Mostrar mensagens com a etiqueta Tempo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tempo. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Duas frases de Pascal para abrir

Há dias, uma frase de Pascal. Inesperada, pelo menos para mim:
"O tempo cura as dores e as querelas, pois mudamos: já não somos a mesma pessoa. Ele já não ama esta pessoa que amava há dez anos. É isso: ela já não é a mesma, e ele também não. Ele era jovem, ela também; ela agora é totalmente diferente. Talvez ele ainda a amasse se ela fosse como era."
(Daqui.)

Outra hoje, embora me pareça mais pascalina:
O último ato é violento, não importante quão refinado é o resto da peça. Atiram-nos terra para cima da cabeça, e ele acabou para sempre.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A mística da promoção



O último livro do P.e Tolentino Mendonça teve direito a um capítulo (ou excertos?) em avulso. Foi publicitado e distribuído com o "Público". Com pensamentos dele, foi feito um bloquinho que as livrarias distribuem gratuitamente (um dos pensamentos diz: "O paladar não é indiferente ao amor de Deus. Deus saboreia-se, Deus é sabor" - e ainda estou e tentar provar isso).

Só com isto acima, nunca vi um livro católico ser tão promovido. E só acho bem. Mas o que eu nunca tinha visto: pacotes de açúcar a promover um livro católico. Sim, pacotinhos da Delta com a capa de "A mística do instante". No instante em que alguém toma um café, lê (mais um pensamento do tal bloquinho): "Só nos resta o instante, só o instante nos pertence". Bate certo enquanto dura o café. Mas a seguir estamos atrasados para qualquer coisa.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Tolentino Mendonça entrevista Deus

Este é o entrevistador

Na "Revista" ("Expresso") de hoje, o Padre José Tolentino Mendonça conversa com Deus. Li a primeira coluna e não resisti a vir aqui dizer que vale a pena. Começa assim: "Conversando com Deus não se dá pelo tempo..."

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Aborrecimento

Não tenho, em oitenta e dois anos, nenhuma recordação de ter estado alguma vez aborrecido, exceto em reuniões mundanas ou diplomáticas, onde tive a impressão de que nada era sincero, nada era verdadeiro... Nunca.

Abbé Pierre, 1995

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Linhas tortas

Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 8 de dezembro de 2012

Sombras e tempo

Ao viver, vivemos rodeados de sombras. Queremos conhecer, queremos amar, queremos, queremos e incessantemente somos confrontados com as nossas limitações. Depois da morte, estamos naquilo que eu chamo "o sempre além do tempo".


Abbé Pierre, 1992

sábado, 24 de novembro de 2012

Anselmo Borges: O CERN e Fernando Pessoa

Artigo de Anselmo Borges no DN de hoje (daqui):



A descoberta do bosão de Higgs (ainda não há provas totalmente definitivas) aproximou-nos um pouco mais dos instantes que se seguiram ao Big Bang.

É fabuloso aonde a ciência está a chegar. Mas é claro que ela não poderá alcançar o Big Bang enquanto tal, pois trata-se de uma singularidade. Como é ainda mais claro que para a ciência não tem sentido perguntar: "e antes do Big Bang?", já que o tempo apareceu com o Big Bang. O "antes" tem já a ver com questões filosóficas e religiosas.

Rolf Heuer, director-geral do CERN

Começa, pois, a ser tempo de cientistas, filósofos e teólogos se juntarem para reflectir sobre a criação do Universo. E foi isso precisamente que aconteceu no passado mês de Outubro em Genebra. "Dei-me conta de que é necessário discutir isso", disse Rolf Heuer, director-geral do CERN. Como cientistas precisamos de "discutir com filósofos e teólogos o antes do Big Bang".

Para alguns, trata-se de uma questão sem interesse. Assim, para Lawrence Krauss, um físico teórico da Universidade Estatal do Arizona, aquela reunião não significava que os cientistas estejam interessados em Deus. "Não se pode refutar a teoria de Deus. O poder da ciência é incerto. Tudo é incerto, mas a ciência pode definir essa incerteza. Por isso, a ciência progride e a religião não."

Há, porém, quem lembre que foi um padre católico, professor de Física na Universidade Católica de Lovaina, a primeira pessoa a propor, em 1931, a teoria do Big Bang. E manteve a fé religiosa como sendo tão importante como a ciência, tornando-se inclusivamente presidente da Academia Pontifícia das Ciências até à sua morte, em 1966 [ver pequena nota sobre isso aqui]. E, ao contrário do que frequentemente se diz, Darwin também deixou escrito na sua autobiografia: "O mistério do princípio de todas as coisas é insolúvel para nós, e, pelo meu lado, devo conformar-me com permanecer agnóstico."

John Lennox, professor de Matemáticas na Universidade de Oxford, presente no encontro, declara-se cristão. Para ele, o facto de os seres humanos poderem fazer ciência pressupõe um mundo racional e, assim, a ciência abre para Deus: "Se soubesses que o teu computador é produto de um processo não guiado, sem sentido, não confiarias nele. Por isso, para mim, o ateísmo mina a racionalidade de que necessito para fazer ciência."

Andrew Pinsent, também da Universidade de Oxford, pensa que colaborar com a filosofia poderia ajudar a enfrentar as grandes perguntas. Por isso, Heuer sublinhou que é necessário continuar a dialogar, pois deparamos na nossa cultura com o problema da hiper-especialização, de tal modo que "a ignorância de outros campos pode causar problemas, como uma carência de coesão social".

Platão advertiu que é à volta de ser e do ser que os homens travam uma luta de gigantes (gigantomaquia). O que os une - religiosos, filósofos, cientistas - é precisamente esse combate. Somos todos convocados pelo mistério do ser, do existir algo: "Porque existe algo e não nada?"

Fernando Pessoa disse-o de modo inexcedível - fica aí o poema, lembrando o passado dia 15, Dia Mundial da Filosofia: "Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,/Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade,/Perante este horrível ser que é haver ser,/Perante este abismo de existir um abismo,/Ser um abismo por simplesmente ser,/Por poder ser,/Por haver ser!/- Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,/Tudo o que os homens dizem,/Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,/Se empequena!/Não, não se empequena... se transforma em outra coisa -/Numa só coisa tremenda e negra e impossível,/Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino -/Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,/Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,/Aquilo que subsiste através de todas as formas/De todas as vidas, abstractas ou concretas,/Eternas ou contingentes,/Verdadeiras ou falsas!/Aquilo que, quando se abrangeu tudo, não se abrangeu explicar porque é um tudo,/Porque há qualquer cosia, porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa!"

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O tempo e as palavras

Não me importo que olhem para o relógio enquanto eu prego - desabafa o padre. Arrelia-me é quando o tiram e abanam para ver se está a funcionar.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A fé cristã irá simplificar-se no futuro

Os dogmas constituem respostas a perguntas que deixaram de nos dizer diretamente respeito. Tornam-se acessíveis, de modo progressivo e imediato, mas só para o historiador; também a consciência histórica, como é sabido, sofre agora de erosão. Se a fé cristã não quiser tornar-se vazia, sem substância, e recusar a simples adaptação ao que não passa de moda, então, a única coisa a fazer é crescer em profundidade, mais do que em extensão, e viver mais conscientemente a partir do centro que tudo engloba. Também neste sentido, a fé cristã irá simplificar-se no futuro.


Walter Kasper, "Introdução à fé", 184

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Existência insignificante e marginal da fé?

O Cristianismo também está exposto à crítica, no seio da crise que abraça todos os reinos da cultura. Terá a fé cristã um futuro, na sociedade de amanhã? Poderá ela vir a prestar uma contribuição decisiva para o futuro ou ficará condenada a levar uma existência insignificante e marginal?


Walter Kasper, "Introdução à fé", pág. 171. Perguntas originalmente feitas em Munster e Tubinga em 1970-71.

domingo, 17 de junho de 2012

Fé e futuro

A absoluta ausência de futuro é a essência da morte. Fé sem futuro seria uma fé morta. Revelar-se-ia como irrealizável para o homem aplicado ao amanhã e não conseguiria fascinar ninguém. Também mais ninguém se engajaria por ela. Uma fundamentação da fé, de acordo com a problemática atual, tem de empenhar-se primeiramente em salientar a dimensão do futuro próprio da fé.


Walter Kasper, Introdução à fé, Telos, pág. 172

sábado, 26 de maio de 2012

Anselmo Borges: O tempo digital e o seu frenesim

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Enigma maior é o tempo. Lá está Santo Agostinho: "O que é o tempo? Como são o passado e o futuro, uma vez que o passado já não é e o futuro ainda não é?" E o presente? Mal dizemos "agora" e já caiu no passado. "Se, portanto, o presente, para ser tempo, tem de cair no passado, como podemos dizer que algo é, se só pode ser com a condição de já não ser?"

As culturas experienciam o tempo, cada uma a seu modo: nas tradicionais, o tempo privilegiado é o passado - lá está o mito do paraíso perdido; na modernidade, privilegiou-se o futuro - o passado é simplesmente o ultrapassado, a caminho da realização das utopias.

Por causa das novas tecnologias, sobretudo ao nível dos média - telefona-se, navega-se na Web, lê-se documentos ao mesmo tempo que se envia mensagens -, a vivência do tempo actual é a do tempo concentrado, do "curto prazismo" e até do imediatismo cumulativo. Aí está o tempo chamado digital ou numérico, que nos dá a sensação de quase simultaneidade e ubiquidade: pense-se na comunicação quase simultânea para todo o mundo. Afinal, o que se encurtou mesmo foi o espaço, que não pode ser separado do tempo: no mesmo dia, uma reunião no Porto, outra em Paris, uma terceira em Londres, com regresso ao Porto. Mas é sobretudo a computação que nos dá a possibilidade de contacto quase instantâneo com todo o mundo. Tudo é mais rápido - leio em Philosophie Magazine: num século, a velocidade de comunicação aumentou 107%, a dos transportes pessoais 102%, a do tratamento da informação 1010%.

Fazemos muito mais coisas em muitíssimo menos tempo. Vem então a pergunta da semana passada, aqui: porque é que todos se queixam da falta de tempo, em vez de aumentar o tempo livre? Resposta do sociólogo Hartmut Rosa: com os transportes e a Internet também se acelerou a vida social e entrámos numa lógica infernal de competição, de tal modo que somos devorados pelo produtivismo e consequente consumismo. A aceleração acabou por tornar-se "o equivalente funcional da promessa religiosa de vida eterna". Impôs-se-nos a multiplicação constante e frenética das experiências e das actividades, numa corrida sem fim.

Isto tem consequências também na economia? É evidente que sim. Investir implica uma vivência do tempo longo: quanto tempo leva para se receber os frutos do investimento? Assim, "o marketing substituiu a deliberação política, com a finalidade de lucros especulativos", escreve o filósofo B. Stiegler. A velocidade tecnológica foi posta ao serviço da guerra económica: em vez do investimento, a especulação.

Antepondo o fazer ao ser, somos melhores e mais felizes? Não há, pelo contrário, a sensação generalizada de cansaço e de stress? Precisamente porque "vivemos num tempo completamente descontínuo, disperso. Sem calendário, sem liturgia, sem ritual, já não conhecemos ritmo. Já não há tempo que permita o recolhimento do pensamento. Multiplicou-se a dispersão inerente ao mundo do quotidiano", observa a filósofa Françoise Dastur.

Afinal, mesmo se já há empresas que promovem cursos de meditação ou semanas de retiro num mosteiro, é para que os funcionários se tornem mais competitivos, no regresso ao trabalho. As pessoas vão para a cama - a duração média do sono baixou duas horas desde o século XIX - com o sentimento de culpa, pois não acabaram a lista dos afazeres.

Voltando a Hartmut Rosa, a aceleração tornou-se o novo modo da nossa alienação social: ao contrário das Igrejas, que, se criaram sentimentos de culpa nos fiéis, ofereciam alívio aos pecadores - podiam confessar-se, Jesus morreu para libertar dos pecados -, "a nossa sociedade da aceleração produz culpados sem remissão nem perdão".

Não é, portanto, de uma nova relação mais atenta e serena com o tempo que precisamos? "Deixemos que as nossas vidas sejam guiadas por aquilo que eu chamo momentos de ressonância": o contacto com a natureza, passeando; escutando a grande música, a alma corresponde, o mesmo podendo acontecer com um grupo de amigos; diante do mar, é como se o mundo respondesse e as suas ondas fossem a respiração do mundo.

sábado, 19 de maio de 2012

Anselmo Borges: A aceleração do tempo e a sua falta

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):



O tempo nunca ninguém o viu. Claro, não me refiro ao tempo meteorológico, mas àquele tempo que no faz envelhecer e morrer: um dia já cá não estaremos. O tempo tem que ver com a finitude: é o modo como o ser finito se vai fazendo.

Há múltiplas experiências do tempo. Ele há o tempo circular, cíclico - tudo vai e tudo volta -, e o tempo linear, histórico e ascendente. Há o tempo entrecruzado: no presente, está vivo o passado - ele é o futuro do passado -, como está presente o futuro enquanto conjunto de projectos, de sonhos, esperanças e expectativas.

Claro, há o tempo dos calendários e medido pelos relógios, e há o tempo da duração interior, como reflectiu penetrantemente o filósofo Henri Bergson: há o tempo mecânico, quantitativo, e o tempo da consciência, qualitativo. E lá está o tempo irrequieto e enervante de uma noite de insónia, que nunca mais passa, semelhante ao tempo pastoso de uma conferência inútil e insana, que nos precipita para o relógio vezes sem conta, perguntando quando é que aquilo acaba. Ah!, mas também há o tempo sem tempo, o tempo de uma sinfonia, o tempo do amor, o tempo da criação: aquele tempo a que se referia, por exemplo, o filósofo Sören Kierkegaard, tempo de bênção, tocado pela eternidade.

Durante muito tempo, o tempo parecia estagnado, imóvel: o que é que mudava? Com a modernidade, o tempo acelerou. Mais recentemente, por causa das novas tecnologias, que nos permitem desenvolver várias actividades ao mesmo tempo e estar em contacto com todo o mundo quase simultaneamente, tudo se passa vertiginosamente, deu-se a "aceleração do ritmo de vida", numa mudança não já apenas intergeracional, mas intrageracional: pense-se nos casamentos e divórcios e, no que se refere ao mundo do trabalho, nas mudanças de emprego e actividade: para um americano com estudos superiores, onze vezes. Por isso, como sublinha o sociólogo Hartmut Rosa, professor na Universidade Friedrich-Schiller de Iena, o pai já não diz ao filho: "O meu mundo é o teu", mas: "Presentemente, as coisas são assim, mas prepara-te para a mudança."

Aqui, precisamente, surge um paradoxo. De facto, devido às novas tecnologias, que permitem fazer rapidamente o que antes demorava imenso tempo - por exemplo, uma viagem que durava oito horas faz-se agora em três, o que dá um ganho de cinco horas; antes, uma carta demorava a escrever o tempo que agora basta para escrever vários e-mails - deveríamos nadar em tempo. Ora, o que se passa é que todos nos queixamos de falta de tempo: ninguém tem tempo para nada, é o que se ouve a cada canto.

Hartmut Rosa, autor de "Aceleração"
Explicação de Hartmut Rosa: a tecnologia, em vez de resolver o problema do tempo, só o agrava. Porquê? "Com os carros ou a Internet é também a vida social que se acelera. A torrente e a velocidade da actividade social aumentam." Sim, é verdade que com o tempo da escrita de uma carta agora escrevemos mais de dez e-mails. Mas cada vez escrevemos mais e-mails e lemos mais ainda. É uma lógica exponencial, que não é devida à tecnologia, mas a "uma lógica de competição que nos é própria". Produzimos cada vez mais bens e consumimos cada vez mais também, numa espiral sem fim. Há cada vez mais opções e possibilidades e cada vez menos tempo para cada coisa, cada interesse, porque "a única coisa que não podeis aumentar é o próprio tempo".

Afinal, que procuramos nesta corrida vertiginosa que nos devora? A aceleração é "o equivalente funcional da promessa religiosa de vida eterna. Já não acreditamos numa vida eterna: mesmo os crentes duvidam do que se passa depois e concentram-se na vida antes da morte. De repente, pomos o nosso desejo de eternidade na multiplicidade das nossas experiências. Sabemos que vamos morrer, mas, antes, há uma infinidade de experiências, de pessoas que queremos conhecer, encontrar. A vida boa é definida pela riqueza das experiências que podemos ter. Multiplicar por dois a velocidade permite multiplicar por dois as experiências. É isso que de modo difuso procuramos no prazer que pomos em multiplicar as nossas actividades". Pergunta-se: e somos mais felizes?

terça-feira, 13 de março de 2012

Faz teologicamente sentido rezar para que chova?

Estava visto que ia acontecer. Mais certo do que a chuva que há de vir, mais tarde ou mais cedo. Espero que mais cedo. O Bispo de Beja lamenta que “a população não acredita na providência divina, mas somente na previdência de Bruxelas” e que “noutros tempos já se teriam levantado súplicas ao céu a implorar a graça da chuva” (ler aqui) . Prestou-se a um coro de rizadas na imprensa portuguesa.

Como eu compreendo o Sr. Bispo, para quem tudo deve ser visto numa ótica de fé. E como compreendo os laicos colunistas, para quem tudo é visto numa perspetiva secular. Talvez, no entanto, os colunistas não saibam quer D. António Vitalino é um homem dado às tecnologias, sempre acompanhado do seu iPad, do seu portátil ou do seu smartphone (das três vezes que o vi tinha um destes objetos).

No entanto, arrisco que o pensamento dos colunistas é a mais correto. Faz sentido rezar para que haja alterações meteorológicas? Deus tanto faz chover sobre crentes como sobre ateus – vem nos evangelhos. Uma seca, um terramoto, um dilúvio ou um tsunami têm a ver com Deus? Sim, porque tudo tem a ver com Deus quando é interpretado pelos crentes, mais no para quê da vida do que no porquê dos fenómenos. Mas se pensarmos que a oração ou a falta dela tem interferência nestes fenómenos (em vez de ter no coração dos crentes, em primeiro lugar), arriscamo-nos a ver as catástrofes como castigos de Deus.

Como já alguém disse - e tem a ver com este assunto -, não sei se apoiado em alguma estatística oficial, a sinistralidade rodoviária não é menor nas estradas que levam a Fátima.

 No DN de hoje.

No JN de hoje.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

24 de fevereiro de 1582. Gregório XIII publica a bula que reforma o calendário

 Pormenor do túmulo de Gregório XIII, sobre a introdução do novo calendário

Foi no dia 24 de fevereiro de 1582 que Gregório XIII publicou a bula “Inter gravissimas”, que reformou o calendário juliano. Hoje, o calendário gregoriano é seguido pela maioria dos países, incluindo a China, desde 1949. A diferença principal entre o calendário juliano o gregoriano prende-se com os bissextos. No primeiro, há anos bissextos de quatro em quatro anos. No segundo, segue-se essa regra, mas acrescenta-se mais duas: 1) os anos divisíveis por 100 e cujo resto é zero – 1700, 1800, 1900… – não são bissextos; 2) mas os anos divisíveis por 400 já são, como foram os de 1600 e 2000. Com isto aproximou-se o ano do calendário ao ano solar. 

Agora, o ano gregoriano, em média, tem mais 27 segundos do que o ano solar, o que quer dizer que no ano 4782 (passados 3200 anos de entrada em funcionamento do calendário gregoriano) será necessário suprimir um dia, pois haverá 86 400 segundos de desfasamento, um dia completo. Se esse ano fosse bissexto, bastava suprimir o 29 de fevereiro. Mas não é.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

História do homem que nos possibilitou viver cada segundo



A história de Jost Bürgi, o homem que criou o primeiro relógio com a indicação dos segundos, é contada no Estação Cronográfica. Pelo meio aprendemos mais sobre o tempo, as torres das igrejas e a evolução da astronomia.
Jost Bürgi nasceu a 28 de Fevereiro de 1552, na aldeia de Lichtensteig, de que o avô era ferreiro e administrador de uns 400 habitantes, na região suíça de Toggenburg. Numa Europa varrida pelos ventos da Reforma, descendente de família católica, possivelmente dividido de sentimentos, Bürgi emigrou cedo, não se sabendo ao certo onde terá aprendido o ofício de relojoeiro, depreendendo-se que a arte metalúrgica lhe veio de casa. Terá passado por Nuremberga, Augsburg, Cremona, na altura grandes centros relojoeiros.

Guilherme IV, em carta de 14 de Abril de 1586, dirigida ao maior astrónomo da altura, Tyhco Brahe, fala-lhe de um relógio extraordinário, muito preciso, que Bürgi tinha construído no ano anterior e que, pela primeira vez tinha, além dos ponteiros das horas e dos minutos, um indicando os segundos, e que acumulava um erro de menos de um minuto em 24 horas. O landgrave estava maravilhado com o suíço, que tinha “a capacidade de inovação de um segundo Arquimedes”, traduzida no “pars minuta secunda” da nova máquina de medir o tempo.
Bürgi morreu no dia 31 de janeiro de 1631, a 2.419.200 segundos de fazer 80 anos.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Anselmo Borges: O tempo, a crise e a transcendência

Texto de Anselmo Borges, no DN de hoje.


Vaclav Havel

Enigma maior é o do tempo. Não o tempo meteorológico, mas aquele tempo que nos faz envelhecer e desaparecer, morrer os nossos pais e amigos, aqueles a quem mais queremos, que tudo devora e anula. Naquele seu abismo devorador, tudo se despenha, e torna-se como se não tivesse sido.

Já Santo Agostinho se abismava perante o enigma: o que é o tempo? Eu sei. Mas, se alguém me perguntar e eu quiser responder, já não sei. Porque o passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente nunca se capta. Ah, se soubéssemos o que é o tempo, teríamos talvez descoberto o mistério de ser e do ser.

Mas é decisivo perceber que já os gregos apresentaram dois grupos semânticos fundamentais referentes ao conceito do tempo: chrónos, o tempo quantitativo e linear, para significar o fluir inelutável do tempo, sem qualquer possibilidade de intervenção humana, e kairós, incidindo sobre o tempo qualitativo, enquanto crise e enquanto oportunidade, para referir aqueles momentos no tempo em que o homem é convocado a uma intervenção decisiva. Chrónos devora os seus próprios filhos, segundo o mito; kairós é a oportunidade oferecida aos homens para a viragem e a conversão, e tem também a ver com aquela experiência de pontos no tempo tangidos pela eternidade - pense-se na experiência da beleza, do amor, da música, da criação -, quando o tempo na sua voragem fica suspenso e mesmo anulado. A experiência da transcendência!

No termo de mais um ano, de forma mais intensa, é o enigma do tempo que outra vez nos visita, na sua dupla face: o tempo cronológico (devorador) e o tempo kairológico (criador).
Quantos neste ano deixaram de cá estar! Um fim de ano qualquer também já cá não estaremos.

Entre tantos que partiram - partiram para onde? (no domínio da ultimidade, a linguagem atraiçoa-nos sempre)-, fica aí, gigante na luta pela liberdade, no humanismo, na fundura e na altura do pensar político, Vaclav Havel.

É iniludível o seu pensar precisamente sobre o tempo, a crise e a transcendência, como, entre nós, chamou a atenção Jorge Almeida Fernandes.

O que provoca a crise maior do nosso tempo senão a vivência do tempo apenas como imediatidade de sucesso, produção e consumo, esquecendo a dimensão moral, metafísica e trágica da existência? Lá estava Havel a avisar em 2007: "O Ocidente democrático perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar como seus. O pragmatismo dos políticos que querem ganhar futuras eleições, reconhecendo como autoridade suprema a vontade e os humores de uma caprichosa sociedade de consumo, impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e trágica da sua própria linha de acção. Uma nova divindade tende a suplantar o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e de um consumo incessantemente crescentes".

Tenho aqui repetido que, numa sociedade sem transcendência nem eternidade, o tempo não faz texto, pois tudo se dissolve no aqui e agora, na pura imediatidade. E isso, claro, tem consequências até na economia. Vaclav Havel constatou: "Estamos a viver na primeira civilização global", acrescentando: "Mas também vivemos na primeira civilização ateia, isto é, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade." Consequências: uma civilização "obstinada em perseguir objectivos a curto prazo", "o que é importante é que um investimento seja rentável em 10 ou 15 anos" e não os efeitos dentro de 100 anos. Depois, "o orgulho", a hybris dos gregos. Por isso, suspeitava que a "nossa civilização caminha para a catástrofe", a não ser que cure "a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho".

Achava que "o desenvolvimento desenfreado de uma civilização deliberadamente ateia deve alarmar-nos". Considerava-se apenas meio crente, mas com "a certeza de que tudo no mundo não é apenas efeito do acaso" e convencido de que "há um ser, uma força velada por um manto de mistério. E é o mistério que me fascina." Afinal, "a transcendência é a única alternativa à extinção".




Ler reflexão com as palavras de Havel e alguns pontos de semelhança com este texto aqui.

domingo, 13 de novembro de 2011

Enterros inúteis


Há tempos, na papelaria onde habitualmente compro o jornal, deixei cair uma moeda. E apanhei-a de imediato. O dono (mudou; agora é dona) olhou para mim com cara de espanto, como se esperasse um comentário meu. Eu lá tive de deixar o habitual:
- Ele não nasce.
O sr. tinha a resposta gatilhada e disse logo:
- Você não lhe dá tempo.

Saí da papelaria a pensar: “Cá está uma resposta boa…” Mas hoje vejo que a resposta não só não é boa como tem a inutilidade provada. Na parábola dos talentos, por alguns dita "capitalista", hoje proclamada nas missas, aquele a quem foi dado um único talento enterrou-o. E ele, de facto, não nasceu. Não é mesmo uma questão de tempo.

domingo, 6 de novembro de 2011

Bento Domingues: A crise dos santos

Excelente texto de Bento Domingues, no "Público" de hoje. "Quem, na Igreja, se assustar com alguns cortes nos feriados religiosos deve lembrar-se que em todas as semanas há um domingo", diz, tendo afirmado antes que "cortes ou deslocações de feriados de origem religiosa não devem encontrar, nem da parte dos fiéis, nem da hierarquia, uma oposição muito dura". Na base, está uma concepção cristã que, no fundo, desacraliza o tempo e o espaço. Por mim, sendo a Páscoa sempre ao domingo, só manteria como feriado o 25 de Dezembro. E mesmo o dia de Natal poderia ser transferido para um domingo próximo.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...