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terça-feira, 20 de março de 2012

Queridos feriados

No JN de hoje.


A dificuldade em eliminar feriados, civis ou religiosos (ao contrário do que se diz, que todos os feriados são civis, penso que só os religiosos têm realmente significado), deixa-me perplexo. Os portugueses, salvo duas ou três exceções, não querem trabalhar mais meia hora, não querem ganhar menos, não querem ter menos feriados, não querem perder privilégios, pensam que podem pagar dívidas sem dor, querem manter os mesmos padrões de consumo. 


E estão todos, agora, concentrados no aumento da produtividade. Tivemos o tempo todo para aumentá-la e não o fizemos. Mas agora toda a gente tem ideias estupendas para aumentar a produtividade e tudo continuar como antes. Ou seja, todos querem, salvo duas ou três exceções, que tudo continue como antes. A produtividade é uma questão de conversa. 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Decrescimento contra a religião do crescimento

No "Público" de hoje vem uma entrevista a Serge Latouche, economista francês que tem vindo a defender o decrescimento económico, que consiste em trabalhar menos, produzir menos, gastar menos e ter o mesmo nível de vida. Parece-me salutar.


Diz o professor da Universidade de Paris XI a certa altura:
O decrescimento é um slogan que fomos forçados a utilizar para romper com o "ramerrão" do discurso desenvolvimentista, que fala em crescimento, crescimento, crescimento e que nos conduzirá a uma catástrofe. Claro que é uma palavra provocadora, polémica... e até blasfema, porque temos uma relação quase religiosa com o crescimento. Podemos mesmo falar de uma religião, um culto do crescimento. Falar de decrescimento cria um efeito de estupefação. Decrescer por decrescer seria absurdo. Mas crescer por crescer é absurdo e ninguém se dá conta disso, porque estamos envolvidos nessa religião.
Aqui encontra-se uma entrevista on line ao professor francês. E aqui um caderno em PDF em que o próprio expõe as suas ideias. Mais estimulante do que simplesmente dizer mais do capitalismo.


Leonardo Boff, no seu blogue, por estes dias, propões algo em consonância:

Há uma ética subjacente à cultura produtivista e consumista (…), a da maximização de tudo o que fazemos: maximizar a construção de fábricas, de estradas, de carros, de combustíveis, de computadores, de celulares; maximizar programas de entretenimento, novelas, cursos, reciclagens, produção intelectual e científica. A roda da produção não pode parar, caso contrário ocorre um colapso no consumo e nos empregos. No fundo, é sempre mais do mesmo e sem o sentido dos limites suportáveis pela natureza. 
(…) Devemos caminhar na direção de uma ética diferente, a da otimização. Ela se funda numa concepção sistêmica da natureza e da vida. Todos os sistemas vivos procuram otimizar as relações que sustentam a vida. O sistema busca um equilíbrio dinâmico, aproveitando todos os ingredientes da natureza, sem produzir lixo, otimizando a qualidade e inserindo a todos. Na esfera humana, esta otimização pressupõe o sentido de auto-limitação e a busca da justa medida. A base material sóbria e decente possibilita o desenvolvimento de algo não material que são os bens do espírito, como a solidariedade para com os mais vulneráveis, a compaixão, o amor que desfaz os mecanismos de agressividade, supera os preceitos e não permite que as diferenças sejam tratadas como desigualdades. 
Talvez a crise atual do capital material, sempre limitado, nos enseje viver a partir do capital humano e espiritual, sempre ilimitado e aberto a novas expressões. Ele nos possibilita ter experiências espirituais de celebração do mistério da existência e de gratidão pelo nosso lugar no conjunto dos seres. Com isso maximizamos nossas potencialidades latentes, aquelas que guardam o segredo da plenitude, tão ansiada.
Ler tudo aqui.

sábado, 19 de novembro de 2011

Anselmo Borges: Crises e oportunidades (1)

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Haverá palavra com que sejamos mais bombardeados do que a palavra crise? Ela é a nossa perplexidade e angústia. O que vem aí?

Ela é repetida concretamente desde 2008, por causa da crise financeira, que inevitavelmente acabou por estender-se à economia, e, agora, os terramotos sucedem-se sob o domínio voraz dos mercados, e ninguém sabe como tudo terminará. É preciso estar preparado para o pior.
Mas a crise é maior, pois é intrínseca à realidade. A realidade está permanentemente em crise, pois pertence à sua constituição.


Pense-se na evolução. Há 13 700 milhões de anos foi o Big Bang, e a realidade, que é dinamismo, foi-se configurando, no quadro do acaso e da necessidade e passando, portanto, por crises constantes, por vezes até com becos sem saída, em estruturas cada vez mais complexas - a mais complexa que conhecemos é o cérebro humano. O que é facto é que avançou "oportunisticamente" e chegou até nós. Estamos cá. E há perguntas críticas: que vamos fazer com o genoma humano e as novas tecnologias, falando-se já em transhumanismo? E com a cibernética e a Net (rede ou labirinto?)? E com a ameaça ecológica? E com a globalização?


O que é a crise? Pode ser iluminante ir ao étimo. Crise vem do verbo grego "krinein", que está também na origem de crítica, e significa distinguir, discernir, resolver um litígio, interpretar, explicar uma questão, julgar, apreciar, decidir. Enquanto termo técnico da medicina refere-se ao ponto alto e de viragem de uma doença. No alemão, há mesmo o verbo "kriseln", que só aparece impessoalmente - "es kriselt": está iminente e ameaçadora uma crise, difícil e decisiva.


Mas o próprio étimo aponta já para uma possível oportunidade: de "opportunus - ob-portus": que impele para o porto. "Opportunitas" (oportunidade) significa precisamente "ocasião favorável", e o advérbio "opportune", a tempo, oportunamente, vantajosamente.
Estamos, pois, permanentemente em crise, porque a nossa identidade é narrativa: faz-se, desfaz-se, refaz-se... E isto acontece na evolução, com os indivíduos, com os grupos, com os povos.


A Europa, por exemplo, está numa crise gigantesca. Afinal, o que é que ela quer? O que queremos ser? Esta crise pode ser a oportunidade para pensar nisso e decidir em consequência. O que é que vai ser a Europa num mundo globalizado, se não for União europeia solidária? Torna-se insignificante. Uma Europa fragmentada fará erguer de novo no horizonte os fantasmas da guerra. Ora, não foi precisamente o desejo de pôr termo aos contínuos conflitos bélicos que levou os grandes estadistas fundadores, como K. Adenauer, J. Monet, R. Schuman, De Gasperi, ao projecto do que poderia e deveria ser a União Europeia? E não faz falta ao mundo a Europa social, dos direitos humanos?


A primeira crise é a do nascimento. O bebé encontrava-se encantado no ventre materno, numa temperatura ideal e na paz do líquido amniótico. No entanto, tem de partir, e fala-se do primeiro trauma, precisamente o do nascimento. Mas não é essa a condição de possibilidade de conhecer os pais e admirar o mundo e crescer e construir uma história: a sua, com os outros?


Típica é a crise da adolescência - a idade crítica. Dá-se uma reconfiguração do cérebro do adolescente, que, perante a turbulência das emoções, ainda não está maduro para ser seu dono. Já não é criança, ainda não é adulto, mas precisamente essa crise é a oportunidade para crescer e tornar-se adulto.


Quem nega as crises no casamento? Mas delas não poderá nascer um amor maior, mais maduro?


Uma doença pode ser dramática mas, ao mesmo tempo, a oportunidade para reorientar a vida. Talvez se tenha andado demasiado distraído e é a hora de pensar no que verdadeiramente vale e no que vale menos ou pura e simplesmente não vale.


No meio de todas as crises, reflectindo, o que está mesmo em questão é isso: pensar. O filósofo Ernst Bloch não se cansava de repetir: "Not lehrt denken": a necessidade ensina e obriga a pensar. Por exemplo: é no consumismo frenético que somos mais felizes?

sábado, 20 de agosto de 2011

Anselmo Borges: Pergunta intempestiva: quando vivemos?

Texto de Anselmo Borges no DN deste sábado (aqui). 

Como chegámos até aqui? As razões são incontáveis. Mas não me canso de repetir que a multiplicação acéfala de instituições de ensino superior foi fatal. O dinheiro corria a rodos e as pessoas interiorizaram que a fonte não secava, e instalou-se um consumismo pateta, estimulado por cartões de crédito, que os bancos davam a engolir. E voava-se a crédito para férias em Cancún. E multiplicaram-se auto-estradas, talvez porque aí era mais fácil corromper e ser corrompido. E não se investiu suficientemente no capital que não se corrompe e que ninguém rouba: o saber, a cultura, o chamado capital humano. As pessoas foram-se encostando ao Estado, pai providente e aparentemente rico. Com políticos menores, as dívidas foram crescendo, crescendo, até os credores começarem a gritar que exigiam que fossem pagas.

Agora, é a esfola. Impostos, mais impostos, novos impostos. E o desemprego a aumentar. E a pobreza e também a fome.


E a maioria da gente a pensar que mais algum tempo de sacrifícios e voltaremos ao sabor da abundância. Quem disse? Afinal, quem manda e decide? Como é possível que o mundo entre em terramoto por causa de uma nota de uma agência de rating? Mas, sobretudo, ainda se não viu que o "trabalho" é um bem escasso, que será necessário, de um modo ou outro, distribuir? Acima de tudo: como é que ainda se não percebeu que, num mundo limitado, não é possível um progresso ilimitado? E toda a gente a correr e a desfazer-se em stress e angústia para trabalhar aqui e ali e não soçobrar na avaliação. Porque, agora, a avaliação é palavra de ordem, como a concorrência. É preciso concorrer, competir. E ninguém pergunta: produzir o quê e para quê e para quem? Precisaremos de tanta quinquilharia produzida?

Mas agora é a ambição - foi sempre, mas não como agora. Ora, lá está a Escritura, na Primeira Carta a Timóteo: "Nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele. A raiz de todos os males é a ganância do dinheiro. Arrastados por ele, muitos se enredaram em muitas aflições."

Não precisaremos de viver mais moderadamente e, para lá do ter, buscar o ser e ser? Já há muito, o matemático e filósofo, Prémio Nobel da Literatura, B. Russell escreveu que bastaria trabalhar quatro horas por dia, e o físico H.-P. Dürr, Prémio Nobel alternativo, disse que precisaríamos apenas de um terço do nosso tempo de trabalho para produzirmos o que é realmente importante. O outro tempo seria para a cultura...

Edgar Morin

Agora, é Edgar Morin, o pensador da complexidade, que, do alto da sabedoria dos seus 90 anos, publica "La Voie", e, a propósito, numa entrevista à "Sciences Humaines", vem dizer verdades imensas.

"O planeta Terra está metido num processo infernal que leva a Humanidade a uma catástrofe previsível. Só uma metamorfose histórica poderá permitir resolver as crises - maiores e múltiplas - ecológicas, económicas, societais, políticas, que ameaçam a própria existência das nossas civilizações em vias de unificação."

As reformas exigidas implicam uma "reforma de vida". De facto, o desenvolvimento é "uma máquina infernal de produção/consumo/destruição". Há um paralelo deste processo no plano individual: trata-se de um desenvolvimento encarado essencialmente como "quantitativo e material", que leva a uma corrida infernal para o "sempre mais" e a um mal-estar no próprio seio do bem-estar. A modernidade ocidental produziu a barbárie do cálculo, da técnica, e não inibiu suficientemente a "barbárie interior", feita de incompreensão do outro, de indiferença.

"As sociedades contemporâneas realizaram em muito o que era um sonho para os nossos antepassados: bem-estar material, conforto. Ao mesmo tempo, descobriu-se que o bem-estar material não traz a felicidade. O preço a pagar pela abundância material revela-se de um custo humano exorbitante: stress, corrida à velocidade, adicção, sentimento de vazio interior."

E volto à pergunta do título: afinal, quando vivemos? Sim, porque, como isto está, não vivemos, somos vividos.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O Natal herético de González Faus

O Natal já lá vai. Já ninguém pensa nisso, como não pensou muito quando ele por nós passou. No rescaldo, sabe bem ler o texto de José Ignacio González Faus, no seu blogue, em espanhol (aqui), ou traduzido em português no IHU (aqui, apesar de erros como “esquisita Maria” por “Maria de bom gosto” ou “Corte inglesa” pelo nome da cadeia de supermercados que, com certeza, não existe no Brasil).

Assim esquecemos todo o lado polêmico da mensagem natalina: que Deus não nasceu no Templo de Jerusalém, nem sequer numa pousada decente, senão num estábulo. O que, com palavras de hoje, significa: Deus não nasce na catedral de Barcelona, nem na igreja Sagrada Família, senão no [rio] Besós [Barcelona] ou no Raval [nos arredores de Barcelona, ndt]; nem nasce na Catedral de Nossa Senhora daAlmudena, senão na Canadá real; nem nasce na Corte inglesa, senão numa favela, nem nasce no Vaticano, senão na Faixa de Gaza, nem em Manhattan, senão no Haiti... E seu sinal não são as luzes em nossas ruas senão a falta de luz nos subúrbios.

(…)

Imaginemos então o que ocorreria se uma multidão de cristãos, mais conscientes de todo este significado, começasse a tomar decisões como estas: no natal não vamos consumir nada, não porque não possa ter sentido materializar o gozo interno, senão para compensar a unilateralidade na qual caímos. Nem vamos jogar na loteria porque não queremos enriquecer-nos precisamente nos mesmos dias em que Deus empobrece. Nem damos presentes às pessoas queridas senão somente àquelas com as quais nos encontramos inimizados ou a quem necessitamos perdoar. Nem plantaremos beléns transbordantes de figuras caras, senão um simples presépio desvencilhado e vazio, da mesma forma como aquela cadeira daquele prêmio Nobel da paz que esteve vazia durante a cerimônia: como que simbolizando que a Deus igualmente não deixamos vir hoje porque é um dissidente deste mundo, como Liu Xiaobo.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Público 2: A religião traz a felicidade ou ela já está no cérebro?

“Há uma felicidade do instante, outra associada à participação na vida cívica, outra identificada com Deus ou a religião. A felicidade confronta-se com o mal e o sofrimento. Será que podemos saber onde ela mora?” Artigo de António Marujo no P2 de hoje. Aqui, com uma belíssima imagem de Marc Chagall.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O anjo do colesterol

“The Angel of Cholesterol”, 2010

Alexander Kosolapov é um artista russo (Moscovo, 1943). Vive em Nova Iorque desde 1975. Os temas das suas obras são o Mickey-Leninisno (cabeça do Rato Mickey no corpo de Lenine), Jesus Cristo a dizer num cartaz da Coca-Cola “This is my blood” e num cartaz da McDonald’s “This is my body”. Do comunismo ao consumismo num ápice. As letras são as mesmas. Mas o trabalho que prefiro é “O Anjo do Colesterol”.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O que diz González Faus

José Ignacio González Faus é professor emérito da Faculdade de Teologia da Catalunha, autor, entre muitos outros títulos, de “La Humanidad Nova. Ensayo de Cristologia” (Ed. Sal Terrae, Santander). As declarações foram feitas numa entrevista ao jornal espanhol “Hoy”, no dia 5 de Outubro de 2010 (aqui).

Quem faz mais ateus?
Disse uma vez que a cúria romana fez mais ateus que Marx, Freud e Nietzsche juntos. O que não dá para negar é que muitos homens se afastam dela e, mesmo que mais tarde se sintam vazios e queiram preencher esse vazio, se dão conta de que têm que procurar fora da Igreja. Diante disso, não parece que a Instituição procure aproximar-se. Os pontos fracos da Igreja actual são muitos, e eu disse já disse várias vezes é a cruz da minha fé, mesmo que procure carregá-la com elegância. Vejo que ela é incapaz de compreender o positivo do mundo moderno e os seus dirigentes desejam poder solucionar os problemas com base no poder.

Democracia
Não me parece evangélico que o Papa seja chefe de Estado, nem o modo de nomear a dedo os bispos nem os “príncipes da Igreja”. Quando não havia democracia, eram eleitos democraticamente a partir das comunidades locais.

Mulher
É inegável que a mulher não ocupa na Igreja o lugar que merece.

O que há a mudar
Não é uma questão de receitas. A Igreja tem que mudar muitas coisas. Devia começar por reconhecer que está em crise. Na qual todos temos um pouco de culpa. A partir daí teria que ver como e por onde se pode caminhar. Começando por não excluir como hereges aqueles que pensam diferente.

Linguagem antiga
Algo simples por onde se poderia começar é a linguagem. Não se podem manter as palavras antiquadas da liturgia. Não se entendem ou suscitam imagens contrárias ao que na sua origem se queria expressar.

Por que devemos criticar a Igreja
Ratzinger tem um artigo já clássico no qual diz que se hoje não se critica tanto a Igreja como na Idade Média, não é porque se a ame menos, mas porque falta esse amor que é capaz de arriscar a própria sorte ou a própria carreira pela amada [parte desse artigo foi aqui citada]. E eu tenho um livro sobre a liberdade da palavra na Igreja que é só uma antologia de textos de santos, bispos e cardeais, alguns muito mais duros do que as coisas que se dizem hoje. Também é normal que as autoridades não gostem disso e que de vez em quando te dêem com algum pau ou chamem à atenção “de cima”. E o que sinto é que isso não é feito directamente para mim. Quem tem que arcar com as críticas é o meu provincial, o que não está certo. Bom, não há parto sem dor. E como disse Santa Teresa, a verdade padece, mas não perece.

Newman foi incómodo no seu tempo
Creio que o balanço da visita do Papa não é mau. A experiência foi positiva. A beatificação de John Henry Newman parece-me significativa. Uniu muito a Igreja, apesar de ter sido um homem crítico que incomodou tanto a direita católica como muitos anglicanos. Quando se converteu não sentia nenhuma simpatia pela Igreja católica, mas o estudo da história fê-lo ver que a continuidade com as origens estava em Roma.

Diálogo inter-religioso
A convivência, o afecto e a colaboração entre religiões é um imperativo. E na palavra religiões incluo agora também o ateísmo. Os poderes públicos devem ser neutros e buscar a convivência. Em alguns lugares, como na Catalunha, há muitas iniciativas bem positivas. É preciso buscar o encontro naquilo que nos une como humanos. Devemos buscar no outro a melhor versão de sua personalidade, que é o que Deus pede a todos.

Drogados pelo consumo
Deixamos passar uma grande oportunidade para mudar os elementos injustos e irracionais de nosso sistema económico. Esta crise serviu apenas para ajudar aqueles que a provocaram, mas não as verdadeiras vítimas. Todos fomos cúmplices do sistema, drogados como estamos pelo consumo. Isto foi um passo a mais rumo ao desmantelamento do Estado de bem-estar social. A culpa é em parte da esquerda, que participou desse “socialismo assistencial” da partilha de subvenções, em vez de se ocupar em fazer justiça social.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Vamos à missa ou ao shopping?

Folha.com - Qual é a saída para toda essa ansiedade?

Gilles Lipovetsky - As compras. Antes as pessoas iam à missa, agora elas vão ao shopping center. Comprar, ir ao shopping, viajar -são as terapias modernas para depressão, tristeza, solidão. Você pode comprar "terapias de desenvolvimento pessoal". Um fim de semana zen, um pacote de massagens. Todas as esferas de vida estão subjugadas à lógica do mercado.

Li aqui.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

sábado, 3 de outubro de 2009

O dia a seguir ao de Acção de Graças

Um dia a seguir ao dia de Acção de Graças, segundo um blogue do Rocky Mountain News (aqui).
Aspecto do Wal-Mart de Lakewood, às 5 da manhã da Black Friday. Os clientes ficaram doidos, mas, felizmente, ninguém morreu, ao contrário do que aconteceu na loja de Nova Iorque, em que a avalanche dos consumidores matou um empregado.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

DSI 25: Da RN à CV, a "Centesimus Annus" (2)

Consumismo e a questão ecológica

A encíclica Ano Centenário ("Centesimus Annus", CA), escrita no rescaldo da queda das ditaduras de esquerda do Leste Europeu, reconhece que o mercado livre (ou seja, o capitalismo) é – na verdade, a CA diz: “parece ser” – “o instrumento mais eficaz para dinamizar os recursos e corresponder às necessidades” (CA 34). Realça, no entanto, que “a actividade económica não se pode realizar num vazio institucional, jurídico e político”, contra os gurus da desregulamentação. Por outro lado, reconhece, na sequência, a “justa função do lucro”. O lucro é “indicador do bom funcionamento da empresa: quando esta dá lucro, isso significa que os factores produtivos foram adequadamente usados e as correlativas necessidades humanas devidamente satisfeitas” (35). Não é pecado ter lucro quando se salvaguardam os “outros factores humanos e morais”, “igualmente essenciais para a empresa”. Falta grave, perante a sociedade e a comunidade de trabalhadores, é a má gestão, a incapacidade de gerar resultados positivos…

Mas a CA chama a atenção para “problemas específicos” e “ameaças que se levantam no interior das economias mais avançadas”. O primeiro problema é o consumismo com os seus “estilos de vida objectivamente ilícitos e frequentemente prejudiciais à saúde física e espiritual”. João Paulo II nota que o sistema económico não tem critérios para classificar as necessidades humanas, pelo que é “urgente uma grande obra educativa e cultural” sobre o poder de escolha dos consumidores.

Outra ameaça é a questão ecológica, ligada ao consumismo: “A pessoa, tomada mais pelo desejo de ter e do prazer do que pelo ser e de crescer, consome de maneira excessiva e desordenada os recursos da Terra e da sua própria vida” (37).

Por muitos outros motivos (a empresa como comunidade de trabalho, o conhecimento como nova mercadoria, o papel do Estado…), esta encíclica mantém actualidade, mesmo com a saída da "Caritas in Veriate". Como todas, deve ler-se com atenção, tendo em conta que a Igreja “não tem modelos [económicos] a propor” (43), mas tem a obrigação de lembrar os valores que devem ser respeitados por todos e quaisquer modelos.

Imagem: Cartoon de Luís Afonso no Jornal de Negócios de 5 de Maio de 2008

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Ikreja

“A Ikea é uma igreja. Aos domingos há mais famílias britânicas a prestar culto no santuário do design de mobiliário sueco do que numa igreja. Tornou-se um ritual entranhado na sociedade moderna – discutivelmente tão forte e rotineiro como a ida semanal à missa, há 40 anos. Cerca de 550 milhões de pessoas, em todo o mundo, visitaram a Ikea em 2007 e todas estão dispostas a fazer 150 quilómetros para lá chegar.

A Ikea tem tanto que ver com o ser como com o comprar. Trata-se de uma jornada de compras em que esperamos ser atraídos pela convicção da Ikea, segundo a qual podemos atingir o bem-estar do eu interior através da combinação entre design e preços baixos. O mundo da Ikea é semi-armazém e semicatedral”.

In “Boa Ikea”, de Elen Lewis, edições Gestão Plus

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...