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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Anglicanos dispensam diabo no rito do batismo

A Igreja anglicana está a pensar eliminar as referências ao diabo nos ritos de batismo (no rito católico aparece "Satanás"), mantendo a pergunta sobre a rejeição do mal. O novo rito vai estar à experiência em algumas paróquias.

Como é de esperar, alguns opõem-se. Outros acham bem, como o filocatólico arcebispo de Cantuária, Justin Welby. Como o batismo anglicano é válido para os católicos, a questão tem contornos que nos dizem respeito.

sábado, 28 de setembro de 2013

Anselmo Borges: "O que pensa Francisco: 7. sobre a morte"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Para o Papa Francisco, a morte não é tabu. "Quando somos novos, não olhamos tanto para o fim, valorizamos mais o momento. Mas lembro-me de dois versinhos que a minha avó me ensinou: "Olha que Deus te está a ver, olha que te está olhando; olha que hás-de morrer e que não sabes quando." Passados 70 anos, não consigo esquecê-los. Ela inculcava-me a consciência de que tudo acaba, de que devemos deixar tudo bem. No meu caso, penso todos os dias que vou morrer. Não me angustio por isso, porque o Senhor e a vida prepararam-me. Vi morrer os meus antepassados, e agora é a minha vez. Quando? Não sei."

Deus é o Deus da vida e não da morte. Bergoglio segue a leitura teológica tradicional: "O mal entrou no mundo através da astúcia do Demónio, que sentiu inveja, porque Deus fez o homem como o ser mais perfeito. Por isso o Demónio entrou no mundo. Na nossa fé, a morte é uma consequência da liberdade humana. Fomos nós, através dos nossos pecados, a optar pela morte, que entrou no mundo, porque criámos espaço para a desobediência ao plano de Deus. Entrou também o pecado, como soberba face aos planos do Senhor, e com ele a morte."

Não queremos morrer, temos medo e angústia. "A morte é um despojamento, por isso se vive com angústia. Estamos agarrados à vida e não queremos ir. Até o mais crente sente que o estão a despojar, que tem de abandonar parte da sua existência, da sua história. São sensações intransferíveis." O próprio Jesus sentiu angústia. "Disso ninguém se salva. Mas eu acredito que Deus nos agarra com a sua mão quando estamos prontos a dar o salto. Teremos de nos abandonar nas mãos do Senhor; sozinhos não conseguiríamos aguentar."

A vida é um caminho e é a esperança que estrutura o nosso caminho. Um dos perigos é "apaixonarmo-nos pelo caminho e perdermos de vista a meta"; o outro é "o quietismo: ficar a olhar para a meta e não fazer nada pelo caminho."

É preciso, pois, assumir o caminho e nele desenvolver a nossa criatividade, o nossos trabalho de transformação do mundo. Não estamos encerrados em nós: recebemos uma herança e temos de entregar uma herança, o que constitui "uma dimensão antropológica e religiosa extremamente séria, que fala de dignidade". A vida e a morte lutam corpo a corpo, no sentido biológico, mas sobretudo em relação à forma como se vive e morre. "Nos Evangelhos, aparece o tema do Juízo Final e de uma forma vinculada ao amor. Para os cristãos, o próximo é a pessoa de Cristo."

Então, a meta, que é a vida do Além, "gera-se aqui, na experiência do encontro com Deus, começa no assombro do encontro. Acreditamos que existe outra vida, porque começamos a senti-la aqui. Contudo, não por via de um sentimento suave, mas por um assombro através do qual Deus se nos manifesta." Os primeiros cristãos "associavam a imagem da morte à da esperança e usavam a âncora como símbolo".

A morte está sempre presente como possibilidade, mas tem um vínculo indissolúvel com a velhice. "A amargura do idoso é pior do que qualquer outra, porque não tem retorno." Por outro lado, se, antes, falávamos de opressores e oprimidos, incluídos e excluídos, hoje "temos de acrescentar outra antinomia: os que entram e os que estão a mais. Estamos a habituar-nos ao facto de que existem pessoas descartáveis, e, entre elas, os idosos têm um lugar muito importante". São muitos os que "abandonam quem lhes deu de comer, quem os educou, quem lhes limpou o traseiro. Dói-me, faz--me chorar por dentro. E nem vale a pena falar daquilo a que chamo eutanásia encoberta: o tratamento indevido dado aos idosos nos hospitais e nas instituições de assistência social, a quem não dão os medicamentos e a atenção de que necessitam."

Olhar para o idoso é ver o caminho de vida até mim. É preciso perceber que sou mais um elo, que "teremos de honrar aqueles que nos precederam e fazermo-nos honrar por aqueles que nos vão seguir, a quem teremos de transmitir a nossa herança." Referindo-se a si, com 74 anos, diz: "Estou a preparar-me e quereria ser vinho envelhecido, não vinho passado."

sábado, 24 de agosto de 2013

Anselmo Borges: "O que pensa Francisco: 2. sobre a Igreja"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Para o Papa Francisco, a Igreja não é uma empresa, uma multinacional ou uma ONG. Ela é "a família de Deus", do Deus que é amor, misericórdia e que perdoa sempre, se houver arrependimento. Deus está a caminho, "quando o procuramos e deixamos que ele nos procure. A experiência religiosa primordial é a do caminho. A vida cristã é uma espécie de atletismo, de conflito, de corrida, em que temos de nos desfazer das coisas que nos afastam de Deus".

No caminho, há perigos e tentações. Francisco acredita na existência do Diabo (como símbolo do mal ou uma entidade pessoal?): "O Demónio é, teologicamente, um ser que optou por não aceitar o plano de Deus. A obra-prima do Senhor é o homem; alguns anjos não o aceitaram e rebelaram-se. O Demónio é um deles. No Livro de Job é o tentador, que nos leva à suficiência, à soberba. Jesus define-o como o pai da mentira. Os seus frutos são sempre a destruição, a divisão, o ódio, a calúnia. E, na minha experiência pessoal, sinto-o de cada vez que sou tentado a fazer algo que não é aquilo que Deus me pede. Acredito que o Demónio existe. Talvez o seu maior sucesso nestes tempos tenha sido fazer-nos acreditar que não existe." De qualquer modo, "uma coisa é o Demónio e outra é demonizar as coisas ou as pessoas. O homem é tentado, mas não é por esse motivo que deveremos demonizá-lo". Mas o ser humano é um ser caído, o que "se explica a partir da queda da natureza depois do pecado original". Portanto, "as pessoas podem fazer algo de mau devido à sua própria natureza, ao seu "instinto", que se potencia devido a uma tentação exógena."

O fundamentalismo não é o que Deus quer, e ele não consiste apenas em matar em nome de Deus, o que é "uma blasfémia". "Por exemplo, quando eu era pequeno, na minha família havia uma certa tradição puritana; não éramos fundamentalistas, mas estávamos nessa linha. Se alguém do nosso círculo próximo se divorciava ou se separava, não entrávamos na sua casa; e também acreditávamos que os protestantes iam todos para o inferno, mas lembro-me de uma vez em que estava com a minha avó, uma grande mulher, e passaram precisamente duas mulheres do Exército de Salvação. Eu, que tinha uns cinco ou seis anos, perguntei-lhe se eram monjas. Ela respondeu-me: "Não, são protestantes, mas são boas." Esta foi a sabedoria da verdadeira religião."

Não se admite um clero de burocratas e carreiristas. Por exemplo, é "uma hipocrisia" negar o baptismo a crianças de pais não casados. E há o ecumenismo e o diálogo inter-religioso práticos: o das pessoas "que não partilham a minha fé, mas que partilham o amor pelo irmão". A verdadeira liderança religiosa é conferida pelo serviço. "Para mim, esta ideia é válida para a pessoa religiosa de qualquer confissão. Assim que deixa de servir, o religioso transforma-se num mero gestor, no agente de uma ONG. O líder religioso partilha, sofre, serve os seus irmãos." Foi esta dinâmica que o levou, já Papa, num gesto surpreendente, a Lampedusa, com esta mensagem: "A globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar. Peçamos ao Senhor a graça de chorar sobre a nossa indiferença, sobre a crueldade que há no mundo, em nós, também naqueles que no anonimato tomam decisões socioeconómicas que abrem o caminho a dramas como este."

Para a pedofilia, tolerância zero. "O problema não está associado ao celibato. Se um padre for pedófilo, é-o antes de ser padre. Ora, quando isso acontece, nunca se poderá tolerar. Não se pode assumir uma posição de poder e destruir a vida de outra pessoa. Na diocese, nunca me aconteceu, mas, uma vez, um bispo telefonou-me para me perguntar o que se deveria fazer numa situação semelhante, e eu disse-lhe que lhe retirasse a autorização, que não lhe permitisse exercer mais o sacerdócio e que desse início a um julgamento canónico no tribunal."

A humildade é garantia de que o Senhor está presente. "Quando alguém tem todas as respostas para todas as perguntas, é uma prova de que Deus não está com ele." A Igreja tem uma herança a preservar e que não pode negociar, mas é preciso, com tempo, "dar respostas com a herança recebida às novas questões de hoje."

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Francisco, o diabo e o mal

Cartune do "Público" de hoje

O DN traz a seguinte afirmação, logo a abrir a peça, que me fez pensar que o Papa Francisco finalmente é claro sobre a existência do diabo:
O papa Francisco apelou hoje [24 de julho, ler online aqui] aos fiéis para não perderam a esperança, afirmando que ainda que o diabo exista, Deus é o mais forte, e colocando ainda o povo latino-americano sob a proteção da Virgem de Aparecida.
Só com esta afirmação, parecia-me claro que "diabo" deixava de ser uma representação simbólica do mal para poder ser uma força pessoal, um ser, como afirma a DTDD (doutrina tradicional do diabo e do demónio). E o DN prosseguia:
"Ainda que o diabo, o mal, exista, não é o mais forte, o mais forte é Deus", disse o papa Francisco durante a celebração da missa no Santuário de Aparecida, no interior de São Paulo, a cerca de 200 quilómetros do Rio de Janeiro.
Mas agora já temos uma dissonância em relação à DTDD, que alguns gostam tanto de ver refletida nas palavras de Francisco. De acordo com a frase, o diabo é o mal. Ou então: "mal" esclarece o que Francisco pensa que é o diabo, podendo nós presumir que não se trata do ser pessoal da DDTD, mas do mal cuja existência e efeitos todos notamos, sendo o diabo símbolo de todo o mal. Na realidade, segundo a DDTD, mal e diabo não se equivalem, não são intermutáveis. O diabo está ao serviço do mal, dedicado ao mal, mas não é o mal. Ora, na teologia franciscana, diabo e mal equivalem-se, bem na linha do que propõem alguns teólogos e exegetas: interpretar as referências bíblicas (principalmente neotestamentárias) ao diabo como sendo alusões ao mal (o demónio é outra coisa).

Mas o que disse mesmo Francisco? Vamos ver o que vem no sítio do Vaticano (texto na íntegra aqui):
A segunda leitura da Missa apresenta uma cena dramática: uma mulher – figura de Maria e da Igreja – sendo perseguida por um Dragão – o diabo - que quer lhe devorar o filho. A cena, porém, não é de morte, mas de vida, porque Deus intervém e coloca o filho a salvo (cfr. Ap 12,13a.15-16a). Quantas dificuldades na vida de cada um, no nosso povo, nas nossas comunidades, mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos. Frente ao desânimo que poderia aparecer na vida, em quem trabalha na evangelização ou em quem se esforça por viver a fé como pai e mãe de família, quero dizer com força: Tenham sempre no coração esta certeza! Deus caminha a seu lado, nunca lhes deixa desamparados! Nunca percamos a esperança! Nunca deixemos que ela se apague nos nossos corações! O “dragão”, o mal, faz-se presente na nossa história, mas ele não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança! É verdade que hoje, mais ou menos todas as pessoas, e também os nossos jovens, experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer. Frequentemente, uma sensação de solidão e de vazio entra no coração de muitos e conduz à busca de compensações, destes ídolos passageiros.

Parece-me claro que temos todos os elementos para interpretar o diabo, "o dragão", como símbolo do mal e não como um ser pessoal (anjo) dedicado a tentar-nos.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Americano acorda a falar sueco. E isso é o quê?


O americano Michael Thomas Boatwright acordou a falar só sueco e pensa que é Johan Ek. Li aqui. Noutros tempos, e nestes parece que cada vez mais, haveria pelo menos duas explicações muitos claras para este fenómeno:

a) efeitos do demónio;
c) prova da reencarnação.

Não sei qual é a explicação para tal situação (os parapsicólogos são capazes de dizer algo do género: que em algum momento o sr. Boatwright ouviu falar sueco, que isso ficou gravado na mente e que agora, por algum motivo, essa parte do cérebro foi ativada e lá está ele a falar sueco), mas cá está um caso em que não nos devemos satisfazer com as explicações pseudo-religiosas que não explicam nada.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Uma profissão com futuro: exorcista


No DN de hoje.

Cá está uma área de atividade diretamente proporcional à publicidade. Quanto mais se disser que o diabo possui pessoas, mais atividade diabólica desta haverá (desta, que de diabólico nada tem; os pecados do mundo e no mundo, ou as "estruturas de pecado", como dizia João Paulo II, pouco interessam aos exorcistas) e mais exorcistas serão necessários. O inverso também é verdade. Quantos mais exorcistas forem nomeados e mais se publicitarem, mais clientela aparecerá. O mercado a funcionar.

sábado, 8 de junho de 2013

Anselmo Borges: "O diabo, possessões demoníacas e exorcismos"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

O Papa Francisco terá alegadamente realizado um exorcismo num mexicano. O porta-voz do Vaticano apressou-se a desmentir. Mas o célebre exorcista Gabriele Amorth, a caminho dos 90 anos e que diz já ter feito mais de 70 mil exorcismos, não duvida de que "o Papa fez mesmo um exorcismo". Por mim, confesso que estou plenamente convencido de que Francisco não o fez: apenas tentou ajudar aquela pessoa doente, impondo-lhe as mãos e rezando.

Diabo é, etimologicamente, o contrário de símbolo: enquanto diabállo, em grego, significa desunir, enganar, symboléo quer dizer encontrar-se com, reunir. O simbólico une; o diabólico desune.

O diabo é uma figura com muitos nomes, embora o seu sentido não seja exactamente idêntico: satã, demónio, satanás, belzebu, lúcifer, mafarrico, maligno... Aqui, serão usados indistintamente.

Seja como for, o decisivo é que o diabo aparece no contexto do sofrimento, da maldade, enfim, do mal. Como se explica tanto mal e sofrimento no mundo? Uma vez que Deus não pode ser a causa do mal, pois é infinitamente bom, supõe-se que o diabo poderia ser uma boa explicação. Ele tentou e tenta o ser humano, que cai na tentação e provoca o mal. Mas já o filósofo Kant colocou na boca de um catequizando iroquês esta pergunta: Por que é que Deus não acabou com o diabo? E sobretudo: quem é que tentou os anjos, para que, de bons, se transformassem em anjos caídos e maus, demónios?

Para explicar o mal, contrapor o diabo a Deus, como se fosse uma espécie de anti-Deus, no quadro de um dualismo maniqueu, não passa de uma explicação aparente e, sobretudo, é uma contradição.

Se é certo que Jesus, nos Evangelhos, aparece expulsando demónios, isso deve ser compreendido no contexto das crenças da altura. Hoje, sabemos que se tratava de doenças do foro psiquiátrico ou de pessoas com ataques epilépticos ou sofrendo de histeria. De qualquer forma, Jesus anunciou Deus e não satanás, e, felizmente, o diabo não faz parte do Credo cristão. O núcleo da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, e o Reino de Deus consiste na salvação total e plena do ser humano. Neste contexto, o diabo pode aparecer apenas como um símbolo personificado de todo o mal que ainda aflige o homem, mas a que Deus há-de pôr termo, segundo a promessa de Jesus. O diabo é a expressão personificada do que não é o Reino de Deus. Precisamente para realçar mais e melhor o que constitui o centro da mensagem de Jesus enquanto notícia boa e felicitante: o futuro do Reino de Deus.

O diabo não pode, pois, ser apresentado como uma espécie de concorrente de Deus. E não tem sentido continuar a pensar e a pregar que ele se mete nas pessoas, para tomar conta delas através das possessões diabólicas. Não há possessos demoníacos. Apenas há doenças e doentes de muitas espécies e com múltiplas origens e com imenso sofrimento, a que é preciso pôr fim, na medida do possível e, pelo menos, aliviar. Os rituais de exorcismos não têm justificação.

Se Jesus não pregou satanás, mas Deus, então a fé do cristão dirige-se a Deus e não ao diabo, o que inclui na prática a urgência de expulsar da vida pessoal e pública tudo o que é demoníaco e diabólico.

Já em 1969, Herbert Haag, um dos maiores exegetas do século XX, que conheci bem, se despedia da crença na existência pessoal do diabo, na obra Abschied vom Teufel (Adeus ao diabo). H. Bietenhard também escreveu: "A pregação cristã não deve especular sobre a origem e a essência ou o ser de Satanás - a Bíblia também não o faz: as pregações sobre o diabo e sobre o inferno, quando não fomentam a necessidade de emoções de pessoas pseudopiedosas e a excitação dos seus nervos, só servem para difundir a insegurança, a angústia e o medo. Essas pregações, em vez de libertar, colocam fardos aos ombros das pessoas".

Como diz o teólogo José M. Castillo, a Igreja, em vez da preocupação com o número de exorcistas para os demónios inexistentes, deve preocupar-se com os outros demónios, os que na realidade existem, que andam por aí à solta e são responsáveis por imensos sofrimentos de milhões de pessoas.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

"Precisamos de mais exorcistas"



No "Correio da Manhã" de hoje. As declarações do padre e o testemunho da ex-possessa confirmam o que tenho vindo a dizer (como outros): os céticos e os ateus estão mais bem preparados para combater o diabo. A eles o diabo não lhes toca.

Por outro lado, contrariando um comentário de alguém defensor da existência pessoal do diabo num texto anterior, os supersticiosos e adeptos de subprodutos religiosos e para-religiosos estão de facto mais vulneráveis aos ataques do mafarrico. Em vez de "precisamos de exorcistas" para combater os sintomas, deveria ser "precisamos de cristãos mais esclarecidos" que não procurem superstições e caminhos erráticos (causas).

Quanto ao recato destes atos, pois. Se deixassem entrar uma entidade independente (um parapsicólogo, um psiquiatra, um investigador destes casos - nos EUA há um grupo de cientistas que ainda está à espera de uma possessão real, embora confirme o efeito que dizem ser "placebo" dos exorcismos e orações), seria interessante.

domingo, 26 de maio de 2013

"Se Jesus fala de demónios e eles não existem, enganou-nos"


Por estes dias, regressou um velho argumento sobre a existência real de demónios (enquanto seres sobrenaturais que por vezes possuem pessoas e depois são expulsos por exorcismos). Digo regressou porque já por cá andou há um ano. E regressou num ou noutro comentário  de entradas recentes neste blogue, tal como nas mensagens privadas do meu espaço no Facebook. É de lá que retiro as seguintes frases, sem dizer quem é o autor. Ele poderia ter escrito no blogue, mas preferiu o recato do FB e por isso não digo o seu nome.
Cristo expulsou demónios. Está em todos os evangelhos. Os apóstolos fizeram o mesmo. Está nos Actos dos Apóstolos. Também nega isso tudo? Ou Cristo (que é Deus, nisso concordamos) desconhecia factos clínicos psicológicos, inacessíveis à ciência da época? Os apóstolos, coitados, ainda vá lá: poderiam desconhecer as diferenças entre doenças psicológicas e possessões. Agora, Deus? Cristo não consegue ver a diferença entre epilepsia e possessão? E, já agora, Cristo não podia ter sido mais claro, e ter dito que o Diabo não existia? É que Cristo, ao falar sobre o Diabo como se ele existisse, acaba por nos baralhar...
Resumiria assim o que está acima: Jesus Cristo sabe tudo e não engana ninguém (ou não seria Deus). Jesus Cristo expulsou demónios, como os evangelhos atestam. Logo, eles existem, pois Jesus não quereria induzir-nos em erro.

Em parte, estas questões já aqui foram abordadas. Primeiro, nos evangelhos, Jesus expulsa demónios (e não o diabo – são distintos) pela força da palavra e não por sortilégios (como faziam outros) no contexto do anúncio da soberania absoluta de Deus (reinado de Deus); depois, é possível interpretar as possessões como doenças do foro psíquico e, mais do que isso, vitimizações num contexto social opressor. Diz um autor, em parte afastando-se da ideia das doenças, que as possessões eram uma estratégia complexa utilizada de maneira mórbida por pessoas oprimidas para se defenderem de uma situação insuportável. Vale a pena ler e reler o texto (aquirefiro-me às páginas digitalizadas). No final, com aquela interpretação, sinto que os evangelhos são ainda mais reais e significativos para aqueles tempos e os tempos de hoje.

A linha de fundo do argumento “não podia enganar-nos” repousa na convicção de que Jesus, sendo Deus, sabe tudo; ou, sendo Deus, não pode mentir, errar, enganar.

Há aqui três questões subjacentes. Aponto: a) O que é Jesus ser Deus? (podemos ter entendimentos diferentes sobre isto); b) Estar errado é pecado? (julgo que todos concordamos que não) c) Podemos dizer que mente ou erra quem pensa de acordo com as conceções do seu tempo, se estas mais tarde mudam? (julgo que todos concordamos no não).

Fica-se com a ideia, obviamente inaceitável para um crente, de que se Jesus falou de demónios e eles não existem, enganou-nos, esquecendo que mentira (e erro moral) seria se Jesus soubesse uma coisa e dissesse algo deliberadamente diferente (alguns dizem: “Sendo Deus, tinha de saber”; nós dizemos: “Não tinha, não”). Mas se pensava de acordo com as conceções culturais do tempo (e temos muitos motivos para pensar que sim), não é mentir dizer algo que não corresponde ao que em fase posterior é tido por verdade. Jesus diz que o grão de mostarda é a semente mais pequena. Talvez pensasse mesmo que é. Fala do sinal de Jonas. Como qualquer judeu da época, pensava num Jonas real e não numa figura literária. Diz que “o princípio não foi assim”, ao falar do divórcio. Certamente pensaria num Adão e Eva reais, como aparecem nas primeiras páginas da Bíblia. E os exemplos poderiam continuar.

Desconfio que o tipo de teologia que nega a comunhão de Jesus com os conhecimentos do tempo desconhece o significado da kenose de Jesus, do abaixamento, do fazer-se humano, do caminhar com os contemporâneos.

Desconhece, certamente o que Bento XVI escreveu no livro sobre a infância de Jesus:
É verdade também que a sua sabedoria cresce. Enquanto homem, Jesus não vive numa omnisciência abstrata, mas está enraizado numa história concreta, num lugar e num tempo, nas várias fases da vida humana, e de tudo isto toma forma concreta o seu saber. Manifesta-se aqui, de modo muito claro, que Ele pensou e aprendeu de maneira humana.
Ele pensou e aprendeu de maneira humana.

Com isto chego finalmente ao que me moveu a escrever isto. Relendo um livro de Carlos González Vallés, dei com a página que condiz com as cristologias do Jesus que sabia tudo mesmo tudo. Quando a mim, padecem, como noutra altura já escrevei, de uma espécie de docetismo gnoseológico.

O jesuíta cita gigantes da teologia (Santo Hilário: “Jesus comia e bebia, não porque precisasse de fazê-lo, mas tão-somente para que não se surpreendessem os que viviam com ele”; São Cirilo de Alexandria: “Jesus sabia tudo desde seu berço, mas aparentava ir-se inteirando das coisas para dissimular”; Santo Atanásio: “Jesus nunca pôde adoecer nem envelhecer”; os salmanticenses: “Jesus foi de facto desde o princípio, e não apenas em potência como possibilidade futura, o maior filósofo, matemático, pintor, navegador… jamais existente” [esta faz lembrar os ditadores norte-coreanos]) e seguir fala da sua experiência:
Eu ouvi dizer em sermões que Jesus, desde o berço em Belém, poderia ter contado à Mãe tudo o que lhe aconteceria na vida; que podia ter falado com os Reis Magos na língua destes; que quando o Evangelho diz que «se surpreendeu» diante da fé do centurião, isso não passava de um gesto condescendente de Jesus, que na realidade não podia «surpreender-se» com nada, já que conhecia tudo; que, quando perguntou ao cego: «O que quer que eu faço por você?», esta era uma simples pergunta teórica, já que Jesus sabia sempre o que cada um pensava e queria; que, quando rezava era sói para dar bom exemplo aos discípulos, uma vez que ele, sendo Deus não precisava de oração; que, se dormia na barca, não era por cansaço físico, mas para testar a fé dos apóstolos; e que, se gritou na cruz: “Por que me abandonaste?”, não foi por sofrimento pessoal, mas como consolo para os nossos.
Como ficamos em relação aos demónios? Repito Bento XVI: “Ele [Jesus Cristo] pensou e aprendeu de maneira humana”.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Fernando Calado Rodrigues: "O diabo não existe"


Texto do padre Calado Rodrigues no "Correio da Manhã" de hoje (o meu obrigado a Pedro Gomes, que adiantou a ligação). Ainda sobre este assunto, sugiro a leitura de uma reportagem de Miguel Marujo, em 2001, reproduzida aqui.

Madrid nomeia oito exorcistas. Aumenta a oferta emprego no setor


Notícia do "i" de hoje. Há uma lei que ainda não vi escrita, e cuja autoria, portanto, julgo poder reivindicar: quanto mais se fala do diabo/demónio, mais ele atua. Não é preciso que exista o diabo para que ele atue. Basta que se fale dele. E se houver exorcistas, não falta clientela. Alguma chega lá a pensar que tem o demónio e sai de lá, por vezes passados anos, curada porque finalmente se livrou dele, que entretanto foi bem inculcado. Há nisto tudo uma patranha imensa, em que até os psiquiatras, sem realmente colaboraram, colaboram. Eles dizem para o exorcista: Isso eu não sei explicar. E o exorcista esfrega as mãos de contente: Cá está, é o demónio. Antes era assim em quase todas as doenças mentais. Depois o espaço do demónio foi diminuindo. Agora é assim numa franja de casos. O demónio ainda não foi extinto.

E enquanto o demónio faz sofrer algumas pessoas (está estudada a psicologia demoníaca: ataca mais mulheres do que homens, ataca mais os supersticiosos, não ataca ateus, e nunca se manifesta perante céticos, ao ponto de não haver uma única possessão credível, apesar de haver muita gente aliviada com orações e exorcismos), o que é verdadeiramente demoníaco, humanamente demoníaco, o mal moral na vida política, económica, social, etc., vai fazendo o seu curso. E não há exorcista que valha.

terça-feira, 21 de maio de 2013

O diabo outra vez

Há uma série de blogues e comentadores, alguns em grandes jornais italianos (e também neste blogue, nos comentários), que anda exultante com as referências do papa Francisco ao diabo e, agora, com um suposto exorcismo.

O porta-voz do Vaticano já veio dizer que aquilo não era exorcismo nenhum, era apenas uma oração do Papa sobre um portador de deficiência. Ler aqui. Mas já se sabe como é. Quem acredita no diabo, vê-o em todo o lado. É uma explicação fácil. Desresponsabilizante. Que só justifica (e é justificado por) teologias poeirentas. Mas adiante.

Ou existe ou não existe. Mesmo que não exista, não estamos proibidos de usar a palavra em sentido metafórico, como julgo que o Papa faz. Mesmo que não exista, tem grandes efeitos em quem nele acredita. E mesmo que exista - o que é a existência de um ser não-ser? - , não creio. Não se pode crer no negativo. Só creio em "coisas" positivas.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

"O Último Exorcista". Oxalá que sim



P.e Gabriele Amorth tem mais um livro. Intitula-se “O Último Exorcista” (Paulinas). E eu só posso concordar. Oxalá que sim.

Mas depois leio na contracapa, escrito pelo próprio: “O Último Exorcista é um título conscientemente provocador. É claro que não sou o último exorcista deste mundo. Depois de mim, outros virão e já existem outros, mesmo entre os jovens. Mas, no mundo, somos tão poucos… Muitos bispos já não acreditam no demónio nem já nomeiam exorcistas nas suas dioceses. Estamos reduzidos a poucos e cada um de nós, na sua batalha quotidiana, sente-se como se fosse o último exorcista a combater o grande inimigo. Esta é a minha grande angústia e preocupação, sendo por isso que aceitei que o livro saísse com este título».

Debruçando-me recentemente sobre vários títulos deste padre exorcista, sinto uma certa perplexidade quanto ao seu trabalho. Vejamos. Em “Mais fortes que o mal” (Paulus), P.e Amorth diz que é ação do diabo e dos seus demónios o seguinte (o subtítulo da obra é “O demónio: reconhecê-lo, vencê-lo, evitá-lo”):

- a doença mental (os manicómios estão cheios de vítimas da ação do diabo)
- as pernas presas antes de um casamento por maldição da sogra
- cancros
- falências de negócios
- sonhos de caracter sexual
- filmes de terror
- filmes violentos
- filmes de sexo
- desenhos animados
- tentações dos santos
- assassínios
- feitiços, amarrações, maldições, macumbas, wudu, mau-olhado, filtros mágicos
- maldição do pai para a filha no dia do casamento
- luzes que se ligam sozinhas
- magos “com poderes reais”, feiticeiros e bruxos
- sapos que desaparecem de sacos com água fechados
- pregos enferrujados que aparecem debaixo do colchão sem ninguém os pôr lá.

Isto tudo e ainda vou só na página 72. O livro tem mais duzentas páginas.
Perante esta panorama (acho piada que ele distinga magos com poderes reais dos magos charlatães, o que diz muito da sua capacidade de acreditar), só não vê a ação do demónio quem não quer.

O caso das materializações  - pregos enferrujados – nos colchões é um dos muitos casos hilariantes. “Não se trata de coisas inseridas manualmente no interior dos colchões, mas por via maléfica”, diz, certamente desconhecendo a desmontagem que o P.e Quevedo fez da materialização do algodão (há vídeos por aí). É muito curioso, aliás, que os exorcistas repudiem todo o trabalho dos parapsicólogos e céticos.

Com tudo isto, tenho três hipóteses para explicar o trabalho de P.e Gabriele Amorth.
A primeira é a que ele próprio assume. Que o diabo existe e que há que falar dele para estarmos atentos e não cairmos no pecado (que é o mais importante mas não dá tanto espetáculo) nem sofrermos infestações, vexações e possessões (que é só sofrimento, mas é mais espetacular). O trabalho dos exorcista incide sobre este segundo aspeto.

A segunda é minha. O diabo existe ou não existe. Se existe (o que é existência de um não ser?) e mesmo que não exista (tem uma existência simbólica, pelo menos, e influência na vida de alguns) convém-lhe que alguém o divulgue e faça acreditar nos nadas que oprimem muita gente (maldições, maus olhados, poder dos feitiços, etc. etc.). Quanto mais se acredita, mais oprimem. O P.e Gabriele Amorth, paradoxalmente, faz um trabalho nesta linha. Quem se sente vulnerável, por mil e um aspetos, ao ler as suas obras poderá pensar que nos seus tormentos há dedo demoníaco. Como diz um autor que acredita na pessoalidade do diabo, Jean Vernette: “Meter Satanás em todo o lado é prestar-lhe honras. E por vezes induzir em tentação quem estava bem longe disso”.

A terceira, também da minha autoria. O diabo não existe. E o P.e Gabriele Amorth, com a sua credulidade ingénua, involuntariamente, é certo, mais argumentos dá a quem não aceita a existência pessoal do anjo caído. Por oposição, julgo que este padre exorcista serve a verdade. “Se o diabo é isto – podemos pensar –, é claro que não existe”.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Demonofílicos e misóginos de mãos dadas?

Parece-me demasiado evidente que a crença no diabo anda a par com a desconsideração da mulher. Por outras palavras, o diabo é uma questão de sexualidade. E por isso, demasiadas vezes, a sexualidade foi algo de diabólico. A misoginia será um fruto, bastardo, da crença no diabo/demónio?

aqui deixei uns breves apontamentos sobre o que Tertuliano pensava das mulheres. Hoje dei com esta frase de Tertuliano que é o pináculo do edifício diabólico-misógino:

"Mulher, tu és a porta do diabo!"

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Calendário de 2012 beneficia diabo

Notícia do JN de sábado, 25 de agosto. A festa realiza-se na sexta anterior ao último sábado de agosto. Algumas pessoas pensam que é na última sexta de agosto. Daí o título. Em 2012, a festa teve menos gente.

sábado, 21 de julho de 2012

D 06 - Jesus e a doutrina tradicional do diabo e dos demónios - o que concluir?


Resposta a João Silveira, que na questão de Jesus, os demónios e os exorcismos, aqui, sem rebater os argumentos, que era o que se esperava, colocou mais alguns dilemas (no fundo é este: ou aceitamos o que a moderna investigação diz ou deitamos fora tudo da DTDD - doutrina tradicional dos diabo e dos demónios). Respondo aqui, em vez de responder nos comentários, para, no futuro, se necessário, fazer remissões para este texto (e não estar sempre a ler que não respondo às questões; às vezes não respondo; outras respondo, mas se o interlocutor é novo, e como não posso fazer links para os comentários, pode parecer que não).

Para alguns, este assunto já deu o que tinha a dar. Se é o seu caso, não perca tempo com isto, p.f.

Numa coisa concordamos, João. O texto, aqui, é uma manta de retalhos. Já o tinha dito logo no início. Mas não é uma manta de retalhos qualquer. É feita com citações de obras de referência, entre as muitas possíveis e apenas de algumas que tenho à mão (ou melhor atrás das costas, que é onde está a estante dos livros de teologia). Na realidade, o difícil foi escolher entre tantas possibilidades. E como a releitura (porque as leituras já vêm de longe), selecção e escrita foram feitas em duas ou três horas, eu próprio admito que tem limitações. É só um início. De qualquer forma, será curioso encontrar teses de doutoramento ou dicionários bíblicos de referência sobre o tema Jesus, os demónios e os exorcismos que fundamentem a DTDD e se oponham ao que deixei escrito. Se o João ou Bernardo quiserem fazer-me esse favor…

Poderá argumentar, contudo, que a dogmática católica não se faz somente com os dados bíblicos. Com certeza. Mas não contra os dados bíblicos.

Diz o João: Se… então temos que

…deitar fora o que a doutrina da Igreja diz sobre a existência do diabo e dos demónios;


Eu diria antes, e é o que tenho vindo a defender: Ponderar o que diz a doutrina da Igreja sobre o assunto; considerar o que é importante e relativo, Revelação, Tradição e circunstâncias históricas, sabendo que por vezes anda tudo misturado; reinterpretar o que realmente diz a doutrina da Igreja sobre o assunto; considerar os vários âmbitos de pronunciamento do Magistério, considerar a “hierarquia de verdades” e o desenvolvimento do dogma; ajudar a esclarecer; e não temer ter dúvidas.

…desprezar tudo o que os Papa disseram sobre a existência do diabo e dos demónios;

Há muito a desprezar (eu não usaria este termo, mas antes reconsiderar, reavaliar, interrogar), sim, se pensarmos, por exemplo, na cobertura legal à queima das bruxas (umas, sim, pensavam que tinham relacionamentos com o diabo; outras mulheres, sem nunca terem sido bruxas, por vezes por apenas terem um sinal corporal, foram vítimas da paranóia colectiva, católica e protestante, com certeza). E muito mais a reinterpretar. E ainda mais a ouvir quando se trata de estar atento ao mal e seus simbolismos.

Quanto aos Papas, na realidade, nos últimos anos, há mais silêncio do que pronunciamentos, muito raros, simbólicos ou não, sobre o diabo, e nenhum, que eu conheça, sobre possessões, por exemplo.

…desprezar tudo o que os santos disseram sobre a existência do diabo e dos demónios;

Com certeza que sim, neste e noutros capítulos, mas não "tudo". Eu diria relativizar em vez de desprezar. Gosto muito de São Bernardo (e, para questões teológicas, já agora, mais do seu arqui-inimigo Abelardo), mas quer que acredite que eram demónios as moscas que exorcizava? (É a terceira vez que refiro este exemplo; mas ainda não disse que Belzebu, Baal Zebu, quer dizer “Senhor das moscas”). Leio Lactâncio (não é santo, mas é um autor importante do cristianismo primitivo), mas quer que acredite que Deus e Satanás eram ambos vassalos de um Grande Deus? Admiro muitíssimo Orígenes (um monstro da teologia antiga, só superado por Agostinho), mas, por isso, aceite-se, até segundo a DTDD, que no final o diabo será salvo? Ou que Deus, por ardil, sacrificou Jesus ao diabo, como diz S. Gregório de Nissa? A ideia foi muito seguida pelos santíssimos padres da Igreja. Não há ironia em santíssimos.

considerar que santos como o Padre Pio, a beata Alexandrina, St. Teresa de Ávila ou S. João Maria Vianney eram malucos, porque testemunham contactos com o dito cujo.

Não diria malucos, mas antes que se exprimiam com os conceitos e comparações que tinham as suas convicções e que não são válidos nem credíveis hoje. E para pegar num exemplo de tempos relativamente recentes, do P.e Pio (os do Cura d’Ars/Vianney são idênticos), não estou a ver hoje alguém ouvir um barulho de noite, ver um cão a bufar e dizer: “É o demónio”.

Este exemplo, do princípio do séc. XX (não muito depois do Papa Leão XIII, grande homem, ter caído na patranha maçónico-demoníaca de Leo Taxil) foi-me fornecido pelo Alma Peregrina numa discussão anterior:

One night, Padre had returned to the convent of Saint Elia of Pianisi.  He couldn't fall asleep that night because of the enormous summer heat. He heard the footsteps of someone coming from a nearby room. Padre Pio thought, "Apparently, Friar Anastasio couldn’t sleep either."  He wanted to call out to him so that they could visit and speak for awhile. He went to the window and tried calling to his companion, but he was unable to speak. On the ledge of a nearby window, he saw a monstrous dog. Padre Pio, with terror in his voice, said, “I saw the big dog enter through the window and there was smoke coming from his mouth.  I fell on the bed and I heard a voice from the dog that said, "him it is, it is him". While I was still on the bed, the animal jumped to the ledge of the window, then to the roof and disappeared."

Os relatos dos santos sobre contactos com o diabo podem ser edificativos para nos alertar para as insídias do mal (nem sequer é o caso do texto acima), mas não lhes peçamos mais do que o que podem dar. Para terem validade factual e para uma interpretação literal, deveríamos contar com testemunhas, por exemplo, ou, em tempos mais recentes, com gravações (existem, por exemplo, para os estigmas do P.e Pio), o que não acontece em relação a casos demoníacos. É sempre o santo, na sua privacidade que relata a sua experiência. Visões? Estados mentais? Imaginação? Com certeza que sim, embora eu não saiba o que é ter visões. Ou simples imagens literárias? E que validade têm as visões particulares para afirmar a realidade de algo? Dir-me-á que nunca se poderá filmar o demónio, pela sua própria natureza – ou antes, pela sua própria supernatureza -, mas então entramos no campo do indemonstrável. Por outro lado, defendem, contudo, as possessões. Mas estas são filmáveis… tal como outras manifestações do demónio defendidas pela DTDD (levitações, xenoglossia e coisas do género). Há alguma credível?

Ainda sobre os relatos dos santos, há um caso exemplificativo, interessante, contado, imagine, pelo P.e Armoth (nem tudo é mau no livro recente “Mais fortes que o mal”). Ele conta-o, diz, porque “por vezes trata-se simplesmente de equívocos”. Ele conta um equívoco para contrastar com os outros casos, para que passem por verdadeiros, como se o reconhecimento de um equívoco evitasse o rótulo da ingenuidade e valorizasse os restantes casos. (Ressalvo que não é da seriedade e das boas intenções do P.e Amorth que duvido).

Transcrevo:

“É simpático o caso que aconteceu a D. Bosco [outro que admiro]. Uma vez, tinha ido a uma casa de campo para passar ali alguns dias de repouso. Estava junto com outras pessoas. Durante a noite, começaram a ouvir alguns rumores. Vinham do teto e pareciam inexplicáveis. Ele pensou na presenta do demónio, pois acontecia-lhe ser perturbado várias vezes. Pôs-se a rezar. Depois, constatando que os rumores não terminavam, decidiu com os seus amigos fazer uma revista ao local, encontrando uma galinha que ficara presa no sótão e aterrorizada batia as asas por todo o lado. Para festejar a conclusão burlesca e positiva daquela noite de sono perdida, mataram a galinha, depenaram-na e comeram-na enquanto o diabo esfrega um olho” (pág. 60).

O que tiro deste relato em comparação com outros é que, havendo várias testemunhas, o diabo não aparece. Se D. Bosco estivesse sozinho, não sei se não seria mais um caso demoníaco (em contrapartida, tinha-se salvado a galinha). Ou por outras palavras, o diabo só aparece, mesmo em forma de animais, e fala, como no caso do P.e Pio, quando só há uma pessoa a ver e ouvir – a que diz que é o demónio.

…considerar que todos os padres exorcistas do mundo são malucos ou burlões;

Nunca pensei isso dos padres exorcistas. Em França, como já disse noutro ponto, a grande maioria dos exorcistas diz-se “psicologizante” (como Charles Chossonnerie, da diocese de Lião) porque acredita que as possessões, sendo fenómenos psicológicos, não são possessões reais de demónios.


Nesta linha, já agora, leia o que diz aqui sobre possessões demoníacas.

Não fui eu que escrevi o artigo, embora já tenha usado expressões similares (como a do “efeito placebo”) antes de o ler. Sugiro que, se está em desacordo, o emende.

Há alguns exorcistas que não são lá muito equilibrados, isso há. Há muitos burlões quando se trata de lidar com os demónios, principalmente fora dos exorcistas. E há muitos que estão enganados mas não são burlões. Não conheço nenhum exorcista católico burlão. Quanto a malucos, já não posso assegurar (depende do que entende por maluco e estou a pensar num caso concreto – não é português, adianto). E muitos fazem o bem ajudando pessoas que pensam que estão possessas, sem minimamente acreditarem no diabo/demónio. Alguns, antes de fazerem o bem, fazem o mal, convencendo-as de que estão possessas.

E há exorcistas evangélicos que deixam filmar os exorcismos – estão na Internet – que com certeza são falsos para os exorcistas católicos, os quais não permitem filmar os exorcismos (ou antes, os preliminares do ritual é que vedam os exorcismos à comunicação social). Ou será que católicos e evangélicos, tão distantes em tantas matérias (Papa, Maria, Sacramentos), estão de acordo nas possessões? Temos então que o diabo será um ponto de união para um diálogo ecuménico com os evangélicos? O diabo a fazer o bem? [Aqui imagino qual será a resposta do João: Como só a Igreja Católica Apostólica Romana tem a razão toda e a fé verdadeira, o diálogo ecuménico só pode ser fruto do diabo].

Questão parecida com a da existência dos exorcistas é: porque é que a Igreja tem o rito dos exorcismos? Já esbocei uma resposta aqui, mas acrescento que, tanto quanto sei, lendo os preliminares e o ritual em si, a linguagem é muito simbólica (“repeli a força do diabo”), fala principalmente em “atormentados” pelo diabo e não “possuídos” ou "possessos", o que é totalmente diferente, e apenas uma vez tem um termo relativo a possessão. Diz assim: “Escutai, Pai Santo, o gemido da Igreja suplicante; não deixeis que o vosso filho (a vossa filha) sofra a possessão do pai da mentira”. Diria que a linguagem é escorregadia, pois não diz que está possuído/possesso. Pede, aliás, que não sofra a possessão. Parece que está para acontecer. Na chamada fórmula imperativa, diz-se: “Eu te esconjuro, Satanás (…), sai desta criatura de Deus”. Pergunto-me se a Igreja acredita realmente que com isto se expulsa uma criatura sobrenatural de um ser humano, ou se não estamos diante da linguagem litúrgica (ou quase litúrgica, neste caso, pois o ritual nem sequer é uma verdadeira ação litúrgica, como os sacramentos), simbólica, herdada de outros tempos, e, no meu ponto de vista, muito questionável para os tempos de hoje. Que os exorcismos deixem as pessoas que pensam que estão possuídas em paz, imagino que sim. Que a linguagem poderia ser outra? Provavelmente haverá vantagens nesta.

…achar que Jesus também era supersticioso e ignorante em relação à existência de demónios. Que sabia a vida da samaritana, que sabia o que Natanael tinha andado a fazer, que sabia que ia morrer e ressuscitar ao terceiro dia, mas andava enganado em relação aos demónios;

Bom, nunca se disse que Jesus é supersticioso – evito pensar em qualificar este tipo de afirmação do João. Porém, no que afirma, não percebe, primeiro, as diferenças entre os evangelhos sinópticos e o de João Evangelista, já que os exorcismos só acontecem nos sinópticos (e nunca em João – porquê?) e fala-me de exemplos do evangelho de João, como o episódio da Samaritana e o de Natanael. Não duvido dos seus parcos conhecimentos escriturísticos (porque ainda não reconheceu que o apóstolo João não é o discípulo amado – estou a ser mauzinho com esta), ainda que também não me possa orgulhar dos meus, porque estou sempre a aprender. Mas ignora que cada evangelho tem uma lógica interna, que, de facto, episódios isolados podem ser contraditórios. Além de que nenhuma cristologia séria, hoje, defende uma omnisciência de Jesus como a que a sua breve afirmação deixa patente. Ou pelo menos não entende a omnisciência de uma forma mágica. Também é isso que Jesus recusa nas tentações… do diabo.

…trocar a credibilidade desta gente toda para ficar com teólogos dissidentes;

Falso dilema, porque não se trata de "trocar", nem de "credibilidade", nem de "desta gente toda". “Teólogos dissidentes?” Isto é difícil de contrariar quanto aos autores dos artigos dos dicionários, por exemplo, porque não os conheço (aliás, nem fui ver quem são). Mas eles falam de coisas consagradas no saber teológico. E escrevem em obras de referência. Por outro lado, noto que as obras estão publicadas em editoras católicas como a Sal Terrae, Sigueme, Gráfica de Coimbra (que é da diocese de Coimbra), Paulus (que tanto editou os livros de Ariel como os de Amorth). Quanto à Herder, embora seja das mais importantes editoras de teologia, julgo que não tem o estatuto de católica, que aqui invoco, não porque para mim seja relevante, mas porque julgo que será para o João, ou pelo menos responde à dissidência.

Desculpe-me se a resposta foi bastante maior do que as provocações. Ou se me provocou por provocar e eu o levei a sério.


Para rir um pouco veja este vídeo sobre a levitação. É a terceira parte de cinco. Sugiro que veja(m) as outras, até porque a levitação, pelo menos no cinema, é um fenómeno associado às possessões. E ficamos a conhecer o patrono dos astronautas.


sexta-feira, 20 de julho de 2012

D 05 - Jesus, os demónios e os exorcismos


O que aqui vou deixar não é um tratado nem sequer um artigo académico sobre a questão. Trata-se simplesmente de dicas recolhidas de outros que pensaram a questão com mais profundidade do que eu. É mais um esboço com alguns elementos mal ligados do que uma exposição sistemática.

Na questão dos demónios nos evangelhos e em qualquer outra bíblica, não devemos olhar para os textos com as nossas ideias dogmáticas, mas analisá-los e procurar entender o que querem dizer. Num segundo momento, poderemos tirar conclusões para a dogmática e para a nossa ação e a da Igreja, a pastoral. Fico-me só pelo primeiro aspeto: procurar perceber o que significaram os exorcismos de Jesus.

Para isso, em primeiro lugar, temos de apontar o que hoje sabemos sobre as mentalidades da época de Jesus, a partir de obras de referência.

Nos últimos séculos a. C., a chamada época intertestamentária, “sob influência do dualismo persa, produziu-se uma evolução nas conceções de determinados meios judaicos. Apareceram então «espíritos do mal», opostos a Deus” (Diccionario Enciclopédico de la Bíblia, Herder, 1987, 414).

Notemos, também, que os evangelhos foram escritos em grego e no meio da mentalidade greco-romana (certamente em comunidades judaicas no seio da cultura helenística).

“Segundo a crença popular grega, o mundo está cheio de demónios, de seres que ocupam um lugar intermédio entre os deuses e os homens e sobre o quais influenciam e aos quaise se aplaca mediante a magia, a bruxaria e o conjuro ” (Diccionario Teologico del Nuevo Testamento, II, Sigueme, 14).

“Segundo a história das religiões, o que se diz entre os cristãos do demónio está sujeito a influxos extrabíblicos, pagãos e pré-cristãos: já séculos antes de Cristo existia o dualismo persa dos princípios do mundo, com o deus mau das travas, Angra Manyu, que influenciou certos círculos do judaísmo. E certamente na formação da doutrina eclesiástica sobre o demónio influenciaram eficazmente tais correntes extracristãs; influenciaram as doutrinas gnósticas (…) Não se funda na Bíblia o mito de Lucifer: Satanás originariamente seria um anjo de luz que se teria levantado contra Deus e teria sido derrubado para ser submetido a um castigo (Diccionario Teologico del Nuevo Testamento, IV, Sigueme, 165-6).

Prossigamos para Jesus e o seu ambiente cultural.

“No judaísmo, abandona-se a grande moderação que a religiosidade veterotestamentária  mantinha sobre este ponto [o demónio] e propaga-se a crença nos demónios, se bem que o judeu nunca se tenha sentido ameaçado pelos demónios como os adeptos  das religiões à sua volta. Os doutores da lei também admitiram a crença nos demónios. As figuras demoníacas são numerosas - sedim, poderosos; mazzidin, maléficos; mehabilim, corruptores; pegaim, tentadores; sirim, demónios com figura de bode; ruah raah, espírito mau. Numa época mais antiga acreditava-se que os demónios tinham nascido da união dos anjos caídos com mulheres (Gn 6,1). Outros pensavam que uma parte da geração dos homens que construíram a Torre de Babel foram transformados em demónios; ou que os demónios surgiram do comércio entre Adão e Eva com espíritos femininos e masculinos, respetivamente; ou que os demónios são uma criação singular de Deus” (Diccionario Teologico del Nuevo Testamento, II, Sigueme, 15).

É neste contexto que vive, pensa, anuncia, come, bebe, fala, cura Jesus.

“Sem dúvida que Jesus e o cristianismo primitivo têm a mesma ideia do demónio que os seus contemporâneos. Mas enquanto o ambiente judaico e pagão tentava desterrar e exorcizar os demónios recorrendo a sortilégios, conjuros e outras práticas mágicas, Jesus expulsa-os com a sua palavra (Mt 8,16), de tal forma que as expulsões de demónios são fenómenos que acompanham a sua pregação, a par com as curas (Mc 1,39). Dado que Jesus tem plenos poderes de Deus e se mostra como o mais forte (Mc 1,14), os demónios temem-no e inclinam-se diante dele. Graças a esta soberania que ele possui, pode outorgar aos seus discípulos o poder de expulsar os demónios (Mt 10,1.8) e esta autoridade sobre as potências demoníacas é o sinal de que em Jesus aconteceu a irrupção do reino de Deus (Mt 12,22)” (acrescentarei mais tarde a fonte deste trecho).

Temos ainda que notar que os conceitos de verdade e de história desta época não são os nossos. Uma lenda herdada da noite dos tempos é apropriada como verdade. E não podemos esquecer que a linguagem bíblica, oriental, é fantasiosa e imaginativa.

Por outro lado, nos evangelhos diz-se que se dão possessões demoníacas, mas nunca possessões diabólicas. Essa distinção é significativa e é feita por muitos autores, entre os quais o que aqui se cita. Este ponto da doutrina deste autor não foi posto em causa pela autoridade eclesiástica, ao contrário de outros, num processo pouco claro e já apontado por alguns neste blogue para desconsiderar o pensamento do autor. Insisto que o texto é uma exposição acessível para compreender a questão.

Jesus expulsa demónios. Jesus não expulsa o diabo porque não há possessões diabólicas na Bíblia. Jesus acalma a tempestade da mesma forma que expulsa um demónio. O demónio sai e a pessoa fica calma, curada. O demónio sai da tempestade e o mar fica calmo, curado. Outros expulsavam demónios, mas nenhum curava a natureza. Só Jesus.

Nenhum dos possessos curados por Jesus mostra os sinais que “podem indiciar a presença de distúrbios de origem diabólica” referidos pelos exorcistas atuais. Cito os tais sinais (aqui, ponto 13):

“Conhecer línguas desconhecidas à pessoa, bem como factos ocultos, manifestar uma força acima do normal e ter aversão às coisas sagradas; ver, ouvir, sentir, cheirar e imaginar coisas inexplicáveis à luz das ciências psicológicas; ter doenças ou distúrbios somáticos inexplicáveis à luz das ciências médicas; acontecimentos estranhos com objetos e animais inexplicáveis à luz da ciência, como por exemplo, coisas que se movem do lugar sozinhas, eletrodomésticos que se acendem e desligam sozinhos, etc.”.

[Temos de concluir por aqui, em alternativa, que a) as possessões no tempo de Jesus não eram verdadeiras possessões; ou b) as possessões de agora não são verdadeiras possessões como no tempo de Jesus; ou c) umas e outras são outras coisas que verdadeiras possessões; também podemos ser pela d) os sinais das chamadas possessões mudam de época para época; eu sou pela d) porque c)].

Claro que no tempo de Jesus não havia eletrodomésticos. E há um caso de alguém com uma força acima do normal, o possesso de Gerasa (Mc 5,1-14, episódio tão querido de Saramago por causa do desperdício de carne de porco com tanta gente a passar fome, dizia ele, numa interpretação literalista, aliás muito próxima, nos seus métodos, da dos defensores da doutrina tradicional do diabo e do demónio).

Vejamos o que diz um investigador atual sobre esta “possessão”, que geralmente é apontada pelos exorcistas como a mais importante, e o que significa a ação de Jesus de exorcizar. Considero que, entendido assim, as ações de Jesus são muito mais iluminadoras para o homem contemporâneo.






Os texto acima é retirado de "Jesus, uma abordagem histórica", de José Antonio Pagola (Gráfica de Coimbra 2, 2008).

Manuel Fraijó, em “Satán en horas bajas”, Sal Terrae, 1993, afirma, em resumo (reconheço que alguns, invocando determinadas cristologias, repudiam à partida o que se segue):

"É provável, ainda que não seguro, que Jesus participasse da mentalidade do seu tempo e acreditasse nos demónios. Não seria o único erro que há que lhe imputar. Também parece que contou com o fim iminente do mundo. Os escritos bíblicos afirmam que Jesus foi igual em tudo a nós, menos no pecado. Não esteve, pois, isento de erros. Nem tal significa que os cristãos estão obrigados a partilhar estes erros".



“A maioria das passagens em que os evangelhos falam de Satã e seus sequazes são criação da comunidade posterior. Não são, pois, expressão das ideias pessoais de Jesus sobre Satã. (…) Do conjunto da mensagem de Jesus deduz-se que o autêntico perigo para o ser humano não procede de Satã, mas do coração humano. O que mancha o homem, diz Jesus, nunca é o que vem de fora, mas o que procede de dentro".


"A figura de Satã não faz parte da autocompreensão essencial de Jesus nem é necessária para que os cristãos acedam a Ele. Jesus anunciou a Deus, não a Satã. Se alguma vez recorreu a Satã, foi para exemplificar melhor a sua mensagem. Mas não especulou sobre ele nem desenvolveu uma teoria demonológica. Toda a sua vida, morte e ressurreição se orientou em prol do positivo, da boa nova. O verdadeiramente importante para os cristãos não é Satã nem os milagres de Jesus, mas o «milagre Jesus»".

Citando Vasco Pinto de Magalhães, que se reporta a Walter Kasper, temos de afirmar que “interpretando os textos bíblicos com a exegese atual [que não é feita aqui; apenas se dão pistas] não é possível manter a doutrina tradicional” do diabo e do demónio.

Quero ainda mostrar como um autor atual e insuspeito entende hoje a missão de Jesus dada aos discípulos de “exorcizar e curar”. A seguir, mas não sei ao certo quando.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...