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sábado, 19 de julho de 2014
domingo, 15 de junho de 2014
Anselmo Borges: "Jerusalém e Roma"
Já temos pás. Falta a paz
Artigo de Anselmo Borges no DN de ontem:
1 A política está em tudo mas não é tudo. A oração também pode ser força política. E condição essencial para a paz é a conversão interior, do coração. Por outro lado, a História não está pré-escrita em parte alguma e, por isso, é preciso construí-la e ao mesmo tempo ter a capacidade de se deixar surpreender por ela. Cá está: quem poderia supor há apenas um mês que seria possível o Presidente de Israel, Shimon Peres, e o Presidente da Palestina, Mahmoud Abbas, encontrarem-se no Vaticano para rezar? Mas o inesperado, o que se diria impossível, aconteceu.
Na sua visita à Jordânia, à Palestina e a Israel, inesperadamente, o Papa Francisco desafiou os dois presidentes para um encontro na "sua casa", no Vaticano, para rezarem pela paz. E essa oração histórica ocorreu nos jardins do Vaticano, no domingo passado, dia 8, com a presença de um quarto convidado, o patriarca ortodoxo Bartolomeu, de Constantinopla. O abraço dos dois líderes, palestiniano e israelita, com o Papa como testemunha, fica para a História. "Que Deus te abençoe!", disse Peres a Abbas, saudando-o. E Francisco: "Sim ao diálogo e não à violência; sim à negociação e não à hostilidade; sim ao respeito pelos pactos e não às provocações. Senhor, desarma a língua e as mãos, renova os corações e as mentes: Shalom, paz, salam".
Após um breve intróito musical, seguiu-se a oração. No centro, Abbas, Francisco e Peres, à esquerda, Bartolomeu. De um lado e de outro, representantes das três religiões abraâmicas, também ditas monoteístas, proféticas e do Livro, e dos governos palestiniano e israelita. Por ordem histórica, a primeira oração coube aos judeus, seguindo-se os cristãos e os muçulmanos. Louvou-se a Deus pela Criação, pediu-se perdão pelos pecados, ergueram-se súplicas pela paz entre judeus e palestinianos, na Terra Santa, em todo o Médio Oriente, para toda a humanidade. No fim, um novo abraço e um gesto simbólico: os quatro líderes plantaram uma oliveira. A paz "não será fácil, mas lutaremos por ela no tempo que nos resta de vida".
2 Se, como escreveu a grande filósofa Hannah Arendt, também a economia é um problema teológico, eu diria que a Palestina o é muito mais. Para quem quiser aprofundar a questão, pode ler as duas obras monumentais do teólogo Hans Küng: O Judaísmo e O Islão.
Como é sabido, em 29 de novembro de 1947, por maioria sólida e com o beneplácito dos Estados Unidos e da antiga União Soviética, as Nações Unidas aprovaram a divisão da Palestina em dois Estados: um Estado árabe e um Estado judaico, com fronteiras claras, a união económica entre os dois e a internacionalização de Jerusalém sob a administração das Nações Unidas. Note-se que, apesar de a população árabe ser quase o dobro e os judeus estarem então na posse de 10% do território, ficariam com 55% da Palestina.
O mundo árabe rejeitou a divisão. Mas, à distância, mesmo admitindo a injustiça da partilha e as suas consequências - é preciso pensar na fuga e na expulsão dos palestinianos -, considera-se que a recusa árabe foi "um erro fatal" (Küng). Aliás, isso é reconhecido hoje também pelos palestinianos, pois acabaram por perder a criação de um Estado próprio soberano pelo qual lutam.
Como se tornou claro, a guerra não gera a paz, que só pode chegar mediante o diálogo, a diplomacia, cedências mútuas, com dois pressupostos fundamentais: o reconhecimento pelos Estados árabes e pelos palestinianos do Estado de Israel e o reconhecimento por parte de Israel de um Estado palestiniano viável, soberano e independente. E Jerusalém: internacionalizada?
O conflito do Médio Oriente é sobretudo político. Mas lá não haverá paz enquanto os membros das três religiões monoteístas, que se reclamam de Abraão, se não tornarem politicamente activos, impedindo o fanatismo religioso. Com base nos seus livros sagrados - Bíblia hebraica, Novo Testamento, Alcorão -, judeus, cristãos e muçulmanos devem reconhecer-se mutuamente e lutar a favor da paz. Esta é a mensagem de Roma para Jerusalém.
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Anselmo Borges: "Francisco no Médio Oriente. «Conseguimos!»"
Texto de Anselmo Borges no DN do último sábado (31 de maio), daqui:
Era uma viagem de alto risco. Acabou por ser uma viagem que os media mundiais chamaram de histórica. Francisco queria que a sua visita à Jordânia, à Palestina e a Israel fosse uma peregrinação. E foi, mas com imensas consequências políticas. Afinal, a política não é tudo, mas está em tudo. O que aí fica quer lembrar momentos significativos da viagem.
Na Jordânia, pediu "uma solução pacífica para a crise síria e uma solução justa para o conflito israelo-palestiniano". Referindo-se concretamente à Síria, lacerada por uma luta fratricida que dura há mais de três anos, com milhões de refugiados, atacou as empresas armamentistas e rezou pela sua conversão: "Que Deus converta os violentos, os que provocam a guerra, os que fabricam e vendem armas, e os torne construtores da paz!"
Defendeu, em Belém, "o direito à existência de dois Estados, gozando de paz e segurança". Na preparação da viagem, já houvera uma referência ao "Estado palestiniano". Ainda em Belém: "A incompreensão entre as partes produz divisões, sofrimentos e êxodo de comunidades inteiras." Aqui, certamente lembrou-se de que a Terra Santa está a ficar sem cristãos, pois no Médio Oriente já só representam 2%, quando há 50 anos eram 10%. E ousou um convite: "Senhor Presidente Mahmoud Abbas, neste lugar onde nasceu o Príncipe da Paz, desejo convidá-lo a si e ao Senhor Presidente Shimon Peres a elevarmos juntos uma intensa oração pedindo a Deus o dom da paz. Ofereço a possibilidade de acolher este encontro na minha casa, no Vaticano." Francisco renovou o convite em Tel Aviv. E Peres e Abbas aceitaram a iniciativa inédita.
A caminho da Basílica da Natividade, em Belém, surpreendeu, quando, ao passar junto ao muro erguido por Israel na Cisjordânia, conhecido como "o muro da vergonha", mandou parar o jipe em que seguia, ficando em oração durante alguns minutos, apoiando a mão e a cabeça no muro, um pouco à maneira do que fazem os judeus no Muro das Lamentações. Este gesto, que causou descontentamento em Israel, foi compensado com uma outra visita-surpresa, quando, a caminho do memorial do Holocausto, símbolo da "monstruosidade" humana, onde perguntou: "Como foste capaz, Homem, deste horror, o que te fez cair tão baixo?" e gritou: "Nunca mais! Nunca mais!", homenageou o memorial às vítimas israelitas dos atentados em Jerusalém. Com estes dois gestos, Francisco estava a dizer que não é com muros nem com o terrorismo que se constrói a paz. Como disse o padre D. Neuhaus, do Patriarcado Latino de Jerusalém, "Francisco tem o perigoso talento de dizer a verdade".
Em Jerusalém, Francisco e Peres clamaram em uníssono: "Não nos cansemos de perseguir a paz com determinação e coerência." O Papa: "Que Jerusalém seja verdadeiramente a cidade da paz, que corresponda à sua identidade, ao seu carácter sagrado e verdadeiro valor como tesouro para toda a humanidade. Que todos possam ter acesso livre aos lugares santos e participar nas celebrações."
E sucederam-se os encontros ecuménicos e inter-religiosos. Com o Patriarca ortodoxo Bartolomeu, assumiu a urgência da união de todos os cristãos, propondo "um novo modo" de exercer o primado papal, tendo talvez no horizonte a ideia de um primus inter pares (o primeiro entre iguais). Na Esplanada das Mesquitas, encontrou-se com o Grande Mufti, pedindo aos "amigos muçulmanos" um trabalho em conjunto pela justiça e pela paz. "Que ninguém instrumentalize o nome de Deus para a violência!" Depois do muro de Belém, rezou no Muro das Lamentações. E, num encontro com rabinos, um rabino proclamou: "Em Jerusalém, não deve existir mais ódio nem inimizade entre os irmãos."
E os três velhos amigos dos tempos de Buenos Aires - o rabino A. Skorka, o xeque O. Abboud e o agora Papa Francisco - abraçaram-se ali, junto ao Muro, e foi o grande abraço das três religiões abraâmicas. E Skorka, comentando o velho sonho em Jerusalém: "Conseguimos!" E Francisco regressou a casa, com a esperança fundada de em breve serem retomadas negociações sérias em ordem à paz.
domingo, 5 de janeiro de 2014
Bento Domingues: "Mensagem do Papa sobre a paz"
Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:
1. Entre os mais idosos, alguns talvez ainda tenham gosto em
se lembrar e outros, vontade de esquecer que no dia 8 de Dezembro de 1967 foi
criado, pelo papa Paulo VI,o Dia Mundial da Paz. Ficou decidido, no entanto,
que seria celebrado, daí em diante, no primeiro dia do ano civil. Assim
continua, embora as Nações Unidas tenham marcado, em 1981, o Dia Internacional
da Paz para o dia 21 de Setembro. Não se sobrepõem.
Em Portugal, a decisão de Paulo VI teve um impacto
significativo durante a guerra colonial, porque se inscreveu nos ecos do
Vaticano II e da Pacem in Terris de João XXIII, que tinham alargado,
aprofundado e provocado iniciativas de oposição católica ao Estado Novo (1).
Destacamos: no Porto, suscitou a criação da comissão diocesana de Justiça e
Paz, com múltiplas intervenções; em Lisboa, as vigílias na Igreja de S.
Domingos, em 1969, e na Capela do Rato, de 1972 para 1973, tornaram-se marcos
históricos pela ressonância conseguida. A vigília da Capela do Rato provocou a
intervenção da Pide, várias prisões e aceso confronto, na Assembleia Nacional,
entre os deputados Miller Guerra e Francisco Casal Ribeiro.
As mensagens anuais constituem peças importantes da posição
dos papas perante as questões da guerra e da paz. Ao se tornarem um ritual, o
seu verdadeiro impacto depende, apenas, do que as Igrejas locais fizeram desses
notáveis documentos.
2. Que irá acontecer com a mensagem do Papa Francisco, “A
Fraternidade, fundamento e caminho da Paz”?
Da trilogia da Revolução Francesa, “Liberdade, Igualdade e
Fraternidade”, a última foi sempre a mais esquecida. Nas Igrejas Cristãs, todos
são filhos de Deus, mas raramente os reconhecemos como nossos irmãos.
Qual é então a situação da população mundial?
Os números são conhecidos: 1% da população mundial concentra
43% da riqueza, enquanto 50% fica apenas com 2%. Neste mundo há 871 milhões de
pessoas com fome; mais de 1.000 milhões encontram-se na indigência e cerca de
3.000 milhões na pobreza. Neste mundo, 900 milhões não têm água potável, 1.000
milhões não têm acesso à luz eléctrica e 2.160 milhões não possuem instalações
sanitárias.
Já estamos tão habituados à linguagem dos números, a
propósito de tudo e de nada, que em vez de nos aproximarem da realidade vivida,
afastam-na. O Papa Francisco podia recitar todos estes números e dizer, com
verdade, estes são todos membros da nossa família. Ele sabe que por aí não iria
longe. Também não parece muito interessado em juntar textos doutrinários aos
dos outros Papas e engrossar as bibliotecas piedosas. Passaram nove meses sobre
a sua eleição. Não foi a eleição de Sua Santidade, mas a de um pecador em
processo de conversão, chamando os cardeais, os bispos, os padres a essa condição
para poderem servir e dinamizar as comunidades cristãs. Não ficou por aí.
Escolheu o caminho do exemplo, mas não para dar exemplo. Se espantou o mundo
com os seus gestos, foi por causa da sua autenticidade, sem recurso ao
marketing religioso. De repente, vimos o Papa como imaginamos que terá sido
Jesus Cristo, há dois mil anos. Desde a quinta-feira santa, o seu caminho tem
sido o encontro com a periferia do mundo, o lugar da Igreja.
Para uns, isto é uma alegria, um convite a fazer o mesmo.
Para outros, é uma descoberta. Não falta quem veja no método do Papa Francisco,
uma crítica ao caminho que se estava a percorrer, semeado de escândalos. Claro
que é o começo de uma reforma urgente, mas que ele não quer apenas propor, mas
praticar na sua pessoa, nas suas decisões, da forma mais fraterna e mais alegre
com aquelas e aqueles que ninguém escolheria para irmãos.
3. O Papa, pela ordem natural das coisas, tem muito pouco
tempo para realizar o que lhe parece mais urgente. O mais urgente é ajudar o
conjunto da Igreja a rectificar a sua orientação, a inclinar-se para o lado
certo. Não é a substituição da Igreja pelo Papa. É fazer com que os papas, os
bispos, os cardeais, os padres tenham uma prática de dinamizadores e não
substitutos dos membros da Igreja: tornarmo-nos no que somos, todos irmãos (Mt
23, 8-9), a viver e a trabalhar, na sociedade e na igreja, como num bem de
família.
Que se saiba, o mundo não está para acabar já. O Papa
Francisco ainda vai deixar muito por fazer. Mas, pela sua maneira de ser e
actuar, já começou o mais importante: não é fatal que a igreja e o mundo tenham
de continuar a ser como até aqui.
Bergoglio criou um problema que não sei como o irá resolver:
não se cansa de denunciar a economia que mata. Que poderá ele fazer para que
nas instituições universitárias católicas, o ensino no campo da economia, da
finança, da gestão, da política não só denuncie e recuse qualquer tipo de
participação nesse homicídio, mas sobretudo, que poderá ele fazer para que os
professores e alunos dessas instituições investiguem e façam propostas que
sirvam a fraternidade como fundamento e caminho da paz?
De qualquer modo, Bergoglio não é o primeiro a andar em
contramão. Foi precedido por boa companhia. Os fariseus, amigos do dinheiro,
ouviam Jesus dizer que não se pode servir a Deus e ao Dinheiro e zombavam dele
(Lc 16, 13-15).
Temos pela frente um novo ano e muitos desafios na Igreja e
na Sociedade.
1) João Miguel Almeida, A Oposição Católica ao Estado Novo
(1958-1974), Edições Nelson de Matos, Lisboa, 2008
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
domingo, 14 de abril de 2013
Jorge Miranda recorda a "Pacem in Terris
A encíclica "Pacem in Terris" fez 50 anos no dia 11 de abril. Deveria ter recordado a data aqui, mas passou-me, como outras coisas por estes dias (incluindo algumas bastante curiosas com o Papa Francisco, mas sobre estas espero ainda escrever). O blogue Religionline recordou a encíclica aqui. E remeteu para alguns destes deste meu blogue.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Anselmo Borges: O cristianismo e o islão em diálogo?
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (o da semana passada, sobre o mesmo assunto, pode ser lido aqui):
Asua finalidade é estabelecer pontes para o diálogo entre as religiões e as culturas. Olhando para o futuro, elaborou já um programa de actividades, como: colaboração multi-religiosa para a sobrevivência e bem-estar das crianças - o primeiro projecto terá lugar no Uganda, em aliança estratégica com "Religiões pela Paz" -, um ciclo de conferências sobre "a imagem do outro", um projecto internacional para futuros professores de religião e líderes religiosos com um profundo compromisso com o diálogo inter-religioso e intercultural.
Estou a referir-me ao Centro Internacional para o Diálogo Inter-Religioso e Intercultural King Abdullah bin Aziz (KAICIID), com sede em Viena, cujo Comité Directivo se reuniu pela primeira vez nos dias 1 e 2 de Fevereiro, em Madrid, como aqui anunciei no sábado passado. Os seus fundadores são a Arábia Saudita, a Espanha e a Áustria. Tem o nome do monarca saudita, que teve a iniciativa.
Como não saudar e colaborar com o que é hoje o maior centro mundial de diálogo? O próprio Papa Bento XVI o fez e a Santa Sé (Vaticano) assumiu o papel de observador fundador.
Mas, evidentemente, há perguntas que têm de ser feitas e problemas que não podem ser ignorados.
Assim, pergunta-se legitimamente se vai ser possível e quando um encontro do Comité Directivo do KAICIID, com representantes das grandes religiões mundiais, em Riade ou na capital de outro país islâmico. De facto, o diálogo não pode ser unidireccional. Por isso, também se pergunta, por exemplo, quando é que a liberdade de construção de mesquitas no mundo de influência cristã será acompanhada da mesma liberdade de construção de igrejas nos países de influência islâmica. De qualquer forma, o cristianismo é hoje a religião mais perseguida do mundo, a ponto de se falar em autêntica cristianofobia, e essa perseguição dá-se também em países de orientação islâmica, sem que sejam suficientemente claros e fortes os protestos dos seus responsáveis políticos e religiosos.
Evidentemente, seria abusivo generalizar, mas é necessário reconhecer que a raiz dos problemas é, porém, mais funda e tem a ver com três ordens de questões: a interpretação dos textos sagrados, a separação da religião e da política e a atitude de Jesus e de Maomé face à violência.
A atitude dos cristãos ao longo dos séculos e também da Igreja Católica enquanto instituição não foi de modo nenhum exemplar. Pelo contrário, foi frequentemente vergonhosa no que se refere a estes três domínios. Mas, quando pensam nas origens, na atitude de Jesus e no que ele verdadeiramente quis, os cristãos têm de arrepender-se e arrepiar caminho.
Nunca os teólogos cristãos afirmaram que a Bíblia foi ditada por Deus: é Palavra de Deus em palavras humanas. Por isso, mais tarde ou mais cedo, teriam de abrir-se a uma leitura histórico-crítica e à hermenêutica. Mas, no islão, afirma-se, de modo geral, que o Alcorão foi ditado por Deus e, por isso, tantas vezes os teólogos islâmicos que exigem uma hermenêutica histórico-crítica, não podendo fazê-lo livremente nos seus países, tiveram de refugiar-se em universidades europeias e norte-americanas.
Jesus disse que se deve "dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Tem aqui um dos seus fundamentos a separação da Igreja e do Estado, em ordem à salvaguarda da liberdade religiosa. Mas, no islão, continua, com raras excepções, a confusão dos dois planos, tanto mais quanto Maomé foi simultaneamente um líder religioso, político e militar.
Maomé entrou vitorioso em Meca, após anos de combates, e expandiu o islão, certamente mediante a força da palavra e do exemplo, mas também com a luta pelas armas. Jesus, porém, entrou pacificamente na cidade de Jerusalém, para apresentar e oferecer o seu projecto de Reino enquanto Reino de graça e de amor entre os seres humanos. Quando Pedro puxou pela espada, mandou que a metesse na bainha, pois quem com ferros mata com ferros morre, e ele próprio foi crucificado por quem não aceitou a sua mensagem.
A aprendizagem que tanto custou à Igreja Católica terá de ser também o caminho doloroso, mas urgente, do islão.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Também tu, gaivota?
Notícia do "Correio da Manhã" de hoje. No ano passado, as pombas não queriam sair de ao pé do Papa. Este ano, uma delas foi atacada por um gaivota. É difícil simbolizar a paz. Ou será mais um ataque a Bento XVI?
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Desejo de paz
O desejo de paz corresponde a um princípio moral fundamental, ou seja, ao dever-direito de um desenvolvimento integral, social, comunitário, e isto faz parte dos desígnios que Deus tem para o homem.
Bento XVI, no início deste ano. Li aqui.
Bento XVI, no início deste ano. Li aqui.
domingo, 21 de outubro de 2012
domingo, 14 de outubro de 2012
Pelos aromas maduros de suaves outonos
Ode à Paz
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História, deixa passar a Vida!
Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)"
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Nobel da Paz para a União Europeia. Concordo, tanta paz é milagre
Nobel da Paz para a União Europeia. Sem entrar nas políticas atuais, acho que é mais do que merecido pelos 50 anos de paz. Nações que durante um milénio só estiveram umas décadas em paz (se contarmos os conflitos internos e internacionais das grandes nações como Alemanha, França, Itália, Espanha, Inglaterra), há 50 anos que discutem e discordam sem nunca pegar em armas. Se não é milagre num conjunto de países que tem uma bandeira de Nossa Senhora, não sei o que é.
Notícia do "Público" aqui.
Sobre a "bandeira de Nossa Senhora", leia-se:
Origem da bandeira.
Os protestantes que não gostam da bandeira.
sábado, 21 de julho de 2012
Anselmo Borges: A música, a transcendência e a paz
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje. Tirei-o daqui.
Sobre o poder encantatório da música disse Homero na Odisseia. Era tanta a beleza, a doçura, o fascínio e o feitiço do canto das sereias que, para não correrem o perigo da atracção e da morte, Ulisses ordenou que tapassem com cera os ouvidos dos marinheiros e a ele o amarrassem sem possibilidade de fuga ao mastro do navio.
Não há nenhum povo sem música. Nada de tão material como a música: a voz, instrumentos de sopro, de percussão e de cordas e disso tudo resulta o que nos enleva, nos transporta para a transcendência, nos coloca lá no donde viemos e lá para onde verdadeiramente queremos ir e habitar. Feita de tempo, a música pára o tempo, transcende o tempo e tange o eterno. Ali, onde quereríamos estar sempre, e já não há morte.
Por isso, Ernst Bloch disse que a música é "a mais utópica das artes". Ela é o divino no mundo ou, pelo menos, o que nos abre à experiência do divino. Aí está a beleza, que, no dizer de Dostoiévski, "salvará o mundo". O belo abre a porta do que normalmente, no meio da banalidade rasante, se não vê nem ouve. Mas, quando se viu o invisível e se ouviu o inaudível e a sua beleza, tudo se transfigura e reconcilia. Este mundo torna-se outro, sem deixar de ser este. Daí, a exclamação de felicidade, que também os discípulos experimentaram, aquando da transfiguração de Jesus: "Como é bom estar aqui!"
No belo, tornamo-nos vizinhos imediatos do próprio transcendente. Como escreveu George Steiner, "a poesia, a arte, a música são os meios portadores desta vizinhança". A música, nomeadamente, é inseparável do sentimento religioso: "Ela foi durante muito tempo, continua a ser hoje, a teologia não escrita dos que não têm ou recusam qualquer crença formal."
Até pela negativa, através do dilacerante, o que ela procura é a harmonia. Como escreveu Fernando Savater, "na denúncia que falta vê-se contra a luz a possibilidade futura daquilo que poderia ser a plenitude".
Neste vislumbre e porque é um melómano, entusiasta da grande música, Miguel Oliveira da Silva, num debate sobre o diálogo inter-religioso, sugeriu que o modo de entendimento do Papa e de um chefe religioso muçulmano, por exemplo, seria a música. Como se sabe, Bento XVI é um pianista; se esse chefe muçulmano fosse um violinista, os dois, que talvez não se entendam na doutrina, entender-se- -iam num concerto para piano e violino.
A sugestão é realidade. Daniel Barenboim nasceu em 1942, em Buenos Aires, e tem tríplice nacionalidade: argentina, israelita e espanhola. Ele e o falecido Edward Saïd fundaram, em 1999, a célebre West--Eastern Divan Orchestra, com sede em Sevilha e formada por músicos espanhóis, israelitas, palestinianos, sírios, jordanos, egípcios, libaneses, iranianos e turcos.
No passado dia 11, a orquestra ofereceu um concerto ao Papa Bento XVI, grande amante da música clássica, tocando a Sexta Sinfonia (Pastoral) e a Quinta em dó menor, de Ludwig van Beethoven.
E o Papa agradeceu: "Podem imaginar quanto estou feliz por acolher uma orquestra como esta, que nasceu da convicção e sobretudo da experiência de que a música une as pessoas, para lá de todas as divisões; porque a música é harmonia das diferenças, como acontece cada vez que se inicia um concerto, com o 'rito' da afinação. Da multiplicidade dos timbres dos diversos instrumentos, pode surgir uma sinfonia. Mas isto não acontece de modo mágico nem automaticamente. Só se realiza graças ao empenho do maestro e de cada músico individualmente. Um empenho paciente, trabalhoso, que requer tempo e sacrifícios, no esforço da escuta recíproca, evitando protagonismos excessivos e privilegiando o melhor resultado do conjunto."
A mensagem a tirar da orquestra e do concerto é que, "para conseguir a paz, é necessário comprometer-se, pondo de lado a violência e as armas, e comprometer-se com a conversão pessoal e comunitária, com o diálogo e a busca paciente de acordos possíveis". Afinal, "a harmonia da música ensina-nos a paz". Por isso, pediu: "Continuem a semear pelo mundo a esperança da paz através da linguagem universal da música."
terça-feira, 19 de junho de 2012
Cristianismo e impaciência
O cristianismo é uma religião do futuro. Não olha a
realidade como ordem eterna e fixa, mas como história, orientada para um futuro
sempre maior. Ensina a superar tudo o que é dado, no sentido das suas mais
ricas possibilidades. Não é religião dos saciados e complacentes, mas de todos
os que têm fome e sede de justiça. A fé no Reino de Deus não traduz só paz, mas
também impaciência. Não constitui ópio soporífero, mas fermento ativo.
Walter Kasper, “Introdução à fé”, pág. 179
quinta-feira, 26 de abril de 2012
26 de abril de 2009. Nuno Álvares Pereira é canonizado
O santo Condestável também era canonizável. E assim foi, há três anos.
Bento XVI disse então:
Embora fosse um óptimo militar e um grande chefe, nunca deixou os dotes pessoais sobreporem-se à acção suprema que vem de Deus. (...) No ocaso da sua vida, retirou-se para o Convento do Carmo por ele mandado construir. Sinto-me feliz por apontar à Igreja inteira esta figura exemplar nomeadamente pela presença duma vida de fé e oração em contextos aparentemente pouco favoráveis à mesma, sendo a prova de que em qualquer situação, mesmo de carácter militar e bélico, é possível actuar e realizar os valores e princípios da vida cristã, sobretudo se esta é colocada ao serviço do bem comum e da glória de Deus.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Francisco de Sales, pacífico até ver
O dia 24 de janeiro foi dia de Francisco de Sales (1567-1622), o prolífico bispo de Genebra que é patrono dos jornalistas e escritores cristãos. Nesse dia o Papa deu a conhecer a mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais 2012 (este ano a 20 de maio), “Silêncio e palavra: caminho de evangelização”. Pode ser lida aqui.
Na cidade reformada de Genebra, um dia Francisco de Sales viu a sua mansidão ser confrontada por um pastor protestante:
- Se recebesse uma bofetada, o que faria?
O bispo respondeu:
- Sei perfeitamente o que deveria fazer, mas não sei se o faria.
sábado, 21 de janeiro de 2012
Anselmo Borges: O Ecumenismo e Assis
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.
Não creio que haja guerras exclusivamente religiosas, já que estão sempre presentes outros interesses: económicos, políticos, geoestratégicos, instinto de sobrevivência e expansão. De qualquer forma, é uma vergonha que em nome de Deus se tenha derramado e continue a derramar tanto sangue, a exercer tanta violência e a espalhar tanto sofrimento. Esta é a verdadeira blasfémia.
Esta vergonha vem à consciência concretamente nestes dias (18-25 de Janeiro) dedicados ao diálogo ecuménico entre as diferentes Igrejas e confissões cristãs, na chamada Semana da Unidade dos Cristãos.
O ecumenismo - a palavra vem do grego oikuméne, com o significado de Terra habitada: o Homem é, por natureza, ecuménico, universal -, enquanto movimento para alcançar a união dos cristãos, teve início no princípio do século XIX, mas, oficialmente, inaugurou-se com a Assembleia de Edimburgo em 1910. No entanto, só em 1948 se realizou em Amesterdão a primeira Assembleia Geral do Conselho Ecuménico das Igrejas, e a Igreja Católica só fez a sua conversão ecuménica profunda no Concílio Vaticano II (1962-1965), cujo cinquentenário se celebra este ano.
Há hoje um arrefecimento no movimento ecuménico. As razões são múltiplas, mas talvez uma das mais pertinentes esteja no facto de já se não ver motivo para que os cristãos continuem a considerar-se "irmãos separados". Não estão eles unidos no fundamental? O fundamental, como diz São João, é acreditar em Deus, que é Amor, e no seu enviado Jesus Cristo, que deu testemunho desse Amor até à morte. Unidos no essencial, por que não se reconhecem mutuamente?
Logo no início, houve, entre os cristãos, conflitos de interpretações, dizendo os Actos dos Apóstolos que chegaram a "altercações violentas". Reuniu-se então uma assembleia, e é interessante que a facção mais "conservadora" confiou na ala mais "liberal", impondo uma só condição: "Que não se esquecessem dos pobres." Como acentua o teólogo catalão J. I. González Faus, a causa dos pobres passou assim a ser critério da verdadeira liberdade e factor de unidade para a Igreja.
Recentemente, os cristãos foram despertando para uma consciência ecuménica global e, consequentemente, para a urgência do diálogo inter-religioso. Neste contexto, fez história o encontro entre 130 líderes religiosos mundiais, há 25 anos, em Assis, a convite do papa João Paulo II. Lembrando esse acontecimento, Bento XVI juntou, de novo em Assis, em Outubro passado, 300 líderes das principais religiões, numa "jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e pela justiça no mundo". Tema central: precisamente a paz e a justiça. Não foi por acaso que nessa semana o Conselho Pontifício Justiça e Paz publicou um documento, pedindo a criação de uma autoridade financeira mundial e criticando asperamente "o liberalismo económico sem regras e sem controlo". "A situação actual é como uma guerra por causa da injustiça no mundo".
Entre os responsáveis religiosos, de mais de 50 países, havia shintoístas, sikhs, budistas, confucianos, hindus, taoístas, jainistas, baha'is, zoroastrianos, iorubas, animistas, judeus, muçulmanos, católicos, ortodoxos, luteranos, anglicanos, baptistas... A novidade: também agnósticos e ateus.
Neste autêntico mosaico das religiões, todos se comprometeram a trabalhar pela paz no mundo e a acabar com a violência, a guerra e o terrorismo. Um dos quatro intelectuais agnósticos, o filósofo G. Hurtado, sublinhou que "estão comprometidos na busca da verdade e dispuseram-se a participar na jornada como um sinal do seu desejo de trabalhar juntos para construir um mundo melhor". E Julia Kristeva lembrou que as palavras de João Paulo II - "não tenhais medo" - não foram dirigidas só a crentes, mas a todos, e insistiu na necessidade de procurar cumplicidades entre o humanismo cristão e o que surgiu do Iluminismo e da Revolução Francesa. "Para que o humanismo possa desenvolver-se e refundar-se, chegou o momento de retomar os códigos morais do curso da História, renovando-os para as novas situações".
domingo, 15 de janeiro de 2012
Recordando Albert Schweitzer
No "Público" de ontem, recordando o dia 14 de janeiro de 1875, quando Albert Schweitzer nasceu. Por diversos motivos (teólogo, divulgador de Bach, médico, missionário), é uma das personalidades do séc. XX que mais admiro.
domingo, 1 de janeiro de 2012
Com que atitude devemos olhar para o novo ano?
Bento XVI:
Com que atitude devemos olhar para o novo ano? No salmo 130, encontramos uma imagem muito bela. O salmista diz que o homem de fé aguarda pelo Senhor «mais do que a sentinela pela aurora” (v. 6), aguarda por Ele com firme esperança, porque sabe que trará luz, misericórdia, salvação. Esta expectativa nasce da experiência do povo eleito, que reconhece ter sido educado por Deus a olhar o mundo na sua verdade sem se deixar abater pelas tribulações. Convido-vos a olhar o ano de 2012 com esta atitude confiante. É verdade que, no ano que termina, cresceu o sentido de frustração por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas. Quase parece que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia.
Mas, nesta escuridão, o coração do homem não cessa de aguardar pela aurora de que fala o salmista. Esta expectativa mostra-se particularmente viva e visível nos jovens; e é por isso que o meu pensamento se volta para eles, considerando o contributo que podem e devem oferecer à sociedade. Queria, pois, revestir a Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz duma perspetiva educativa: “Educar os jovens para a justiça e a paz”, convencido de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma nova esperança ao mundo.
Da mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1 de Janeiro de 2012.
Ler tudo aqui.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Adriano Moreira e a educação para a paz de Bento XVI
Na sua coluna no DN de hoje, Adriano Moreira fala da mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz, a qual se centra na educação dos jovens para a paz. Ler tudo aqui.
Na realidade o que a doutrina, de novo lembrada e sistematizada na mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz, anima é que a guerra começa no coração dos homens, e por isso é no coração dos homens que é necessário radicar os valores da paz e da justiça, e isto, desde logo, em todo o processo educativo, formal ou informal.
De novo, embora alguns responsáveis considerem superficial a exigência, todo o processo educativo, nestas sociedades da informação, do saber, e do saber fazer, não pode esquecer as humanidades, e daqui o apelo no sentido de "educar os povos para a justiça e a paz" responsabilizando as famílias, os Estados, os meios de comunicação, com especial apelo ao mundo dos media, porque "na sociedade actual os meios de comunicação de massa têm uma função particular: não só informam, mas também formam o espirito dos seus destinatários, e, conjuntamente, podem concorrer notavelmente para a educação dos jovens". E também para a deseducação quando o credo do mercado limita a genuína liberdade da informação. Um risco que o relativismo que invadiu os ocidentais torna muito evidente quando se avalia o tempo disponível por cada um dos responsáveis pelo processo educativo, a começar pela família, para exercer o dever que não pode deixar de ser-lhe atribuído.
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