O que julgo intelectualmente inaceitável é que alguns dos candidatos do costume a sacerdotes do “pensamento único” venham ameaçar com a excomunhão do seu mundo civilizado quem não aceitar o que eles parece quererem transformar numa espécie de cartilha “normalizadora” do salazarismo e da sua representação histórica.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Sacerdotes do “pensamento único”
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
"Desporto por desporto" - a mística olímpica por João César das Neves
A sociedade moderna, cortando as relações com o transcendente, teve de arranjar mitologias, cultos, teologias para se inspirar. O desporto, como a ciência, música e heroísmo, é um elemento central dessa espiritualidade. Os atletas alegadamente mostram o melhor do ser humano, esquecendo misérias, desgraças e maldades, promovendo a auto-superação, camaradagem, colaboração e paz. Os Jogos Olímpicos são a grande celebração mundial da mística, proclamando bem alto este evangelho.
Mas existe um abismo entre desporto e a alta competição dos certames mundiais que bate recordes. Aí a situação aproxima-se do que a sociedade moderna mais se orgulha de erradicar: a escravatura. O facto de ser voluntária e rodeada de fama não a redime. Torna-a paradoxal.
A vida dos atletas manifesta bem este paralelo. Treinos, dietas, disciplina, lesões, exaustão e sofrimento são coisas que, se fossem impostos a alguém, seriam consideradas campo de concentração. Além disso, há a rivalidade, obsessão pelas marcas, pressão psicológica, humilhações, violência moral, isolamento, exclusividade que são brutais. Até o mandamento central desta fé, levar-se a si próprio ao extremo, é vicioso, pois a virtude está no equilíbrio e moderação. A vida de atleta é, realmente, bastante miserável, destruindo a humanidade, em vez de a ampliar, como garante a mística.
O dogma oculta a verdade com um truque. Não nega a violência e angústia, mas, centrando a atenção nos vencedores, garante que tudo vale a pena perante a alegria do sucesso e a glória da vitória. Mas, ao contrário dos filmes de aventuras, os adversários vencidos não são vilões malvados. São outros atletas, que também pagaram os custos altíssimos, também forçaram e esfrangalharam a sua humanidade, tendo como única recompensa vergonha e fiasco.
A isto junta-se extrema injustiça e impiedade, oculta debaixo do rigor dos resultados. Com os níveis a que chegaram os recordes, o fracasso acontece por milésimos de segundo, centímetros, queda na pirueta, pequeno deslize, ligeira indisposição. Esse nada deita a perder anos de trabalho brutal, que valem zero. E o injustiçado, que se escravizou voluntariamente, nem sequer pode protestar contra o cronómetro, a fita métrica e evidência dos árbitros. Só tem de desaparecer e tentar outra vez, se ainda tiver idade.
Isto aponta outra evidente falha da mística: desporto é para jovens saudáveis. Uma fé que apenas dá sentido à vida a alguns durante uns anos, não presta. Os apóstolos defendem-se dizendo que desporto é para toda a vida, sendo a alta competição apenas dos mestres, como os mosteiros e eremitérios na religião. Mas no desporto, ao contrário da religião, vitória e fama fazem parte da mística. A falsidade da tese vê-se na vida posterior dos grandes atletas.Tirando o pequeno punhado de superestrelas que vive da celebridade, à esmagadora maioria dos desportistas, mesmo grandes campeões, espera-os anos de nostalgia, anonimato, até miséria, pois muitos desperdiçaram a juventude sem aprender uma profissão útil. A mística tenta esconder a verdade, celebrando glórias passadas, mas ela por vezes emerge, como no filme Belarmino (Fernando Lopes, 1964) ou nas notícias recorrentes de ex-campeões que vendem as medalhas para comer.
É verdade que estes são precisamente os pontos em que toca o espírito olímpico. Ao contrário dos campeonatos, os Jogos dirigem-se a amadores, pessoas que praticam desporto por desporto, não por obrigação. Participar é mais importante do que vencer ou bater recordes. Esta é a teoria, muito longe da realidade. Repetidamente se ouvem os sumo sacerdotes lamentar a perda do espírito olímpico. Em grande medida, os Jogos são apenas mais um campeonato, para os mesmos profissionais que batem o circuito. Mas o mal estava na origem: se apenas interessa a prática, porquê criar medalhas e podium?
O desporto é uma excelente actividade humana, como a arte ou ciência, mas, como elas, não suporta ser erigida em finalidade de vida. O desporto só é desporto se for praticado por desporto.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Estatura papal de Quentin Tarentino
quinta-feira, 26 de maio de 2011
“Holy Drink”
Quando o Vaticano se apercebeu da asneira, já era tarde. Um bispo engarrafava água benta e vendia-a como “Holy Drink”. A malta começou a levá-la para as raves e dizia que, com a pastilha certa, até viam Deus.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
O Missal do Novo Catecismo da "troika"
sábado, 30 de abril de 2011
Fé e religião no Benfica - Braga
O jogo foi na quinta-feira, 28 de Abril, em Lisboa. O "Público" relatou assim o jogo (os negritos são meus):
A equipa de Jesus garantiu o golo da vitória sobre o Sporting de Braga (2-1) da forma mais irrepreensível. E é também um caso raro de sucesso do cruzamento entre ciência e religião. Assim foi ontem. Fez fé no melhor pé esquerdo que habita o futebol nacional, o do paraguaio Cardozo, num lance que exige a ciência dos sábios - um livre directo com tudo estudado. Ele que falhou dois golos certos, atirou ao poste nessas duas ocasiões, uma delas deu o primeiro golo da noite a outra desesperou a Luz. Do outro lado mora a esperança, com o golo nascido e criado na cabeça de Vandinho.Tanto o Benfica como o Sp. Braga vivem da fé e da esperança, num trabalho religiosamente estudado. Foi Domingos que o disse na véspera. Quando se chega a uma meia-final europeia, os jogos resolvem-se nos pormenores. Deus está nos detalhes, já se sabe. E foi isso que ambas as equipas procuraram. Não descobriram deuses, mas Aimar e Vandinho, Cardozo e Hugo Viana mostraram-se maiores que os restantes e marcaram o jogo de ontem. A má notícia para os seus treinadores é que nem Aimar nem Vandinho vão jogar o segundo jogo, castigados pelo cartão amarelo.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Ir ao culto engorda? Um estudo indica que sim
terça-feira, 1 de março de 2011
Charro arrependido
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Prostituição da actividade publicitária
domingo, 3 de outubro de 2010
José Diogo Quintela: Quem quer ser miserável?
José Diogo Quintela deve ter andado na catequese até bastante tarde. Por pouco que não foi seminarista – suponho eu. É que é dos humoristas mais conhecedores da cultura católica. O outro, Ricardo Araújo Pereira, foi aluno de jesuítas. Mas parece-me que JDQ conhece mais por dentro as coisas católicas. Para fazer humor sem ofender é preciso conhecer bem. Veja-se a crónica de hoje na “Pública”. JDQ merece ser uma etiqueta.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Uma coisa que Saramago fez religiosamente
quinta-feira, 8 de julho de 2010
O perigo de uma capa com Jesus

Primeiro, o “Correio da Manhã” noticiou que a Playboy Internacional queria acabar com a edição portuguesa por causa desta capa, inspirada no livro de Saramago “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Agora, o matutino vem dizer que a empresa responsável pela “Playboy” portuguesa, a Frestacom - Lisbon Media Consulting, nega ou pelo menos desconhece o encerramento da revista (aqui).
O que interessa aqui apontar é o uso da figura de Jesus Cristo. A estrelinha é um exclusivo do Correio da Manhã, de onde copiei a imagem.
domingo, 4 de julho de 2010
No mundial, Deus só joga com as mãos

A mão de Suárez foi "canonizada", diz o DN deste domingo. Suárez é o avançado do Uruguai (maior goleador das ligas europeias, joga no Ajax) que defendeu com as mãos um remate do Gana, no último minuto do prolongamento. Foi expulso. O Gana falhou o penálti. E no desempate por penáltis, o Uruguai ganhou e passou às meias finais.
sábado, 3 de julho de 2010
Deus abandonou Maradona
Início de um texto do "Guardian" sobre o Argentina 0 - Alemanha 4: "Se de facto tivesse sido vontade de Deus que a Argentina ganhasse o Mundial, Diego Maradona deveria agora sentir-se extremamente abandonado" (aqui, mas é sobre futebol; "Deus" só aparece uma vez).
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Liturgia da Comissão Europeia
Bagão Félix diz no “Público” de hoje que “a perspectiva do comissário da Economia e Finanças [que apelou a reformas laborais em Portugal] é muito própria da liturgia da Comissão Europeia. Lançam uns palpites e umas ideias, mas sempre nada de concreto”.
Aponto o uso do termo “liturgia”, que, neste contexto, transmite a ideia de gestos ou rituais vazios de conteúdo. Mais um uso profano de linguagem religiosa.
domingo, 6 de junho de 2010
Menino Jesus de Cartolinha
domingo, 30 de maio de 2010
A Bíblia de José Diogo Quintela
É impressão minha ou José Diogo Quintela é o humorista português que mais conhece a Bíblia? Talvez seja só impressão minha, porque não costumo ler Ricardo Araújo Pereira (na “Visão”) nem os outros colegas do Gato Fedorento (um deles escrevia no “Destak” – ou seria no “Metro”?), nem outros humoristas (João Miguel Tavares faz humor, no "Correio da Manhã", e já tem usado a linguagem de origem religiosa, mas fá-lo como jornalista) .
JDQ usa com frequência a linguagem teológica, bíblica e eclesial. Outro exemplo aqui. Na crónica da "Pública" de hoje remete-se para um episódio do Antigo Testamento, concretamente, o livro do Génesis, capítulo 41.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Inspirações: "Este país não é para crentes"
Mais um uso dos Evangelhos, no caso Mt 14,26 (ou paralelos), para falar da actualidade política portuguesa. Excertos de um artigo de Miguel Gaspar, no "Público" de 18 de Maio de 2010.
Este país não é para crentes
(...) Se conseguir levar-nos a mudar a maneira como fazemos política e como pensamos as coisas, então a crise poderá via a ter alguma utilidade.
Mas não estamos sequer perto de conseguir uma transformação dessas. Basta ler o que se continuou a dizer durante a semana negra que passou. De visita à Nunciatura, José Sócrates, além de ter chamado “sua eminência” ao Papa, sugeriu, tentando fazer graça (suponho) que haveria uma ligação entre o crescimento da economia e a viagem papal. Mais trivial, Cavaco Silva sugeriu que a visita de Bento XVI trazia “esperança” numa hora difícil – enquanto os portugueses acham que o título do Benfica e a presença do Papa serviram que nem uma luva para camuflar as medidas que estavam a ser tomadas.
Esta crise, de facto, não é para crentes. Compreende-se porquê. Não sabemos se Jesus Cristo andou sobre as águas (é uma questão de fé), mas sabemos que o Governo pensa que pode andar por cima desta crise como Cristo andou sobre as águas. Depois do delírio das obras públicas e da garantia de que os impostos não iam subir, ninguém acredita no Governo. (…)
A crise não é económica, nem financeira, nem dos mercados. É sermos um país ou tornarmo-nos irrelevantes. Ou seja, um país que não consegue governar-se a si próprio e que ninguém quer governar. Que esse futuro possa acontecer não é só uma questão de crença – é o destino que nos espera se continuarmos a acreditar que de uma maneira ou de outra acabamos sempre por nos safar.
Miguel Gaspar
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Inspirações 8 - O iPad sobre todas as coisas

O DN de ontem (1 de Fevereiro de 2010) remetendo para um artigo laudatório do iPad, no “El País”, diz:
1. que o “iPad de Steve Jobs foi elevado a categoria bíblica digital”;
2. que Jobs aparece como Job, a figura bíblica, na capa do "The Economist";
3. que o “novo «gadget» de Steve Jobs está envolto numa nuvem sagrada”
4. que o tom geral da imprensa sobre a novidade electrónica “é mais de entronização”.
E o artigo do “El País” titula: “Amarás al iPad sobre todas las cosas”.
Sinodalidade e sinonulidade
Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...
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O que aqui vou deixar não é um tratado nem sequer um artigo académico sobre a questão. Trata-se simplesmente de dicas recolhidas de outros...
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A fé começa precisamente onde o pensamento acaba. Kierkegaard
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Respondendo a alguns leitores, deixo aqui um artigo de Ariel Álvarez Valdés sobre a distinção, nos evangelhos, entre diabo e demónio. O tex...





