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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

António, um rapaz de Lisboa, Sr. De Botton


Maxilar inferior de Santo António, em Pádua

No cada vez mais útil “Religião para ateus”, leio pelas páginas 125 e seguintes uma espécie de elogio às pregações cristãs. Aos sermões. Se só tivesse lido estas páginas, seria tentado a descobrir uma fina ironia nas palavras de de Botton. Mas não creio que seja o caso, ainda que ele esteja errado se presumir que os católicos, mesmos os convictos, por exemplo, rezem sete vezes por dia e às 10 da noite entoem o “Nunc dimittis”.

Mas está errado, na realidade, quanto a um facto da vida de António de Lisboa. Diz o filósofo que raramente acontece aos professores universitários o que aconteceu a Santo António (na aulas universitárias, adormece-se): ser “amarrado a uma mesa depois de falecer para lhe ser cortada a garganta e removidos o maxilar inferior, a laringe, a língua, subsequentemente montados numa caixa de ouro com pedras preciosas incrustadas a expor no centro de um santuário dedicado à memória dos seus dons oratórios”. Até aqui, tudo bem, ainda que entre o falecimento e o corte tenha passado mais de 30 anos. Mas depois escreve: “Foi precisamente este o destino de Santo António de Pádua, o frade franciscano do séc. XIII que acedeu à santidade devido ao seu talento e energia excecionais para falar em público, e cujo aparelho vocal, em exposição da basílica da sua cidade natal, ainda atrai peregrinos admiradores de todos os cantos do mundo cristão”.

Refere-se, claro, à Basílica de Santo António de Pádua. Mas a cidade natal de António é Lisboa.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O verdadeiro cálice de Jesus. Mais um



O arcebispo de Valência foi a Jerusalém entregar uma cópia do Santo Cálice da Última Ceia do Senhor (na imagem). Li aqui.

É sempre muito engraçado este folclore à volta de objetos lendários que de certeza não são nada do que anunciam ser. A seriedade, a celebração, a comitiva, o orgulho, o vidro de proteção… E ninguém se ri pelo meio?

Se Indiana Jones e Dan Brown soubessem que o Graal estava em Valência, como ficava empobrecida a nossa cultura pop...

Ainda que estes objetos falsos possam ser um meio de promoção de fins cristãos, como o apreço pela Eucaristia, os fins não justificam os meios. Prefiro pensar que em matéria de relíquias, todos podemos ter uma que pertenceu a Jesus: a pedra que ele não teve para reclinar a cabeça (na realidade, já houve um medieval a gloriar-se de a possuir).

domingo, 1 de maio de 2011

As indispensáveis supérfluas relíquias de João Paulo II

Textos de sexta-feira passada, no jornal "i", sobre o Papa que é hoje beatificado, com destaque para as, na minha opinião, dispensáveis relíquias.


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Ratzinger era dador de órgãos, isto sim, é uma novidade


Pela notícia do "Correio da Manhã" de ontem (06-02-2011), em cima, ficamos a saber que o actual Papa não tem hipóteses de ser santo: "Órgãos do Papa seriam relíquias caso fosse santificado". Se assim é, não se justifica a proibição do Vaticano. E mais uma imprecisão: trata-se de uma precaução eclesial e não propriamente do Vaticano. E não, tal gesto não vai contra a vontade do Papa. É ridículo dar a entender, pelo menos neste caso, que há um conflito.
Pelo comentário do mesmo jornal, em baixo, ficamos a saber que o Vaticano calou uma campanha de um médico alemão. Obviamente não foi nada assim.
Na realidade até se compreende a prática eclesial. Eu não aprecio nada a questão das relíquias. Acho-a dispensável na fé cristã. Mas sabendo que outros não pensam o mesmo, parece-me prudente que um Papa não seja dador de órgãos.
Com isto tudo ficamos a saber que Ratzinger era dador de órgãos. Ora cá está uma notícia simpática. E não se perde nada da exemplaridade de tal atitude com a suposta proibição vaticana.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Sangue de João Paulo II

Uma igreja polaca de Cracóvia vai receber uma ampola com sangue de João Paulo II. O sangue foi extraído na Policlínica Gemelli, em Roma, pouco antes da morte do Papa (2 de Abril de 2005).

Os polacos têm o sangue. Mas Fátima tem uma das balas que o atingiu. E também um lenço de mão.

Nem sei o que pensar deste revivalismo das relíquias.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O suspiro de São José, o dente de Buda e o pêlo de Maomé

Santo Cálice que está na Catedral de Valência.
Para quê continuar a dizer que é o da Última Ceia?


Hoje dá para sorrir a fé que noutros tempos se punha das relíquias. Talvez não somente noutros tempos, pelo menos para algumas pessoas. Basta ver as multidões atraídas pelas relíquias de Santa Teresinha ou pelas de São João da Cruz. Talvez nestes casos as relíquias, os restos mortais, sejam apenas um sinal para uma devoção sem superstição. Espero que seja isso.

Mas até ao séc. XVI não foi assim. As relíquias proliferavam. Ter uma relíquia era fonte de segurança. Os santos, Nossa Senhora e Jesus Cristo protegiam quem tivesse um resto sagrado qualquer.

Na realidade, as relíquias, em vez de protecção, foram causa de destruição. No Oriente, as comunidades bizantinas pensavam que por terem determinado ícone e determinada relíquia estavam protegidas contras os muçulmanos que as cercavam. Havia gente, tanto líderes políticos como religiosos, que pregava: se temos os protectores connosco, para quê pegar em armas? Por vezes, os invasores não encontraram qualquer resistência.

No Ocidente, as relíquias foram um dos alvos preferidos dos reformadores. Só me espanta que não tenha havido não-reformadores igualmente contundentes para com o crânio de João Baptista enquanto jovem, os vários prepúcios de Jesus, os vários cálices da última ceia, os vários braços de Santo André, as gotas de leite de Nossa Senhora, penas de anjos, as varas de Moisés, bocados da camisa do Menino Jesus, ou, entre muitas outras – estas são um “must” – a pedra que Jesus não teve para reclinar a cabeça e o suspiro de São José.

Em Espanha surgiu agora o livro “Huesos sagrados” (“Ossos sagrados”), de Peter Mansau, que diz que "No hay religión, por muy adelantados que se consideren hoy sus miembros, que haya sido inmune en el pasado a una u otra forma de culto a las reliquias. Toda tradición religiosa que haya sobrevivido al paso de los siglos lo ha conseguido mediante su expansión casi constante por nuevos territorios en que reclutar nuevos adeptos. Para triunfar en este empeño, una fe de nuevo cuño necesitaba algún tipo de tarjeta de visita, una forma portátil de santidad en torno a la cual sus enviados a las regiones más remotas pudieran suscitar adhesiones. En el caso, sobre todo, del cristianismo, el islamismo y el budismo, esas tarjetas de visita eran las reliquias: si no simiente de comunidad, sí al menos un buen fertilizante" (ver aqui).

Quanto a mim, fertilizante dispensável, principalmente quando são forjadas. De resto só servem como documentos históricos, o que já é muito. Será que admitir que o corpo de São Tiago não está em Compostela desvaloriza o caminho de Santiago? Vale a pena manter pias falsidades? Não e não.

O texto diz que a Catedral de Valência tem três grandes armários de relíquias (acrescente-se que qualquer pequena igreja secular tem pelo menos duas ou três relíquias) e conta também a história do pêlo de Maomé e a do dente de Buda.

Hoje, as relíquias, de bilhetes dos U2 a chicletes mastigadas pela Britney Spears, passando pelas roupas da Lady Gaga, estão na grande rede.

Mais relíquias aqui.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Frei Bruno Cadoré, sucessor de S. Domingos

Frei Bruno Cadoré

Os dominicanos têm um novo geral desde domingo, 5 de Setembro: Bruno Cadoré, 56 anos, francês, pediatra de formação, doutorado em Medicina e Teologia, especialista em Bioética. Sucede ao argentino Carlos Azpiroz Costa.

A eleição decorreu após a Missa do Espírito Santo, presidida por Timothy Radcliffe, em Roma, e na presença de uma relíquia do fundador, Domingos de Gusmão. Um osso da cabeça.

Radcliffe, que também já foi a primeira figura da ordem, disse que os dominicanos precisam de um mestre que os ajude a caminhar na verdade, que saiba infundir esperança e que tenha especialmente alegria, a alegria de S. Domingos, porque sem alegria não existe ensinamento.

Depois da eleição, os frades enviaram um fax informativo à Santa Sé. Os dominicanos têm o privilégio de não precisarem de confirmação superior.

Li no Unisinos e confirmei aqui.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Relíquias 6 - O crânio do jovem Baptista está numa catedral alemã


Umberto Eco diz que "as antigas crónicas relatam que, no século XII, se conservava o crânio de São João Baptista, com doze anos de idade, numa catedral alemã". Falta saber qual. E se ainda lá está.
Mas se não é claro sobre o paradeiro desse crânio (julgo que noutra obra, talvez em "Diário Mínimo" ou em "Viagem na irrealidade quotidiana", refere a catedral), adianta diversas localizações dos restos mortais do inventor do baptismo:
- o crânio de adulto está na Igreja de San Silvestre in Capite, em Roma, ainda que haja quem reivindique que está na catedral de Amiens;
- mas a mandíbula está na Catedral de São Lourenço, em Viterbo;
- o prato que acolheu a cabeça está na Catedral de São Lourenço, em Génova, tal como as cinzas do santo;
- outra parte das cinzas está na antiga Igreja do Mosteiro das Beneditinas de Loano;
- um dedo está no Museu da Catedral de Florença;
- um braço, na Catedral de Siena;
- quatro dentes, na Catedral de Ragusa;
- um dente e uma madeixa de cabelos, em Monza.

Umberto Eco diz isto na "Vertigem das Listas", p. 176-177.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Relíquias 5 - O estranho fascínio por Santa Teresinha

Fila para ver as relíquias da santa francesa na Catedral de York

Esta aparente fixação nas relíquias, que é uma curiosidade antiga, deve-se a dois motivos.

O primeiro, mais recente, é a edição em português do “A vertigem das listas”, de Umberto Eco. Livros com este, que é um livro de muitos livros, fazem pensar que nunca a Internet, a electrónica e seus derivados acabarão com a edição impressa de livros. À falta de adjectivos que digam o espanto com que o folheio, saiba-se que ele tem controlado o meu tempo para lá das estritas obrigações profissionais e familiares. É um livro esponja. Absorve tudo.

O segundo prende-se com a visita das relíquias de Santa Teresinha a Inglaterra e Gales. O facto não foi referido na imprensa portuguesa generalista, nem tal merecia, por si mesmo, mas talvez não devesse ter sido ignorado pela imprensa católica lusa.

Ora, em Inglaterra, as relíquias de Santa Teresinha (ou Teresa de Lisieux, ou Teresa do Menino Jesus) fizeram o que fazem em qualquer outro país por onde passam (Portugal inclusive, em 2006): arrastam multidões. Diz-se que provocam conversões, mas isso é difícil de contabilizar. Já as multidões notam-se.

Em Inglaterra, as relíquias visitaram pela primeira vez uma igreja não-católica, em York, e provocaram filas de horas em York e Oxford e em mais 26 cidades, de Cardiff, a Manchester, de Birmingham a Portsmouth. São os exemplos que refere a BBC: em York, onde as relíquias estiveram 18 horas, a catedral esteve aberta pela noite dentro, de modo a que pudessem venerá-las – ou simplesmente vê-las; visitaram uma prisão londrina (como em Portugal, com presidiários a transportarem o relicário).

As relíquias terminaram o “tour” em Westminster, onde passaram 2000 fiéis por hora. Os serviços da catedral prepararam cerca de 100.000 velas e 50.000 rosas. A digressão inglesa terminou no dia 15 de Outubro. Foto-reportagem da BBC, no dia 13 de Outubro, aqui.

(Foi Fernando Correia de Oliveira, da Estação Cronográfica, que me deu a notícia, por na altura estar em Inglaterra. Agradeço-lhe.)

Relíquias 4 - O crânio do jovem João Baptista

"O jovem João Baptista", de William-Adolphe Bouguereau

As relíquias não são um exclusivo dos cristãos (principalmente católicos e ortodoxos). E na verdade muitos católicos e ortodoxos pouco ou nada ligam a tais objectos, se é que podemos generalizar em “objectos” um conjunto de coisas que vai dos objectos propriamente ditos de santos, da Virgem e de Jesus a elementos corporais.

Os budistas guardam as cinzas da cremação de Sidarta Gautama, o Buda. E já os gregos, diz Umberto Eco, reportando-se a Plínio, tinham um certo culto por objectos como a lira de Orfeu, a sandália de Helena ou os ossos do monstro que tinha assaltado Andrómeda.

De todas as relíquias espantosas da Idade Média, há duas particularmente curiosas: o crânio de São João Baptista aos 12 anos e a pedra que Jesus não teve para reclinar a cabeça, como diz o evangelho. Quem as tinha/tem? Se encontrar as referências, aqui voltarei.

Relíquias 3 - Lança de Jesus em Viena

"Em Viena ainda é possível admirar um bocado da manjedoura de Belém, a bolsa de Santo Estêvão, a lança que golpeou Jesus no flanco com um prego da Cruz, a espada de Carlos Magno, um dente de São João baptista, um osso do braço de Sant’Ana, as correntes dos apóstolos, um bocado das vestes de São João Evangelista e outro fragmento da toalha da Última Ceia”.

Umberto Eco in "A Vertigem das Listas", ed. Difel, pág. 173.

A indústria de espadas de Carlos Magno é um negócio florescente, a julgar pelos sítios que as vendem on-line. Uma tentativa breve de saber se existem realmente espadas de Carlos Magno permitiu concluir que há duas, uma em Viena (no Kunsthistorisches Museum, a da imagem) e outra em Paris (no Louvre).

Relíquias 2 - O anel de noivado de São José

Duque de Berry retratado no seu "Livro de Horas"

No catálogo do tesouro do duque de Berry [João de Valois, o Magnífico, 1340-1416, nasceu em Vincennes e morreu em Nesles; está sepultado em Bourges; é dele o mais importante "Livro de Horas" do séc. XV] constava o anel de noivado de São José.

Umberto Eco in "A Vertigem das Listas", ed. Difel, pág. 173.

Relíquias 1 - Catedral de Praga

“Na Catedral de São Victor, em Praga, é possível encontrar os crânios de São Adalberto e São Venceslau, a espada de Santo Estêvão, um fragmento da cruz, a toalha da Última Ceia, um dente de Santa Margarida, um fragmento da tíbia de São Vital, uma costela de Santa Sofia, o queixo de São Eobano, o bastão de Moisés e o vestido da Nossa Senhora.

Umberto Eco in "A Vertigem das Listas", ed. Difel, pág. 173.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...