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sábado, 18 de fevereiro de 2012

"Cardeal nega-me função essencial", diz Ferreira Fernandes

Escreve Ferreira Fernandes, um dos cardeais da crónica em Portugal (no DN de hoje):


Cardeal nega-me função essencial


Não vou dizer que expulsando o que é natural nos cardeais ele volta a galope: acredito que o que disse o novo cardeal português, Manuel de Castro, foi só dele. E não vou retirar ao cardeal a legitimidade de se pronunciar sobre educação dos filhos lá porque não os faz: admito que um olhar de fora possa ser mais atento. Portanto, com o tal cardeal não generalizo, nem o excluo do direito de opinião. Dito isto, engalinhei por ele ter dito que "a mulher deve poder ficar em casa ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos". Na verdade, não engalinhei, senti a crista encrespar-se! Senti a minha função essencial de pai educador diminuída. Que é isso de que cabe mais e melhor a elas educar?! Parir, de acordo; mas a educar peço meças. Acordei noites para sussurrar acalmias a choros. Admoestei muito cedo a falta de dizer bom-dia a vizinhos. Mergulhei junto para acabar com medos. Forcei-me a decorar poemas só para a acompanhar. Soube fazê-la sentir que ela estava comigo, mesmo quando estávamos longe um do outro... É certo que não fiquei em casa nem trabalhei menos para a educar, não pude, é a vida. Mas apliquei-me na minha função essencial de pai educador. E a prova é que dei à minha filha ensinamento útil: "És cidadã a parte inteira, mas, nunca esqueças, nada está garantido para sempre." Preveni-a contra si, cardeal.


Não me parece que o novo cardeal lhe negue qualquer função essencial. Apenas realça que deveria haver outra possibilidade para as mulheres. "A mulher deve poder ficar em casa ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos", diz o cardeal.


O cronista revela, quanto a mim, e já não é a primeira vez, o seu anticlericalismo. Quando fala alguém da igreja desperta logo um anticomunismo mental em certas pessoas, desta vez Ferreira Fernandes incluído. Esse anticomunismo mental faz pensar que o que uma pessoa diz em relação a uma parte da realidade exclui que se pense isso mesmo da outra parte. Ele falou das mulheres na educação dos filhos? Logo é machista. Se aumenta de um lado, diminui do outro, daí o anticomunismo. 


Acrescento que o cardeal poderia dizer algo do género para os homens. Mas de facto não é a mesma coisa. As mães são muito mais importantes para os recém-nascidos do que os pais. E não tem nada a ver com a dedicação dos pais-homens. Claro que os pais também poderiam ter a vida facilitada para apoiar os filhos. Mas crucial mesmo é o apoio das mães - o que já está contemplado na legislação de diversos países do norte da Europa. 


Lembro que em Portugal, um homem tem de tirar 10 dias úteis de licença (e pode tirar mais 30 dias em que a mulher tem de trabalhar), enquanto a mulher tem direito a 120 dias recebendo 100 % ou 150 dias ganhando 80%. A estes 150 dias pode acrescentar três meses, ganhando 25% (é sempre a Segurança Social que paga). Ou seja, numa família que decida apoiar com o máximo de tempo os filhos recém-nascidos, a mãe dispõe apenas de oito meses (nos últimos três vendo o ordenado diminuído em 75%). Numa outra possibilidade, também o pai pode estar três meses a receber 25 %, fazendo com que o tempo máximo de apoio suba para os 11 meses. Continua a ser pouco. Em exclusivo para as mulheres (porque é mais importante) ou partilhada com os homens (enquanto possibilidade, é melhor), a licença de maternidade/paternidade devia chegar aos dois anos, pelo menos. As mães suecas têm 480 dias para usar até aos 8 anos dos filhos.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

"Preciso daquela cara, sim", texto Ferreira Fernandes no DN


Foto vencedora do Word Press Photo do Ano 2011, de Samuel Aranda

Nas Pietà, todas, a de Miguel Ângelo, de El Greco, de Van Gogh, o objeto da compaixão é Cristo, corpo sem sopro. Juntamo-nos ao outro personagem do quadro ou da escultura, Maria, para partilhar o que o seu olhar, a inclinação do pescoço e o rito da boca mostram: piedade. O duo foi feito em função dele, mas a força emana dela. Por ela, vamos para ele. A vencedora do Word Press Photo do Ano 2011, do espanhol Samuel Aranda, parece uma Pietà, mas não é. Numa mesquita de Saná, no Iémen, convertida em hospital durante manifestações, um corpo de homem, magro como Cristo, sofrido, abandona-se sobre uma mancha. Esta é uma makrama, veste negra que cobre as iemenitas da cabeça aos pés, com nesga por onde os olhos mal se adivinham. O homem é vítima de alguma coisa mas não comove. Ao contrário de Cristo, para quem vão as nossas emoções - impelidas pela força de Maria -, aquele iemenita não existe. A foto vencedora do Word Press Photo do Ano 2011 tem personagem única, tão forte quanto nem aparece. Adivinha-se para lá do negrume das vestes. Mais bordoada, menos bordoada, o homem da foto é uma vítima banal, talvez alguém que exigia uma passagem de peões em Queluz e escorregou. Mas o ser apagado pela makrama, tão apagado que nem sabemos se chora, esse, é uma tragédia tão enorme que anula tudo à sua volta. Se alguém me diz que não preciso daquela cara para saber o que ela exprime, desminto. Preciso, até para saber o que há à sua volta.


Ferreira Fernandes no DN de hoje (aqui).



 "Pietà" de Miguel Ângelo

 ...de El Greco

...de van Gogh

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Maçon terrorista

Anders Behring Breivik 

O sofrimento da Noruega é maior do que qualquer tentativa de explicação. O silêncio é a melhor atitude para com vítimas, familiares e nação. Mas confesso que me deixou algo incomodado que entre os qualificativos do principal suspeito, o norueguês Anders Behring Breivik, surgisse o de “cristão”.

Os jornais e a televisão (não ouvi rádio nem procurei na www) dizem sempre que se trata de um fundamentalista cristão. Mas não dizem que cristão é. Católico? Luterano? Calvinista? De uma seita? Eu gostava de saber, embora ainda não me tenha dado ao trabalho de procurar activamente. A informação que vem ao encontro de mim sem grande esforço pessoal (jornais e tv) não esclarecem. Mas ficam sempre as ideias do “cristão fundamentalista” e do “cristão terrorista”.

Não penso, como aquela senhora que dizia que “se é ditadura, não é de esquerda, ponto final” (ver aqui  a partir de 5:40; e também dizia, reparem na maravilha da expressão, “utensilagem mental”, logo no início do vídeo), que se é cristão não pode ser fundamentalista. Na verdade, conheço alguns cristãos fundamentalistas, mas sei que nunca pegariam numa arma para matar pessoas. Há-os, ainda que eu gostasse que não houvesse nem veja bem como se pode ser terrorista e acreditar no Evangelho sem ser por patologia.

Por outro lado, por vezes, mas nem sempre, a imprensa tem omitido que o terrorista norueguês pertenceu à maçonaria.

Ferreira Fernandes escreve no DN de hoje:
Norueguês, cristão, conservador, de extrema-direita, tudo qualificativos a que se pode acrescentar outro, terrorista, fazendo um todo que não é por estar junto (por exemplo, em terrorista cristão) pode ofender os noruegueses, cristãos, conservadores ou de extrema-direita que não são terroristas. Sim, há terroristas cristãos e Anders Behring Breivik é a prova. Ler tudo aqui.
Por uma questão de honestidade, devia estar logo no início “maçon”. E o trecho acima poderia terminar desta forma sem faltar à verdade: “Sim, há terroristas maçons e Anders Behring Breivik é a prova”. Mas não seria tão mediático.

sábado, 11 de setembro de 2010

Como isolar um cretino

Cartune de José Bandeira e opinião de Ferreira Fernandes ("Como isolar um cretino") no DN de hoje.

"O reverendo já não vai queimar o Alcorão. Ainda bem, porque os livros não são para queimar. No entanto, quero dizer: o tal Terry Jones tinha, e tem, o direito de queimar o Alcorão, logo que o livro lhe pertença. Ou a Bíblia, ou a bandeira americana ou, se eu lho tivesse dado, o meu livro de cromos do Benfica Campeão Europeu. É cretino, já o disse, queimar o Alcorão como manifestação de desagrado ao livro. Mas a liberdade de expressão é também para os cretinos, e era isso que era - e só isso, liberdade de expressão - o acto que Jones ameaçou praticar. Todo o cretino deve poder dizer a cretinice de que o Alcorão é para queimar. Felizmente para os Estados Unidos, a Primeira Emenda da sua Constituição defende a liberdade de expressão, que é, aliás, uma das razões de eles serem um grande país. Foi também usando essa liberdade de expressão que Obama se opôs. À liberdade de expressão do cretino ele opôs a sua liberdade de expressão de homem que, apesar de muito forte, só usou a sua liberdade de expressão para combater o outro. Ainda bem. E se tudo corresse mal, e Jones tivesse queimado o Alcorão e por causa disso alguém fosse morto, não se devia confundir: Terry Jones continuaria a ser só um cretino e o assassino passaria a ser um assassino. Um para ser combatido com a palavra e o outro com a força".

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Inspirações: As eleições são como a confissão

"A democracia tem a mesma função da confissão católica: lava-nos os pecados passados. Com eleições ganha-se uma virgindade nova".

Ferreira Fernandes no DN de ontem (25 de Maio)

sábado, 1 de maio de 2010

Ferreira Fernandes e o anticlericalismo na I República

Imagem da Guerra Civil de Espanha. Milicianos parodiam com vestes litúrgicas

Ferreira Fernandes, no DN de hoje escreve sobre o anticlericalismo na I República, aqui. Diz, por exemplo, que o anticlericalismo já existia em sectores liberais de facções monárquicas, o que não é propriamente novidade. Basta passar pelo Largo da Portagem, em Coimbra, e perguntar por de quem é a estátua que lá está. Os transeuntes costumam saber que é do “Mata-Frades”, o monárquico Joaquim António de Aguiar.

Afirma também que João Seabra, no já citado O Estado e a Igreja em Portugal..., faz um balanço notoriamente doloroso para um padre conservador: nos 80 anos de Monarquia Liberal que antecederam a República, poucos reis foram homens de fé. "D. Pedro IV era um incrédulo, o catolicismo de D. Maria (...) era mais formal do que piedoso, e D. Fernando II era um céptico; D. Luís e D. Maria Pia de Sabóia, e seu filho D. Carlos, [nunca estiveram] acima de um formalismo religioso sem fervor, e nalgum caso sem fé..." Restam, pois, D. Pedro V merecedor de um "talvez" e D. Manuel II "de fé sincera e amor à Igreja". Em todo o caso, os reinados destes dois somam 11 anos, período curto para contrabalançar tantas décadas de ataques à Igreja.

Refere também o caso “Sara de Matos” (a que há dias Helena Matos aludira, aqui) e outros igualmente curiosos como a invasão de um convento, na Rua do Quelhas, por uma patrulha de marinheiros, devido às "bombas de dinamite" atiradas por "jesuítas".

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ferreira Fernandes: "Sair do altar de marfim"

Ferreira Fernandes, no DN de hoje, toca num ponto pertinente. A Igreja, na sociedade hipermediatizada, com a "espectacularização da vida pública" (a expressão é de Pacheco Pereira), tem de estar sempre a explicar-se, porque é constantemente contrariada - e principalmente em assuntos que não condizem com a sua agenda. Com Bento XVI está sempre a acontecer: a lição de Regensburg, as afirmações sobre o preservativo no voo para África, o acolhimento (tornado impossível) do bispo negacionista do Holocausto... E agora, dia-sim-dia-não, com a pedofilia.

O texto. Copiado daqui.

A frase do cardeal Bertone ("há uma relação entre homossexualidade e pedofilia") lá obrigou a Igreja Católica a voltar àquele que parece ser agora o seu desporto preferido: explicar o que disse. O cardeal falava só dos padres pedófilos e, nestes, a homossexualidade estaria mais relacionada com a prática do crime do que o celibato. É discutível, mas, dito assim, retira à frase aquela abusiva ligação directa "homossexualidade-pedofilia". Antes, fora a frase do pregador da Casa Pontifícia que comparou as acusações de pedofilia da Igreja com as perseguições aos judeus. A inevitável explicação também veio: o pregador citava a carta de um amigo judeu. Este exercício "o que eu disse, mesmo, foi..." há-de continuar porque, entre outras razões, não é impunemente que se passam tantos séculos a falar sem precisar de dar explicações terrenas. Uma organização que se permite, com toda a coerência da sua estrutura de pensamento, dizer que alguém é infalível estar agora a explicar-se todos os dias poderá parecer que fraqueja. Mas, de facto, é hoje, e não ontem quando não estava para se questionar, que a Igreja Católica está a fazer uma notável prova de vida. E ser Bento XVI, o "doutrinário", a abrir-se ao mundo não é a menor das surpresas.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Fim-de-semana fértil em informação religiosa

O fim-de-semana passado foi fértil em informação religiosa na imprensa generalista. Não só por ser o fim-de-semana de Páscoa, embora a quadra ajudasse. E para lá dos abusos sexuais.

Vou fazer aqui um elenco do que saiu no "Diário de Notícias" de sábado e de domingo (e não falo de droga traficada em ovos de Páscoa, da “operação Páscoa”, da indústria dos folares, etc.). Com links, no caso de encontrar os textos on-line.


DN de sábado, 3 de Abril

No caderno principal

* “Os dias da passagem”. Reportagem de Fernanda Câncio (texto) e Jorge Amaral (fotos) sobre a Páscoa judaica e as Páscoas cristãs.

* “Cardeal-patriarca pede perdão por pecados da Igreja”. Texto de Filipa Ambrósio de Sousa sobre as celebrações de Sexta-feira Santa em Lisboa.

* “O papa guardião do terceiro segredo de Fátima”. Texto de Paula Carmo, sobre a vinda de Bento XVI a Portugal, seguido de entrevista a Manuel Morujão, porta-voz dos bispos portugueses, que diz: “A ligação de Bento XVI à mensagem da Cova da iria é muito forte”.

* “A fé na Via Sacra dá lugar ao turismo”. Texto de Susana Salvador sobre a recriação de crucifixões pelo mundo.

* “A cruz do mundo”. Opinião de Anselmo Borges.

* “Abriu a caça aos padres (III)”. Opinião de Ferreira Fernandes.

No "DN Gente"

* “O monge que teve mais fé na história” (na capa). Entrevista de João Céu e Silva a José Mattoso (fotos de Gonçalo Vilaverde). (Excelente entrevista e muita imprecisão geográfica. Do Carvoeiro, lugar de Valemaior, Albergaria, que não é recôndito, é impossível ver a auto-estrada Lisboa/Porto. Vê-se é a A25, que liga Aveiro a Espanha.)

* “Óscar Romero. O Bispo da América morto há 30 anos pela ditadura de El Salvador”. Texto de Susana Salvador


DN de domingo, 4 de Abril

No caderno principal

* “Num caso de abuso, com certeza iria à polícia”. Entrevista, confusa, a D. Januário Torgal Ferreira, por João Marcelino (DN) e Paulo Baldaia (TSF)

* “Um quarto dos portugueses não crê na vida eterna”. Texto de Rita Carvalho sobre a crença na ressurreição, na qual 10 por cento dos que vão à missa com regularidade não acreditam.

* “Muitas paróquias deixaram para depois da Páscoa os preparativos da visita do Papa”. Texto de vários sobre a forma como paróquias menos e mais crentes preparam a visita de Bento XVI.

* “Críticas judaicas abrem nova crise para o Vaticano”. Texto de Abel Coelho Morais sobre a polémica desencadeada pelas afirmações de Raniero Cantalamessa.

* “O túmulo de Cristo na Caxemira”. Texto de Patrícia Viegas sobre o túmulo de um pregador muçulmano medieval que tem sido publicitado como sendo o de Jesus.

* “As outras vítimas da Igreja”. Opinião de Alberto Gonçalves.

Na "Notícias Magazine"

* “Mulheres na religião”. Texto de Ana Catarina Pereira e fotografias de Rui Coutinho. Como cinco mulheres vivem as suas religiões: Ana Vivente (católica), Míriam Lopes (metodista), Esther Mucznick (judia), Faiza Erraoui (muçulmana) e Tsering Paldron (budista).

* “São José e as Três Irmãs”. Texto de Alice Vieira suplemento infantil “Terra do Nunca”.

* “A consciência tranquila”. Opinião de Manuel António Pina.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...