem esperança em Portugal e nos portugueses

Entrevista do "Público" de hoje a D. Manuel Clemente. Portugal e a Europa, principalmente. Só a última meia página aborda assuntos mais intra-eclesia. (Para ler, o melhor é guardar a imagem no próprio computador.)




sábado, 26 de novembro de 2011

Anselmo Borges: Crises e oportunidades (2)


Thomas Kuhn

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (retirado daqui):

Como escrevi aqui, no sábado passado, a crise faz parte da realidade. A evolução, desde o Big Bang, há 13 700 milhões de anos, foi deparando com crises e até becos sem saída, mas encontrou oportunidades, foi oportunista: a prova é que estamos cá.

Há transformações que implicam a mudança de paradigma - paradigma é, segundo Th. Kuhn, "an entire constellation of beliefs, values, techniques, and so on, shared by the members of a given community" (uma constelação total de crenças, valores, técnicas, etc., partilhados pelos membros de uma determinada comunidade). Ora, os paradigmas entram em crise. Por exemplo, o paradigma moderno entrou em crise e já se fala em macroparadigma pós-moderno: já não eurocêntrico, pois o mundo tornou-se multipolar; já não androcêntrico, pois tem de haver parceria entre homens e mulheres; a economia de mercado tem de ter sentido social e ecológico; impõe-se o diálogo inter-cultural e inter-religioso...

A crise de que se fala é a crise económico-financeira. Mas, mais uma vez, indo até ao étimo - crise e crítica, do grego "krinein", discernir, explicar, julgar, resolver um litígio, explicar, decidir, e oportunidade, de "opportunitas", ocasião favorável, "opportune", a tempo, "opportunus", que impele para o porto -, não se vê que as crises, vinculadas à crítica, podem ser também oportunidades?

Não provém a presente crise da lógica do capitalismo neoliberal desregulado e da ganância devoradora? Então, no quadro de problemas globais, não precisamos de uma "global Governance", instâncias políticas globais? De uma refundação das Nações Unidas? De um imposto sobre as transacções financeiras? Da regulação dos mercados, essas entidades anónimas destruidoras da vida de milhões e milhões de pessoas? E do fim dos paraísos fiscais? E de ética, melhor, de homens e mulheres éticos na política e na economia?

Aí está a oportunidade para pensar. Não é tempo de reflectir, decidir, procurar o verdadeiro porto? Afinal, valemos sobretudo pelo ter ou pelo ser? Não é o tempo favorável para se exaltar com a existência? E retomar as alegrias simples da beleza de uma simples folha de erva que abana ao vento e de um pôr do Sol a dançar no mar?

De qualquer modo, é preciso perceber que o trabalho é um bem escasso, a distribuir equitativamente, e que, num mundo limitado, não é possível um progresso ilimitado. Precisamos de outro modo de viver, no qual a volúpia do consumismo seja substituída pela intensidade da vida, moderada e no seu melhor.

Está aí a crise da Igreja. Mas não implica ela a oportunidade para a conversão? Não tem a Igreja de recentrar-se na mensagem de Jesus: o amor a Deus e o amor solidário e eficaz ao próximo?

Quem pode pôr em dúvida a dramática crise de Deus? Parece confirmar-se o anúncio do louco, que Nietzsche põe a anunciar a morte de Deus. Qual Deus? Não tinha de morrer o deus que envenena e impede a vida e a alegria dos homens e das mulheres, humilhando-os e tolhendo-lhes a existência? Mas o Deus de Jesus é o Deus do amor, que abre horizontes de futuro e de humanização: o seu interesse é a vida expandida e realizada dos homens e das mulheres. Afinal, como disse Heidegger, na sua última entrevista, "só um Deus nos pode salvar". Não anda a humanidade perdida no sem-sentido? Então, não está hoje Deus presente pela sua ausência, porque ele é o sentido de todos os sentidos? Não precisamos de encontrar o sentido último?

A morte é a crise final. Ora, não são as nossas sociedades tecnocientíficas, urbanas, as primeiras, na história da humanidade, a fazer da morte tabu, o último tabu? A crise toda concentra-se e manifesta-se na crise da morte. A nossa sociedade, afundada no ter, no poder, no cálculo, na eficácia, perante a morte, não sabe o que fazer. Uma sociedade poderosíssima nos meios, mas sem verdade e finalidades humanas, faz dela tabu: disso não se fala. Mas, se o pensamento sadio da morte reentrasse, faríamos a tempo o que temos a fazer e saberíamos finalmente distinguir entre o que realmente vale e as ilusões do que não vale e que é causa última da nossa crise.

sábado, 19 de novembro de 2011

Anselmo Borges: Crises e oportunidades (1)

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Haverá palavra com que sejamos mais bombardeados do que a palavra crise? Ela é a nossa perplexidade e angústia. O que vem aí?

Ela é repetida concretamente desde 2008, por causa da crise financeira, que inevitavelmente acabou por estender-se à economia, e, agora, os terramotos sucedem-se sob o domínio voraz dos mercados, e ninguém sabe como tudo terminará. É preciso estar preparado para o pior.
Mas a crise é maior, pois é intrínseca à realidade. A realidade está permanentemente em crise, pois pertence à sua constituição.


Pense-se na evolução. Há 13 700 milhões de anos foi o Big Bang, e a realidade, que é dinamismo, foi-se configurando, no quadro do acaso e da necessidade e passando, portanto, por crises constantes, por vezes até com becos sem saída, em estruturas cada vez mais complexas - a mais complexa que conhecemos é o cérebro humano. O que é facto é que avançou "oportunisticamente" e chegou até nós. Estamos cá. E há perguntas críticas: que vamos fazer com o genoma humano e as novas tecnologias, falando-se já em transhumanismo? E com a cibernética e a Net (rede ou labirinto?)? E com a ameaça ecológica? E com a globalização?


O que é a crise? Pode ser iluminante ir ao étimo. Crise vem do verbo grego "krinein", que está também na origem de crítica, e significa distinguir, discernir, resolver um litígio, interpretar, explicar uma questão, julgar, apreciar, decidir. Enquanto termo técnico da medicina refere-se ao ponto alto e de viragem de uma doença. No alemão, há mesmo o verbo "kriseln", que só aparece impessoalmente - "es kriselt": está iminente e ameaçadora uma crise, difícil e decisiva.


Mas o próprio étimo aponta já para uma possível oportunidade: de "opportunus - ob-portus": que impele para o porto. "Opportunitas" (oportunidade) significa precisamente "ocasião favorável", e o advérbio "opportune", a tempo, oportunamente, vantajosamente.
Estamos, pois, permanentemente em crise, porque a nossa identidade é narrativa: faz-se, desfaz-se, refaz-se... E isto acontece na evolução, com os indivíduos, com os grupos, com os povos.


A Europa, por exemplo, está numa crise gigantesca. Afinal, o que é que ela quer? O que queremos ser? Esta crise pode ser a oportunidade para pensar nisso e decidir em consequência. O que é que vai ser a Europa num mundo globalizado, se não for União europeia solidária? Torna-se insignificante. Uma Europa fragmentada fará erguer de novo no horizonte os fantasmas da guerra. Ora, não foi precisamente o desejo de pôr termo aos contínuos conflitos bélicos que levou os grandes estadistas fundadores, como K. Adenauer, J. Monet, R. Schuman, De Gasperi, ao projecto do que poderia e deveria ser a União Europeia? E não faz falta ao mundo a Europa social, dos direitos humanos?


A primeira crise é a do nascimento. O bebé encontrava-se encantado no ventre materno, numa temperatura ideal e na paz do líquido amniótico. No entanto, tem de partir, e fala-se do primeiro trauma, precisamente o do nascimento. Mas não é essa a condição de possibilidade de conhecer os pais e admirar o mundo e crescer e construir uma história: a sua, com os outros?


Típica é a crise da adolescência - a idade crítica. Dá-se uma reconfiguração do cérebro do adolescente, que, perante a turbulência das emoções, ainda não está maduro para ser seu dono. Já não é criança, ainda não é adulto, mas precisamente essa crise é a oportunidade para crescer e tornar-se adulto.


Quem nega as crises no casamento? Mas delas não poderá nascer um amor maior, mais maduro?


Uma doença pode ser dramática mas, ao mesmo tempo, a oportunidade para reorientar a vida. Talvez se tenha andado demasiado distraído e é a hora de pensar no que verdadeiramente vale e no que vale menos ou pura e simplesmente não vale.


No meio de todas as crises, reflectindo, o que está mesmo em questão é isso: pensar. O filósofo Ernst Bloch não se cansava de repetir: "Not lehrt denken": a necessidade ensina e obriga a pensar. Por exemplo: é no consumismo frenético que somos mais felizes?

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...