Se a teologia foi “desterrada” da cultura moderna é por ter
sido considerada inimiga da razão, da filosofia e de todos os modos de
criatividade humana. Nas Igrejas, ao ser instrumentalizada pelo poder
eclesiástico, perdeu o carácter de instância da liberdade da fé e das suas
expressões mais genuínas. O autoritarismo desvirtuou a sua função na Igreja e
tornou-a incapaz de dialogar com a sociedade, de a fecundar e ser fecundada por
ela.
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domingo, 14 de setembro de 2014
sábado, 19 de outubro de 2013
Anselmo Borges "Ateísmo, agnosticismo, teísmo"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:
A modernidade tem como característica fundamental a nova visão científica da realidade. A problemática é de tal modo decisiva que o filósofo e teólogo Javier Monserrat advoga a convocação de um Concílio para confrontar a fé com esse novo dado - ver "Hacia el Nuevo Concilio", de onde partem as reflexões que se seguem.
Alguns resultados estão alcançados. 1. Para a ciência actual, o universo todo, incluindo a consciência, "produziu-se pelas propriedades ontológicas e dinâmicas da matéria que foi produzida no big bang com altíssima densidade e energia". 2. Estamos em presença de um mundo real e aberto. 3. Este mundo aparece-nos ordenado finalisticamente. Trata-se de uma "ordem viva" e "ordem antrópica". De qualquer modo, apresenta-se como um mundo enigmático, sendo possíveis três conjecturas metafísicas: ateísmo, agnosticismo, teísmo.
Os autores ateus "mostraram que entender a consistência eterna de um universo sem Deus é possível". A ciência pode, segundo algumas teorias, conceber a auto-suficência do universo, "a sua consistência e estabilidade dinâmica num tempo eterno, sem fim".
Perante a impossibilidade de a ciência resolver com certeza as questões últimas, de ordem metafísica, o agnosticismo assume a ausência de resposta: trata-se de "um incompromisso filosófico". Respeita tanto o ateísmo como o teísmo. Provavelmente a percentagem de agnósticos é hoje muito mais elevada do que a dos ateus.
O ateísmo não pode ser excluído como "teoria possível". Mas o ateísmo não é evidente. Se o fosse, não haveria teístas, do mesmo modo que, se o teísmo fosse uma evidência, não haveria ateus. Perante um mundo obscuro e enigmático, tanto o ateísmo como o teísmo constituem uma "fé filosófica", uma "crença".
Também o teísmo apresenta razões para argumentar a favor da existência de Deus. Já não se trata de "demonstrar", mas de mostrar que a razão científico-filosófica torna verosímil a existência de Deus: "uma certeza moral livre da existência de Deus". 1. A hipótese de um Deus transcendente e criador enquanto fundamento da consistência, estabilidade e suficiência de "um universo que começa no tempo (a grande explosão) e que previsivelmente acabará numa morte energética e na sua dissolução final" surge como a mais verosímil. É defensável a hipótese de que "o fundamento do ser, a verdadeira realidade auto-suficente em si mesma e eterna, seja um ser divino transcendente que - com intencionalidade - "cria", "funda" o universo visível no seu fluir temporal finito". 2. O universo que autonomamente produziu a ordem física e biológica, conducente à liberdade, torna verosímil um desígnio racional de Deus enquanto criador. O teísmo actual não aceita o Deus tapa-buracos, mas, precisamente ao reflectir sobre a ordem "quase-racional" constatável, e, portanto, sobre as propriedades da matéria e as leis evolutivas que permitem produzir autonomamamente a ordem psicobiofísica e a sua orientação antrópica - porquê estas propriedades e leis e não outras? - ,constata que esta ordem, congruente com um fim inteligível, "torna verosímil a hipótese de que poderia estar causada pelo "desígnio" racional de uma Inteligência Criadora." 3. Esta verosimilhança é confirmada e aprofundada, quando se constata que o processo evolutivo dá origem no seu termo a seres humanos enquanto pessoas autoconscientes e livres. Não é mais razoável e inteligível o processo, se na sua raiz e como sua Causa está o Deus transcendente e pessoal, que cria livremente por amor? O teísmo actual "assumiria a superação do dualismo e identificar-se-ia com a lógica do emergentismo, incluindo a emergência do psiquismo humano, da razão e da sua especial abertura à Divindade", "que abarca o universo e o contém criativamente no seu interior". Este universo é um "universo para a liberdade", a partir de um "desígnio para a liberdade" e, portanto, do "princípio antrópico cristão", embora não se imponha como inevitável a "solução divina".
Tanto o ateísmo como o teísmo têm na base uma crença ou uma fé, com razões, devendo, portanto, ateus, agnósticos e teístas respeitar-se e dialogar.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Bento XVI, um papa moderno
José Manuel Fernandes também escreve sobre Bento XVI. Uma página quase toda.
Com Bento XVI a Igreja mostrou que se pode ser moderna sem ir atrás do que apresenta como moderno mas, muitas vezes, não passa de uma moda. (...)
Não sendo crente, aquilo que me interessa e me interpela em Bento XVI é precisamente a sua capacidade de olhar para a sociedade contemporânea de uma forma que é moderna sem ter perdido as referências da tradição e os ensinamentos da experiência. Em contrapartida não me interessaria, e estou certo que não interessaria aos crentes, uma Igreja mimética e submetida às novas regras das opiniões dominantes nos espaços públicos.
Vale a pena ler. No "Público" de hoje. Ou aqui, mas amanhã. Na realidade [acrescento no dia 24 de fevereiro], está disponível aqui desde domingo.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
É difícil lidar com a modernidade
Eugénio Scalfari, fundador do jornal “La Repubblica” (aqui referido num diálogo com o cardeal Martini), escreveu no seu jornal sobre a "grande crise da Igreja", que vai de “Pacelli a Ratzinger”.
Um balanço no fim do pontificado de João Paulo II:
Os problemas da Igreja na sua morte eram os mesmos: poder da hierarquia, marginalização do povo de Deus, crise das vocações, crise da fé em todo o Ocidente, nenhuma modernização dentro da Igreja. Mas uma modificação, sim, havia sido verificada nesse meio tempo: a mensagem do Vaticano II não só não dera passos à frente, mas havia dado passos para trás.
Quanto a Bento XVI, Scalfari aprecia os livros e as
encíclicas e que tenha afastado o tomismo, “com
tantas saudações a Orígenes, Anselmo de Aosta e Bernardo”. É curiosa a
sugestão de beatificação de Pascal, algo de que nunca tinha ouvido falar:
Se quisesse dizer algo verdadeiramente atual, o Papa Ratzinger deveria dar início à beatificação de Pascal, mas me dou conta de que, no mundo dos Bertone, da Cúria Romana e das atuais Congregações, isso sim seria um gesto radical rumo à modernidade. Nunca o farão.
Muito mais Bento XVI poderá/poderia fazer rumo a
modernidade, ainda que alguns achem que não deve fazer nada. A encíclica “Deus
caritas est”, com uma nova visão da sexualidade (falou do eros, novidade num
texto papal), parecia querer iniciar uma grande reforma. Parecia.
Ler tudo aqui.
sábado, 19 de maio de 2012
Anselmo Borges: A aceleração do tempo e a sua falta
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):
O tempo nunca ninguém o viu. Claro, não me refiro ao tempo meteorológico, mas àquele tempo que no faz envelhecer e morrer: um dia já cá não estaremos. O tempo tem que ver com a finitude: é o modo como o ser finito se vai fazendo.
Há múltiplas experiências do tempo. Ele há o tempo circular, cíclico - tudo vai e tudo volta -, e o tempo linear, histórico e ascendente. Há o tempo entrecruzado: no presente, está vivo o passado - ele é o futuro do passado -, como está presente o futuro enquanto conjunto de projectos, de sonhos, esperanças e expectativas.
Claro, há o tempo dos calendários e medido pelos relógios, e há o tempo da duração interior, como reflectiu penetrantemente o filósofo Henri Bergson: há o tempo mecânico, quantitativo, e o tempo da consciência, qualitativo. E lá está o tempo irrequieto e enervante de uma noite de insónia, que nunca mais passa, semelhante ao tempo pastoso de uma conferência inútil e insana, que nos precipita para o relógio vezes sem conta, perguntando quando é que aquilo acaba. Ah!, mas também há o tempo sem tempo, o tempo de uma sinfonia, o tempo do amor, o tempo da criação: aquele tempo a que se referia, por exemplo, o filósofo Sören Kierkegaard, tempo de bênção, tocado pela eternidade.
Durante muito tempo, o tempo parecia estagnado, imóvel: o que é que mudava? Com a modernidade, o tempo acelerou. Mais recentemente, por causa das novas tecnologias, que nos permitem desenvolver várias actividades ao mesmo tempo e estar em contacto com todo o mundo quase simultaneamente, tudo se passa vertiginosamente, deu-se a "aceleração do ritmo de vida", numa mudança não já apenas intergeracional, mas intrageracional: pense-se nos casamentos e divórcios e, no que se refere ao mundo do trabalho, nas mudanças de emprego e actividade: para um americano com estudos superiores, onze vezes. Por isso, como sublinha o sociólogo Hartmut Rosa, professor na Universidade Friedrich-Schiller de Iena, o pai já não diz ao filho: "O meu mundo é o teu", mas: "Presentemente, as coisas são assim, mas prepara-te para a mudança."
Aqui, precisamente, surge um paradoxo. De facto, devido às novas tecnologias, que permitem fazer rapidamente o que antes demorava imenso tempo - por exemplo, uma viagem que durava oito horas faz-se agora em três, o que dá um ganho de cinco horas; antes, uma carta demorava a escrever o tempo que agora basta para escrever vários e-mails - deveríamos nadar em tempo. Ora, o que se passa é que todos nos queixamos de falta de tempo: ninguém tem tempo para nada, é o que se ouve a cada canto.
Hartmut Rosa, autor de "Aceleração"
Explicação de Hartmut Rosa: a tecnologia, em vez de resolver o problema do tempo, só o agrava. Porquê? "Com os carros ou a Internet é também a vida social que se acelera. A torrente e a velocidade da actividade social aumentam." Sim, é verdade que com o tempo da escrita de uma carta agora escrevemos mais de dez e-mails. Mas cada vez escrevemos mais e-mails e lemos mais ainda. É uma lógica exponencial, que não é devida à tecnologia, mas a "uma lógica de competição que nos é própria". Produzimos cada vez mais bens e consumimos cada vez mais também, numa espiral sem fim. Há cada vez mais opções e possibilidades e cada vez menos tempo para cada coisa, cada interesse, porque "a única coisa que não podeis aumentar é o próprio tempo".
Afinal, que procuramos nesta corrida vertiginosa que nos devora? A aceleração é "o equivalente funcional da promessa religiosa de vida eterna. Já não acreditamos numa vida eterna: mesmo os crentes duvidam do que se passa depois e concentram-se na vida antes da morte. De repente, pomos o nosso desejo de eternidade na multiplicidade das nossas experiências. Sabemos que vamos morrer, mas, antes, há uma infinidade de experiências, de pessoas que queremos conhecer, encontrar. A vida boa é definida pela riqueza das experiências que podemos ter. Multiplicar por dois a velocidade permite multiplicar por dois as experiências. É isso que de modo difuso procuramos no prazer que pomos em multiplicar as nossas actividades". Pergunta-se: e somos mais felizes?
sábado, 14 de janeiro de 2012
Anselmo Borges: Secularização e destino da Europa
"Como viu o filósofo Georges Gusdorf, "Deus morreu, a História enlouqueceu, o Homem morreu: tudo fórmulas desesperadas que exprimem a tomada de consciência, e o ressentimento, da ausência de sentido". Não colocando sequer a questão de Deus enquanto questão, que é a questão do sentido último, a Humanidade europeia sucumbe ao imediatismo, a uma visão fragmentária do aqui e agora, sem horizonte de ultimidade. Aí está então a falta de força anímica, de projecto, de futuro. Thanatos toma conta da Europa".
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.
Aí está um tema fundamental. Mas, quando se reflecte, é necessário perceber que há vários sentidos de secularização.
1. O primeiro sentido - secularização vem do latim saeculum (mundo) - tem a ver com a autonomia das realidades terrestres. A Bíblia é essencialmente dessacralizadora da natureza, da história e da política, precisamente porque a criação ex nihilo por Deus, pessoal e transcendente, criando, não por necessidade, mas livremente e por amor, implica a autonomia das criaturas.
Este sentido de secularização é particularmente importante para a política, que deve estar separada da religião. O Estado deve ser laico e não confessional. Jesus tinha dito: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." Mas também as ciências, a economia, a filosofia, a própria moral são autónomas, com as suas próprias leis, sem pedir legitimação à religião.
2. Há um segundo sentido de secularização. Tem a ver com aquele processo mediante o qual, concretamente na modernidade, se pretendeu realizar no mundo o Reino de Deus. A modernidade ainda era teológica, na medida em que queria, pela razão, pela ciência, pela técnica, pelo progresso ilimitado, trazer para a imanência, realizando-as, ideias religiosas da fé cristã: messias, salvação, consumação da história - o Além deveria realizar-se no aquém. Pense-se em Feuerbach, Marx, Condorcet, Bloch... O seu ateísmo era de algum modo "positivo", no sentido de que não negava Deus pura e simplesmente: o que queria era realizá-lo no mundo e na história intramundana.
3. Que sucedeu no nosso tempo? As grandes esperanças da modernidade ruíram. O "socialismo real" faliu, o progresso científico-técnico põe problemas graves, sobretudo por causa da ecologia, a razão já se não encontra divinizada, assiste-se ao fim das meta-narrativas - só há pequenas histórias, o pensamento é débil (il pensiero debole, de G. Vattimo). Assiste-se assim a uma crise geral de Deus, na medida em que a descrença parece normal - pelo menos na Europa, já não se sabe se Deus existe ou não, e reina a indiferença, numa sociedade que já é, em grande parte, pós-cristã.
Consequências: encontramo-nos cada vez mais inseguros e assiste-se ao aumento do consumo de drogas e antidepressivos. A perspectiva é cada vez mais pragmática - o que interessa é o aquém sem Além: a vida depois da morte já não parece sequer ser problema. Continua a festa do consumo, mas os europeus andam cada vez mais insatisfeitos. Não há filhos nem futuro. É a desorientação e a consumação do niilismo.
A actual situação é fruto do terceiro sentido de secularização: secularização da secularização, isto é, fim da secularização moderna e secularismo radical. Deste modo, a questão essencial é precisamente a crise dos valores e do sentido. Como viu o filósofo Georges Gusdorf, "Deus morreu, a História enlouqueceu, o Homem morreu: tudo fórmulas desesperadas que exprimem a tomada de consciência, e o ressentimento, da ausência de sentido". Não colocando sequer a questão de Deus enquanto questão, que é a questão do sentido último, a Humanidade europeia sucumbe ao imediatismo, a uma visão fragmentária do aqui e agora, sem horizonte de ultimidade. Aí está então a falta de força anímica, de projecto, de futuro. Thanatos toma conta da Europa.
Isto tem, evidentemente, repercussões também na economia e na democracia. Para quê poupar, por exemplo, e investir no futuro? Václav Havel, um dos europeus mais lúcidos do século XX, preveniu: "Pela primeira vez na História, assistimos ao desenvolvimento de uma civilização deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos". "A transcendência é a única alternativa à extinção." E o agnóstico M. Gauchet disse: "O que ameaça a democracia, hoje, é o vazio, a futilidade, o esquecimento, a facilidade, o curto prazo, a superficialidade. As religiões, e o cristianismo em particular, têm o sentido do essencial, do trágico, do mistério da aventura humana, coisas que a democracia facilmente ignora. Elas podem ser decisivas para a democracia."
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Delumeau: O grande problema da Igreja Católica Romana é a falta de um verdadeiro diálogo
Jean Delumeau escreveu no "La Croix" e é bom pensar nisso:
O clero hoje tem diante de si uma classe instruída de leigos, que é tão culta quanto o clero, se não mais. O clero deve ter em conta a necessidade de se expressarem, os seus ideais democráticos. O grande problema da Igreja Católica Romana é a falta de um verdadeiro diálogo.
As dioceses convocam sínodos, mas advertem que certos assuntos não serão transmitidos a Roma. Mesmo as indicações das comissões no Vaticano não são seguidas pelo papa. A encíclica “Humanae Vitae”, em 1968, foi um exemplo disso. Essa encíclica esvaziou as igrejas. O facto de manter os fiéis à margem explica essa hemorragia. Hoje, a Jornada Mundial da Juventude é uma bela manifestação, mas não é um lugar de diálogo.
Li aqui.
Medo no seio do cristianismo
Como Toulmin [Stephen Toulmin, 1922-2009, filósofo britânico que ensinou na Universidade da Carolina do Sul, com várias obras sobre ética, filosofia das ciência e história das ideias] observou, a dilaceração da Cristandade durante a Guerra dos Trinta Anos marcou a Igreja desde então. Foi um momento essencial - houve outros - na evolução do Cristianismo moderno e na realidade da própria modernidade. Ele sustenta que produziu um Cristianismo com tendência para ser medroso e para desconfiar, inclinado ao conformismo, receoso de levantar as questões difíceis e se envolver em debate profundo. Há demasiado medo.
Timothy Radliffe na pág. 306 de "Ser Cristão para quê?"
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