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terça-feira, 7 de abril de 2015

Laicidade, o que é?, por Claudio Magris


"Laicidade não é um conteúdo filosófico, mas sim um âmbito mental, a capacidade de distinguir o que é demonstrável racionalmente do que, pelo contrário, é objeto de fé - independentemente da adesão ou não a essa fé - e de distinguir as esferas e os âmbitos das diferentes competências, por exemplo, as da Igreja e as do Estado, o que - precisamente conforme o dito evangélico - se deve dar a Deus e o que se deve dar a César."

Claudio Magris, na pág, 24 do admirável "A História não acabou. Ética, Política, Laicidade", Quetzal

sábado, 5 de outubro de 2013

Anselmo Borges: "Ratisbona, laicidade e laicismo"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


Quando, após o que parecia a "Primavera Árabe", surgiu um inverno, igrejas são destruídas e cristãos mortos - o Grande Mufti da Arábia Saudita, Abdul Aziz bin Abdullah, acaba de declarar que "é necessário destruir todas as igrejas da região" -, não falta quem se lembre do famoso discurso de Bento XVI em Ratisbona, no dia 12 de Setembro de 2006. Tratou-se de uma lição universitária na Aula Magna da universidade na qual tinha ensinado. A reacção de alguns sectores muçulmanos foi violenta.

Bento XVI começou por dizer que tinha acabado de ler a parte editada pelo professor Th. Khoury, de Münster, do diálogo que o douto imperador bizantino Manuel II, o Paleólogo tivera em 1391 com um persa culto sobre o cristianismo e o islão e a verdade de ambos. A um dado momento, o imperador toca o tema da jihad, guerra santa. Certamente, ele sabia que na sura (capítulo) 2, 256, talvez uma das suras do início, quando Maomé ainda não tinha poder e era ameaçado, se lê: "Não deve haver coacção na religião." Mas conhecia também as disposições posteriores acerca da guerra santa. Ora, "de modo surpreendentemente brusco, a ponto de ser para nós inaceitável, dirige-se ao seu interlocutor simplesmente com a pergunta central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: "Mostra-me o que é que Maomé trouxe de novo e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como a sua directiva de difundir por meio da espada a fé que pregava"." O imperador explica em seguida as razões por que a difusão da fé através da violência é um comportamento irracional. A violência é contra a natureza de Deus e a natureza da alma. "A Deus não agrada o sangue, diz o imperador. Não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus".

É esta a ideia que Bento XVI queria sublinhar: "A afirmação decisiva nesta argumentação contra a conversão através da violência é: não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus." Para o imperador, formado na filosofia grega, esta afirmação era evidente. Na compreensão muçulmana, porém, porque Deus é absolutamente transcendente, a Sua vontade não está ligada a nenhuma das nossas categorias, nem sequer à racionalidade, de tal modo que, se fosse essa a Sua vontade, "o Homem deveria praticar também a idolatria".

Aqui, para Bento XVI, abre-se um dilema que nos desafia: "A convicção de que agir contra a razão está em contradição com a natureza de Deus é só um pensamento grego ou vale sempre e por si? Eu penso que neste ponto se manifesta a profunda concordância entre o que é grego no melhor sentido e o que é fé em Deus com o fundamento na Bíblia." Lá está o prólogo do Evangelho de São João: "No princípio, era o Logos", que significa ao mesmo tempo razão e palavra, "uma razão que é criadora e capaz de comunicar-se, mas precisamente como razão".

Ainda nesse ano, Bento XVI visitou a Turquia. No regresso, declarou que o mundo muçulmano se encontra hoje, "com grande urgência", perante uma tarefa semelhante à dos cristãos a partir do Iluminismo e que o Vaticano II levou a bom termo. "É necessário acolher as verdadeiras conquistas do Iluminismo, os direitos humanos e especialmente a liberdade da fé e do seu exercício, reconhecendo neles elementos essenciais também para a autenticidade da religião." Mas, por outro lado, não deixou de prevenir para os perigos do laicismo, que quer retirar a religião do espaço público, cortando a relação com a Transcendência. Não é aceitável "uma ditadura da razão positivista que exclui Deus da vida da comunidade e dos ordenamentos públicos, privando assim o Homem de critérios específicos seus de medida".

Por mim, penso que este diálogo, que foi tão difícil para Igreja Católica, o será ainda mais para o mundo islâmico. De facto, enquanto Jesus disse que se deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, mandou Pedro meter a espada na bainha, e os cristãos nunca entenderam a Bíblia como ditado de Deus; o Alcorão, para lá de um livro sagrado, vindo directamente de Deus, é um código civil e penal, e Maomé, para lá de fundador religioso, foi também um líder político e militar.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

El comandante


A notícia diz que o...


Governo da Venezuela proíbe notícias sobre escassez de bens


Mas eu olhei foi para a imagem que tem um Senhor que querem fazê-lo "dos exércitos". Só que ele, como mostra a imagem, não é "dos exércitos". É "das vítimas".

sábado, 31 de agosto de 2013

Anselmo Borges: "O que pensa Francisco: 3. sobre as religiões"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje: 

Qual é o determinante da religião, de tal modo que se pode garantir que ela vai ter sempre futuro? "Quando queremos ser sensatos, sinceros com aquilo que sentimos, manifesta-se uma inquietação profunda face ao Transcendente." Essa inquietação, que é "inerente à natureza humana", "chega mesmo a aparecer em pessoas que não ouviram falar de Deus ou que tiveram nas suas vidas posições antirreligiosas ou imanentistas e que, de repente, se deparam com algo que as transcendeu. Enquanto essa inquietação existir, existirá a religião, haverá formas de religação a Deus". A religião autêntica está em busca permanente. Por isso, uma religião puramente ritualista está destinada a morrer: enche-nos de ritos, mas "deixa-nos um vazio no coração".

A procura religiosa não terminou, continua forte, também em movimentos populares de piedade, "maneiras de viver o religioso de forma popular". O que está é "um pouco desorientada, fora das estruturas institucionais". O desafio maior para os líderes religiosos é o de "uma atracção através do testemunho", excluindo o proselitismo. É preciso procurar a autenticidade, mas, "quando isso significa apenas o prescritivo, cumprir regras, cai-se num purismo que também não é religioso".

Porque há várias religiões? "Deus faz-se sentir no coração de cada pessoa. Também respeita a cultura dos povos. Cada povo vai captando essa visão de Deus, tradu-la de acordo com a cultura que tem e vai elaborando, purificando, vai-lhe dando um sistema."

A relação religiosa autêntica implica um compromisso: "É necessário envolvermo-nos no mundo, mas sempre com base na experiência religiosa", evitando o risco de "agir como uma ONG". Quem acredita em Deus tem, nessa experiência, uma missão de justiça para com os seus irmãos, "uma justiça criativa, porque inventa coisas: educação, promoção social, cuidados, alívio, etc."

A fé tem de dialogar com a cultura. Mais: deve "criar cultura", uma cultura diferente das "culturas idólatras" da nossa sociedade: "o consumismo, o relativismo e o hedonismo são exemplo disso". "Uma fé que não se torna cultura não é uma verdadeira fé." Também dialoga - Bergoglio é químico - com a ciência, que, "dentro da sua autonomia, vai transformando incultura em cultura", devendo estar atenta, pois "a sua própria criação pode escapar-lhe das mãos".

A globalização a defender tem de ser "como a figura de um poliedro, onde todos se integram, mas cada um mantém a sua peculiaridade, que, por sua vez, vai enriquecendo os outros". "A globalização que uniformiza é essencialmente imperialista e instrumentalmente liberal, mas não é humana."

Defende o Estado laico: "A convivência pacífica entre as diferentes religiões vê-se beneficiada pela laicidade do Estado, que, sem assumir como própria nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença do factor religioso na sociedade."

Apontou o ecumenismo como uma das prioridades do seu pontificado: "Desejo assegurar a minha vontade firme de prosseguir com o diálogo ecuménico." Continuará igualmente o diálogo inter-religioso: "A Igreja Católica é consciente da impor-tância que tem a promoção da amizade e do respeito entre homens e mulheres de diferentes tradições religiosas. Quero repetir: promoção da amizade e do respeito entre homens e mulheres de diferentes tradições religiosas." Como sinal disso, enviou uma mensagem pessoal aos muçulmanos, por ocasião do fim do Ramadão, advogando "o respeito mútuo", pondo fim às "críticas e difamações" por parte das duas religiões.

O diálogo é activo e exerce-se de múltiplos modos. A Igreja Católica "também é consciente da responsabilidade de todos pelo nosso mundo, pela criação inteira, que devemos amar e guardar. E podemos fazer muito pelo bem dos mais pobres, dos mais débeis, dos que sofrem, para promover a justiça e a reconciliação, para construir a paz. Mas, acima de tudo, devemos manter viva no mundo a sede de absoluto, não permitindo que prevaleça uma visão da pessoa humana unidimensional, segundo a qual o ser humano se reduz ao que produz e ao que consome: trata-se de uma das ciladas mais perigosas do nosso tempo".

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Viver com o que temos

O horizonte de experiência atual coloca cada vez menos claramente, diante do nosso questionamento sobre a vida, esta resposta: "...Aí está, é Deus".

Karl Rahner

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Palestras versus sermões


Como conseguimos viver juntos? Como toleramos as falhas dos outros? Como podemos aceitar as nossas limitações e mitigar a nossa ira? (...) A diferença entre a educação cristã e a educação secular revela-se com especial clareza nos seus respetivos modos característicos de instrução: a educação secular faz palestras, o cristianismo sermões.

Alain de Botton, "Religião para ateus" (D. Quixote), pág. 115



domingo, 7 de outubro de 2012

Bento Domingues: "A religião terá futuro?"


Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje. "É próprio da idolatria absolutizar obras das nossas mãos. (...) A verdade é fruto de uma busca humilde e do acolhimento da divina graça".

quarta-feira, 14 de março de 2012

Para que serve rezar?

No "Público" de ontem, a propósito das declarações do Bispo de Beja sobre a fé e chuva (aqui).


Que um bispo lamente que não se reze a pedir chuva tanto deixa algum desconforto sobre o que se entende como efeito da oração e sobre o que se entende da transcendência de Deus, como deixaria se dissesse precisamente o contrário, que não se deve rezar para este tipo de coisas (poderia sempre dizer: "Mal, não faz").


E quando foram salvos os pescadores de Caxinas, quantos não viram a mão de Deus ou de Nossa Senhora no caso? E quando tiraram os mineiros do Chile, que passaram parte do tempo a rezar lá no ventre da terra? Seria legítimo dizer-lhes que a confiança em Deus, em Maria, nos santos de nada valeu se não fosse o engenho humano?


E porque é que é a Igreja rituais de bênçãos para tudo e mais alguma coisa? Se a viatura benzida tiver um acidente pede-se indemnização por uma bênção mal feita? Ou procura-se pela falha técnica ou humana?


Falta, sem dúvida, um discurso coerente sobre o que foi e é a secularização e sobre o poder (ou ausência dele) da oração cristã. A superstição espreita por todo o lado. E a exigência, a procura de coerência, pode parecer falta de fé.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Acordo é acordo, diz a Igreja em relação aos feriados

No "i" de hoje.

Talvez o governo esteja a querer livrar-se de eliminar o 5 de Outubro, já que em relação ao 1 de Dezembro não haverá tantas dificuldades. Afinal, os monárquicos, que também têm razões para comemorar o 5 de Outubro (assinatura do Tratado de Zamora, em 1143), não terão tanta força como os maçons, que não querem por nada perder um diazinho muito deles.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A. C. Grayling escreveu uma bíblia secular. Será que salva?

Entrevista no "i" de 26 de Novembro. Sobre um livro que aguardo com alguma curiosidade.



O livro inclui os "10 Mandamentos Ateus". Em que se diferem dos mandamentos judeo-cristãos? O bem em nome do bem. Eu prefiro Deus, que além de bem é também o/a belo/a e a verdade.

1. Ame bem
2. Busque o bem em todas as coisas
3. Não faça mal aos outros
4. Pense por si mesmo
5. Assuma responsabilidade
6. Respeite a natureza
7. Faça o seu melhor
8. Seja informado
9. Seja bondoso
10. Seja corajoso - ao menos tente sinceramente

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Back to basics



Ao ver os distúrbios de Londres e de outras cidades inglesas, lembrei-me de uma frase de João Maria Vianney que diz que numa paróquia sem padre, numa geração, a pessoas transformam-se em bestas. Quando comecei a escrever estas linhas foi confirmar a frase do pároco de Ars. E o que diz é outra coisa: “Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas”. Mas continua a servir para esta reflexão.


Isto é despropositado em relação ao que passa na Inglaterra? Será somente um caso isolado e fruto da crise económica? Penso que não ao ver o que move os que causam distúrbios. Não há ideologia (que não desculparia os distúrbios) nem causas ou valores. Aliás, a ausência de valores morais em todo aquele caos talvez explique o panorama – o que leva José Manuel Fernandes a escrever hoje no “Público”, que “se não existir um sentido moral nas nossas regas de vida em comum, não haverá ordem nas nossas cidades”.


É sabido que muitos daqueles jovens passaram a nada ter que fazer devido ao fecho de clubes e outras organizações que viram os seus orçamentos diminuídos por causa da austeridade imposta pelo governo. Mas já não é tão dito – isso geralmente não entra nas reflexões dos sociólogos e comentadores políticos – que é uma geração sem qualquer referência religiosa. E aqui entra, em dúvida, o pensamento do cura d’Ars, mesmo que não se simpatize com o seu estilo pastoral (duvido que tê-lo proposto como modelo para os padres actuais, coisa que fez bento XVI em 2009, tenha servido para algo).


Ouvi há tempos que um responsável prisional português disse que, no percurso dos que estão nas prisões portuguesas, geralmente faltou a catequese. Não o disse certamente por beatice.


Ainda está por provar que uma sociedade consegue viver sem uma ou várias religiões que lhe dêem um substracto moral. As tentativas voluntariosas de construir comunidades sem Deus nunca resultaram. Mas em sociedades em que a irreligiosidade é resultado da liberdade individual – a Inglaterra é dos países onde as liberdades individuais há mais tempo são respeitadas e dos mais descristianizados, onde hoje se discute se o cristianismo não estará a chegar ao fim, principalmente na versão anglicana –, fica por saber se restará espaço para os valores humanos. Temo que não.


quarta-feira, 23 de março de 2011

Prevejo que o futuro não vai ser como prevêem

Comentando a entrada anterior, um leitor disse:


Antes: Deus, Pátria e Família.
Agora: Adeus, Pátria e Família.


Não conhecia a piada. Fica registada. Obrigado.


Em relação a toda a Europa ficar como os nove países sem religião (digo "sem religião" e não "ateus" porque ser ateu também dá um bocado de trabalho), não creio, além de não imaginar por que é que a Itália seria a excepção e não Portugal, Malta ou a Polónia.


As surpresas acontecem, além de que, como afirmou um bispo, nós (Portugal, Europa) não éramos tão cristãos como supúnhamos, nem seremos tão irreligiosos como se diz. E depois há os teólogos que dizem que o cristianismo não é uma religião, mas antes a fé da saída da religião. O fim de religião será, então, uma consequência do cristianismo.


Outros, como Harvey Cox (ver vídeo pelos 1m20s), parecem que estão arrependidos da predições do desaparecimento da religião, feitas nos anos 60 e 70. A única previsão certa a longo prazo, além da que diz que estaremos todos mortos - são sei se se abre excepção para os congelados -, é que o futuro não será como agora se prevê.



  

domingo, 23 de janeiro de 2011

Cristãos num estado felizmente laico

Os cristãos num estado laico

Luis González-Carvajal Santabárbara

Gráfica de Coimbra 2

178 páginas


Dificilmente um livro escrito a partir da realidade de outro país poderia dizer tanto a Portugal como este. “Os cristãos num estado laico”, de Luis González-Carvajal Santabárbara, logo na primeira linha mostra que fala de Espanha – “Franco morreu no dia 20 de Novembro de 1975” –, mas o tema e o seu desenvolvimento são perfeitamente aplicáveis ao caso português.

Espanha e Portugal passaram por ditaduras e alcançaram a democracia praticamente ao mesmo tempo. Foram e são tanto clericalistas como anticlericalistas. E hoje assistem a correntes laicistas mais ou menos conscientes em sectores sensíveis como a educação, a saúde ou cultura. Tem sido observado que em Espanha o extremismo é sempre maior. Não só há mais anticlericalismo como a Igreja, principalmente o episcopado, é mais aguerrida. Em Portugal os costumes são mais brandos e os confrontos nunca são assumidos abertamente.

Este livro dá umas breves notas históricas e define conceitos como clericalismo, laicismo, laicidade, destacando a doutrina conciliar; fala das soluções legislativas, que têm sido sempre imperfeitas; aponta valores e lugares para presença pública dos cristãos; sugere uma útil mudança de sensibilidade aos cristãos; aborda por fim a questão do financiamento (de parte das actividades) da Igreja pelo Estado.

González-Carvajal aponta critérios e orientações, muitas vezes iluminados por uma situação histórica, para que os cristãos de hoje possam ter comportamentos públicos coerentes com a sua identidade num Estado que é e será, como diz, irremediável mas felizmente laico.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Esperança mas sem ilusão - Entrevista com D. Manuel Clemente


Mais uma entrevista com D. Manuel Clemente, com enfoque no norte do país.

Um excerto:

José Leite Pereira (JN/TSF): Não queria perder a oportunidade de falar consigo, Sr. D. Manuel, sobre a sua homilia no início do ano de combate ao laicismo, que no fundo, tem a ver com o que estivemos a falar: do envolvimento dos cidadãos.

D. Manuel Clemente: Exactamente. A laicidade é uma enorme conquista da civilização. Essa, sim, é uma verdadeira conquista da civiloização porque é uma redescoberta e um aprofundamento da realidade pessoal como dinamismo de apreensão, escolha, opção e decisão em termos daquilo a que se chama a verdade. A verdade em geral, mas, sobretudo, a verdade como ela é sentida por cada um. O respeito pela pessoa e pelas suas opções, religiosas ou não - o Papa diz na sua mensagem para este ano que a liberdade religiosa também permite a alguém não só mudar de religião como até não ter nenhuma. É uma liberdade da pessoa em relação à verdade da pessoa. A laicidade e secularidade é um grande bem. O laicismo, sobretudo como ele foi protagonizado em alguns sectores mais radicais desde a revolução francesa e depois se espalhou, em especial, na Europa latina, é outra coisa. É dizer que as convicções religiosas dos cidadãos não têm nem devem ter nenhuma projecção pública. Isto é mau e é exactamente o contrário da laicidade. A laicidade respeita a liberdade religiosa da pessoa. O laicismo suprime essa liberdade religiosa porque a põe apenas no seu intímo, na sua consciência.

JLP: Isso seria um tema bom para outro programa. De qualquer modo creio que o Sr. D. Manuel não subscreve as palavras do Cardeal espanhol, o Arcebispo Roco, que, curiosamente no mesmo dia, falando do combate ao laicismo, dizia que era preciso lançar uma reconquista pela Espanha que estava demasiado laica. Estamos a falar de duas personalidades muito diferentes: a sua e a do Cardeal espanhol. Também penso que as suas visões são um pouco diferentes das dele.

DMC: Sobretudo não uso nem sinto as coisas em termos belicistas. Compreendo historicamente a palavra reconquista. Sou capaz de a situar em Espanha que, tal como Portugal, nasceu num quadro da chamada reconquista cristã. Compreendo a alusão histórica, mas não gosto de utilizar esse tipo de terminologia porque acho, antes de mais, que serve mais para distanciar as posições do que propriamente para fazermos qualquer coisa em conjunto e nos reencontrarmos mais à frente.

Pode ser lida on-line, aqui.


Mais entrevistas com o Bispo do Porto e Prémio Pessoa 2009 aqui.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Sotaina

Toda a minha vida foi fundada na ideia de que Deus não traz sotaina. Eu creio em Deus de forma laica.

Jean Guitton (1901-1999)

domingo, 22 de agosto de 2010

O pó das nossas certezas

“Creio em Ti, Deus em devir, Deus movimento, Deus presente, mas ao mesmo tempo futuro. Deus que nos liberte e também nos ajude a desembaraçar-nos do pó das nossas certezas” (Claude Simon).

Esta frase aparece num livro sobre o que significa acreditar e evangelizar no mundo actual. Neste caso, mundo actual quer dizer França, que é um dos países mais descristianizados da Europa, apesar de os autores do livro, provavelmente, não gostarem do termo.

O livro em questão é "La sortie de la religion, est-ce une chance?" [A saída da religião é uma oportunidade?], de Michel Gigand, Michel Lefort, Jean-Marie Peynard, José Reis e Claude Simon (Ed. L’Harmattan, 193 páginas). Tem por base a experiência dos padres operários da região dos Calvados (Baixa Normandia, norte de França). Muita gente da Igreja não gostará do livro. Afirma coisas como “Sim, nós cremos que não haja outro lugar para encontrar Deus a não ser a humanidade”. E: “O cristianismo é a religião da saída da religião” (frase já neste blogue usada). E ainda: "Deus não será totalmente Deus enquanto a humanidade não estiver realmente de pé, autenticamente humana".

O artigo sobre o livro pode ser lido aqui em francês. Mas cheguei lá por uma tradução portuguesa, aqui.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Leituras matutinas: Secularismo, o aliado mais próximo da fé

Num contexto como o nosso, que parece marginalizar a fé pelo surgimento das consequências do secularismo, é importante reafirmar que é justamente ele o aliado mais próximo da fé. Já chegou o tempo em que, cansados das suas promessas nunca efectivadas e fortalecidos pela consciência das ilusões que ele trouxe, o olhar de muitos se volta de novo para aquilo que abandonaram ou consideraram supérfluo. Aliás, a promessa de viver «como se Deus não existisse» não ajudou a atingir a ansiada meta da maturidade humana e da autonomia das decisões pessoais. A liberdade tem um preço bem mais alto do que a recusa de Deus!

Rino Fisichella in "A fé como resposta de sentido", ed. Paulinas, 8.

domingo, 27 de junho de 2010

Bento Domingues: Uma confiante peregrinação da razão


Bento Domingues fala da conversão de Anthony Flew como consequência de "seguir a razão para onde quer que ela nos leve". Outro texto sobre Anthony Flew pode ser lido aqui. O livro inicialmente apontado por Bento Domingues, sobre o regresso da fé, está aqui referido.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...