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sábado, 19 de outubro de 2013

Anselmo Borges "Ateísmo, agnosticismo, teísmo"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


A modernidade tem como característica fundamental a nova visão científica da realidade. A problemática é de tal modo decisiva que o filósofo e teólogo Javier Monserrat advoga a convocação de um Concílio para confrontar a fé com esse novo dado - ver "Hacia el Nuevo Concilio", de onde partem as reflexões que se seguem.

Alguns resultados estão alcançados. 1. Para a ciência actual, o universo todo, incluindo a consciência, "produziu-se pelas propriedades ontológicas e dinâmicas da matéria que foi produzida no big bang com altíssima densidade e energia". 2. Estamos em presença de um mundo real e aberto. 3. Este mundo aparece-nos ordenado finalisticamente. Trata-se de uma "ordem viva" e "ordem antrópica". De qualquer modo, apresenta-se como um mundo enigmático, sendo possíveis três conjecturas metafísicas: ateísmo, agnosticismo, teísmo.

Os autores ateus "mostraram que entender a consistência eterna de um universo sem Deus é possível". A ciência pode, segundo algumas teorias, conceber a auto-suficência do universo, "a sua consistência e estabilidade dinâmica num tempo eterno, sem fim".

Perante a impossibilidade de a ciência resolver com certeza as questões últimas, de ordem metafísica, o agnosticismo assume a ausência de resposta: trata-se de "um incompromisso filosófico". Respeita tanto o ateísmo como o teísmo. Provavelmente a percentagem de agnósticos é hoje muito mais elevada do que a dos ateus.

O ateísmo não pode ser excluído como "teoria possível". Mas o ateísmo não é evidente. Se o fosse, não haveria teístas, do mesmo modo que, se o teísmo fosse uma evidência, não haveria ateus. Perante um mundo obscuro e enigmático, tanto o ateísmo como o teísmo constituem uma "fé filosófica", uma "crença".

Também o teísmo apresenta razões para argumentar a favor da existência de Deus. Já não se trata de "demonstrar", mas de mostrar que a razão científico-filosófica torna verosímil a existência de Deus: "uma certeza moral livre da existência de Deus". 1. A hipótese de um Deus transcendente e criador enquanto fundamento da consistência, estabilidade e suficiência de "um universo que começa no tempo (a grande explosão) e que previsivelmente acabará numa morte energética e na sua dissolução final" surge como a mais verosímil. É defensável a hipótese de que "o fundamento do ser, a verdadeira realidade auto-suficente em si mesma e eterna, seja um ser divino transcendente que - com intencionalidade - "cria", "funda" o universo visível no seu fluir temporal finito". 2. O universo que autonomamente produziu a ordem física e biológica, conducente à liberdade, torna verosímil um desígnio racional de Deus enquanto criador. O teísmo actual não aceita o Deus tapa-buracos, mas, precisamente ao reflectir sobre a ordem "quase-racional" constatável, e, portanto, sobre as propriedades da matéria e as leis evolutivas que permitem produzir autonomamamente a ordem psicobiofísica e a sua orientação antrópica - porquê estas propriedades e leis e não outras? - ,constata que esta ordem, congruente com um fim inteligível, "torna verosímil a hipótese de que poderia estar causada pelo "desígnio" racional de uma Inteligência Criadora." 3. Esta verosimilhança é confirmada e aprofundada, quando se constata que o processo evolutivo dá origem no seu termo a seres humanos enquanto pessoas autoconscientes e livres. Não é mais razoável e inteligível o processo, se na sua raiz e como sua Causa está o Deus transcendente e pessoal, que cria livremente por amor? O teísmo actual "assumiria a superação do dualismo e identificar-se-ia com a lógica do emergentismo, incluindo a emergência do psiquismo humano, da razão e da sua especial abertura à Divindade", "que abarca o universo e o contém criativamente no seu interior". Este universo é um "universo para a liberdade", a partir de um "desígnio para a liberdade" e, portanto, do "princípio antrópico cristão", embora não se imponha como inevitável a "solução divina".

Tanto o ateísmo como o teísmo têm na base uma crença ou uma fé, com razões, devendo, portanto, ateus, agnósticos e teístas respeitar-se e dialogar.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Ano da Fé. Ter fé na fé

3.
Há um submundo de pessoas que têm fé na fé sem terem fé. Escrevem nos jornais sobre Bento XVI sem serem católicos, defendem o Papa, realçam a importância social do cristianismo, participam em debates e diálogos com crentes, não para esgrimir argumentos sobre o crer mas para encontrar pontes de diálogo. São pela presença da religião no espaço público. São capazes de defender a Igreja católica, nos meios laicos a que têm acesso, com base na “missão histórica e social” da Igreja. E porque feito pela Igreja fica mais barato. Têm fé na fé.

Geralmente os ministros da Igreja Católica gostam de ouvir estes que não sendo propriamente católicos, têm fé na fé. Fazem o jogo do lado de cá. Não são os ateus ou agnósticos puros. Nem ateus inveterados, nem agnósticos retintos. São antes uma espécie de, como alguém lhes chamou, “patos mancos”. Sou simpático para eles. Conheço dois ou três. Mas não gosto de ter fé na fé sem ter fé.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quem lê "Teologia para Agnósticos"?

Ignacio Sotelo

González Faus, no livro a meias com o agnóstico Ignacio Sotelo (Casa das Letras) conta que Sotelo lhe confidenciou que andava com a ideia de escrever um livro com o título "Teologia para Agnósticos". "Disse-me - afirma Faus - que sempre que tinha tentado comentar o projeto com algum amigo não crente lhe tinham dito com um tom de autossuficiência despiciente: «Só os padres te vão ler»".

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

10 factos do Vaticano pouco noticiados em 2011 (2.ª parte)

Primeira parte.
6. Tagle para Manila
Assim como Milão na Itália, Manila nas Filipinas é mais uma daquelas megadioceses cujo líder se torna automaticamente um ponto de referência global e geralmente atrai pelo menos um olhar enquanto concorrente papal. Só isso já tornaria importante a nomeação do arcebispo D. Luis Antonio Tagle, 54 anos, no dia 13 de outubro. Tagle é conhecido como um talentoso teólogo, uma personalidade extremamente não clerical, um bom ouvinte e alguém totalmente desinteressado pela construção de impérios eclesiais –  não muito diferente da reputação de Joseph Ratzinger antes se eleito. Com a tenra idade de 54 anos, está posicionado para ser durante um bom tempo um grande rosto e voz do catolicismo asiático.


7. A proeza de quatro volumes de Bento XVI
Bento XVI é um papa ensinante, um ponto que ficou muito claro nas suas 22 viagens ao exterior. Os observadores sabem que o grande momento de cada viagem provavelmente ocorrerá num discurso para o "mundo da cultura", com dignitários políticos, intelectuais e espirituais. No dia 22 de setembro, no parlamento alemão, aconteceu mais um desses momentos. O papel dos grupos religiosos numa democracia, afirmou o papa, não é "propor uma lei revelada ao Estado e à sociedade", mas sim sustentar a "natureza e a razão" como fontes confiáveis de escolhas morais – incluindo o respeito pelo pluralismo e pela diversidade. A revista “Der Spiegel” disse que o discurso foi "corajoso" e "brilhante", enquanto o jornal londrino de esquerda “The Guardian” encorajou os "verdes" laicos a esquecer os estereótipos do papa como "um professor alemão puritano e reprimido". Somado a discursos anteriores em Ratisbona (2006), no Collège des Bernardins, em Paris (2008), e no Westminster Hall, em Londres (2010), o discurso no Bundestag completa uma proeza de reflexão papal sobre a fé, a razão e a democracia em quatro volumes.


8. O "Papa dos agnósticos"
O grupo que mais sentiu o amor de Bento XVI durante 2011 foi a multidão secular agnóstica (na imagem, a franco-búlgara Julia Kristeva). Provavelmente, a maior manchete da sua viagem em setembro à Alemanha foi o elogio de Bento XVI aos "agnósticos que (...) sofrem por causa dos nossos pecados e desejam um coração puro". Essas pessoas, disse o pontífice, estão, na verdade, "mais perto do Reino de Deus do que os fiéis de 'rotina', que só veem o aparato da Igreja, sem que o seu coração seja tocado pela fé". Da mesma forma, o sinal inovador de Bento XVI durante o encontro de Assis foi a sua decisão de convidar não apenas líderes espirituais, mas também agnósticos. Quem poderia prever que um pontífice que se supunha ser o "Rottweiler de Deus" se tornaria o "Papa dos agnósticos"?

9. O caso do crucifixo
Num desdobramento impressionante e totalmente inesperado, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) reverteu em março a sua própria decisão de 2009 e sustentou o direito de a Itália exibir crucifixos em salas de aula públicas. A decisão significa que as expressões públicas de crença religiosa foram consideradas como não conflituantes com as normas europeias dos direitos humanos e da liberdade de consciência.  A imagem do advogado Joseph Weiler, judeu ortodoxo, de pé, na grande sala do TEDH com a sua kipá, defendendo apaixonadamente o direito da Itália de manter o crucifixo na parede, encontra-se entre as partes mais memoráveis do imaginário inter-religioso do ano.

10. A guerra global contra os cristãos
O ano de 2011 começou com o bombardeamento de uma igreja cristã em Alexandria, no Egito, que matou 23 pessoas, e encerrou com os ataques no dia de Natal contra três igrejas na Nigéria, onde pelo menos 27 católicos morreram. Houve inúmeros ataques contra cristãos. Embora esses episódios tenham sido amplamente divulgados à medida que ocorriam, foram geralmente interpretados como eventos localizados e isolados. No entanto, o que surge dessas atrocidades é um retrato de uma guerra global contra os cristãos. Hoje, os cristãos são de longe o grupo religioso mais perseguido do planeta. Infelizmente, é uma aposta segura que esta guerra continuará a ser uma das principais histórias de 2012.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"Vivemos na primeira civilização ateia", diz Vaclav Havel



“Vivemos na primeira civilização ateia, por outras palavras, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade”, disse Vaclav Havel (1936-2011) na abertura da 14.ª Conferência do Forum 2000, em Praga, e repetiu uma série de vezes, como recordou Jorge Almeida Fernandes, num artigo do “Público” no sábado passado, a propósito da morte do estadista checo (18-12-2011).

Quando li estas palavras, pensei que se referia à realidade checa. O seu país é o que tem maior número de ateus na Europa – facto abundantemente recordado a quando da visita de Bento XVI à República Checa, em Setembro de 2009. Mas Havel pretendeu abarcar a realidade europeia e mesmo mundial. Disse em 2007 ao “Nouvel Observateur” (em relação a Vaclav Havel cito sempre o mesmo texto do “Público” de 24-12-2011) que a sua grande preocupação não era o terrorismo: “É a dinâmica suicidária da evolução da nossa civilização planetária”. Neste sentido geográfico, o checo concordaria com Marcel Gauchet, que afirmou em 2004 que o séc. XXI se anunciava como “o século da marginalização social e política do cristianismo”. Isso já acontece na Europa, a qual, diz o francês, “neste ponto, anuncia o futuro”.

Porquê “dinâmica suicidária”? Havel: “É como se estivesse obstinada em perseguir objectivos de curto prazo, quando a sorte do planeta exige um mais agudo e voluntário sentido de antecipação”. E ainda: “Pela primeira vez na História, assistimos ao desenvolvimento de uma civilização deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos”. Noutro momento afirmou: “A transcendência é a única alternativa à extinção”. Esta frase não anda longe de outra de Remi Brague à revista católica “30 Giorni”: “O ateísmo não mata os homens, mas impede que eles nasçam”. Sociedade sem horizontes de futuro, principalmente meta-histórico, transcendência, não se reproduzem. Outra vez Havel: “O Ocidente democrático perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar como seus. (…) O pragmatismo dos políticos que querem ganhar eleições futuras, reconhecendo a vontade e os humores duma caprichosa sociedade de consumo, impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e trágica da sua própria linha de acção. (…) Uma nova divindade tende a suplantar o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e de um consumo incessantemente crescentes”.

Havel não se considerava crente – “sou apenas meio crente” –, mas estava convencido de que “há um ser, uma força velada por um manto de mistério”. “É o mistério que me fascina”.

Novamente Gauchet, que é agnóstico, para terminar, não sobre a sociedade, mas sobre a democracia numa sociedade pós-cristã: “O que ameaça a democracia, hoje, é o vazio, a futilidade, o esquecimento, a facilidade, o curto prazo, a superficialidade. As religiões e o cristianismo, em particular, têm o sentido do essencial, do trágico, do mistério da aventura humana, todas as coisas que a democracia facilmente ignora. Elas podem ser decisivas para a democracia”.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Para uma história da interpretação das frases crentes dos ateus e agnósticos


Bento Espinosa

Einstein dizia que “Deus não joga aos dados” e que a “ciência sem religião é manca” e a “religião sem ciência é cega”. Espinosa falava de um amor que os filósofos como ele deviam ter, o “amor intelectual a Deus”. Ambos judeus. Um, cientista, era agnóstico ou talvez mesmo ateu. O outro, filósofo, era intelectualmente panteísta e religiosamente ateu.

Ainda está por escrever a história da interpretação das frases supostamente crentes proferidas por agnósticos e ateus.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sentimento instigado pelo ataque



Sentir a falta de Deus é para mim um pouco como ser inglês: um sentimento instigado sobretudo pelo ataque, Quando o meu país é maltratado, um patriotismo dormente, para não dizer comatoso, agita-se. E quando se trata de Deus, sinto-me mais provocado pelo absolutismo ateu do que por, digamos, a confiança quase sempre insípida e hesitante da Igreja Anglicana.


Julian Barnes, pág. 94, de "Nada a Temer" (Quetzal)


Julian Barnes, recente Booker Prize, agnóstico, quase chega a ser crente, quando provocado, como muitos católicos indiferente em Portugal, que chegam a ser católicos perante os ateus, evangélicos e fundamentalistas. "A religião que eu não pratico, mas que é a minha, é a católica".

domingo, 30 de outubro de 2011

Dez convites para um novo humanismo


Julia Kristeva


“Não são dez mandamentos, mas sim dez convites para pensar pontes entre nós”. Segue-se a parte final do discurso de Julia Kristeva no encontro de Assis. O Papa ouviu-o. Um texto para cristãos, ateus e agnósticos que pensam e olham para o outro lado. Copiei daqui.
1. O humanismo do século XXI não é teomorfismo. O Homem Masculino não existe. Não existem nem "valores" nem "fins" superiores, não há nenhum atracadouro do divino junto aos atos mais altos daqueles homens que, do Renascimento em diante, se chamaram "gênios". Depois do Holocausto e do Gulag, o humanismo tem o dever de lembrar os homens e as mulheres que, se nos consideramos como os únicos legisladores, é somente graças ao contínuo questionamento da nossa situação pessoal, histórica e social que podemos decidir a sociedade e a história.
2. Processo de contínua refundação, o humanismo se desenvolve necessariamente por meio de rupturas que são inovações (o termo bíblico hiddouch significa inauguração-inovação-renovação; enkainosis e anakainosis; novatio e renovatio). Conhecer intimamente a herança greco-judaico-cristã, colocá-la sob rigoroso exame, transvalorar (Nietzsche) a tradição: não há outro meio para combater a ignorância e a censura, e, assim, facilitar a coexistência das memórias culturais que se construíram ao longo da história. 
3. Filho da cultura europeia, o humanismo é o encontro de diferenças culturais favorecidas pela globalização e pela informatização. O humanismo respeita, traduz e reavalia as variantes das necessidades de crer e dos desejos de saber que são patrimônio universal de todas as civilizações. 
4. Humanistas, "nós não somos anjos, mas temos um corpo". Assim se expressava, no século XVI, Santa Teresa de Ávila, inaugurando a idade barroca, que não é uma Contrarreforma, mas sim uma Revolução Barroca que inicia o século das Luzes. Porém, o desejo livre é um desejo de morte. E era preciso esperar a psicanálise para reunir na única e última regulamentação da linguagem essa liberdade dos desejos que o humanismo nem censura nem lisonjeia, mas que se propõe a pôr em evidência, a acompanhar e a sublimar. 
5. O humanismo é um feminismo. A libertação dos desejos necessariamente devia conduzir à emancipação das mulheres. Depois dos filósofos do Iluminismo que abriram o caminho, as mulheres da Revolução Francesa pretenderam essa emancipação comThéroigne de Méricourt, com Olympe de Gouges, e assim por diante com Flora Tristan, com Louise Michel e com Simone de Beauvoir, acompanhadas pelas lutas das sufragistas inglesas. E quero lembrar aqui as mulheres chinesas da Revolução Burguesa de 4 de maio de 1919. As lutas por uma paridade econômica jurídica e política requerem uma nova reflexão sobre a escolha e a responsabilidade da maternidade. A secularização é a única civilização que ainda está isenta de um discurso sobre a maternidade. O vínculo passional entre a mãe e a criança, este primeiro outro, aurora do amor e da hominização – aquele vínculo no qual a continuidade biológica se torna sentido, alteridade e palavra é um confiar, um confiar-se. Diferente da religiosidade assim como da função paterna, a confiança materna completa ambas, participando assim, plenamente, da ética humanista. 
6. Humanistas, é por meio da singularidade compartilhada da experiência interior que podemos combater aquela nova banalidade do mal que é a automatização da espécie humana a que estamos assistindo. A partir do momento que somos seres falantes e escritores, já que desenhamos, e pintamos, e tocamos, e jogamos, e calculamos, e imaginamos, e pensamos: justamente por isso não somos condenados a nos tornar "elementos de linguagem" na hiperconexão acelerada. O infinito das capacidades de representação é o nosso habitat, a nossa dimensão profunda e libertadora, a nossa liberdade. 
7. Mas a Babel das línguas também gera caos e desordens que o humanismo jamais conseguirá regular com a simples escuta, embora atenta, prestada às línguas dos outros. Chegou o momento de retomar os códigos morais do passado: sem enfraquecê-los com a pretensão de problematizá-los, e renovando-os a despeito das novas singularidades. Longe de serem puros arcaísmos, as proibições e as limitações são obstáculos que não podem ser ignorados, se não se quer suprimir a memória que é o pacto dos humanos entre si e com o planeta, com os planetas. A história não pertence ao passado: a Bíblia, os Evangelhos, o Alcorão, o Rigveda, o Tao habitam o nosso presente. É utópico criar novos mitos coletivos, e não é suficiente nem mesmo interpretar os antigos. Cabe-nos reescrevê-los, repensá-los, revivê-los: dentro das linguagens da modernidade. 
8. Não existe mais um Universo. A pesquisa científica descobre e investiga continuamente o Multiverso. Multiplicidade de culturas, de religiões, de gostos e de criações. Multiplicidade de espaços cósmicos, de matérias e de energias que coabitam com o vácuo, que se compõem com o vácuo. Não tenhais medo de serdes mortais. Capaz de pensar o multiverso, o humanismo é chamado a se confrontar com uma tarefa epocal: inscrever a mortalidades nos multiversos da vida e do cosmos. 
9. Quem poderá fazer isso? O humanismo, porque ele sabe como cuidar disso. Poder-se-á dizer que o cuidado amoroso do outro, o cuidado ecológico da Terra, a educação dos jovens, a assistência aos doentes, aos deficientes, aos idosos, aos fracos não detém nem a corrida das ciências nem a explosão do dinheiro virtual. O humanismo não será um regulador do liberalismo: ao contrário, será capaz de transformá-lo, sem inversões apocalípticas ou promessas de futuros gloriosos. Tomando-se o seu tempo, criando uma nova vizinhança e solidariedades elementares, o humanismo acompanhará a revolução antropológica que é anunciada tanto pela biologia que emancipa as mulheres, quanto pelo deixar-fazer da técnica e das finanças, e pela impotência do modelo democrático-piramidal, que não consegue canalizar as inovações. 
10. O homem não faz a história, mas a história somos nós. Pela primeira vez, o Homo sapiens é capaz de destruir a terra e a si mesmo em nome das suas religiões, crenças ou ideologias. E, pela primeira vez, os homens e as mulheres são capazes de reavaliar em total transparência a religiosidade constitutiva do ser humano. O encontro das nossas diversidades, aqui em Assis, testemunha que a hipótese da destruição não é a única possível. Ninguém sabe quais seres humanos sucederão a nós, que estamos comprometidos nessa transvaloração antropológica e cósmica sem precedentes. A refundação do humanismo não é nem um dogma providencial, nem um jogo do espírito: é uma aposta. 
A era da suspeita não é mais suficiente. Diante das crises e das ameaças cada vez mais graves, chegou a era da aposta. Devemos ter a coragem de apostar na renovação contínua das capacidades dos homens e das mulheres de crer e de saber juntos. Para que, no multiverso cercado de vácuo, a humanidade possa perseguir longamente o seu destino criativo.

sábado, 15 de outubro de 2011

Anselmo Borges: De Jesus a Jesus Cristo


Aspecto do colóquio de Valadares. Fala o teólogo Xavier Pikaza

Anselmo Borges no DN de hoje:

Realizou-se nos dias 8 e 9 deste mês, em Valadares, Seminário da Boa Nova, com mais de duzentos participantes, um Colóquio internacional, subordinado ao tema: "Quem foi (é) Jesus Cristo?"

Jesus Cristo está na base da maior religião: mais de dois mil milhões de seres humanos espalhados pelo mundo reclamam-se hoje da fé nele e dizem-se cristãos. A sua figura foi de tal modo determinante que a História se dividiu em antes e depois de Cristo. Ninguém tem dúvidas de que sem ele a História seria diferente.

No entanto, viveu num recanto do Império Romano e a sua intervenção pública pode não ter chegado a dois anos. Morreu como blasfemo religioso e subversivo social e político. Uma coligação de interesses religiosos e políticos de Jerusalém e Roma condenou-o à morte e morte de cruz, própria dos escravos.

Com essa morte ignominiosa, deveria ter sido o fim. O que se passou, para que, pouco depois, tivesse começado em seu nome um movimento que transformou o mundo e que chegou até nós? Após a dispersão, os discípulos voltaram a reunir-se, afirmando que ele está vivo em Deus.

Como escreve o historiador E. P. Sanders, professor em Oxford e Cambridge, "sabemos quem foi Jesus, o que fez, o que ensinou e porque morreu; e, talvez o mais importante, sabemos como inspirou os seus seguidores, que, por vezes, não o entenderam, mas que lhe foram tão fiéis que mudaram a História". "Em rigor, a ressurreição não faz parte da história do Jesus histórico, mas pertence ao resultado da sua vida."

Sem a convicção de fé dos discípulos de que ele é o Vivente em Deus, não haveria cristianismo. Só assim se entende a passagem do Jesus da história ao Cristo da fé, de tal modo que o seu nome agora é Jesus Cristo, Jesus em quem se acredita como o Cristo, o Messias e Filho de Deus.

Para os crentes, se Jesus não fosse o Cristo, não passava de mais um combatente bom pela Humanidade e um revolucionário crucificado. Há, porém, um outro perigo, mais subtil: o de se ficar apenas com o Cristo Senhor glorificado, esquecendo o Jesus histórico de Nazaré, e o que ele queria, e o que ele fez, numa mensagem e comportamento que o levaram à cruz.

Veja-se o que se diz no Credo: "Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Por ele todas as coisas foram feitas. E, por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos céus. E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem. Também por nós foi crucificado; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia e subiu aos céus." Pergunta-se: e entre o nascimento e a morte na cruz, o que se passou? Não aconteceu nada? Ele não fez nada?

Este é que pode ser e tem sido o grande esquecimento. Tudo começou em São Paulo, que não tinha conhecido o Jesus histórico e, assim, só contactou com o Jesus glorificado, o Senhor, o Kyrios. Foi este Jesus Kyrios (Senhor) que ocupou o centro no quadro de interesses imperiais, como é sabido desde Constantino, e que acabou por legitimar poderes, domínios, guerras, uma Igreja senhorial.

Pensou-se então que bastava prestar-lhe culto -missas, procissões, adorações ao Santíssimo... -, sem a exigência de segui-lo no seu Evangelho do Reino de Deus, no que ele quis e fez com os pecadores, as mulheres, os estrangeiros, na relação com o dinheiro, com a política, os pobres, Deus e a religião. O cristão não precisaria de converterse.

Há um texto terrível do filósofo agnóstico Max Horkheimer, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt: "Jesus morreu pelos homens, não podia guardar-se para si próprio avaramente e pertencia a tudo o que sofre. Os Padres da Igreja fizeram disso uma religião, isto é, fizeram uma religião, que também para o mal (moral) era uma consolação. Desde então isso teve um êxito tal no mundo que pensar em Jesus nada tem a ver com a acção e ainda menos com os que sofrem. Quem lê o Evangelho e não vê que Jesus morreu contra os seus actuais representantes não sabe ler."

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O que diz um agnóstico provocado pelo absolutismo ateu



Julian Barnes, noutras ocasiões agnóstico confesso, ainda que tenha sido professor num "colégio de padres" em França, diz sobre a falta de Deus o que muitos, em Portugal, por exemplo, dirão da vaga identidade católica:
Sentir a falta de Deus é para mim um pouco como ser inglês: um sentimento instigado sobretudo pelo ataque. Quando o meu país é maltratado, um patriotismo dormente, para não dizer comatoso, agita-se. E quando se trata de Deus, sinto-me mais provocado pelo absolutismo ateu do que por, digamos, a confiança quase sempre insípida e hesitante da Igreja Anglicana.
Da página 94 de "Nada a temer" (ed. Quetzal)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

4 de Maio de 1825. Nasce Thomas Henry Huxley, o "buldogue de Darwin"

Thomas Henry Huxley, principal discípulo e defensor das ideias de Darwin, o “buldogue de Darwin”, como ficou conhecido, nasceu em Ealing, no dia 4 de Maio de 1825 e morreu em Eastbourne, no dia 29 de Junho de 1895.
T. H. Huxley inventou a palavra "agnosticismo". Ver aqui.
Sobre o grande debate entre T. H. Huxley e Samuel Wilberforce (30-06-1860) ler aqui.

terça-feira, 29 de junho de 2010

29 de Junho de 1895. Morre o inventor da palavra “agnosticismo”

Thomas Henry Huxley morreu no dia 29 de Junho de 1895. Tinha nascido no dia 4 de Maio de 1825. Para a história ficou com o apelido de “buldog de Darwin” por ser o principal discípulo e defensor da teoria da evolução pela selecção natural, de Charles Darwin.

Thomas Huxley cunhou o termo “agnosticismo” por achar que “ateísmo” era demasiado dogmático. Além disso, na Inglaterra vitoriana, a palavra “ateísmo” estava muito conotada com as políticas revolucionárias da extrema-esquerda. “Agnosticismo”, segundo Huxley adequava-se mais correctamente à falta de indícios racionais sobre a existência de Deus. O agnosticismo não era um novo credo, como no fundo o ateísmo, mas um desconhecimento metafísico.

domingo, 14 de março de 2010

Bento Domingues: Uma parábola docemente inquietante

"Que acolhimento têm, na Igreja, as mulheres, os intelectuais heterodoxos, os divorciados recasados, os homossexuais? Não haverá, hoje, nas comunidades cristãs, grupos que acham escandaloso que se perca tempo com ateus, agnósticos, imigrantes de outras culturas e religiões, com o pretexto de que vêm minar os nossos valores e as raízes cristãs de Europa?" - pergunta Bento Domingues no "Público" de hoje. Nas missas deste domingo ouve-se a parábola do filho pródigo / pai misericordioso / irmão invejoso.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Deus e deus

Alexandra Lucas Coelho justifica hoje no “Público” os usos que faz da palavra “deus”, ora com inicial minúscula ora com maiúscula. Um texto muito sugestivo. Continua na próxima sexta.

O leitor referido no início, que “protestou”, fui eu, embora não me pense como protestante.

Na crónica de 26 de Fevereiro, a jornalista escreveu contra a manifestação que foi contra o casamento homossexual e pela realização de um referendo sobre o assunto (Lisboa, 20 de Fevereiro). A essa manifestação associaram-se alguns neofascistas. No texto de Alexandra Lucas Coelho (que infelizmente já não conservo), surgem referências aos tais neofascistas (ou neonazis?), a Hitler e a “deus”, numa mistura que se prestava a várias confusões, nomeadamente por uma suposta colagem da maioria dos manifestantes – cristãos – aos ideias fascistas e mesmos nazis. Escrevi por isso à jornalista. Trocámos no total seis mensagens – três para cada lado. A minha primeira foi esta, fazendo eco, aliás, de ideias já expostas neste blogue:

Você cometeu um erro fatal. Invocou o nome de Hitler numa discussão que não é sobre Hitler. Como sabe, ou saberia se lesse o Rui Tavares no seu "Público", numa discussão que não seja sobre Hitler, o primeiro que invoca Hitler perde.

Para mais, escreve Deus com minúscula e Hitler com maiúscula. Não é propriamente original. A Fernanda Câncio e o Rui Tavares, pelo menos, também o fazem em relação a Deus, além de Saramago. Na URSS escreviam Deus com minúscula e KGB com três maiúsculas. Cada um lá saberá aquilo a que dá importância.

Ah! Hoje o “Público” faz 20 anos. E é dado. Isso mesmo. Grátis. Basta passar por um quiosque.


Acrescento no dia 10 de Março: O artigo que deu origem à minha reacção pode ser lido aqui.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A porta aberta dos agnósticos

"Quando se era agnóstico, no século XVIII, isso queria dizer que se estava contra Deus, uma vez que Deus era imposto pela sociedade e pelas instituições. Hoje, em que Deus é, senão negado, pelo menos rejeitado pela sociedade, ser agnóstico é, pelo contrário, deixar pelo menos uma oportunidade a Deus".

Jean d'Ormesson, membro da Academia Francesa (aqui)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Harvard tem uma capelania para os ateus

Greg Epstein

A Universidade de Harvard, nos EUA, tem 40 capelães, representantes de 25 “tradições mundiais”. Há o capelão católico, o baptista, vários judeus, o adventista e até o do zoroastrismo, entre muitos outros. Mas há também o capelão humanista. Mais concretamente, Greg Esptein, autor do livro “Being good without God”, que explica que humanismo é acreditar na vida cheia de significado, apenas graças à força da razão e da compaixão, sem uma ajuda sobrenatural. E quando lhe perguntam se os humanistas rezam, ele responde que os humanistas cantam. Há textos ligados à capelania humanista que defendem que devem ter rituais, o que não deixa de ser curioso.

A capelania dos humanistas acolhe “humanistas, ateus, agnósticos e não-religiosos”, diz o capelão. Greg Epstein, uma estrela entre os humanistas, estudou na… Harvard Divinity School. Refere-se várias vezes à compaixão humanista.

Até onde pode ir uma compaixão alicerçada neste humanismo que exclui Deus? Bento XVI diz que não vai longe.

Ah, a página Internet dos Humanistas é muito mais bonita e funcional do que a dos Católicos, que logo na abertura pedem dinheiro. Os humanistas têm como símbolo uma chama. Se eu não soubesse, pensava que eram carismáticos católicos ou então pentecostais.

domingo, 29 de novembro de 2009

Darwin, humanista vitoriano

Pedro Mexia diz que temia que "Darwin fosse um ateu fanático ou um desvairado eugenista".

"Quando finalmente o li com atenção, percebi quão infundados eram tais receios. Darwin foi um humanista vitoriano, que descrevia e não prescrevia, e de quem aliás são conhecidas posições contra a escravatura, por exemplo. O abominável «darwinismo social» não é invenção nem culpa dele. Quanto à religião, não confundamos Darwin com Dawkins. Darwin escreveu na sua Autobiografia: «O mistério do início da todas as coisas é insolúvel para nós; e por mim contento-me em permanecer Agnóstico». Eu, que permaneço crente, concordo. O mistério é insolúvel. A humildade de dizer que é insolúvel já é muito" (A Lei Seca, post de 24 de Novembro).

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...