O melhor livro de Advento-Natal. Já tem uns aninhos. Original litaliano de 1995, edição portuguesa de 1996. Bem antes de Bento XVI, César das Neves e outros, afirmou o lugar do burro e o boi no presépio.
"O burro e o boi já fazem parte integrante do quadro em que Deus opera a nossa salvação. São o sinal de que o dia-a-dia em todas as suas versões não é um segmento de vida pobre ou sem sentido, mas o caminho pouco vistoso, por vezes até um pouco aborrecido, ao longo do qual Deus nos conduz gradualmente até ao cume da montanha. É fundamental que saibamos acolher o burro e o boi na nossa vida. Porque, apesar de nalguns dias não conseguirmos cantar nem falar, será importante que, pelo menos, possamos respirar" (pág. 98).
Bom Natal. A todos.
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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
sábado, 2 de novembro de 2013
Anselmo Borges: "Os dias da memória e da interrogação"
Erich Fried (1921-1988), poeta
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.
O escritor Erich Fried escreveu de forma provocatória: "Um cão/que morre/e sabe/que morre/ e pode dizer/que sabe/que morre/como um cão/é um homem." Na história gigantesca do universo, com 13 700 milhões de anos, sabemos que há ser humano, diferente dos outros animais, quando aparecem rituais funerários: eles revelam a presença de alguém que sabe que é mortal, que põe a questão da morte e do seu para lá.
A morte, aparentemente uma realidade tão simples e evidente - tudo o que vive morre, como diz a palavra portuguesa "nada", do latim res nata (coisa nascida) -, é o enigma e o mistério. Platão colocou aí uma das bases do filosofar, como também Pascal, Schopenhauer, Heidegger, entre muitos outros. Sim, a morte é natural, do ponto de vista biológico. Mas o homem não se reduz a biologia. Tem consciência de si enquanto eu, e, assim, abalado pela morte, protestava Unamuno: "Ai que me roubam o meu eu!" Na morte, o homem é confrontado com o nada e angustia-se. Face a algo de concreto que nos ameaça, temos medo; face ao abismo insondável do nada, o que surge é a angústia.
Perante a morte, as palavras falham. Ninguém sabe o que é morrer, esse passar de vivo a morto, já cá não estar. Ninguém sabe o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto, como reflectiu o filósofo Levinas. Dizemos, diante do cadáver do pai, da mãe, do irmão, do filho, da filha, do amigo, da amiga: o meu pai, a minha mãe, o meu filho, a minha filha, o meu amigo, a minha amiga, está aqui morto, está aqui morta. Mas isso não faz sentido, pois o que falta é precisamente o meu pai, a minha mãe, o meu filho, a minha filha, o meu amigo, a minha amiga. O que ali está é um resto e o que falta é precisamente o sujeito, alguém. Como se não pode dizer que os levamos ao cemitério, pois ninguém se atreveria a enterrar o pai, a mãe, o amigo, a amiga ou a cremá-los. Também dizemos que vamos visitá-los ao cemitério. Ora, com excepção dos vivos que lá vão, nos cemitérios não há ninguém; apenas lixo biológico, "ossos e podridão", segundo o Evangelho. Pergunta-se então: o que há nos cemitérios, para que a sua profanação seja, em todas as culturas, um crime hediondo? Nos cemitérios, o que há não é senão esta pergunta infinita: o que é o homem, o que é um ser humano?
Nas nossas sociedades tecnocientíficas e citadinas, a morte tornou-se tabu, o último tabu. Tabu já não é o sexo, mas a morte. Não se pode dar sinais de luto, mente-se às crianças e da morte pura e simplesmente não se fala ou, pelo menos, é de mau gosto e de mau tom falar dela.
Não se julgue que isso acontece, porque a morte já não é problema. Pelo contrário, de tal modo é problema, o único problema para o qual uma sociedade que se julga omnipotente nos meios não tem resposta nem solução que a única solução é ignorá-la, como se não existisse. Trata-se de uma sociedade centrada na produção e consumo, no ter, no êxito, no cálculo, no espectáculo, no poder. Ora, a morte interrompe toda esta lógica. Perdeu-se o sentido da morte e, consequentemente, o sentido da vida ou, talvez melhor, perdeu-se o sentido da vida e, consequentemente, o sentido da morte. Mas, então, também se perdeu o sentido ético: de facto, sem a consciência do limite no tempo, não se ergueria a problemática ética na sua urgência da liberdade na definitividade. É o pensamento sadio da morte que, como mostrou Heidegger, obriga à distinção entre existência autêntica e existência inautêntica, entre bem e mal, entre o justo e o injusto, o que verdadeiramente vale e o que não vale. E que dá o horizonte da fraternidade: à beira de morrer, disse H. Marcuse ao amigo Habermas: Sabes, Jürgen? Agora, sei onde se fundamentam os nossos juízos morais: na compaixão.
Mas até a Igreja Católica, na negociação dos feriados, preferiu a Senhora da Assunção aos dias de Todos-os-Santos e dos Finados. Um erro. De facto, estes são os dias da memória (lembrar todos os que partiram) e da interrogação essencial: o que é o homem?, viver para quê?, qual o sentido da existência? Nestas perguntas, transcende-se a morte como facto biológico e abre-se outra dimensão.
sábado, 11 de maio de 2013
Anselmo Borges: "Animais humanos e os outros"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.
Na reflexão sobre o ser humano, divulga-se hoje a tese do
animalismo, isto é, entre o homem e os outros animais não haveria uma diferença
qualitativa, mas apenas de grau. Por mim, continuo a pensar que a diferença é
qualitativa e essencial. Com isto, não estou a retirar-lhes valor intrínseco e
até penso que lhes é devido tratamento adequado, recusando sofrimentos cruéis e
inúteis.
Como escreveu Edgar Morin, "embora muito próximo dos
chimpanzés e gorilas, e tendo 98% de genes idênticos, o ser humano traz uma
novidade à animalidade". Há, apesar de tudo, entre etólogos e
antropobiólogos, convergência bastante no reconhecimento de que entre o animal
e o homem se deu um salto qualitativo essencial. Esse salto manifesta-se, em
termos gerais, na autoconsciência, na autoposse de si mesmo como eu único e
centro de identidade, na linguagem simbólica e reflexiva, na capacidade de
abstrair e formar conceitos, na transcendência em relação ao espaço e ao tempo,
na criação e assunção de valores éticos e estéticos, no pré-saber da morte
própria vinculado às crenças religiosas, na pergunta pelo ser e pelo seu ser.
O médico e filósofo Pedro Laín Entralgo chamou a atenção
para o facto de haver um conjunto de características que mostram essa diferença
e chamou-lhes "notas", precisamente porque são observáveis.
O homem não se encontra na simples continuidade da vida no
sentido biológico. Como escreveu Max Scheler, o homem é "o asceta da
vida", pois é capaz de dizer não aos impulsos instintivos. Perante a
comida apropriada, o animal não resiste a comer, mas o homem é capaz de dizer
não, por motivos de ascese ou pura e simplesmente para mostrar a si mesmo e aos
outros que tem a capacidade de resistir e dizer não. F. J. Ayala vê aqui
"a base biológica da conduta moral da espécie humana, nota essencialmente
específica dela". Porque é capaz de renunciar, abster-se, deliberar,
optar, o homem é um animal livre e moral.
Evidentemente, os outros animais também comunicam, mas a
linguagem duplamente articulada, que nos permite o pensamento simbólico e
abstracto e nos dá acesso à reflexão, ao mundo da cultura, à abertura ao ser,
ao passado e ao futuro, ao que há e ao que não há, à transcendência, à
distinção entre o bem e o mal, entre o justo e o injusto, como já Aristóteles
viu, manifesta a singularidade única do ser humano, a ponto de, por causa dela,
o Prémio Nobel J. Eccles concluir por uma descontinuidade ontológica entre o
homem e os outros animais.
Mesmo biólogos (por exemplo, Jakob von Uexküll) notaram que
só o homem tem mundo (Welt), já que os animais têm meio (Umwelt, mundo
circundante). Por isso, estes vivem na imediatidade da estimulação enquanto o
homem vive no real, é um "animal de realidades", como repetia Zubiri.
O repouso de "O Pensador", de Rodin, não é simples repouso. O
que nele se mostra é a capacidade de ensimesmamento, descida à sua intimidade e
submersão na sua subjectividade pessoal. Paradoxalmente, porque o ser humano é
abertura à totalidade do ser, vem a si como único, na experiência de um eu
pessoal. Escreveu Lacan: "Possuir o Eu na sua representação: este poder
eleva o homem infinitamente acima de todos os outros seres vivos sobre a terra.
Por isso, é uma pessoa."
Na abertura ilimitada ao ser, tem o seu fundamento a
pergunta sem limites, que caracteriza o homem: toda a resposta dá sempre lugar
a novas perguntas. Por isso, o homem é criador do novo e ser do
transcendimento, de tal modo que não pode deixar de perguntar pelo próprio
Deus, pelo Fundamento e Sentido últimos.
Se admitimos a evolução, não é de estranhar que encontremos
já nos chimpanzés, gorilas, bononos, antecedentes do que caracteriza os
humanos. No entanto, com o homem, o salto foi para uma realidade essencialmente
nova. Para lá das notas apontadas e outras que poderíamos apresentar, como a
criação e contemplação da beleza, o levantamento de edifícios jurídicos para
dirimir pleitos, o sorriso e a sepultura, está o facto de só o homem levar
consigo precisamente a questão da diferença entre ele e os outros animais. Só
ele tem deveres para com eles, sem reciprocidade.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Também tu, gaivota?
Notícia do "Correio da Manhã" de hoje. No ano passado, as pombas não queriam sair de ao pé do Papa. Este ano, uma delas foi atacada por um gaivota. É difícil simbolizar a paz. Ou será mais um ataque a Bento XVI?
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Pelo menos ainda temos o musgo
Neste Natal, foi curioso ouvir um ou outro assarapantado com a
suposta expulsão do burro e da vaca do presépio. Um radialista perguntava, indignado, na Antena
3: “E agora, o que vou fazer com a burro e a vaca?” Na mesma estação de
rádio, no programa “Portugalex”, alguém dizia que lhe era indiferente o
desaparecimento dos animais, desde que não lhe tirassem o musgo.
Agora Bento XVI, o autor da expulsão dos animais (ainda que,
na realidade, tenha escrito que “nenhuma representação do presépio prescindirá
do boi e do jumento”), confirma via twitter que o musgo tem lugar no
presépio.
24 Dez Bento XVI @Pontifex_pt
Recorda ainda alguma tradição natalícia de família?
24 Dez Bento XVI @Pontifex_pt
Dava-me grande alegria construirmos, juntos, o presépio em
casa. Cada ano acrescentávamos novas figuras e, para o decorar, usávamos musgo.
Pastorícia
Fala-se sempre do bom pastor para designar o chefe da Igreja. Mas Jesus, outrora, dirigia-se a pastores ou filhos de pastores. E estes compreendiam a sua linguagem. Hoje, vejo-o [o Papa] mais como o primeiro da fila. Ser ovelhas, como destino, para os nossos contemporâneos, não é lá muito exaltante.
Abbé Pierre, 1991
Abbé Pierre, 1991
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Natal para quadrúpedes e ruminantes
Domenico Pezzini escreveu em 1996:
É fundamental que saibamos
acolher o burro e o boi na nossa vida. Porque, apesar de nalguns dias não
conseguirmos cantar nem falar, será importante que, pelo menos, possamos respirar.
domingo, 9 de dezembro de 2012
Bento Domingues: Cortar nas gorduras do presépio
Bento Domingues no "Público" de hoje: "Há limites para cortar nas gorduras do presépio. Por este caminho, ainda vão despedir os pastores, cortar os presentes dos Reis Magos e racionar as horas de iluminação do presépio. Perigo maior: teremos a família da crise, pai, mãe e um filho, cortando as narrativas sobre os «irmãos e irmãos» de Jesus".
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Poder das pulgas
Vós, com todos os vossos poder, sois leões: nós somos pulgas. Veem-se, com frequência, pulgas a morder leões, mas poucas vezes leões a morder pulgas. Tendes razão, em ter medo de nós; somos mais fortes do que vós.
Abbé Pierre ao prefeito de Paris em 1994
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
"Vida de Pi", agora em filme
Estreou há dias, penso que ainda não em Portugal. O filme baseia-se num livro de Yann Martel. Li-o em 2003 (ou 2004? De qualquer maneira, obrigado, José Serra, pelo empréstimo!).
Dos poucos romances que me comoveram realmente. Diz-se que há uma dimensão religiosa no filme, que recupera a pergunta sobre as religiões (lido aqui). Realço que é uma das mais belas histórias de amizade dos tempos recentes.
Dos poucos romances que me comoveram realmente. Diz-se que há uma dimensão religiosa no filme, que recupera a pergunta sobre as religiões (lido aqui). Realço que é uma das mais belas histórias de amizade dos tempos recentes.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
O burro, a vaca e a construção europeia
Ontem, no "Diário Económico". O burro e a vaca são só o pretexto. Opinião pertinente sobre a União Europeia.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Em favor do burro e da vaca
Neste dia em que tanto se falou do burro e da vaca, há uma coisa que tem de ser dita em favor da manutenção dos figuras no presépio:
Eles são a Companhia de Jesus!
Eles são a Companhia de Jesus!
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Afinal, diz o DN, "vaca e burro continuam no presépio"
Papa afasta burro e vaca, diz o "Correio da Manhã" na capa
Nem o burro e a vaca têm emprego seguro (ao fundo da capa, primeiro título a partir da esquerda).
O "Correio da Manhã" de hoje até lançou um inquérito sobre o assunto. Lá se vai o "mito do presépio". Papa racionalista e iconoclasta. Faltou-lhes perguntar a opinião às organizações dos direitos dos animais.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Jesus e o burro
Escreveram em hebraico, nas paredes do Mosteiro de Latrún, em Jerusalém, "Jesus é um burro" (li aqui).
Nada de novo, afinal, já que a primeira representação da crucifixão de Jesus, do início do séc. III, crucifica, precisamente, um destes animais.
Nada de novo, afinal, já que a primeira representação da crucifixão de Jesus, do início do séc. III, crucifica, precisamente, um destes animais.
Grafito de Alexamenos, em Roma
A inscrição hebraica não estaria errada se em vez de "é um", tivesse "vai de". Jesus vai de burro. Os evangelhos confirmam.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Porcos-espinhos e gorgulho vermelho atacam Vaticano
Uma das quatro palmeiras foi atacada pelo gorgulho vermelho
“A atividade da Santa Sé” é o título do volume que
anualmente revela as ações realizadas pelo Papa, pela cúria
romana e pelos outros organismos vaticanos. É uma “publicação não oficial”,
como se especifica no frontispício, mas – compilada pela Secretaria de Estado –
que contém uma substancial quantidade de informações e não poucas curiosidades,
muitas vezes inéditas.
A última edição, referida às atividades de 2011, foi
publicada no final de junho pela Librería Editorial Vaticana. Consta de 1.366
páginas e custa 80 euros.
Sandro Magister recolheu desta publicação alguns
factos interessantes. E eu copiei do seu texto as frases anteriores os seguintes factos:
- Em 2011 a Congregação para a Doutrina da Fé abriu 599 novos
procedimentos, 404 dos quais se referem a casos de abusos clericais sobre
menores.
- Em 2011 foram concedidas 1.321 entradas ao Arquivo Secreto
Vaticano, para estudiosos provenientes de 54 países, assim distribuídos:
673 italianos
102 espanhóis e outros tantos alemães
64 norte-americanos e outros tantos franceses
35 polacos
30 britânicos
0 de Israel
- Em 2011 parece ter sido felizmente erradicada a invasão de
porcos-espinhos na Catacumba de Giordani. Os animais provinham do parque de Villa Ada.
- E o flagelo do gorgulho vermelho, que atacou uma das
quatro palmeiras do pórtico da basílica de São Paulo
Extramuros, foi combatido por uma empresa especializada.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Vaca alemã e outras fés
Retirado do Record (aqui), com esta legenda: A vaca vidente Yvonne fez a sua escolha esta sexta-feira, durante o pequeno-almoço: previu o triunfo de Portugal no jogo frente à Alemanha (sábado). Está feito e a escolha é insuspeita: Yvonne é alemã. Vive perto de Deggendorf.
Nestes tempos pós-religião, que os filósofos dizem ser de predominância da razão técnico-científica, é com imenso humor que vejo os novos oráculos a entrar em ação, principalmente por causa do futebol, que, em si mesmo, é para muitos um sucedâneo da religião - mesmo que disso não tenham consciência.
Chesterton bem o sabia: quando não se acredita em Deus, não quer dizer que não se acredite em nada; acredita-se em tudo.
Polvos, cães, piriquitos, porcos... Agora é uma vaca alemã. Claro que poucos levam a sério as previsões, assim espero. Mas o facto de serem amplamente divulgadas (eu faço uma metadivulgação) o que significa? Se fôssemos estritamente racionais dávamo-nos a isto?
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Meu irmão, o Papa. Gostei muito
Claro que o trato por
Joseph,
qualquer outro tratamento seria inimaginável.
Georg Ratzinger, pág. 237
Do alto dos seus 87 anos, idade que tinha quando o livro foi
ditado e escrito, em 2011, Georg Ratzinger (1924) oferece-nos um relato cheio
de simpatia, bondade e alguma graça sobre a sua vida e a do seu irmão, Joseph
(1927), que desde 2005 é o Papa Bento XVI.
Ordenados padres no mesmo dia (29 de junho de 1951) – Georg
atrasou-se uns anos devido à II Guerra Mundial – sempre os irmãos andaram
próximos, ainda que o mais velho tenha ficado por Ratisbona, onde dirigiu o
coro infantil dos “Pardais de Ratisbona”, de fama mundial, enquanto o irmão,
desde 1982, está por Roma. Supõe-se que a dependência seja mútua, mas Georg
descreve a sua em relação ao irmão Papa com uma abertura admirável. Conta,
pois, como ficou “abatido” quando ouviu o nome “Ratzinger” para sucessor de
João Paulo II, na tarde de 19 de abril de 2005, e não só por causa dos desafios
e fardos do ofício. “Fiquei triste porque ele já não teria tempo para mim.
Naquela noite, deite-me bastante deprimido. Durante toda noite e no dia
seguinte até à tarde, o telefone não parou de tocar, mas foi-me completamente
indiferente. Simplesmente não atendi. «Não me chateiem!», pensei” (pág. 227).
Mal imaginava que algumas dessas chamadas partiam do próprio Bento XVI. Para
que não volte a acontecer tal desencontro, Georg comprou um segundo telefone.
“Só ele [Bento XVI] tem o número da segunda linha. Se esse telefone tocar, sei
que é o meu irmão, o Papa” (pág. 228). “Desde então, telefona-me várias vezes
por semana, mas eu nunca o faço. É muito mais fácil para ele apanhar-me a mim,
porque estou sempre em casa enão tenho de cumprir nenhuma agenda” (pág. 236).
Além de constituir um belo exemplo de amizade fraternal,
este livro permite-nos ficar a conhecer muito da vida de Joseph Ratzinger,
principalmente antes do Papado, e em especial dos pais, o guarda Joseph
Ratzinger (1877-1959) e a cozinheira Maria Peintner (1884-1963), que se
conheceram através de um anúncio colocado no jornal “Mensageiro de Nossa
Senhora de Altotting”, quando o pai do Papa tinha 43 anos, corria o ano de 1920.
Uma família contra o
nazismo
Entre os muitos dados e histórias deste livro, realço a
relação da família Ratzinger com o nazismo. O futuro Papa tinha cinco anos
quando Hitler subiu ao poder, no início de 1933, e 12 no início da guerra, em
1939, mas não têm faltado, principalmente na imprensa internacional,
insinuações maldosas – porque infundadas – quanto a alguma simpatia pelo
nazismo, já que em 1943, 16 anos feitos, foi requisitado para ajudar na defesa
antiaérea de indústrias como a BMW, que nessa altura fabricava motores de avião
(a hélice continua a fazer parte do emblema da marca). Joseph, durante uma
inspeção militar, contou que queria ser padre e foi motivo de gozo. Perto do
final da guerra, em abril de 1945 (a guerra terminaria na Europa a 8 de maio
desse ano), consegue desertar e só por motivos nunca esclarecidos – talvez
porque os próprios oficiais antevissem o desfecho da guerra – não é fuzilado ao
ser descoberto em casa dos pais, para mais porque o seu Ratzinger sénior desabafou e revelou toda a sua ira contra
Hitler.
O pai do Papa, embora tivesse uma função ligada ao Estado,
como guarda, reformou-se em 1937, ao atingir os 60 anos e desconfiava
visceralmente de Hitler (certamente conhecia a posição do bispo que crismou e
ordenou os Ratzinger, D. Faulhaber, defensor dos judeus e redator principal da
encíclica com que Pio XI condenou o nazismo, “Mit brennender Sorge”, “Com
profunda preocupação”). Antes disso, recusou-se determinantemente a filiar-se
no partido nazi. Para não pôr em perigo a família, pediu à esposa que aderisse
à organização feminina do regime. “A minha mãe – diz Georg – contava o que se
passava nas reuniões da secção feminina nacional-socialista de Aschau. Não
falavam de Hitler, mas trocavam receitas de culinária, falavam dos seus jardins
e às vezes rezavam o terço em conjunto. Essas reuniões «nazis» eram bastante
atípicas e não tinham nada a ver com a ideologia castanha”. Quando começa a
guerra, Joseph sénior compra uma telefonia “porque tinha a certeza de que os
nazis só nos mentiam”, diz Georg. E Hesemann acrescenta: “Quando em 1940 Hitler
festejava os seus grandes triunfos, quase todos andavam eufóricos. Só o pai
Ratzinger se manteve obstinado. Uma vitória de Hitler nunca poderia ser uma
vitória da Alemanha, teimava. Aquela não era senão a vitória do Anticristo que
ia trazer tempos apocalípticos para os crentes e não só” (pág. 112).
Ursinho de peluche
Como curiosidade, uma entre várias, registe-se que Bento
XVI, em criança, ficou encantado com um ursinho de peluche que viu numa montra.
Todos dias ele e o irmão passavam pela loja a admirar o brinquedo. Um dia,
antes do Natal, o ursinho desapareceu e Joseph “chorou amargamente”, diz o
irmão mais velho. “Por fim, chegaram o Natal e as prendas. Quando o Joseph
entrou na sala enfeitada onde estava a árvore de Natal ornamentada, riu-se de
felicidade. Entre as prendas para as crianças, lá estava o Teddy para o Joseph.
Trouxera-o o Menino Jesus. Foi a maior felicidade da sua jovem vida” (pág. 43).
Mais tarde, Ratzinger teria direito a outro urso, o do seu
brasão de bispo de Munique e Freising, e, desde 2005, com algumas modificações,
de Papa. O urso nele representado é o urso de São Corbiniano, o primeiro bispo
de Freising (séc. VIII). Segundo a lenda, quando Corbiniano se dirigia para
Roma, um urso atacou e matou o seu cavalo. Não restando outro meio, Corbiniano
acalmou o urso e fê-lo transportar a bagagem até Roma. Diz-se que o urso domado
pela graça de Deus é o próprio bispo, enquanto a bagagem é o fardo do
episcopado.
O primeiro ursinho foi a maior alegria da “jovem vida”.
Desejamos que o segundo, com o inesperado fardo do pontificado, com as
preocupações e responsabilidades de ser sucessor de Pedro, represente a maior
alegria da vida que já vai nos 85 anos, feitos no dia 16 de abril, sendo sete
de Papa, assinalados no dia 19 deste mês (a eleição) e ontem (o início do
pontificado).
Nota: Ficam para mais tarde umas breves notas sobre dois aspetos negativos deste livro.
Nota 2: Para os que dizem que Bento XVI ri - contra a minha opinião de que ele não tem grande sentido de humor -, realço esta afirmação de Georg: “Por fim, chegaram o Natal e as prendas. Quando o Joseph entrou na sala enfeitada onde estava a árvore de Natal ornamentada, riu-se de felicidade. Entre as prendas para as crianças, lá estava o Teddy para o Joseph". Desejo do fundo do meu coração que Bento XVI ria muitas vezes de felicidade.
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