Quando nos aproximamos de Salamanca, a cidade banhada pelo Tormes, o seu casco histórico, Património Mundial desde 1988, brilha como uma seara de trigo debaixo do sol. Há muito para ver. Mas o coração espiritual da cidade palpita entre o Convento Dominicano de Santo Estêvão (que está unido à igreja plateresca consagrada ao mesmo santo) e a universidade. Foi aqui que no dealbar do século XVI nasceu a famosa Escola de Salamanca, que foi a semente das modernas teorias do direito internacional (na altura "direito das gentes"), em profunda ligação com uma doutrina igualitária e universalista dos direitos humanos. Perto do convento ergue-se a estátua do fundador da escola, Francisco de Vitoria (1483-1546), o académico brilhante que nas suas Lições de 1539, dedicadas aos "Índios" e ao "Direito de Guerra", destruiu a boa consciência dos conquistadores, mostrando que o império que Espanha construía no Novo Mundo era baseado em títulos ilegítimos. Fundado na violência e não no direito natural. Os navegadores portugueses e espanhóis haviam oferecido à humanidade a verdadeira dimensão geográfica do planeta, colocando a América no mapa, e cartografando a África meridional profunda e os mares austrais. Em Salamanca nasceu a Escola Ibérica da Paz. Através de mestres espanhóis e portugueses, na sua maioria intelectuais dominicanos, jesuítas e franciscanos, foi levada a cabo a tarefa de integrar um mundo desmesurado e alteroso, debaixo de uma ordem moral, jurídica e política que permitisse a paz, em vez da guerra, a justiça em vez da opressão. Ao contrário do racismo para com os povos não europeus, que tutelaria a Conferência de Berlim (1885), em Évora, Coimbra ou Valladolid propunha-se o respeito e a igualdade entre todos os seres humanos. Em Salamanca começou a esperança de um dia podermos ser cidadãos do mundo. De pleno direito.
Mostrar mensagens com a etiqueta Direitos Humanos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Direitos Humanos. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
E a Salamanca dos capitalistas?
Viriato Soromenho-Marques escreveu há dias, no DN, sobre Escola de Salamanca, "Salamanca: a escola do universo". Vale a pena ler. Pena não falar do outro grande contributo da Escola de Salamanca, com derivações em Coimbra e Évora: a teorização sobre o mercado livre, sobre o valor das coisas, que não valem consoante o trabalho que dão (a grande ilusão do comunismo, de uma maneira geral), mas consoante o valor que quem as quer lhes dá. Sim, os salmanticenses são os primeiros teóricos (ou talvez segundos, se tivermos em conta certos medievais que eles, no fundo, seguiam) do capitalismo. O texto de Soromenho-Marques:
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
A austeridade está a violar os direitos humanos?
Para o ex-ministro Alfredo Bruto da Costa, "uma pessoa
com fome não é livre". Para o empresário Salvador de Mello, "a haver
violação dos direitos humanos é da responsabilidade de quem acumulou tamanha
dívida". Para o missionário Abel Bandeira, a Igreja precisa "de estar
solidária" e vigilante.
Vale a pena ler o que pensam um missionário, um empresário e o presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz sobre a austeridade e os direitos humanos, num trabalho de Filipe d'Avillez, na RR. Aqui. A minha visão assemelha-se mais à do empresário. Alfredo Bruto da Costa não olha a montante. O missionário, como muitos, pensa (digo eu, também pelos breves meses que passei na Guiné-Bissau): "Quem dera que o terceiro mundo fosse explorado pelo capitalismo como Portugal dizem que é".
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
sábado, 11 de maio de 2013
Anselmo Borges: "Animais humanos e os outros"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.
Na reflexão sobre o ser humano, divulga-se hoje a tese do
animalismo, isto é, entre o homem e os outros animais não haveria uma diferença
qualitativa, mas apenas de grau. Por mim, continuo a pensar que a diferença é
qualitativa e essencial. Com isto, não estou a retirar-lhes valor intrínseco e
até penso que lhes é devido tratamento adequado, recusando sofrimentos cruéis e
inúteis.
Como escreveu Edgar Morin, "embora muito próximo dos
chimpanzés e gorilas, e tendo 98% de genes idênticos, o ser humano traz uma
novidade à animalidade". Há, apesar de tudo, entre etólogos e
antropobiólogos, convergência bastante no reconhecimento de que entre o animal
e o homem se deu um salto qualitativo essencial. Esse salto manifesta-se, em
termos gerais, na autoconsciência, na autoposse de si mesmo como eu único e
centro de identidade, na linguagem simbólica e reflexiva, na capacidade de
abstrair e formar conceitos, na transcendência em relação ao espaço e ao tempo,
na criação e assunção de valores éticos e estéticos, no pré-saber da morte
própria vinculado às crenças religiosas, na pergunta pelo ser e pelo seu ser.
O médico e filósofo Pedro Laín Entralgo chamou a atenção
para o facto de haver um conjunto de características que mostram essa diferença
e chamou-lhes "notas", precisamente porque são observáveis.
O homem não se encontra na simples continuidade da vida no
sentido biológico. Como escreveu Max Scheler, o homem é "o asceta da
vida", pois é capaz de dizer não aos impulsos instintivos. Perante a
comida apropriada, o animal não resiste a comer, mas o homem é capaz de dizer
não, por motivos de ascese ou pura e simplesmente para mostrar a si mesmo e aos
outros que tem a capacidade de resistir e dizer não. F. J. Ayala vê aqui
"a base biológica da conduta moral da espécie humana, nota essencialmente
específica dela". Porque é capaz de renunciar, abster-se, deliberar,
optar, o homem é um animal livre e moral.
Evidentemente, os outros animais também comunicam, mas a
linguagem duplamente articulada, que nos permite o pensamento simbólico e
abstracto e nos dá acesso à reflexão, ao mundo da cultura, à abertura ao ser,
ao passado e ao futuro, ao que há e ao que não há, à transcendência, à
distinção entre o bem e o mal, entre o justo e o injusto, como já Aristóteles
viu, manifesta a singularidade única do ser humano, a ponto de, por causa dela,
o Prémio Nobel J. Eccles concluir por uma descontinuidade ontológica entre o
homem e os outros animais.
Mesmo biólogos (por exemplo, Jakob von Uexküll) notaram que
só o homem tem mundo (Welt), já que os animais têm meio (Umwelt, mundo
circundante). Por isso, estes vivem na imediatidade da estimulação enquanto o
homem vive no real, é um "animal de realidades", como repetia Zubiri.
O repouso de "O Pensador", de Rodin, não é simples repouso. O
que nele se mostra é a capacidade de ensimesmamento, descida à sua intimidade e
submersão na sua subjectividade pessoal. Paradoxalmente, porque o ser humano é
abertura à totalidade do ser, vem a si como único, na experiência de um eu
pessoal. Escreveu Lacan: "Possuir o Eu na sua representação: este poder
eleva o homem infinitamente acima de todos os outros seres vivos sobre a terra.
Por isso, é uma pessoa."
Na abertura ilimitada ao ser, tem o seu fundamento a
pergunta sem limites, que caracteriza o homem: toda a resposta dá sempre lugar
a novas perguntas. Por isso, o homem é criador do novo e ser do
transcendimento, de tal modo que não pode deixar de perguntar pelo próprio
Deus, pelo Fundamento e Sentido últimos.
Se admitimos a evolução, não é de estranhar que encontremos
já nos chimpanzés, gorilas, bononos, antecedentes do que caracteriza os
humanos. No entanto, com o homem, o salto foi para uma realidade essencialmente
nova. Para lá das notas apontadas e outras que poderíamos apresentar, como a
criação e contemplação da beleza, o levantamento de edifícios jurídicos para
dirimir pleitos, o sorriso e a sepultura, está o facto de só o homem levar
consigo precisamente a questão da diferença entre ele e os outros animais. Só
ele tem deveres para com eles, sem reciprocidade.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Fermentação
Somos uma força de fermentação da consciência cívica.
Abbé Pierre. Sobre o movimento Emaús. Aplicável a qualquer obra católica.
Abbé Pierre. Sobre o movimento Emaús. Aplicável a qualquer obra católica.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
15 de Janeiro de 1929. Nasce Martin Luther King
Luther King nasceu em Atlanta, no dia 15
de janeiro de 1929, e morreu em Memphis, assassinado, no dia 4 de abril de 1968.
A este pastor protestante e ativista dos direitos humanos muitas frases célebres são atribuídas. Nem todas terão sido mesmo proferidas por ele. Já vi atribuídas a outros frases como “o que vale não é o quanto se vive; mas como se vive”, “o que me preocupa não é o grito dos maus, é o silêncio dos bons” e ainda a ecológico-irrealista “se eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, ainda hoje plantaria uma árvore”.
A este pastor protestante e ativista dos direitos humanos muitas frases célebres são atribuídas. Nem todas terão sido mesmo proferidas por ele. Já vi atribuídas a outros frases como “o que vale não é o quanto se vive; mas como se vive”, “o que me preocupa não é o grito dos maus, é o silêncio dos bons” e ainda a ecológico-irrealista “se eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, ainda hoje plantaria uma árvore”.
Mas esta é mesmo dele: “Não somos
o que deveríamos ser; não somos o que queríamos ser; mas graças a Deus, não
somos o que éramos”. E esta penso que também: “A
liberdade jamais é dada pelo opressor ela tem que ser conquistada pelo oprimido”.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Igualitarismo versus Honestidade
O igualitarismo abstrato de que se pode falar, como se uma reivindicação dos pobres, eles sabem que é uma farsa. Os que sofrem reclamam, sim, a honestidade.
Abbé Pierre, 1970
Abbé Pierre, 1970
domingo, 9 de setembro de 2012
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Coisas que não deviam passar despercebidas (1): Edith Stein morreu há 70 anos
Edith Stein em 1926
Edith Stein, a discípula preferida se Edmund Hurssel, morreu há 70 anos. Completados ontem. Andrea Tornielli escreveu no sítio “Vatican
Insider” sobre a carmelita judia que é copadroeira da Europa. Reproduzo o texto que saiu no IHU.
Há 70 anos, morria em Auschwitz a Irmã Teresa Benedita da Cruz, ou Edith Stein, filósofa. Ela nascera em uma família judaica, havia se batizado e, depois, entrara no mosteiro das Carmelitas de Colônia, na Alemanha. Em 1939, encontrava-se no Carmelo de Echt, na Holanda, e foi capturada em julho de 1942, durante as blitz nazistas que se seguiram à carta de denúncia das deportações, assinada pelos bispos católicos dos Países Baixos e lida em todas as igrejas. Até aquele momento, os nazistas haviam poupado os judeus batizados: foram capturados cerca de 300 religiosos de origem judaica.
Cristiana Dobner, em um artigo publicado pela agência SIR, lembra que o jornalista Van Kempen conseguiu contatá-la no campo de triagem e se encontrou diante de "uma mulher espiritualmente grande e forte". Ela não quis fugir nem receber um tratamento diferente dos outros judeus. "Ela me disse: 'Eu jamais poderia acreditar que os homens pudessem ser assim e que os meus irmãos tivessem que sofrer tanto!'. Quando não havia mais dúvidas de que ela seria transportada para outro lugar, eu lhe perguntei se eu poderia ajudá-la (tentar libertá-la); novamente, ela me sorriu suplicando-me que não. Por que abrir uma exceção para ela e para o seu grupo? Não seria justiça tirar vantagem do fato de ser batizada! Se não pudesse participar do destino dos outros, a sua vida estaria arruinada: 'Não, não, isso não!'".
Edith Stein repetia que não havia traído o seu povo ao reconhecer Jesus como Messias. Ela seria proclamada bem-aventurada por João Paulo II em 1987 e santa em 1998. No ano seguinte, também copadroeira da Europa. No dia 12 de abril de 1933, Stein escreveu uma carta ao Vaticano, dirigida ao Papa Pio XI. Ela a enviou através do arquiabade beneditino de Beuron, Raphael Walzer, ao cardeal secretário de Estado, Eugenio Pacelli.
"Padre Santo! Como filha do povo judeu, que pela graça de Deus é há 11 anos filha da Igreja Católica, me atrevo a expressar ao pai da cristandade o que preocupa milhões de alemães. Há semanas, somos espectadores, na Alemanha, de acontecimentos que envolvem um total desrespeito da justiça e da humanidade, sem falar do amor ao próximo. Durante anos, os líderes do nacional-socialismo pregaram o ódio contra os judeus. Agora que conquistaram poder e armaram os seus seguidores – entre os quais há conhecidos elementos criminosos – recolhem o fruto do ódio semeado".
Depois de falar dos muitos casos de suicídio de judeus submetidos a vexações pelos nazistas, Edith Stein acrescentava: "Pode-se considerar que os infelizes não tivessem suficiente força moral para suportar o seu destino. Mas se a responsabilidade em grande parte recai sobre aqueles que os levou a tal gesto, ela também recai sobre aqueles que se calam".
"Tudo o que aconteceu e o que acontece cotidianamente vem de um governo que se diz 'cristão'. Não só os judeus, mas também milhares de fiéis católicos da Alemanha e, creio, de todo o mundo esperam e confiam há semanas que a Igreja de Cristo faça ouvir a sua voz contra tal abuso do nome de Cristo. A idolatria da raça e do poder do Estado, com a qual a rádio martela cotidianamente as massas, não é uma aberta heresia? Essa guerra de extermínio contra o sangue judeu não é uma ultrajem à santíssima humanidade do nosso Salvador, da Santíssima Virgem e dos Apóstolos? Não está em absoluto contraste com o comportamento de nosso Senhor e Redentor, que, mesmo na cruz, rezava pelos seus perseguidores?".
"Todos nós – concluía a filósofa – que olhamos para a atual situação alemã como filhos fiéis da Igreja tememos o pior para a imagem mundial da própria Igreja, se o silêncio se prolongar ainda mais. Estamos convencidos de que esse silêncio não pode a longo prazo obter a paz do atual governo alemão. A guerra contra o Catolicismo ocorre em silêncio e com sistemas menos brutais do que contra o Judaísmo, mas não menos sistematicamente".
Como se pode ver, uma denúncia específica e clarividente, acompanhada pelo pedido de um posicionamento por parte da Santa Sé contra o nazismo. A Santa Sé respondeu à carta de Stein. O cardeal Pacelli, escrevendo em alemão, respondeu ao arquiabade beneditino Walker ainda no dia 20 de abril de 1933, informando que a carta "foi devidamente apresentada à Sua Santidade".
Em 1937, Pio XI publicaria a encíclica “Mit Brennender Sorge”, na qual a ideologia nacional-socialista é condenada como pagã e anticristã.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
quinta-feira, 5 de abril de 2012
"Libertação", opinião de Deusdado sobre as mulheres nas religiões
A opinião de Daniel Deusdado no JN de hoje sobre a injustiça milenar que as mulheres sofrem nas religiões. No cristianismo deveria ser diferente. Mas no catolicismo não é.
sábado, 17 de setembro de 2011
Anselmo Borges: Direitos dos animais?
Adela Cortina
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.
Sobre esta questão complexa, existem três posições filosófico-jurídicas fundamentais. No Ocidente, predomina a concepção chamada kantiana, que só reconhece direitos às pessoas. Nas últimas décadas, o movimento animalista vem defendendo a tese de que há animais não humanos que são pessoas. A terceira proposta é a de um modelo de sociedade na qual se reconhece a dignidade dos humanos, mas tem em atenção o valor dos animais.
1. Na concepção predominante, só a pessoa humana é sujeito de direitos. A dignidade da pessoa humana é o fundamento dos direitos humanos. Mas significa isso que os animais devam ser remetidos para o domínio das coisas? O constitucionalista J. Gomes Canotilho pergunta justamente, numa obra colectiva sobre os desafios para a Igreja de Bento XVI, se precisamente um desses desafios não é desenvolver uma ecologia em que "as diferenças entre 'algo e alguém' não remetam para o domínio das coisas a problemática humana dos outros seres vivos da Terra".
2. Num texto famoso de 1789, Jeremy Bentham inquiria: Qual é a característica que confere o direito a uma consideração igualitária? E respondia, perguntando: "Será a faculdade da razão ou, talvez, do discurso? Mas um cavalo adulto é, para lá de toda a comparação, um animal muito mais racional assim como mais sociável do que um recém-nascido de um dia, uma semana ou até um mês. Mas suponhamos que não era assim; de que serviria? A questão não é: pode raciocinar?, pode falar?, mas: pode sofrer?"
O chamado utilitarismo moral coloca o centro precisamente na capacidade de sofrer e de sentir prazer. Para Peter Singer, defensor célebre desta concepção, os seres sensíveis têm interesses, concretamente o interesse do maior prazer possível e da menor dor possível, seguindo-se daí que, ao contrário da concepção anterior, temos deveres directos para com todos os seres capazes de sentir. A desigualdade de tratamento deriva do chamado especiesismo - julgo que se deve dizer assim e não especismo -, que consiste na preferência que damos aos humanos sem qualquer outra razão que não a pertença a uma espécie, no caso, a espécie humana.
Singer, professor da Universidade de Princeton, escreve textualmente, em Ética Prática: "Devemos rejeitar a doutrina que coloca a vida dos membros da nossa espécie acima da vida dos membros de outras espécies. Alguns membros de outras espécies são pessoas; alguns membros da nossa não o são. De modo que matar um chimpanzé, por exemplo, é pior que matar um ser humano que, devido a uma deficiência mental congénita, não é capaz nem pode vir a ser uma pessoa."
3. A filósofa Adela Cortina, numa obra importante - Las fronteras de la persona -, atravessa toda esta problemática, para defender a sua tese, com a qual me identifico. A vida é valiosa por si mesma, mas ainda mais a dos seres sensíveis, que têm a capacidade de sofrer e ter prazer. Os animais têm um valor intrínseco e não meramente instrumental, havendo, por isso, uma obrigação directa de lhes não causar dano.
Mas há seres que não só têm valor intrínseco "mas também absoluto". Os direitos humanos são naturais, isto é, a sociedade política não os concede, mas simplesmente os reconhece, pois são anteriores ao pacto político. Os outros animais não têm o sentido da dignidade e da humilhação. Os humanos "são capazes de reconhecer se a sua própria vida é digna ou indigna, a partir do reconhecimento que outros fazem dela e a partir da sua própria autoconsciência". Para os outros animais basta uma vida materialmente satisfeita; mas a ideia de uma vida digna é diferente: "brota do reconhecimento de estar a ser tratado segundo a norma da espécie, que é, em última análise, a da liberdade."
E os membros da nossa espécie que não podem de facto exercer essas capacidades, como os deficientes mentais profundos? "Isso não os torna membros de outras espécies, mas pessoas que é preciso ajudar para poderem viver ao máximo essas capacidades, o que só conseguirão numa comunidade humana que cuide deles e os promova na medida do possível".
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
29 de Agosto de 1799. Morre Pio VI
Morte de Pio VI
O Papa Pio VI (Giovanni Angelo Braschi) nasceu no dia 25 de Dezembro de 1717 e morreu no dia 29 de Agosto de 1799. Foi Papa desde 15 de Fevereiro de 1775. Sofreu o embate da Revolução Francesa, em grande parte anticlerical e ateia.
Napoleão pediu-lhe que renunciasse aos poderes temporais. Pio VI não renunciou e foi feito prisioneiro. Depois da passagem por várias cidades italianas e francesas, o Papa morreu em Valença do Ródano (França), mas antes perdoou aos seus opressores.
Para a história fica também a reacção à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. No dia 10 de Março de 1791, Pio VI escreveu: “Há alguma coisa mais disparatada do que declarar uma tal igualdade e liberdade para todos?"
domingo, 14 de agosto de 2011
Gonçalo Portocarrero de Almada: A injustiça da não-discriminação
Hoje não há frade dominicano no "Público" (na semana passada Bento Domingues disse que voltará em Setembro, aqui), mas há padre da prelatura Opus Dei. A reflexão é pertinente.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
quinta-feira, 14 de julho de 2011
"O Vaticano não perdou Eva", diz Jorge Fiel
Quem está dentro pode sempre argumentar que não é discriminação a não ordenação das mulheres. Se o que está em causa é um direito e dever da Igreja (dever de perpetuar a memória de Jesus Cristo através da Eucaristia; direito das comunidades cristãs à Eucaristia; direito e dever de a Igreja ter os seus ministros), não se pode falar de um direito à ordenação enquanto direito individual. Neste sentido, nenhum homem tem direito à ordenação.
Mas para quem está mais ou menos fora da Igreja em termos de pertença efectiva, ainda que não de cultura, não há como não pensar em descriminação. É o caso de Jorge Fiel neste texto do JN de hoje.
Mas para quem está mais ou menos fora da Igreja em termos de pertença efectiva, ainda que não de cultura, não há como não pensar em descriminação. É o caso de Jorge Fiel neste texto do JN de hoje.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Marcha para Jesus e parada gay em São Paulo
Concentração inicial da "Marcha para Jesus" (23 de Junho)
No dia 23 de Junho, quando ainda em muitos países se celebra o Corpo de Deus, a cidade de São Paulo acolheu uma “marcha para Jesus”. No domingo, 26, foi a vez da “parada gay”. São os maiores eventos de massas do Brasil. Cinco milhões no dia 23. Quatro milhões no dia 26. A parada gay teve maiores cobertura noticiosa, pelo menos a julgar pela busca que fiz na Internet. Mas as fotos do primeiro evento (em menor quantidade), parecerem revelar maior número de participantes.
Os primeiros diziam, contra a recente aprovação do casamento homossexual, que “o verdadeiro Supremo é Deus”, numa alusão, penso, à decisão do Supremo Tribunal considerar nula a negação de um casamento homossexual por parte de um juiz que não concorda com a lei recentemente aprovada. Dizia uma notícia: “Na Marcha para Jesus, na quinta-feira, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em favor da união estável homoafetiva foi ferozmente atacada”.
Os gays responderam com o mandamento “Amai-vos uns aos outros” – tema da parada escolhido pela organização. Alguns católicos ficaram ofendidos com o uso do slogan e de imagens de santos católicos nos postes da Avenida Paulista.
Eu não iria nem a uma marcha nem a outra. Mas fico contente que se possam manifestar sem grandes incidentes. E desde que li a pergunta de Timothy Radliffe op, “os homossexuais estão condenados para sempre à solidão?” [como consequência do posicionamento católico sobre o assunto], se já era tolerante, mais compreensivo me torno. Com ou sem casamento.
Parada gay na Avenida Paulista (26 de Junho)
quinta-feira, 9 de junho de 2011
"Cristo é um refugiado que se afoga no Mediterrâneo"
Em Portugal quase não se falou do assunto. Ou pelo menos não teve grande eco nas consciências. É a lei da proximidade. Longe não incomoda. Em Itália, falou-se, mas a persistência das tragédias cria insensibilidade. O escritor Claudio Magris retomou o assunto, provocando o debate:
Em alguns jornais, 200 mortos ou desaparecidos no mar como os de anteontem, em uma fuga do desespero, não acabam nem mais mais na primeira página; deslizam para as seguintes, entre as notícias certamente relevantes, mas não clamorosas. Para catástrofes semelhantes, poucos anos atrás, até um primeiro-ministro se comovia ou pelo menos sentia o dever de se comover publicamente.
As tragédias de hoje dos refugiados em busca de salvação ou de uma sobrevivência menos miserável que perecem, muitas vezes anônimos e desconhecidos, no mar não são menos dolorosas, mas não são mais uma exceção, embora frequente, mas sim uma regra.
Tornam-se, portanto, uma crônica costumeira, da qual já estamos calejados, que quase já se espera antes de abrir o jornal e que, portanto, não escandaliza e não perturba mais, não provoca mais emoções coletivas. Essa habituação que leva à indiferença certamente é inquietante e aumenta a distância intransponível entre quem sofre ou morre, naquele momento sempre sozinho, como os fugitivos engolidos pelos redemoinhos, e os outros, todos ou quase todos os outros, que, para continuar vivendo, não podem ser muito absorvidos por aqueles remoinhos que arrastaram fundo.
É justo mas também é fácil nos acusarmos dessa insensibilidade, que se refere também a mim mesmo enquanto estou escrevendo estas linhas e todos ou quase todos que eventualmente as lerão. Ao contrário de outros casos, em que a indiferença ou a lívida hostilidade se reforçam contra o estrangeiro, o miserável, contra quem é etnicamente ou socialmente diferente, nessa circunstância a nossa insensibilidade não nasce da proveniência e da identidade a nós hostil daqueles afogados. Nasce da repetição desses dramas e do inevitável costume que deles deriva.
Mesmo que, por circunstâncias adversas, todos os dias os jornais tivessem que reportar notícia de soldados italianos mortos no Afeganistão, a reação, depois de um certo tempo, se tingiria de um hábito cansado. Mesmo crimes atrozes da máfia são, pouco a pouco, vividos como um hábito.
Não podemos sobreviver emocionando-nos com todas as desventuras que atingem os nossos irmãos no mundo; mesmo a comoção por qualquer delito particularmente macabro, por exemplo o brutal assassinato de uma criança, depois de um certo tempo, horrivelmente se aplaca; a notícia foi absorvida, não agita mais a ordem do mundo nem o coração.
A habituação – às drogas, à guerra, à violência – é a rainha do mundo. "É preciso, no entanto, viver – diz-se em um romance de Bernanos – e esta é a coisa mais horrível". Talvez uma das maiores misérias da condição humana consiste no fato de que até o cúmulo de dores e desgraças, além de um certo limiar, não incomoda mais. Se eu anuncio a morte de um parente, encontro uma compreensão contrita, mas se logo depois anuncio uma outro e depois outra corro o risco até do ridículo.
Justamente por isso – porque, diferentemente de Cristo, não podemos verdadeiramente sofrer por todos, assim como não nos entristece a leitura dos obituários nos jornais –, não podemos confiar-nos apenas ao sentimento parar sermos próximos dos outros. O nosso sentimento, compreensivelmente, nos faz chorar por um amigo que amamos e não por um desconhecido, mas devemos saber – não abstratamente, mas realmente, com a compreensão de toda a nossa pessoa – que homens por nós nunca vistos e não concretamente amados também são reais.
Aqui reside a diferença entre o pensamento reacionário e a democracia. O reacionário facilmente zomba da humanidade abstrata e do abstrato amor ideológico pelo gênero humano, porque sabe amar o seu próprio colega de escola, mas não sabe verdadeiramente entender que os colegas de pessoas de pessoas a ele desconhecidas também são reais; não abstrações, mas carne e sangue.
A democracia – ridicularizada como fria e ideológica –, ao contrário, é concretamente poética, porque sabe se colocar na pele dos outros, como Tolstoi na de Anna Karenina, e, portanto, também na dos náufragos no fundo do mar.
A propósito, o teólogo leigo Christian Albini lembra palavras de Thomas Merton e sublinha o desconforto que deve provocar nos cristãos, nos que ainda são sensíveis, a morte de africanos no Mediterrâneo.
"De que serve organizar cursos de doutrina do Corpo Místico e de sagrada liturgia, se não se tem nenhum interesse pelo sofrimento, pela miséria, pela doença e pela morte prematura de milhões de membros potenciais em Cristo?" (Thomas Merton, Vita e Santità, Ed. Lindau, p. 100).
É a diferença entre a religião da forma, das palavras, do conformismo e a fé que nasce da escuta de uma Palavra que converte a minha vida, que rompe a casca da minha autossuficiência e me faz reconhecer que não sou nada sem o outro que me ama e que eu amo.
Quando escrevi há alguns dias que a tarefa dos cristãos na política é elaborar uma gramática do bem comum, queria dizer um retorno ao humano, ao reconhecimento da humanidade de todo o tipo e à sua proteção, sem fechamentos e particularismos tribais.
(…) Para nós, italianos, Cristo é um refugiado que se afoga no Mediterrâneo. É essa convergência no amor que pode se tornar uma verdadeira lei universal.
Dito novamente com a sabedoria rabínica: "Como tu podes dizer que me amas se não sabes o que pode me ferir?". É a partir do sofrimento pelas feridas dos outros que começa o caminho do amor.Texto de Claudio Magris aqui.
Texto de Christian Albini aqui.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Igreja "bunker"?
O Fórum de “Curas de Madrid” diz que a igreja espanhola, aqui entendida como "hierarquia e seus seguidores e corifeus", é um “bunker”. “Bunker” quer dizer o “reduto onde alguém se fecha para se defender” e “lugar de onde se pode atacar com vantagem o inimigo”. É uma boa imagem para as aulas e catequeses de eclesiologia sobre o que a Igreja não deve ser. E Espanha não fica assim tão longe.
As consequências das atitudes deste grupo de católicos “assustados e temerosos”, que se sente vítima de uma sociedade dita “agnóstica, laicista, relativista” e se considera possuidor da verdade, são trágicas:
La primera, la incomunicación entre la sociedad y la Iglesia, que ha llevado a ésta a ser una de las peor valoradas entre las instituciones públicas. No es, como debería ser, "bien vista entre la gente". No es una Iglesia atractiva, a pesar de que de cuando en cuando se empeñe en reunir en las calles a miles de adherentes.
En segundo lugar, la alianza con el poder económico e ideológico y en concreto con la parte más a la derecha de éste último. (…)
Todo esto provoca una reacción en cadena: la vuelta a una teología conservadora, a la más estricta concepción jerárquica, a la marginación de la mujer, al pretendido monopolio de la ética, a una visión negativa de la realidad, al pecado original, al sacrificio, a la obediencia, al ahogo y persecución de las bases críticas. (Isto manifesta-se especialmente no retrocesso do ecumenismo - do diálogo e colaboração à incomunicação - e no esquecimento dos pobres).
Y en último lugar, pero no con menos resonancia: el fundamentalismo de los medios cercanos a la Iglesia o propiedad de la misma, que, afirmándose cristianos, no dudan en acudir al insulto, la injuria o la calumnia.
Como sair desta situação, se da “Iglesia piramidal y centralista, no hay nada que esperar a corto plazo”? O fórum aponta algumas “acciones decididas”:
* Por una parte es necesario ir realizando en las parroquias y grupos el modelo de Iglesia participativa en la que creemos.
* Por otra parte no es posible olvidar que nuestro punto de referencia son los pobres, que esperan de la Iglesia una buena noticia.
* Y finalmente es preciso aunar fuerzas, establecer lazos con grupos de seglares, de curas, con comunidades, parroquias, movimientos y poner en marcha acciones conjuntas.As acções podem ir da denúncia de acordos com o Vaticano à colaboração com grupos que trabalham pelos direitos humanos, dizem, mantendo sempre a voz levantada para “para denunciar palabras y actitudes de una Iglesia que no es fiel al Evangelio ni útil para el siglo XXI”. Lido aqui.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Bento pede que acolham os refugiados, mas o Vaticano não acolhe os ciganos
Ciganos romenos
Ao mesmo tempo, a polícia do Vaticano queria expulsar 150 ciganos romenos que se instalaram na Basílica de São Paulo Extramuros (território do Vaticano), concretamente em dois pavilhões que servem para arrumos e armazém.
Por estes dias de Páscoa decorriam negociações com a câmara de Roma, mas, enquanto isso, algumas mães que saíram à rua para fazer compras já não puderem entrar, sendo obrigadas a atirar a comida através das vigas (aqui).
Os casos não iguais, certamente, mas não deixa de haver uma estranha coincidência nesta situação. Incoerência? Olha para o que eu digo, mas não para o que eu faço? Sinal profético? Deus a escrever direito por linhas tortas?
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Sinodalidade e sinonulidade
Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...
-
O que aqui vou deixar não é um tratado nem sequer um artigo académico sobre a questão. Trata-se simplesmente de dicas recolhidas de outros...
-
Respondendo a alguns leitores, deixo aqui um artigo de Ariel Álvarez Valdés sobre a distinção, nos evangelhos, entre diabo e demónio. O tex...
-
A fé começa precisamente onde o pensamento acaba. Kierkegaard


















