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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Dinheiro 3 - O ladrão piedoso


Mais dinheiro, ou falta dele. No JN de hoje. Quase que o padre lhe dava as pratas, como o bispo a Jean Valjean.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Crime e recompensa



O iluminista Thomas Paine (1737-1809) disse que "a religião cristã começa com um sonho e termina com um assassinato". Quase que acertava. O assassinato é só o intervalo. Também poderia dizer que começa com um assassinato, continua com uma recompensa e o sonho não termina nunca. O sonho infundido pelo assassinado.

sábado, 24 de setembro de 2011

Anselmo Borges: O milagre do perdão


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Já no avião, vindo de Santander, aonde fora participar num curso de Verão sobre "Transformação da Teologia na situação actual: pluralismo religioso e secularização", leio no El País um daqueles casos que nos dão o melhor da Humanidade.
Ameneh Bahramí é uma mulher iraniana de 32 anos, que não aceitou uma proposta de casamento com Majid Mohavedí. Por causa disso, este atirou-lhe ácido à cara, e ela não só ficou com o rosto desfigurado como perdeu a visão dos dois olhos. Um tribunal decidiu então aplicar a lei de talião, ainda vigente no Irão, e que Majid Mohavedí perdesse também a visão. Aplicação da lei de talião: olho por olho, dente por dente.
No passado dia 7 de Agosto, sete anos depois, estava tudo preparado, a própria televisão iraniana dispunha-se para dar conta do horror. Na sala de um hospital, Majid Mohavedí esperava de joelhos que Ameneh Bahramí executasse a sentença e deitasse nos olhos dele as gotas de ácido que o deixariam igualmente cego. Mas Ameneh Bahramí perdoou-lhe.
O jornal acrescenta que não renunciou ao que é conhecido como "preço de sangue" na legislação islâmica: uma compensação económica pela dor sofrida: 150 000 euros, que o autor da barbaridade deverá pagar, se quiser sair da prisão. E comenta que é verdade que ela foi pressionada pela Amnistia Internacional e outras organizações que defendem os direitos humanos para que concedesse o perdão que só ela podia conceder. Mas, "seja como for, fê-lo. E paralisou assim a abominável norma que consagra a vingança como medida com que fazer justiça".


Ameneh Bahramí

Mesmo nas piores circunstâncias, ainda é possível a Humanidade erguer-se às alturas da generosidade. "O irreparável não pode remediar-se com mais destruição. É o que ficará do gesto desta mulher a quem destroçaram com ácido o rosto (e a vida)." E é esta grandeza que está também por trás da carta que um jovem de 16 anos que sobreviveu à matança de Oslo dirigiu a Anders Behring Breivik, o verdugo de tantos dos seus amigos.
Fracassaste, disse-lhe, "não respondemos ao mal com o mal".
Se houve tema no qual Jesus insistiu foi no do perdão. "Quantas vezes se deve perdoar?", perguntou-lhe Pedro. "Sete?" E Jesus respondeu: "Setenta vezes sete", isto é, sempre.
Porque o Deus de Jesus é o Deus do perdão, da bondade, da misericórdia. Mas, no fundo, raros são os cristãos que acreditam nesse Deus. Preferem o Deus que mete medo e se vinga. E a prova está em que se continua a oferecer a Deus sacrifícios, para implorar a sua misericórdia e compaixão. Mas como é que um Deus infinitamente bom - o Amor - pode precisar de sacrifícios para aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade? Talvez porque, se Deus se vingasse, nós também poderíamos fazê-lo.
Quando se trata de perdão mesmo, é preciso reconhecer que estamos perante um milagre. Porque o perdão transcende a justiça e o jurídico: de facto, nem o verdugo tem direito a ser perdoado nem a vítima é obrigada a perdoar. É o dom e a graça. Por isso, Vladimir Jankélévitch distinguia, com razão, entre desculpa e perdão. A desculpa é condicional: depende da capacidade de compreender o mal feito, que se explica. O perdão é incondicional: depende do poder criador do amor, confrontado com a malvadez, esse enigma do mal querido livremente. "Por isso, as 'razões' de perdoar praticamente não são mais admissíveis que as 'razões' de crer; se perdoamos, é porque não temos razões; e se temos razões, há a desculpa, não o perdão." E isto não é permissivismo, pois o amor é o mais exigente que há.
Se pensarmos até ao fim, lembrando as vítimas inocentes, não será difícil vir à ideia que só Deus pode perdoar. Como escreveu o filósofo agnóstico Jacques Derrrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência, "qualquer coisa de trans-humano": "na ideia do perdão, há a da transcendência", pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí começa o domínio da religião. "A partir desta ideia do impossível, deste 'desejo' ou deste 'pensamento' do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito tentar-se uma génese do religioso".

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Vaticano no banco dos réus por pedofilia

Notícia do DN de 2 de Junho

Não sei se há alguma viabilidade jurídica em processar o Vaticano por causa do crime de pedofilia de pessoas individuais. Espero que não. Para todos os efeitos, o Vaticano tem bens apetecíveis para advogados experientes se atirarem a eles. Não me parece que esteja aqui em causa a honesta tentativa de reparação em relação a um mal cometido.

Mas por outro lado compreendo a lógica – ou uma linha de contacto – e isso tem a ver comigo como eclesialmente católico. Mesmo que não haja relação entre celibato e pedofilia, se dizem que a pedofilia é transversal aos estados e identidades sexuais, há relação entre Igreja Católica e a sexualidade dos seus ministros qualificados (o clero).

A Igreja, com a justificação de que é pelo Reino e pela sua antecipação, pela dedicação total, para ser sinal, por disciplina, etc., quer que... Se a Igreja não quisesse que e deixasse a questão da sexualidade dos seus ministros para o íntimo de cada pessoa, dentro moralidade cristã, naturalmente, os advogados não poderiam processar os organismos centrais.

A Igreja precisa de se libertar desta auto-imposição. E quem gosta dela tem de ajudá-la.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"A Igreja da Bélgica perdeu toda sua autoridade"

Para percebermos o alcance da questão pedófila na Bélgica, leia-se o artigo de Jean-Pierre Stroobants que saiu no "Le Monde" e se encontra em português no sítio do IHU (aqui), de onde copio os seguintes parágrafos.

Uma das testemunhas, doente, diz “reunir suas últimas forças” para descrever o calvário que ainda a faz sofrer, 39 anos depois. Ela tinha 6 anos e tinha de sofrer o “zim-boum-pan-pan, uma punição da qual não podia falar: era entre Jesus e nós, para entrar em comunhão com ele”.

Na verdade, oito longos anos de estupros, bolinações e exibicionismo camuflados por um homem que aos domingos brincava com os pais da vítima, confessando-lhes que seu único pecado era fumar charuto... “Era sua maneira de cativá-los e sobretudo de nos calar ainda mais: como ele parecia ter sua confiança, de que adiantaria contar para eles e fazer todos sofrerem?” Aluno em um outro internato flamengo onde também estudavam dois de seus irmãos, uma outra testemunha conta as diversas e incessantes humilhações que um professor lhe infligia: centenas de punições, de páginas a copiar, proibições de sair, e finalmente, “a revelação”: forçado a se colocar de joelhos pelo enésimo castigo no quarto do interessado. E, ali, a descoberta horrorizada do deleite sexual que esse terrível assédio causava nesse religioso.

Inúmeros depoimentos – com exceção daqueles marcados pela raiva e, às vezes, por uma rejeição completa da Igreja e das religiões – ainda mostram o sentimento de culpa das vítimas. Elas não queriam desagradar, manchar a reputação de homens vistos como intocáveis, envergonhar seus pais. Muitos foram criticados por terem escondido a verdade quando decidiram falar. Vindo de um meio pobre e sofrendo de graves carências afetivas, um jovem, estuprado por um vigário, decidiu em 1991 denunciar este último junto a um futuro bispo. Ele foi acusado de ter mentido, simplesmente porque o vigário “negava os fatos”. Estuprada por um padre aos 17 anos, uma outra vítima quis encontrar o responsável pela sua diocese. Ela voltou de lá chocada, “sobretudo religiosamente, porque não encontrei nenhuma preocupação pastoral, nenhuma consciência religiosa do drama que eu enfrentava”.

(…)

Gabriel Ringlet, padre, escritor e vice-reitor da Universidade Católica de Louvain, acredita que isso que está acontecendo hoje, na verdade é ainda mais grave do que aquilo que foi exposto pelo caso do assassino pedófilo [Dutroux]. E diz ainda que a Igreja não voltará a ser aceita pela sociedade se não abandonar seu “silêncio culpado” sobre a sexualidade de seus membros, “terreno no qual essa pedofilia pôde se desenvolver”.

Mais categórico ainda, Walter Pauli escreveu no sábado [no diário belga “De Morgen”]: “Que Roma e Malines-Bruxelas não se iludam: a Igreja da Bélgica perdeu toda sua autoridade”. O analista disse ainda: “Nem o Marquês de Sade poderia, ou ousaria, publicar um catálogo como esse de perversões sexuais, sendo que o mais grave é que tudo isso acontece dentro de uma relação de poder. E que nunca são questões de ‘parceiros’, mas sim de vítimas”.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...